Welfare state e desenvolvimento
INTRODUÇÃO
As relações entre o estado do bem-estar social e o desenvolvimento são, no mais
das vezes, pensadas como problemáticas, requerendo frequentemente sacrifícios
de seus respectivos advogados. O welfarista não dogmático se constrange em
rebaixar o objetivo do desenvolvimento em sua escala de prioridades; o seu
colega desenvolvimentista se obriga a adiar planos de justiça social para um
futuro quiçá remoto. Entender os condicionantes dessas relações, conhecer as
experiências históricas, reconstruir argumentos e recuperar evidências parece,
pois, apropriado, sobretudo quando se trata de ampliar o repertório intelectual
dos que se ocupam em imaginar políticas públicas que reconciliem
desenvolvimento e equidade. O propósito principal deste artigo é sistematizar
argumentos e evidências em favor dessa conciliação.
Advogados dogmáticos do desenvolvimento econômico, que questionam a viabilidade
de um estado do bem-estar social - isto é, da investidura, por parte do Estado,
de responsabilidade pelo bem-estar dos cidadãos, que implica transferências,
monetárias e de serviços, invariavelmente redistributivas - normalmente o fazem
a partir da postulação de duas relações de causalidade principais. De um lado,
a proposição de que a introdução de um estado do bem-estar social requer a
existência prévia de desenvolvimento econômico: só países desenvolvidos podem
ter um welfare state. De outro, a afirmação de que todo e qualquer país que se
disponha, seja a implementar, seja a incrementar um estado do bem-estar social
irá se defrontar com o trade off entre crescimento e redistribuição: o gasto
público social é economicamente ineficiente e, portanto, exerce influência
negativa sobre o crescimento econômico. No caso específico de países em
desenvolvimento, a escolha pública se daria, na hipótese de o Estado jogar
algum papel no processo de desenvolvimento, entre a opção benéfica de um
"Estado desenvolvimentista" e a opção perversa de um "estado do bem-estar".
Empiricamente, nenhuma dessas hipóteses foi corroborada. Países não
desenvolvidos - na realidade, todos os países inovadores em políticas sociais
estavam nesta condição - implantaram estados do bem-estar social no estágio
inicial de suas trajetórias de desenvolvimento (Pierson, 2006). A hipótese do
trade off crescimento-redistribuição, teoricamente bem documentada, também não
encontrou verificação cabal (Kerstenetzky, 2002) e ainda é objeto de intensa
controvérsia factual. Quanto à terceira hipótese, a evidência tampouco é
favorável: a mais bem-sucedida experiência de Estado desenvolvimentista, a
experiência asiática, tem se beneficiado de algum tipo de estado do bem-estar
social, fenômeno que já foi batizado na literatura de "estado do bem-estar
social desenvolvimentista" (Kwon, 2005).
Estimulados pelos resultados não conclusivos para as hipóteses pessimistas,
buscaremos, neste artigo, recuperar argumentos e evidência histórica quanto a
interações favoráveis entre o estado do bem-estar social e o desenvolvimento
econômico, explorando, sobretudo, a contribuição do estado do bem-estar social
para o desenvolvimento. Nosso interesse em percorrer esse caminho vem,
preliminarmente, do fato evidente de que um estado do bem-estar social com
características semelhantes às imaginadas por Richard Titmuss e T. H. Marshall,
os pais fundadores do campo teórico sobre o estado do bem-estar social
universalista, é bastante custoso - seria, portanto, indesejável (para não
dizer fatal) que ele se limitasse a consumir recursos que não pudessem se
renovar. Porém, nosso interesse ultrapassa a concepção econômica de
desenvolvimento, sugerindo que, sob uma descrição apropriada de bem-estar, o
estado do bem-estar social seria igualmente compatível com concepções não
econômicas de desenvolvimento.
Para estabelecermos a possibilidade de relações amigáveis entre bem-estar
social e desenvolvimento econômico, começaremos por examinar os argumentos
centrais da tese do trade off para, em seguida, analisarmos argumentos e
modelos concretos de conciliação. Nesta seção, será reportada a versão
produtivista da conciliação, com duas "subversões", correspondentes a dois
estilos de estado do bem-estar social; o peculiar modelo escandinavo será,
então, extensivamente discutido. Na última seção, o sentido de desenvolvimento
será flexibilizado, seguindo o paradigma do desenvolvimento como liberdade, de
Amartya Sen, e uma versão não produtivista emerge como similarmente conciliável
com o welfare state.
O TRADE OFF DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO-REDISTRIBUIÇÃO
A teoria econômica padrão, sobretudo a partir da formulação seminal de Arthur
Okun (1975), tomou como axiomática a tese de um trade off entre equidade e
eficiência.
Essa tese baseia-se no seguinte raciocínio: na medida em que os agentes
econômicos se tornam mais, ou menos, produtivos em resposta a incentivos
monetários, toda e qualquer iniciativa de redistribuição de renda dos
indivíduos mais produtivos para os menos produtivos implicará um ajuste "para
baixo" do esforço produtivo agregado; os menos produtivos não terão estímulo
para se tornarem mais produtivos, já que sua renda independe de sua
produtividade; os mais produtivos perderão o estímulo para o esforço adicional,
já que a renda adicional não será retida. Como resultado, não apenas a
capacidade produtiva estará sendo desperdiçada - a definição primária de
ineficiência -, mas o próprio montante para a redistribuição tenderá a
diminuir.
A imagem criada por Okun é a de um balde furado, por meio do qual o governo
tenta ciosamente transferir renda dos ricos para os pobres para vê-la perder-se
no caminho antes de atingir o destino final. (Simetricamente, na ausência de
redistribuição, o próprio crescimento econômico, mais cedo ou mais tarde,
começando pelos estratos superiores de renda, se encarregaria de integrar os
estratos mais pobres - subtese que se tornou conhecida como a doutrina do
trickle down, segundo a qual a melhor política social ainda é o crescimento
econômico desimpedido.)
O leaky bucket de Okun reaparece em diferentes versões. Titmuss (1974), no
ensaio "Welfare State and Welfare Society" já se defrontara com a tese de que
os gastos sociais representavam um fardo público (public burden) - os gastos
com os pobres, ou, pior ainda, os gastos sociais universais - que impedia o
crescimento e o desenvolvimento econômico. Kwon, Mkandawire e Palme (2009)
registram a hipótese de que transferências para os pobres levam a desincentivos
ao trabalho, no nível micro, e à diminuição da capacidade de desenvolvimento
econômico, no nível macro. Midgley e Tang (2001) identificam a versão global do
argumento: os gastos sociais, ao aumentarem o custo total da atividade
produtiva no país, prejudicam a economia nacional ao reduzir sua
competitividade em nível global.
