O contextualismo linguístico na história do pensamento político: Quentin
Skinner e o debate metodológico contemporâneo
Nas últimas três ou quatro décadas, poucas abordagens influenciaram tão
amplamente a metodologia e a prática da história do pensamento político do que
a modalidade de "contextualismo linguístico" propugnada pela chamada "Escola de
Cambridge". Independentemente da avaliação que se faça de tal influência, o
fato é que, desde os anos 1960 - época em que John Pocock (1962), John Dunn
(1968) e Quentin Skinner (1966; 1969) publicaram seus primeiros ensaios
metodológicos - o contextualismo linguístico tem sido objeto de incessante
interesse, tanto de adeptos quanto de críticos. Um importante resultado de todo
esse interesse foi a constituição de um amplo campo de debates sobre problemas
cruciais de teoria e método que, originários do campo da história intelectual,
vêm se revelando pertinentes a várias outras disciplinas das humanidades, como,
de resto, indica a participação de teóricos da política, filósofos, críticos
literários e sociólogos nos diálogos e disputas.
Este artigo destina-se a compreender e analisar o referido campo de debates,
detendo-se nas prescrições metodológicas de Quentin Skinner e nas mais
recorrentes objeções levantadas contra tais prescrições. O principal motivo
para atribuir a Skinner um lugar de destaque na reconstituição das discussões
em torno do contextualismo linguístico refere-se ao fato de que, entre os
historiadores de Cambridge, foi ele quem mais obstinadamente dedicou-se à dupla
tarefa de invectivar contra as abordagens concorrentes e formalizar a
metodologia contextualista. Em consequência disso, é contra Skinner que a maior
parte dos críticos do contextualismo linguístico tem dirigido suas baterias.
Ademais, embora geralmente os críticos de Skinner estendam suas conclusões às
proposições dos demais membros da Escola de Cambridge, com muita frequência tal
procedimento passa ao largo de pronunciadas discordâncias entre os dois
principais expoentes do grupo1.
Convém ressaltar que a análise a seguir deter-se-á exclusivamente à dimensão
metodológica da obra de Skinner. Embora o autor se notabilize por volumosa
produção substantiva no campo da história do pensamento político, não me
ocuparei, aqui, desta dimensão de sua obra2. Evitarei o impulso de avaliar o
método de Skinner à luz de suas realizações práticas como historiador por
considerar que qualquer obra substantiva complexa realiza, ao mesmo tempo, mais
e menos do que prescreve o método que a inspirou. Realiza mais porque há
fatores não controlados pelas prescrições metodológicas que influenciam o
resultado de uma investigação, tais como o acesso a recursos materiais e
institucionais, a "sorte" na descoberta de documentos relevantes, ou
características idiossincráticas, como a energia individual e a criatividade
dos pesquisadores; e realiza menos porque toda metodologia "exagera" em suas
prescrições, sugerindo um "ideal" procedimental que jamais se efetiva
integralmente.
Primeiramente, apresentarei as linhas gerais da abordagem associada à Escola de
Cambridge no contexto do surgimento de suas primeiras formulações. Em seguida,
delinearei os aspectos centrais do método proposto por Skinner, revelando a
articulação de seus conceitos-chave e as fontes de inspiração do autor. Feito
esse esboço, passarei a examinar as objeções às prescrições de Skinner,
paralelamente às tentativas do autor de reagir a tais objeções. Examinarei,
primeiro, os ataques à dimensão epistemológica da metodologia de Skinner - ora
tratada como positivista, ora como relativista - para, em seguida, avaliar as
críticas ao compromisso do autor com uma perspectiva intencionalista na
história intelectual. Encerro examinando as críticas que apresentam o
historiador de Cambridge como advogado de uma atitude "antiquarista" nos
estudos históricos, críticas que, a meu ver, o obrigam a procurar uma
justificativa plausível para a relevância contemporânea do estudo do passado.
Veremos que as tentativas de defender-se da acusação de antiquarismo têm
conduzido Skinner para posições distantes de suas postulações metodológicas
originais.
EM BUSCA DO "GENUINAMENTE HISTÓRICO"
A primeira investida dos contextualistas de Cambridge contra os estilos
convencionais de história das ideias políticas partiu de Peter Laslett,
historiador que exerceu grande influência nos estudos iniciais de Pocock,
Skinner e Dunn3. Em 1956, Laslett declarou, com evidente intenção polêmica, que
"no momento, [...] a filosofia política está morta" (1956:vii). A declaração
surgia num contexto em que o tratamento filosófico das ideias políticas era
questionado por uma série de outras abordagens. As novas teorias concernentes à
natureza da linguagem, as alternativas da ciência política behaviorista e das
abordagens sociológicas da política - dentre as quais o marxismo - passaram a
representar sérios desafios para a filosofia política e a historiografia
caracterizadas pela busca da dimensão intemporal das ideias dos grandes
pensadores. Em sua famosa edição crítica dos Dois Tratados sobre o Governo,
Laslett, numa indicação do procedimento contextualista, afirmava que "nosso
primeiro propósito deve ser um modesto exercício de historiador - estabelecer
os textos de Locke como ele gostaria que fossem lidos, fixá-los em seu contexto
histórico, no próprio contexto de Locke" (1960:4).
Embora a abordagem contextualista tenha começado a ser posta em prática ao
longo da década de 1950, foi somente na década seguinte que apareceram suas
formulações metodológicas mais declaradas. Em 1962, Pocock publicou um artigo
chamando a atenção para a necessidade de se resgatar a história do pensamento
político do domínio do tratamento exclusivamente filosófico dos textos
clássicos. Ao diagnosticar a tendência de a história do pensamento político
transformar-se em filosofia, criticava a preocupação unilateral com o
estabelecimento da "coerência racional" das ideias dos autores do passado, sem
levarem-se em consideração os diversos "níveis de abstração" em que o
pensamento político surge na história. Argumentava que o historiador
convencional
[...] não é capaz de adotar um método que reconheça que há diferentes
níveis de abstração em que o pensamento se expressa e diferentes
graus de coerência racional pelos quais ele pode ser explicado; menos
ainda um método que permita discriminar entre tais níveis como
matéria de investigação histórica. Ele é ainda prisioneiro de um
método que o condena a explicar o pensamento político somente na
medida em que este pode ser apresentado como teoria política
sistemática ou filosofia. (Pocock, 1962:189)
Para Pocock, esse tipo de orientação metodológica impossibilitava a compreensão
das conexões entre pensamento e comportamento político em dado momento
histórico. O autor não questionava a legitimidade da história do pensamento
como história das abstrações das tradições intelectuais, porém a completa
desconexão deste tipo de narrativa com a história das expressões menos
abstratas do pensamento, aquelas que guardam uma relação mais imediata com o
comportamento dos agentes. Ao advogar uma certa divisão do trabalho entre o
historiador das tradições dos textos canônicos e o historiador das linguagens
diretamente associadas à atividade política, Pocock também sugere que o
trabalho do primeiro tende a se beneficiar do trabalho do segundo. Uma vez que
o historiador se familiariza "com as diferentes linguagens de discussão que
estavam em uso, e com os diferentes níveis de abstração que elas normalmente
implicavam, ele será capaz de certificar-se em que linguagem e em que nível
dada controvérsia foi conduzida ou dado pensador desenvolveu suas ideias"
(ibid.:200).
As orientações metodológicas esboçadas por Pocock reapareceriam de forma ainda
mais enfática em um artigo de John Dunn, publicado originalmente em 1968. Dunn
continuava insistindo na necessidade de se estudar a história das ideias como a
"história de uma atividade", e mostrava-se mais resoluto que Pocock a respeito
da convicção de que "é íntima a conexão entre uma abordagem filosófica adequada
às noções sustentadas por um indivíduo no passado e uma acurada abordagem
histórica destas noções", uma vez que "tanto a especificidade histórica quanto
a sofisticação filosófica serão mais bem alcançadas se ambas forem perseguidas
em conjunto" (Dunn, 1968:86). Desagradava, também, a Dunn a tendência de se
escrever a história das ideias como a história de "ficções", de "construções
racionais fora do processo de pensamento dos indivíduos" (ibid.:87), passando-
se ao largo da dimensão humana da atividade de pensar, caracterizada por sua
"incompletude, incoerência, instabilidade" e pelo esforço humano para superar
tais características (ibid.:88). Como toda atividade humana, a atividade
discursiva ocorre num contexto que simultaneamente a restringe e capacita.
Porém, como definir o contexto relevante a ser reconstituído para a compreensão
de determinado ato linguístico? Uma vez que "o problema da interpretação é
sempre o problema do fechamento do contexto", qual o critério à disposição do
intérprete para essa operação de fechamento? Em chave collingwoodiana, Dunn
responde que "o que realmente fecha o contexto é a intenção (e, muito mais
amplamente, as experiências) do orador" (ibid.: 98). Ou seja, a reconstituição
do contexto linguístico de um autor é relevante na medida em que nos ajuda a
recuperar a intenção do autor ao efetuar determinada ação. Se escrever é "fazer
coisas com palavras", o objetivo central do historiador é revelar o que um
determinado autor "estava fazendo" ao escrever o que escreveu (ibid.:93).
Coube a Quentin Skinner a elaboração mais sistemática do encontro da filosofia
da história de Collingwood com o aparelho analítico da filosofia da linguagem
ordinária. A exemplo do que se observou em Laslett, Pocock e Dunn, também em
Skinner a afirmação da metodologia contextualista surge de par com a crítica às
abordagens convencionais. Já em 1966, o autor investia contra o alvo preferido
dos historiadores de Cambridge: a história das grandes ideias retiradas de seus
contextos de origem. Ao mesmo tempo que argumentava contra a suposição de
infalível "coerência" dos grandes pensadores, Skinner criticava o que
considerava uma vaga noção de "influência", mediante a qual se compunha um tipo
de narrativa em que as grandes ideias de grandes autores explicavam-se pela
influência recebida de outras grandes ideias de outros grandes autores. Esse
estilo de história do pensamento político como o registro do diálogo
transcontextual entre os pensadores clássicos ignorava que "as qualidades de
inteligência e apresentação que fazem de um autor a melhor ilustração em um
cenário filosófico farão dele a pior ilustração num cenário histórico"
(Skinner, 1966:213).
