Contexto e competição na política paulista
INTRODUÇÃO
Este artigo analisa as transformações da política local e das bases eleitorais
dos partidos em São Paulo sob o cenário multipartidário do período pós-1985.
São dois os argumentos desenvolvidos. O primeiro funda-se no enfoque da
geografia eleitoral para identificar as bases locais e a movimentação eleitoral
dos partidos no estado, a partir dos resultados oficiais por município das
eleições locais e estaduais. Aqui, o objetivo é analisar sobretudo os possíveis
efeitos das mudanças estruturais observadas nesse período de aproximadamente
trinta anos, em específico nos municípios do interior, sobre a movimentação
eleitoral e a competição partidária.
Sabemos que o comportamento político e o voto respondem a uma dinâmica ampla e
combinada de fatores objetivos e subjetivos, e variam entre indivíduos
inseridos em diferentes processos de socialização, e consideramos que fatores
geográficos e estruturais estabelecem cenários que favorecem a constituição de
orientações políticas específicas, e associam-se, em alguma medida, a formas
locais de organização política. Assim, a análise vai em busca de algumas
explicações para as diferentes tendências de desenvolvimento eleitoral da
política paulista à luz da combinação entre fatores estruturais socioeconômicos
e o fator espacial, que sugere a importância da proximidade com polos de
difusão política na definição do voto.
Desde o trabalho de Simão (1956) sobre o voto operário na periferia paulistana,
passando pelos trabalhos sobre a dinâmica eleitoral durante o bipartidarismo e
o apoio dos maiores municípios do estado ao MDB** (Faria, 1975; Lamounier,
1980; Meneguello e Alves, 1986; Kerbauy, 2000), o processo de urbanização e seu
impacto sobre as práticas políticas definem uma clivagem fundamental para
entender os padrões de apoio eleitoral aos partidos em São Paulo ' assim como
no país em geral, como apontam Reis e Castro (1992) e Avelar e Walter (2008).
Segundo os vários autores, municípios maiores nos quais as práticas políticas
tradicionais perderam espaço para práticas modernas implicadas pelo processo de
urbanização apresentavam padrões diferenciados de votação, quando comparados
aos municípios menores e de população menos urbanizada.
No decorrer da transição democrática, as eleições de 1982 não alteraram o
quadro de preferências, marcado pela concentração do voto conservador nos
menores municípios paulistas, nos quais a presença da Arena/PDS era dominante,
assim como não alteraram a concentração do voto de oposição ao regime militar
via MDB/PMDB nos maiores municípios. A reforma de partidos em 1979 levou o voto
oposicionista a distribuir-se em outros canais além do PMDB, nos novos partidos
PT, PDT e PTB, mas o contexto político marcado pela clivagem entre o urbano e o
rural, entre municípios pouco e muito urbanizados, ainda marcaria o estado até
os primeiros anos do período democrático (Meneguello, 1989; Gonçalves, 1998).
É, contudo, a partir das eleições de 1986 que os padrões de votação dos
partidos em São Paulo passam a diferir das tendências encontradas nas eleições
anteriores. Desde o processo de "interiorização" do PMDB (Sadek, 1989), a
partir da vitória de Orestes Quércia na disputa para o governodoEstado, até o
forte declínio eleitoral do partido no período 1990-2010, significativas
transformações marcaram o sistema partidário paulista e suas bases eleitorais.
Essas transformações relacionam-se ao segundo argumento deste artigo, segundo o
qual o sistema paulista organizou-se, a partir de 1994, por meio de dois
vetores: a) o primeiro, a organização da política nacional, levando a que, já
no início da década de 2000, os polos políticos resultassem da partilha de
preferências entre PSDB e PT. Os dois partidos que lideram a política nacional
no período pós-1994 têm em São Paulo parte significativa de suas bases
eleitorais e organizativas, o que lhes dá condições para protagonizar também as
principais disputas estaduais ' especialmente após o enfraquecimento definitivo
do malufismo ' e exercer um efeito estruturador sobre a política, semelhante ao
que tem ocorrido nas eleições nacionais; b) o segundo vetor, a estruturação das
preferências pelos principais partidos organizados na década de 1980. Ainda que
a dinâmica paulista se estabeleça sob um notável quadro de competitividade, com
um amplo terreno político (um espaço para 6.270 vereadores, 645 prefeitos, 94
deputados estaduais e 70 deputados federais), e tenha possibilitado, já a
partir de 1985, um rearranjo de elites com o surgimento de um expressivo número
de médias e pequenas legendas que encontraram espaço para acomodação de
interesses (Braga e Kinzo, 2007), são poucas as agremiações que estruturam o
voto, e que constituem, ao longo do tempo, espaços de tendências e redutos
resistentes à alta fragmentação que o estado possibilita.
Esse aumento da competitividade também ajuda a compreender a aguda trajetória
declinante do PMDB, que teve suas expressivas bases locais herdadas do período
bipartidário redirecionadas a múltiplos competidores, tanto devido às
transformações das preferências, quanto à reacomodação das elites frente à
ampliação do quadro de ofertas. O partido que predominou sobre a política
paulista com as eleições de 1974, concentrou o voto oposicionista na pressão
eleitoral pela abertura política, elegeu por três vezes o governador estadual
(Franco Montoro em 1982, Orestes Quércia em 1986 e Luiz Antônio Fleury Filho em
1990) e a maioria dos senadores, deputados e prefeitos do Estado no período,
terminou por enfrentar um significativo declínio desde os primeiros anos da
década de 1990, que culminou nas eleições de 2010, quando o partido não lançou
candidato para o governo estadual e a sua principal liderança, Quércia, abriu
mão da candidatura ao Senado por motivos de doença que o levou à morte dois
meses após as eleições. Dessa forma, a caracterização das bases eleitorais do
PMDB nas décadas de 1990 e 2000, assim como a análise da ocupação dos seus
espaços pelas demais agremiações, são elementos centrais para a compreensão dos
vetores da competição político-partidária paulista.