Essas objeções foram bem-sucedidas no sentido de colocar os advogados do estado
do bem-estar social na defensiva, uma vez que este, ao promover redistribuição,
poderia pôr em risco o desenvolvimento econômico e, junto com ele, a sua
própria condição de possibilidade. E, de fato, a defesa não tardou a se
mobilizar. Ela começa a ser montada nas comissões, nos comitês, nos relatórios
e nos planos que urdiram as inovadoras reformas sociais do século XX, ainda no
campo não acadêmico da formulação de políticas públicas.
Argumentos relacionando o welfare state à estabilização econômica e crescimento
sustentado já se achavam presentes no Relatório da Minoria da Comissão Real
inglesa de revisão das leis dos pobres, de 1909, e foram retomados no famoso
Relatório Beveridge, de 1942; outros, elaborados em termos de suavização do
consumo (distribuição balanceada do consumo pessoal ao longo da vida), de
gestão coletiva eficiente do risco e de preservação da capacidade produtiva
aparecem nos muitos ensaios de Titmuss, das décadas de 1950, 1960 e 1970 (para
não falar dos argumentos não econômicos, como o de coesão social, que seria uma
espécie de precondição para qualquer projeto de desenvolvimento). A última
cidadela foi a teoria econômica. Contudo, nas últimas décadas, a própria teoria
econômica testemunhou um desdobramento inusitado, que, se não chegou a derrubar
o cânone, colocou-o em posição frágil: novos modelos e pesquisas empíricas -
novas bases de dados e novas hipóteses testáveis - não corroboraram a tese do
trade off formalizada por Okun (e informalmente utilizada pelos economistas
desde priscas eras).
De um modo geral, esses estudos têm favorecido a visão, oposta à de Okun, de
uma "redistribuição eficiente"1. Esses resultados deram impulso significativo
para correntes de pensamento que se mantêm estritamente dentro dos limites dos
postulados usuais de comportamento econômico racional e autointeressado da
corrente dominante, mas que não postulam a eficiência dos mercados2. Os
mercados não são eficientes porque não são completos, isto é, há barreiras,
baseadas no acesso a várias formas de riqueza (capital físico, conexões,
capital humano, capital cultural), dificultando, ou mesmo impedindo, a
participação plena e em igualdade de condições, em vários mercados, de todos
que assim o desejarem. Significativamente, este é o caso do mercado de crédito
(que poderia assistir no acesso à riqueza àqueles que não têm riqueza inicial),
e do mercado de seguros (que poderia cobrir os riscos envolvidos em atividades
econômicas promissoras). Para estas correntes, crescentemente populares dentro
da profissão, a intervenção pública, sobretudo via provisão pública de serviços
sociais financiada progressivamente e acesso a crédito, se justificaria por
promover eficiência, crescimento e desenvolvimento econômicos. Ao desconcentrar
a distribuição da riqueza em sentido amplo, a intervenção pública contribuiria
para viabilizar a ampla participação nos mercados, e em igualdade de condições,
de grupos em desvantagem, que veriam seus projetos produtivos finalmente
realizados. E os fundamentos se situam no plano dos incentivos microeconômicos,
exatamente como na visão econômica convencional.
Há variantes que diferem dos postulados comportamentais convencionais e
questionam a própria economia dos incentivos julgando-a incapaz de dar conta
plenamente de comportamentos teoricamente inesperados. Quando recipientes
pobres de benefícios públicos respondem ao recebimento dos benefícios não
diminuindo, mas aumentando sua participação no mercado de trabalho, é a própria
hipótese de trabalho como desutilidade ou desprazer da teoria econômica padrão
que é colocada em questão. A ação motivada por forças outras que não os
incentivos pecuniários foi formalizada pela teoria da agência de Amartya Sen
(1992), segundo a qual o indivíduo é capaz de agir em resposta a interesses
diversos e valores, não apenas atendendo ao seu interesse direto. O que
caracterizaria a racionalidade das ações é o fato de serem movidas por razões
(de múltipla natureza), não necessariamente cálculo autointeressado. Este tipo
de racionalização pode estar por trás do apoio dos mais ricos à tributação
elevada em países com baixos níveis de desigualdade3. Tudo (ou quase tudo)
dependeria essencialmente da complexa função de preferências dos agentes
econômicos. E esta, por sua vez, poderia ser sensível a fatores não individuais
- fora da esfera da escolha individual, como a cultura pública predominante.
CONCILIANDO DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO E REDISTRIBUIÇÃO
A literatura sobre desenvolvimento econômico registra os primórdios de um bem-
estar desenvolvimentista (welfare developmentalism) - uma espécie de inscrição
da política social no interior de um projeto de desenvolvimento econômico - já
no estado do bem-estar social de Bismarck, que teria explorado o "caráter
multifuncional da política social" (Rimlinger, 1971 apud Kwon, Mkandawire e
Palme, 2009). Para facilitar a industrialização da Alemanha, Bismarck usou a
política social para satisfazer necessidades dos trabalhadores industriais e
minar o apoio ao movimento socialista na Prússia4. Ou seja, de algum modo a
política social assegurou a reprodução da força de trabalho industrial ao
assumir parte dos custos e, além disso, ela comprou a paz social considerada
essencial para o sucesso do projeto de desenvolvimento em bases capitalistas.
A multifuncionalidade da política social, em particular seu papel de auxiliar a
um projeto de desenvolvimento econômico liderado pelo Estado, teria sido
explorada igualmente por outros países e regiões do mundo - em particular,
todos os late-comers do processo de desenvolvimento, além da Alemanha,
notadamente, a Escandinávia, a Ásia e a América Latina. Essas experiências não
foram, contudo, homogêneas, seja em seus procedimentos, seja em seus
resultados. Kwon, Mkandawire e Palme (2009) sugerem classificá-las como
exemplares de dois estilos de desenvolvimentismo, de bem-estar seletivo e de
bem-estar inclusivo.
A característica comum a essas experiências seria o "produtivismo", o objetivo
compartilhado de promoção do aumento de capacidade produtiva e crescimento
econômico - que em geral se traduziu em projetos de industrialização,
urbanização e modernização econômica, liderados pelo Estado - para cuja
consecução as políticas sociais foram também mobilizadas. O que as distinguiria
seria a orientação seletiva (focada em grupos específicos) ou inclusiva (com
investimentos sociais universais) das políticas sociais.
A orientação seletiva que teria caracterizado o bem-estar desenvolvimentista da
Ásia e da América Latina significou que as políticas sociais confinaram a
proteção social apenas aos agentes protagonistas desse processo: os
trabalhadores industriais, os trabalhadores urbanos, os funcionários públicos.
Em outras palavras, enquanto as políticas sociais acabaram desempenhando
funções economicamente importantes, não teriam sido tão efetivas no que diz
respeito à sua função precípua, de promover integração social. As experiências
inclusivas, como as dos países escandinavos, por seu turno, produziram uma
abordagem unificada de políticas sociais e econômicas que estabeleceu e
perseguiu os dois objetivos, crescimento e integração social, simultaneamente.
