O que muda quando se expande o assalariamento (e em que o debate da Sociologia
pode nos ajudar a compreendê-lo)?
O vínculo formal de trabalho - comumente designado como "trabalho fichado",
"trabalho registrado" ou "trabalho com carteira assinada" -, possui, entre nós,
brasileiros, uma vigência simbólica que nem de longe tem sido compatível com o
seu peso histórico na aritmética das formas de relação de trabalho.
Evidências desse seu valor normativo podem ser percebidas por meio de distintas
pistas que atiçam o olhar do analista. Assim, de há muito sabemos que o valor
mínimo da remuneração estabelecida para o trabalho formalmente contratado, o
salário-mínimo, se constitui num balizador, a organizar o modo como se
institucionalizam e propagam, na economia, as regras de remuneração pelo
trabalho (Oliveira, 1972). Mas é certo também que "o trabalho com carteira" e o
salário-mínimo que a ele se associa estabeleceram, como bem o notou Noronha
(2003), a métrica para o que seria subjetivamente considerado ideal e/ou justo.
[...] as noções populares de contrato de trabalho "ideal" são
bastante influenciadas pela legislação do trabalho. Os cidadãos dos
centros urbanos têm como parâmetro do ideal o contrato em carteira;
alternativamente, e com mais intensidade sonha-se com um trabalho
autônomo, mas quase nunca com um contrato de trabalho "informal", (p.
122)
Se é assim, um curioso paradoxo parece caracterizar a nossa sociedade: em que
pese a construção de uma norma contratual tenha sido, no Brasil, um processo
jurídico-político de consolidação relativamente recente, e conquanto sua
universalização no jogo econômico do mercado de trabalho jamais tenha se
verificado, a relação de assalariamento formal regido por contrato por tempo
indeterminado adquiriu notável vigência simbólica. Nesse sentido, numa
discussão empírica sobre a sua reconfiguração, caberia retomar, ainda que
brevemente e em grandes linhas, o modo como a Sociologia brasileira equacionou
esse paradoxo.
Assim, na primeira parte deste texto situarei, articulando, respostas
produzidas em dois contextos do debate intelectual do nosso campo: o dos anos
1960-1970, quando o pensamento sociológico encarou o desafio de entender a
formação da sociedade industrial no Brasil, apurando a lente para focalizar o
perfil e as atitudes da classe trabalhadora que se concentrara nos grandes
espaços urbanos desde o crescimento industrial dos anos 1950; e o contexto dos
anos 1980-2000 quando instabilidade econômica, crises de crescimento e abertura
à competição internacional produziram intensa reestruturação micro-
organizacional e das cadeias produtivas, com efeitos devastadores sobre o
emprego, que desafiaram intérpretes a novamente pensar sobre as representações
a respeito do trabalho, do contrato e, agora também, do desemprego. Ou seja,
procurarei, nesta primeira parte, entender como em contextos de expansão de
oportunidades, no primeiro caso, e de contração dessas, no segundo, o lugar do
trabalho assalariado, na estrutura e nas representações, foi estabelecido por
nossa Sociologia1.
Isso posto, na segunda parte, tratarei de explorar aquilo que sugiro, já desde
o título do artigo, como a novidade presente: quando se expande o
assalariamento, e isso vem ocorrendo de maneira sistemática desde meados da
década passada, que novos desafios à interpretação sociológica se estabelecem?
Com efeito, os indícios de mudanças recentes no nosso mercado de trabalho
apontam para a emergência de uma combinação singular: a retomada do crescimento
do contingente dos trabalhadores formais tem sido concomitante com o
incremento, ainda mais célere, de uma modalidade particular da relação de
trabalho assalariado, a qual denominarei doravante "trabalho intermediado".
Trata-se de uma relação social em que a figura de um intermediador se interpõe
entre o trabalhador formalmente assalariado e o patrão para o qual trabalha.
Uma tríade, ao invés da díade, que se constituiu na forma sob a qual nos
acostumamos a exprimir a relação contratual de trabalho (se mais não fosse, por
ser o formato mais frequente no ambiente dos empregos registrados). Todavia, a
mera existência de um tertius, um terceiro vértice nesse triângulo de forças em
relação, não nos autoriza a subsumi-la na categoria "trabalho terceirizado"; e
isso por duas razões. Primeiramente, porque o intermediador pode agenciar e
locar trabalhadores sob outras relações de trabalho como o "temporário", ou
mesmo o "estagiário", formas que, ao lado do "terceirizado", estão igualmente
amparadas no marco regulatório dos vínculos formais no Brasil. Em segundo
lugar, porque o intermediador pode não ser o contratante, mas apenas agenciar a
contratação, sendo pago, por tal serviço, pela empresa (futura) usuária; vale
dizer, conquanto não estabeleça o vínculo, ele o viabiliza, agenciando e/ou
selecionando o trabalhador, numa relação significativa do ponto de vista de uma
sociologia do funcionamento do mercado de trabalho. Não sem razão a
classificação nacional das atividades econômicas (CNAE) reconhece e nomeia a
figura da "empresa de seleção, agenciamento e locação de pessoal", como
constituindo um ramo de negócio específico dentre aqueles "serviços prestados
[por empresas] principalmente a [outras] empresas" (que comumente denominamos,
de maneira algo aligeirada, "empresas terceirizadas")2.
Assim sendo, quando o assalariamento registrado se expande, e passa a abarcar
trabalhadores antes ocupados sob formas de trabalho autônomo ou ocupados sem
contrato ou mesmo desempregados, ele simultaneamente se reconfigura. Descrever
tal reconfiguração, mapeando sua atual complexidade e identificando os impactos
desta para uma compreensão do modo como o assalariamento se (re)constrói entre
nós, material e simbolicamente, é o alvo maior deste texto.
As evidências em que sustentarei o meu raciocínio, apresentadas ao longo da
segunda e terceira partes, foram extraídas de duas fontes principais. Os
microdados do "módulo do trabalhador" da RAIS (Relação Anual de Informações
Sociais), verdadeiro censo do mercado formal de trabalho, colhido na forma de
cadastro administrativo compulsório pelo Ministério do Trabalho e Emprego,
serviram para documentar a mudança verificada entre 1994 e 2009, atestando a
escala nacional do fenômeno. Da RAIS, em sua versão longitudinal (Rais-Migra),
foi também extraída uma amostra especial que acompanha, na forma de um painel,
o percurso ocupacional de cerca de 143.000 trabalhadores, aleatoriamente
sorteados do universo dos formalmente ocupados através das "empresas de
seleção, agenciamento e locação" localizadas na Região Metropolitana de São
Paulo, principal aglomerado de empregos intermediados do país; tal painel
permitiu identificar, na segunda parte do texto, quem são esses trabalhadores e
como chegam, e/ou saem, do mundo dos empregos intermediados.
Já os microdados da PAEP (Pesquisa da Atividade Econômica Paulista, versão
2002), produzidos pela Fundação SEADE, ao abarcarem amostra representativa
(inclusive para os serviços) do universo das empresas estabelecidas naquele
Estado, em 2001, permitiram observar um outro ângulo dessa complexa tríade.
Eles facultaram uma detalhada investigação, cujos resultados apresento na
terceira parte do texto, sobre os elos estabelecidos entre empresas de
intermediação e empresas usuárias de trabalhadores intermediados. São achados
desafiantes e, arrisco dizer, únicos, dada a especificidade desse cuidadoso
levantamento, inexistente para o Brasil como um todo.
Finalizo o texto procurando alinhavar uma conclusão, cuja linha geral antecipo
aqui. Desde a segunda metade dos anos 2000 tem se observado, no Brasil, uma
notável recuperação do emprego formal. Nesse crescimento não apenas se espelham
incrementos em quantitativos, mas se inscreve a importância de outra forma de
relação entre empregado e empregador, a do trabalho intermediado. Analisando-
o de maneira mais detida é possível reconhecer não apenas a difusão de um outro
modo de gestão do recrutamento e dos contratos de trabalho, mas vê-se
igualmente a emergência de um pujante segmento de negócios - o da intermediação
- que se consolida na economia brasileira a partir das novas formas de
articulação entre firmas que passam a ter lugar.