Logo em seguida, em tom ainda mais provocativo, Skinner escreve um ensaio
intitulado "On the Unimportance of the Great Texts to the History", publicado
depois com o título "Meaning and Understanding in the History of Ideas4. A
maior parte do beligerante texto de 50 páginas era dedicada à refutação das
abordagens concorrentes na história das ideias. Suas críticas mais extensas e
enfáticas eram dirigidas contra o que designava como abordagem "textualista"5.
O autor censurava o procedimento padrão do textualismo, que consistiria, em
suas expressões mais caricaturais, em "ler e reler" determinado texto até se
chegar a uma compreensão correta de seu significado. O pressuposto deste
procedimento é que o texto é autônomo em relação ao contexto de seu surgimento,
o que é consistente com a crença de que determinados textos (aqueles dignos do
interesse do historiador) contêm "elementos intemporais", "ideias universais" e
"uma sabedoria sem tempo" de "aplicação universal" (Skinner, 1969:4).
Para Skinner, a abordagem dos textos clássicos por meio desse procedimento
tendia a gerar não história, mas "mitologias". Dentre as principais mitologias
denunciadas por Skinner encontram-se as seguintes:
a) mitologia da doutrina (ibid.:7-16) - os enunciados dos autores clássicos,
mesmo que esparsos e ocasionais, são forçosa e sistematicamente enquadrados em
"doutrinas", construções típico-ideais do próprio historiador, mas que este
atribui ao universo das crenças do autor estudado;
b) mitologia da coerência (ibid.: 16-22) - presume-se que o autor construiu (ou
ao menos tentou construir) sistemas intelectuais fechados, em que todos os seus
enunciados mantêm uma relação de coerência com os demais, o que impede o
historiador de perceber as contradições entre os enunciados de um autor
(usualmente apresentadas, quando percebidas, como "aparentes contradições") ou
suas mudanças de concepção a respeito de certos temas;
c) mitologia da prolepse (ibid.:22-24) - confunde-se o significado dos
enunciados para o historiador com o significado para o autor, sendo este último
negligenciado. O enunciado só revelaria seu significado no presente, conclusão
que repousa sobre o contestável pressuposto teleológico de que a ação
linguística precisaria esperar pelo futuro para revelar-se totalmente;
d) mitologia do paroquialismo (ibid.:24-28) - seguindo padrões atuais de
discriminação e classificação, o historiador, em face de um mundo passado que
lhe é estranho, constroi uma identidade entre o universo mental do autor do
passado e o seu próprio universo atual de crenças, produzindo uma falsa
familiaridade entre culturas muito distintas.
A característica comum a todas essas "mitologias" seria a produção de
interpretações "anacrônicas", mediante as quais são atribuídas a determinado
autor ideias e intenções cujos recursos linguístico-expressivos eram ainda
indisponíveis no contexto histórico do proferimento.
Feita a invectiva contra a abordagem "textualista", Skinner dirige suas
baterias contra os tipos de contextualismo que privilegiam o contexto social,
em vez do contexto linguístico, nas estratégias de compreensão de determinado
texto. O contextualismo sociológico, tanto em sua vertente marxista quanto
"namierista"6, repousaria sobre a confusão entre dois procedimentos
intelectuais inteiramente distintos: a determinação causal de uma ideia e a sua
compreensão propriamente dita. Não se trata de negar que as condições
econômicas e sociais das sociedades em que os autores produzem seus textos
possam ser apresentadas como antecedentes causais contingentemente conectados
com o conteúdo do texto a ser compreendido. A determinação das causas externas
à ação linguística seria um procedimento relevante para a explicação da
referida ação. Todavia, isso estaria muito longe da exagerada e errônea
presunção de que "as ideias de um dado texto devem ser compreendidas em termos
de seu contexto social" (Skinner, 1969:43, ênfase no original). A compreensão
de uma ideia enquanto ação linguística significa algo mais do que sua
explicação causal. Ao fixar-se exclusivamente na determinação causal das
ideias, perseguindo as conexões externas e contingentes das ideias com
fenômenos não linguísticos, parte da literatura contextualista reforçaria uma
visão em que o papel das ideias na sociedade e na política é desprovido de
autonomia e eficácia. As ideias não seriam mais do que epifenômenos, expressões
ou reflexos de uma "realidade material" ontologicamente anterior ao - e
determinante do - mundo da linguagem. Além de outras fragilidades, os métodos
derivados desta concepção estariam desarmados para explicar, por exemplo, o
fato de um mesmo contexto social ser capaz de abrigar, simultaneamente, ideias
que expressam os mais variados conteúdos linguísticos e valorativos, além de
autores que manifestam as mais diversas intenções (ibid.:47).
Para Skinner, a alternativa tanto ao textualismo quanto ao contextualismo
sociológico reside na recuperação da tradição intencionalista da filosofia da
história e na aplicação de seus princípios na elaboração de uma metodologia
voltada para a interpretação de textos. Em diversas ocasiões, o autor explicita
o papel central da filosofia da história de R. G. Collingwood no movimento de
afirmação do contextualismo linguístico7. Collingwood partia do princípio de
que somente conhecendo a si próprio poderia o ser humano ter um conhecimento
satisfatório de outras coisas, sendo que tal conhecimento de si próprio refere-
se ao "conhecimento de suas faculdades de cognição, do seu pensamento ou de seu
entendimento ou de sua razão" (Collingwood, s.d.:257). Ao transferir esse
princípio epistemológico para sua teoria da investigação histórica, Collingwood
afirma que "toda história é história do pensamento" (ibid.:268). Toda ação
historicamente significativa deve ser reconstituída tendo em vista o pensamento
do agente que a efetuou. Collingwood distingue entre os aspectos externos
("eventos") e os aspectos internos de um acontecimento8. Embora possa começar
pela descoberta do exterior de um acontecimento, o trabalho do historiador só
irá completar-se na medida em que ele consiga relacionar o evento descoberto
com o interior do acontecimento. Para isso, o historiador "tem de recordar-se
sempre de que o acontecimento foi uma ação, e que sua tarefa essencial é meter-
se ele próprio no interior dessa ação, é discernir o pensamento do seu agente"
(ibid.:267). Collingwood esclarece, ainda, que essa tarefa não se reduz a um
procedimento acrítico e inteiramente descritivo - o que, de resto, é impossível
- do pensamento dos agentes do passado. Trata-se, sim, de um procedimento
crítico pelo qual o historiador "repensa" ou "reconstitui" (re-enact) o
pensamento do passado e, ao fazê-lo, "critica-o, forma um juízo próprio sobre
seu valor, corrige erros que consiga discernir nele" (ibid.:268-269).
Embora Skinner tenha manifestado sua insatisfação com a "infeliz frase" em que
Collingwood afirmava que o intérprete deveria "repensar" o pensamento do
passado9, não resta dúvida de que a arquitetura de seu projeto metodológico
repousa sobre fundações collingwoodianas. É o historicismo de Collingwood que
está subjacente à convicção de Skinner de que a história do pensamento político
deve ater-se ao contexto imediato da produção dos textos cujos significados o
historiador pretende compreender. A inexistência de "ideias perenes" na
história da teoria política decorre do fato de que todo autor, por mais
inovador que seja, está irremediavelmente situado num universo de convenções
linguísticas que são, ao menos em parte, exclusivas do contexto de enunciação.
Se Collingwood é a principal influência na visão de Skinner sobre a natureza do
conhecimento histórico, é a filosofia do segundo Wittgenstein que permite ao
historiador de Cambridge a elaboração da crucial noção de significado
(meaning). Skinner parte da célebre formulação de Wittgenstein de que "palavras
também são atos" (Wittgenstein, 1958:146), enquanto procura elaborar o
princípio pragmático de que o significado dos atos linguísticos depende de seus
usos em determinados jogos de linguagem. Era natural que Skinner recorresse às
contribuições dos filósofos da linguagem que mobilizaram a noção
wittgensteiniana de significado para a elaboração da teoria dos atos de fala
(speech acts theory). Dentre tais contribuições, Skinner destaca as de J. L.
Austin, esboçadas no volume postumamente publicado sob o sugestivo título de
How To Do Things with Words. Austin desafiava a crença de que os enunciados
linguísticos devem ser estudados exclusivamente a partir de suas funções
"constatativas", ou seja, a partir do que representam como descrição (que pode
ser avaliada como verdadeira ou falsa) de determinado estado de coisas.
Gramáticos e filósofos desta orientação convencional desconsiderariam o fato de
que, além das sentenças constatativas, há toda uma classe de enunciados
linguísticos dotados de uma força que não pode ser julgada conforme os
parâmetros de verdade ou falsidade. Tais enunciados são definidos como
"performativos", justamente para indicar que "a emissão de um enunciado é a
efetuação de uma ação" (Austin, 1975:6).
Austin distingue três dimensões dos atos de fala: a dimensão locucionária,
relativa ao conteúdo proposicional do proferimento e manifesta no ato de dizer
(of saying) algo; a dimensão ilocucionária, relativa ao que o agente está
fazendo ao dizer (in saying) algo; e a dimensão perlocucionária, relativa aos
efeitos produzidos pelo ato de fala na audiência, aquilo que ocorre por se
dizer (by saying) algo (ibid.:94-120). O esforço do autor consiste em salientar
a dimensão ilocucionária dos atos de fala, pois é nela que se concentra a
característica negligenciada pelas teorias convencionais do significado, as
quais se atêm, principalmente, à dimensão locucionária e, em menor medida, à
dimensão perlocucionária das sentenças. É na dimensão ilocucionária de um
proferimento que reside sua força enquanto ação, força que se identifica com a
intenção do agente ao dizer algo em determinado contexto de convenções
linguísticas. Se, por exemplo, a intenção de alertar alguém pode ser
reconhecida como uma intenção possível no âmbito das convenções disponíveis aos
agentes na ocasião da emissão do ato de fala, pouco importa o fato de que a
intenção do emissor resulte nos efeitos desejados no estado de compreensão do
receptor, uma vez que a força ilocucionária de um ato de fala não se identifica
com seus efeitos perlocucionários (ibid.:110).
