Crise financeira 2.0: controlar a narrativa & controlar a desfecho
A CRISE E A SUA SOCIOLOGIA
Como era de se esperar, a crise financeira deflagrada em 2008 provocou a
Sociologia. Há uma demanda expressiva, uma verdadeira sede de compreensão por
parte da sociedade, que procura respostas sobre o evento que globalmente tornou
piores as condições de vida e expectativas de enormes parcelas da população. As
diversas disciplinas acadêmicas rivalizam e tentam diminuir a assimetria de
popularidade a favor da economia ortodoxa que vigorou até a eclosão da crise.
As novas vertentes das Ciências Sociais que se ocupam dos fenômenos econômicos
e financeiros estão no topo dessa fila, já que tudo indica que seu objeto é o
mesmo da disciplina hegemônica. É assim que a lógica social que rege o espaço
acadêmico e também as pressões mais diretas de outros setores da sociedade, em
especial a mídia e a política, incitam à produção de respostas. E que sejam
aquelas com as quais a sociedade sabe e pode lidar: quem são os culpados? Quem
facilitou a sua ação? Quem foram os sábios ou heróis que tentaram impedir a
desgraça, mas que não foram ouvidos? Por quais razões ocorreu a (aparente?)
falta de atenção das autoridades e participantes dos mercados para o desastre
que se avizinhava? Como fazer para prevenir novos desastres como esse? E, por
fim, o que a disciplina pode responder sobre as causas do desastre?
A demanda social foi evidentemente preenchida por diversas vertentes da
Sociologia contemporânea a partir de focos e tradições diferentes. Entre muitos
outros, Donald Mackenzie e Neil Fligstein, dois sociólogos bem conhecidos da
área, apresentaram suas respostas circunstanciadas em textos que foram bastante
debatidos na esfera acadêmica. E, não por acaso, no ambiente excitado pelo
turbilhão de más notícias econômicas e suas inevitáveis repercussões sociais,
essas contribuições migraram para outros ambientes. Dado a polaridade dessas
duas explicações e o renome dos autores na comunidade científica que se ocupa
do tema, podemos usar suas análises para balizar o espaço teórico da reflexão
sobre o assunto, sobre as respostas possíveis e, ao mesmo tempo, também para
avançar algumas possibilidades de análise que aparecem de maneira mais nítida a
partir da investigação do espaço empírico representado pela situação da
economia, e da sociedade, brasileira.
Mackenzie, que tem publicado recentemente uma sequência extensa e dificilmente
contornável de análises sobre o desenvolvimento das ferramentas financeiras
contemporâneas, traça o seu caminho a partir da sua área de atuação original
nos (SSS) - estudos sociais sobre a ciência (Grün, 2004b; MacKenzie, 2006;
MacKenzie, 2009a). Ele analisa a questão a partir de um ponto de vista interno
ao mundo das finanças definindo-a como um problema que pode ser tratado a
partir da sociologia do conhecimento inspirada em Fleck (1979) e Kuhn (1962).
Diversas famílias de agentes financeiros, uns mais preparados para avaliar
questões institucionais e outros mais entrados em modelos quantitativos formais
de avaliação de ativos, acabaram desenvolvendo conceitos de risco diferentes
para avaliar os papéis que produziam, emitiam e comercializavam. Essa
dissonância cognitiva acabou produzindo possibilidades de arbitragem e com elas
uma acumulação agregada de riscos muito maior do que cada grupo avaliava a
partir dos condicionamentos sociais e culturais de suas posições no espaço e
levou ao desastre geral deflagrado pelos derivativos "compostos" produzidos a
partir dassubprimes, as hoje famosas hipotecas de alto risco (MacKenzie, 2009;
Mackenzie, 2009b).
A arbitragem - o ato de comprar um título num mercado onde seu valor é mais
baixo ou tem expectativa de baixa para vendê-lo num ponto no qual esses
parâmetros têm sinalização contrária - é o ato mais basilar da atividade
financeira desde pelo menos as feiras de comércio medievais, passando pela
modernidade protocapitalista até desembocar nos mercados financeiros
internacionais contemporâneos (Penso de la Vega, 1977; Braudel, 1979a e 1979b;
Le Goff, 2005). Desde o alvorecer histórico de seu ofício, os financistas
desenvolvem sistematicamente a habilidade de perscrutar essas oportunidades
como uma espécie de calo funcional que os acompanha desde a iniciação
profissional e que vai se apurando no decorrer de suas carreiras. E mais
recentemente também o progresso da informática e das comunicações produziu uma
série de algoritmos e aparelhos capazes de realizar essas pesquisas em
sistematicidade e abrangência cada vez maiores e com amplitude infinitamente
superior à mente humana. Observar osagencements, essa janela em que se
desenvolvem conjuntamente tecnologias recentes e novas sociabilidades, umas
retroalimentando as outras na produção dos mercados financeiros internacionais,
é o terreno privilegiado da vertente animada pelo autor (Callonet alii, 2001).
O nexo privilegiado por ela são os encadeamentos de sensibilidades e
possibilidades que surgem quando novos instrumentos ampliam ou alteram as
formas de exercício da profissão e por isso não é por acaso que a ideia de
performatividade ocupa um lugar privilegiado nas análises produzidas pelos
cientistas sociais engajados nesse caminho (MacKenzie, 2003; Knorr-Cetina e
Preda, 2005).
Fligstein é um nome consagrado da vertente neoinstitucionalista da sociologia
das organizações que, como outros da sua especialidade, foi levado a se
interessar pelas finanças nessa última década de predomínio financeiro na
esfera interna das empresas e posteriormente também do setor financeiro sobre
elas (Fligstein, 1990; Fligstein, 2001). Ele dá ao problema um tratamento mais
explicitamente político. Na sua visão, o relevante é que as hipotecas de alto
risco não são um desenvolvimento endógeno do espaço das finanças, mas antes são
a resposta encontrada pelos financistas para dar conta de um objetivo político
maior dos governos norte-americanos desde, pelo menos, o período Johnson na
década de 1960 (Fligstein, 2009). Por razões políticas e ideológicas diversas,
os governos democratas e republicanos desejavam que os Estados Unidos se
tornassem uma nação de "proprietários de suas próprias casas" e, para isso,
precisavam contar com instrumentos financeiros capazes de financiar as parcelas
economicamente menos capazes de conseguir empréstimos hipotecários.
Ossubprimes foram o instrumento que, ao mesmo tempo, possibilitava as
aquisições e fomentava a emissão de novos papéis comercializáveis. E esses
títulos, na verdade a sua multiplicação constante, são a verdadeira matéria-
prima básica das finanças, a fonte principal dos lucros do setor nos países
centrais, que são advindos das comissões sobre papéis transacionados1 .
Do outro lado do tabuleiro da oferta e demanda por títulos financeiros, o
período pode ser descrito como um momento de "fome de papéis". No espaço das
economias maduras do "Primeiro Mundo", uma das consequências de anos seguidos
de taxas básicas de juros muito baixas na última década do século XX e na
primeira do XXI foi a necessidade dos investidores buscarem alternativas cada
vez mais diversificadas de títulos com rendimentos superiores àquele básico
fornecido pelos juros dos títulos governamentais. Entre outros problemas, essa
remuneração "de piso" excessivamente baixa tornara praticamente impossíveis as
aposentadorias privadas e outros pecúlios fundamentais da economia, que só se
viabilizavam (e essa situação não mudou substancialmente depois da deflagração
da crise) com taxas de retorno do capital investido muito maiores (Froud,
Haslamet alü, 2000). Por outro lado, títulos de remuneração alta também
carregam taxas de risco mais elevadas e a sabedoria financeira convencional
manda que um portfólio seguro diversifique as aplicações em numerosos tipos de
títulos com expectativas de risco o menos correlatas possíveis. O bom portfólio
inspirado pela ortodoxia combina, por exemplo, ações e outros títulos de
empresas que se dedicam ao mercado interno dos países com de outras que se
dedicam à exportação, supondo que os fatores que incentivam ou prejudicam o
desempenho do mercado interno sejam independentes daqueles que causam os mesmos
efeitos nos mercados externos.
Havia, portanto, uma procura constante de novos títulos de alto rendimento que,
dada a magnitude e importância relativa do mercado imobiliário, podia em grande
parte ser atendida a partir do aprofundamento da "securitização", a criação de
diversos tipos de papéis, ditos "sintéticos", adequados a diferentes
investidores, formados por diversas agregações e divisões de certificados
financeiros derivados das hipotecas residenciais e/ou a partir de outros
"ativos reais" vorazmente transacionados em escala internacional, como os das
matérias-primas minerais e agrícolas e outras mercadorias básicas (Lordon,
2008). E, para ampliar o efeito de permitir a aquisição de mais residências,
fomentar os negócios agroindustriais, a prospecção de petróleo e outros
minerais e atrair mais capitais externos para essas atividades, foram sendo
concebidos novos tipos de papéis securitizados - que agregavam hipotecas de
diversos níveis de riscos e depois os dividiam em novas unidades de risco, que
iam do muito baixo ao muito alto. Nessa versão, a cumplicidade dos governos
interessados na política habitacional e de fomento econômico em geral, bem como
dos agentes não diretamente financeiros cujas estratégias de negócio utilizam
os mercados financeiros, é muito mais evidenciada do que na primeira análise e
não pode ser deixada de lado (Fligstein, 2009).
A DANÇA E A ORQUESTRA
Nesse espaço onde a oferta de títulos apenas se sustenta quando há demanda, não
parece razoável simplesmente culpar os financistas pela proliferação de
títulos. A ciranda das finanças só continua a ser dançada porque a orquestra,
composta pelos diversos grupos que se utilizam dos mercados financeiros, não
para de tocar. E notável como no debate norte-americano recente sobre a
regulação dos títulos derivados as grandes empresas que usam matérias-primas
básicas, em especial as da cadeia agroalimentar, se posicionaram pela
continuidade desses mercados que a crítica considera inúteis e perigosos
(Farrell, 2010). No caso brasileiro, assistimos às altamente visíveis
dificuldades de grandes empresas, como a Votorantim, Aracruz, Sadia e Vicunha
pegas no contrapé da valorização do dólar no início da crise. Nessa nossa
situação doméstica não foram os bancos, mas as grandes empresas da "economia
real", cujas falências poderiam representar golpes duros para a atividade
econômica em geral, que chegaram ao limite da inviabilização e assim,
indiretamente, mostraram que a cadeia das finanças abarca muito mais setores da
sociedade do que os financistas propriamente ditos (Ninio, 2008).
Na verdade, estamos diante de uma típica configuração "eliasiana": a presença
de campos gravitacionais, nos quais a atuação de um grupo de atores só é
compreensível quando levamos em conta suas diversas restrições e os outros
membros da configuração (Elias e Schröter, 1991).
Entretanto, como se eles mesmos estivessem tomados pela ficção do homo
economicus, grande parte dos críticos das finanças analisam a situação
contemporânea como se os financistas fossem capazes de vender qualquer tipo de
papel simplesmente porque eles existem, sem se perguntar por que há demanda
para os produtos dessa expressão marota intitulada "indústria financeira". Esta
suposição inadvertida carrega uma constatação implícita sobre a capacidade dos
financistas imporem a necessidade dos produtos que transacionam e, de alguma
forma, configuram a aceitação tácita da dominação financeira como um fato
natural e indisputado.
Como afirmou repetidas vezes o famoso, e exitoso, financista Warren Buffett, a
multiplicação de papéis financeiros é uma verdadeira bomba atômica de efeito
retardado (BBC, 2003). Mas, ainda assim, ela se mantém e amplifica. Delineia-se
então um problema sociológico mais geral, a nossa grande questão: os mecanismos
através dos quais os pontos de vista financeiros acabam sendo aceitos como o
interesse geral das coletividades mais amplas. Torna-se assim necessário
investigar as relações de força simbólicas que impelem não só os agentes
institucionais, mas também os mais diversos elos da cadeia econômica, a se
manterem nesse quadro de referência que favorece a criação e emissão contínua
de mais e novos títulos. Em suma, calibrarmos as hipóteses sobre uma possível
dominação cultural das finanças na definição dos critérios "corretos" de dar
conta e em seguida medir o presente, o passado e as tendências do futuro, além
de indicar os caminhos de cada sociedade e também das relações entre o conjunto
dos países participantes do circuito (Grün, 2009a).