Qual o desafio que isso deixa para a interpretação sociológica? Sugiro que a
heterogeneidade - antes estabelecida entre os que estavam e os que não estavam
abarcados pelos vínculos formais (ou, quando muito, entre os que estavam
duradouramente insertos no trabalho registrado e aqueles que transitavam entre
modalidades de trabalho ou mesmo entre o trabalho e o desemprego) - se
consolida ao interior do universo das formas de trabalho contratualmente
pactadas. Nesse sentido, o valor simbólico do trabalho registrado, da carteira
de trabalho e mesmo a cesta de direitos que se associam à formalização do
vínculo de emprego já não são unívocos. Mais importante ainda, tal diversidade
cresce na medida em que se expandem as oportunidades de emprego, além de que
alcança de maneira diversa segmentos dos trabalhadores. Difícil reduzi-la a uma
palavra mágica, a "precarização" (quase um anátema, quando o que nos desafia é
conceituar), haja vista a complexidade dos efeitos da expansão do trabalho
intermediado sobre os percursos ocupacionais. Necessário escrutinar o que essa
nova realidade deixa para as representações sobre o trabalho, especialmente
para os que viveram o risco do desemprego ou da busca mal-sucedida do primeiro
emprego duradouro. Mas, impossível renunciar ao desafio de perscrutar, na
reconfiguração do valor simbólico do "trabalho formal" (tornado multiforme), o
"espírito" desse novo capitalismo que (e ironicamente) ganha musculatura e toma
corpo justamente quando chegam ao poder aqueles que haviam sido os arautos da
crítica às novas relações contratuais tecidas no âmbito do trabalho.
E SE O ATÍPICO SE FAZ NORMA? SOCIABILIDADE E REPRESENTAÇÕES SOB FORMAS
PARTICULARES DE EMPREGO E DE REGULAÇÃO DA RELAÇÃO DE TRABALHO
Ampla literatura sociológica se encarregou de explorar a morfologia e os
determinantes da particular heterogeneidade que caracterizaria o mercado
brasileiro de trabalho. Seus achados, adensados ao longo dos cinquenta últimos
anos, deixaram pistas instigantes com respeito ao tema que move a presente
reflexão. Senão, vejamos.
O esforço interpretativo estabeleceu-se a partir de um diálogo intenso tanto
com as teorias da modernização, quanto com as teorias da dependência (em seus
diversos matizes). Assim talhada, a nossa sociologia dos mercados de trabalho
emergiu nas franjas de um amplo campo temático, cujas bases se assentavam na
urgência de entender os elos entre mudança social, estrutura de classes e
relações de trabalho3.
Desafiava-os explicar a particularidade de mercados de trabalho que, sendo
capitalistas, não generalizavam a norma capitalista de emprego: uma relação
social que submeteria duradouramente os seus trabalhadores a um mesmo vínculo
empregatício, tecido no coração da atividade econômica capitalista, de modo que
o mercado se tornasse, e de modo inescapável, o espaço onde esses indivíduos
encontrariam as condições mínimas para a sua sobrevivência. Por isso mesmo,
interesses, identidades (e, por consequência, conflitos e mudança) se nutririam
dessas relações; seriam economicamente informados, porque tecidos no (e através
do) trabalho, o qual resultaria contratualmente transformado em mais uma
mercadoria. Esse era o paradoxo que lhes parecia necessário enfrentar: o de
entender uma ordem social cuja dinâmica da economia passara a se assentar em
bases capitalistas, mas à qual faltavam atores sociais típicos das formações
históricas que, sob essas bases, antes se haviam organizado.
A reflexão em torno da categoria "marginalidade" veio a calhar como solução
interpretativa e agitou, por isso mesmo, os meios intelectuais latino-
americanos desde os meados dos anos de 1960. Ali se oferecia uma teoria
sociológica dessa particularidade histórica que era ao mesmo tempo uma teoria
do desenvolvimento e do mercado de trabalho. Significativamente, e como um
subproduto da diáspora intelectual promovida pelo regime militar, os principais
autores brasileiros foram envolvidos pela necessidade de pensar o seu país no
contexto da história e das transformações em curso na América Latina.
Destaque para os primeiros textos do peruano Anibal Quijano (1966, 1967 e
1973). Quase que simultaneamente a esses escritos, em 1969, surge outro artigo,
também seminal e (como os de Quijano) igualmente veiculado no meio intelectual
chileno, até então acolhedor das distintas diásporas intelectuais que tinham
lugar no Continente. De autoria do argentino Jose Luis Nun (1969), nele se
defende a pertinência de uma nova categoria, a de "massa marginal". Numa forma
mais acabada frente à que esgrimira dois anos antes (Nun et alii, 1967),
propunha que tal heterogeneidade refletiria a especificidade dos processos de
produção da superpopulação relativa em países periféricos, sob o capitalismo
monopolista. Nessas particulares condições históricas, parte da população
excedente deixaria de cumprir a função de exército de trabalhadores de reserva,
tal como preconizara Marx, ao analisar a dinâmica do mercado de trabalho sob o
capitalismo concorrencial4.
Esse era, de resto, um fenômeno particularmente visível nas metrópoles em
formação, onde pulsava a dinâmica dos investimentos industriais e para onde se
deslocavam contingentes demográficos significativos. Entre os estudiosos da
urbanização brasileira, tema desafiador dos intérpretes das mudanças em curso
no Brasil dos anos de 1960 e 1970, a problemática da assim chamada
"marginalidade urbana" se estabeleceu de maneira sólida, tornando-se central à
agenda de pesquisa. Havíamos abandonado as formulações a respeito do caráter
"sociopático" do nosso processo de crescimento urbano (Pereira, 1965). Os
escritos de Luiz Antonio Machado da Silva (1971), Francisco Oliveira (1972),
Manuel Berlinck (1975), Lucio Kowarick (1975) e Vilmar Faria (1976) são
exemplos de como se debruçava sobre o tema o melhor da nossa inteligenzia.
A crítica à razão dualista (Oliveira, 1972), que dava sustento às teorias
funcionalistas da marginalidade, nutriu-se do esforço por evidenciar como a
reprodução das formas de relações de trabalho, então denominadas "não
tipicamente capitalistas", era parte constitutiva das necessidades do
desenvolvimento do capital, para usarmos o linguajar daquele momento; ou, como
as formas não capitalistas de produção e de trabalho eram funcionais (para
usarmos outra categoria que melhor evidencia a lógica de argumentação) à
reprodução do capital (Kowarick, 1975; Berlinck, 1975; Prandi, 1978). Esses
estudos documentaram não somente a heterogeneidade, mas a instabilidade da
inserção ocupacional dos indivíduos, deixando assente, e de modo cabal, que o
processo de transformação que nossos países experimentavam estava longe de se
ajustar às hipóteses providas pelas teorias (lineares) da modernização.
A par disso, e no bojo do mesmo movimento intelectual, as análises sobre
condições de reprodução da classe trabalhadora também desafiavam teorizações em
voga no mainstream da sociologia acadêmica de então, pondo em xeque a crença de
que o mercado devesse ser o exclusivo mecanismo de alocação de recursos e de
distribuição social. Ao contrário, elas destacavam como outras instituições - a
família, os grupos de vizinhança e as redes de sociabilidade - cumpriam papel
primordial no entendimento das condições de vida e das formas de inserção no
trabalho. Estas, via de regra, se equacionavam tendo o grupo familiar como
arena de construção de estratégias em face da pobreza, sobretudo pela via da
inserção ocupacional de seus membros (Fausto Neto, 1982; Bilac, 1978).
Nesse sentido, essas pesquisas convergiam para os achados de estudos
precedentes, conduzidos entre os anos de 1950 e 1960, dentre os quais se
notabilizaram os trabalhos de Juarez Brandão Lopes (1964) e Leoncio Martins
Rodrigues (1970). Eles haviam se debruçado sobre o processo de constituição de
um mercado nacional de trabalho. Naquele momento, as estratégias individuais,
mormente expressas na migração para os grandes centros industriais, em seu
movimento pendular de ir e vir, deixavam entrever a importância dos elos com os
locais de origem, os refluxos da atividade econômica no local de acolhida e,
nesse sentido, a convivência, em sua pluralidade, dos loci (e a fortiori,dos
mercados) onde se jogava a sobrevivência. Os projetos de vida desses migrantes,
mais das vezes precariamente integrados aos centros urbanos para os quais se
deslocavam, eram movidos por um alvo, o da obtenção do trabalho assalariado
("fichado"), cujos direitos estavam assegurados àqueles em ocupações
industriais e dos serviços; direitos esses que inexistiam, até então, no meio
rural.