O artigo está dividido em três partes. Na primeira seção apresentamos o cenário
partidário paulista entre 1986-2010, focalizando as características da
competição estabelecida no período e a reacomodação de elites. Em seguida, na
segunda seção, apresentamos os supostos da análise contextual e socioeconômica
que orienta esse estudo eleitoral e analisamos os dados sob duas abordagens, a
análise das votações segundo fatores socioeconômicos e segundo a sua
distribuição regional. Na análise da distribuição regional do voto damos
especial atenção ao PMDB, procurando mostrar aspectos de sua trajetória
declinante. Finalmente, apresentamos considerações sobre os dados.
O TERRENO POLÍTICO PAULISTA E A TRAJETÓRIA DO SISTEMA PARTIDÁRIO
Este artigo está limitado à análise das votações para os cargos de prefeito,
deputado estadual e governador entre 1990 e 2010. Acompanhamos a ideia de que
os sistemas eleitorais majoritário e proporcional produzem parâmetros distintos
de escolha para o eleitor (Lijphart, 1984; Dalton e Anderson, 2011). Assim,
entendemos que os elementos que implicam as escolhas para os cargos de prefeito
e governador, e para o cargo de deputado estadual no âmbito Legislativo, cobrem
um terreno variado de práticas políticas locais, imagens e vinculações
partidárias capazes de fornecer respostas às indagações sobre o curso das
preferências partidárias no estado1.
A caracterização do sistema partidário paulista e de sua dinâmica de
funcionamento desde o início da democratização está já feita em vários
trabalhos que afirmam que a implantação do multipartidarismo no país
estabeleceu-se sob o formato específico das políticas estaduais e deu certa
continuidade às distinções dos subsistemas presentes no período anterior ao
interregno do bipartidarismo (Lima Jr., 1993). No caso paulista, o sistema
seguiu o curso combinado, pluralista, polarizado e moderado,em um modelo em que
o amplo terreno político de múltiplas legendas se desenvolve com base no
equilíbrio de poucos partidos efetivos e blocos ideológicos delimitados (Lima
Jr, 1993; Figueiredo e Jorge, 1997; Braga e Kinzo, 2007; Ferreira, Batista e
Stabile, 2008).
Uma análise da dinâmica do sistema partidário paulista iniciado em 1986 aponta
dois principais períodos de organização da política: no primeiro, entre 1986 e
1994, três polos organizam a dinâmica do sistema, encabeçados pelo PMDB, pelo
malufismo acolhido no PDS/PPB/PPR/PP e pelo PT que, de forma crescente, liderou
as preferências à esquerda do bloco oposicionista ao governo estadual. A partir
de 1994, as transformações observadas no nível nacional refletiram no cenário
estadual, aprofundaram as bases de consolidação do peessedebismo, mas
adquiriram uma coloração própria com a partilha política entre PSDB e PT.
Assim, os dados mostram claramente a substituição da preferência peemedebista
pelo voto no PSDB e no PT a partir de 1998, com ênfase para a eleição
majoritária para o governo do estado. Para o PDS, o declínio já era observado
desde o início da democratização, seja pela divisão de espaço com o PFL no
nível local, seja pela força de competição dos demais partidos (Gráficos_1 e
3).

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[/img/revistas/dados/v55n1/a04grf03.jpg]
No nível local, os dados mostram que, apesar da queda do domínio peemedebista
nas prefeituras do interior já desde 1992, em detrimento do avanço do PSDB, o
PMDB mantém-se como segunda força estadual até a eleição de 2004, concorrendo
claramente com o avanço do PFL/DEM, e apenas em 2008 cai para a terceira
posição (Gráfico_2).
O aumento da competitividade eleitoral é um ponto a destacar. Os dados mostram
que, a partir de 1990, o quadro paulista passou a traduzir as mudanças do
sistema nacional na mesma direção que a maioria dos estados: a concentração de
forças nas eleições majoritárias e a fragmentação partidária nas eleições
proporcionais (Braga e Kinzo, 2007) ' no segundo ponto com uma intensidade
muito maior em São Paulo. O aumento em dobro do número de partidos
parlamentares, de 7 em 1986, para 15 em 2010, e os altos índices de
volatilidade eleitoral em todos os anos desde 1994, muito acima dos indicadores
nacionais para a Câmara de Deputados (Meneguello, 2011), ilustram a
especificidade do quadro paulista a que chamamos atenção (Tabela_1).
[/img/revistas/dados/v55n1/a04tab01.jpg]
Para as eleições majoritárias para o governo estadual, o duelo PSDB/PT, que
passou a organizar a política nacional desde 1994, só teve sua tradução local a
partir de 2002, quando, inclusive, os dois grupos passaram a concentrar mais de
dois terços das votações no primeiro turno eleitoral, em cenários de
candidaturas numerosas, 15 em 2002 e 16 em 2006, bem acima dos quadros de
candidaturas nacionais nesses pleitos (6 candidaturas, em 2002 e em 2006, ver
Meneguello, 2011:455) (Tabela_2).
Com relação à organização do quadro partidário, uma análise sobre a
reacomodação das elites (candidatos) nos seis principais partidos (PMDB, PDS,
PT, PDT, PTB, PFL) no período entre 1988 e 1996, ajuda a compreender o
fragmentado terreno político local e sua capacidade de organização diante do
volumoso número de partidos estabelecido no estado. Nesse período, do total de
candidatos lançados por esses partidos nas eleições de 1986 e 1988 e que se
recandidataram entre 1990 e 1996, apenas 51,9% se mantiveram na mesma legenda.
PT e PMDB são os partidos que relançaram o maior número de candidaturas, 74,8%
para o primeiro e 61,1% para o segundo. O maior êxodo de candidatos ocorreu no
PDT, que manteve apenas 31,1% de candidatos entre as eleições. Os dados mostram
um intenso movimento de candidatos das principais siglas para as 25 novas
legendas, inclusive entre polos ideológicos, embora nesse caso com menor
intensidade. PMDB e PSDB foram os partidos que mais absorveram candidatos de
outras legendas nesse período de reacomodação, mas com destaque especial para o
PSDB, que constituiu boa parte do conjunto de candidaturas lançadas em 1996,
quando cresceu consideravelmente de 7,8% para 34,5% das prefeituras, a partir
da migração de candidatos vindos de todos os principais partidos (Tabela_3).