A taxonomia dos atos de fala elaborada por Austin é mobilizada sistematicamente
por Skinner. Num primeiro momento, Skinner estabelece uma equalização entre a
compreensão do significado de um texto e a reconstituição da intenção
ilocucionária do autor. Compreender o significado de um texto histórico seria o
mesmo que revelar o que o autor do texto estava fazendo ao escrevê-lo. Para
isso, dever-se-ia estudar o modo como a intenção do autor se inscreve no
contexto de convenções linguísticas em que o texto foi produzido (Skinner,
1969:49). Em momento posterior, em face das críticas ao que se denunciava uma
noção reducionista e excessivamente estrita de significado, Skinner passa a
conceder que é possível distinguir entre três diferentes sentidos do termo.
Primeiramente, o autor refere-se ao meaning 1, significado que está em questão
quando se faz uma pergunta do tipo: "O que as palavras, ou específicas palavras
ou sentenças significam nesta obra?" (Skinner, 1972:396). Este tipo de
significado é capturado mediante o estudo da semântica e da sintaxe do texto,
com o recurso ao nosso conhecimento convencional da linguagem codificado em
livros de gramática e dicionários. Em seguida, Skinner refere-se ao meaning 2,
associado à questão: "O que isto significa para mim?" (ibid.:396). Trata-se,
aqui, de entender o texto a partir de seus efeitos nos leitores, o que pode dar
surgimento a uma história da recepção dos textos enquanto fenômenos que
transcendem o contexto e o momento de sua produção original. Por último, há o
que Skinner denomina meaning 3, que está em jogo quando se pergunta: "O que o
autor quis dizer com o que ele disse nesta obra?" (ibid.:397).
Não obstante a concessão dessas distinções, Skinner reafirma o ponto central de
sua metodologia ao defender a posição de que uma interpretação comprometida com
a recuperação do significado histórico dos textos do passado exige que o
historiador se concentre na terceira concepção de significado mencionada acima,
a única conectada com a intenção autoral incorporada na escritura dos textos; e
conectada a ponto de se poder falar em uma "equivalência" entre significado e
intenção. Conforme o autor,
quando nós retornamos ao meaning 3, parece possível estabelecer a
conexão mais próxima possível entre a intenção do autor e o
significado do que ele escreve. Por isso, parece que um conhecimento
da intenção do autor ao escrever, no sentido que procurei isolar, não
é meramente relevante, mas é realmente equivalente ao conhecimento do
meaning 3 do que ele escreve. (ibid.:404, ênfases no original)
Neste ponto, Skinner sugere, ainda, uma outra distinção estratégica para a
defesa de sua metodologia. Uma coisa seria falar das intenções de determinado
autor incorporadas naquilo que escreveu e nas circunstâncias em que o fez.
Outra, inteiramente distinta, seria considerar os "motivos" que conduziram o
autor à escrita do texto. Os motivos de um autor podem ser examinados como
causas externas do enunciado linguístico cristalizado no texto, causas que se
conectam apenas de modo contingente com tal enunciado. Por outro lado, sua
intenção ao escrever o texto, intenção incorporada na própria ação linguística,
não exterior a ela, "deve ser tratada como uma condição necessária para que se
possa interpretar o meaning 3 de suas obras" (ibid.:406)10. Com base nessa
distinção, o autor defende a possibilidade de uma explicação não causal de
textos históricos. Este tipo de explicação, estranho à tradição "naturalista"
de explicação da ação social, teria como procedimento padrão a redescrição da
intenção ilocucionária do autor do texto (Skinner, 1971:13; 1988a: 96).
Mas não é somente contra o naturalismo que a distinção entre motivos e
intenções é mobilizada por Skinner. Ela também serve a seu esforço para
afastar-se do tipo de hermenêutica romântica que identifica a recuperação da
intenção autoral com uma espécie de mergulho do intérprete na mens auctoris do
passado. Skinner busca evitar o subjetivismo subjacente a esta vertente
intencionalista chamando a atenção para o caráter "publicamente apreensível"
das intenções autorais (Skinner, 2002a:120)11. A compreensão do significado de
um texto não requer do intérprete a misteriosa habilidade de penetrar na mente
do autor para revelar seus estados psíquicos interiorizados na forma de
desejos, planos ou desígnios. Requer, sim, o procedimento muito mais prosaico -
embora necessariamente paciente e erudito - de situar o texto em questão no
contexto de convenções linguísticas e sociais que governam o tratamento dos
temas e problemas dos quais o texto se ocupa. Conforme o próprio autor,
de modo a recuperar tais intenções, é normalmente tido como essencial
cercar o texto dado com o contexto apropriado de pressuposições e
convenções a partir do qual o significado exato intencionado pelo
autor pode ser decodificado. Isto acarreta a conclusão crucial de que
o conhecimento das pressuposições e convenções deve ser essencial
para a compreensão do significado do texto. (Skinner, 1975:216)
A ênfase nas convenções linguísticas para a reconstituição das intenções
autorais parte do pressuposto de que todo autor - especialmente o autor de
textos políticos - está envolvido em um ato de comunicação quando escreve ou
publica seu texto. De modo a ser compreendido pelos leitores, não lhe resta
outra alternativa a não ser mobilizar, em seu discurso, os padrões
convencionais de comunicação acerca dos temas para os quais deseja chamar a
atenção. Isso é válido não somente para os casos em que o autor tem a intenção
de seguir e reforçar as convenções existentes, mas, também, para aqueles casos
em que sua intenção é criticar ou subverter tais convenções. Mesmo os mais
revolucionários e inovadores pensadores, aqueles desejosos de convencer seus
leitores da necessidade de alteração do significado de termos e conceitos de
uso corrente, ou do abandono de seus usos em favor da aquisição de novos termos
e conceitos, precisam recorrer à linguagem convencional, ou seus esforços de
comunicação serão inócuos (Skinner, 1970:135).
Nossa intenção, até aqui, foi chamar a atenção para os suportes mais estáveis
da metodologia skinneriana: seu historicismo radical (a visão do passado como
um "país estrangeiro"), e sua confiança na recuperação da singularidade das
ideias do passado por meio do estudo dos textos históricos enquanto registros
da ação intencional de seus autores.
CRÍTICAS E OBJEÇÕES
No fim da década de 1980, Skinner começa seu mais extenso texto de resposta a
seus críticos, confessando-se, em tom irônico, "perplexo por aprender", que é,
ao mesmo tempo, "um idealista, um materialista, um positivista, um relativista,
um antiquário, um historicista, e um mero metodólogo com nada de substancial a
dizer" (Skinner, 1988c:231). Embora sua lista esteja incompleta, pois há ainda
os que, mirando em seu pensamento político, o rotulem de "conservador"
(Shapiro, 1982; Keane, 1988), "pós-moderno" (Lamb, 2004), "ideólogo do
republicanismo" (Urbinati, 2005), "ironista liberal" (Mandell, 2000:122) ou
"republicano romântico" (Perreau-Saussine, 2007:121), ela nos dá uma ideia da
multiplicidade de direções das reações às suas ideias. Ao longo de mais de três
décadas presenciando um contínuo ataque às suas posições, Skinner tem se
empenhado em responder às críticas que lhe têm sido dirigidas, quer mediante
revisões e reedições de seus ensaios originais, quer pela produção de textos
concebidos especificamente para rebater as críticas, o que tem feito do autor
uma espécie de "alvo móvel", conforme observou um de seus comentadores (Lamb,
2004:424).
A despeito da multiplicidade de perspectivas e da variedade de temas que
emergem do conjunto das críticas ao contextualismo linguístico, em geral, e à
obra de Skinner, em particular, há uma recorrência de determinadas objeções.
Para efeitos de organização de nossa apresentação do debate, podemos
classificar tais objeções em três ordens analiticamente diferenciáveis, mas
interdependentes, de argumentos: a) as objeções ao historicismo radical de
Skinner, presentes na generalizada acusação de que sua teoria da história
desemboca num "antiquarismo" improdutivo para o entendimento dos dilemas do
presente; b) as objeções à teoria intencionalista do significado de textos como
expressões de atos linguísticos; c) as objeções ao estatuto epistemológico da
metodologia skinneriana, ora acusada de relativista, ora de objetivista (ou
mesmo positivista), ora de nem mesmo ser uma metodologia.
Verdade e Método
Comecemos examinando o terceiro tipo de objeções, aquele dirigido contra os
pressupostos epistemológicos da metodologia contextualista. Aqui, não deixa de
ter certa razão Skinner ao declarar sua perplexidade diante dos diferentes (e
contraditórios) rótulos com os quais seus críticos se referem às suas ideias.
Que sentido há em ser acusado, ao mesmo tempo, de positivista e de idealista,
de objetivista e de relativista, de adotar uma espécie de "imperialismo"
metodológico e de não ter metodologia alguma?12
A orientação pretensamente positivista da metodologia proposta por Skinner tem
sido denunciada como consequência da enfática recomendação do autor para que o
historiador das ideias dedique-se a estudar o passado nos próprios termos do
passado. Conforme muitos de seus críticos, tal recomendação teria como
pressuposto a crença na possibilidade de uma radical separação entre os valores
sustentados pelo intérprete situado no presente e aqueles pertencentes aos
pensadores do passado, os quais o intérprete toma como objeto de investigação.
