Desigualdade e discriminação de imigrantes internacionais no mercado de
trabalho brasileiro
INTRODUÇÃO
Muitos estudos verificam que há desigualdades de posição ocupacional e
rendimentos dos imigrantes internacionais no mercado de trabalho da sociedade
hospedeira, comparados aos nativos (Bonacich, 1973; Piore, 1979; Portes e Bach,
1985; Jong e Madamba, 2001; Van Tubergen, Maas e Flap, 2004; Sala, 2005; Van
Tubergen, 2005; Piore e Safford, 2007; Vilela, 2008; Kesler e Hout, 2010).
Alguns afirmam que os imigrantes estão em pior situação no mercado de trabalho
e são discriminados negativamente, dada a sua inserção em trabalhos precários
no setor periférico do mercado de trabalho segmentado (por exemplo, Piore,
1979). Há quem sugira que eles permanecem em posições polarizadas, isto é,
tanto no topo quanto na base da hierarquia socioeconômica ocupacional, tomando
como fundamento a teoria do mercado dual (Sassen, 1990). Por fim, há outros que
argumentam que diversos grupos de imigrantes se encontram em posições
intermediárias ou superiores e são discriminados positivamente, uma vez que se
inserem em um mercado de trabalho paralelo ao mercado aberto e competitivo, em
uma economia étnica (por exemplo, Bonacich, 1973; Portes e Bach, 1985; Portes e
Rumbaut, 1990).
Segundo Van Tubergen, Maas e Flap (2004) e Kesler e Hout (2010), a explicação
para a localização dos imigrantes na estrutura hierárquica do mercado de
trabalho depende tanto de fatores individuais quanto estruturais. No primeiro
grupo, incluem-se informações relacionadas principalmente ao capital humano1;
no segundo, encontram-se elementos referentes à origem e ao destino dos
trabalhadores. Os autores afirmam que, dadas as diferenças em tais fatores, não
há uma homogeneização quanto à inserção e à situação dos imigrantes no mercado
de trabalho. Segundo Borjas (1986), a explicação encontra-se principalmente na
discriminação, pela qual os empregadores2 levam em consideração atributos não
produtivos, como raça, gênero e origem nacional, no momento de realizarem as
trocas de salário por produto.
Os estudos que comparam grupos de múltiplas origens, que se localizam em um
destino comum, como no caso dessa pesquisa, verificam que há diferença na
posição econômica entre os imigrantes de grupos de origens diferentes, mesmo
depois de controladas as características referentes aos atributos produtivos
individuais e ao local de destino (Van Tubergen, Maas e Flap, 2004). Em outras
palavras, há grupos de imigrantes que se encontram em situação econômica
privilegiada na sociedade hospedeira e outros que, ao contrário, estão em
condições precárias. De acordo com Van Tubergen, Maas e Flap (2004), esse
resultado foi observado nos Estados Unidos, Canadá, Bélgica, Alemanha, França e
Israel, sendo a origem um fator de impacto, ora positivo, ora negativo,
dependendo do grupo em análise. Por outro lado, pesquisas não encontraram
diferenças significativas entre imigrantes de mesma origem que se dirigiram
para destinos diferentes (Van Tubergen, Maas e Flap, 2004). Tais achados
sugerem um impacto maior da origem do que do destino sobre a situação dos
imigrantes no mercado de trabalho na sociedade anfitriã.
A minha proposta neste artigo é trazer esse debate para o Brasil. Entre outras,
pretendo responder às seguintes perguntas: comparados aos brasileiros, os
imigrantes internacionais encontram-se em posições piores, melhores ou
similares no mercado de trabalho? Quais imigrantes se encontram em desvantagem,
quais estão em vantagem? Eles recebem rendimentos menores ou maiores do que os
nativos? Os imigrantes internacionais são discriminados? Quais deles? A
discriminação é positiva ou negativa?
Na seção que se segue, faço uma revisão da literatura que trata do tema,
explorando as principais divergências nas três abordagens que estão sendo aqui
consideradas. Em seguida, na terceira seção, apresento os dados e as técnicas
estatísticas empregadas. Na quarta seção, parto para a análise efetiva dos
dados, mostrando os resultados encontrados quanto às desigualdades de posições
de classes e de rendimentos, bem como realizo a análise da discriminação. Por
fim, teço algumas observações a título de conclusão.
ABORDAGENS TEÓRICAS
O debate sobre a situação dos imigrantes no mercado de trabalho apresenta três
abordagens diferentes. A primeira refere-se à ideia de que há um mercado aberto
e dual3, segmentado por ocupações de prestígio (setor de empregos primário) e
precárias (setor de empregos secundário)4 (Piore, 1979; Piore e Sabel, 1984;
Piore e Safford, 2007). De acordo com essa abordagem, os imigrantes inserem-se
no segundo setor, estando em desvantagem no que diz respeito a rendimentos e a
status socioeconômico ocupacional.
No primeiro, encontram-se empregos estáveis, seguros, trabalhadores
qualificados, bem remunerados, com boas condições de trabalho e com
possibilidade de mobilidade ascendente. Nele, há o predomínio de profissionais
com maior conhecimento e mais experiência, mais educados e profissionalizados.
Ao contrário, o setor secundário apresenta empregos instáveis, desqualificados,
com baixos salários, benefícios limitados, condições insatisfatórias de
trabalho e baixa mobilidade (Piore, 1979; Piore e Sabel, 1984; Piore e Safford,
2007). Esse setor não oferece grandes oportunidades para ascensão nos postos de
trabalho. Segundo Dickens e Lang (1985), há barreiras não econômicas que
impedem que os trabalhadores desse setor mudem para o primeiro. Além disso, o
setor secundário proporciona baixíssimo retorno salarial, em consequência da
educação baixa e da falta de treinamento para os empregados (Dickens e Lang,
1985).
Em função de tais condições, existe uma menor demanda pelos empregos no segundo
setor. De acordo com Piore (1979) e Massey et alii (1993), os nativos os
rejeitam, abrindo espaço para os imigrantes, que encontram dificuldade de
inserção em melhores posições ocupacionais no país hospedeiro, considerando
que: a) entre eles, há uma minoria de pessoas altamente qualificadas (Piore,
1979); b) a maioria dos imigrantes origina-se de países pobres, os quais não
propiciam condições para que seus nativos tenham um maior nível de capital
humano; c) o capital humano obtido no país de origem, com poucas exceções, é
menos valorizado do que a educação e a experiência adquiridas na sociedade
anfitriã, além de ser difícil a transferência de habilidades para o sistema
imposto pela sociedade hospedeira (Friedberg, 2000; Zeng e Xie, 2004); d) por
acreditar ser temporária a sua permanência no local de destino, a maioria dos
imigrantes aceita os serviços e as condições de trabalho do segundo setor no
mercado de trabalho, desde que venha a ganhar dinheiro para melhorar seu bem-
estar no local de origem (Piore, 1979; Massey et alii, 1993); e) os
empregadores discriminam grupos de imigrantes, dependendo da nacionalidade
(Piore, 1979).
É importante ressaltar que, para os teóricos do mercado segmentado, o
diferencial de rendimentos entre imigrantes e nativos é fruto do próprio
mercado e não de características produtivas dos indivíduos, como o capital
humano. A discriminação seria o motivo para a persistência desse efeito
estrutural sobre os salários e para a limitação da mobilidade dos indivíduos
entre os postos de trabalho, o que evidencia a imperfeição do mercado.