Esses dados de migração de candidaturas partidárias, embora limitados ao início
do período estudado, sugerem investigar o grau de consolidação de preferências
dos eleitores. Uma análise das associações entre as votações partidárias entre
eleições para governo, prefeituras e legislativo estadual resulta em um
panorama ' ainda que simples ' do grau de enraizamento partidário, visto a
partir do embasamento de preferências, um aspecto essencial para avaliarmos a
capacidade de fortalecimento das legendas e constituição do sistema político
estadual. Interessa-nos especificamente mostrar o potencial de formação de
bases eleitorais dos principais partidos PSDB, PMDB, PT, PDS/PP, PFL/DEM e PTB.
Os dados analisados são as porcentagens de votações partidárias por município
para cada eleição (Tabelas_4, 5 e 6).
[/img/revistas/dados/v55n1/a04tab04.jpg]
Os dados das Tabelas_4, 5 e 62 mostram que, para o PT, as correlações são
notáveis. Não é novidade afirmar o partido como legenda com bases partidárias
sólidas, mas os dados se destacam: até 2002, as correlações entre eleições
contíguas para o governo são bastante altas, como 0,92 entre 1990 e 1994, 0,83
entre 1994 e 1998, e 0,76 entre 1998 e 2002. Sobressaem ainda mais os dados de
manutenção de bases no tempo: a associação entre as votações para o governo em
1986 e 1998 é r = 0,76, um indicador bastante alto. A associação entre votações
também é significativa entre 2006 e 2010, quando o partido lançou o mesmo
candidato ao governo (Aloisio Mercadante). No âmbito das eleições para
prefeito, o partido mostra na primeira eleição do novo período democrático uma
forte associação com as votações que obteve em sua primeira eleição local no
estado em 1982 (0,64), mas declinam nas eleições seguintes. Apesar de mais
baixas, as associações estão em torno de r = 0,5, um valor bastante razoável
quando se trata de decisão eleitoral. É bom lembrar que, em todo o período, o
partido não consegue obter mais que 10% das prefeituras do estado, comprovando
as dificuldades para seu embasamento local. Ao contrário, quanto às votações
para a Assembleia Legislativa, a partir da eleição de 2002 a associação entre
eleições ganha valores significativos, acima de 0,5, e entre o par de eleição
entre 2006 e 2010, chega a r = 0,64.
O PDS (e as várias nomenclaturas que adquiriu ao longo do período) apresenta
correlações significativas em eleições para governo, tanto contíguas quanto
distantes no tempo, nas quais Paulo Maluf participou como candidato. Assim,
entre 1986 e 1990, as votações estão associadas com um coeficiente r = 0,58, um
valor que aumenta para r = 0,62 para o par de eleições de 1990 e 1998, e depois
atinge r = 0,6 para as eleições de 1998 e 2002. Esses são dados indicativos de
que as bases do partido se estabeleceram no espaço e no tempo sob o crivo da
liderança malufista. De toda forma, a fraqueza das associações reflete a perda
pelo partido do espaço político no estado. No nível local, por exemplo, há uma
queda de mais de 50% do número de prefeituras nos 20 anos analisados e, de
fato, a única associação significativa encontrada ocorre entre 2004 e 2008, com
r = 0,53. No âmbito legislativo, observa-se a mesma fraqueza das associações
das votações entre eleições.
No caso do PMDB, sua forte presença no estado desde 1986 (e antes, inclusive)
até 1994, quando perdeu o domínio político para o PSDB, não resultou em bases
mais consolidadas de preferências eleitorais. O conjunto de correlações médias
entre as votações partidárias que apresenta no período fica em torno de r =
0,5. As melhores correlações ocorrem entre eleições contíguas para o governo do
estado, notadamente entre 1986 e 1990, e entre 1998 e 2002 (para ambos os
pares, r = 0,5). Mas destaca-se a notável associação encontrada entre as
eleições nas quais Orestes Quércia participou como candidato ao governo, 1998 e
2006, em que a associação é muito significativa, r = 0,81, sugerindo, assim
como no caso do PDS de Maluf, a formação de bases mais estreitamente vinculadas
àquela liderança específica. Entre as eleições locais, a fraqueza dos
coeficientes de associação refletem a forte queda do partido no estado,
sobretudo a partir de 1996, quando perdeu mais da metade das prefeituras, e
entra em declínio até o final do período. A associação de maior relevância no
nível local ocorre entre 2004 e 2008, mas ainda assim um coeficiente baixo, r =
0,47. As associações para o voto no âmbito legislativo acompanham esse mesmo
declínio, traduzidas nos baixos valores de r.
Para o PSDB, as correlações encontradas são significativas apenas para as
votações ao governo do estado. A partir de 1998, os pares de eleições contíguas
mostram associações importantes, 0,54 entre 1998 e 2002, 0,51 entre 2002 e
2006, e 0,80 entre 2006 e 2010, quando então o partido definitivamente
consolidou o processo de hegemonia eleitoral no estado. No nível local, ao
contrário, os coeficientes não atingem o valor 0,4, refletindo o processo
predominantemente desconcentrado pelo qual suas bases se estabeleceram; é
importante lembrar que desde 1996 o partido detém um terço das prefeituras do
estado. No âmbito legislativo,as mesmas baixas correlações se repetem na maior
parte do período, apenas alterando entre 2006 e 2010, quando as votações se
associam em 0,48.
Finalmente, para o PFL/DEM e para o PTB, os cenários encontrados são muito
semelhantes. Os dois partidos não estabeleceram bases capazes de sustentar
candidaturas ao governo do estado no período ' apenas o PTB lançou candidato em
1986 e, depois, em 2002. A"vocação local" das duas legendas se traduzem algumas
associações no período: para o PTB, entre 1992 e 1996, com r = 0,60, e entre
1996 e 2000, com r = 0,45; para o DEM, entre 2000 e 2004, e entre 2004 e 2008,
ambos com r = 0,55. No âmbito legislativo, as associações também são frágeis, e
apenas no final do período o DEM apresenta correlação mais importante, com r =
0,51 entre 2006 e 2010.