Entretanto, para acompanharmos como foi sendo progressivamente formulada a
questão que move o interesse deste texto, é necessário avançar um pouco mais no
entendimento dos elos entre, por um lado, o processo de constituição do mercado
de trabalho e, por outro, as formas de legitimação política da ordem
capitalista no Brasil.
Para tal, são imprescindíveis as interpretações avançadas por Luiz Antonio
Machado da Silva (1971 e 1991, numa nova reflexão à luz do argumento original)
e Wanderley Guilherme dos Santos (1979). Seminais para a construção de uma nova
interpretação da sociedade brasileira, eles documentaram que o modo de
construção da cidadania na nossa República era indissociável do processo de
produção e regulação das relações de trabalho. Suas ideias são, por isso mesmo,
cruciais para se deslindar o mistério da poderosa vigência simbólica de uma
norma salarial cuja implantação real era frágil e se fazia de modo progressivo,
desafiada pelas crises e refluxos da atividade econômica, nacional e
internacional.
Machado da Silva desenvolveu um argumento simples e atraente. A seu juízo, já
desde os anos 1930, parte significativa da economia brasileira estava
monetizada; donde a pressão para que os indivíduos buscassem no mercado de
consumo a satisfação para as suas necessidades. Por isso mesmo, estavam
premidos a encontrar no mercado de trabalho a renda requerida para agirem
enquanto compradores, reproduzindo-se e à sua família.
Entretanto, continua Machado, havia um descompasso entre tal movimento e a
construção institucional do mercado de trabalho entre nós. Vale dizer, o
processo de regulação das condições de oferta e uso do trabalho, um processo
eminentemente político e historicamente capitaneado pelo Estado, não se fizera
aqui do mesmo modo que alhures, "orgânico e minimamente disciplinado" (e uso
termos do autor). Nessas condições, arguiu Machado, havia uma coincidência
entre "população" e "população economicamenteativa",o que lhe permite explicar
a oferta ilimitada de trabalho (ilimitada porque desregulada, a seu ver), ou, o
que vem a ser o mesmo, a existência de um mercado sem barreiras de entrada
(como com frequência a economia caracterizava, à época, a operação do chamado
"mercado informal").
[...] nenhum atributo ou condição (idade, sexo, educação etc.) veio a
se constituir como barreira clara e universal à entrada no mercado.
Por outro lado, condições para a saída do mercado também não foram
estabelecidas e nem institucionalmente respaldadas (seguro
desemprego, previdência etc.) por meio de regras claras e universais
ou, quando existiam, não eram acessíveis, (Machado da Silva, 1991:3)
Os problemas de legitimidade resultantes da ausência de uma efetiva regulação
do trabalho teriam sido contornados por meio de dois mecanismos sociais. Por um
lado, pela imposição do assalariamento mediante a combinação entre formas de
repressão aberta, aplicadas de maneira tópica, e o assistencialismo, público e
privado5. Por outro lado, pela adoção de procedimentos e relações sociais que
garantiam acesso (restrito) aos direitos da cidadania a uma parte, apenas, dos
trabalhadores (partícipes do "núcleo duro" da organização econômica) - um
processo que Wanderley Guilherme dos Santos (1979) conceituou como de uma
"cidadania regulada", também tratado como "cidadania ocupacional", dois
conceitos que remetem ao caráter restrito do acesso a direitos e à proteção
social. Estava aberta a saída interpretativa para o desafio de entender essa
particularidade enigmática, a saber, a de mercados de trabalho que, sendo
capitalistas, não generalizavam a norma capitalista de emprego6.
A desconexão entre vida social crescentemente monetizada (sustentada num
contexto de crescimento econômico e incorporação social persistentes) e
restrita regulação institucional do trabalho (e a fortiori do seumercado) está
na raiz do valor simbólico conferido à relação de emprego "típica" no Brasil.
Com efeito, a segmentação característica do modelo de cidadania regulada,
conquanto de base ocupacional, não se assentava em distinções inerentes à
gramática do processo produtivo, mas em diferenças no modo de legitimação
política, no tipo de cidadania, que estabeleceu o espectro dos direitos
associados ao trabalho, fixou uma cesta de benefícios,, e os associou a um
grupo restrito de elegíveis. Consagrava-se, assim, e nesse mesmo movimento de
construção/inclusão excludente, o valor simbólico não apenas dos benefícios
outorgados, mas (arrisco sugerir)
(i) do mecanismo para a eles aceder-se, vale dizer, o trabalho
formalmente registrado;
(ii) de um símbolo, que seria o passaporte para tal acesso: a
carteira de trabalho;
(iii) e de um grupo de referência, social e espacialmente
circunscrito, qual seja, o dos trabalhadores da indústria e dos
serviços, localizados nos centros urbanos.
Desconexão e segmentação não estavam livres de consequências subjetivas, que
foram equacionadas sob diferentes formas pela literatura de então. Numa
primeira, em que se alinham os trabalhos pioneiros de Juarez Brandão Lopes e
Leôncio Martins Rodrigues, sublinha-se a dificuldade para se generalizar, entre
esses trabalhadores, uma visão de mundo, uma autoimagem e uma racionalidade
centradas no trabalho assalariado. Isso porque, para uma parcela significativa
dentre eles, as diferenciações sociais que lhes serviriam como eixos de
referência não se assentavam numa norma de assalariamento. Por isso mesmo, a
construção política das diferenças não encontraria os seus referentes nas
relações de trabalho ou numa norma de emprego assalariado.
Para outros, e Machado da Silva está entre esses, o assalariamento era uma
espécie de dispositivo espectral, simultaneamente matriz de referência e alvo
de crítica. Nesse sentido, o elogio do trabalho autônomo, "por conta própria"
(e "sem patrão"), longe de ser uma persistência do passado, um componente da
dimensão tradicional da subjetividade, a orientar a conduta desses novos
trabalhadores urbanos, seria, antes, uma forma de resistir à condição
assalariada e, nesse momento em especial, aos baixos salários pagos no mercado
formal7.
Esse foi um fértil veio de análise. Importantes debates da sociologia
brasileira do trabalho aí se estabeleceram. Foi assim, por exemplo, com a
discussão acerca da possibilidade de que um movimento operário de base urbano-
manufatureira galvanizasse a luta política, construindo sua hegemonia
ideológica por sobre essas profundas heterogeneidades de condições de trabalho
e de modos de vida - tema-chave na virada dos anos 1970 para os anos 1980 (ver
a respeito, por exemplo, Tavares de Almeida, 1978; Humphrey, 1982; Le Ven,
1983; Leite, 1985; Abramo, 1986; Antunes, 1986; Agier, Castro, Guimarães, 1995;
Lima, 1996).
Do ponto de vista da discussão que aqui nos move, esse debate é revelador.
Senão, vejamos: as heterogeneidades sociais que chamavam a atenção eram aquelas
que segmentavam os trabalhadores entre os ocupados em formas tipicamente
capitalistas e aqueles que não logravam inserir-se nesse circuito (ou que nele
se incluíam de maneira transitória e fora do coração propulsor da indústria e
dos serviços modernos)8. Nesse sentido, era na política, e pela via da ação de
classe, que se ultrapassaria o hiato estabelecido na estruturação do mercado de
trabalho e traduzido na experiência cotidiana dos trabalhadores.
Nos anos 1990, a discussão se reatualiza, agora sob nova roupagem e premida
pela urgência de interpretar a reestruturação das firmas e a diversidade das
formas de gestão de efetivos por elas adotadas. Disso davam testemunho as
variadas maneiras de nomear e hierarquizar os indivíduos, segundo os seus
diversos estatutos no "mundo da firma". Assim, os sistemas classificatórios
(produzidos nas distintas culturas de empresa e que regiam as relações sociais
nesses microcosmos) antepunham os "permanentes" aos "temporários"; outras vezes
os "mensalistas" aos "horistas"; e não raro os "regulares" aos
"subcontratados".