A segunda abordagem, sobre a situação dos imigrantes no mercado de trabalho,
fundamenta-se nas ideias de Sassen (1990; 1998), que argumenta haver grupos de
imigrantes em vantagem, bem como aqueles que se encontram em desvantagem no
mercado de trabalho. De fato, de acordo com a autora, existe sim um mercado
segmentado entre o primeiro e o segundo setores. Porém os imigrantes tendem a
se inserir nos extremos da estrutura ocupacional, isto é, em ocupações de
qualificação muito alta ou muito baixa, muito bem ou muito mal remuneradas,
estáveis ou instáveis. Isto porque, devido à reorganização da economia mundial,
criou-se um espaço transnacional, no qual circulam não apenas mercadorias,
serviços e informações, mas também trabalhadores altamente qualificados e
outros desqualificados. Além disso, a autora acrescenta que não apenas os
países menos desenvolvidos enviam imigrantes, mas também os mais desenvolvidos
(cf. também Portes, 1995).
A terceira abordagem sugere a existência de um mercado paralelo ao mercado
dual, que protege muitos imigrantes de competirem com os nativos no mercado
aberto da sociedade hospedeira. Para os estudiosos dessa corrente, os
imigrantes também inserem-se em ocupações intermediárias ou superiores às dos
nativos (Bonacich, 1973; Portes e Bach, 1985; Light et alii, 1994).
Segundo Bonacich (1973), diversos grupos de imigrantes, ao fixarem residência
na sociedade de destino, ocupam mais as posições intermediárias na hierarquia
ocupacional do que as de baixo escalão. A autora afirma que determinados grupos
de imigrantes tendem a se concentrar em certas ocupações, principalmente na
área do comércio, cumprindo uma função de intermediários entre produtores e
consumidores, empregadores e empregados, elite e massa, que lhes proporcionam
mobilidade ascendente na hierarquia socioeconômica e ocupacional no local de
destino. Além disso, os imigrantes buscam ocupações flexíveis, autônomas, que
não estabelecem vínculos empregatícios formais no mercado aberto, facilitando
assim o retorno à terra natal.
Para Portes e Bach (1985), bem como para Light et alii (1994; 1995), firmas e
setores étnicos empregadores de imigrantes coexistem com as outras firmas no
mercado, permitindo uma situação privilegiada dos imigrantes no mercado de
trabalho, na maioria dos casos. Essa vantagem é válida tanto para os
rendimentos quanto para o status ocupacional (Bonacich, 1973; Portes e Bach,
1985; Light et alii, 1994). Nas empresas de enclave étnico5, os cargos de
direção são ocupados pelos compatriotas do empregador e as posições de mais
baixo escalão costumam ser preenchidas pelos nativos ou pelos membros de outros
grupos étnicos.
Estudos recentes não partem diretamente da ideia de mercado aberto ou paralelo
(Van Tubergen, Maas e Flap, 2004; Kesler e Hout, 2010), porque a realidade
atual é bem diferente daquela em que as abordagens acima floresceram (décadas
de 1970 e de 1980). Atualmente, os países desenvolvidos e os em desenvolvimento
experimentam um processo de informalização, que provoca transformações no mundo
do trabalho, a saber: tendência geral à terceirização; elevação das taxas de
desemprego; precarização do emprego assalariado (Guimarães, 2009; Rivero,
2009).
Tais estudos demonstram que fatores macro, tais como as regiões de destino e de
origem da migração, além das características individuais dos imigrantes, devem
ser considerados para se compreender melhor a situação dos imigrantes no
mercado de trabalho da sociedade hospedeira (Van Tubergen, Maas e Flap, 2004;
Kesler e Hout, 2010). Pesquisas em diversos países identificam que a origem do
imigrante afeta a sua inserção no mercado de trabalho. Ou seja, quando se
analisam diversos grupos de imigrantes de origens diferentes com um destino
semelhante, observa-se que, após controladas as características dos indivíduos
e do local de destino, bem como a situação do mercado, a origem mantém alta
correlação com a localização do indivíduo na estrutura hierárquica
socioeconômica. Em outras palavras, alguns grupos de imigrantes encontram-se em
vantagem e outros em desvantagem, dependendo do grupo de origem, mantendo todo
o resto constante (Van Tubergen, Maas e Flap, 2004).
Pesquisas mostram evidências de que o "negócio étnico" é considerado uma forma
de concentração dos trabalhadores imigrantes, bem como uma rota de mobilidade
social para os mesmos (Portes e Jensen, 1989; Halter, 2007; Kesler e Hout,
2010). Kesler e Hout (2010) chamam atenção para a não-homogeneidade nas taxas
de empreendedorismo étnico e o negócio próprio entre os imigrantes. Além disso,
ressaltam que tais economias étnicas são marcas de sucesso para alguns, mas
podem não passar de um modo de sobrevivência, ou de uma situação temporária,
para outros. Mais uma vez, o sucesso ou o fracasso estão correlacionados com a
origem dos imigrantes.
Em suma, todos esses estudos buscam compreender se os imigrantes se encontram
em situação diferente das vivenciadas pelos nativos, especialmente no que diz
respeito ao mercado de trabalho. Seus achados são de que há sim diferenças
entre esses grupos na estrutura hierárquica do trabalho, não havendo
homogeneização e uma situação generalizante para todos os grupos de imigrantes
étnicos/nacionais. Pelo contrário, o traço marcante é a heterogeneidade. Alguns
encontram-se em vantagem e outros em desvantagem, dependendo mais de suas
origens do que de seus destinos. Outro resultado é o de que, em geral, os
nativos pertencentes a grupos minoritários, tais como mulheres e negros, estão
em situação similar ou pior no mundo do trabalho, em comparação com alguns
grupos étnicos/nacionais. Por fim, os achados são de que o status de migrante,
majoritariamente, gera vantagem no mercado de trabalho (Jong e Madamba, 2001;
Van Tubergen, Maas e Flap, 2004; Kesler e Hout, 2010).
Esses temas são considerados importantes nos países desenvolvidos,
especialmente nos Estados Unidos, para onde se destina um fluxo migratório
intenso. No Brasil, eles não receberam muita atenção das áreas que tratam de
estratificação social e de migração internacional, embora haja exceções (Sala,
2005; Silva, 2006; Vilela, 2008). Provavelmente, a situação decorre do baixo
número de imigrantes internacionais que se dirigem para o país, vis-à-vis os
que se encontram nas economias mais desenvolvidas. Porém o tema da imigração
internacional deve receber melhor atenção dos estudiosos e dos elaboradores de
políticas públicas, dado o papel que os imigrantes tiveram nas histórias antiga
e recente do país. Mais ainda, se considerarmos o surto de desenvolvimento
econômico que o Brasil vem experimentando, que deverá fazer com que aumente o
fluxo desses trabalhadores para o nosso mercado. Essa pesquisa busca ajudar a
preencher essa lacuna, verificando a situação dos imigrantes no mercado de
trabalho brasileiro.
OS DADOS E OS MODELOS DE ANÁLISE
Para realizar a pesquisa, utilizo os dados de uma subamostra do Censo
Demográfico Brasileiro de 2000. Embora não seja a fonte de informação mais
recente, dois motivos principais justificam a minha escolha: o primeiro é que
ela permite identificar e classificar a nacionalidade dos imigrantes
internacionais. Isso não seria possível a partir da Pesquisa de Emprego e
Desemprego (PED) e da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), as
quais agregam todos os imigrantes na categoria "outros países". O segundo
motivo é que o Censo contém uma amostra representativa desses imigrantes no
Brasil, o que não é oferecido pelos dois bancos de dados mencionados.
É importante dizer que os dados censitários sobre imigração internacional são
subestimados, já que há um grande número de imigrantes vivendo no Brasil de
forma clandestina e que, por esse motivo, não são computados pelo Censo
Demográfico oficial. Os números sobre tais imigrantes ilegais são
desconhecidos; sabe-se, porém, que o de latino-americanos é bem maior do que os
apresentados pelas estimativas e levantamentos oficiais (Silva, 1998; 2006;
Ântico, 1998; Martes, 2009)6. Portanto, os resultados mostrados aqui são
limitados, uma vez que se referem aos imigrantes legais.