Os dados indicam que, apesar do volumoso quadro partidário, as estruturas dos
principais partidos foram capazes de estabelecer algum grau de enraizamento de
preferências, sobretudo observado em eleições majoritárias. Não é coincidência,
portanto, que mesmo com a fragmentação do sistema partidário a partir de 1988,
os principais partidos do estado no período sejam ainda aqueles fundados no
início do processo de democratização. No nível das votações para o legislativo,
o quadro é distinto, mas convém lembrar os dados apresentados anteriormente na
Tabela_1 para eleições legislativas, apontando que as condições para a
constituição de preferências são realmente adversas, dadas a forte fragmentação
partidária, a magnitude elevada do distrito e a dispersão das preferências do
eleitor entre pleitos, traduzidas nos altos índices de volatilidade. Apesar
dessa clara dispersão, quando analisadas segundo sua distribuição espacial,
será possível identificar alguns redutos específicos das votações para o
legislativo para os partidos (item A Trajetória das Votações: Distribuição
Regional deste artigo).
MUDANÇAS ESTRUTURAIS E GEOGRAFIA ELEITORAL
Breve Cenário e Pressupostos
Os últimos trinta anos são marcados por fortes transformações sociodemográficas
no estado, dentre as quais o crescimento das cidades e o processo de
urbanização tiveram uma dinâmica notável. A população das maiores cidades de
São Paulo (com mais de 100 mil habitantes) aumentou de maneira muito mais
significativa que a população residente nos demais municípios. A isso soma-se o
fato de que, entre 1980 e 2010, as cidades que possuíam a maioria de suas
populações vivendo em áreas rurais (considerados os municípios com até 50% da
população urbana) diminuem de 34,1% para 4,2% do total de municípios no estado.
Além disso, alguns indicadores básicos apontam para uma trajetória de
transformações importantes no modelo de desenvolvimento do estado, iniciada na
década de 1990, em que o perfil agrícola de quase metade da população
economicamente ativa decresceu até atingir menos de 19% em 2010; a população
economicamente ativa (PEA) industrial teve apenas um crescimento moderado e
passou a representar menos de 25%, e a PEA de serviços, abrangendo mais da
metade da PEA estadual (57,7%), passou a marcar o perfil econômico predominante
estadual no fim do período (Tabela_7). Também é significativo o aumento da
população escolarizada, fazendo a taxa de analfabetismo no estado cair de 10%
para 5% em 30 anos (Gráfico_4). Em 2010, o estado chega a uma população de mais
de 41 milhões de habitantes e um eleitorado de mais de 30 milhões de cidadãos,
o maior do país.
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Nesta segunda parte do artigo os dados estão apresentados e analisados segundo
sua distribuição no estado, agregados por região administrativa (Mapa_1). As 15
regiões administrativas agregam os 645 municípios, e sua caracterização segundo
suas vocações econômicas e demográficas dá base a um de nossos argumentos
centrais nesse artigo, qual seja, que apolítica paulista responde em boa medida
aos efeitos do contexto socioeconômico e da variável regional, em que as
relações entre centro e periferia exercem papel importante na formação de
preferências. Apresentamos nosso argumento com mais detalhes a seguir.
[/img/revistas/dados/v55n1/a04map01.jpg]
Uma descrição geral da evolução populacional, da taxa de analfabetismo e das
taxas de ocupação da PEA nos três setores básicos, indústria, agricultura e
serviços4 mostra alguns destaques.
As regiões de Barretos e Marília chegam ao final da década de 2000 como as de
maior ocupação de mão de obra agrícola; Campinas e São Paulo, as de maior
ocupação industrial, assim como as de maior concentração populacional, somando
63% do estado; Santos e São Paulo, como as regiões de maior ocupação em
serviços. As regiões com menor taxa de urbanização ao final do período são
Registro e Sorocaba, sendo Registro a região menos populosa, com apenas 0,65%
da população do estado em 2010. Com relação à população escolarizada, em
algumas regiões as transformações são importantes. Registro e Presidente
Prudente apresentam as maiores taxas de analfabetismo no início da década de
1990, respectivamente 19,8% e 19,6%, que decrescem em 2000 para 12,6% e 14%.
Santos e São Paulo são as regiões com as maiores taxas de população
escolarizada e mostram em 2000 taxas de analfabetismo de 7 e 8% respectivamente
(Tabela_7).
Quanto à distribuição da população, não houve alterações importantes ao longo
do período, sendo que as duas transformações mais significativas ocorreram com
a diminuição da participação da região de São Paulo, que em 2010 deixou de
acolher mais da metade da população estadual, e o aumento da população da
região de Campinas, que ao final do período contribui com 15% da população
total (Tabela_8).
[/img/revistas/dados/v55n1/a04tab08.jpg]
Um dos objetivos deste artigo está em identificar em que medida a política
paulista respondeu nesse período aos efeitos de determinantes contextuais que
caracterizam seu território político. O ponto de partida da indagação está em
Lipset e Rokkan (1967), assim como a proposição de que preferências políticas
refletem as distinções sociais. Mesmo cientes do estágio avançado que esse
debate adquiriu nas últimas décadas (Evans, 1999; Karvonen e Kuhnle, 2005;
Best, 2011), do espaço ocupado pela discussão pós-materialista (Inglehart,
1997) e das interpretações feitas à "freezing hypothesis" (Mair, 2005),
assumimos o que Lipset sugere quanto ao fato de que as divisões sociais se
estabelecem traduzindo processos dinâmicos sociais, econômicos e políticos, e
de que as fontes das clivagens identificadas na primeira metade do século XX,
produzidas pela dinâmica do mundo urbano e industrial e das relações entre
centro e periferia, têm, em alguma medida, continuidade na sociedade
contemporânea pós-industrial (Lipset, 2001). Nessa direção, este artigo
investigaem que medida a trajetória das preferências político-partidárias
paulistas estiveram associadas ao padrão agregado de desenvolvimento do estado,
entendido a partir especificamente do perfil da população ocupada nos setores
básicos da economia, a taxa de escolaridade e o tamanho dos municípios.