Femia, por exemplo, afirma que tal recomendação conforma-se à "teoria
positivista do conhecimento, que repousa sobre uma completa disjunção entre
sujeito e objeto". O processo de recepção dos "dados" do passado é "passivo: o
mundo externo dos fatos 'fala por si próprio', e o conhecimento humano apenas
traduz, ou reflete, o que tem lugar no mundo primário das coisas 'dadas'"
(Femia, 1988:168). A mesma linha de ataque é expressa por Seidman, que
considera que este "espírito positivista desinteressado" leva Skinner a
promover uma visão "objetivista", em que "o intérprete pode exercer suficiente
autocontrole metodológico para evitar a intrusão de interesses e valores do
presente na reconstrução objetiva do passado" (Seidman, 1983:84). Keane, por
sua vez, elabora essa objeção argumentando que "o antiquado positivismo da nova
história de Skinner" ignora que a interpretação do passado só é possível porque
o intérprete é sempre um participante do universo de comunicação que ele deseja
compreender. A pressuposição de Skinner "de pesquisadores desinteressados que
estão separados de seu objeto de interpretação deixa de levar em conta que, de
modo a ser possível qualquer interpretação, ambos [intérprete e objeto] já
precisam estar reunidos em e através de um ponto de partida linguístico"
(Keane, 1988:210-211, ênfases no original).
Em textos mais recentes, Skinner desenvolve argumentos destinados a distanciar-
se do rótulo de positivista. Afinal, ele prefere ver-se na companhia de autores
que, a partir dos anos 1960, iniciaram um sistemático ataque ao positivismo e
ao objetivismo naturalista prevalecente nas ciências humanas. Sua estadia de
quatro anos (1976-1979) no Instituto de Estudos Avançados de Princeton
permitiu-lhe estreita colaboração com intelectuais como Thomas Kuhn, Clifford
Geertz, Albert Hirschman, Michel Walzer, Joan Scott e muitos outros, unidos no
espírito comum de rejeição da herança positivista13. Em sintonia com esses
autores, Skinner argumenta que a suposição da existência de "fatos puros" à
disposição do escrutínio dos cientistas sociais e historiadores consiste em um
grave erro epistemológico. Não há acesso privilegiado a "fatos indisputáveis",
pois as percepções que temos das coisas são, em última análise,
"interpretações". Em suma, nosso acesso aos "fatos" e nossa ideia do que é
racional são aspectos irremediavelmente condicionados pelas crenças que
sustentamos (Skinner, 2002a:4). Quando selecionamos determinados eventos do
passado e os elevamos à categoria de fatos, estamos, ao mesmo tempo, ignorando
uma infinidade de outros eventos, muitas vezes por sequer estarmos capacitados
para perceber sua própria existência. Os fatos não falam por si, e nosso acesso
à realidade é irremediavelmente theory-laden.
É curioso observar que críticos que acusam Skinner de positivista e objetivista
não se furtam de também criticá-lo pelo pecado oposto. É o caso do próprio
Keane, quando denuncia o "viés subjetivista da nova história" (Keane, 1988:
206). Neste caso, é o intencionalismo de Skinner que entra em consideração.
Baseando-se em Ricoeur, Keane propõe uma distinção entre os "momentos objetivos
e subjetivos do significado", para, em seguida, afirmar que Skinner, ao
preocupar-se exclusivamente com as intenções dos autores, perderia
completamente de vista "a dimensão objetiva dos proferimentos dos autores",
cristalizada na "autonomia semântica de seus textos" (ibid.:207).
O "subjetivismo" (ou "idealismo") de Skinner também é apresentado como
resultado de sua suposta crença no caráter autorreferenciado do mundo da
linguagem. Ian Shapiro, reclamando um maior compromisso com o "realismo" na
história das ideias, afirma que o modelo que os convencionalistas utilizam para
o estudo da ação linguística "os impede de examinar os fatos reais" (Shapiro,
1982:561). O desinteresse de Skinner pela análise causal e pela explicitação
dos motivos por trás dos atos linguísticos seria uma atitude compatível com o
seu "chauvinismo linguístico" (ibid.:546). O verdadeiro "realista", por outro
lado, não vê nenhuma razão a priori para considerar os mecanismos causais
estudados pelos cientistas sociais como ontologicamente diferentes daqueles
estudados pelos cientistas naturais (ibid.:567). Shapiro argumenta, ainda, que
este desinteresse pela dimensão dos "fatos reais" (extralinguísticos) resulta
em uma perspectiva política pronunciadamente conservadora. A falta de uma
teoria realista para o exame dos atos linguísticos levaria Skinner a tomar os
proferimentos autorais at face value, baseando-se em meras redescrições das
intenções publicamente manifestas dos autores. Isso tornaria impossível
"conceber a ideologia como qualquer coisa que não as intenções subjetivas dos
teóricos da política. A análise da ideologia torna-se a narrativa de tais
intenções, e, como tal, ela impede a atenção às reais funções ideológicas da
linguagem" (ibid.:563).
Skinner, contudo, afirma que uma das vantagens de sua abordagem consiste
justamente em permitir que se escreva a história das ideias "menos concentrada
nos clássicos e mais nas ideologias" (Skinner, 1996:11). O fato é que a
concepção de ideologia desposada por Skinner tem como critério principal de
definição a função desempenhada pelas ideias na legitimação de instituições e
práticas políticas (Tully, 1988:13). O enfoque das ideologias como expressão de
uma falsa consciência, ou de crenças distorcidas, ou, ainda, como inversão da
realidade material, mais ao gosto dos realistas, é deliberadamente
negligenciado, e o conceito de ideologia passa a vincular-se a uma problemática
muito mais político-sociológica do que epistemológica. O fato de determinadas
ideias serem verdadeiras ou falsas não teria nenhuma relevância para defini-las
como expressões de ideologias. O que importa é o modo pelo qual as ideias se
vinculam às posições práticas em disputa nos conflitos políticos de determinada
época. É a partir deste enfoque que Skinner afirma tão enfaticamente que "o
conceito de verdade é irrelevante para a explicação das crenças", e que seguir
a recomendação oposta, assumindo o imperativo de determinação da verdade ou
falsidade das crenças sustentadas pelos agentes do passado, "é fatal para a boa
prática histórica" (Skinner, 2002a:2).
Mas essa recusa de considerações sobre a "verdade" na interpretação das crenças
dos agentes do passado não passou impune pela crítica. Para Charles Taylor, por
exemplo, se tal recusa é coerente com a concepção de que ideias e conceitos são
como "armas" manipuladas na forma de argumentos em conflitos ideológicos, ela,
por outro lado, está longe de ser adequada para uma história das ideias que vá
além desta perspectiva exclusiva e "radical". Segundo Taylor, a "hermenêutica
do conflito" que Skinner compartilharia com outros "neoclausewitzianos" (como
Foucault, por exemplo) peca ao tentar isolar o "contexto de luta" do "contexto
de verdade" (Taylor, 1988:220). Isto porque, ao fim e ao cabo, tal separação
seria impossível. Concentrar o trabalho de interpretação exclusivamente no
conflito ideológico, lançando mão de um vocabulário constituído
predominantemente de metáforas bélicas, como faz Skinner, somente seria
aceitável dentro de uma improvável situação-limite. Ou seja,
somente se pudéssemos mostrar que as relações de dominação e as
estratégias que as criam e as sustentam invadiram completamente o
mundo de nossa autocompreensão cotidiana, poderíamos adotar a
estreita, neoclausewitziana, interpretação acima, e fazer de todas as
ideias dominantes o resultado de conflitos centrados na guerra e na
luta por poder. (Taylor, 1988:226)
Skinner procura defender-se deste tipo de crítica mediante uma reelaboração do
conceito de racionalidade envolvido em suas proposições de método. Em sua
defesa, afirma que o que lhe parece errôneo é a tendência de conceber as
crenças dos historiadores e intérpretes do presente como o padrão pelo qual
deveriam ser julgadas as ideias e crenças dos agentes do passado. Este tipo de
"paroquialismo" é prejudicial porque impede o historiador de perceber a
racionalidade das crenças dos agentes no contexto específico do passado
simplesmente porque tais padrões pretéritos de racionalidade já não se
encontram em vigência no contexto contemporâneo do intérprete. Para Skinner,
uma concepção substancial e objetiva de razão encontra-se na base deste
equívoco. Mas, afastar-se desta concepção de razão não implica renunciar a toda
e qualquer concepção de racionalidade. Uma racionalidade situacional e
procedimental é defendida como imprescindível na elaboração dos preceitos de
uma adequada metodologia de interpretação histórica. Seria perfeitamente
possível aos intérpretes revelarem a irracionalidade de determinada crença do
passado. Contudo, neste caso,
eles não estariam se perguntando se a crença em questão é racional de
acordo com seus próprios padrões (menos ainda o padrão) de
racionalidade epistêmica. Eles estariam meramente reportando que ela
não era uma crença apropriada para aquele agente particular esposar
naquela sociedade em particular, naquela época em particular.
(Skinner, 2002a:37-38)
Skinner lamenta que, em nossa "era pós-moderna", este tipo de defesa da ideia
de racionalidade seja interpretada por muitos de seus críticos como
insuficiente para fornecer critérios mínimos de objetividade e validação do
conhecimento, o que revelaria sua completa capitulação a uma espécie de
"relativismo conceitual"14. O autor assegura, entretanto, que em momento algum
teria assumido este tipo de relativismo, que lhe parece "incompatível com a
prática da história intelectual" (ibid.:54). Embora se posicione
insistentemente contra a ideia de uma racionalidade universal e, mais ainda,
contra a noção abertamente positivista de "fatos puros" como critérios de
validação do conhecimento histórico (ibid.:1), Skinner admite que "devemos
assumir, antecedentemente à investigação histórica, que nossos antepassados
compartilhavam pelo menos algumas de nossas crenças sobre a importância da
consistência e da coerência" (Skinner, 1988b:257). Não se trata de afirmar um
compartilhamento de crenças universais substantivas entre o intérprete e o
agente do passado, mas de admitir um mínimo de pressuposições em comum sobre "o
próprio processo de formação de crenças" (ibid.:257).