Esse estudo trabalha com oito grupos de imigrantes7 internacionais, a saber:
argentinos, bolivianos, chilenos, paraguaios, peruanos, uruguaios, chineses8 e
coreanos9. A seleção de tais grupos deve-se a algumas características
específicas, tais como: residência no Brasil a partir da década de 1970,
momento que marca o início de um novo período migratório no país; origem em
países em desenvolvimento; contingente mínimo de 1% do total de imigrantes
internacionais residentes no país, patamar adotado para que se possa tratar
estatisticamente os dados.
Os imigrantes são comparados com os brasileiros natos, tanto os migrantes
quanto os não migrantes10. O primeiro grupo representa as pessoas que não
residiam no mesmo estado de nascimento11 na data do Censo (2000); o segundo
refere-se aos que moravam no estado natal. Essa divisão entre os brasileiros
fundamenta-se no pressuposto de que as pessoas que migram têm características
próprias que as diferem dos não migrantes. Estou falando da "autosseletividade
positiva", isto é, da ideia de que migrantes teriam características
diferenciadoras; em geral, seriam pessoas mais ambiciosas, criativas,
trabalhadoras, competitivas, jovens e educadas do que indivíduos que escolhem
permanecer em seus lugares de origem12, como sugerem os estudos de Chiswick
(1999), Zavodny (2003), Aydemir (2003) e Golgher (2006). No Brasil, Santos
Júnior e colaboradores (2005) verificaram que os homens migrantes internos são
positivamente selecionados, tanto em relação à população de origem quanto à de
destino.
A partir dessa ideia, pressuponho que os brasileiros migrantes internos são, em
geral, diferentes dos brasileiros não migrantes, aproximando-se das
características dos imigrantes internacionais. Dessa forma, infiro que as
diferenças entre os imigrantes internacionais e os brasileiros não migrantes
sejam maiores do que as diferenças entre eles e os brasileiros migrantes, tanto
no que se refere às características pessoais quanto em relação à situação no
mercado de trabalho, o que supostamente acarretaria diferenças em termos de
rendimentos e de status socioeconômico ocupacional.
A análise é segmentada também de acordo com a idade e o sexo. Devido ao meu
interesse em aspectos referentes ao mercado de trabalho (segregação ocupacional
e rendimento) e, a despeito das diversidades de inserção no mercado de trabalho
entre homens e mulheres (Soares, 2000; Gomes e Wajnman, 2005)13, analiso apenas
os homens em idade economicamente ativa (ocupados e desocupados), entre 25 e 60
anos de idade. A idade mínima de 25 anos foi definida porque, em geral, pessoas
nessa faixa etária têm grande probabilidade de já terem concluído seus estudos,
estando mais propensas a estar inseridas no mercado de trabalho14; a idade
máxima de 60 anos deve-se ao fato de ser esta a idade de aposentadoria dos
homens no Brasil no ano de 2000.
Para a análise dos dados, utilizo três técnicas estatísticas diferentes: Modelo
Heckman, Regressão Logística Multinomial e Decomposição de Oaxaca. A primeira
permite apresentar os estimadores de uma regressão linear múltipla, além de
possibilitar o controle de um eventual viés de seleção na amostra. No caso da
presente pesquisa, o viés poderia ocorrer caso fossem incluídos na amostra
apenas os indivíduos que trabalham, deixando de fora os que não trabalham. De
acordo com Heckman (1979), pessoas que estão fora do mercado de trabalho têm
motivos não observados que, indiretamente, podem influenciar os salários
daquelas que estão empregadas. Desta forma, foram incluídos tanto os ocupados
quanto os desocupados, conforme sugere o modelo de regressão criado por
Heckman, que verifica se existe eventual viés de seleção, corrigindo-o em caso
afirmativo.
Em um modelo desse tipo, existem duas regressões simultâneas: uma logit,
referente à variável dependente binária, que controla as informações
relacionadas ao fato do indivíduo estar ou não empregado; e outra linear,
relativa à variável dependente contínua, que constitui a resposta que quero
avaliar efetivamente. Para o cálculo dessa última, utilizo o logaritmo natural
de rendimentos mensais em todos os trabalhos executados:ln(S)i (Salário/mês).
Na aplicação do modelo logit, utilizo a variável Trabremun, que é apresentada
na forma binária: ocupados são codificados como 1; desocupados ou inativos,
como 0. No procedimento proposto por Heckman, essa é a variável que testa se a
seleção na amostra é enviesada e possibilita o seu controle, em caso
afirmativo.
Embora a regressão logística do Heckman seja importante para o cálculo dos
estimadores de rendimentos dos imigrantes e dos brasileiros, os seus resultados
não são apresentados no texto, como forma de poupar o leitor de um excesso de
números. Portanto, apenas os estimadores da equação linear são analisados no
decorrer do trabalho. A seguir, apresento o modelo:
γ = ln(S)i =β0 +β1 Origem +β2 Educ +β3 Exp +β4 Exp2 +β5 Região +
β6 Urbano +β7 Branca +β8 Estado civil +β9 Posidom +β10 Ter Relig
β11 Posição de classe +β12 Horas +β13 Quant Trab,select=trabremun=β0+β1
Origem +β2 Educ +β3 Exp +β4 Exp2 +β5 Região +β6 Urbano +β7 Branca +
β8 Estado civil +β9 Posidom +β10 Ter Relig + ε
Onde,
ln(S)i é o logaritmo natural de rendimentos em todos os trabalhos do indivíduo
i;
Trabremun é a variável de controle de viés de seleção;
β0, a constante;
β1, 2... 13 os estimadores das seguintes variáveis explicativas:
a)β1 - origem: variável indicadora dos grupos étnicos/nacionais, que
agrega nove variáveis binárias - os brasileiros não migrantes ou os
brasileiros migrantes (categorias de referência), os argentinos, os
bolivianos, os chilenos, os paraguaios, os peruanos, os uruguaios, os
chineses e os coreanos. Trata-se de variável explicativa fundamental,
principal foco da presente análise.
b)β
1, 2... 13 - Educação (Educ); experiência (Exp); experiência ao
quadrado (
Exp2
); cor branca; ter religião (TerRelig); estado civil (casado,
separado, viúvo); posição no domicílio (Posdom; cônjuge, filho ou
outra posição); região (Nordeste, Norte, Sul e Centro-Oeste); urbano;
horas; e quantidade de trabalho (QuantTrab). A descrição dessas
variáveis e suas respectivas medidas podem ser vistas no Apêndice
I15. Ressalto que os asiáticos são comparados apenas com os
brasileiros brancos. Não faria muito sentido comparar coreanos e
chineses, cuja população é quase 100% branca, com brasileiros não
brancos, por essa ser uma comparação entre grupos heterogêneos.
εé o termo referente ao erro.
A segunda técnica de análise permite mensurar o status sócio-ocupacional dos
grupos de indivíduos. O modelo logístico multinomial parece ser o mais
apropriado para essa situação, já que a variável resposta contém mais de duas
categorias. Seja Yi uma variável resposta aleatória categórica,
consequentemente Yi=1,2...J categorias. Para descrever a distribuição de
probabilidade de Yi, faz-se necessário definir um vetor aleatório. No caso
desse estudo, o Yi é posição de classe16 composta por quatro categorias, sendo:
a) classe 1: profissionais, administradores, trabalhadores não manuais de alto
nível e pequenos proprietários empregadores (categoria de referência); b)
classe 2: pequenos proprietários e conta-própria, técnicos e supervisores do
trabalho manual, trabalhadores não manuais de baixo nível, trabalhadores
manuais qualificados e pequenos empregadores rurais; c) classe 3: trabalhadores
manuais semiqualificados e não qualificados e os trabalhadores rurais; d)
classe 4: desocupados e inativos17. Tais categorias podem ser visualizadas no
Quadro_1.