Salta aos olhos que aí havia algo de novo: não era a natureza do trabalho
concreto, a sua ocupação ou a atividade profissional (como se queira) o que os
diferenciava; nem tão somente o posto de trabalho; era o modo de se estabelecer
a relação de emprego o que passara a se constituir no marcador da diferença
socialmente significativa.
A novidade, que a literatura sociológica dos anos 1990-2000 logo soube
capturar, vinha da presença de uma nova forma contratual, a dos assim chamados
"terceirizados". Tal forma impunha a necessidade de teorizar tanto a
especificidade desse modo de gestão das diferenças intraempresa, como as suas
consequências para a representação de interesses, até ali monopolizada pelo
sindicato "da categoria", cujos limites, antes indisputados, passavam a
exprimir desconcertante fluidez (ver, a propósito, os trabalhos de Martins e
Ramalho, 1994; Abreu et alii, 1998; Druck, 1999).
Os anos 2000 ampliaram o espectro do debate sobre os elos entre
heterogeneidade, formas de sociabilidade e ação coletiva, já agora num contexto
de contração das oportunidades de emprego nos mercados ditos "externos" de
trabalho, e de diferenciação de estatutos nos mercados "internos", no compasso
da reestruturação micro-organizacional que se aprofundava. Nessa longa
conjuntura de refluxo, a retração do assalariamento formal estancou o movimento
que, desde os fins dos anos 1940, incluíra progressivamente novos contingentes
de trabalhadores, migrantes em sua maioria, sob o manto da regulação capita-
lista.Ao fazê-lo,colocou no centro do debate,e integrou, mudança nos locais de
trabalho e no mercado de trabalho, sob o acicate do crescente desemprego e da
diluição (até mesmo) das trajetórias antes bem-sucedidas dos, agora,
"deserdados da indústria" e, por que não dizer "deserdados do trabalho formal"
(Cardoso, 2000 e 2003; Guimarães, 2004; Ramalho e Santana, 2006; Ramalho, 2010;
Rodrigues et alii, 2009).
Enquanto a agenda dos economistas os polarizava entre os que viam, neste, um
caminho sem volta e aqueles que atribuíam à política pública a virtualidade de
poder revertê-lo9, a agenda dos sociólogos abria espaço a mais uma novidade, de
importantes consequências para talhar esse contexto. Na esteira das políticas
voltadas a sustentar o chamado "empreendedorismo", ampliava-se o marco
regulatório das relações de trabalho, difundia-se o trabalho associado em
cooperativas, estendendo, em outra direção, o arco de alternativas que
desafiavam o peso estrutural e o valor simbólico do emprego formal. Assim, na
mesma medida em que o trabalho associado se configurava como uma saída à
conjuntura de escassez de empregos ditos "regulares", abria-se outra senda pela
qual se aprofundavam os debates sobre as representações acerca do trabalho, da
autonomia e dos direitos (Lima, 2009 e 2010; Leite, 2009).
Qual a novidade da segunda metade dos anos 2000, quando o movimento de
incorporação produtiva pela via da expansão do emprego formalmente registrado
parece ter sido restabelecido? Estaremos, pura e simplesmente, frente à
retomada da antiga tendência, antes (e apenas circunstancialmente) estancada? O
velho e bom "emprego fichado" volta, enfim, a crescer, para alegria de todos e
para a efetivação do antigo modo de regulação institucional do trabalho? Diria
que não e a isso dedicarei as duas partes que se seguem. Elas me permitirão
reunir os elementos para arguir, na conclusão, em favor de repensarmos o tema
da persistência do valor simbólico do vínculo formal assalariado nas atuais
condições de estruturação do mercado e de regulação da relação de trabalho.
Mais Empregos sob Novos Padrões de Gestão da Relação de Trabalho?
Observando a performance do mercado brasileiro de trabalho nos dias que correm,
um significativo crescimento do emprego formalmente registrado fica visível nos
dados da RAIS (Relação Anual de Informações Sociais), nosso melhor termômetro
sobre o que se passa no mercado formal de trabalho10. Observando, no Gráfico_1,
a série histórica que recobre os anos posteriores ao Plano Real (1994-2010),
vê-se uma inflexão que tem lugar a partir de 2002. O mercado formal se reanima,
e passa a crescer a taxas mais elevadas que fazem dobrar o numero de
trabalhadores contratados no comércio (139%) e nos serviços (105%); até mesmo
na indústria, que experimentara taxas negativas entre 1995 e 2001, o volume do
emprego registrado cresceu 46% numa comparação ponto a ponto.

O mais interessante achado que se apresenta no Gráfico_1, entretanto, diz
respeito ao ritmo muito mais elevado com que aumenta a parcela do emprego
formal gerada pelas empresas de seleção, agenciamento e locação de mão de obra.
Ele cresce quase 300% no mesmo período (mais exatamente 272%). Vale dizer,
quando a economia se reanima e as oportunidades de trabalho se ampliam, o
emprego formal gerado através de intermediários cresce muito mais celeremente
que o incremento no assalariamento direto, não importando o setor de atividade
com o qual se compare tal crescimento.
Estará tal movimento circunscrito a certos espaços do território nacional? Com
efeito, seria plausível pensar que, quando firmas enxutas voltam a recrutar num
mercado de trabalho prenhe de desempregados, o custo desse recrutamento, dado o
afluxo desmesurado de candidatos, pode justificar o ônus de investir na
presença de um terceiro agente, o intermediador. Ademais, se supusermos que o
custo de recrutar é maior a escalas crescentes de operação do mercado, o
recurso a intermediários seria tanto mais plausível, portanto, quanto maior
fosse a oferta de trabalhadores e a concentração desses. Um argumento dessa
natureza nos levaria a concluir que o notável crescimento do emprego produzido
através de intermediários tenderia a ser um fenômeno exclusivo de mercados de
larga escala, como os mercados metropolitanos.
O Gráfico_2 revela que isso só em parte é verdadeiro. Nele se compara o
movimento no volume dos contratos de trabalho via intermediários em duas
diferentes escalas espaciais: para o Brasil como um conjunto e para as nossas
regiões metropolitanas.
[/img/revistas/dados/v54n4/02g02.jpg]
O que vemos? Em primeiro lugar, que a inflexão das duas curvas exprime um
padrão muito similar e que, ademais, a proximidade existente entre ambas
indica, como hipotetizado acima, o peso dos grandes mercados na ampliação
recente desse tipo de serviço e de relação de emprego. No caso brasileiro, é
evidente que a escala importa. Só o Estado de São Paulo concentra metade de
todo o emprego intermediado que se criou no país; e sua região metropolitana
produziu a parcela majoritária dessas vagas (Guimarães, 2009:139).
Apesar disso, uma segunda observação se destaca: há um hiato entre as duas
curvas, que parece se ampliar justamente na conjuntura em que mais celeremente
cresce o emprego formal; vale dizer, estamos diante de um processo que,
conquanto concentrado, repercute para além dos limites dos grandes mercados
metropolitanos.
Finalmente, o Gráfico_2 revela como o emprego intermediado é sensível ao ciclo.
O leve refluxo na atividade econômica no Brasil, associado à crise
internacional que se deflagrou em 2008, teve efeito imediato sobre o volume de
ocupação nesse segmento. Mas, foi também imediato o efeito da recuperação da
economia, no ano seguinte, que rapidamente fez crescer as oportunidades criadas
pelos intermediadores de trabalho, a revelar que a inflexão fora meramente
conjuntural e que a tendência à expansão do setor veio para ficar.
Todavia, há que tomar uma precaução. Diante dos impactantes números relativos
que expressam ritmos de crescimento, como os do Gráfico_1, não devemos perder
de vista que esse é um segmento minoritário no mercado formal de trabalho, o
que fica patenteno Gráfico_2. No Brasil, e ainda de acordo com a RAIS, a
magnitude do emprego formal criado através de intermediários equivale apenas a
cerca de 2% do emprego com carteira assinada e, nesse sentido, nem de longe
rivaliza com o emprego diretamente contratado. Sendo assim, por que lhe dar
tamanha atenção?