O mundo e a realidade
Nas suas lógicas, as análises de Mackenzie e de Fligstein não são excludentes,
mas cada uma delas dirige a atenção para um universo empírico diferente e assim
produz um programa de pesquisas que leva a investigação a procurar lógicas e
condicionantes diversos. Mackenzie nos encaminha para o coração mesmo da
atividade financeira, os profissionais inovadores que aproveitam qualquer
possibilidade de conceber novos títulos e fazer dinheiro com eles. Já Fligstein
nos empurra para a interface entre o universo financeiro propriamente dito e a
esfera política em senso estrito da sociedade. Mackenzie nos chama a atenção
para o espaço interno das finanças enquanto Fligstein nos encaminha para a
relação entre o espaço financeiro e o político. Cada uma das abordagens termina
por produzir uma (re)apresentação diferente da crise. E cada uma dessas
formulações extrai elementos específicos do mundo para se construir, deixando
de lado, evidentemente, muitos mais pontos do que aqueles que ele leva em
conta.
A rigor, é impossível descartar uma explicação a partir da outra. Como quer a
sociologia da sociologia desenvolvida, entre outros, por Boltanski (2009), as
diversas sociologias constroem realidades mais ou menos estruturadas e
convincentes, mas não esgotam as possibilidades de representação social
disponíveis no mundo. Só podemos sair dessa indecisão objetiva sobre o mundo se
fizermos as realidades passarem pelo famoso "teste do pudim". Como nos indica a
filosofia das ciências naturais, o teste das construções da realidade é
justamente a capacidade de elas se naturalizarem como "evidentemente corretas"
ao servirem de base para intervenções satisfatórias ou eficientes sobre a
realidade no instante (t-1) e, performaticamente, se naturalizarem como
verdadeiras no instante (t) (Hacking, 1983; Hacking, 1999). Nesse sentido, pelo
menos no âmbito interno da Sociologia enquanto disciplina, a versão dos SSFs é
mais bem-sucedida no sentido de suscitar um programa de pesquisas. Ela tende a
se naturalizar pelo prosseguimento da sua inspiração por um conjunto expressivo
de jovens pesquisadores que têm criado nos últimos anos um verdadeiro aparato
institucional de redes de pesquisas, sites, congressos e publicações. Trazendo
o argumento da sociologia do conhecimento empregado por Mackenzie para o seu
próprio colo, podemos verificar que essa institucionalização científica é tão
mais interessante já que, inclusive, seus praticantes são capazes de produzir
"naturalmente" um anátema contra as interpretações sociológicas rivais, e
justamente a de Fligstein (2009) e outras heteronômicas (em relação ao canónico
recém-estabelecido) são o alvo principal2 . Mas ela só seria eficiente, no
sentido de se tornar a base para alterar o comportamento dos atores financeiros
e/ou governamentais, na medida em que, por exemplo, suas interpretações sobre a
percepção de risco se incorporem em novos instrumentos ou institucionalidades,
como algoritmos de medição de risco ou mecanismos legais de prevenção do
conluio entre agentes governamentais e financistas3.
No teste, é evidente que o possível aporte da Sociologia na formulação de
alguma política pública é pouco provável. Na hierarquia social das disciplinas
a Sociologia tem umstatus inferior ao da Economia. A Sociologia costuma ter
alguma influência sobre a chamada "mão esquerda" do Estado, aquela que cuida
das políticas sociais voltadas às populações menos favorecidas. Quando ela se
debruça sobre questões que afetam mais diretamente as elites constituídas, a
chamada "mão direita" do Estado, a sua luz se eclipsa diante do "bom senso"
tradicional vocalizado pela teoria econômicamainstream ou pelo Direito
(Bourdieu, 1998). E claro que o resultado acima não é definitivo e, justamente
nesse momento e tópico, observamos algumas tentativas de incorporar a
explicação sociológica, em especial a versão representada por Mackenzie, nas
promessas de autocorreção e prevenção de riscos produzidas internamente aos
mercados financeiros4 . Não podemos descartar liminarmente essas tentativas.
Mais do que isso, devemos registrar nessas relações entre os SSF e o mercado
financeiro que estamos diante de um início de sucesso mundano dos SSF5 . Mas a
experiência do passado nos permite manter o ceticismo em relação à incorporação
dessa crítica pelos agentes do mercado e a subsequente correção de rumos. Assim
como em outros espaços econômicos, no financeiro também opera a "indústria do
sucesso", que enviesa para cima as expectativas das iniciativas econômicas, de
maneira a induzir ao descarte das apreciações cautelosas e conservadoras sobre
as suas possibilidades de sucesso (Grün, 2003c). A sociologia do sub-ramo
recente das finanças, a "análise de riscos", demonstra a mecânica sociológica e
cultural que produz os descartes dos alarmes e demais instrumentos de "controle
de risco". Os financistas, agentes que criam os novos títulos e impulsionam as
vendas são fartamente remunerados, incensados pela mídia como as figuras mais
proeminentes do momento e coroados com uma aura de sucesso que lhes autoriza
opinar legitimamente sobre os diversos assuntos da sociedade, muito além
daqueles que adviriam da definição estrita do seu ofício. Mais presente no
chamado "Primeiro Mundo", vemos essa legitimação se espraiar também no Brasil
(Dias, 2000). Já os contadores e auditores encarregados de registrar as
operações, aferirem seus riscos e deflagrar eventuais alarmes, aqueles atores
que no espaço dos mercados financeiros cuidam doBackOffice, esses são
caracterizados como burocratas sem imaginação e, diante dessa violência
simbólica evidente para a Sociologia, mas invisível para os participantes do
jogo, ou seus avisos são descartados ou, mais provavelmente, eles mesmos acabam
duvidando de seus cálculos e terminam por se calar espontaneamente (Power,
2007; Power, 2009; Sinclair, 2010). Não por acaso, o animal símbolo de Wall
Street é o touro impetuoso que sinaliza os mercados otimistas em alta, e não o
urso sonolento, que chama a atenção para a necessidade de resguardo em épocas
de pessimismo.
Nesse ponto é interessante considerar que, no arrazoado que pretendo
desenvolver, uma definição definitiva da crise financeira é intrinsecamente
impossível de ser alcançada. Uma ou duas definições podem, evidentemente, gerar
construções culturais mais ou menos robustas, no sentido de resistirem e
permanecerem quando submetidas aos testes dos debates acadêmicos, econômicos,
financeiros e políticos. Mas é claro que estamos assim diante de aproximações e
não da crise "em si", cujo significado é disputado e - ouso dizer -
inesgotável, e não poderia ser diferente como mostra a polêmica permanente
sobre a crise de 1929 que até hoje divide os economistas e aqueles que se
servem de sua produção intelectual na política ou na mídia. Salta aos olhos que
definições diferentes levam a sociedade a injetar recursos em alguns setores e
retirá-los de outros, consagram ou desgraçam autoridades acadêmicas e demais
participantes do debate público, em especial nos universos da mídia e da
política. Mas, principalmente, o jogo social no qual a definição "correta" da
crise está inserida está no centro do conflito distributivo das sociedades
contemporâneas. E por isso cada estado provisório de consenso ou de
consentimento gera e apazigua ganhadores e perdedores materiais e morais pelo
período correspondente e é da natureza do conflito que as dinâmicas sociais e
culturais acabem rompendo os equilíbrios provisórios, alterando os
entendimentos e os critérios de justiça distributiva que vigorava nos momentos
imediatamente anteriores.
A sedução da descrição densa
No espaço interno às Ciências Sociais em senso estrito, a abordagem de
Mackenzie tem mais adeptos entre aqueles que investigam o universo das finanças
e não é por acaso. Baseada nas evoluções do método etnográfico que caracterizam
os estudos sociais sobre as ciências (SSS), nos quais se evidenciam razões e
interações não só entre humanos, mas também entre esses e as extensões de sua
ação, essas análises aprofundadas de grupos de agentes e equipamentos que
povoam o espaço financeiro, ela seduz pela riqueza de detalhes que o sociólogo
revela e que são diferentes dos dados normalmente apontados pelos economistas
como relevantes para explicar a dinâmica da atividade que ambos procuram
explicar (MacKenzie, 2001). Além disso, e especialmente na zona empírica do
universo financeiro, a etnografia é um instrumento praticamente específico do
cientista social, que lhe confere cidadania científica e o próprio Mackenzie
lembra esse "fundo de comércio específico" quando, nas páginas do
tradicionalFinancial Times, ele se dirige a um público mais provavelmente
próximo das profissões financeiras. E, se pensarmos nobusiness as usual, será
difícil encontrar na sociedade um grupo mais distante e menos interessado na
Sociologia. Portanto, a simples publicação de sua análise naquele espaço é um
eventosui generis. Num quadro como esse a etnografia, a famosa "descrição
densa" de Geertz, se reforça como uma ferramenta profissional e intelectual
difícil de ser descartada, ou mesmo relativizada. Entre outros motivos porque,
uma vez conhecida e disponibilizada, ela tende a fornecer descrições da
realidade econômica e financeira em níveis de detalhe apropriados para os
jornalistas construírem as narrativas "interessantes" que caracterizam a boa
prática do seu ofício (Manoff e Schudson, 1986). E dado o papel central da
mídia na consagração profissional dos nossos tempos, se realmente tivermos um
uso mais intenso das descrições densas, a proximidade da abordagem dos SSFs com
o campo do poder tende a aumentar, pelo menos no subespaço ocupado pelo poder
intelectual.
A abordagem etnográfica que os SSFs herdaram dos SSS enfatiza os acordos, os
consensos entre os diversos envolvidos em transações (espaço no qual essa
nomeação normalmente tem uma conotação denunciatoria) científicas e, por
extensão, as transações financeiras6. E a tentação de operar ou de ter voz
sobre a "mão direita" talvez aumente a tendência a enfatizar as convergências e
através desse enfoque "construtivo e otimista", rivalizar com as postulações
tradicionalmente positivas e normativas da teoria econômica ortodoxa. Num
quadro institucional em que a Sociologia é inferiorizada diante da Economia,
mas no qual os praticantes da sociologia econômica, bem como seus predecessores
da sociologia das organizações disputam espaços nasbusiness schools, não chega
a ser surpresa a tentativa de buscar respostas sociológicas que disputem com a
disciplina dominante o terreno do prestígio junto aos governos e à mídia. Até
porque é bastante evidente o incômodo não só institucional como teórico dos
sociólogos diante do imperialismo economicista que ficou claro a partir de
Becker e que só cresce desde então (Becker, 1981). De um lado o (quase)
monopólio da teoria econômica nas questões que dizem respeito à mão direita. Do
outro, as diversas tentativas de "colonização" da mão esquerda por enfoques
econômicos. Há uma clara disputa pelo espaço dos objetos empíricos que se
corporifica nas disputas pelo "bom método" de dar conta dos fenômenos sociais e
econômicos7. É, portanto, sociologicamente necessário dar conta dessa disputa
de fronteiras para entender minimamente a sociologia que rege a sociologia das
finanças e as razões que impelem os pesquisadores a desenvolver ou adotar uma
dentre as diversas abordagens (Bourdieu, 1997).
Em termos mais substantivos, como a inspiração dos SSFs vem diretamente dos
SSS, é relevante pontuar algumas diferenças entre os objetos de cada uma delas.