Para a construção da variável "posição de classe", fundamento-me no trabalho de
Ribeiro (2003), que se baseia no esquema CASMIN (Comparative Analysis of Social
Mobility in Industrial Nations). Ao ser comparado com outras classificações de
status ocupacional, o CASMIN apresenta a vantagem de ser semelhante ao índice
criado por Nelson do Valle Silva (1988, apud Ribeiro, 2003), amplamente
utilizado em estudos da área. Além disso, ele possibilita fazer comparações
internacionais e admite agrupar as ocupações em posições de classes baseadas em
alguma forma de hierarquia18, o que facilita as análises e as conclusões
(Ribeiro, 2003).
Ao fazer a distinção de classe, a CASMIN baseia-se em quatro critérios
principais. O primeiro deles refere-se às relações de emprego (proprietários -
empregadores e autônomos - empregados). O segundo critério diz respeito às
diferenças de contratos de trabalho (restrito - diretamente supervisionados -
ou amplo - que tem autonomia e autoridade). O terceiro envolve os contrastes
entre proprietários empregadores e proprietários autônomos ou por conta-
própria. O quarto critério fundamenta-se nas diferenças entre trabalho não
manual urbano, trabalho manual urbano e trabalho rural (Ribeiro, 2003).
É importante destacar que a variável "posição de classe" é dependente no Modelo
Logístico Multinomial19, mas é independente no Modelo Heckman, que se refere a
rendimento. Para o controle do viés de seleção na regressão logística
multinomial, incluo a variável denominada probTrab (probabilidade de trabalhar)
na equação, como propõem Jong e Madamba (2001). Ela diz respeito à
probabilidade de o indivíduo estar ocupado, calculada em uma regressão
logística que tem como variável dependente "Trabremun" (apresentada no Modelo
Heckman). Isso é feito porque o Modelo Logístico Multinomial não permite
computar simultaneamente as duas equações, como faz o Modelo Heckman. Sendo
assim, a equação da segunda técnica tem o seguinte formato:
Onde j representa a j-ésima categoria, 1 a categoria de referência, P a
probabilidade,β0 é a constante,β1, 2... 11 os estimadores das variáveis
independentes eΕo erro.
A terceira técnica, o Modelo de Decomposição de Oaxaca, permite identificar a
discriminação dos imigrantes internacionais no mercado de trabalho (Oaxaca,
1973; Jann, 2008). Ela é similar ao método de discriminação de média proposto
por Silva (1980; 1981), que tem a mesma função. O modelo é fruto de estimativas
de regressões do tipo "Heckman" referente a rendimentos dos dois grupos que se
deseja comparar, no caso: brasileiros (b) (sendo uma equação para brasileiros
migrantes e outra para brasileiros não migrantes) e imigrantes internacionais
nascidos no país j (imj). Para isso, é necessário calcular uma equação de
rendimentos para cada grupo separadamente e computar a decomposição de Oaxaca,
a partir dos componentes não explicado (1) e explicado (2), com os seguintes
formatos:
[/img/revistas/dados/v54n1/03x01e02.jpg]
Onde:
D é a medida de discriminação, valor não explicado pelas variáveis incluídas
nos modelos.
refere-se ao intercepto da equação mensurado para brasileiros (migrantes ou
não migrantes).
diz respeito ao intercepto da equação calculado para os imigrantes
internacionais no país j .
indica as diferenças de rendimentos entre os grupos em comparação, assumindo
um mesmo valor para todas as variáveis explicativas. Uma diferença positiva no
seu resultado diz o quanto os brasileiros são mais bem pagos do que o grupo de
imigrantes oriundo do país j.
significa a valorização desigual de um mesmo atributo (pessoal ou produtivo),
apenas por serem de grupos diferentes. O cálculo é feito pelo somatório dos
valores das médias das variáveis independentes , para cada grupo de imigrante,
multiplicado pela diferença entre os coeficientes dos estimadores das variáveis
independentes do grupo de brasileiros e do grupo de imigrantes . Essa equação
resulta na parcela não explicada do hiato salarial, atribuíveis aos valores
diferentes dados aos atributos apresentados a partir das variáveis
estabelecidas no modelo. Novamente, um valor positivo indica que os atributos e
as características dos brasileiros são mais valorizados do que aqueles
referentes aos imigrantes originários do país j.
A soma dos dois termos da equação representa a diferença dos rendimentos que
não é explicada pelo contraste dos atributos (pessoais e referentes ao
trabalho) entre brasileiros e imigrantes. Esse é o componente residual, que é
denominado "componente discriminatório" ou "discriminação". Um valor negativo
desse estimador representa maiores rendimentos para o grupo étnico/nacional em
análise; se positivo, significa vantagem salarial para os brasileiros.
A análise do componente de discriminação deve ser feita com cautela, já que a
precisão nas conclusões sobre o efeito de origem como fator de discriminação
depende diretamente da especificação utilizada nas equações dos rendimentos. Em
outras palavras, o componente discriminatório é aquele que não é explicado por
nenhum dos determinantes utilizados no modelo. Dessa forma, quanto maior o
número de variáveis relevantes para explicar os salários, menor o componente
discriminatório. A não inclusão de variáveis importantes, devido à negligência
ou à falta de dados, acarretará um peso maior do componente discriminatório
(Gomes e Wajnman, 2005; Jann, 2008). Exemplo disso é a ausência de medida de
background familiar. A sua omissão não anula os resultados das outras variáveis
na equação, contudo pode reduzir o peso do componente discriminatório entre os
grupos (Gomes e Wajnman, 2005), ou simplesmente mudar o valor do coeficiente de
estimação da educação, já que essas variáveis são altamente correlacionadas.
A discriminação ocorre quando trabalhadores, cujos atributos produtivos são
considerados idênticos, recebem salários diferentes. Essa diferença fundamenta-
se em algumas características que não são consideradas produtivas e não são
mensuradas no modelo20.
O componente explicado E, ou endowment, refere-se à diferença de remuneração
resultante dos contrastes de características entre os grupos analisados,
ponderado pelo valor dado às mesmas características para o grupo de referência.
Ele demonstra como os dois grupos seriam remunerados, se não houvesse nenhum
tipo de discriminação no mercado de trabalho (Gomes e Wajnman, 2005; Sala,
2005). Caso não haja diferença entre os grupos quanto aos atributos produtivos,
tais como educação e experiência, o resultado do somatório será zero. Assim, o
diferencial de rendimento está no componente não explicado, ou seja, no
componente discriminatório, e não nas características e nas habilidades dos
indivíduos. Na seção seguinte, apresento os resultados referentes às
desigualdades de posição de classe e de rendimentos e ao componente
discriminatório no mercado de trabalho brasileiro.
OS RESULTADOS
Desigualdade de posição de classe e rendimentos
A primeira análise refere-se às posições de classes dos grupos em estudo. Busco
identificar se há diferença significativa na probabilidade de inserção de
nativos e de imigrantes em posições de classes distintas. Os resultados podem
ser vistos na Tabela_1.
[/img/revistas/dados/v54n1/03t01.jpg]
Quando comparo a posição de classe entre brasileiros e bolivianos, chilenos,
paraguaios e uruguaios, os brasileiros têm as maiores chances de estarem na
classe 1, e não na classe 2 (ver Tabela_1). Os resultados são similares entre
brasileiros e argentinos, bem como entre brasileiros e peruanos, já que, em
geral, os estimadores não se apresentam estatisticamente significativos. As
maiores probabilidades de estarem na classe 1, e não na classe 3, são dos
argentinos, dos chilenos e dos peruanos, e não dos brasileiros. Embora
bolivianos, paraguaios e uruguaios tenham apresentado tendência de maior
concentração na classe 1, e não na classe 3, os resultados não são
estatisticamente significativos, sugerindo maior similaridade do que diferença
em relação aos brasileiros.