Em primeiro lugar, porque o percentual encontrado para o nosso país não dista
muito do que se verifica em outros quadrantes, onde o setor já se apresenta
consolidado. Estatísticas produzidas pela International Confederation of
Private Employment Agencies (CIEET), em seus dois últimos relatórios referentes
a dados de 2008 e 2009 (respectivamente CIEET, 2010 e 2011), e resumidas no
Gráfico_3, permitem situar o Brasil no quadro internacional. Elas nos dão a
medida do peso do trabalho intermediado em distintos países, comparando-os com
a média europeia11. Considerando-se o indicador da CIEET relativo ao volume
absoluto do emprego provido por intermediadores, o Brasil, tanto em 2008 quanto
em 2009, só era ultrapassado pelos Estados Unidos, Japão, Reino Unido e África
do Sul (Gráfico_3).
[/img/revistas/dados/v54n4/02g03.jpg]
Dados de outra fonte brasileira nos permitem confrontar a informação fornecida
pelas empresas (e obtida da RAIS) com a informação fornecida pelos
trabalhadores. Isso é possível se usarmos a Pesquisa de Emprego e Desemprego,
inquérito domiciliar e mensal, por amostra representativa, realizado para
algumas das metrópoles brasileiras e que nos provê com uma série histórica
igualmente robusta.
Focalizarei a Região Metropolitana de São Paulo, o mais importante viveiro de
trabalho intermediado entre todas as metrópoles brasileiras, localizada no
Estado campeão no uso de trabalho intermediado. Observando o longo período
compreendido entre 1988 e 2006, vê-se que esse tipo de vínculo formal é
sensivelmente maior ali que na média nacional, antes apresentada com base na
RAIS; ademais, no momento de
recuperaçãodospostosformais,opesodotrabalhocontratadoatravés de terceiros quase
que dobrou, alcançando perto de 6% dos assalariados na metrópole paulista (ver
Gráfico_4)12.
[/img/revistas/dados/v54n4/02g04.jpg]
À luz dos dados até aqui apresentados, vemos que, quando o crescimento
econômico volta a ampliar oportunidades ocupacionais, não se pode dizer que
estejamos, pura e simplesmente, frente à retomada da mesma tendência,
conjunturalmente estancada, que marcara a dinâmica do nosso mercado de trabalho
até o final dos anos 1970. Anovidade dessa segunda metade dos anos 2000 está no
fato de que vem crescendo (de modo ainda mais célere, nacional, conquanto
concentrado nos nossos grandes mercados de trabalho) um tipo de relação de
emprego que, se existia anteriormente, era muitíssimo mais circunscrita.
Do ponto de vista formal o trabalho obtido através das empresas de seleção,
agenciamento e locação de mão de obra altera a relação contratual e nela
introduz um terceiro, que se interpõe entre os clássicos agentes do mercado, o
ofertante e o demandante de trabalho. Do ponto de vista da sua regulação
institucional, ele vivifica as possibilidades de regulamentação do trabalho
temporário, de curta duração, ao mesmo tempo em que traz para o âmbito do que
pode ser formalmente contratado esse tipo de atividade (Bicev, 2010).
Em outras oportunidades procurei seguir avançando na resposta à indagação sobre
a qualidade e a sua seletividade desse tipo de vinculo (Guimarães, 2009a e
2009b). Assim, observei a durabilidade dos contratos estabelecidos por esses
trabalhadores e a especificidade das suas trajetórias ocupacionais. A esse
respeito, poder-se-ia dizer que a retomada do crescimento do emprego formal
estaria se fazendo por meio de uma crescente flexibilização de tipo rudimentar
das relações de trabalho?
Explorando os dados longitudinais da RAIS, disponibilizados num corte especial
do banco da Rais-Migra13, pode-se acreditar que também aqui a resposta está
longe de ser simples, requerendo cuidado e refinamento analíticos. Nos
trabalhos antes citados, mas também na investigação conduzida por Jonas Bicev,
foi possível observar as trajetórias dos trabalhadores ocupados através de
intermediários, identificando os seus percursos no mercado formal de trabalho.
Para tal, utilizei uma amostra de 143.000 indivíduos, extraídos da Rais-Migra,
que formavam uma coorte de trabalhadores empregados, em 1996, nas empresas de
seleção, agenciamento e locação de mão de obra da Região Metropolitana de São
Paulo, de modo a identificar o seu percurso ocupacional até 2002, último ano
para o qual dispunha de informações (Guimarães, 2009a). Acompanhei, assim, sete
anos da vida profissional desses indivíduos, de modo a verificar quão estável
era a sua permanência no segmento e se, uma vez movendo-se, em que direção o
faziam. Embora não os tenha observado no momento de maior ampliação das
oportunidades de emprego, os resultados são fortemente sugestivos e nos impedem
de insistir em hipóteses aligeiradas, que tudo incluem sob a ampla, e com
frequência vaga, noção de "precarização".
Verifiquei que, se o segmento de intermediação não se revela um abrigo
duradouro para os trabalhadores que por ele passam (apenas 1 em cada 10
permanece por longo tempo ali empregado), ele propicia que uma parcela
importante dos que por ali circulam possa se reempregar em outros setores de
atividade, como a indústria e os serviços prestados a empresas. Com efeito, um
quarto da coorte de trabalhadores que haviam estado empregados por empresas de
locação, em 1996, estabelecem vínculos posteriores, ao longo do período, nesses
setores14. Esse achado converge com evidências obtidas em outras realidades,
como a dos Estados Unidos (Autor e Houseman, 2006; Autor, 2008), e foi
documentado igualmente por Bicev (2010).
Uma análise de trajetórias construída em sentido contrário, ou seja,
retrospectiva em vez de prospectiva, produziu achados bastante complementares
aos anteriores. A pergunta passava a ser "de onde provêm os trabalhadores que
logram obter emprego numa empresa de intermediação?", vale dizer, qual o papel
dos intermediários no que concerne à inserção dos indivíduos no mercado de
trabalho? Para tal, e ainda usando o mesmo banco de dados, tomei a coorte das
cerca de 288.000 pessoas que estavam ocupadas nas empresas de intermediação em
2002 e, com base nas informações propiciadas pela Rais-Migra com respeito a
esses trabalhadores, montei um painel que recuperava todas as suas experiências
ocupacionais nos sete anos anteriores à sua chegada no segmento, ou seja, entre
1996 e 2002 (Guimarães, 2009a).
Chamou a atenção o peso daqueles que haviam estado fora do mercado formal de
trabalho e que para ele foram atraídos pelas empresas de seleção, agenciamento
e locação de trabalhadores; eles formavam nada menos que a metade dos casos. E
quem eram esses trabalhadores atraídos ao vínculo formal pelos intermediários?
As mulheres eram ligeiramente mais prováveis de ser encontradas nesse tipo de
trajetória. Mas foi entre os adolescentes e jovens, com escolaridade de nível
médio, que parecia estar o celeiro para tal recrutamento; ou seja, eles
encontravam nas empresas de intermediação a porta de entrada para o vínculo
formal de trabalho (Guimarães, 2009a).
Articulando os achados anteriores propiciados pela Rais-Migra com respeito às
trajetórias de chegada e de saída no setor, algumas observações sugestivas
parecem cabíveis com respeito a essa relação de emprego de crescimento recente
e vigoroso.
Em primeiro lugar, os que se ocupam por meio das empresas de seleção,
agenciamento e locação, mesmo se com elas rompem seus vínculos de trabalho (e 9
em cada 10 o fazem em 7 anos), tendem a permanecer, em sua maioria (isto é, 6
em cada 10) e de modo duradouro (isto é, persistentemente no lapso de 7 anos),
no mundo dos empregos registrados (Guimarães, 2009a). Ou seja, é como se um
movimento de permanência no mercado formal estivesse se fazendo por meio de um
processo recorrente de restabelecimento de vínculos, para o qual a passagem por
empregos intermediados parece ter funcionado como uma correia de transmissão
relevante para a inserção.