Desde o trabalho de Garfinkel (1981), vemos como, no mundo científico, se cria
um consenso em torno da existência "real" de uma partícula subatômica "teórica"
e como esse consenso gera uma representação específica da realidade natural e,
em seguida, instrumentos de análise que reiteram a existência da partícula e um
programa de pesquisas que parte desse princípio (Gigerenzer, 1996; Douglas,
1998; Hacking, 1999; Staley, 2004). Os SSFs replicam esse programa para os
instrumentos financeiros. Ora, no mundo da ciência pode ser razoável subordinar
a importância das disputas de poder. Evidentemente elas também existem nessa
esfera, mas são bastante eufemizadas pela ideologia do progresso científico e
da existência de uma comunidade intelectual acadêmica regida pela cooperação
entre seus participantes, democraticamente descritos como "pares". E por isso o
efeito subsequente dos consensos obtidos em torno dos conceitos científicos e
depois "performatizados" nos instrumentos e programas de pesquisa acaba
escondendo o traço das disputas, os tornando verdadeiras "páginas viradas" e a
sequência irreversível. A ciência tomou um determinado caminho e só uma
revolução interna poderá alterá-lo (Hacking, 1983; Douglas, 1998).
Mas quando caminhamos para o explicitamente competitivo mundo das finanças esse
pressuposto e esse curso, razoáveis no espaço anterior, ferem de morte a
realidade empírica. Nesse sentido creio que no espaço financeiro, um dos
principais subespaços do campo do poder, essa abordagem conduz a uma armadilha.
Convivem dinamicamente nesse espaço diversas comunidades de agentes e cada uma
delas disputa o cetro de grupo mais importante. Essa disputa é, como sempre,
implícita na sua dimensão identitária, mas é também explícita e muito
diretamente econômica e política, já que a importância reconhecida de cada
grupo lhe confere maior ou menor remuneração, possibilidade de inserção
profissional e capacidade de influenciar outras esferas de sociabilidade, em
especial os diversos níveis e agências governamentais. Direta, através da
regulamentação e seus detalhes pelas agências reguladoras e da aceitação pela
clientela, ou indiretamente através da sanção legal, os instrumentos
financeiros são, ou deixam de ser, viabilizados na interface com os governos ou
com os atores institucionais formalmente fora da esfera dos mercados8. E mais
do que isso, já que os diversos tipos de títulos concorrem pela predileção dos
investidores, se uma família de papéis se destaca positivamente, outros se
eclipsam ou perdem a importância relativa. E em consequência também ganham ou
perdem os grupos de profissionais que os emitem e negociam. Logo, como o peso
relativo de cada papel depende do beneplácito dos governos e de suas agências e
da capacidade de influenciar os intermediários os quais, por sua vez,
influenciam os consumidores e reguladores de títulos, o jogo que se joga no
espaço financeiro é intrinsecamente heteronômico. Assim, o ponto estruturante
da realidade é a competição perpétua, jamais apaziguada, não só entre os
diversos grupos de financistas propriamente ditos, mas também pela
diferenciabilidade na influência sobre outros agentes e agências que possam
condicionar suas disputas. Essa realidade não é a mais fácil para a etnografia.
Reapresenta-se no nosso espaço o problema mais geral da etnografia das elites
econômicas sistematizado por Marcus e Hall (1992). Elites têm, por definição, a
capacidade de seduzir os seus observadores e conduzi-los a aceitar suas
teodiceias e a entender & constituir o espaço social como um todo a partir
de suas razões e interesses. Concretamente, a sedução faz naturalizar os
comportamentos desses agentes dotados de poderes tanto econômicos quanto
simbólicos e tornar "autoevidentes" suas visões de mundo e em especial da
economia. Afinal, se de um lado não podemos deixar de concordar com Boltanski
(2009) que o mundo comporta diversas realidades, também não podemos esquecer
que as diversas versões de mundo estão em competição permanente e que essa
disputa é a base mesma da atividade política e da dinâmica social de qualquer
sociedade (Duby, 1978; Bourdieu, 1997).
Ainda que os nossos instrumentos de objetivação nos ajudem a evitar a
armadilha, eles não podem ser considerados antídotos totalmente seguros contra
a sedução das elites. Etnografias podem ser apropriadas socialmente como
narrativas que irão contribuir/construir sentido para a crise. Evidentemente
esse resultado indireto da atividade intelectual não pode ser controlado ou
coibido no que diz respeito aos usos sociais da escritura científica. Mas cabe
a ressalva sobre a sua própria performatividade. Assim como os estudos da
sociologia da educação dos anos 1960 e 1970 acabaram se incorporando aos
discursos oficiais sobre esse importante tema da sociedade gerando uma reflexão
sociológica sobre esses usos, com muito mais propriedade podemos esperar uma
análise das consequências sociais dos seus estudos por parte dos promotores da
performatividade como eixo condutor dos estudos sociais sobre as finanças.
Aos meus olhos, a falta (pelo menos até o momento) de uma sociologia da
sociologia da performatividade pode estar relacionada com o pressuposto não
trabalhado, mas implícito na metodologia e nas estratégias intelectuais, da
autonomia praticamente absoluta da esfera financeira, aqui reduzida aos
mercados no seu sentido estrito. Deixando implícito que o espaço é autônomo,
uma afirmação que pode ser considerada trivial no sentido de corroborar o senso
comum sobre o tema, o poder explicativo da descrição densa das suas populações
resgata a dinâmica social que move o espaço. Tudo se passa como se o campo do
poder pudesse ser reduzido ao espaço específico das interações produzidas nos
mercados financeiros e, portanto, sua etnografia pudesse restituir a dinâmica
mais geral desses processos de decisão cujos contenciosos são tão importantes
que alteram sensivelmente a ordem das prioridades imperantes na sociedade. Mas,
creio eu que a crise, ao desnudar a relatividade da autonomia, nos obriga a
repensar a capacidade analítica do instrumento quando aplicado ao objeto "crise
financeira" e questionar a ilusão intelectual que ele pode produzir (Grün,
2010).
Há duas razões para a ressalva. Em termos empíricos elas estão interconectadas,
são os dois lados da mesma moeda, mas analiticamente têm de ser tratadas de
forma separada. Em termos concretos e cronologicamente situados, o principal
resultado da dominação financeira é que ela não só implica, em tempos
"normais", uma enorme transferência de renda para os financistas e seus aliados
como também, durante a crise, obriga a sociedade a pagar a conta dos seus
desenvolvimentos negativos. E esse resultado deve ser apreciado tanto no espaço
propriamente empírico quanto na capacidade dos diversos setores da sociedade de
dar conta do jogo em que estão engajados. Por isso, ainda que os dois problemas
sejam "gêmeos" em termos da sua economia política ou da dinâmica da
distribuição do produto social, sociologicamente eles precisam ser tratados de
maneira separada, por causa das sutilezas da dimensão cognitiva na apreensão
das consequências da dominação financeira sobre o corpo social.
O socorro concedido ao mundo financeiro envolve cifras gigantescas, muito
distantes da compreensão cotidiana, não só na magnitude, mas também no
significado dos fluxos de recursos para o funcionamento da sociedade: eles
serão entregues às entidades financeiras como empréstimos com condições
razoáveis de ressarcimento? Eles representam algum tipo de doação a fundo
perdido? Eles alteram as prioridades normais e acordadas da vida política e
social, normalmente estabelecidas a partir dos processos democráticos de
escolha de representantes? A estatização do sistema financeiro, evitada até
agora pelo setor, pode voltar como alternativa legítima? Em que medida a
linguagem cifrada das finanças que envelopa o debate público sobre a crise
financeira, suas causas e consequências são compreensíveis para o "cidadão
comum"?
A consistência empírica da abordagem nominalista
Diante do quadro nuançado, até onde podemos nos satisfazer com esse "banho de
realidade interna"? Poderíamos contrapor uma das visões sociológicas com as
quais iniciamos a reflexão à outra ou aumentar o nível de generalidade e tentar
dar conta das duas ao mesmo tempo. A análise contrastada do caso brasileiro,
país que foi apenas moderadamente tocado e principalmente pelo lado do choque
exógeno, com o caso norte-americano, posicionado no seu centro, permite fazer
essa composição mais facilmente. Nesse sentido, minha pretensão é mostrar que
uma análise dos esforços para fazer prevalecer uma das diferentes versões para
a "crise" pode realizar essa convergência. Aos meus olhos, esse caminho eleva o
grau de conhecimento sociológico da configuração que a sociedade chama de
"crise" e constrói um ponto de vista especificamente sociológico sobre o
fenômeno que resgata o essencial de suas linhas de força, reconstituindo
analiticamente a sua dinâmica. Vemos que, no que diz respeito à "crise", nomear
é dividir e instituir o mundo (Bourdieu, 1980a). Na lógica dessa operação
sociológica, Bourdieu (1997) incorpora a ideia do "nominalismo dinâmico"
desenvolvida por Hacking (2002) a partir de Foucault e de alguma forma contida
em Goodman (1988) e vai mais adiante, insistindo no caráter cultural dessas
disputas e sobre suas enormes consequências na instalação, reiteração ou
mudança dos sensos comuns que guiam as sociedades, suas inércias e ações (p.
221).
Assim, a própria denominação "crise" deveria ser problematizada para resgatar
as linhas de força que regem o contencioso. Nos dois pólos, a declaração da
"crise" permite aos governos e eventuais setores que deploram o predomínio
financeiro das sociedades pretenderem níveis de intervenção naquela esfera que
estariam descartados liminarmente em tempos ditos "normais". Já para o setor
financeiro, a declaração de crise permite a busca de socorro econômico
extraordinário, que em outras circunstâncias seria questionado, contingenciado
e sujeito a contrapartidas dolorosas. No curto prazo, tudo indica que os
antípodas se tocam, convergindo para uma zona de interesse comum. Mas é claro
que, como observamos acima, essa situação é passageira e evolui para um
contencioso praticamente aberto. E, nesse sentido, um dos maiores pontos de
interesse são justamente as formas e coalizões através das quais as finanças
procuram restabelecer o predomínio ao mesmo tempo econômico e cultural
existente antes da eclosão da crise.
A narrativa é a chave do jogo
Proverbialmente, depois das diversas voltas, o próprio campo financeiro também
nos indica a saída para uma sociologia da crise financeira atual que dê conta
dos seus diversos desenvolvimentos. Passados quase três anos, assistimos a
umremake do filme tradicional: os bancos e casas de investimentos
internacionais voltam a pagar bônus enormes aos financistas ainda que os
críticos na imprensa, na esfera política e na academia, condenem essa prática e
a considerem não só imoral como responsável pela própria crise. E esses mesmos
atores "críticos" que acabam constatando com ar de desolação que nada nem
ninguém podem impedir o fato. Aqui e ali diversas vozes começam a dizer que os
mercados financeiros conseguiram um enorme feito na sua relação com a
sociedade. Surge então na imprensa especializada a expressão altamente
indiciária: [Os financistas e seus aliados teriam conseguido - RG] "Controlar a
narrativa" sobre o que é a crise, como sair dela ou evitar a próxima (Harper,
2011; Yergin, 2009). Nessa expressão que parece ter sido pinçada das Ciências
Humanas pode residir a chave para a sociologia da crise financeira. Trata-se de
explicar a dominação financeira sobre a sociedade, seu enfraquecimento durante
a crise e a progressiva recuperação do "controle da narrativa": a volta da
capacidade do campo financeiro de impor para o conjunto da sociedade a sua
visão não só sobre como são, mas também como devem ser a economia e a justiça.
Para os jornalistas, imersos no dia a dia da política e da economia, a
imposição é fundamentalmente uma questão delobbyíng e de inteligibilidade dos
argumentos financeiros. De um lado, os financistas dispõem de dinheiro
suficiente para pagar "um exército de lobistas". E, além disso, como a
atividade financeira contemporânea é extremamente complexa, os membros do
governo e dos parlamentos que poderiam questionar as causas das finanças ficam
inseguros no debate e acabam se rendendo aos argumentos financistas, aceitando
suas explicações sobre as causas da crise e as maneiras de evitar uma próxima.
O resultado maior dessas restrições exercidas pelas finanças sobre o espaço
político seria que as tentativas de aumentar a regulação sobre a atividade
financeira são consideravelmente diminuídas e, principalmente, a questão
altamente sensível das remunerações dos financistas se mantém em quadros
favoráveis a esses últimos.