Intencionalismo
O compromisso de Skinner com o intencionalismo na história intelectual tem sido
questionado desde diferentes perspectivas. Uma compreensão adequada das
críticas a este fundamento da metodologia skinneriana deve ter em mente a ampla
notoriedade alcançada pelo "caso anti-intencionalista" nos anos 1960 e 1970 do
século passado. Já na década de 1950, teóricos da chamada "nova crítica
literária" norte-americana passaram a propagar a tese de que "o desígnio ou
intenção do autor não é nem disponível nem desejável como o padrão
de julgamento do sucesso de uma obra de arte literária" (Wimsatt e Beardsley,
1954:3). Por caminhos bastante distintos, essa tese encontrou desdobramentos
nas vertentes pós-estruturalistas e desconstrucionistas que passaram a
configurar, a partir do fim dos anos 1960, o que poderia ser caracterizado como
um novo "textualismo" na história intelectual (Jay, 1993). A célebre declaração
de Derrida de que "não há nada fora do texto" (Derrida, 1967: 227) foi seguida
pela não menos conhecida metáfora da "morte do autor", anunciada por Barthes
(1968) e endossada por Foucault (1969). O novo textualismo parte de um radical
ceticismo em relação à possibilidade de recuperação do significado original dos
textos, especialmente quando se busca associar tal significado às intenções dos
autores, como o faz Skinner. Nunca saberíamos ao certo o que um autor quis
dizer ou fazer ao escrever o que escreveu. Nem mesmo o próprio autor poderia
saber com segurança os reais móveis de sua ação, subjugado que é por motivações
que muitas vezes lhe escapam à consciência. Como afirma um dos críticos de
Skinner, "à luz da psicanálise, nós não podemos pressupor que um autor tenha
tal privilegiado acesso às suas intenções" (Seidman, 1983:83).
Outro tipo de objeção ao intencionalismo skinneriano não contesta a
possibilidade de definição do significado de um ato de fala mediante a
reconstituição da intenção de quem o efetuou. Todavia, tal critério - ainda que
legítimo para a compreensão da comunicação oral face a face - é considerado
impróprio para o estudo dos significados de textos escritos. Inspirados em
argumentos de Paul Ricouer, críticos como Boucher (1985:228-229; 1986), Seidman
(1983:84), Harlan (1989) e Feres Jr. (2005) chamam a atenção para as
especificidades do fenômeno da inscrição do discurso, indicando os obstáculos
para a apreensão desse fenômeno pela teoria dos atos de fala. Com efeito, para
Ricouer:
Com o discurso escrito, a intenção do autor e o significado do texto
cessam de coincidir. Esta dissociação entre o significado verbal do
texto e a intenção mental é o que está realmente em questão na
inscrição do discurso. Não que possamos conceber um texto sem um
autor; a ligação entre o autor e o discurso não é abolida, mas
distendida e complicada. [...] a carreira do texto escapa ao finito
horizonte vivido por seu autor. (Ricoeur, 1979:78)
No texto escrito, desaparecem parcialmente os elementos de prosódia que, na
conversação oral, facilitam a identificação do significado da sentença com a
intenção do falante. Além disso, conforme Ricouer (ibid.), a inscrição do
discurso "explode" a estreiteza da situação que caracteriza a comunicação oral,
na medida em que estabelece uma espécie de autonomização do discurso de seus
referentes imediatos. Nas condições particulares de uma situação dialógica, o
caráter referencial do discurso aparece de maneira "ostensiva". Somente o
discurso escrito, "ao libertar-se, não somente de seu autor, mas dos
constrangimentos de uma situação dialógica", poderia viabilizar uma espécie de
"abertura", capaz de revelar-nos "novas dimensões de nosso ser no mundo"
(Ricouer, 1979:79). Mas a mais importante distinção entre o discurso escrito e
o discurso presente na conversação ordinária consistiria no fato de que, no
primeiro caso, as sentenças deixam de ser endereçadas a um "interlocutor
igualmente presente na situação do discurso". O discurso escrito é destinado a
uma audiência que "se cria a si própria". Qualquer um que possa ler é potencial
destinatário da locução contida no texto, o que revela a "espiritualidade" e a
"universalidade" do discurso. Ao escapar das limitações de uma conversação face
a face, o discurso deixa de ter um "autor visível", ao mesmo tempo em que um
"um desconhecido e invisível leitor passa a ser o destinatário não privilegiado
do discurso" (ibid.:80).
Retomando a taxonomia dos atos de fala de Austin, Ricouer afirma que a única
dimensão do significado que permanece idêntica quando se transita da situação
de diálogo direto para o discurso escrito é a dimensão locucionária do
proferimento linguístico. O conteúdo proposicional de um enunciado não se
altera, pois depende exclusivamente da presença de determinadas palavras -
expostas numa determinada ordem - numa sentença. "A sentença pode, com efeito,
ser identificada e reidentificada como sendo a mesma sentença" (ibid.: 76). O
mesmo não ocorre com o ato ilocucionário, que só de modo parcial pode ser
representado no discurso escrito. Ainda que se considerem os "paradigmas
gramaticais" que auxiliam na indicação da força ilocucionária de determinada
sentença, tais como os modos verbais (indicativo, imperativo e subjuntivo), o
discurso escrito não pode incorporar os "elementos gestuais" e os "aspectos não
articulados do discurso" presentes na situação de fala. Já a dimensão
perlocucionária do ato de fala perde-se completamente no discurso escrito. E aí
residiria o maior obstáculo aos que desejam mobilizar o modelo da conversação
ordinária para a compreensão de textos escritos. Os efeitos nas emoções e nas
predisposições afetivas dos agentes (falantes e ouvintes) de um ato
comunicativo, tão ostensivos na conversação ordinária, não encontram meios de
expressão e fixação no discurso escrito.
Essas considerações de Ricoeur permitem aos críticos do intencionalismo
skinneriano argumentarem também que a speech acts theory não fornece subsídios
para que se considere o princípio da "independência relativa do texto" (Feres
Jr., 2005:673), obscurecendo o papel dos leitores e minando as possibilidades
de uma história da recepção. Ao reduzir o texto a um ato de fala compreensível
apenas mediante a recuperação das intenções autorais em um contexto sincrônico
de convenções linguísticas, Skinner estaria perdendo de vista a dimensão
diacrônica da vida do texto, manifesta na história dos efeitos produzidos nos
leitores pelo conteúdo proprosicional (ato locucionário) dos enunciados
contidos no texto.
O intencionalismo skinneriano é também acusado de promover uma equivocada
identificação entre ato ilocucionário e intenção ilocucionária. Graham, por
exemplo, afirma que seria perfeitamente possível a ocorrência de um ato
ilocucionário não intencional, bem como a existência de uma intenção
ilocucionária que não se efetiva em ação. Exemplo deste segundo caso seria
minha tentativa de provocar interesse em uma determinada audiência em uma
situação em que tal audiência fosse "surda, ou estúpida, ou estrangeiros não
familiarizados com a língua" (Graham, 1988:151-152). Já o conceito de "ato
ilocucionário não intencional", não admitido na metodologia de Skinner, aponta
para a possibilidade, contemplada apenas de passagem por Austin (1975:106), de
determinados proferimentos carregarem consigo uma força ilocucionária
completamente independente das intenções de seus autores. Conforme esclarece
Boucher, isto poderia ocorrer em situações em que o contexto do proferimento é
governado por convenções linguísticas fortes (Boucher, 1985:221). O que um
agente faz, de fato, ao proferir sentenças em tais condições, depende menos de
sua intenção ao dizer o que disse do que das convenções linguísticas que
regulam a recepção do conteúdo semântico do ato linguístico. O sujeito da ação
linguística pode, por exemplo, ofender pessoas, sem ter essa intenção,
simplesmente por não estar bem informado a respeito das convenções
prevalecentes em dada situação15.
A ênfase que Skinner atribui à intenção ilocucionária dos autores-escritores
para a compreensão do significado histórico da ação linguística tem sido alvo
de objeções provenientes do próprio campo intencionalista, como se observa na
série de artigos de Mark Bevir invectivando contra o contextualismo linguístico
(Bevir, 1992; 1994; 1997; 2000). Em seu amplo projeto de reforma da perspectiva
intencionalista na história das ideias, Bevir reconhece que Skinner, mediante
sua distinção entre "motivos" e "intenções", procura distanciar-se das
abordagens mais ortodoxas do intencionalismo, que tendem a identificar a noção
de intenção autoral com os propósitos originais e conscientes dos autores,
propósitos antecedentes ao - e contingentemente conectados com o - enunciado.
Porém, ainda que Skinner não possa ser acusado deste erro do "intencionalismo
forte", sua abordagem peca ao tentar captar o significado histórico de uma obra
recorrendo exclusivamente à força ilocucionária dos enunciados, o que o leva a
enfatizar, no processo de compreensão, os "desejos" e "pró-atitudes" de um dado
autor, em vez das "crenças" que ele sustenta. Para Bevir, não se trata de
"excluir todos os desejos do aspecto intencional da ação", mas de defender o
ponto de vista de que tais desejos "não entram no significado de uma obra"
(Bevir, 1999:69). A perspectiva intencionalista deveria ater-se muito mais ao
universo de "crenças substantivas" dos autores do que aos desejos e pró-
atitudes manifestos em seus atos ilocucionários. Além disso, Bevir acusa
Skinner de compartilhar com o "intencionalismo forte" o equívoco de ignorar o
papel dos leitores na atribuição de significado a um determinado texto, fazendo
da intenção do autor original (o criador do texto) o critério exclusivo da
interpretação. Mas por que ignorar o papel ativo de leitores na atribuição dos
significados? Segundo Bevir, Skinner parece assumir que, de certo modo, os
textos têm significados em si mesmos, não importando o que seus intérpretes e
leitores pensem a seu respeito. E, do ponto de vista histórico, o significado
que o texto carrega consigo teria sido determinado pela intenção de seu autor
no contexto original de sua produção. Este significado histórico, de uma vez
por todas estabelecido no passado, estaria à espera para ser "corretamente"
recuperado pela mobilização do instrumental metodológico apropriado à
empreitada. Bevir, por seu turno, além de duvidar da crença de que um método,
qualquer que seja, possa ter a virtude de garantir uma interpretação correta,
também argumenta que textos não têm significados em si mesmos. Sem a
intervenção humana, textos nada mais são do que marcas registradas em papel ou
outro meio físico. São os indivíduos (tanto autores quanto leitores), dotados
de capacidade de agência, que a eles atribuem significados.