Todavia - e em segundo lugar -, essa correia de transmissão é de eficácia
relativa, já que uma parcela importante volta a estar duradouramente expulsa do
mercado formal; algo assim como 4 em cada 10, se usarmos os dados das
trajetórias prospectivas, média similar à que encontrei em estudo anterior para
o Brasil (Guimarães, 2004). Nada a estranhar em se tratando de uma realidade na
qual o desemprego, mesmo com a retomada do crescimento, não perdeu o seu
caráter recorrente, especialmente entre os mais pobres, e em que a
institucionalização das formas de proteção ainda é recente, exigente por seus
critérios de elegibilidade e pouco inclusiva.
Finalmente, e em terceiro lugar, trata-se de um segmento complexo que, na forma
como foi institucionalizado, estabelece novas maneiras de acesso, inclusão e
mobilidade no mercado formal de trabalho no Brasil, maneiras essas que ampliam
a heterogeneidade entre os que estão contratados com registro, e espelham as
mudanças institucionais em curso nas empresas e no próprio mercado. Difícil,
assim, equacionar o tema apondo, nesses agentes, o rótulo de protagonistas de
uma flexibilidade de tipo rudimentar. Se mais não fosse, porque flexibilidade
nós a vivemos desde sempre, sob o acicate seja de um mercado de trabalho
estruturalmente heterogêneo, no qual uma "norma salarial" (produto de
conquistas sociais geradas em estados de bem-estar) jamais se universalizou;
seja sob o acicate da regulação institucional que atingiu aquela pequena
parcela dos empregados formais e que, introduzida logo nos primeiros momentos
do regime militar sob a forma da legislação do Fundo de Garantia do Tempo de
Serviço, em 1965, retirou-lhes o direito à chamada "estabilidade".
Assim, parecemos estar numa rota de flexibilização do que já era flexível, no
curso da qual se fragilizam vínculos nos setores econômicos em reestruturação,
ao tempo em que se (re)constituem vínculos formais de trabalho de diversa
natureza, com peso crescente para aqueles que se fazem através das empresas de
seleção, agenciamento e locação de pessoal. Esse parece ser o novo desafio cuja
natureza e consequências, do ponto de vista simbólico e das formas de
sociabilidade, nós, os sociólogos, estamos desafiados a bem interpretar.
RECONFIGURANDO-SE AS RELAÇÕES DE EMPREGO, RECONFIGURAM-SE AS RELAÇÕES ENTRE
EMPRESAS?
Para finalizar o percurso analítico, gostaria de deixar plantado um último
argumento. Para tal, começo por situá-lo com respeito ao fio da reflexão até
aqui desenvolvida.
Na segunda metade dos anos 2000 observamos, no Brasil, uma notável recuperação
do emprego formal, da qual tratamos na primeira seção deste texto. Nesse
crescimento, entretanto, prefigura-se a crescente importância de uma forma
particular de relação contratual entre empregado e empregador, o trabalho
intermediado. Ele estaria aumentando, entre nós, de maneira sistemática e a
taxas notáveis. Conquanto especialmente significativo nos grandes mercados de
trabalho, com destaque para a Região Metropolitana de São Paulo, esse
crescimento tem revelado um ritmo médio nacional a cada ano mais acelerado,
indicando uma tendência a expandir essa relação de emprego por setores e
regiões. E se é fortemente imune a retrações na atividade, rapidamente responde
(e se recupera) quando esta retoma a sua aceleração.
Do ponto de vista do seu impacto sobre a força de trabalho intermediada, vimos,
na segunda seção do texto, que dificilmente ele poderia ser reduzido a
estereótipos simplificadores que, conquanto politicamente bem intencionados,
são analiticamente paralisantes. Com efeito, na análise antes apresentada sobre
as trajetórias dos ocupados por meio de intermediários, documentou-se, tomando
a Região Metropolitana de São Paulo como exemplo, que a ocupação assim obtida
tem se constituído num passaporte de entrada no mercado de trabalho para
parcela não desprezível de indivíduos, notadamente os mais jovens. Mais ainda,
que muitos deles, depois de algum tempo contratados por intermediários, são
absorvidos em setores nos quais são diretamente contratados por seus
empregadores. E que, se rotatividade existe entre os trabalhadores empregados
por meio de intermediários, ela não é muito distinta daquela que prevalece para
a média dos empregados formalmente contratados no Brasil.
Assim sendo, e para finalizar a apresentação de evidências empíricas
analiticamente instigantes, seria oportuno indagar, agora, acerca do efeito do
significativo crescimento dessa modalidade de emprego não apenas para as
relações entre empregado e empregador, mas para os nexos entre os próprios
empregadores. Isso porque, e essa é a hipótese que quero aventar, na medida em
que o trabalho intermediado deixa os nichos antes característicos da
subcontratação, ele altera aqueles que parecem ter sido seus traços anteriores:
de ser episódico do ponto de vista do ciclo da produção de bem ou serviço; de
ser compensatório do ponto de vista de ocupações nas quais se concentrava; e de
ser setorialmente localizado.
Sugiro e procurarei argumentar que se alteram as próprias relações entre as
firmas - provedoras e usuárias do serviço de intermediação do trabalho - quando
o trabalho intermediado amplia suas formas, ancorado numa nova regulação
institucional, tornando-se um negócio atraente, operante de maneira permanente,
em escala plurissetorial e multirregional, abarcando, inclusive, o trabalho de
gestão dos seus recursos humanos, crescentemente externalizado pelas firmas. Ou
seja, seu lugar é central nessa nova quadra da ordem econômica.
Analisando-o de maneira mais detida - e esse será o ponto-chave do argumento
nesta seção - vemos que tal fenômeno é um indício não apenas de que um outro
modo de gestão do recrutamento e dos contratos de trabalho está se ampliando,
mas de que um pujante segmento de negócios - o da intermediação de trabalho -
consolida-se na economia brasileira. Com isso, passam a ter lugar formas
complexas de articulação entre firmas provedoras e usuárias de trabalho
intermediado, numa rede mais organicamente tecida.
Tratarei o tema a partir da resposta a duas indagações: a quem servem esses
intermediadores que atuam no mercado de trabalho? Como servem, vale dizer que
tipo de serviço provêm e sob que tipo de relação de provimento?
Para tanto, novamente lançarei mão de dados para o Estado de São Paulo, únicos
disponíveis ao nível de detalhe de que necessitarei na demonstração. Tais
informações são provenientes PAEP - Pesquisa da Atividade Econômica Paulista
2002, e foram recolhidos em survey realizado junto à amostra representativa das
empresas em atividade no ano 2001. Para a análise subsequente selecionei, da
amostra original para um olhar mais detido, as empresas provedoras de serviços
de intermediação no campo do provimento e gestão de recursos humanos15.
O Gráfico_5 apresenta a decomposição das receitas auferidas por essas empresas
segundo o tipo de cliente.
[/img/revistas/dados/v54n4/02g05.jpg]
Vê-se, à luz desses dados, que não é mais o governo, como nos primórdios da
história desse segmento de negócios, o principal cliente da intermediação de
trabalho16. São os setores diretamente produtivos, notadamente as empresas
industriais, as quais respondem por metade da receita auferida pelas empresas
intermediadoras. Ou seja, o trabalho intermediado cresce no coração da
atividade econômica, reconfigurando o cerne da relação social de trabalho que
até aqui lhe fora característica.
Por outro lado, os vínculos estabelecidos com as empresas usuárias dos seus
serviços estão longe de se restringirem à simples locação de trabalho (ou seja,
são mais que meras provedoras de trabalhadores), e tampouco poderiam ser
classificados como frágeis em sua duração ou precários em sua formalização.
Para melhor evidenciar a estreita e complexa conexão que firmas provedoras e
usuárias guardam entre si, os gráficos seguintes comparam o padrão de relação
interfirma nesse segmento com aquele que caracteriza outros segmentos da
atividade econômica que provêm insumos estratégicos para as empresas que os
contratam, como são as empresas provedoras de serviços de telecomunicação e de
informática.