Entretanto, aboutade vinda da pena dos publicistas só encontra amparo
sociológico quando justamente focamos nossa atenção sobre os diversos fios que
ligam as finanças ao resto da sociedade. Por que não há lobbying eficiente
advogando as causas daqueles que são prejudicados pela crise? Por que os
legisladores não procuram criar capacidades de processamento e inteligibilidade
de informações financeiras independentes do "lobby de Wall Street"? No espaço
acadêmico e intelectual anglo-saxão, altamente diversificado, certamente essa
capacidade está disponível, sedenta de reconhecimento e apresenta "narrativas"
e soluções alternativas aos dilemas sociais causados pela crise financeira9.
Já no caso brasileiro, podemos acompanhar a evolução do recém-empossado governo
Dilma, nesse "interessante" momento em que o espaço financeiro tenta refazer a
narrativa sobre as formas como no seu início a crise foi tratada pelo governo
federal, reenquadrando as medidas tomadas pelo governo, antes consideradas
corajosas e virtuosas, como "gastança promovida por Lula para eleger Dilma".
Consagrada essa inflexão, teremos não só a restauração do predomínio
intelectual dos pontos de vista exarados do espaço financeiro, como também a
ampliação da corveia que o setor financeiro extrai da sociedade brasileira.
Afinal, o remédio para a gastança é o aumento da taxa básica de juros e do
superávit monetário do governo federal, necessário para pagar esse acréscimo no
manejo da dívida. Quem paga é o governo federal, retirando recursos que iriam
para a mão esquerda, para os setores menos aquinhoados da sociedade. Quem
recebe são os rentistas das mais diversas naturezas, desde os aposentados e
pensionistas vinculados aos fundos de pensão até os banqueiros e acionistas
individuais dessas organizações, os quais, no país dos juros mais elevados do
mundo, auferem rendimentos polpudos que representam a transferência para as
suas mãos de uma parcela significativa das riquezas produzidas no país.
Episodicamente, depois da eclosão da crise, podemos notar essa tendência de
maneira mais nítida nos momentos quentes (para o campo financeiro) quando se
avizinha uma reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) que estabelece a
taxa básica de juros que remunera os empréstimos da dívida pública, que assim
se torna o piso das taxas praticadas no mercado interno. E quando os locutores
dessa tentativa de "restauração narrativa" se apresentam mais intensamente na
mídia mainstream e praticamente ocupam todo o espaço locutório disponível. As
manifestações que coletei datam, não por acaso, dos dias que antecedem aquela
programada para os dias 1 e 2 de março de 201110. Esse estilo dos "recados" dos
porta-vozes do campo financeiro foi configurado, evidentemente, antes da crise
e costuma enfatizar os perigos de aumento, ou da volta, da inflação e os riscos
de desorganização da atividade econômica que lhe seria correlato. No período
pós-crise os recados veem com a especificação de que a ousadia anterior do
combate à crise, agora assimilado a um descalabro que teria sido promovido para
eleger a sucessora de Lula, e a desconfiança em relação ao novo governo federal
vindo da esquerda do espectro político devem ser purgadas com medidas
"heróicas" de aumento das taxas e de restrição orçamentária.
Nesse período "pré-reunião" do Copom, surgem dois argumentos contrários ao
aumento da taxa básica de juros: o primeiro dizendo que a inflação do início do
mandato de Dilma é exógena, produto de uma tendência internacional de aumento
de preços que também se reflete no Brasil e para a qual um eventual aumento de
juros internos seria inócuo; o segundo tentando introduzir uma variante no
combate à inflação, as medidas "macroprudenciais", que acrescentariam novos
instrumentos para a tarefa, como elevação dos depósitos compulsórios para as
diversas captações dos bancos e exigências que diminuíam a capacidade de
alavancagem dos bancos (BCB, 2010). Mas, pelo menos no momento quente em que
"os mercados" são auscultados para que a ação governamental não cause nenhuma
reversão de expectativas que poderia redundar em dificuldades para instituições
bancárias ou mesmo para o mercado interbancário de títulos, esses argumentos e
ações não chegam a ser realmente debatidos, se impondo mais uma vez a doxa do
bom senso financeiro que prevalece nos últimos anos com a rápida exceção do
período inicial da crise. A antropoformização seguida de infantilização
reassume seu papel na retórica que favorece os rendimentos financeiros:
quaisquer outras medidas ou ponderações são invencionices de devedores
contumazes que não querem pagar a conta de seus excessos. No país da bagunça e
da preguiça, que insiste em "não fazer a lição de casa", temos de purgar seus
pecados através da flagelação dos juros altos (Grün, 2007).
Realidades e representações
Uma forma de compor os fatos descortinados nessas facetas norte-americana e
brasileira da crise é recuperar dinamicamente a "velha" postulação durkheimiana
que atribui à Sociologia a missão de estudar não os fatos em si, mas as suas
representações sociais (Bourdieu, 1997). A partir dessa premissa, passamos a
observar as diversas representações sociais da "crise" e a disputa entre elas
pela prevalência de uma das versões na sociedade. Essa "vitória" de uma das
versões teria evidentemente imensas implicações já que, como vimos, ela
consagraria as formas de intervenção, os culpados, e legitimaria imensas
transferências de recursos econômicos, que normalmente sairiam das mãos
esquerdas dos governos para as suas mãos direitas, das políticas sociais para
as atividades de socorro e fomento das finanças. Nesse sentido, a possível
prevalência da abordagem dos SSF na sociologia das finanças seria justamente a
retenção pela sociedade da representação da crise financeira como o desajuste
entre as percepções e ações das duas comunidades financeiras que se avizinham.
Esse diagnóstico consagraria uma representação de que a crise é um fenômeno
aleatório, praticamente um acidente social ou tecnológico equivalente à queda
de um avião causada por divergências cognitivas ou linguísticas entre seu
piloto e a torre de comando que deveria indicar as condições e a rota de
aterragem, no estilo de alguns alarmes que costumam sair na imprensa e
repercutem na blogosfera11. E desse diagnóstico surgiria um programa de
prevenção baseado nas possibilidades de tradução recíprocas entre as linguagens
de cada uma das comunidades de pensamento.
Já se prevalecesse a versão de Fligstein, a "lição" da crise seria a existência
de uma relação promíscua entre o setor financeiro e a esfera política em
detrimento do interesse geral. Independente da sua justeza intrínseca salta aos
olhos a dificuldade de se aceitar o diagnóstico que implicaria uma flagelação
geral do campo do poder norte-americano e de outros países do Primeiro Mundo.
Ainda que alguns atores menos comprometidos com o campo do poder possam abraçar
essa apresentação da realidade, os resultados já incorporados da sociologia da
ciência nos recomendam manter o ceticismo, pois a extensão do abalo que a sua
aceitação generalizada provocaria nos diversos espaços das elites nacionais e
internacionais torna ela pouco plausível em tudo que uma representação da
realidade tem de socialmente concreto (Fleck, 1979; Douglas, 1985; Douglas,
1986).
Uma segunda rodada, um pouco mais macro, na cronologia recente das relações dos
governos norte-americano e brasileiro com os seus respectivos mercados
financeiros, ajuda a iluminar o assunto. Elas fornecem dados empíricos
extremamente relevantes para a análise desses "estados de consciência", ou de
"construções de realidades" divergentes e concorrentes produzidas pelas
disputas culturais que durante algum tempo sacodem as sociedades contemporâneas
mas que em geral acabam conduzindo para a reconstrução paulatina dos seus
consensos básicos. E nesse caminho abrem espaço e mostram a relevância de uma
sociologia que recupera a lógica do funcionamento da esfera econômica a partir
dos seus substratos culturais.
Nos EUA, o início do governo Obama foi uma ocasião particularmente favorável à
extensão do controle social sobre a atividade financeira. Em primeiríssimo
lugar, a coincidência da crise com a entronização de um governo federal recém-
eleito bem demarcado do anterior, com um mandato quase explícito de lidar com
as disfunções do que era considerado um exagero na proteção aos abastados na
administração republicana que lhe antecedeu. A crise geral obriga as
instituições do mercado a buscarem socorro governamental e encontra o novo
governo, que assume gozando do máximo de prestígio e legitimidade que se pode
conceber realisticamente no sistema atual. Essa situação é bem percebida, por
exemplo, quando a equipe do novo governo se prepara para tomar posse e Rahm
Emanuel, um de seus membros mais presentes na mídia, declara que "a crise é uma
oportunidade boa demais [para realizar mudanças que em tempos normais seriam
impedidas pelos diversos grupos de interesses], não pode ser desperdiçada"
(Zeleny, 2008; Seib, 2008). E nessa declaração estava implícito o aceite de uma
visão da crise mais próxima daquela exposta por Fligstein. Mas a sequência de
notícias que recebemos configura uma realidade bem menos favorável à ação
política voluntarista: assistimos a um encadeamento no qual as engrenagens das
finanças vão recompondo a dominação, ao minar e subverter os esforços
regulatórios que deveriam por em marcha a mudança na relação de forças.
Como sugerimos acima essa história nunca acaba, mas é possível acompanhar seus
primeiros passos e algumas reviravoltas altamente indiciárias. De início, após
o abalo inicial da "declaração" da crise, assistimos a uma ofensiva de relações
públicas explícita do setor financeiro, tentando recompor a sua imagem
danificada (Story, 2009). Depois do momento de fragilidade, os bancos e demais
instituições vistos pelo mercado financeiro internacional como "muito grandes
para poderem falir" voltam à mal reputada política de pagar bônus elevados para
seus financistas (Dash, 2009a; Sorkin, 2009). E, para fechar o ciclo, acabam
atraindo capitais privados para devolver antecipadamente os empréstimos
governamentais cujas condições de outorga lhes tolhiam os movimentos (Dash,
2009b). Em seguida, a dura manobra no espaço político que parece consagrar a
dominação. Diante do perigo da nova regulamentação, o setor financeiro mobiliza
os seus apoios legislativos, manieta os esforços da presidência norte-americana
e assim deixa claro"Who's the Boss" (Sorkin, 2009; Kopecki, 2009). Mas, no
quadro econômico e social em que as cicatrizes da crise, em especial o
desemprego e as falências pessoais, ainda não estão fechadas, a reação
governamental recupera o fôlego. Concretamente, ela consegue fazer passar uma
nova legislação financeira, menos abrangente do que os críticos das finanças
esperavam, mas de escopo suficiente para os membros do governo afirmarem sua
intenção de controlar as finanças e algumas das consequências do socorro aos
bancos para o resto da população. No cerne da tentativa se trata de criar novas
agências de controle e aumentar o escopo das possibilidades de controle
governamental sobre a imensa diversidade de serviços e agentes financeiros que
intermedeiam empréstimos que vão dos créditos aos estudantes universitários às
especificações nem sempre bem esclarecidas das cláusulas de outorga dos cartões
de crédito (Cooper, 2010). O resultado efetivo dessas medidas, que talvez
incidam mais sobre os pontos nos quais o clamor popular é direto, que não são
necessariamente aqueles cuja magnitude pode produzir mudanças importantes na
ordem das preferências sociais, só poderá ser apreciado se e quando tais
organizações estiverem funcionando de maneira autônoma, de maneira a esclarecer
o alcance do jogo delobbying que inevitavelmente age no sentido de diminuir ou
redirecionar as atividades governamentais na área financeira (Litchblau, 2010).
Mas esse resultado, se unívoco, só será conhecido mais tarde. E, mais
provavelmente, as novas agências serão palcos de contenciosos permanentes em
torno dos graus de autonomia da esfera financeira da sociedade.