Coreia do Sul e Brasil são exemplares do modelo seletivo. Mas há diferenças
importantes entre eles. Ambos os países instrumentalizaram as políticas sociais
para apoiar seus projetos de desenvolvimento econômico conduzidos por um
Estado, em geral autoritário; ambos limitaram a proteção social a setores
selecionados em função de sua contribuição ao projeto. Porém, as condições
iniciais foram diferentes e acabaram modulando os processos, exercendo efeitos
diferenciadores nos resultados (Kwon, Mkandawire e Palme, 2009).
Abreviadamente, a Coreia deslancha economicamente a partir de um nível de
desigualdade significativamente inferior ao brasileiro, tendo realizado uma
reforma agrária prévia ao projeto de desenvolvimento conduzido pelo Estado. O
principal efeito direto dessa reforma foi desarticular a elite agrária e o modo
de vida agrário tradicional e, assim, viabilizar importante mobilidade social,
com a migração de jovens para as cidades, atraídos pelos novos empregos e
oportunidades. A oferta de empregos, de oportunidades educacionais e de
treinamento qualificado, por seu turno, foi, em grande parte, favorecida (no
caso dos empregos), diretamente promovida (no caso da educação pública) e
estimulada (no caso do treinamento no emprego) pelo Estado. Na ausência de
elites tradicionais, pode o Estado contar com grande autonomia para conceber
políticas públicas e implementar iniciativas, dentre elas a possibilidade de
criar e patrocinar os grandes negócios via a constituição de uma elite leal à
modernização, para quem foram distribuídos monopólios e crédito barato, e foi
garantida uma oferta de trabalho qualificada (ibidem; Kwon, 2009).
No caso do Brasil, o Estado desenvolvimentista vocalizou preferencialmente
interesses dos grandes proprietários rurais e negócios urbano-industriais; a
maioria da população não participou da mudança social. No projeto de
industrialização induzida, as políticas sociais serviram basicamente às
necessidades dos segmentos urbano-industriais e mantiveram uma base social
muito restrita (Kwon, Mkandawire e Palme, 2009; Draibe e Riesco, 2007). Em
conjunto, os efeitos, sejam econômicos ou sociais, das políticas sociais
estiveram limitados e condicionados ao grau de incorporação social permitido
pelo modelo de desenvolvimento econômico.
Nos países nórdicos, a relação entre desenvolvimento econômico e políticas
sociais, inicialmente de estilo seletivo, começa a reverter para o estilo
inclusivo antes mesmo da Grande Depressão (Kwon, Mkandawire e Palme, 2009). A
mudança de rumo resulta da orientação doutrinária do governo social democrata e
de sua bem-sucedida tentativa de estabelecer uma coalizão política majoritária
com o Partido Agrário para apoiar mudanças econômicas e sociais. Estas acabam
resultando em um modelo de políticas sociais de ampla incorporação social que
exercerá um papel central no processo de desenvolvimento econômico e de
catching up destes países, mas, também, em um modelo de políticas econômicas
com efeitos importantes sobre a integração social.
Políticas Sociais Economicamente Orientadas, Políticas Econômicas Socialmente
Orientadas
Para facilitar a identificação das interações positivas entre políticas sociais
e políticas econômicas, introduziremos as seguintes distinções. Além dos
impactos diretos esperados dessas políticas - sociais, no caso das políticas
sociais, econômicos no caso das políticas econômicas - pode-se igualmente
esperar que políticas sociais tenham impactos econômicos, e políticas
econômicas tenham impactos sociais.
Em primeiro lugar, espera-se que as políticas sociais tenham impactos
principalmente sociais - proteção social, prevenção contra riscos sociais,
redução de desigualdades e pobreza, promoção de justiça social, aumento de
capacitações em geral. Contudo, ao exercer essas funções, as políticas sociais
acabam afetando variáveis econômicas: ao proteger e prevenir contra riscos,
elas promovem estabilidade econômica (com a suavização do consumo e a redução
da incerteza), economizam capacidade produtiva que, na sua ausência, seria
perdida, liberam as empresas dos custos envolvidos em proteção e prevenção;
elas também contribuem para a valorização de capacidades, que podem ser
mobilizadas para o aumento de produtividade e da eficiência econômica e para o
crescimento, e o fazem liberando o setor privado desses custos e investimentos.
Do mesmo modo, as políticas econômicas são desenhadas primariamente com vistas
aos impactos econômicos, mas normalmente têm também impacto social, que pode ou
não ser deliberadamente buscado. Naturalmente, estaremos interessados nos
impactos deliberados. Detalharemos esses efeitos "cruzados" mais adiante, ao
analisarmos o caso da Escandinávia.
Com esse esquema analítico em mente é possível captar mais uma dimensão da
relação entre desenvolvimento econômico e políticas sociais, não revelado na
distinção entre os estilos "seletivo" e "inclusivo" do bem-estar
desenvolvimentista. Essa dimensão é a do grau de autonomia das políticas
sociais e das políticas econômicas. Como veremos, no modelo escandinavo as
políticas sociais recobram a autonomia perdida nas experiências de
desenvolvimento em que se subordinavam às exigências autônomas do projeto
econômico, ao mesmo tempo em que as políticas econômicas cedem parte de sua
autonomia. Para usar uma metáfora econômica, em um modelo de subordinação das
políticas sociais ao desenvolvimento econômico, a função principal das
políticas sociais é compensar agentes e grupos pelas externalidades negativas
geradas no processo; em um modelo de interação em que são respeitadas as
autonomias relativas de cada campo, a geração de externalidades é minimizada e
a função meramente compensatória da política social é mitigada.
ESCANDINÁVIA: POLÍTICAS SOCIAIS ECONOMICAMENTE ORIENTADAS
Analisando o caso escandinavo, começaremos brevemente por registrar alguns
efeitos econômicos das políticas sociais.
É, hoje, praticamente consensual que as políticas sociais universais tiveram
incidência decisiva no processo de catching up dos países escandinavos. Segundo
Kangas e Palme (2005), dentre outros efeitos, elas ofereceram proteção
universal efetiva contra riscos sociais; sendo, assim, indispensáveis como
mecanismos de manutenção de renda, ajudaram a criar e fortalecer laços sociais
e capital social, e contribuíram com capital real (os fundos de pensão) para o
financiamento de vários investimentos públicos (como habitação).
Dois componentes centrais (e imbricados) dessas políticas, de resto fartamente
documentados, contribuíram de modo especial para o catching up econômico
escandinavo. Um destes foram as políticas universais de apoio às famílias5.
Instituídas nos anos 1930 e aprofundadas no pós- guerra, elas equivaleram à
socialização dos custos de constituição de uma família: garantiram a segurança
econômica das famílias, melhoraram e estabilizaram as condições de vida das
crianças e viabilizaram a participação econômica das mulheres. Foram, desse
modo, centrais para a mudança estrutural, relativamente precoce no universo dos
países atualmente desenvolvidos, do modelo familiar do chefe de família
masculino (male breadwinner) para o modelo de dois trabalhadores (dual earner)
e, dessa forma, foram igualmente centrais para a redução da pobreza infantil
(via, principalmente, o aumento da renda do trabalho).