Além desses supostos, o enfoque realizado segue o caminho dos estudos da
geografia eleitoral. A literatura internacional sobre geografia eleitoral
sustenta o efeito de contextos sobre a formação de preferências políticas,
apontando que indivíduos decidem eleitoralmente sob influência do meio em que
sua vida cotidiana está engajada (Taylor e Johnston, 1979; Agnew, 1996;
Johnston e Pattie, 2006). Apesar das transformações socioeconômicas,
estruturais e culturais da sociedade contemporânea, sustenta-se que a variável
regional ainda exerce um papel importante na explicação dos padrões de votação,
e que implica, ademais, em efeitos de vizinhança, ou de propagação política,
que traduziriam a articulação de fatores estruturais e de socialização em
contextos geograficamente próximos.
No caso brasileiro, Lima Jr. (1993) já havia partido dessas mesmas indagações
com o objetivo de investigar, em nível nacional, em que medida o desenho do
sistema partidário altamente fragmentado resultaria de certo determinismo
social. O autor não encontrou vinculação significativa entre os fenômenos, mas
seus dados apontaram que a complexidade da vida social dos grandes centros
estava em alguma medida relacionada à fragmentação eleitoral.
No caso paulista, Faria (1975) deu o ponto de partida para investigar no estado
de São Paulo o impacto de processos socioeconômicos contextualmente
estabelecidos sobre as transformações políticas. O estudo dos resultados da
eleição de 1974 e do notável desempenho do partido de oposição, segundo
indicadores socioeconômicos, mostrou que o MDB beneficiou-se dos contextos de
microrregiões do estado em que o processo de desenvolvimento agregado deu-se de
forma acentuada.
Em um breve estudo estatístico sobre a caracterização das bases sociais do PT,
PDS, PMDB e PTB no estado nas eleições de 1982 e 1986, Gonçalves (1998)
mostrou, fazendo uso de análise multivariada, a associação das votações
partidárias para o governo estadual a contextos específicos, localizando
terrenos de preferências conservadoras e progressistas, bem como a
transformação da distribuição dos votos entre uma eleição e outra. Assim, em
1982, verificou-se o forte predomínio da votação do PDS em áreas rurais, a
força do PMDB em municípios altamente urbanizados e com índices de escolaridade
altos, enquanto as votações do PT e PTB localizavam-se em municípios altamente
industrializados. Em 1986, ocorreu o "espalhamento" do PMDB para o interior do
estado, alcançando inclusive municípios e regiões antes associadas ao voto
conservador do PDS. PT e PTB, por sua vez, aprofundaram sua presença nos
municípios de perfil industrial. Seguindo esse caminho, analisamos a trajetória
das votações a partir de 1986 para esses principais partidos, e encontramos
dados que permitem sugerir a manutenção ao longo do tempo, mas com variações,
da associação entre as votações partidárias e contextos específicos do estado.
É o que mostramos a seguir.
A Trajetória das Votações: Fatores Socioeconômicos
A análise das associações r de Pearson entre as variáveis estruturais
socioeconômicas e as porcentagens de votação para cargos e partidos,
selecionados os de maior votação no período, apontam que, com o decorrer do
período, mais notadamente a partir da eleição de 2006 para governador, as
associações entre votações partidárias e variáveis socioeconômicas perdem
força, sem desaparecer, traduzindo o espalhamento das preferências políticas no
estado, antes mais claramente associadas a indicadores socioeconômicos
específicos. Os dados para as votações ao governo sustentam nosso argumento
(Tabela_9).
[/img/revistas/dados/v55n1/a04tab09.jpg]
Inicialmente, destaca-se a notável manutenção da associação das votações do PT
desde a eleição de 1990 até 2002, com municípios de perfil industrial. Essa
associação, presente de forma significativa desde a primeira eleição do partido
no estado em 1982, mantém valores por volta de r = 0,44 até 1998, e perde força
nas eleições seguintes, sugerindo a presença de outras variáveis de natureza
distinta na formação das preferências. Em 2010, a associação que
tradicionalmente marca parte do perfil do voto petistas einverte, e o voto para
o candidato do governo mostra-se inversamente associado aos contextos
industriais (r = -0,13), sem que se defina uma associação substantiva com
contextos de perfil oposto. Essa também foi a trajetória da associação do voto
petista para o governo do Estado com municípios segundo a taxa de
analfabetismo: a associação inversa, que marca as preferências entre 1990 e
2002 (o aumento da votação segue com a diminuição da taxa), perde força em 2006
e, em 2010, se inverte. As semelhanças com as associações entre variáveis
socioeconômicas e o PSDB, que eram observadas em 1990 entre os dois partidos,
voltam a ocorrer em 2010, sendo que, em toda a trajetória entre uma eleição e
outra, os perfis opostos ficam claramente estabelecidos. Esses dados do final
do período sugerem os efeitos da partilha eleitoral entre PT e PSDB mencionada
anteriormente. Quanto ao PMDB, o perfil do voto tem características constantes
em todo o período até 2006: está associado a contextos menores, em que
predomina o perfil agrícola. Na eleição para governo de 2006, a última em que o
partido lançou candidato ao governo, destaca-se que as associações entre
votações e fatores socioeconômicos são muito frágeis para todos os partidos.
Na eleição seguinte, em 2010, as associações mantêm-se fracas, mas os dados
relativos à votação do PP (com Celso Russomano como candidato) sugerem sua
inserção específica no voto conservador em grandes centros, de perfil
industrial. Convém lembrar que Russomano, exapresentador de telenoticiários
sensacionalistas, é um candidato associado a plataformas sobretudo relacionadas
à segurança pública das grandes cidades. Quanto aos outros dois concorrentes,
PT e PSDB, suas votações são mais claramente espalhadas no estado, sendo que,
no caso do PT, em contextos de perfil mais distante daquele que marcou a sua
trajetória inicial de preferências.
No caso do voto conservador especificamente, o perfil bastante definido das
bases do PDS associadas em 1982 e 1986 a contextos de menor população e perfil
agrícola praticamente se dissipa em 1990, e mesmo a participação de Maluf nas
eleições de 1998 e 2002 não recupera a força daquelas correlações, apenas
sugere a direção esperada.
No nível municipal, esses perfis de bases partidárias se repetem parcialmente.