Em síntese, identifico que os latinos têm chances maiores ou similares de se
inserirem em ocupações de maior prestígio, quando comparados aos brasileiros.
Em outras palavras, eles tendem menos a localizarem-se em posições de classes
de trabalhos semiqualificados ou não qualificados e rurais, em comparação aos
nativos. Esse fato sugere a negação da hipótese de desvantagem desses grupos
étnicos/nacionais no mercado de trabalho, quando comparados aos nativos.
No que se refere aos asiáticos, os resultados apresentam uma tendência mais
acentuada de coreanos e de chineses pertencerem à classe 1, e não às outras
classes, quando comparados aos brasileiros. Dito de outra forma, os nativos têm
probabilidade bastante elevada de pertencerem à classe 3 e, em grau menor, à
classe 2 (vide Tabela_1).
Os resultados quanto à posição de classe não suportam a ideia de que os grupos
étnicos/nacionais estariam em pior situação ocupacional do que os nativos. Além
disso, tais resultados corroboram as pesquisas internacionais recentes, quando
apresentam uma heterogeneidade nas posições em que se encontram os imigrantes.
Os achados apresentam maiores discrepâncias no que diz respeito aos
rendimentos, quando comparo latinos com brasileiros migrantes e com os não
migrantes. É o que mostra a tabela que se segue.
Após controlar as características individuais e as referentes à situação de
mercado, as origens argentina e chilena apresentam efeitos positivos sobre os
rendimentos, isto é, os trabalhadores dessas nacionalidades/etnias tendem a ter
salários melhores do que os brasileiros não migrantes, com valores de 24% e 8%
superiores, respectivamente. Já os uruguaios tendem a receber rendimentos
menores (5% em média) do que os nativos não migrantes. Nos casos de bolivianos,
paraguaios e peruanos, os coeficientes não são estatisticamente significativos,
indicando assim que não existe diferença entre esses grupos e os brasileiros
não migrantes, no que diz respeito aos ganhos salariais.
Nesse contexto, alguém pode questionar se as diferenças encontradas não se
referem à variável origem, mas sim ao fato de ser migrante ou não migrante; ou
seja, o efeito observado seria pelo fato de ser imigrante, independente das
características referentes à nacionalidade. Afinal, a literatura pressupõe que
imigrantes têm características próprias que os fazem mais capazes,
trabalhadores, ambiciosos e produtivos permitindo-lhes que tenham sucesso
econômico. A partir das alterações encontradas nos estimadores da variável
"origem" entre imigrantes internacionais e brasileiros migrantes, sugiro que
parte do efeito dos estimadores de origem, encontrados nos modelos 1 e 2, tem
embutido o status de migrante afetando os rendimentos. Entretanto, caso o
efeito fosse apenas o fato de "ser imigrante", excluindo o efeito de origem, os
resultados dos estimadores dessa variável sobre os diferenciais de rendimentos
entre imigrantes internacionais e brasileiros migrantes não seriam
significativos e não teriam valores tão díspares, pois todos os grupos
analisados nos modelos 3 e 4 dizem respeito aos migrantes (internacionais ou
internos). Entretanto, os resultados foram mais significativos do que aqueles
encontrados entre imigrantes internacionais e brasileiros não migrantes.
Quando os latinos são comparados aos nativos migrantes, o quadro altera-se.
Bolivianos, paraguaios, peruanos e uruguaios apresentam coeficientes negativos,
o que significa que eles estão associados a rendimentos menores em 14%, 15%, 9%
e 11%, respectivamente, do que os nativos; os chilenos deixam de ter
coeficientes significativos, demonstrando assim possuírem rendimentos similares
aos dos brasileiros migrantes; já os argentinos mantêm coeficientes positivos,
mas com percentuais menores, no patamar de 17%.
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As variáveis referentes aos chineses e aos coreanos apresentam coeficientes
positivos e significativos, quando comparadas aos brasileiros não migrantes e
migrantes. Os chineses tendem a ter rendimentos superiores aos dois grupos de
brasileiros em 34% e 23%, respectivamente; os valores para os coreanos chegam a
ser 66% e 53% superiores. Vale destacar que essas diferenças têm um peso ainda
maior do que aparentam, uma vez que esses grupos étnicos/nacionais estão sendo
comparados com os nativos brancos apenas, os quais são o grupo mais bem
remunerado no país, como evidenciado por pesquisas empíricas (Soares, 2000;
Campante, Crespo et alii, 2004).
Chamo atenção para o fato de que os coeficientes da variável origem dos
imigrantes internacionais perdem intensidade quando controlo o status de
migrante. No caso de argentinos, por exemplo, a diferença de rendimentos cai de
24% para 17% quando o grupo de comparação muda dos nativos não migrantes para
migrantes. A alteração é maior para os coreanos, que mudam de 66% para 53%.
Quanto aos grupos étnicos/nacionais que apresentam rendimentos similares ou
inferiores aos dos brasileiros não migrantes, há um aumento dessas diferenças
ao serem comparados aos migrantes nacionais. Os bolivianos, os paraguaios e os
peruanos passam a estar em desvantagem no mercado de trabalho, com salários
menores em 14%, 13% e 9%, respectivamente, vis-à-vis os brasileiros migrantes.
Os uruguaios, que apresentam rendimentos inferiores aos brasileiros não
migrantes, aumentam essa diferença negativa para 11%. Esses dados reforçam a
afirmativa de Santos Júnior e colaboradores (2005) de que os homens migrantes
internos no Brasil são positivamente selecionados.
As análises dos diferenciais de rendimentos mostram também uma não
homogeneidade quanto à situação dos imigrantes internacionais no Brasil, como
ocorrido no exame das posições de classes. Esses resultados são similares aos
encontrados nas pesquisas internacionais (Jong e Madamba, 2001; Van Tubergen,
Maas e Flap, 2004; Kesler e Hout, 2010). Eles permitem supor que os imigrantes
internacionais agregam-se em três grupos distintos. O primeiro é formado por
coreanos e chineses, que apresentam salários e localizações ocupacionais
melhores do que os brasileiros, sejam migrantes, sejam não migrantes. O segundo
grupo é formado por argentinos e chilenos, ainda em vantagem no mercado de
trabalho quando comparados aos nativos, mas em um nível inferior aos dos
asiáticos. Em terceiro lugar, vêm os bolivianos, os paraguaios, os peruanos e
os uruguaios, que se encontram em patamar semelhante ou inferior na estrutura
hierárquica do mercado de trabalho, em relação aos brasileiros. Em suma, os
dados confirmam que há desigualdade étnico/nacional no mercado de trabalho
brasileiro, uma vez que origem afeta as localizações ocupacionais e os
rendimentos dos imigrantes internacionais.
Cabe lembrar que tais resultados estão próximos aos encontrados pelos estudos
recentes no âmbito internacional. Eles não se adequam ao pressuposto dos
pensadores da corrente do mercado dual que afirma que os imigrantes, em geral,
se encontram nas ocupações da base da estrutura ocupacional, obtendo,
consequentemente, rendimentos mais baixos do que os percebidos pelos nativos.
As ideias de Sassen (1988) e de Portes e Bach (1985), bem como a de Light et
alii (1994; 1995) e de Bonacich (1973) são as mais indicadas para explicar a
situação dos imigrantes internacionais no contexto brasileiro.