O outro componente foram os serviços sociais. Embora as transferências de
renda, principalmente universais, sejam importantes no modelo nórdico, este, em
contraste com a Europa continental, é intensivo em serviços universais. A
multifuncionalidade destes é especialmente evidente na experiência escandinava.
Um dos pontos altos foi a reforma educacional sueca, que introduziu
pioneiramente a educação infantil pública, com cobertura universal e de
qualidade. Juntamente com a oferta pública e universal de creches, esta
intervenção precoce (anos 1970) é considerada essencial para promover o
desenvolvimento cognitivo das crianças e potencializar capacidades cognitivas e
produtivas dos jovens (Kangas e Palme, 2005; Esping-Andersen, 2005; Heckman e
Carneiro, 2003). Foi também vital para a redução do impacto do background
familiar sobre as chances de vida das crianças, em particular sobre suas
oportunidades futuras de participação plena no mercado de trabalho (Kangas e
Palme, 2005; Esping-Andersen, 2005). Está possivelmente aí a chave de
explicação do maior efeito das políticas educacionais escandinavas sobre as
desigualdades econômicas, em comparação com o que ocorre no restante da Europa.
Em particular, a introdução pioneira de serviços de cuidados - cuidados na
primeira infância e para os idosos - contribuiu para elevar a participação das
mulheres no mercado de trabalho (sobre quem tradicionalmente recaem essas
funções). De fato, rapidamente a Escandinávia passa a se destacar na Europa,
com as maiores taxas de participação feminina no emprego. Finalmente, a
introdução dos serviços de cuidado redundou na criação de novas oportunidades
de emprego (sobretudo feminino).
Em conjunto, como se sabe, essas políticas promoveram uma redução significativa
das desigualdades econômicas nos países nórdicos. O que é, talvez,
surpreendente, em vista das expectativas engendradas pela doutrina do trade
off, é que a redução das desigualdades tenha tido consequências diretamente
positivas sobre o crescimento econômico. De um modo geral, a equalização da
renda revelou-se um importante suavizador do consumo e estabilizador econômico,
promovendo um crescimento econômico com menos choques. Ainda do lado dos
efeitos sobre a demanda, a redistribuição de renda, como já notara Keynes, ao
favorecer os que têm menor renda e maior propensão a consumir, tende a
estimular o consumo agregado, sendo, portanto, particularmente relevante, como
política desenvolvimentista, quando há restrição de demanda, o que normalmente
ocorre em países em desenvolvimento (Martins, 2009). A expectativa desses
resultados econômicos, segundo Kangas e Palme (2009), foi, em parte,
responsável pela legitimidade desfrutada pelas instituições do welfare state
nos países nórdicos.
Em particular, a tese do desincentivo ao trabalho que decorreria da concessão
de direitos sociais como um free lunch não se confirmou. A ampla garantia de
direitos sociais, que envolvem transferências e serviços universais, foi
compatível, e mesmo em parte diretamente responsável, pelas altas taxas de
participação da força de trabalho (Kangas e Palme, 2009; Kenworthy, 2004).
Outros efeitos econômicos do welfare state foram a redução de problemas de
informação e a incerteza. Assim, sistemas homogêneos universais, como o sistema
de saúde pública dos países escandinavos, têm menos problemas relativos à
estrutura de incentivos e à expansão dos custos do que sistemas fragmentados
privados (a expansão dos custos de saúde foi maior para estes) (Kangas e Palme,
2009; Krugman, 2008; Barr, 2001). Além disso, a seguridade social universal
relacionada aos ganhos possui características únicas que favorecem a
participação econômica: diminui os custos de transação relacionados à busca de
informação e negociação de esquemas de seguridade no mercado de trabalho,
facilita a mobilidade e flexibilidade do mercado de trabalho por se constituir
em um direito social "portátil", e torna-se um incentivo ao trabalho (a partir
de um nível básico, quanto mais trabalho, maior o ganho) (Kangas e Palme,
2009).
Finalmente, as instituições do welfare state universal ajudam a formar capital
social (intra e entre grupos heterogêneos), o que contribui para as suas
legitimação e estabilidade (ibidem)6. Essa condição é crucial para que as
políticas sigam exercendo seus efeitos econômicos.
Em suma, as políticas sociais nórdicas de "redistribuição eficiente" exerceram
e seguem exercendo efeitos econômicos, seja da perspectiva da oferta (maior
participação no trabalho, investimento precoce na capacidade produtiva do
trabalho e incremento da produtividade), seja da perspectiva da demanda
(emprego público nos serviços sociais, elevação do consumo agregado, suavização
do consumo), seja, ainda, do funcionamento dos mercados (redução da incerteza,
redução dos custos de transação), seja, finalmente, de sua própria legitimação.
E elas o fazem assegurando direitos sociais universais.
Tendo sido introduzidas nos estágios iniciais do desenvolvimento desses países,
as políticas sociais beneficiaram o processo ao mesmo tempo em que desfrutaram
de custos relativamente baixos. Esse resultado é especialmente alvissareiro
para países em desenvolvimento, os quais, como nota Martins (2009:697),
poderiam privilegiadamente investir nos serviços sociais intensivos em
trabalho, o fator relativamente barato: "Países em desenvolvimento requerem um
nível mais baixo de crescimento econômico do que os países desenvolvidos para a
adoção de políticas sociais, que são por sua vez essenciais para a formação de
capital humano".
Escandinávia: políticas econômicas socialmente orientadas
Como já adiantamos, o outro lado da moeda foi a função social exercida pelas
políticas econômicas nórdicas, sua habilidade, em outras palavras, de minimizar
a produção de externalidades negativas, habituais em uma economia de mercado e
especialmente agudas em um processo de catching up, em que o timing da
modernização econômica é acelerado e os custos sociais agravados. É lícito nos
referirmos a um modelo nórdico, no qual vários fatores históricos comuns -
econômicos, políticos, religiosos - se associaram a estruturas sociais e
culturais semelhantes para produzir políticas públicas com características
similares (Kautto, 2010; Kangas e Palme, 2009). A seguir, descreveremos o caso
da Suécia, país ideal-típico no bloco nórdico.
O planejamento para o desenvolvimento que entretecia as políticas econômicas e
sociais foi, na Suécia, originalmente concebido pelo economista
institucionalista Gunnar Myrdal, ainda no período do entre guerras.