A narrativa brasileira: disputas e possibilidades
A disputa pela representação correta da crise se inscreve numa cronologia que
começa antes dela. A partir do Brasil, que é um terreno mais conhecido, podemos
observar uma cronologia elucidativa mais longa e detalhada, que começa com a
ascensão de Lula em 2003. Como nos Estados Unidos, um governo surgido da
esquerda do espectro político local. Naquele primeiro momento, o governo recém-
empossado e dotado de forte legitimidade popular tenta implantar alguns ajustes
no sistema financeiro através de uma proposta de emenda constitucional. O
resultado foi uma censura em regra aplicada pelo campo financeiro no governo
federal, no qual ficou assinalado que a intenção do governo seria a de tabelar
os juros, uma pretensão "ridícula, medieval e jurássica". Depois da impugnação
do desiderato governamental se seguiu um período em que o governo pouco se
atreveu no que diz respeito a alterar a situação privilegiada que o mercado
financeiro goza no país, nem tampouco lhe surgiu qualquer veleidade de afrontar
o bom senso financeiro que supervisionou as diversas políticas federais. A
ideia de que a política econômica pouco ousada dessa primeira fase do governo
seria explicável pelas "personalidades conservadoras" de Pallocci e Meirelles é
boa para instrumentação política e midiática, mas dificilmente poderia ser
retida numa análise mais rigorosa (Grün, 2004a; 2008a; 2010).
A situação muda quando, premido pelos escândalos que tiveram seu auge em 2005,
o governo federal se vê obrigado a buscar apoio nos esteios tradicionais da
ação política do seu núcleo, os movimentos populares e sindicatos próximos ao
Partido dos Trabalhadores. A defesa político-partidaria rapidamente se
transmuta em defesa ideológica dos princípios do planejamento estatal e do
capitalismo "humanizado" e o embate altera as linhas de força da discussão, dos
dizíveis e também dos factíveis econômicos (Grün, 2008b). Ressurgem, e são
acatadas, ideias antes anatematizadas, como a necessidade de planejamento
estatal e a falibilidade das formas de controle social através da
autorregulamentação dos setores econômicos. Nessa nova conjuntura, o período
imediatamente anterior à crise financeira mostra que o cenário no qual
transcorrem as disputas discursivas sobre o futuro da economia e da sociedade
brasileiras estava bastante alterado, no sentido do enfraquecimento da
identificação entre o senso comum financeiro e o bom senso econômico (Grün,
2008a; 2010).
Mas quanto tempo dura a situação em que os desafiantes da ordem imposta pelas
finanças conseguem impor seus pontos de vista? Podemos aqui elencar diversos
episódios recentes da cena internacional em que dirigentes tanto situados à
esquerda quanto à direita dos respectivos tabuleiros políticos nacionais,
sobretudo europeus, mas também de outros países, incluindo, é claro, o governo
federal brasileiro, ensaiaram obstar a doxa financeira, seja na letra seja "na
carne". Eis que no início da crise o próprio presidente Bush, em nome do
sagrado princípio conservador da preservação domorai hazard, preferiu não
intervir na queda do banco Lehmann; na mesma toada, a primeira-ministra alemã
Merkel hesitou no socorro aos bancos alemães combalidos e o então primeiro-
ministro Brown teceu diversos comentários críticos à atividade financeira
internacional mesmo antes da sua deflagração (Treanor, 2009; Sawer, 2008;
Theil, 2008). Mas todos esses arroubos foram calados e a doxa financeira acaba
descobrindo e impondo uma finalidade nobre para o Estado: a de salva-vidas do
mercado financeiro.
Entretanto, a analogia tem limites bem especificados: no nosso caso, o "salva-
vidas" está permanentemente cerceado no que diz respeito a adotar qualquer
medida preventiva, pois qualquer pretensão dessa natureza representa uma
intromissão que "os mercados" reputariam ser certamente desastrosa na vida
econômica dos países. No jogo cultural que estamos seguindo, a própria
caracterização da situação econômica como de crise já é uma operação simbólica
rentável, muito além do que alcança o bom senso cotidiano. Como vimos acima, o
consenso social em torno da caracterização de alguma situação como de "crise"
permite justificar comportamentos atípicos que ampliam a assimetria da
distribuição de recursos a favor dos setores "sinistrados", ou permite a
intervenção da sociedade e do governo em setores antes vistos como
legitimamente autônomos. Na nossa "crise" financeira assistimos,
semanticamente, a uma operação em que a literalidade das agruras sofridas por
uma comunidade que tenha sofrido uma inundação ou terremoto é estendida para
aquelas situações onde nada de diretamente material tenha sido perdido. A
naturalidade das extensões evita qualquer crítica quando do momento crítico da
outorga inicial de "ajuda", que costuma ser deflagrada em situação
caracterizada como de emergência e, dessa forma, são inibidas na fonte
quaisquer veleidades de debate público sobre a justeza ou adequação dos
socorros. Nesses momentos "críticos", os socorristas governamentais e aqueles
que os impelem não lembram a sociedade que os recursos solicitados pelo sistema
financeiro poderão ser desviados de outra destinação, que foi previamente
acordada em algum foro deliberativo "legítimo", como uma escolha eleitoral ou
uma votação parlamentar. Muito menos poderíamos esperar um comportamento
esclarecedor por parte dos financistas aliviados e de seus porta-vozes
habituais. Esses são muito críticos da atividade de fomento ou de ajuda
governamentais quando os socorridos são outros setores, mas não é difícil
deixar de notar seu mutismo em relação a esse tema quando deixamos de falar dos
milhões destinados aos pobres ou à infraestrutura de transporte e passamos aos
bilhões e mesmo trilhão "absolutamente necessário para evitar o derretimento da
economia mundial". A situação só pode se alterar quando os setores que perdem
os recursos que foram desviados para os socorros começam a sentir a alteração
negativa de estado. Concretamente, quando os programas sociais, de fomento
econômico, de educação e outros passam a sofrer restrições imputadas à escassez
de verbas ocasionada pela crise, como mostrou o exemplo pioneiro islandês
(Kollewe, 2011) e as primeiras reações nacionais aos problemas apresentados
pelos "PIGS" (Johnson, 2010; Clark, 2010).
A magia semântica e social da extensão
Cabe, portanto, uma indagação sobre se, como, quem e quando se consegue
produzir essas extensões de sentido, essas polissemias sociais que aproximam de
maneira irrefletida situações originalmente distintas que produzem repercussões
importantes na distribuição social de recursos, em resumo, a anatomia semântica
das formas que assume a dominação financeira durante a crise. Aqui aparece o
interesse teórico suplementar, quando a sociologia da cultura econômica se
aproxima da filosofia analítica (Putnam, 1992; McCormick, 1996). No início
desses processos temos uma ambiguidade semântica. Há aspectos que distanciam as
"inovações financeiras" das "inovações tecnológicas". Esses foram sobejamente
lembrados durante a crise e, é claro, podem construir uma das realidades com as
quais estamos lidando (Lordon, 2008; Johal, 2009). Mas também podemos elencar
fatores que tornam a analogia razoável, que tornam factível a aproximação das
duas noções sociais. Inovações financeiras resolvem problemas econômicos e
podem produzir efeitos de enorme magnitude nas sociedades e esses efeitos podem
ser socialmente catalogados como positivos. As sociedades de capital e risco
distribuído que se formaram a partir do século XV na Europa Ocidental
possibilitaram a concentração de capitais necessária para fornecer recursos às
grandes navegações que alteraram totalmente a vida na Terra. Como elas não
existiam antes, podem ser catalogadas como inovações financeiras, como nos
mostram Godinho (1963) e Braudel (1979b). E a história social da estatística
mostra como a necessidade de calcular os riscos associados àquelas empreitadas
empurrou a criatividade matemática para desenvolver a moderna teoria da
prohabilidade, base para desenvolvimentos importantes em todo o espectro da
ciência e da sociabilidade contemporâneas (Gigerenzer, 1989; Hacking, 1990;
Hacking, 2006). E daí decorre que, mesmo no espaço estritamente intelectual,
não se pode simplesmente "invalidar" as extensões de sentido entre inovações
tecnológicas e sociais e inovações financeiras.
Mas o fundamental desse jogo social deve ser jogado numa arena mais ampla do
que o espaço acadêmico. Os representantes políticos que irão desenvolver e
sancionar leis, as autoridades do Executivo e Judiciário que as irão
regulamentar e aplicar estão sujeitos à fascinação das novidades. E essa
sedução se configura a partir da frequentação de esferas mais mundanas de
convívio. Uma maneira de justificar o apoio governamental às entidades
financeiras em dificuldades é caracterizar o setor financeiro como uma
indústria a título pleno, que, como as outras, gera empregos diretos e
externalidades positivas, criando analogias com o setor imobiliário e demais
atividades de serviços. Ouvimos então falar nos milhares ou mesmo milhões de
empregos ligados ao setor que a crise poderia ceifar e que a intervenção
federal estaria salvando. Esse argumento tem forte repercussão local nas
grandes praças financeiras internacionais como Nova Iorque e, principalmente,
Londres, já que na Grã-Bretanha o setor consegue se caracterizar como o maior
provedor de empregos da economia (Murchie, 2010; Meglio, 2010). E, para
completar o ciclo, pudemos observar recentemente a ocorrência de fenômeno
análogo em São Paulo, ainda que menos intenso (Barbieri, 200712; Chiarini,
2008; Dianni, 2007).
Mais além dos argumentos pontuais, a dominação financeira tem uma consequência
lógica mais ampla, direta e geral. Nesse sentido o quadro atual sugere o
cabimento da teoria antropológica do risco e da cegueira institucional de
inspiração durkheimiana desenvolvida por Mary Douglas. Os indivíduos e grupos
percebem os riscos que afetam o modelo de sociedade em que eles desejam viver e
descartam quaisquer evidências que põem em cheque essa construção (Douglas,
1985; Douglas, 1986). Nesse sentido, o mundo construído pela dominação
financeira que foi se formando nesses últimos anos tem na exuberância dos
mercados um dos seus principais fundamentos. Nesse quadro não é por acaso que,
em termos sociais e políticos, as evidências sobre os riscos da atividade
financeira e das consequências societais das crises do setor sejam
sistematicamente descartadas. E também não foi por acaso que observamos nos
momentos mais incertos do início da crise Antonio Delfim Neto e Georges Soros,
duas figuras conhecidas recentemente como críticos dos excessos do setor, tanto
no nível nacional quanto internacional, se solidarizarem com as linhas gerais
do ramo, advertindo contra a possibilidade de regulamentações muito
constrangedoras que impediriam o seu desenvolvimento futuro (Soros, 2008;
Oliveira, 2008). Esperar realisticamente alguma mudança substancial dessa
configuração pressupõe que alguns dos grupos das elites que no presente se
mantêm encantados pela magia das finanças saiam do círculo da crença. Até
agora, as formas de coordenação econômicas e sociais propostas ou fagocitadas
pelas finanças continuam legítimas, ainda que o peso da crise recaia sobre
múltiplos setores da sociedade, em especial os mais desvalidos. A polissemia e
o seu uso e justificação por setores aparentemente distantes dos mercados
previne que sejam catalogadas socialmente na mesma rubrica que a profusão de
títulos, os bônus dos profissionais dos mercados ou a alavancagem financeira,
todos considerados excessivos.
A disputa entre as diversas representações sociais da crise talvez possa se
resumir praticamente ao sentido que irá prevalecer para o conceito de
"inovações financeiras". Elas foram apontadas como as causadoras da crise e os
financistas como seus promotores. Num mundo "ótimo", as inovações financeiras
garantem o encontro entre a oferta e a demanda de capital em ambientes sociais
e tecnológicos que vão necessariamente se alterando e, junto com essas
alterações, aparece a necessidade de novos instrumentos financeiros para
produzirem o "casamento" entre investidores e empreendedores nas condições
perpetuamente em mudança. Quanto mais próximos estiverem os capitais econômicos
das aplicações mais rentáveis, em especial das demandas de recursos para
inovações tecnológicas, mais virtuosos seriam os mercados financeiros, que são
os instrumentos criados pelas sociedades contemporâneas para promover o
encontro entre os proprietários de capitais e os empreendedores que idealizam
as novidades.