O que, porém, essa pesquisa traz de diferente das ideias correntes no senso
comum? Os indivíduos, em geral, podem dizer que as diferenças entre os
imigrantes e os brasileiros são esperadas, já que os primeiros têm maior ou
menor nível de capital humano, são da raça/cor branca ou não branca, ou por
conta de outros fatores referentes aos seus atributos produtivos. No entanto,
esse estudo demonstra que, mantendo tais características constantes, além da
posição no mercado de trabalho e das variáveis socialmente significativas -
raça/cor, educação, experiência, horas de trabalho, números de postos de
trabalho, posição de classe, estado civil e posição no domicílio -, as
diferenças baseadas na origem ainda permanecem. Ele mostra também que as
diferenças não são generalizantes dentro dos grupos de latinos e de asiáticos,
conforme frequentemente se acredita. Isto é, entre esses grupos, há subgrupos
em situação distinta no mercado de trabalho brasileiro. Tais achados levantam
uma nova questão a ser analisada: quanto desses diferenciais deve-se à
discriminação no mercado de trabalho?
Análise da discriminação
Segundo Borjas (1986), a discriminação salarial é reflexo também da
discriminação no mercado de trabalho, quando os empregadores levam em
consideração atributos como raça, gênero e origem nacional, no momento de
realizarem a troca de salário por produto. Baseada nessa ideia, verifico se
origem étnica/nacional é um componente discriminatório no mercado de trabalho.
Para tanto, calculo modelos de decomposição de Oaxaca para o valor dos
rendimentos salariais em todos os trabalhos de brasileiros e de imigrantes
(Oaxaca, 1973; Silva, 1980).
Frequentemente, os estudos sobre a diferença de remuneração entre imigrantes e
nativos utilizam uma variável binária, que separa a amostra em dois grupos
(conforme foi feito anteriormente). Entretanto, tal procedimento não capta as
possíveis distinções do impacto das variáveis explicativas para cada origem
étnico/nacional. Por conseguinte, não mensura o peso de discriminação sobre os
grupos de indivíduos. Sendo assim, proponho realizar a decomposição de
rendimentos entre cada grupo étnico/nacional de imigrantes e de nativos no
intuito de verificar o efeito de tais fatores.
A partir dos resultados das desigualdades expostos anteriormente, apresento
algumas proposições para a análise de discriminação. A primeira é de que os
resultados do componente discriminatório são diferentes entre os grupos de
imigrantes: positivo em alguns casos e negativo em outros. A outra é de que a
discriminação negativa é sofrida por bolivianos, paraguaios, peruanos e
uruguaios e a positiva, por argentinos, chilenos, coreanos e chineses. A última
é de que a discriminação negativa aumenta e a positiva reduz, quando o grupo de
referência são os nativos migrantes.
De fato, a partir da Tabela_3, verifico que os resultados são desiguais quando
se analisam as diferenças de rendimentos entre cada grupo de imigrantes
internacionais e de brasileiros (migrantes ou não migrantes). Ou seja, há
grupos que são discriminados positivamente e outros negativamente no mercado de
trabalho. Vale lembrar que o sinal positivo significa vantagens salariais para
os brasileiros; os negativos, desvantagens.
A Tabela_3 apresenta os diferenciais dos rendimentos médios dos grupos e os
componentes explicado e não explicado, sendo esse último o elemento
discriminatório. Quando analiso o primeiro termo dos diferenciais de rendas,
isto é, as diferenças nos rendimentos médios dos grupos em análise
(independente dos coeficientes dos estimadores das variáveis inseridas no
modelo), verifico que os brasileiros têm proventos mais baixos do que os
latinos e os asiáticos. Argentinos, chilenos e coreanos são os que apresentam
as maiores médias salariais, em relação aos brasileiros. Já os paraguaios e os
chineses detêm as menores médias, quando comparados aos brasileiros.
O termo explicado (endowments) demonstra que parte da vantagem salarial dos
grupos étnicos/nacionais sobre os brasileiros deve-se ao fato de eles
apresentarem atributos produtivos e localizações melhores no mercado de
trabalho, como, por exemplo, maior nível educacional e experiência no mercado
de trabalho, melhores posições de classes e maior concentração na área urbana.
Ou seja, esse componente diz o quanto as variáveis do modelo de regressão
explicam as diferenças encontradas nos salários dos grupos analisados. Chamo
atenção para o fato de que todos os imigrantes, exceto paraguaios comparados
aos brasileiros migrantes, apresentam, em média, melhores atributos produtivos
que os nativos migrantes e não migrantes.
Vale destacar que esse resultado também mostra que capital humano é
insuficiente para predizer o rendimento dos indivíduos. Os diferenciais de
rendimentos não são explicados apenas por divergências quanto aos atributos
produtivos dos indivíduos, mas pelo componente de discriminação ou o componente
não explicado, que é o último termo representado na Tabela_3. Destaco, mais uma
vez, que a ausência de variáveis importantes para explicar salários - provocada
pela falta de dados - pode elevar o peso e o valor desse componente. Isto é, a
inclusão de tais variáveis no modelo levaria à redução dos valores dos
coeficientes estimados do componente não explicado, demonstrando uma maior
precisão sobre o valor de uma discriminação pura. Contudo, esse fato não retira
a importância dos achados, os quais demonstram que há outros fatores
determinando os rendimentos dos homens no mercado de trabalho, além dos
atributos produtivos, altamente valorizados (como, por exemplo, educação, raça,
experiência, horas de trabalho, posição de classe, região, situação de
moradia). Um desses fatores refere-se, provavelmente, à origem étnico/nacional
do imigrante, sugerindo assim uma discriminação "pura".
Os dados mostram que, quando comparados aos brasileiros não migrantes, os
argentinos, os chilenos e os coreanos encontram-se em vantagens na troca de
capital por produto (visão do empregador) ou de produto por capital (visão do
consumidor). Isso porque eles apresentam uma discriminação positiva no mercado
de trabalho brasileiro. Ou seja, eles obtêm rendimentos melhores do que os
nativos não migrantes, devido a outros fatores que não suas habilidades de
produção. Em outras palavras, eles recebem, respectivamente, 22%, 12% e 17% a
mais do que deveriam receber, considerando o capital humano, a localização no
mercado de trabalho e a situação de residência. Tais diferenças podem aparecer
pelo simples fato de serem originários de tais países, geralmente considerados
mais desenvolvidos ou em estágio de desenvolvimento similar ao do Brasil.
Outras explicações viriam do fato de pertencerem a um enclave étnico, de estar
fora do mercado competitivo aberto, ou por causa de motivos não mensurados nos
modelos.
No caso dos outros grupos de origem latina, o componente de discriminação não
se apresenta estatisticamente significativo. Os chineses são os únicos que
apresentam um coeficiente positivo, representando uma discriminação negativa
para eles. Ou seja, eles deveriam ganhar 629% a mais do que ganham. Esse
resultado é bastante interessante, uma vez que, nas análises anteriores das
diferenças de posição de classe e de rendimentos, os chineses mostraram-se em
melhor situação socioeconômica, quando comparados aos brasileiros. Entretanto,
esse fato não ocorre com a análise da discriminação. Tal fato anula a
pressuposição que supunha uma discriminação positiva para esse grupo. Uma
possível explicação para esse achado pode se dar pelo fato de os chineses
pertencerem a um enclave étnico. Nesse caso, fazer parte dele pode ter um
impacto negativo para esses imigrantes. A possibilidade disso ocorrer existe,
uma vez que nem sempre capital social21 acarreta vantagens para os seus membros
(Portes, 2000; Lin, 2006). Segundo Portes (2000:146), estudos recentes
verificaram que existem, no mínimo, quatro consequências negativas do capital
social: exclusão dos não membros; exigências excessivas a membros do grupo;
restrições à liberdade individual; e normas de nivelação descendente.