Os esforços de Skinner no sentido de defender seu compromisso com o
intencionalismo têm se refletido tanto em refinamento e desenvolvimento de suas
ideias originais, quanto em crescente número de ambiguidades e contradições que
se vão acumulando em sua obra. A estratégia geral da defensiva skinneriana
consiste na insistência do autor em marcar sua diferença em relação às
variantes intencionalistas mais ortodoxas na teoria da interpretação. Para
Skinner, a tese de que o "significado verbal" de um texto "requer a
determinação da vontade do autor", tese difundida por autores como Hirsch
(1967; 1976) e Juhl (1980), seria o verdadeiro alvo daqueles anti-
intencionalistas que o têm criticado por supostamente propagar a "falácia
intencionalista". Skinner assegura que nunca teria se engajado em tal linha de
argumentação, e que nas ocasiões em que a ela se referiu teria sido para
endossar o caso anti-intencionalista16. Chega mesmo a afirmar que não acredita
que "as intenções dos falantes ou escritores constituam o único, ou mesmo o
melhor guia para a compreensão de seus textos ou enunciados" (Skinner, 2002a:
110); e, ainda, que está longe de supor "que os significados dos textos possam
ser identificados com as intenções de seus autores" (ibid.:114).
Difícil não perceber, à luz dos primeiros ensaios metodológicos do autor, o
evidente recuo presente nas formulações acima. É verdade que elas encontram
certo respaldo em alguns de seus textos anteriores, já destinados a contra-
atacar os anti-intencionalistas. Lembremo-nos de sua distinção entre os
diferentes tipos de significados (meaning 1, meaning 2, e meaning 3) passíveis
de serem atribuídos a determinado enunciado (Skinner, 1972). Contudo, se
anteriormente Skinner falava de uma "equivalência" entre o significado
histórico (meaning 3) de um enunciado e a intenção ilocucionária do autor,
prefere agora ficar apenas com o ponto de que sua "preocupação principal tem
sido não com significado, mas, antes, com a performance de atos ilocucionários"
(Skinner, 2002a:111).
Como que para não ficar completamente destituído de seu ponto original, Skinner
destaca que, ao menos em certos casos, a interpretação histórica de um texto
não pode prescindir do conhecimento das intenções de seu autor. Se este
princípio não pode ser desconsiderado de todo no estudo de textos "sérios", ele
é imprescindível e central quando nos reportamos a textos mais problemáticos,
como aqueles em que nos defrontamos "com códigos retóricos escondidos tais como
os da ironia" (id.). No texto irônico há um flagrante afastamento entre o
conteúdo semântico (ou locucionário) e o significado do texto para o autor.
Assim, o analista que permanecesse concentrado exclusivamente no nível
semântico das locuções contidas no texto correria o risco de produzir uma
interpretação historicamente absurda. Revelar-se-ia aí, de forma mais evidente,
a indispensabilidade do conhecimento sobre o que o autor "estava fazendo"
quando da escritura ou publicação do texto para a compreensão do "ponto" de seu
proferimento enquanto ação linguística17.
Mas o que fica claro é que, ao defender seu intencionalismo, Skinner arrefece
consideravelmente sua pretensão de identificar o significado histórico de um
enunciado à intenção ilocucionária do autor. Isso, contudo, não o remete ao
encontro das conclusões dos céticos radicais, resumidas na decretação da "morte
do autor". Skinner lastima o que considera a redução da teoria da interpretação
a um "estudo 'consumidor-orientado' das respostas dos leitores" (Skinner,
1988b:272). Considera que a principal deficiência de tal redução consiste na
ausência de elementos de compreensão dos processos de mudanças conceituais. Ou
seja, "se desejamos fazer justiça àqueles momentos em que uma convenção é
desafiada ou um lugar comum é efetivamente subvertido, nós não podemos
simplesmente dispensar a categoria de autor" (ibid.:276). Quanto às convenções
linguísticas, elas deveriam ser compreendidas não apenas como constrangimentos
à ação dos agentes, mas também como recursos que tais agentes mobilizam para a
efetuação da ação18.
Antiquarismo
As críticas ao "antiquarismo" skinneriano começaram a aparecer já nos primeiros
lances do debate metodológico em questão (Leslie, 1970; Parekh e Berki, 1973;
Tarlton, 1973). Tratava-se da contrapartida aos ataques do próprio Skinner ao
"anacronismo" presente nas modalidades convencionais na história das ideias.
Como vimos, Skinner considerava um erro metodológico o estudo dos textos dos
autores clássicos como expressões de verdades supostamente intemporais e
universais. Neste ponto, o autor continua a argumentar que a possibilidade de
aprendermos algo de novo com os autores do passado dependeria de nosso esforço
para "ver as coisas do modo deles" (Skinner, 2002a:3). E isso só seria possível
por meio do cuidadoso trabalho de reconstituição do contexto linguístico e
normativo em que os autores, clássicos ou não, estavam imersos. A tentação de
uma historiografia "presentista", motivada pelo desejo de se retirar
diretamente dos textos dos autores clássicos as soluções dos problemas atuais,
além de um equívoco teórico, consistiria também num erro moral, uma vez que o
presentismo representaria uma espécie de evasão da tarefa intransferível de
encontrarmos, mediante nosso próprio esforço, as possíveis soluções para nossos
dilemas políticos e morais. Daí a máxima, desde cedo advogada por Skinner,
segundo a qual "devemos aprender a pensar por nós mesmos" (1969:52).
Os oponentes de Skinner suspeitavam que, levadas à prática tais prescrições, o
estudo do passado perderia sentido. Tudo o que teríamos ao final de uma
exaustiva investigação seria algo como uma relíquia exótica em nosso mundo
presente. Quem se motivaria a aventurar-se numa tal empreitada? Em vez de
despertar o interesse pela história das ideias, tal atitude resultaria num
aprofundamento do desinteresse pelo passado, na medida em que desconsideraria o
fato, posto em relevo na hermenêutica filosófica de Gadamer, de que
Nas ciências do espírito o interesse do investigador que se volta
para a tradição é motivado, de uma maneira muito especial, pelo
respectivo presente e seus interesses. É só pela motivação do
questionamento que se estabelece o tema e o objeto da investigação.
Com isso, a investigação histórica se sustenta no movimento histórico
em que se encontra a própria vida, e não se deixa entender
teleologicamente a partir do objeto a que se orienta a investigação.
(Gadamer, 2004:377-378)
Para os críticos de Skinner vinculados à perspectiva gadameriana, a
investigação histórica deve ter como objeto não "autores mortos, mas livros
vivos", e seu objetivo é compreender o modo como determinadas obras podem
"sobreviver ao seu passado" para "falar-nos sobre nosso presente" (Harlan,
1989:609). Em vez da individualização do passado e de sua fixação em um
contexto radicalmente distinto do contexto do próprio intérprete, dever-se-ia
enfatizar as continuidades entre passado e presente; de outro modo, a própria
noção de tradição intelectual seria inconcebível (Lockyer, 1979). Caberia ao
historiador a busca do significado de um texto por meio de um "diálogo" com as
obras clássicas, buscando a "fusão de horizontes" entre passado e presente. Mas
a metodologia skinneriana não viabilizaria - e até mesmo interditaria - esse
diálogo, lançando sobre os ombros do historiador as pesadas exigências da
"história documental" (LaCapra, 1982), esteio de uma narrativa destinada a
apresentar o passado como uma série de eventos singulares e desconexos no curso
do tempo. Porém, "se todos os eventos são sui generis, não podemos escrever
história; podemos apenas empilhar documentos" (Femia, 1988:127). Aponta-se como
uma ironia o fato de que Skinner, tão cioso na denúncia de "mitologias", teria
sucumbido, ele próprio, numa "mitologia da fragmentação" (Minogue, 1988:179),
na qual a própria ideia de processo histórico perderia completamente seu
sentido.
Argumenta-se também que o interesse exclusivo pelo contexto imediato de
produção do texto resultaria na diluição de grandes ideias de grandes autores
numa miríade de textos de pouca significação, instaurando a tendência "de
depreciar o texto em favor do contexto" (Gunnell, 1982:322). Ao interpretar o
significado dos textos clássicos à luz da atividade de "panfletários" que
escrevem para uma audiência muito restrita, Skinner estaria promovendo uma
confusão entre os diferentes níveis de abstração em que as ideias políticas
aparecem na história, passando ao largo do fato de que "o nível de abstração de
um texto está em relação inversa com sua relevância para uma específica
audiência e contexto histórico" (Parekh e Berki, 1973:174). Skinner pecaria por
não reconhecer que os textos que consideramos clássicos na história do
pensamento político foram, em geral, elaborados em elevado nível de abstração e
tratam de problemas que são, de certo modo, "perenes".