A profusão de bônus e de títulos não se explica nela mesma
Na representação acima, as inovações financeiras seriam um traço indelével de
qualquer sociedade que deseje progredir. E uma das justificativas recentes mais
fortes para elas foi justamente a exitosa representação dos anos 1990 como os
da restauração do predomínio econômico norte-americano, explicado pela
existência naquele país de um mercado financeiro mais eficiente do que nos seus
congêneres do Primeiro Mundo(Economist, 15/01/1994; Useem, 1996). Nos anos 1970
e 1980 assistimos ao desabrochar de urna literatura econômica e principalmente
gerencial que reverenciava os modelos "renano", "escandinavo" ou "japonês" como
exemplos de formas de coordenação econômica e social bem-sucedidas, que
deveriam ser seguidos pelos países considerados menos exitosos (Cole, 1981;
Piore e Sabei, 1984). No espaço acadêmico das Ciências Sociais essa literatura
era rubricada como de "modelos de capitalismo". No espaço mais próximo da
gestão, foi o período de louvar as experiências industriais japonesas, que
deveriam ser copiadas através das técnicas de qualidade industrial em que elas
eram apresentadas no ocidente (Grün, 1992; Hirata, 1993; Zilbovicius, 1999). Na
especificidade brasileira, chegamos a experimentar uma versão forte das formas
de coordenação social e econômica induzidas, através das câmaras setoriais e
regionais (Arbix e Zilbovicius, 1997).Mas o que parecia sólido se desmanchou no
ar. Rapidamente os modelos virtuosos de "concertação social" foram desbancados
pela ideia da centralidade dos mercados financeiros. O enorme êxito da nova
representação da realidade pode ser avaliado pelo fato de ela carregar um
extenso e intenso programa prático de cópia do sucesso norte-americano através
da importação, pelos diversos países que desejavam o progresso assim definido,
das ferramentas e instituições daquele modelo institucional, tanto nas relações
entre o mercado de capitais e as empresas quanto com as pessoas físicas:
trabalhadores, investidores, diversos níveis de governo e membros das
comunidades nas quais as empresas se alojam. De um átimo, "governança
corporativa", seus conexos e seus derivados deixaram de ser termos específicos
do mundo financeiro anglo-saxão, ganhando um significado mais amplo e
transcendental como a rubrica que recobre sempre, tanto nas variações temporais
quanto nas geográficas, as relações entre as empresas e os meios ambientes
sociais e físicos nos quais elas se hospedam. Alcançar a "boa governança
corporativa", em geral uma relação entre empresas e mercado financeiro perto da
forma como é representada a configuração estadunidense, através de
transformações no arcabouço legal dos países, para aproximá-los do bom modelo,
se tornou ponto obrigatório da agenda modernizante dos mais diversos países
(Hõpner e Jackson, 2001; Grün, 2003a; Lane, 2003a, 2003b; Grün, 2005a; Morck,
2005). Extremando digo que, diferentemente das análises mais internalistas que
se preocupam com produtos financeiros em senso estrito como os CDOs analisados
por Mackenzie, a verdadeira mãe das inovações financeiras é a nova nomeação,
dizendo que os mecanismos de coordenação entre as empresas, tanto internamente
quanto nas suas relações com os outros atores societais, devem ser rubricados
no rótulo de "governança corporativa". Numa primeira vaga, a "governança
corporativa" existente nos EUA ganha o rótulo de "ótima" e, em seguida, as
diversas variações diante na nova norma passam a ser medidas como menos ou mais
distantes do modelo a ser copiado (Fligstein e Friedland, 1995; Useem, 1996;
Guillen, 2000; Lane, 2003a; Davis, 2005). A visão tradicional de que a grande
empresa capitalista deve ser pensada como uma comunidade de produtores,
tradicional desde seus primórdios e analisada de dentro para fora (Saint-Simon,
1821; Durkheim, 1992) é virada de ponta-cabeça para ser substituída por um novo
ponto de vista que privilegia os atores e interesses externos à organização, se
constituindo numa verdadeira revolução cognitiva que altera a visão e as
expectativas associadas à empresa, esse ator central da sociabilidade
contemporânea (Whyte, 1956; Galbraith, 1978; Perrow, 2002; Davis, 2009).
Reparemos que a governança corporativa não é um produto "típico": não é um
papel, um direito de saque, de compra ou de venda. Antes, se trata de um
conjunto nem sempre logicamente articulado de dispositivos que vai flexionando
e agregando significados. Nesse sentido podemos afirmar, a exemplo de outros
conceitos "moles" e por isso socialmente eficientes, que a aceitação da
governança corporativa se dá porque ela se expande tornando-se um enxerto
permanente de preocupações e aspirações de diversos grupos que se cruzam no
campo do poder. Recentemente, nos anos 1980/90, assistimos a um processo
análogo quanto à sua dinâmica cultural. Falo da gradual transformação da ideia,
antes radicalmente esquerdista, de "autogestão", ou de "participação operária"
em uma simples "ferramenta" do movimento pela qualidade com a neutralização do
potencial subversivo da ordem capitalista que muitos lhe atribuíam e que
contribuiu para oaggiornamentorecente do capitalismo (Cole, 1989; Boltanski e
Chiapello, 1999; Donadone e Grün, 2001). No caso da governança corporativa
tivemos um processo que começa do outro lado do tabuleiro social, mas que
também acaba se transformando numa plataforma mais geral de transformação da
sociedade. Num primeiro momento, jovens recém-chegados nas elites econômicas
dos diversos países, em geral dispondo de títulos universitários e/ou vivência
profissional no mercado financeiro norte-americano, tratam de propagandear e
tentar efetivar a aproximação das regras e costumes dos mercados locais à norma
"ótima" que seria a estadunidense. Em seguida, diversos grupos vão aderindo à
novidade, mas apondo nela a sua marca específica: por exemplo, no caso
brasileño sindicalistas próximos dos fundos de pensão vão flexionar o sentido
geral e dentro dele construir uma especificidade: através da governança
corporativa eles cumprirão sua tarefa de humanizar o "capitalismo selvagem
brasileiro"; militantes de ONGs devotadas a causas sociais e ambientais irão
promover a responsabilidade social e a sustentabilidade empresariais; dinastias
empresariais encontrarão um novo léxico capaz de resolver os contenciosos
ligados ao controle e sucessão geracional nos negócios e, como sempre, os
consultores empresariais encontrarão um novo filão para comercializar suas
habilidades (Grün, 2003a; Grün, 2005a; Montlibert, 2007).
Configurando esse processo os diversos setores das elites brasileiras, tanto
tradicionais quanto os novos grupos recém-chegados, ao mesmo tempo em que medem
e disputam seus capitais diferenciais, também vão dando um sentido nacional
específico à dominação financeira. E nesse processo as velhas e novas elites
também constroem, justamente a partir da governança corporativa, esse novo
espaço de equivalências para o qual podemos agora, com segurança intelectual,
denominar como "financeirização" à brasileira (Grün, 2009a). Vemos assim que,
ao contrário dos produtos propriamente ditos, que têm baixo poder polissêmico e
tendem a sofrer concorrência e acabam sendo substituídos por outros, a
governança corporativa flexiona sua definição indefinidamente e encaixa
qualquer produto, pois fornece o enquadramento cognitivo e social no seio do
qual todos eles ganham sentido. Sugiro assim que estamos num quadro analítico
típico do estruturalismo de Saussure: o campo financeiro, ao mesmo tempo
descoberto e balizado que se descortina através da história brasileira da
governança corporativa, é a língua dentro da qual quaisquer artefatos ou
inovações são as palavras que ali dentro (e só ali) adquirem significado.
Podemos então voltar ao nossobusiness as usual das Ciências Sociais: a
dominação financeira deve ser entendida justamente como a construção e
manutenção do novo espaço de equivalências em que as elites integrantes do
campo do poder na sua generalidade aceitam os parâmetros do senso comum
financeiro como as balizas fundamentais que julgam quaisquer iniciativas ou
problemas da sociedade contemporânea (Grün, 2007; Davis, 2009). E nesse
contexto que, penso eu, as etnografias dos setores do mundo financeiro ganham
significado pleno, tendo o campo financeiro como palco e cenário que balizam e
dão consistência às formas de sociabilidade, em especial às linguagens e, mais
propriamente ditos, aos frutos & produtos da atividade dos financistas e de
seus atuais companheiros de rota. É no contexto do campo financeiro como
configuração eliasiana, como realidade sociológica plena, que podemos dar conta
da sua capacidade fundamental de "controlar a narrativa", a de produzir um
sentido favorável sobre o entendimento de suas atividades que irá se espraiar
tanto internamente entre os seus diversos setores em concorrência como também
pelo resto da sociedade. É a nova configuração social urdida no campo do poder,
cuja construção na sua especificidade brasileira pode ser acompanhada através
da aclimatação da "nossa" governança corporativa, que sustenta a preponderância
financeira.
Governança, governanças: da global à corporativa
A situação declarada socialmente como de "crise financeira" permite observar
outro conjunto (ou um subconjunto menos evidente) de especificações associadas
à dominação financeira. Nomeadamente, como ela está escorada em ressonâncias e
extensões de sentido que a associam a desenvolvimentos positivos da sociedade
praticamente incontestáveis. É assim que nos últimos anos assistimos ao
surgimento e robustecimento do conceito de "governança" como um aperfeiçoamento
relevante da ideia e da prática de democracia, que superaria a dinâmica
desgastada associada às burocracias públicas, aos partidos políticos
tradicionais e grupos de interesse "corporativos" (Castells, 1996; Castells,
1997; Joseph, 2005; Rosanvallon, 2008). Essa novidade está associada,
primeiramente, às maiores possibilidades de participação e de controle popular
direto na condução das sociedades, que estariam sendo possibilitadas e
desenvolvidas pelo progresso das comunicações, em especial da internet e de
seus instrumentos de interação social (Di-Maggio, Hargittaiet alii, 2001;
Schudson, 2010). E eis que encontramos uma conexão forte: a associação entre a
nossa governança corporativa e a evolução desejada das sociedades
contemporâneas nas suas esferas cívica, econômica e tecnológica. Ela é
explorada primeiramente pelos financistas que a promovem como uma evolução
benéfica e socialmente legítima dos "mercados". Mas, principalmente, ela
aumenta a sua ressonância quando se transforma em centro do arsenal retórico
dos sindicalistas e líderes de ONGs que usam & flexionam a governança
corporativa para "civilizar o capitalismo selvagem brasileiro". Esses atores,
que retiram a sua força primeira dos seus universos de origem, têm de defender
as suas posições e ações heteronômicas diante daqueles espaços - os movimentos
sindicais, sociais e ambientais d'onde eles são provenientes e no seio dos
quais as evoluções estão longe de serem consensuais, e ao fazê-lo represam ou
mesmo esterilizam a crítica social e a contestação à ordem financeira (Grün,
2005; Joseph, 2005).
Uma vez descrita a conexão mestra, podemos sugerir as condições de
aceitabilidade das inovações financeiras em geral. Elas se viabilizam
socialmente quando conseguem ser aceitas como partes necessárias do mecanismo
mais geral de governança corporativa. Ao contrário, quando se distanciam dessa
norma, se tornam vulneráveis à crítica e correm alto risco de serem impugnadas.
Num primeiro impulso pode parecer quer se trata de uma questão de fundo teórico
ou doutrinário. Mas o ardil da razão social se encontra justamente aí: a
filiação à governança corporativa que pode, à primeira vista, parecer apenas
uma questão técnica de resolução unívoca é estabelecida através de um processo
bem mais amplo e percorre diversas esferas relativamente autônomas antes de
ser, ou não, acatada no campo financeiro. A própria governança corporativa
"real" não é um conjunto de dispositivos ou uma doutrina intrinsecamente
coerente. Além e também por causa disso, o processo de aceitação das inovações
financeiras é objeto de constantes negociações internas no campo em que ela é
engendrada. Muitas vezes essas tratativas são explícitas, ou têm uma face dessa
natureza bem caracterizada. Mas o essencial delas é o estabelecimento das
equivalências, que é um processo essencialmente sociocognitivo, de direito de
inscrição no espaço estruturado do campo financeiro. Nesse sentido, podemos
acompanhar a progressiva gestação da ideia da "domesticação do capitalismo
selvagem brasileiro" que atravessa o movimento sindical. No processo não só
parcela relevante daquele grupo adere à governança corporativa, mas também
inscreve sua marca e sensibilidade no conjunto de dispositivos, alterando e
robustecendo socialmente a nova panóplia que assim se torna cada vez mais
indissociavelmente financeira e social (Grün, 2003b; Grün, 2005a; Jardim,
2007). Em uma dimensão paralela, também podemos acompanhar a inscrição da ideia
de sustentabilidade no espaço financeiro, também a partir de uma história
complexa de negociações e de impasses parcialmente resolvidos entre diversas
ordens de atores que progressivamente moldam o campo financeiro brasileiro. Em
primeiro lugar os atores ditos sociais ou ecológicos, mas cada vez mais os
financistas vão forjando um lugar no espaço daquela ordem de preocupações e, ao
conseguirem esse intento, irão também redefinir toda a configuração que se
forma em torno da ideia de sustentabilidade (Sartore, 2010). Essas duas
configurações, complexas nelas mesmas, revelam o processo multidimensional de
negociações e de produção de sentido parcialmente compartilhado que vai
formando o novo espaço cognitivo. Incorporando boa parte dos atores sociais que
recentemente escavaram seu lugar no espaço das elites contemporâneas, nosso
campo financeiro adquire a capacidade de representar o interesse geral não só
para dentro do campo do poder, mas também para fora dele, através da relação
simbiótica que o campo do poder, agora ampliado, acaba adquirindo com a ponta
de setores que anteriormente eram seus mais ativos contestadores.