Outra justificativa talvez venha do fato de eles não terem o enclave como
proteção e acabarem competindo no mercado de trabalho aberto, onde os
empregadores ou consumidores preferem mais o convívio com pessoas de outros
grupos com características diferentes das apresentadas pelos chineses,
ocasionando a sua discriminação. Uma explicação distinta, mas não excludente,
pode se dar pelo fato de que características não incluídas no modelo teriam
efeito no sentido de reduzir o peso desse componente não explicado, como, por
exemplo, tempo de residência no Brasil, idade ao migrar, o mismatch (uma sobre-
educação na ocupação). Tais efeitos devem ser superiores para os chineses, já
que eles têm percentuais mais altos de pessoas que imigraram com 41 anos de
idade ou mais, com mismatch, e que residem há 10 anos ou menos no país (Vilela,
2008). Esse último fator parece relevante, dado que o salário inicial dos
migrantes, por hora, é US$ 0,50 menor do que o dos nativos (Jong e Madamba,
2001). No entanto, é importante dizer que essa diferença se reduz em 0,8% a
cada ano de residência na sociedade hospedeira. Esse fato pode ser relevante
para bolivianos, paraguaios e peruanos por terem, também, percentuais altos de
pessoas com poucos anos de residência no Brasil.
Vale lembrar que os chineses e os coreanos estão sendo comparados com o grupo
de brasileiros brancos, que costumam ganhar os melhores salários. Assim, os
asiáticos apresentam diferenças salariais médias menores do que se esperaria,
se eles fossem comparados com os brasileiros em geral, como é o caso dos
latinos.
Quando comparados aos brasileiros migrantes, os argentinos são os únicos que
continuam com um componente discriminatório positivo e estatisticamente
significante. Eles ganham, em média, 14% a mais do que deveriam ganhar,
controlando suas habilidades e suas localizações no mercado. Os outros grupos
que apresentam coeficientes estatisticamente significativos recebem menos do
que lhes cabem, a saber: bolivianos (-95%), paraguaios (-171%), peruanos (-
83%), uruguaios (-45%) e chineses (-118%). Tais resultados refutam a segunda
pressuposição e confirmam a terceira.
Como pode ser verificado na Tabela_3, não só o sentido (positivo ou negativo)
da discriminação é diferente para os grupos de imigrantes, mas também a sua
intensidade. Os valores percentuais apresentados na tabela indicam a magnitude
do componente não explicado sobre a remuneração, em benefício ou em prejuízo
dos grupos étnicos/nacionais. Em outras palavras, a decomposição do diferencial
de renda dos brasileiros e dos imigrantes demonstra o quanto de diferença
salarial é referente aos atributos e às características dos indivíduos e o
quanto é determinado por outros fatores, incluindo a discriminação.
Esses resultados são diferentes daqueles apresentados por Sala (2005) em seu
estudo sobre a discriminação dos imigrantes oriundos do Cone Sul (argentinos,
bolivianos, chilenos, paraguaios e uruguaios). Segundo a autora, apenas os
bolivianos são discriminados negativamente no mercado de trabalho brasileiro.
Talvez a diferença entre os achados possa ser explicada pela distinção entre as
amostras, já que Sala (2005) analisou discriminação apenas dos imigrantes
qualificados, ao passo que o presente estudo inclui tanto imigrantes
qualificados quanto os não qualificados22.
Por outro lado, os resultados encontrados confirmam as ideias de Borjas (1986),
Ferrer, Geen e Riddel (2004) e de Vainer (1995). Para eles, as diferenças de
rendimentos no mercado de trabalho explicam-se pelas desigualdades na
escolaridade, na experiência e também em função da discriminação exercidas por
alguns empregadores. Isto é, esses podem pagar menos aos trabalhadores
imigrantes do que aos naturais do país, devido a uma discriminação pura.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Quando analiso as diferenças nas posições de classe e nos rendimentos entre os
grupos étnicos/nacionais e os brasileiros, verifico que, em geral, os
imigrantes internacionais tendem a ser beneficiados ou estarem em condições
iguais às dos nativos. Os benefícios são maiores para os argentinos, os
chineses e os coreanos, seguidos, em menor grau, por chilenos. Isso acontece
tanto no que diz respeito aos rendimentos quanto às posições de classe. Já
bolivianos, paraguaios, peruanos e uruguaios tendem a estar em localizações
ocupacionais similares ou melhores do que os brasileiros. No entanto, não
apresentam vantagem em termos de ganhos salariais.
Quando o grupo de referência é o de brasileiros migrantes, os grupos de latinos
e asiáticos tendem a manter suas vantagens quanto às posições de classes.
Porém, os resultados alteram-se no que diz respeito aos rendimentos.
Argentinos, coreanos e chineses continuam apresentando vantagens salariais, mas
em menor grau. Os chilenos perdem suas vantagens, isto é, as diferenças passam
a não ser estatisticamente significativas. Para bolivianos, paraguaios e
peruanos a situação piora, ou seja, eles passam a demonstrar um impacto
negativo da variável "origem" sobre seus rendimentos. No caso dos uruguaios,
que já tinham apresentado um coeficiente negativo, quando comparados aos
nativos não migrantes, apresentam um maior coeficiente negativo, passando de 5%
para 11% a menos nos seus rendimentos.
Os resultados quanto à posição de classe não suportam a ideia de que os grupos
étnicos/nacionais estariam em pior situação na hierarquia ocupacional no
mercado de trabalho do que os nativos. Os achados são de que os imigrantes
internacionais têm menores chances de se concentrarem na classe 3 do que os
brasileiros. Além disso, tais resultados corroboram as pesquisas internacionais
recentes, quando apresentam uma heterogeneidade nas posições em que se
encontram os imigrantes.
Outro ponto a considerar, demonstrado por essa primeira análise, é de que o
status de migrante tem impacto positivo no mercado de trabalho. Isso é
evidenciado pelas alterações apresentadas nos coeficientes da variável "origem/
etnia". Isto é, quando controlo o status de ser migrante, as vantagens
identificadas dos grupos étnicos/nacionais sobre os nativos não migrantes
perdem peso ou deixam de existir. Esse fato confirma a visão de migração como
capital humano.
A partir disso, apresento três pressuposições para a análise de discriminação.
A primeira é de que ela apresenta resultados diferentes entre os grupos de
imigrantes: positiva em alguns casos e negativa em outros. A segunda é de que a
discriminação negativa é sofrida por bolivianos, paraguaios, peruanos e
uruguaios e a positiva por argentinos, chilenos, coreanos e chineses. A
terceira é de que a discriminação negativa aumenta e a positiva reduz, quando o
grupo de referência são os nativos migrantes. A primeira e a última são
confirmadas. A segunda é rejeitada, uma vez que, entre os chilenos e os
coreanos, não verifico a discriminação positiva frente os brasileiros
migrantes; além disso, os chineses apresentam uma possível discriminação
negativa, quando comparados aos brasileiros em geral.
Como pode ser visto, não são todos os imigrantes que são discriminados
negativamente no mercado de trabalho. Uma possível explicação encontra-se na
existência de um enclave étnico estabelecido por alguns grupos de imigrantes, o
que pode ser o caso dos coreanos no Brasil com suas firmas étnicas. As
confecções, no bairro Bom Retiro na cidade de São Paulo, são um bom exemplo
disso. Entretanto, em alguns casos, pertencer a um enclave étnico pode ser
desvantajoso para os seus membros. É o que parece acontecer com os chineses no
país. O teste de tal hipótese é um ótimo tema para estudo futuro.