Nos anos de 1928 a 1935, Myrdal coordenou a Comissão sobre o Problema do
Desemprego (CPD; em inglês, Unemployment Inquiry), que produziu uma série de
estudos teóricos e empíricos e originou uma nova escola de economia, a Escola
de Estocolmo. Estudos da CPD desenvolveram a teoria de uma ação governamental
contracíclica, semelhante à proposta por Keynes, porém não necessariamente
financiada por déficit, portanto, com uma componente de prudência fiscal. Essa
incluía a visão de uma relação entre salários e desenvolvimento econômico -
basicamente a ideia de que aumentos de salários podem ter efeito positivo sobre
a eficiência econômica e o crescimento de longo prazo - que acabou por abrir
caminho para a elaboração de uma política nacional de salários visando o
aumento da produtividade e o estímulo ao crescimento (Klausen, 2001).
A posição da CPD foi instrumental para uma modificação significativa da
política econômica da Social Democracia sueca na direção de uma "política de
produtividade". Esta prometia "crescimento econômico compartilhado" no lugar de
"propriedade compartilhada", ou da socialização dos meios de produção, demandas
tradicionais do movimento socialista. Como observa Klausen (ibidem:112), o
argumento para esta guinada era que "se empregadores e sindicatos pudessem
concordar em trabalhar juntos, os baixos preços unitários e os salários mais
altos recompensariam a todos"7.
Em 1933, é celebrado o Pacto Agrário (Cow trade Pact), o acordo entre o governo
minoritário da Social Democracia e o Partido Agrário para a superação da crise,
que deu origem à Aliança Vermelho-Verde (Red-Green Alliance). Esse acordo
colocou em prática algumas das ideias centrais da escola de Estocolmo, pois
envolveu um conjunto de políticas econômicas de manejo da demanda que
estreitaram a aliança de classes e incluíram também interesses dos negócios não
agrícolas. Os elementos nucleares do pacto foram a elevação concomitante dos
salários e dos preços agrícolas, e um pacote de ajuda aos negócios. Estímulos à
demanda foram, entre outros, o crédito barato, a depreciação da moeda, medidas
protecionistas que envolveram tarifas e subsídios, e uma política de alívio ao
desemprego com obras públicas em construção civil e habitação e seguro-
desemprego (na prática, as únicas intervenções que favoreciam a elevação dos
salários, na ausência de meios diretos de elevá-los). Receitas governamentais
seriam em parte garantidas pelo monopólio na compra e venda de certos bens de
consumo (como gasolina, bebidas e café - no caso das bebidas uma concessão
importante ao movimento pela temperança). Em parte, o gasto adicional seria
financiado por empréstimos e orçamentos especiais, não por déficits.
A retórica dos princípios saudáveis de administração pública foi muito
utilizada para angariar apoio para os programas de crise. Um dos argumentos
para as obras públicas era de que o governo estaria poupando recursos no longo
prazo, uma vez que as obras, de todo necessárias, estariam sendo feitas durante
a recessão e, portanto, a custos mais baixos do que seriam em qualquer outra
fase do ciclo (Klausen, 2001).
Em 1944, a Comissão para o Planejamento Econômico do Pós-Guerra (Commission for
Postwar Economic Planning), da qual também participou Myrdal, foi convocada
para desenhar políticas de recuperação econômica, e seguiu os passos
doutrinários delineados na CPD e no Pacto - em linha geral, compatíveis com as
recomendações do relatório Beveridge8.
O pressuposto de que incrementos salariais têm um efeito positivo sobre a
eficiência econômica e o crescimento de longo prazo foi posteriormente
reelaborado no relatório "Sindicatos e Pleno Emprego" (Trade Unions and Full
Employment), de 1951, que consagrou o chamado modelo Rehn-Meidner. Concebida
por dois economistas da Confederação Sueca de Sindicatos (Swedish Trade Union
Confederation), Gosta Rehn (macroeconomista que havia coordenado a Comissão do
pós-guerra) e Rudolf Meidner (chefe do departamento de pesquisas da
confederação sindical), esta doutrina, originalmente motivada pela intenção de
estabilizar a economia em um período de superaquecimento com forte pressão
inflacionária, define por pelo menos duas décadas as linhas centrais das
políticas econômicas suecas (Klausen, 2001; Erixon, 2008).
O modelo Rehn-Meidner tinha quatro objetivos simultâneos: o pleno emprego (o
desemprego é ambiciosamente estipulado em um patamar inferior a 3%), a equidade
(entre salários, mas também na distribuição funcional da renda), a estabilidade
de preços, e o crescimento econômico (movido a concorrência e aumento de
produtividade). Esses objetivos seriam atingidos por meio de políticas de
emprego seletivas, políticas macroeconômicas restritivas e uma política de
solidariedade salarial. Outra inovação do modelo foi o papel importante
destinado ao imposto sobre o consumo no financiamento dos gastos do governo
(Erixon, 2008).
As políticas de mercado de trabalho foram concebidas para aumentar a eficiência
econômica geral - no caso das políticas de apoio à mobilidade ocupacional: de
treinamento, de educação profissional, e de matching para superar gargalos no
mercado de trabalho - e promover o pleno emprego (via as políticas de
eficiência, os subsídios ao emprego para empresas que se qualificassem, e o
aumento seletivo do emprego público). Por meio deste, seria possível obter o
crescimento dos salários nominais e (junto com outras políticas) reduzir as
desigualdades na distribuição funcional da renda. Contudo, também às políticas
de mercado de trabalho, ao contribuírem para a redução das margens de lucro e
para reduzir estrangulamentos inflacionários no mercado de trabalho, era
reservado um papel no controle da inflação.
A política macroeconômica restritiva, fiscal e monetária, seria o principal
instrumento para combater a inflação9. A política fiscal restritiva (no médio
prazo) contribuiria para um declínio nas margens de lucro e, ao mesmo tempo em
que conteria a pressão inflacionária, seria instrumental para a mudança na
distribuição funcional da renda em favor do trabalho e de mais poupança pública
(em detrimento da poupança das empresas), o que também era defendido em bases
de equidade e de política industrial. Esperava-se que a redução nas margens de
lucro estimulasse um aumento de produtividade, especialmente nas firmas com
baixa produtividade.
A terceira peça importante foi a política de solidariedade salarial, que se
estabeleceria por meio de negociações salariais coordenadas; como no caso das
políticas anteriores, tem múltiplas funções. Ao estabelecer igualdade de
salários para trabalhos iguais, a despeito da situação de lucro de firmas e
indústrias, "um instrumento justo de crescimento econômico" (ibidem:7), não
apenas contribuiria para a redução da disparidade salarial como também para
excluir firmas ineficientes (que não poderiam pagar os salários "normais"),
liberando recursos para firmas dinâmicas, ou para estimulá-las a racionalizar
seus processos de produção promovendo ganhos de produtividade; além disso, ao
limitar os ganhos salariais acima da produtividade, que poderiam ser concedidos
pelas firmas mais eficientes, inibiriam os efeitos inflacionários de demandas
compensatórias generalizadas. Contudo, a política fiscal restritiva e as
políticas de mercado de trabalho pró-mobilidade do trabalho seriam, ainda,
fundamentais para garantir que a "solidariedade salarial" resultasse em
estabilidade salarial e mudança estrutural.