Podemos agora nos aventurar na explicação do ponto crucial da crise, tal qual
nós a descrevemos até agora. Inspirado em Douglas afirmo que o essencial do
jogo conjuntural, em que a sociedade é chamada a socorrer o espaço financeiro
momentaneamente desesperado, é travado tendo como pano de fundo cognitivo a
ideia de que a sociabilidade geral produzida no campo deve ser mantida.
Possíveis questionamentos do socorro acontecem aqui e ali, mas não se
generalizam. Estruturalmente, esse é um resultado bastante provável, já que a
lógica geral que subsume as razões de outros setores à razão financeira está
solidamente implantada através das coalizões cognitivas que descrevemos acima.
Operacionalmente, no primeiro momento a situação inibe os questionamentos da
extensão [catástrofe financeira ~ catástrofe natural]; nos momentos seguintes
as tentativas de controle social da atividade financeira são registradas na
rubrica negativa de "febre legiferante" que inibe o desenvolvimento da economia
e da sociedade. E assim, voltando para nossa ideia central de discutir a crise
como uma disputa entre representações sociais, os desvios descobertos na crise
são classificados como "excessos" e não como "tendências intrínsecas da
atividade financeira", como a crítica social mais aguda gostaria de
caracterizá-las. Artefatos como o documentário"Inside Job" (Ferguson, 2010),
uma das diversas peças de crítica à atividade financeira bem-sucedidas
popularmente e que percorreu o mundo inteiro, não deixam de repercutir, mas
muito provavelmente em plateias já conquistadas anteriormente para a crítica à
finança.
Parafraseando Gramsci, podemos dizer que assistimos nos anos de crise ao
desenvolvimento de uma configuração social caracterizada pela "hegemonia
passiva" do campo financeiro, que consiste em bloquear os esforços do resto da
sociedade que visam impedir que as finanças a obriguem a custear a crise, ainda
que haja uma contestação social muito forte. Nos momentos críticos em que a
hegemonia cultural financeira direta está enfraquecida ela se beneficia do
silêncio ou do ensurdecimento do clamor dos críticos. Ele emerge mas não
consegue se propagar porque a hegemonia financeira impede a sua generalização.
Esse processo pode ser semanticamente descrito, nos termos da sociologia de
Boltanski (2009), como um reflexo damontée de généralíté (p. 148) que a
financeirização à brasileira é capaz de produzir (Grün, 2009b). Soldado às
novas tendências cívicas, sociais e ambientais através da convergência das
elites, o campo financeiro é capaz de se apresentar continuamente como o espaço
no qual o interesse geral da sociedade é mais bem produzido. Já a sua crítica
direta e externa é apresentada como "ressentida" ou "corporativa".
E depois da crise o campo financeiro ainda é o mesmo?
Resta analisar os efeitos da crítica interna ao campo financeiro. O campo
financeiro se mantém, mudando de estado. Diversos alinhamentos anteriores serão
refeitos e o futuro dirá como as coisas se estabilizarão. No Brasil, em
especial, assistimos no início da crise a uma aceitação da crítica contra a
criatividade financeira que alterou a relação entre os pequenos bancos e
empresas financeiras de "vanguarda" e outros atores. A "solidez" dos bancos
comerciais de grande porte lhes fez amealhar parcela dos investimentos que
antes beneficiavam os primeiros. Parte da "criatividade" que distinguia o
primeiro grupo acabou de alguma forma sendo absorvida pelos bancos estatais que
ampliaram a sua cota de empréstimos em geral e se tornaram proeminentes em
operações "sofisticadas", como a emissão deprivate equities. Esses últimos
desenvolvimentos vêm sofrendo uma crítica muito cerrada por parte dos
financistas e seus porta-vozes habituais. No auge da crise, de maneira inédita,
representantes do governo se contrapuseram explicitamente aos reclamos do
"mercado", que naquele momento estavam fragilizados (Ciarelli, 2009; Camarotto,
2009; Martello, 2009).
Entretanto, uma vez quela grande peur foi conjurada, a coragem intelectual
volta à ortodoxia e a relação de forças simbólica também ensaia uma volta ao
habitual. Como vimos acima, uma das manifestações recentes dessa tentativa de
retomada foi a recaracterização da política anticíclica de enfrentamento da
"fase aguda" da "crise financeira" como um fenômeno de irresponsabilidade
econômica. Lendo pela óptica analítica de Putnam (1988), estamos diante de uma
extensão que visa ligar a política anticíclica, classificada ao mesmo tempo de
exitosa e heterodoxa, a uma ação irracional típica da esfera política, que mais
uma vez mostraria que deve ser rigidamente controlada pela racionalidade que
emana dos mercados. Não por acaso, quando essa fase do pensamento ortodoxo se
pronuncia, a crise raramente é lembrada, muito menos as reações e preleções
iniciais dos seus porta-vozes quando da sua deflagração, todas defensivas, indo
no sentido da diminuição da generalidade que consistiu em "salvar a pele" das
entidades privadas ao custo de amplificar a tendência contracionista e
aprofundar ainda mais a retração da economia.
Já no início do governo Dilma a imputação se precisa pelo questionamento dos
aportes do Tesouro Nacional ao BNDES, que seriam uma forma de manter a
política, irresponsável, de expansão econômica e também do peso do Estado
federal, que deve ser catalogada de inflacionista. A partir desse ponto de
vista, usando o "subterfúgio" da crise o governo brasileiro de Lula teria
preferido eleger a sua sucessora ao invés de manter a "boa saúde" da economia
nacional. E, tendo a insistência em capitalizar o BNDES como prova, também o
governo Dilma mostrar-se-ia inimigo do bom-senso econômico, de acordo com a
receita ortodoxa que emana dos porta-vozes do pensamento financeiro. Dessa
forma os mercados não só voltam a se justificar como patrulha da
irresponsabilidade política e, mais especificamente, recuperam a capacidade de
impor aumentos das taxas de juros a que as dívidas governamentais estão
expostas e assim prossegue obusiness as usual.
Na chave semântica acima assistimos a um contencioso em torno do termo
"conservadorismo". No âmbito interno dos mercados, "conservadorismo" tem
conotação intrinsecamente positiva. Tanto na história internacional do espaço
financeiro quanto na sua especificidade brasileira, está inscrito que o
"conservadorismo" se opõe às condutas temerárias ou aventureiras pelas quais
financistas inescrupulosos levariam investidores desavisados à ruína (Pavini,
2004; Cowing, 1965). Mas, sobretudo no Brasil, em outros espaços de
sociabilidade o significado do "conservadorismo" é normalmente negativo. Não
devemos ser conservadores na educação, na política social, na arte, etc... Na
batalha em torno da pertinência e abrangência das medidas macroprudenciais, a
necessidade de "conservadorismo" é utilizada nas estratégias retóricas
favoráveis aos mercados, que rejeitam as inovações "porque ainda não foram
testadas", porque "ninguém sabe ao certo se serão realmente efetivas no combate
à inflação" (por suposto, nessa chave retórica o bom e velho aumento dos juros
é sempre um "remédio de eficiência comprovada" para a "doença da inflação").
Assim, nos rendendo provisoriamente à antropoformização, escutamos os mercados
exigirem das autoridades econômicas que se atenham às boas e velhas medidas
conservadoras. Não por acaso, aquelas que mais beneficiam os integrantes do
campo financeiro. Mas também são aquelas que o bom senso financeiro
"conservador" julga serem adequadas. E, se consideramos o conjunto de
dispositivos que a hegemonia financeira foi institucionalizando no decorrer dos
últimos anos como os "auscultadores do mercado", o boletim Focus1 3 em primeiro
lugar, o desafio a essa opinião já naturalizada como o bom senso ou a "doxa do
mercado" se torna difícil e improvável, pelo menos em tempos mais próximos das
condições normais de temperatura e pressão14. Por outro lado, no plano
empírico, no governo Dilma o Banco Central passa a ser dirigido por
funcionários de carreira e essa novidade pode significar menor dependência
intelectual e econômica em relação ao mercado financeiro (Lebaron, 2008). Nesse
sentido, seus novos diretores ensaiam uma ampliação da coleta de opiniões &
prognósticos sobre a evolução das variáveis macroeconômicas para além dos
"mercados" (Fernandes, 2011;Reuters, 2011). Evidentemente essa pretensão é
cercada de críticas e ceticismo. Sociologicamente, os resultados dessa medida
serão altamente indiciários. Uma primeira reação direta aparece em entrevista
da presidente ao jornalValor Econômico, quando a entrevistadora sugere a
discordância do "mercado" e a entrevistada responde de maneira talvez um pouco
oblíqua (Safatle, 2011):
Valor: Preocupa a descrença dos mercados na política anti-
inflacionária?
Dilma: O mercado todo apostou que esse país ia para o beleléu em
2009. E no fim de 2009 a economia já tinha começado a se recuperar. O
merca do apostou numa taxa de juro elevadíssima quando o mundo já
estava em recessão. Então eu acho que o mercado acerta, erra, acerta,
erra, acerta. Não acho que temos que desconsiderar o mercado, não. A
gente tem que sempre estar atento à opinião dele, que integra um dos
elemen tos importantes da realidade. Um dos principais, mas não o
único [...].
Valor: Mas o BC, no seu governo, tem autonomia?
Dilma: O Banco Central tem autonomia para fazer a política dele e
está fazendo. Tenho tranquilidade de dizer que em nenhum momento eu
tergiverso com inflação. E não acredito que o Banco Central o faça.
Eu acredito num Banco Central extremamente profissional e autônomo. E
esse Banco Central será profissional e autônomo. Não sei se não estão
tentando diminuir a importância desse BC.
Valor: Por quê?
Dilma: Porque não tem gente do mercado na sua diretoria.
Valor: Mas pode vir a ter?
Dilma: Pode ter, sim. Falar que tem que ser assim ou assado é um
besteirol. Desde que seja um nome bom, ele pode vir de onde vier.
Valor: A opção por fazer uma política monetária diferente, mesclada
de juros e medidas prudenciáis, pode estar criando um mal-estar?
Dilma: O mercado tem os seus instrumentos tradicionais, mas tem
também os incorporados recentemente, no pós-crise. Você tem que fazer
essa combinação. Não pode ser fundamentalista, não é bom. Conte com
os dois que o efeito ocorre.