Minha indagação poderia ser assim formulada: terão as empresas provedoras de
serviços relativos à mão de obra um padrão distinto de relação com as empresas
(usuárias) que as contratam? Ou seja, elas se diferenciariam do padrão que se
estabelece em outros segmentos, comumente classificados como "modernos e
inovadores" (como telecomunicações e informática), e que provêm outros insumos
igualmente importantes?
Como se pode observar no Gráfico_6, na maioria expressiva das transações que
realizam, as fornecedoras de serviços de provimento e gestão de recursos
humanos têm o seu relacionamento com as empresas usuárias dos seus serviços
regido por contratos; menos que 20% de transações foram referidas como
realizadas sem o respaldo de um instrumento formal que fixasse os termos da
relação entre as duas firmas. Relações informais, curiosamente, são mais
frequentes entre empresas fornecedoras de serviços de telecomunicação e
informática e as firmas usuárias desses serviços, que no campo da intermediação
de trabalho.
[/img/revistas/dados/v54n4/02g06.jpg]
Mais interessante ainda, relações duradouras não são excepcionais; mais que 50%
das intermediadoras indicaram transações firmadas para prestação de serviços a
clientes por período maior que um ano. E, novamente, a estabilidade da relação
com a firma contratante é maior entre elas que entre as empresas atuantes em
ramos típicos do segmento intensivo em conhecimento da economia, como são as
empresas de informática e telecomunicação.
O Gráfico_7 traz outra evidência que vai na mesma direção: relações de
exclusividade no provimento do serviço são muito mais frequentes quando se
trata de intermediação de trabalho; ou seja, nesse segmento parcela
significativa dos contratos liga não apenas duradouramente, mas de modo
particularmente estreito, contratante e contratado. Aqui a tendência observada
no segmento da intermediação dista ainda mais daquela encontrada para
telecomunicação e informática, ramo em que cada empresa fornecedora de serviços
tem, e em muito maior proporção, competidoras, igualmente integradas à empresa
usuária, prontas a abocanhar suas fatias de contrato.
[/img/revistas/dados/v54n4/02g07.jpg]
A modalidade de relação entre firmas provedoras e usuárias de trabalho é não só
formal, como durável, estreita e, diria para finalizar, multifacetada, ou seja,
ela envolve, tal como se pode ver no Gráfico_8, uma agenda complexa porque vai
muito além da mera locação de trabalhadores. Na relação com as usuárias que as
contratam, elas avançam em direção à política de recursos humanos, abarcando
tanto o perfil desta, quanto a qualificação da usuária para implementar
inovações introduzidas com vistas a aumentar a sua competitividade.
[/img/revistas/dados/v54n4/02g08.jpg]
CONCLUSÃO
Em síntese, intermediadores no mercado de trabalho formam um segmento
empresarial que cresce desde os anos 1990 com o aprofundamento da
reestruturação das firmas, e que intensifica sua presença de maneira notável
quando a economia aquece seus motores e amplia a oferta de vagas na segunda
metade dos anos 2000.
Na esteira do seu crescimento são fortes os indícios de que o contrato formal
de trabalho, ao abarcar mais indivíduos, altera a modalidade do novo emprego
que se provê, notadamente às mulheres e aos mais jovens. Se as novas formas de
regulação do emprego, do que o trabalho intermediado é uma modalidade
particularmente importante, não são a panaceia que os apologistas da
desproteção do trabalho querem fazer crer (do que dão testemunho a persistente
fragilidade do vínculo e instabilidade das trajetórias, similar ao que já se
observava no mercado),
tampoucosãodescartáveisosseusefeitos,sejacomoviadeacessoao trabalho registrado,
seja como via de ingresso a empregos diretos nas empresas usuárias.
Mais ainda, a presença das firmas de intermediação de trabalho, a menos pelo
que se pode observar no mais importante polo de atividade produtiva do pais, o
Estado de São Paulo, denota a constituição de um padrão de relação entre
empresas que vai muito além da mero agenciamento de empregados, que um dado
intermediador recruta episodicamente para um contratante; ou da simples
locadora de força de trabalho, que também episodicamente provê mão de obra em
momentos-chave da atividade da empresa usuária. Arriscaria dizer que essas
foram formas de relação num passado recente (o dos anos 1980, por exemplo) e
que tenderam a ser deixadas para trás.
O cenário até aqui descrito indica estarmos frente a um aglomerado produtivo
fortemente integrado, no qual planejamento, recrutamento e alocação de trabalho
são atividades que, conquanto crescentemente externalizadas, são desenvolvidas
em estreita (e muitas vezes exclusiva) articulação entre o intermediador e o
usuário que o contrata. Não sem razão, ao longo do nosso trabalho de campo,
gerentes e proprietários de empresas de seleção, agenciamento e locação de
trabalhadores (como são denominadas na classificação oficial para atividades
econômicas) resistiam e recusavam a usar para si a denominação de
"intermediadores de trabalho"; longe disso, esses profissionais e CEOs viam a
si próprios como "parceiros", "consultores", "planejadores" do uso dos recursos
humanos para as firmas que os contratavam.
Isso permite finalizar sugerindo que, se novas modalidades de relação de
emprego parecem estar reconfigurandoovelho"trabalhoformal", essa reconfiguração
não seria mais que a ponta do iceberg de mudanças que estão ocorrendo na
organização da economia, com impactos importantes sobre o mercado de trabalho,
que a Sociologia está desafiada a bem interpretar.
Elas recolocam na ordem do dia a inquietação que mobilizou autores como Juarez
Brandão Lopes, nos anos 1950-60: seria cabível imaginar que, para esses novos
trabalhadores, sua visão de mundo, sua auto-imagem e sua racionalidade de
conduta passariam a estar, agora, irremediavelmente fundadas no trabalho
assalariado?
Mas, elas também restabelecem a importância do tema que desafiou Luiz Antonio
Machado da Silva e outros autores, nos anos 1970-80, que se detiveram a pensar
sobre as heterogêneas configurações do trabalho e os elos que essas guardariam
entre si: seria plausível arguir que a expansão da intermediação, ao
reconfigurar "o velho trabalho formal", tensionando seus limites, estaria
estabelecendo uma sorte de nova fronteira, que restabeleceria o elo perdido
entre aqueles que foram pensados como dois grandes segmentos do mercado
brasileiro de trabalho? Nessa fronteira cinzenta reúnem-se, agora,
características antes dissociadas, porque diferenciadoras do que se entendia
como formal e informal; do primeiro, o trabalho intermediado preserva os
direitos formais e, quem sabe, atualiza a vigência simbólica; do segundo, retém
a flexibilidade e a fugacidade dos vínculos, e quem sabe os salários mais
baixos. Quem povoa tal fronteira? Como vimos, indivíduos que ali acorrem em
suas estratégias de vida, muitas vezes por razões diferentes conforme sejam
jovens, mulheres, procurando maximizar a associação entre seus atributos e
trajetórias17.
Mas essa é uma fronteira que, como todas, também aparta. Nem todos têm acesso
ao trabalho intermediado. Conforme mostrei em outra ocasião (Guimarães, 2009a)
os intermediadores formam um dique de contenção em meio à volumosa demanda
formada pelos que estão à cata de oportunidades, operando a triagem daqueles
que considera como "bons candidatos" ou "bons trabalhadores potenciais a
alocar". Em meio a uma crescentemente complexa divisão social do trabalho, e ao
cipoal do quadro jurídico formal, ali está o seu nicho empresarial, cuja razão
de ser se assenta em dois pilares. Por um lado, na capacidade de efetuar a
triagem, a seletividade, estabelecendo uma barreira, exercendo o poder de
exclusão, enfim, sobre a parcela majoritária dos que a eles recorrem. Por outro
lado, na virtualidade de promover o ajustamento "interno", legal e legitimado
entre o que era aspirado como um valor simbólico inelutável - o trabalho
duradouro, protegido, passaporte ao mundo de direitos - e o multifacetado
espectro de formas do formal ("terceirizados", "temporários", "estagiários", só
para usar a gramática atual) que a nova forma de gestão das firmas e dos seus
efetivos permite acenar como vias de inclusão, em sintonia, cada vez mais fina,
com os movimentos de contração e expansão da atividade das empresas.