Em suma, todas as políticas econômicas centrais foram mobilizadas para atingir
os quatro objetivos gerais da doutrina: crescimento, pleno emprego, inflação
controlada, e equidade.
Na avaliação de Erixon (2008), o modelo Rehn-Meidner jamais foi implementado
integral e consistentemente na Suécia, porém entre os anos 1950 e 1970, este
teria vivido seus anos dourados, "considerando-se a inovação representada pela
introdução da política de mercado de trabalho ativa, a política de
solidariedade salarial, os impostos indiretos, e a tendência em direção à
redução da participação dos lucros e aumento da poupança pública, importantes
objetivos intermediários do modelo R-M" (ibidem:17-18). Esse também teria sido
o período de realização máxima dos objetivos macroeconômicos do modelo:
crescimento econômico, com inflação moderada, desemprego baixo e uma radical
equalização salarial. E mesmo nas décadas subsequentes, que testemunharam maior
heterodoxia em relação às orientações do modelo, pode-se concluir que este, de
todo modo, "contribuiu para uma situação na qual baixas taxas de desemprego e
pequenos diferenciais salariais se institucionalizaram na Suécia" (ibidem:64).
Nota-se, em suma, no modelo ideal sueco e em sua aplicação prática, o entremeio
e a conciliação, no seio das próprias políticas econômicas, de objetivos
distributivos e de crescimento econômico. Em um contraste com o Brasil e a
Coreia em suas trajetórias desenvolvimentistas pretéritas10, esse modelo impôs
à política econômica uma condicionalidade social que limitou sua autonomia e
minimizou os efeitos secundários indesejáveis do processo acelerado de
modernização econômica praticado pelas industrializações retardatárias.
Desenvolvimento Social: Prós e Contras
A tese de que as políticas sociais têm efeitos econômicos negligenciados
estimulou a formulação da doutrina do "desenvolvimento social" (social
development) (Midgley e Tang, 2001). Os dois princípios centrais dessa doutrina
são: (i) as políticas econômicas devem perseguir o bem-estar de toda a
população; e (ii) o bem-estar social deve se orientar para os chamados
investimentos sociais - políticas sociais que têm efeitos produtivistas (sic).
Do ponto de vista das políticas econômicas, isso requereria uma reorientação na
direção da promoção direta de bem-estar; do ponto de vista das políticas
sociais, isso requereria uma reorientação na direção de políticas que
acentuassem a participação econômica e o aumento das capacitações para a
produtividade, ao mesmo tempo que uma retração da ênfase em políticas de
manutenção de renda e de assistência social.
No formato proposto por Midgley, uma teoria do desenvolvimento social se
articularia em torno de três eixos centrais: (i) concepção de arranjos
organizacionais harmonizadores das políticas econômicas e sociais; (ii)
concepção de políticas econômicas que promovam o emprego, oportunidades de
emprego autônomo, erradicação da pobreza, elevação dos padrões de vida para
todos, investimentos em capital humano e social, provisão de crédito com
inclusão máxima; (iii) desenho de programas sociais orientados para os
investimentos, isto é, produtivistas.
Enquanto a teoria se pauta pelos parâmetros mencionados, a prática do
desenvolvimento decorrente dela requereria, ainda segundo Midgley, promoção de
(i) capital humano (programas de qualificação profissional e de educação
vocacional, coordenados com oportunidades de emprego; pré-escola); programas de
emprego e autoemprego (colocação no emprego, programas de apoio e monitoramento
dos resultados, empregos protegidos e arranjos especiais junto a empregadores;
investimentos em autoemprego apropriado para aqueles com altas qualificações,
mais confiança e alguma experiência); (ii) capital social (desenvolvimento
baseado na comunidade); (iii) desenvolvimento de ativos (asset development);
(iv) remoção de barreiras à participação econômica (transporte, creches,
preconceito e discriminação baseados em raça, etnia, gênero, idade,
nacionalidade, deficiência); (v) programas sociais custo-efetivos.
A questão do produtivismo é central na teoria do desenvolvimento de Midgley e
seria, segundo ele, subscrita pelo próprio Sen: "Um programa social é
produtivista se focaliza nas necessidades materiais, investe no que Sen chama
de capacitações humanas, promove participação efetiva na economia e contribui
positivamente para o desenvolvimento econômico" (Midgley e Tang, 2001:247). Por
outro lado, esta teoria "coloca menos ênfase em altruísmo e direitos a
'entitulamentos' como uma rationale para o bem-estar social, e realça o
incremento de capacitações humanas por meio dos investimentos" (idem).
Examinando a proposta de Midgley a partir da perspectiva das capacitações de
Sen, ela nos parece reducionista. Nela, as políticas sociais se justificam
fundamentalmente por seus efeitos produtivos. Em que pese a exigência simétrica
de uma justificação social para as políticas econômicas, a ênfase no
produtivismo subtrai força de outras funções, mais propriamente sociais, das
políticas sociais, como a de garantir direitos sociais de cidadania ou de
redistribuição de riqueza e promoção pura e simples de justiça social. Nesse
sentido, no afã de produzir uma justificativa econômica para as políticas
sociais, Midgley inadvertidamente eclipsou a justificativa intrínseca.
Outra instância do reducionismo dessa visão é a interpretação produtivista da
noção de capacitações de Sen. Esta refere-se mais propriamente às liberdades
reais com que contam os indivíduos para levar adiante seus diferentes projetos
de vida (inclusive não produtivistas), para a promoção das quais são
instrumentais muitas das políticas sugeridas por Midgley - mas não logicamente
necessárias.
Mais recentemente, autores como Gray (2010) questionaram o selo
"antineoliberal" da alternativa do desenvolvimento social. O argumento é que
esta devolveria aos indivíduos e comunidades a responsabilidade exclusiva por
seu bem-estar. O discurso aparentemente progressista de uma cidadania
produtivamente ativa - a qual deveria ser estimulada na direção da autoajuda,
individual e comunitária - mascararia a retração dos gastos do governo em
programas sociais. Essa perspectiva, que substituía uma abordagem dita
"passiva" do welfare ("welfare encoraja a dependência") por uma abordagem
"ativa", elidiria a questão das desigualdades estruturais e do limitado acesso
a recursos econômicos por parte de grupos e comunidades.
Como Midgley, Gray associa a perspectiva do desenvolvimento social à abordagem
das capacitações de Sen, afirmando que este, em sua concepção de
desenvolvimento, advoga a acumulação de ativos ao nível dos indivíduos, em
detrimento do foco estrutural. Naturalmente, a comunidade passa a ser o lugar
de "engajamento social, político e econômico", e o desenvolvimento comunitário
baseado em ativos torna-se o objetivo do projeto de desenvolvimento.
Criticamente, Gray observa que, além do problema dos recursos que seriam
necessários para que a participação fizesse de fato uma diferença no bem-estar
social, as comunidades não são sistemas de relações necessariamente harmônicas.