Na observação do período, amontée em generalité necessária para manter a
hegemonia financeira fica prensada pela evidência, inclusive aceita por alguns
dos porta-vozes do mercado, do êxito da ação heterodoxa governamental durante a
crise. Mas, como exemplo negativo das formas sociais de construção de
objetividade a partir do argumento estatístico (Desrosières, 1989; Sinclair,
2005; Desrosières, 2008a e b), assistimos mais recentemente às tentativas de
reescrever o período, que semanticamente flexionam ou enfraquecem o significado
da evidência. As chances da concepção mesma ou da simples aplicação de medidas
que ampliem o alcance das possibilidades de política estatal, considerada
eficiente ou correta para enquadrar a atividade financeira segundo a crítica
das finanças, são consideravelmente diminuídas pela sua extensão negativa, que
a conota como "gastança" ou, na versão benevolente, como uma avulsa "medida de
exceção". E por fim podemos, mais uma vez, observar o paralelismo na situação
norte-americana. Delineia-se de forma cada vez mais clara uma tendência a
reescrever a crise na sua face estadunidense, quando a nova maioria parlamentar
republicana e osthink-tanks que a apoiam fazem passar que o culpado da crise
norte-americana seria, mais uma vez, o seu próprio governo federal. Aparece
assim uma nova versão que incide nos debates parlamentares sobre a crise e as
formas de relançar a atividade econômica combalida daquele país: ao provocar a
crise por ter perdido o controle das grandes fornecedoras de hipoteca Freddie
Mac e Fannie Mae e, além disso, insistir em "engessar" os mercados através da
regulamentação excessiva, o governo mais uma vez estaria mostrando que sempre
ele é o problema e que o mercado é a solução para os dilemas contemporâneos
(Wallison, 2010; Thomas, 2011).
CONCLUSÃO
Demos a volta cronológica e hemisférica na crise financeira, observamos
diversas interpretações se sucederem e uma tendência montante da restauração do
discurso tradicional do predomínio das finanças ou, pelo menos, de uma
reconfiguração que lhe é favorável. Por outro lado, iniciamos o texto expondo
duas explicações sociológicas alternativas para a crise. Ainda que parcialmente
incorporadas por grupos de atores, dificilmente poderíamos dizer que elas estão
deixando marcas profundas na sociedade. Entretanto, usos e costumes a favor,
seria razoável no espaço interno da academia, considerar essas explicações nas
suas lógicas internas, aderência aos fatos conhecidos e demais atributos que
medem o fazer sociológico habitual. Assim, as interpretações oriundas da
Sociologia estariam disponíveis para os próximos cientistas da área e mesmo
para a sua eventual incorporação em algum subespaço do campo do poder. As
teorias também seriam fortes ou fracas a depender de quem as empunha e um
possível encontro delas e atores poderosos dar-lhes-ia um sopro vital. Mas essa
circunstância já estaria fora do espaço sociológico propriamente dito.
Numa outra perspectiva, sugiro no texto que o essencial da atividade
sociológica pode estar na análise dos enquadramentos e reenquadramentos que a
"crise" recebe nas diversas interações sociais. Num primeiro momento, diante do
medo da destruição generalizada do valor dos ativos financeiros, a razão
ortodoxa se encolhe. Mas, posteriormente, uma vez conjurado o perigo imediato
do "derretimento", a sanfona do mercado reabre, a música continua e o baile,
ainda que timidamente, vai sendo retomado. E a cultura econômica anterior à
crise também ensaia os maneirismos hegemônicos que indicariam a retomada da
relação de forças simbólica habitual. Nessa operação simbólica a crise é
minimizada e os tratamentos a ela sugeridos pela ortodoxia são totalmente
esquecidos. Mas essa operação, que poderia parecer simplesmente um ato
voluntário de "jogar o lixo debaixo do tapete", também ela deve ser tratada
sociologicamente. Esquecer ou lembrar não são simplesmente operações cognitivas
individuais, mas resultados da apreensão da estrutura social e especificamente
das relações de forças que a sustentam (Bourdieu, 1980b; Middleton, 1990). É
assim que, ainda que a sensibilidade política de muitos possa se incomodar com
o "esquecimento", sobra-nos a necessidade intelectual de explicar a aceitação
social do oblívio. Voltando a Douglas (1986 e 1992), os perigos que questionam
a boa lógica da sociedade em que queremos viver são muito mais provavelmente
esquecidos. Impõe-se dessa maneira a evidência que, como indicaram as posições
de Delfim e Soros acima, a sociedade centrada no predomínio financeiro continua
sendo o bom modelo de convívio da contemporaneidade. Mudar esse conformismo ao
mesmo tempo lógico e sociológico pode ser o resultado de um imenso trabalho
sociocultural de inscrição de novas categorias de apreensão da realidade social
e econômica, uma guerra simbólica atualizada. No Brasil uma fresta foi aberta
no auge do conflito político em torno do governo Lula e ele apareceu como
subproduto da disputa que se acendeu em 2005 propelida pelas estratégias
recíprocas dos grupos de "combatentes culturais" que se defrontaram a partir
dos escândalos e permanece (provisoriamente?) menos ativa depois da eleição de
Dilma (Grün, 2008a e b). Mas os momentos posteriores mostraram a resiliência da
dominação financeira, que pouco a pouco recupera a hegemonia. Ainda que esse
resultado não seja previamente determinado, devemos notar que os automatismos
sociais, a inércia e os investimentos prévios dos atores que poderiam sustentar
a contestação jogam a favor da conformidade.
Por fim, outro ponto levantado pela situação brasileira incide sobre o caráter
mesmo das finanças. Insistimos que o campo financeiro é algo maior e mais
complexo do que os "mercados" propriamente ditos; que a ideia de
"financeirização", quando aplicada ao Brasil, deve ser alterada no conteúdo e
no foco. Observamos no decorrer da crise vários movimentos que mostram algum
enfraquecimento do "mercado" propriamente dito. Os financistas privados
perderam o primado do espaço financeiro em várias esferas: os bancos estatais
ampliaram a sua parcela do mercado de empréstimos tradicionais e também na
ponta mais sofisticada da inovação financeira, a chamada "engenharia
econômica"; a primeira diretoria do Banco Central no governo Dilma é formada
apenas por funcionários de carreira daquela instituição; o automatismo [ameaça
de inflação ? aumento dos juros] ficou comprometido. Em suma, assistimos ao
aumento do peso físico e cultural do Estado numa configuração em que,
anteriormente, o Estado representava apenas um problema. Assinalamos as
tentativas de recuperação do espaço perdido pela finança privada, mas
claramente as linhas de força do período pós-2005 são outras e menos favoráveis
aos financistas em senso estrito. E nesse quadro a panóplia financeira tem sido
usada em políticas de fomento estatal abominadas doutrinariamente pela
ortodoxia econômica. Termino assim com duas perguntas:
1) Manter-se-ia a colagem [ideologia do mercado = recomendações da
economia ortodoxa]? o pragmatismo dos financistas, que no momento
atual significaria aceitar a nova primazia do Estado e participar
& lucrar como atores menos determinantes das operações pouco
recomendáveis segundo a lógica ortodoxa? Dificilmente poderíamos
imaginar um cenário em que os financistas de "carne e osso"
recusassem tais oportunidades;
2) As finanças "de Estado" são ontologicamente distintas das finanças
"de mercado"? Quais seriam as evoluções possíveis dessa situação
anômala? Como no Leste Europeu, nossos financistas públicos acabariam
se tornando uma nova oligarquia financeira privada? Ou estamos
simplesmente assistindo a um renascer da capacidade de intervenção do
Estado, agora munido de ferramentas econômicas contemporâneas que
tanto podem servir a interesses privados quanto ao público? Responder
a essa questão é conferir, ou não, uma essência às finanças. Aos meus
olhos dizer que as ferramentas financeiras carregam uma essência
incontornável é se render a um tipo de determinismo análogo ao
tecnológico que grassou nos anos 1970 ou o da globalização, ainda
parcialmente atuante. Assim, sugiro a partir da análise acima que o
futuro é mais aberto do que parece.
NOTAS
1. Nos ambientes econômicos de juros básicos baixos, vividos pelos países
centrais na última década, os lucros do setor financeiro advêm das comissões
cobradas pela venda de títulos - logo o incentivo à multiplicação de papéis - e
pelo uso incremental de capitais de terceiros em operações que auferem
rendimentos superiores àqueles oferecidos aos depositantes - daí a tendência ao
aumento da alavancagem.
2. Ver, por exemplo, o caminho abaixo, publicado em 21/05/2010 e consultado em
11 /10/2010: http://socfinance.wordpress.com/2010/05/21/political-
economistsdenounce-social-studies-of-finance-for-overlooking-the-political/
3. A existência de arcabouços legais ou de algoritmos de análise de risco que
previnam "excessos" não quer dizer, evidentemente, que eles serão cumpridos ou
seguidos quando assinalarem problemas. Mas a incorporação de instrumentos
baseados nos findings dos SSF no arsenal regulatório indicaria o reconhecimento
social da tendência e sua penetração no campo do poder.
4. Por exemplo, o seminário referido nos caminhos http://www.psi-q.org/ e http:
//socfinance.wordpress.com/2010/02/22/psi-q-conference-does-the-social-
studiesof-finance-have-alpha/ (acessados em 05/06/2010).
5. E claro que o registro do "sucesso mundano" não invalida a qualidade
intelectual da abordagem nela mesma. Mas ele lança alguns desafios importantes
aos seus seguidores, advindos dos efeitos da popularização e as tensões entre
as necessidades e tentações da divulgação e aquelas exigidas pelo rigor
intelectual da atividade científica. Como lembra Bourdieu, a sociologia de um
objeto também se torna narrativa sobre ele e contribui para a sua construção
social. E essa observação é particularmente pertinente nos casos de
popularização da reflexão científica.
6. Ver essa posição defendida, entre outros por Daniel Beunza no site: http://
socfinance.wordpress.com/2009/08/20/innovation-mediated-politics/ (em 18/02/
2010).
7. Diversas nuances dessa relação complexa entre Sociologia e Economia, tanto
na esfera institucional quanto na intelectual no conjunto de entrevistas
(talvez já um pouco desgastado pelo tempo e pela própria eclosão mais recente
da sociologia econômica e das finanças), foram recolhidas por Swedberg (1990).
8. Essa consideração poderia ser taxada de menos relevante antes da eclosão -
mais adequadamente, da "declaração" - da "crise", quando a ideia de
autorregulação dos mercados financeiros vicejava quase sem oposição. Mas, no
ambiente muito mais vigiado que se configura mais recentemente, ela se torna
crucial, já que a autonomia da esfera diminui muito, ainda que também não
podemos hipostasiar esse resultado do imediato após-crise já que, como veremos
adiante, nossos financistas estão longe de se renderem às forças que pretendem
diminuir a sua liberdade (Grün, 2010).
9. Ver, por exemplo, o interessante relatório do grupo de pesquisadores
reunidos na Universidade de Manchester: http://www.cresc.ac.uk/sites/default/
files/Alter-native%20report%20on%20banking%20V2.pdf
10. (https://www3.bcb.gov.br/normativo/
detalharNormativo.do?N=l10088521&method=detalharNormativo)
11. Como, por exemplo, o comentário de YLWbased:"I hv heard ATC that doesn 't
understand/speak English, novo voe got a Air China Pilot that had a difficult
time communicating with JFK ground". Civil Aviation. http://www.airliners.net/
aviation-forums/general_aviation/read.main/3355940/ acessado em 13/02/2011, às
18:01.
12. "No período de um ano, quatro empresas fazem oferta de BDRs; até 2008, mais
cinco devem chegar ao mercado local: Especialistas acreditam que a Bovespa se
tornará o mercado de maior liquidez da América Latina, o que deve atrair mais
empresas" (Barbieri, 2007).
13. Ver suas edições em: http://www4.bcb.gov.br/pec/GCI/PORT/readout/
readout.asp (registrado em 29/03/2011).
14. Na linha de Hacking, Desrosières (2008a e b) detalha a lógica geral da
construção de objetividades a partir de índices estatísticos. Veja-se um estudo
de caso detalhado para o setor financeiro em Sinclair (2005). Seria muito útil
e bem-vinda uma história social dos instrumentos estatísticos que ao mesmo
tempo são um produto e contribuem para a tenacidade da hegemonia financeira na
nossa peculiaridade nacional. No formato institucional contemporâneo da
pesquisa acadêmica, ele pode vir do acúmulo de monografias enfocando cada um ou
pelo menos alguns dos diversos índices/institucionalizações existentes. Um
exemplo desse tipo de preocupação encontra-se em Sartore (2010).