As associações encontradas são mais fracas, e é possível identificar condições
semelhantes para as votações petista e peessedebista, ao nível local, apenas em
duas eleições, 1988 e 2004. Para o PMDB e os partidos àdireita ' PDS,PP, PFL/
DEM ' há certa constância no perfil dos contextos associados ao voto,
caracterizado pela associação inversa com o tamanho dos municípios e com
municípios mais industrializados, e associação com cenários com maior taxa de
analfabetismo. De toda forma, a fraqueza das associações no âmbito de eleições
locais permite afirmar pouco sobre tais preferências (Tabela_10).
[/img/revistas/dados/v55n1/a04tab10.jpg]
As associações encontradas entre as variáveis socioeconômicas e as votações
para o legislativo estadual não são significativas em sua grande maioria para
todo o período e para os vários partidos. Apenas alguns dados podem ser
salientados: novamente o voto petista se destaca, pois, apesar dos baixos
valores de r em geral, mostra-se de forma significativa associado a municípios
com menor taxa de analfabetismo (em 1990) e de perfil industrial (1994, 1998 e
2002), confirmando a ideia de que esses contextos no estado propiciam a
formação de preferências pelo partido até 2002. A partir de 2006 e 2010 os
valores encontrados para essa associação são muito baixos, indicando a
dispersão das votações. No caso do PMDB, até 2006 a associação com municípios
de perfil agrícola acompanha as votações para deputados do partido. Finalmente,
no caso do PSDB, os dados (igualmente fracos) indicam certa associação com os
municípios de perfil industrial nas eleições de 1990, 1994, 2002 e 2006. De
toda forma, a descrição dos dados (Tabela_11) não permite qualquer
aprofundamento sobre o voto para o legislativo e as variáveis selecionadas.
[/img/revistas/dados/v55n1/a04tab11.jpg]
Os dados de votações por região administrativa necessitam maior detalhamento.
Com a exceção dos votos para o PT, que para os três cargos analisados mostram
associações significativas e praticamente constantes com contextos de perfil
mais industrial e de maior população, há variações importantes que acompanham
as características regionais e as formas de estabelecimento das bases
partidárias. Assim, é possível encontrar associações entre o voto de partidos
conservadores e municípios maiores e com perfil industrial em regiões
específicas, provavelmente respondendo à presença de lideranças mais
consolidadas. Esses dados, observados ao nível agregado do estado, se perdem,
mas analisados regionalmente podem nos dar pistas sobre o movimento das
preferências em contextos mais específicos. É o que faz a seção seguinte.
A Trajetória das Votações: Distribuição Regional
A análise da distribuição dos votos dos principais partidos nas 15 regiões
administrativas do estado corrobora nosso argumento quanto à validade da
clivagem regional para compreender a consolidação de preferências partidárias e
posicionamentos específicos, no caso aqui, o oposicionismo e o governismo. O
desenho dessa polarização geograficamente estabelecida já havia sido apontado
por Sadek (1989) na análise da eleição de 1986, quando a tendência
oposicionista de novo período marcava suas bases nos grandes centros urbanos,
notadamente a região da grande São Paulo, onde o PMDB ' então governo ' obteve
resultados eleitorais reduzidos, comparativamente às regiões do interior.
Ao longo do período 1986-2010, a tendência oposicionista ao governo estadual
manteve sua trajetória associada aos maiores centros urbanos, especialmente a
capital paulista; por exemplo, as regiões de São Paulo e Santos acolhem um
desempenho notável do partido de oposição ao governo a cada eleição, sobretudo
do PT. Por outro lado, as regiões de Marília, Presidente Prudente e Bauru,
geograficamente distantes da capital e da grande São Paulo, acolhem bons
desempenhos eleitorais do PSDB em todo o período que o partido ocupa o governo
(Mapa_1). Os dados indicam que, até 2002, a "hegemonia peessedebista" não
esteve distribuída homogeneamente, e mostram que em 2010 constituiu-se
claramente a partilha política do estado com o PT em todas as regiões, sendo
que, apenas na região da capital paulista (RA São Paulo), o partido obteve
melhor desempenho que o PSDB para o governo.
No âmbito local, a análise dos dados deve levar em conta a forte fragmentação.
Em todo o período, no mínimo 25 partidos obtiveram votações no estado, mas mais
da metade obteve votos em no máximo 20 municípios, ou seja, 3% do total5. Ainda
assim, é possível identificar alguns redutos de preferências por partidos
específicos, ou seja, regiões em que o partido obteve, ao longo do tempo e a
cada eleição, votações superiores à sua média estadual. O mesmo contexto
fragmentado repete-se na distribuição regional das votações para o legislativo
estadual, no qual, ao longo do período, todos os partidos lançaram candidatos e
pulverizaram as preferências.
Nosso interesse nessa seção é apresentar a evolução do desempenho eleitoral
regional dos principais partidos, e identificar territórios de preferências
mais sólidas, mantidas ao longo do período, diante do fragmentado quadro
político paulista. A análise dos dados desenvolve-se com base em três aspectos:
o desempenho eleitoral por região e por eleição, que leva em conta as votações
partidárias acima da média estadual e ao longo do tempo; a caracterização
socioeconômica das regiões administrativas; e a relação centro-periferia, com
base na localização das regiões a partir da região da capital paulista. Os
dados de cada partido analisado contemplam as votações para primeiro turno das
eleições para governo e prefeituras e votações partidárias nas eleições para o
legislativo estadual, agregadas por região. Como indicador para definição dos
redutos eleitorais, definimos votações partidárias com no mínimo um ponto
percentual acima da média estadual, observadas em no mínimo três pleitos
seguidos. Consideramos que apresentar tais dados em tabelas (Tabelas_12, 13,
14, 15, 16, 17 e 18) é a melhor estratégia.