Como Skinner tem reagido a essa ordem de objeções? Não há dúvida de que tais
acusações o perturbam intensamente. O autor escreveu, recentemente, ter
"previsto essa objeção depressivamente filistina", mas lamenta que suas
primeiras tentativas de resposta "estiveram longe do suficiente para satisfazer
seus críticos", haja vista a reincidência da acusação de antiquarismo (Skinner,
2002a:6). O fato é que em sua defesa, Skinner é forçado a trilhar uma linha de
reflexão que, para dizer o mínimo, não estava contida em suas declarações
metodológicas iniciais. Afirma que o ceticismo em relação à possibilidade do
aprendizado de uma sabedoria universal e intemporal dos textos do passado não
significa que nada de contemporaneamente relevante se possa aprender com o
estudo da história. Uma das principais vantagens do estudo da história do
pensamento para o entendimento do presente residiria no incremento de nossa
percepção da natureza contingente de nossas próprias crenças atuais. As ideias
que circulam no presente estão longe de representar o coroamento de um processo
racional de desenvolvimento ideológico, para o qual os pensadores clássicos
teriam contribuído decisivamente. O que pensamos e como pensamos são produtos
de conflitos ideológicos cujos resultados poderiam (e podem) ser diferentes do
que são. Isso também vale para o passado, que é pleno de possibilidades não
efetivadas, de ideias derrotadas, de projetos e de valores esquecidos. Ao
aprendermos que os conceitos que herdamos do passado são resultados
contingentes de escolhas e conflitos, em que também têm lugar a força, a
habilidade retórica dos contendores, e mesmo certa dose de acaso, estaremos
mais bem equipados para o necessário e sempre difícil procedimento de
"desnaturalização" de nossas crenças. O estudo da história do pensamento
político capacita nosso esforço para escaparmos do "paroquialismo" de nossos
próprios valores (ibid.:88-89).
Além disso, prossegue Skinner, o estudo das ideias do passado pode ajudar no
desenvolvimento de um "certo tipo de objetividade", resultante da contemplação
de "sistemas rivais de pensamento". Do mesmo modo, podemos atingir um "grau
maior de compreensão" e, portanto, maior "tolerância" em relação a elementos de
"diversidade cultural" (ibid.:125). Por fim, o estudo da história do pensamento
político é relevante para o pensamento político do presente na medida em que
serve para enriquecermos nossa percepção sobre conceitos herdados do passado e
usados de maneira "empobrecida" na atualidade. Ou seja, "ao retornarmos para
olhar como esses conceitos eram mobilizados em tradições de pensamento
passadas, podemos encontrar uma discussão mais rica dos conceitos que
continuamos a empregar" (Skinner, 1997:74)19. Em suma, para Skinner,
A história da filosofia, e talvez especialmente da filosofia moral,
social e política está aí para nos impedir de sermos muito facilmente
enfeitiçados. O historiador do pensamento político pode nos ajudar a
apreciar até onde os valores incorporados em nosso modo atual de
vida, e nossas atuais maneiras de pensar sobre esses valores,
refletem uma série de escolhas feitas em épocas diferentes entre
diferentes mundos possíveis. Essa consciência pode ajudar a libertar-
nos do domínio de qualquer uma das explicações hegemônicas desses
valores e de como eles devem ser interpretados e compreendidos.
Munidos de uma possibilidade mais ampla, podemos nos distanciar dos
compromissos intelectuais herdados e exigir um novo princípio de
investigação sobre esses valores. (Skinner, 1999a:93-94)
Este tipo de justificativa para a prática da história intelectual em benefício
da crítica e da (re)formulação da teoria política contemporânea tem encontrado
ressonância em inúmeros autores simpáticos à abordagem skinneriana (Janssen,
1985; Ball, 1995; Runciman, 2001; Edling e Morkenstam, 1995; Palonen, 2002;
2003). O trabalho do historiador intelectual é apontado como uma espécie de
preparação de terreno para o trabalho do teórico contemporâneo, uma condição
para que este possa pensar além das amarras do passado e do paroquialismo do
presente. Não se trata de recuperar um tipo de conhecimento substantivo de um
passado ainda vivo no presente. Skinner procura afastar-se desse essencialismo
sugerindo que o que está em jogo é, antes, a ampliação de uma capacidade
cognitiva, a um só tempo crítica e analítica. Conforme observou Marcelo Jasmin,
para Skinner, as pesadas exigências em termos de documentação do passado
funcionam "na outra ponta, a da teoria contemporânea, como uma espécie de carta
de alforria para a imaginação que deve deixar ao passado os seus termos e
partir para uma inovação conceitual adequada aos problemas 'locais' do tempo
presente" (Jasmin, 2005:30).
Resta saber se, além de distante, a visão skinneriana mais recente sobre a
relação entre passado e presente não seria também contraditória com suas
prescrições metodológicas das décadas de 1960 e 1970. O mínimo que se pode
dizer é que Skinner encontraria grande dificuldade para justificar o esforço
empreendido em seus estudos sobre, por exemplo, a história dos conceitos de
Estado e liberdade por meio de suas formulações metodológicas clássicas. Vale
lembrar que já em 1979, na conclusão de seu livro mais famoso, Skinner
assinalava que sua preocupação teria sido estudar o "processo" de "formação" do
conceito moderno de Estado, um processo que se completara no começo do século
XVII, mas cujos "pré-requisitos" vinham se estabelecendo desde meados do século
XIII (Skinner, 1996:617). Sua narrativa da história do conceito de liberdade é
ainda mais abrangente. Trata desde os moralistas romanos da Antiguidade, até
aos republicanos ingleses do século XVII, detendo-se, com detalhe, nos
pensadores do Renascimento italiano, especialmente em Maquiavel. Além disso, em
seus textos sobre a história do conceito de liberdade, Skinner não se furta de
arrolar inúmeras referências a teóricos contemporâneos, de Isaiah Berlin a
Charles Taylor, de Gerald McCallun a Philip Pettit.
Recentemente, quando questionado se não receava que o "Skinner filósofo"
estivesse, pouco a pouco, eclipsando o Skinner historiador, especialmente em
seus estudos sobre a teoria da liberdade, o autor concedeu que a pergunta lhe
servia como um bem-vindo alerta, embora a questão o colocasse diante de um
"dilema" que é próprio de todo e qualquer estudioso das humanidades: "De um
lado, queremos que nossos estudos sejam tão eruditos quanto possível. Do
contrário, eles serão pouco melhores do que obras de propaganda. Mas, por outro
lado, certamente queremos que nossos estudos sejam de algum valor para nossas
sociedades" (Skinner, 2007:118). A solução encaminhada para tal dilema é mais
uma evidência da distância que hoje separa Skinner de sua antiga ênfase
antipresentista. Em termos que lembram muito uma clássica formulação de Weber,
em polêmica com Eduard Meyer20, Skinner sai em busca da reconciliação entre
presentismo e historicismo.
Nossa escolha do que estudar deve ser motivada por nosso sentimento
do que é importante aqui e agora. Devemos selecionar os objetos que
estudamos à luz de eles terem algum tipo de significação social
geral. Mas, uma vez selecionados tais objetos, devemos ser tão
rigorosos quanto possível em nossas pesquisas, porque, de outro modo,
nossos achados carecerão de integridade e autoridade. (Skinner, 2007:
119)
Diferentemente da "fusão de horizontes" de Gadamer, a "aproximação" de
horizontes skinneriana continua reservando um lugar de destaque ao método. É um
equívoco censurar Skinner por dar importância à metodologia em sua teoria da
interpretação histórica. Não obstante, é preciso denunciar o equívoco do
próprio do autor ao sugerir que suas prescrições oferecem o caminho inevitável
(necessário e suficiente) a quem queira estudar o pensamento político a partir
de um enfoque "genuinamente" histórico (Skinner, 1972:406; 1988b:275). Não há
dúvidas de que o contextualismo linguístico tem contribuído decisivamente para
robustecer o campo da história do pensamento político, mas o mesmo poderia ser
dito de outras abordagens. A história intelectual consiste em uma prática
disciplinar particularmente arredia ao império de ortodoxias. A história da
teoria política, em particular, é uma atividade do tipo "problem-solving"
(Ball, 1995:29), e a diversidade de problemas sobre os quais se debruçam os
historiadores intelectuais ajuda a explicar a pluralidade de métodos e técnicas
heurísticas. Pode-se concluir que tal ou qual método é mais apropriado do que
os demais para tratar de determinado problema, mas não que haja um método
absolutamente superior aos outros para o equacionamento e resolução de todo e
qualquer problema. A "objetividade" de determinada interpretação não pode ser
assegurada pelo método empregado. É perfeitamente possível que o intérprete,
mesmo mobilizando uma metodologia sofisticada, chegue a uma interpretação pobre
de determinado fenômeno. Inversamente, nada impede que mesmo partindo de uma
metodologia pouco elaborada ele alcance resultados satisfatórios. A narrativa
final é que deve submeter-se aos critérios de objetividade, não o método que a
inspirou.
Duvidar da existência de um método infalível não significa naufragar no oceano
do relativismo radical. É verdade que não temos mais o tribunal dos "fatos
puros" para julgarmos pretensões de objetividade, e também não podemos recorrer
ao "juizado dos procedimentos metodológicos". Podemos, entretanto, continuar
comparando, à luz da melhor evidência disponível, os resultados finais das
pesquisas históricas e apontar aquelas narrativas que, em comparação com
narrativas rivais, nos oferecem interpretações mais acuradas, compreensivas,
consistentes, profícuas, progressivas e abertas das ideias do passado.
NOTAS
1. Com algumas exceções, os críticos têm passado ao largo de importantes
diferenças de ênfase entre a abordagem de Skinner e a de Pocock, quando até
mesmo os autores as reconhecem. Enquanto Skinner enfatiza a necessidade de
recuperação das "intenções autorais" no processo de compreensão do significado
da "ação linguística", Pocock está mais preocupado com a reconstituição de
"paradigmas", "linguagens" e "discursos" políticos que informam o significado
de um texto. Para Pocock, as intenções dos autores têm caráter derivado, uma
vez que as linguagens funcionam "paradigmaticamente, prescrevendo o que ele [o
autor] deve dizer e como dizê-lo" (1972: 25). Assim, "os modos de discurso
disponíveis dão-lhe as intenções que ele pode ter, ao proporcionar-lhe os
únicos meios de que ele poderá dispor para efetuá-las" (Pocock, 2003:27-28,
ênfases minhas). É declarada a insatisfação de Skinner com a ênfase pocockiana
na função paradigmática das linguagens: "Se a ênfase de Greenleaf nas tradições
ou a de Pocock nas linguagens forem tratadas como metodologias em si mesmas,
elas estão prestes a gerar pelo menos duas dificuldades. Existe um perigo óbvio
de que, se enfocarmos meramente a relação entre o vocabulário usado por um dado
escritor e as tradições com as quais ele pode parecer conectado por seu uso
desse vocabulário, podemos nos tornar insensíveis para as instâncias da ironia,
obliquidade, e outros casos em que o escritor pode parecer estar dizendo algo
diferente do que quer dizer. O principal perigo, porém, é que, se nos
concentrarmos meramente na linguagem de um dado escritor, corremos o risco de
assimilá-lo a uma tradição intelectual completamente estranha, e, logo, de não
compreendermos o objetivo geral de sua obra política" (Skinner, 1974:288).