Ambos os problemas reinstalariam a macroestrutura social, política e econômica
no centro da promoção de bem-estar.
A observação de Gray quanto à inadequação de uma abordagem que devolva a
responsabilidade pelo bem-estar exclusivamente aos indivíduos e comunidades nos
parece correta. Em nosso julgamento, contudo, o problema maior de uma abordagem
que enfatiza a autonomia produtiva de indivíduos e comunidades é a confiança
excessiva no funcionamento regular e na neutralidade distributiva dos mercados
para assegurar o bem-estar social. Pelos vários motivos alinhados por Richard
Titmuss e vários outros, uma economia de mercado não é confiável nesse sentido.
Na realidade, esta é uma das justificativas principais para a montagem de um
estado do bem-estar social, que representa um sistema de solidariedade social
paralelo ao mercado.
O que não nos parece correta, de novo, é a associação da perspectiva de
autonomia produtiva com a abordagem das capacitações advogada por Sen. Esta
abordagem ilumina os condicionantes não individuais - sociais, culturais,
biológicos - da liberdade de agência individual e situa a retificação
justamente no plano desses condicionantes. Portanto, a "estrutura" segue sendo
uma condição para a "agência". Ademais, a retificação é pensada não apenas como
recursos materiais e não materiais, mas também como direitos e processos
permanentes.
De fato, parte das liberdades reais é garantida por um sistema regular de
proteção social (welfare as we know it), atento às várias reviravoltas do
mercado e do ciclo da vida e, sobretudo, às escolhas de modos de vida por parte
dos indivíduos. Nesse caso, não faz muito sentido distinguir entre um welfare
passivo (valorado como negativo) e um welfare ativo ("positivo") - políticas
passivas e ativas são igualmente úteis e subservientes ao objetivo de promoção
de bem-estar social.
Tampouco nos parece mandatória a questão da participação individual na
abordagem das capacitações - associação que foi feita por Gray. Embora esta
abordagem articule a condição de agente dos indivíduos, condição que os coloca
potencialmente na situação de participantes ativos nas decisões coletivas que
envolvam o seu destino e mobilizem sua visão de mundo, o exercício militante da
condição de agência é do inteiro arbítrio dos indivíduos. O que a eles deveria,
sim, ser assegurada é a liberdade real de participar caso o desejassem.
Em suma, nem participativismo nem produtivismo são conclusões diretas ou
necessárias da abordagem das capacitações.
DESENVOLVIMENTO COMO LIBERDADE
É recorrente a associação da perspectiva das capacitações com o produtivismo, e
isso em virtude da interpretação do termo "capacitações" como equivalente a
"qualificação para o trabalho". Como vimos, esta é a interpretação favorecida
tanto por Midgley (positivamente) quanto por Gray (negativamente). Contudo,
esta não é a acepção autorizada pelo próprio Sen (2000), e certamente não é a
conotação que adotamos neste artigo. De forma abreviada, capacitações
significam para nós o poder real de decisão sobre planos de vida conferido aos
indivíduos por sua associação em uma comunidade política abrangente.
Esse poder possui uma interseção importante com o campo do welfare. O conteúdo
do bem-estar social pode ser pensado como constituído por capacitações - que
correspondem a condições sociais gerais para que os membros de uma comunidade
política levem adiante os modos de vida que valorizem - distribuídas com
equidade, segundo, por exemplo, os critérios de distribuição de bens sociais
primários propostos por John Rawls em seu A Theory of Justice (1971). A pista
de que a interseção estaria na convergência entre capacitações e qualificação
para o trabalho é, portanto, uma pista falsa.
Nesse sentido, a abordagem das capacitações poderia validar a participação no
mercado de trabalho, ou simetricamente validar a não participação. O crivo é
que essas decisões, de participar ou não, aflorem a partir da deliberação
quanto a um amplo conjunto de opções significativas. Quando aplicada ao mercado
de trabalho, a abordagem das capacitações é sensível à existência ou não de
legislação social que valide a decisão de participar neste e à existência de
precondições institucionais efetivas: "contrariamente ao neo-liberalismo, estas
condições não se limitam à provisão, pelo direito privado, de capacidade
contratual ou de direito à propriedade, mas se estende aos mecanismos coletivos
para a partilha e distribuição dos riscos emergentes da operação dos mercados"
(Deakin, 2009:30). Elas incluem, ainda, direitos de participação em formas
procedimentais ou institucionais de interação, como a barganha coletiva, e a
garantia pública de padrões de vida mínimos (security, no lugar de mera
protection) (Deakin, 2009), como habitação, educação, treinamento, instituições
legais.
Esta é a visão da abordagem das capacitações endossada pelo relatório
Transformation of Work and the Future of the Labour Law in Europe, preparado
para a Comissão Europeia pelo grupo liderado por Alain Supiot (1999) (apud
Deakin, 2009). A ênfase não é, ao contrário da doutrina do desenvolvimento
social, nos ativos necessários para a participação econômica de indivíduos e
comunidades ("capacidade produtiva"), mas na legislação social e nas regras
legais para uma participação econômica socialmente segura ("segurança"). Ou
seja, esta visão resgata o valor econômico do welfare as we know it.
Contudo, há uma liberdade excluída que é a de não participação no mercado de
trabalho caso este tenha sido de fato "corrigido" pelas recomendações feitas no
relatório, o que mantém a leitura das capacitações endossada pelo relatório
Supiot nos limites do produtivismo.
É essa opção - não produtivista - compatível com a abordagem das capacitações?
Teoricamente, sim. Uma vez que a abordagem das capacitações pressupõe a
autonomia dos indivíduos para escolher o modo de vida que julgarem
significativo, em princípio ela se eximiria de passar julgamento negativo sobre
um modo de vida que não valorizasse o trabalho pago, mesmo um trabalho que
respeitasse direitos sociais em sentido amplo.
A liberdade real não estaria fundada na (ou justificada pela) cooperação social
ou na reciprocidade chancelada pela participação no mercado (como está, por
exemplo, em Rawls). Se a liberdade real estiver fundada na cidadania, como em
Marshall, sua associação com o trabalho pago é ainda menos clara11.
Contudo, a liberdade real poderia de alguma maneira refletir e responder à
observação empírica de que a garantia de direitos sociais é materialmente
custosa. Nesse sentido, a abordagem das capacitações poderia reconhecer o
conflito potencial entre o direito individual de não trabalhar e o direito
individual social, conflito este mediado pela insustentabilidade do não
trabalho como máxima universal: se todos não trabalham, não há como prover os
meios para a garantia de direitos.