Outra sugestão de explicação baseia-se na afirmativa de Vainer (1995) de que a
discriminação estigmatizante é maior quando o país de origem está em uma
posição inferior (do ponto de vista econômico, político e simbólico) vis-à-vis
o país receptor. Segundo o autor, o processo migratório produz relações
assimétricas entre estados nacionais. Essas relações manifestam-se no
quotidiano dos imigrantes, a partir da discriminação, da exploração e da
dominação dos nativos sobre eles. De fato, os dados sugerem uma situação
vantajosa para os imigrantes que são oriundos de países tidos como emergentes,
mais desenvolvidos ou em estágio de desenvolvimento semelhante ao do Brasil,
como é o caso da Argentina, do Chile e da Coreia. O oposto é encontrado para os
originários da Bolívia, do Paraguai, do Peru, do Uruguai e da China, que
apresentam um componente discriminatório negativo. Não é demais lembrar que
falo da China dos anos anteriores à data do Censo (2000), que estava longe de
ser a potência econômica que é hoje.
É importante ressaltar que, com os resultados da Decomposição de Oaxaca, mais
uma vez, o status de migrante apresenta-se como um fator que impacta
positivamente os rendimentos dos brasileiros. Essa é mais uma confirmação de
que a imigração pode e deve ser considerada como capital humano, como foi
proposto por Schulzts (1973). Dessa forma, torna-se uma variável indispensável
na análise da situação dos indivíduos no mercado de trabalho.
Partindo desses achados, surge uma questão para reflexão futura: será que os
grupos de imigrantes que apresentam um componente discriminatório desfavorável
no mercado de trabalho brasileiro, comparados aos brasileiros não brancos
apenas - os quais se encontram em desvantagens econômicas e sociais no sistema
de estratificação brasileiro (Silva, 1981; Hasenbalg e Silva, 2003) -, estão em
pior situação no mercado de trabalho? Essa é uma análise importante para o
desenvolvimento dos estudos de estratificação social e desigualdade no Brasil.
NOTAS
1. Capital incorporado pelos seres humanos, especialmente nas formas de
educação, saúde, experiência no mercado de trabalho, saúde e migração.
2. Podem ser consumidores também, no caso dos trabalhadores por conta-própria.
3. Segundo Piore e Sabel (1984), os fatores que geram o mercado dual são,
principalmente, os seguintes: a) os requerimentos impostos sobre a força de
trabalho; b) uma simples e pura discriminação no mercado de trabalho; c) fortes
resistências para mudar e agir em prol de esforços contra a pobreza, isto
porque existem pessoas, ou grupo de pessoas, interessadas em perpetuar a
pobreza; d) acomodação do trabalhador ao tipo de emprego; e) finalmente, entre
os pobres, as outras fontes de renda, especialmente a assistência pública e a
atividade ilícita, tendem a ser mais compatíveis com o setor secundário do que
com o primário.
4. A dualidade desse mercado segmentado não está nas características
observáveis dos postos de trabalho, tais como ramo de atividade ou formalidade,
mas sim na questão dos retornos encontrados nos setores que podem coexister em
um mesmo negócio.
5. Defino aqui enclave étnico como uma concentração de firmas étnicas, isto é,
aquelas de diversos tamanhos gerenciadas e de propriedade de membros de uma
minoria nacional ou cultural identificável, as quais empregam um número
significativo de trabalhadores pertencentes ao mesmo grupo minoritário (Portes
e Jensen, 1989).
6. O caso dos bolivianos é o mais expressivo (Silva, 1998; 2002; 2006;
Bassegio, 2004; Sala, 2005).
7. A definição de imigrante usada neste estudo (tanto para interno quanto para
internacional) é aquela de Sayad (1998:54 e 55), isto é, "um imigrante é
essencialmente uma força de trabalho, e uma força de trabalho provisória,
temporária, em trânsito. Em virtude desse princípio, um trabalhador imigrante
(sendo que trabalhador e imigrante são, neste caso, quase pleonasmo), mesmo se
nasce para a vida (e para a imigração) na imigração, mesmo se é chamada a
trabalhar (como imigrante) durante toda a sua vida no país, mesmo se está
destinado a morrer (na migração), como imigrante, continua sendo um trabalhador
definido e tratado como provisório, ou seja, revogável a qualquer momento."
Nesse caso, não importa o tempo de residência do indivíduo no território de
destino, o imigrante será sempre um imigrante.
8. Chineses: contêm os números de chineses e taiwaneses juntos, uma vez que
Taiwan não é considerado independente, politicamente falando, da China, por
diversos governantes de outros países, no momento de coleta dos dados do Censo.
9. Coreanos: incluem os imigrantes originários da Coreia do Sul e da Coreia do
Norte.
10. Destaco que, daqui para frente, usarei apenas a designação "brasileiros
migrantes", descartando o termo interno.
11. A escolha dos imigrantes interestaduais, no lugar dos intermunicipais,
partiu da ideia de que pode haver uma maior semelhança entre imigrantes
internacionais e imigrantes internos interestaduais, quanto às características
pessoais ou grupais dos imigrantes, uma vez que a migração para outro estado da
Federação apresenta maiores dificuldades, custos e riscos (assim como a
imigração internacional) do que uma migração para outro município, em um mesmo
estado.
12. Chamo atenção para o fato de que tal abordagem está focada na análise de
imigrantes trabalhadores e não de imigrantes refugiados, ou que buscam
reunificação familiar. Chiswick (1999) afirma que a seletividade favorável para
imigrantes é menos intensa entre os imigrantes que se guiam por motivos
diferentes do sucesso econômico, tais como: acompanhamento de familiares; fuga
de perseguições políticas ou religiosas; caráter ideológico, entre outros.
13. Ressalto aqui que há grandes diferenças entre a inserção no mercado de
trabalho entre homens e mulheres, mas, uma vez que não é este o foco de estudo
deste projeto, delimitei a análise apenas de homens no mercado de trabalho.
14. Esta ideia não descarta aqueles que estudam e trabalham ao mesmo tempo, mas
tenta evitar que classifiquemos como desocupados os indivíduos que estejam
estudando e não trabalhando.
15. Essas variáveis não tratam do cerne da minha discussão. Por isso, não são
apresentadas no texto; apenas no Apêndice I.
16. Para constituição de tal variável, utilizo a ocupação antiga do Censo de
1991 compatibilizada para a variável referente às ocupações do Censo de 2000.
Considero a sintaxe do índice de EGP (Erickson, Goldthorpe et alii, 1979),
cedida pelo Instituto do Milênio (Grupo de pesquisa interinstitucional sobre
estratificação social).
17. Essa classe entra no modelo devido apenas pelo fato de eu ter incluído
pessoas que não trabalhavam, na semana de referência, na análise, para
controlar o viés de seleção nas amostras de rendimento e posição ocupacional.
Por isso, ela não será analisada ao longo do texto, embora o modelo a inclua.
18. As diferenças entre as categorias não são homogêneas e, assim, a hierarquia
não é tão precisa. Por isso, uso a logística multinomial para análise e não a
logística ordinal. Para maiores detalhes sobre a logística ordinal conferir
Agresti (1996).
19. Para melhor compreensão da logística multinomial, verificar Agresti (1996).
20. Jacinto (2005) diz que há três categorias de discriminação no mercado de
trabalho: 1) o poder de monopólio dá origem à discriminação; b) o preconceito
estatístico, onde o empregador projeta no indivíduo algumas características
observadas no grupo ao qual o candidato pertence; 3) o preconceito pessoal,
pelo qual os empregadores, empregados ou consumidores preferem o convívio com
pessoas pertencentes a grupos de características específicas, como, por
exemplo, de sexo ou de raça, e assim excluem os outros.
21. Assumo aqui o enclave étnico como uma forma de capital social
22. Chamo atenção aqui para o fato de um possível erro nos resultados de Sala
(2005), uma vez que ela, no segundo termo da decomposição, acrescenta os
valores das médias dos brasileiros e não dos imigrantes, como seria adequado
(cf. Oaxaca, 1973; Silva, 1981; Gomes e Wajnman 2005; Jong e Madamba, 2001).
Entretanto, vale considerar que o erro pode ter sido apenas de digitação do
texto e não nos cálculos da Decomposição de Oaxaca.