Estamos, enfim, desafiados a construir uma outra narrativa analítica acerca das
novas formas e condições da mobilização do trabalho, que não comporta respostas
simples e que nos desafia à contínua pesquisa empírica e reflexão teórica18.
NOTAS
* Este texto se beneficia de achados do projeto "Redes sociais e obtenção de
trabalho: os mecanismos não mercantis na operação do mercado de trabalho", que
tem contado com o suporte da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São
Paulo (Fapesp) (Programa CEPID (Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão),
processo nº 1998/14342-9 e Programa (Instituto Nacional de Ciência e
Tecnologia), processo 2008/57843-1) e do Conselho Nacional de Desenvolvimento
Científico e Tecnológico (CNPq) (Edital Universal, processo 481268/2004-9 e
Programa INCT proc. 573864/2008-0). No preparo dos dados recebi o apoio de
Jonas Bicev e Paulo Henrique da Silva. As ideias aqui expressas são devedoras
do debate com os membros da minha equipe de pesquisa, notadamente Flavia
Consoni, Wagner Bessa e Jonas Bicev. Os seminários com colegas do Centro de
Estudos da Metrópole e do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento
alimentaram possíveis saídas interpretativas e novas interrogações. Agradeço,
igualmente, os comentários de Luiz Antonio Machado da Silva, de Álvaro Comin e
dos pareceristas anônonimos da revista DADOS, cujas sugestões em muito
contribuíram para enriquecer e precisar o meu argumento inicial.
1. Sei que os estudos acerca da estrutura do emprego e da dinâmica do mercado
de trabalho galvanizaram os economistas e polarizaram suas posições, premidas
pelo desafio de estabelecer o lugar da política econômica e o papel do estado
nessa seara. Conquanto reconheça a relevância dessa abordagem e saiba quão
acercada ela está do terreno em que construo o meu próprio argumento, convém
aclarar que não é esse o partido analítico adotado nas páginas que se seguem;
nelas, o foco estará voltado, antes, a refletir a partir de algumas
interpretações seminais produzidas pela Sociologia. Não obstante, e dado o
valor do debate protagonizado pelos economistas, remissões ocasionais serão
inescapáveis.
2. É sugestivo da crescente importância dessas atividades o fato de que a
última reforma no sistema classificatório oficial (que instituiu a CNAE 2.0
desde 2006) tenha promovido maior desagregação (na coleta e divulgação) das
alternativas de atividade econômica contempladas por esse ramo de "empresas de
seleção, agenciamento e locação de pessoal" (código 74.500).
3. Em ocasião anterior tive a oportunidade de refletir sobre esse tema,
conquanto sob enfoque distinto do que aqui se desenvolve (Guimarães, 2009).
4. É curioso observar que, nesse sentido, o enfoque das teorias da
marginalidade foi precursor da ideia da "redundância", que reapareceria com
vigor entre autores que, nos anos 1990, buscaram interpretar a crise do emprego
em contextos de intensa reestruturação nos países capitalistas centrais, dentre
eles DiPrete e Nonnemaker (1997) e Elias (1994 e 2004).
5. Não sem razão, para Machado da Silva, o clientelismo teria sido, por muito
tempo e/ou para muitos contingentes de trabalhadores, a chave do mistério para
solver problemas de legitimação sob uma norma salarial precariamente
institucionalizada.
6. As contribuições seminais de Santos (1979), Machado da Silva (1971), mas
também de Vianna (1978) e Gomes (1979 e 1994) estão na base das inspirações
analíticas de todos os que tentamos enveredar por esse caminho.
7. Agradeço a Luiz Antonio Machado da Silva por ter me chamado a atenção para
essa diferença, importante pelo que deixa entrever sobre os mecanismos
explanatórios mobilizados por duas gerações de preciosos intérpretes da
sociedade brasileira, a dos anos 1960 (como Lopes e Rodrigues) e a dos anos
1970 (como o próprio Machado). Ver igualmente Sader, Paoli e Telles (1983) e
Cardoso (2010 e 2010a).
8. Não sem razão o dualismo ou a lógica de tipo funcional deram a régua e o
compasso para bem descrever-se tal diferença.
9. Conquanto não seja pretensão deste artigo rever o debate dos economistas
brasileiros sobre as características e determinantes dessa mudança, e muito
menos resenhar as disjuntivas que os apartaram, chamo atenção para alguns
textos recentes, úteis à reflexão dos sociólogos por estabelecerem âncoras
factuais importantes. Chahad (2006) tanto quanto Ramos e Ferreira (2005) haviam
documentado a contínua queda dos trabalhadores com carteira assinada,
revertida, como cedo mostrou Tafner (2006), tanto pelo movimento virtuoso que
tem lugar nas regiões metropolitanas (Cavaleri, 2008), como pelo aumento da
fiscalização do trabalho, aliada à desburocratização de procedimentos
tributários (Simão, 2009), e pelo efeito do crescimento do número médio de
empregados nas firmas, que passou a ocorrer até mesmo entre as que ingressavam
no mercado (Corseuil, Moura e Ramos, 2011). Tais mudanças tiveram lugar num
contexto em que o marco regulatório também sofria ajustes, em meio a intensa
discussão sobre a necessidade da flexibilização (Krein, 2005).
10. A RAIS (Relação Anual de Informações Sociais) é um registro administrativo
produzido pelo Ministério do Trabalho e do Emprego; ela recolhe
compulsoriamente, junto às empresas brasileiras, informações sobre contratos
firmados ou desfeitos, ao longo de cada ano. A informação permite descrever o
perfil dos formalmente contratados em 31 de dezembro de cada ano.
11. A diferença entre o percentual indicado pelo CIEET e o que se obtém via
RAIS resulta da metodologia utilizada pela Confederação. Assim, a taxa de
participação que se apresenta no Gráfico_4 foi obtida como o quociente entre
número de intermediados expresso em unidades de trabalhadores full time e a
população ocupada conforme medida pela OIT; para chegar ao numerador desse
quociente, que traduz o volume de ocupados pelos intermediadores em "unidades
de trabalhadores full time", o CIEET computa o número total de horas
trabalhadas pelos empregados através das agências de um mesmo país no período
de um ano, e o divide pelo número médio de horas trabalhadas no mesmo período
pelos trabalhadores empregados em tempo integral.
12. Aqui há uma ligeira diferença entre o que se mede através da RAIS e da PED.
Enquanto a primeira, como dito acima, captura o emprego intermediado tal como
informado pelas empresas, a PED tem no indivíduo a sua unidade de informação. O
dado deste Gráfico_4 resulta das respostas obtidas para a pergunta: "a pessoa
para quem você trabalha é a mesma que lhe paga o salário?" No emprego computado
pela RAIS, como vimos, estão todos os envolvidos na atividade de locação de mão
de obra, mas também nas de agenciamento e seleção de pessoal.
13. A Rais-Migra é um painel longitudinal, desenvolvido a partir do banco de
registros administrativos da RAIS descrito em nota anterior. Utilizando-se do
número de identificação do trabalhador nos programas sociais (PIS ou NIS) é
possível acompanhar onde o mesmo se localiza no mercado formal de trabalho, em
31 de dezembro e, não estando empregado nessa data, recuperar as informações
acerca do seu mais importante contrato de trabalho no ano em apreço. O banco
permite, assim, localizá-lo, não importando o setor ou unidade da Federação em
que esteja (re)empregado. O identificador permite seguir seu percurso no tempo.
14. Mais detalhes sobre a metodologia de análise fatorial usada para
identificar os padrões de percurso descritos nesses achados podem ser obtidos
em Guimarães (2009a e 2009b).
15. Agradeço à Fundação SEADE e, em especial, a Vagner Bessa pelo acesso a
esses dados e pelo apoio no sentido de bem entender as potencialidades e
limites dos mesmos.
16. Conforme documentado em Guimarães (2009a) e Bicev (2010).
17. Agradeço a Álvaro Comin pela sugestão dessa fértil via interpretativa.
18. Agradeço a Machado da Silva por me instigar a ousar nas consequências dessa
interpretação, num texto que é certamente tributário das ideias que plantou nos
anos 1970 e que repercutirão ainda por muito tempo.