O Partido dos Trabalhadores
A distribuição regional do desempenho eleitoral do PT traz informações
importantes. A RA de Santos e a RA de São Paulo são os principais redutos do
partido ' inclusive bases de sua formação (Meneguello, 1989) ' e apresentam em
praticamente todas as eleições para todos os cargos (governador, prefeito e
deputado estadual) algumas das melhores médias do PT no estado. Em grande
medida, esse fenômeno se associa ao mencionado fenômeno das bases do
oposicionismo nessas regiões ' o partido se consolida ao longo do período como
principal candidatura de oposição ao governo do estado ' e à persistente, ainda
que declinante, associação do voto petista aos contextos mais populosos e com
maior atividade industrial. Também com esse perfil e para o voto para o
governo, destaca-se ainda a região de Campinas até 2002. Com um perfil
socioeconômico mais distinto, de vocação menos industrial, mas geograficamente
localizada próxima à capital, destaca-se a região Central, onde encontram-se as
cidades de Araraquara e São Carlos. Para o voto para prefeito, soma-se ainda a
região de Franca, que adquire maior perfil industrial a partir de 2000, embora
seja distante da capital paulista, no norte do estado (Mapa_1). Corroborando as
tendências já observadas, as regiões predominantemente agrícolas, compostas por
municípios menores e distantes da RA de São Paulo, como Bauru e Marília,
mostram resultados eleitorais sempre abaixo da média estadual.
O Partido da Social Democracia Brasileira
A trajetória eleitoral ascendente do partido tem seu marco inicial nas eleições
para o governo de 1994. Nessas eleições, o PSDB obteve médias
significativamente maiores que as obtidas entre 1988-1992 em todas as regiões
administrativas, dando início a um processo de fortalecimento que se
intensifica em 1996 e que atinge seu ponto máximo em 2006. Nessa trajetória, o
partido passa da condição inicial de força eleitoral periférica, subdividida do
PMDB estadual, para a condição de partido mais votado do estado, obtendo médias
superiores a 25% dos votosdos municípios em praticamente todas as eleições do
período 1996-2010. Os principais terrenos peessedebistas são as regiões de São
José dos Campos, Sorocaba, Bauru e Marília, que mostram preferências acima da
média estadual tanto para as votações para o governo quanto para a prefeitura.
No caso de São José dos Campos, mostra também preferências constantes no tempo
para o legislativo estadual. No âmbito das eleições legislativas, emergem como
redutos a partir de 2002 as regiões de Bauru, Registro e Franca. No âmbito
local, destacam-se ainda as regiões de Ribeirão Preto, Araçatuba e Presidente
Prudente.
Cabe destacar que todas as regiões em destaque pelo bom desempenho continuado
acompanham o padrão de localização do "governismo" mencionado anteriormente,
distantes da capital paulista, com perfil comparativamente menos urbanizado e
de vocação menos industrial. Nas regiões de São Paulo e Santos, o fenômeno já
mencionado do oposicionismo consolidado fez com que, exceto nas eleições de
1994 em Santos 'quando o candidato ao governo do PSDB foi Mário Covas,
liderança com ligações históricas com a região, e em 2004, quando o candidato
aprefeito em São Paulo foi José Serra ' o partido tenha obtido ali alguns de
seus piores resultados médios no período.
O Partido Democrático Social/Partido Progresssista
Os dados mostram que a importância que o PDS teve na divisão da política
estadual com o PMDB no início da transição democrática, com a eleição de 1982,
dissipou-se no decorrer do período pós-85. Nas eleições para o governo em que
Paulo Maluf, sua principal liderança, figurou como candidato (1986, 1990, 1998
e 2002), o partido teve até 1998 desempenho considerável em todas regiões no
1ºturno eleitoral, mas especialmente nas regiões de Registro, Santos, São José
dos Campos, Sorocaba, Presidente Prudente e Araçatuba, que mantêm no tempo boas
votações; no entanto, podem ser considerados redutos apenas as regiões de
Presidente Prudente e Santos. As mudanças de nomenclatura para a legenda não
afetaram seu desempenho ' ao contrário, foram mecanismos utilizados para
garantir a sobrevivência partidária (Almeida, 2004) ', mas, de fato, sua força
declina a partir de 2002, em função da ascensão do PSDB, da partilha política
com o PT e do declínio eleitoral de Paulo Maluf.
No nível local, já desde o inicio do periodo democrático o declínio da legenda
pode ser observado, e apenas as regiões de São José do Rio Preto, Ribeirão
Preto e Barretos podem ser consideradas redutos do partido. Quanto às votações
para deputado estadual, será na eleição de 1998 que o partido reencontrará
espaço no terreno fragmentado, definindo redutos nas RAs de São José do Rio
Preto e Araçatuba, até 2006, e em Presidente Prudente, apenas até 1998.
O Partido Trabalhista Brasileiro
Assim como para o PDS/PP, a distribuição regional mostra bases de preferências
consolidadas no tempo apenas em algumas regiões. As variações do voto entre as
eleições são intensas, de forma que bons resultados regionais obtidos pelo
partido em um determinado período não se consolidam na direção de constituir
uma tendência estável. As candidaturas para o governo ocorreram em apenas duas
eleições muito distantes, 1986 e 2002, levando o partido a figurar em algumas
coligações, ou nem isso (ver Tabela_2). No âmbito local, três regiões sustentam
preferências pelo partido desde 2000, Registro, Ribeirão Preto e Presidente
Prudente, todas com perfil predominante agrícola e distantes da capital
paulista (Mapa_1). No início do período estudado, Barretos e São Paulo eram
regiões com desempenho importante, mas que se perdem no tempo. No voto para
deputado estadual, apesar dos relativamente altos resultados na RA de Araçatuba
desde 1998, nenhuma região configura um reduto mais consolidado. Como já
mencionamos, o partido nunca teve bases fortemente constituídas no estado,
mesmo no período em que a sigla vigia entre 1945 e 1964. Além da vitória de
Jânio Quadros para a prefeitura da capital, em 1985, as únicas eleições em que
o partido lançou candidato ao governo foi em 1986, com o empresário Antônio
Ermírio de Moraes, quando obteve quase 24% dos votos, e mais tarde, em 2002,
com Antônio Cabrera, ex-ministro da Agricultura do governo Collor, com bases na
região de São José do Rio Preto. Os ínfimos 1,02% de votos obtidos no estado
naquela eleição traduzem a fragilidade das bases do partido.
O Partido da Frente Liberal/ Democratas
O principal reduto do PFL no período é a RA de Registro, a mais pobre do
estado, localizada ao sul (Mapa_1). Ainda que o partido não tenha lançado
nenhum candidato ao governo do Estado, essa região mantém preferências
principalmente nas eleições para a prefeitura, acompanhada parcialmente por
bons resultados nas eleições para seus candidatos à Assembleia Legislativa. As
principais votações estão sistematicamente localizadas no interior menos
urbanizado e menos industrializado do Estado. No nível local, as regiões são
São José do Rio Preto e Araçatuba a partir de 1996, e Presidente Prudente e
Marília, já desde o início do período. No voto para o legislativo, apenas na
região de Sorocaba o partido obtém boas votações consecutivas.