2. A obra substantiva de Skinner, ao contrário de seus textos metodológicos,
tem encontrado grande difusão no contexto brasileiro (Skinner, 1988c; 1996;
1999a; 1999b). Recentemente, editou-se em Portugal a tradução do primeiro
volume da trilogia publicada pelo autor com vistas a revisar e reunir seus
principais ensaios. O primeiro volume concentra-se, exclusivamente, em questões
de método (Skinner, 2005).
3. Examinando retrospectivamente o surgimento da Escola de Cambridge, Pocock
refere-se a Laslett como o "protagonista", um "homem extraordinário" que
"deslanchou uma revolução local cujos efeitos foram sentidos por muitos anos"
(Pocock, 2004: 535). Afirma, também, que seu próprio livro de estreia, The
Ancient Constitution and the Feudal Law, de 1957, foi escrito já sob a
influência do trabalho que vinha sendo desenvolvido por Laslett desde o fim da
década de 1940. Skinner, que teve Laslett como seu tutor em Cambridge, é ainda
mais enfático ao atestar o pioneirismo de Laslett, relembrando que achou
"maravilhosa, em vários sentidos", sua introdução à reedição dos Dois Tratados
sobre o Governo, tanto pela elegância do texto, quanto pelas descobertas sobre
Locke que lhe pareciam "metodologicamente interessantes" (Skinner, 2002b:214).
Ver também Skinner (1997:69).
4. Trata-se da mais conhecida e citada referência ao método do contextualismo
linguístico. Skinner afirma que o tom hiperbolicamente crítico do ensaio,
escrito como uma espécie de "manifesto", fazia parte de uma estratégia para
"chocar" e "irritar" (Skinner, 2002b:218). Embora o ensaio tenha sido
rejeitado, na época, por vários periódicos, até ser aceito para a publicação no
oitavo volume da revista History and Theory, o autor avalia que sua estratégia
foi bem-sucedida, a julgar pela atenção que passou a receber dos críticos.
5. A lista de autores atacados por Skinner sob tal rubrica era extensa,
destacando-se nomes como os de Leo Strauss, George Sabine e John Plamenatz. A
denúncia dos erros textualistas visava também o influente pensador norte-
americano Arthur Lovejoy, fundador, em 1940, do Journal of History of Ideas e
autor, dentre outros, do clássico The Great Chain of Being, de 1936. Parte do
debate em torno das posições de método de Lovejoy foi reunida em Kelley (1990).
6. Skinner refere-se a Lewis Namier, influente historiador no contexto
acadêmico britânico de meados do século XX e autor de extensa obra no campo da
história intelectual. Para Skinner, Namier tinha em comum com seus próprios
adversários marxistas o fato de estar "compromissado com duas alegações sobre
as relações entre princípios e prática na vida pública. A primeira é que
estamos realmente justificados em desconsiderar os ideais professados por
políticos, já que tantos deles tentam revestir suas condutas com o que Namier
gosta de descrever como um espúrio ar de moralidade e racionalidade. A segunda
alegação, que se segue da primeira, é que tais princípios não desempenham
nenhum papel causal em suas ações, e, assim, não precisam figurar em nossa
explicação de seus comportamentos" (2002a:145).
7. Mais extensamente em Skinner (2001).
8. "Por exterior do acontecimento, entendo tudo o que lhe pertence, mas que
pode ser descrito em termos de corpos e de seus movimentos: a passagem de
César, acompanhado por certos homens, dum rio chamado Rubicão, em certa data,
ou o derramamento do seu sangue sobre o soalho do Senado, noutra data. Por
interior do acontecimento, entendo aquilo que nele só pode ser descrito em
termos de pensamento: o desprezo de César pelas leis da República ou a
divergência de política constitucional entre ele e os seus assassinos"
(Collingwood, s./d.:266).
9. Em recente tentativa de afastar-se de uma interpretação mentalista e
subjetivista da noção de intenção autoral, muitas vezes atribuída a Collingwood
e a ele próprio, Skinner afirma que "nada do que estou dizendo pressupõe a
desacreditada ambição hermenêutica de colocar-se enfaticamente no lugar dos
outros e tentar (na infeliz frase de Collingwood) repensar seus pensamentos
depois deles. A razão pela qual nenhum truque deste tipo é necessário é que,
como Wittgenstein afirmou há muito tempo ao criticar o conceito de uma língua
privada, as intenções com as quais alguém efetua um ato bem-sucedido de
comunicação devem, ex hypothesi, ser publicamente apreensíveis" (Skinner,
2002a:120).
10. Também em Skinner (1988a:88; 1971:15). Nadia Urbinati, em recente avaliação
da contribuição de Skinner, afirma que a "distinção entre motivos e intenções é
talvez uma das mais importantes realizações teóricas da aplicação da análise
linguística ao estudo histórico" (Urbinati, 2005:91).
11. Uma intenção "publicamente apreensível" não implica que o ato ilocucionário
deva sempre se apresentar explícita e declaradamente, recorrendo-se, por
exemplo, ao uso de verbos performativos nas sentenças. Afirmar tal necessidade
teria sido, segundo Skinner, o erro de Strawson (1964) em sua tentativa de
superar certas lacunas na teoria de Austin. Skinner argumenta que há
determinados tipos de atos ilocucionários (oblíquos, não-sincrônicos etc.) que
não somente não requerem a declaração da intenção, como seriam mesmo
prejudicados se tal declaração fosse explicitada na conversação. Este é o caso
típico de atos ilocucionários efetuados com a intenção de ironizar ou
ridicularizar uma determinada convenção ou curso de ação (Skinner, 1970).
12. Entre os críticos que argumentam que Skinner não teria propriamente uma
metodologia para a história intelectual destaca-se John Gunnell. Para Gunnell,
Skinner apresenta argumentos epistemológicos da teoria da interpretação como se
isso fosse o suficiente para qualificar uma metodologia (Gunnell, 1982:76). Por
outro lado, um autor como Kenneth Minogue (1988), dá a entender que o problema
skinneriano era exatamente o oposto: o de constranger a análise histórica com
uma excessiva parafernália metodológica. Para Minogue, todo historiador já
teria uma ideia, ainda que algo intuitiva, sobre como proceder em sua prática
disciplinar. A excessiva preocupação metodológica poderia levar ao
autoaprisionamento em uma "camisa de força". Minogue aconselha Skinner a
livrar-se do "excesso de bagagem" (Minogue, 1988:193) para que a análise
histórica siga seu melhor curso.
13. Para uma história do papel do Instituto de Estudos Avançados de Princeton
na crítica ao positivismo e na difusão de diferentes estilos de "ciência social
interpretativa", ver a coletânea de ensaios reunidos em Scott e Keates (2001).
14. A exemplo de Hollis (1988:146), Shapiro (1982:537) e King (1983:297).
15. A metodologia intencionalista de Skinner padeceria também da incapacidade
para o reconhecimento e a análise de intenções que permanecem imperceptíveis na
consciência do autor de um ato linguístico (Rogers, 1990:270). Além disso, não
forneceria meios para a investigação do papel de uma classe de intenções que,
embora constitutivas do estado mental do autor de um texto, não encontram meios
de tornarem-se publicamente manifestas no proferimento linguístico. A
importância dessa classe de "intenções irrecuperáveis" revelar-se-ia,
sobretudo, no estudo de textos de grande complexidade e valor estético, as
quais qualificamos como "obras" literárias (Rosebury, 1997:22).
16. Em ensaio recente sobre o intencionalismo, Vivienne Brown (2007:49) alerta
para convergências não contempladas por Skinner entre sua própria abordagem e
as abordagens de intencionalistas radicais como Hirsch e Juhl.
17. O exemplo constantemente mobilizado por Skinner para ilustrar essa tese é o
panfleto de Daniel Defoe, The Shortest-Way with the Dissenters, em que Defoe,
ironicamente, de modo a ridicularizar e abalar a legitimidade das crenças de
intolerância religiosa de sua época, propõe a execução sumária de "infiéis"
dissidentes.
18. Ao destacar a capacidade seletiva (criativa?) dos autores diante das
convenções estabelecidas, Skinner procura defender-se da acusação de
"determinismo linguístico", que alguns críticos consideram inerente a sua
abordagem contextualista (por exemplo: Tarlton, 1973; King, 1995; Bevir, 2000;
Diggins, 1984; Turner, 1983).
19. Exemplo disto seria o conceito de liberdade. O autor identifica um
empobrecimento no tratamento contemporâneo desse conceito central da teoria
política ocidental, uma vez que as discussões atuais reproduzem a dicotomia
entre liberdade positiva e liberdade negativa, tributária do pensamento liberal
do século XIX. Skinner argumenta que o conceito de liberdade recebera um
tratamento mais elaborado no começo da era moderna. Inúmeros pensadores
associados à tradição republicana teriam operado com uma ideia de liberdade que
incorpora elementos tanto da concepção positiva, quanto da negativa. O conceito
de liberdade tem sido tema de inúmeras contribuições de Skinner. Por exemplo:
Skinner (1999a; 1984; 1983, dentre outros). Ver, a propósito, Silva (2008).
20. "'Subjetiva', num determinado sentido, que não voltaremos a explicar, não é
a constatação das 'causas' históricas de um 'objeto' de explicação dado, mas a
delimitação de 'objeto' histórico mesmo, de 'indivíduo' mesmo, pois aqui
decidem relações de valor cuja 'concepção' está submetida à mudança histórica"
(Weber, 1992:189).