Algumas experiências concretas de desenvolvimento geraram expansão de
capacitações sem avanço econômico correspondente, como resultado de escolhas
sociais. A província indiana de Kerala é frequentemente referida como exemplo
(Sen, 2000). O processo de desenvolvimento em Kerala enfatizou componentes do
conjunto concebível de capacitações humanas intensivos em "pessoas", como
educação e saúde, equidade de gênero, autonomia e participação locais,
processos democráticos transparentes e responsáveis, em detrimento do
crescimento econômico. Ou seja, essa expansão de capacitações não foi precedida
por -tampouco instrumentalizada para - um aumento de participação econômica e
de produtividade. Esse modelo de desenvolvimento, em principio compatível com a
abordagem das capacitações, concilia-se ainda com preocupações com consumismo e
sustentabilidade ambiental - necessárias e urgentes atualizações da abordagem
das capacitações.
Portanto, a abordagem das capacitações parece suficientemente flexível para
acomodar também uma escolha social não fundamentalmente produtivista. O quadro
abaixo esquematiza as opções que vimos considerando.

Resta o desafio colocado por Marshall: os direitos sociais ameaçam a economia
capitalista no lugar de complementá-la?
Para Deakin e vários outros defensores da abordagem do desenvolvimento social,
a ênfase é na complementação. Contudo, é relevante elaborar a diferença entre
uma economia de mercado e uma economia capitalista, e com ela a possibilidade
real de uma disjuntiva, ou seja, de uma economia de mercado não capitalista. Se
o capitalismo for concebido como um sistema peculiar de distribuição de
direitos de propriedade e o mercado for entendido como uma instituição de
transmissão de informação econômica, não há uma conexão logicamente necessária
entre eles. Esta é, por exemplo, a posição de Philippe Van Parijs (1995).
Se a disjuntiva fizer sentido, ela pode ser instrumental para entendermos a
crescente importância do "salário social" - a parte da riqueza social
redistribuída via o estado do bem-estar social -, em moeda ou em espécie, hoje
alcançando até 35% do produto de países desenvolvidos. Outras categorias são
necessárias para compreendermos diferenças institucionais, de políticas
públicas, de processos, de culturas públicas e resultados, que nos permitam
visualizar e contrapor mundos apenas aparentemente iguais, opacamente
designados capitalistas.
COMENTÁRIOS FINAIS
Revisitamos, neste artigo, a questão perene das relações entre desenvolvimento
e redistribuição. Em parte por conta dos resultados socialmente insatisfatórios
produzidos pelo crescimento econômico das três últimas décadas, que colocaram
em xeque qualquer veleidade de automatismo na relação entre crescimento e bem-
estar social, em parte por conta dos resultados encorajadores de experiências
como a escandinava, que integraram políticas econômicas e sociais, o retorno a
essa questão se impõe.
Como vimos, uma forma teórica de conciliação é a perspectiva do
"desenvolvimento social", que articula a relação de mão dupla entre os dois
conjuntos de políticas. Esta alternativa, quando singulariza a dimensão
produtivista do estado do bem-estar social, se abstrai do caráter de seguro
social deste, que é, contudo, especialmente relevante em uma economia de
mercado globalizada e desregulamentada - aspecto que é, por exemplo, acomodado
na experiência escandinava. Tampouco é particularmente sensível às aspirações
de igual cidadania para concepções "não produtivistas" de vida. Em virtude de
seu caráter restritivo nesses sentidos, essa proposta estimula a reflexão sobre
o sentido de bem-estar social que um estado do bem estar social deveria
promover. Sugerimos que uma concepção de bem-estar social como expansão de
liberdades reais permitiria a reconciliação entre o estado do bem-estar social
e o desenvolvimento, acomodando perspectivas indiretas (quando o bem-estar
social é mediado pelo crescimento econômico), tanto quanto perspectivas mais
diretas (quando o bem-estar social é promovido diretamente, sem a mediação do
crescimento).
NOTAS
1. Nos anos 1990, quando a revisão do cânone começa a ser feita, são dignas de
nota as contribuições de Aghion et alii (1998), Benabou (1996), Birdsall e
Londono (1997), Alesina e Perotti (1996), entre outras. Essas contribuições são
referidas e comentadas em Kerstenetzky (2002). O endosso mais significativo da
visão de que "redistribuição" é compatível com "crescimento" vem com o World
Development Report de 2006 (World Bank, 2006), sugestivamente intitulado Equity
and Development, um reflexo da visão de seus dois coordenadores, os economistas
Michael Walton e Francisco Ferreira. Diferentes modalidades de redistribuição
eficiente são discutidas no importante artigo de Bowles e Gintis (1999) e
retomados no volume de Wright (1999).
2. Ver Ferreira (1999) para uma revisão dessas teorias.
3. Esta teoria além de incluir valores do próprio agente, abre espaço para a
revisão, por parte deste, de seus objetivos globais - interesses e valores - ao
imaginá-lo capaz de reavaliá-los levando em consideração os objetivos dos
outros. Este tipo de racionalização poderia dar conta da possibilidade de
estendermos noções preconcebidas de solidariedade, originalmente talhadas para
situações que já não mais existem e para outros semelhantes a nós mesmos.
4. Um terceiro importante fator, menos frequentemente mencionado, é a afirmação
do poder do Estado central, sob a liderança prussiana, frente às ambições
políticas da Igreja Católica. Ver Kuhnle e Sander (2010).
5. Benefícios monetários para famílias com crianças, licenças parentais,
creches e serviços de cuidados para idosos.
6. Como observam Kangas e Palme (2009:51), "em regra, a legitimidade global de
esquemas com teste de meios é baixa: testes de meios não criam capital social,
nem bonding, nem bridging."
7. "[...] if employers and unions could agree to work together, lower unit
prices and higher wages would present rewards for both".
8. As origens do neocorporativismo na Suécia podem ser traçadas considerando a
institucionalidade criada para as políticas de controle de guerra e as
políticas de estabilização econômica do período do pós-guerra. Nas duas
circunstâncias a Social Democracia liderou a construção de um consenso
multiatores em torno da estabilidade macroeconômica. De um modo geral, a guerra
introduziu na Europa a experiência de uma economia controlada; na Suécia, esta
tem fortes raízes na própria Social Democracia, porém a expansão do Estado
durante a guerra proveu meios administrativos e tecnológicos para a coordenação
econômica (Klausen, 2001).
9. O modelo não exclui a política fiscal contracíclica e mesmo um orçamento
público desequilibrado em um período de recessão "anormal" (depressão) - para
um período de recessão "normal", o modelo recomenda estímulos de emprego
seletivos dentro do quadro de uma política monetária e fiscal restritiva.
10. É possível argumentar que ambos os países estejam se deslocando na direção
de mais autonomia para as políticas sociais e de menos autonomia para as
políticas econômicas. A propósito de mudanças de rumo na América Latina e no
Brasil nas direções mencionadas, veja Kerstenetzky (2010).
11. Em seu famoso Citizenship and Social Class, Marshall narra a história da
separação moderna do contrato e do status. Seu conceito de cidadania - status -
expressa a posse legítima de direitos (aos quais naturalmente correspondem as
"obrigações gerais da cidadania") independentemente da participação em um
contrato de trabalho. Ver Marshall (2009).