O Partido do Movimento Democrático Brasileiro
O PMDB merece uma análise mais detalhada, afinal, estruturou no estado o voto
de oposição ao regime militar como MDB, adquiriu hegemonia eleitoral desde o
início do período democrático por meio do forte espalhamento de suas
preferências, e com a ampliação do quadro partidário entrou em uma aguda
trajetória de queda nas eleições majoritárias e proporcionais.
O realinhamento eleitoral produzido a partir de 1974, marcado pelo
fortalecimento da oposição ao regime militar, teve em São Paulo um de seus
principais vetores, criando as condições para que o PMDB predominasse sobre a
política paulista durante toda a década de 1980 (Lamounier, 1980). No período
inicial da redemocratização, o partido elegeu todos os governadores e senadores
do Estado, além das maiores bancadas na Assembleia Legislativa e na Câmara dos
Deputados. O auge desse predomínio foram as eleições de 1986 quando,
impulsionado pelo sucesso do Plano Cruzado e pela retomada da democracia, o
PMDB obteve vitória eleitoral em todo o país (Sadek, 1989; Melhem, 1998).
Contudo, a partir de 1990, o desempenho eleitoral do partido iniciou um agudo
declínio: no âmbito legislativo, de 28 deputados federais e 27 deputados
estaduais eleitos em 1986, o partido chega em 2010 com apenas 1 deputado
federal e 4 deputados estaduais eleitos, e conforme o Gráfico_2 mostrou
anteriormente, de 45% de prefeitos eleitos em 1992, o partido caiu em 2008 para
apenas 11%.
Além do declínio, os dados sobre a votação do partido no período também apontam
a crescente concentração da votação nos menores municípios do interior
paulista. O fenômeno da "interiorização" do partido já observado desde 1986 por
Sadek (1989) consistia no seu enfraquecimento nos maiores municípios e no
aumento da participação do volumoso conjunto dos menores municípios na
composição do total de votos obtidos, um movimento associado ao governismo
incorporado pelo partido em 1986 e 1990. Tal tendência eleitoral contrariava os
padrões de votação oposicionista da década de 1970 encontrados por Lamounier
(1980), nos quais se destacava a grande vinculação entre o eleitorado de
periferia nas grandes cidades com o MDB. A Tabela_17 mostra a presença dessa
relação invertida para os três cargos, sobretudo até 1998. Na década de 2000, o
declínio generalizado levou a que a distribuição das votações fosse semelhante
nos três conjuntos distintos de municípios, mas apenas naqueles com menos de 20
mil habitantes o partido obteve médias regionais de votação acima da média
estadual nas eleições para governador e prefeito.
A distribuição das votações por regiões mostra uma aguda queda das preferências
eleitorais em todo o estado, mas mostra também a notável manutenção de três
redutos, as regiões de Barretos, São José do Rio Preto e Franca, que obtiveram
votações consecutivas acima da média estadual em todo o período em quase todas
as eleições para os três cargos analisados, governador, prefeito e deputado
estadual. Apenas no nível local, somam-se ainda as regiões de Marília e Bauru.
A concentração das melhores médias de votação do partido ocorre nas regiões
mais distantes da capital, que consolidaram suas bases durante o processo de
interiorização do voto governista dos anos 1980 e início dos anos 1990 (ver
Mapa_1). É notável que o partido não tenha tido desempenho relevante na região
de São Paulo, em nenhuma eleição para os três cargos analisados.
Finalmente, cabe apontar que, assim como o DEM, o PMDB se tornou ao longo do
período um partido de "vocação local", um fenômeno caracterizado pela maior
resistência das médias de votos para prefeito frente à tendência geral de
declínio notadamente observada nas votações para os candidatos a governador, e
que culminou com o não lançamento de candidatura ao governo nas eleições de
2010. Em grande medida, essa vocação local está relacionada ao "quercismo",
fenômeno político de bases especialmente municipais desenvolvido no interior do
estado (Melhem, 1998).
No voto para o legislativo, fica reiterada a importância das regiões de Franca
e Barretos, e adicionam-se a região Central e, a partir de 2002, Ribeirão
Preto. A região de Bauru, que tem um desempenho significativo nas eleições para
prefeito em todo o período, para o legislativo estadual teve um declínio
importante desde a eleição de 2002.
Dentre as várias interpretações do declínio do voto peemedebista no estado, a
fundação do PSDB tem papel óbvio no conjunto de explicações. A constituição de
uma nova legenda localizada praticamente no mesmo espaço ideológico a partir da
migração de antigas lideranças do partido e a perda do controle da máquina
estadual a partir de 1994 foram decisivos para a perda da capacidade eleitoral
do PMDB, diante de um quadro altamente competitivo.
ALGUMAS CONCLUSÕES
Um de nossos objetivos neste texto foi resgatar o enfoque contextual para
entender a trajetória das votações no estado de São Paulo no período
democrático recente. Por um lado, fomos estimulados pela ideia de que os
parâmetros da racionalidade, que têm vigorado nas explicações do comportamento
eleitoral, marginalizaram de forma significativa e indevida as abordagens que
reconhecem o impacto dos diferentes níveis da realidade social sobre o
comportamento político. Por outro lado, quisemos reagir ao senso geral quando
afirma que os avanços da sociedade contemporânea, os efeitos das transformações
culturais e o impacto dos múltiplos agentes de comunicação e socialização,
enfim, as mudanças da política, superam a hipótese dos determinantes
contextuais.
Nossos dados sugerem que a política paulista se estabelece em territórios
específicos. A manutenção dos espaços onde o oposicionismo e o governismo
fundaram suas bases desde o início do período analisado é um ponto de destaque.
Adistribuição das preferências segundo as regiões administrativas mostrou que a
dinâmica centro-periferia atua no estado,e coloca o voto dado aos partidos no
governo eaos partidos conservadores nas regiões mais distantes da região da
capital paulista, com características socioeconômicas e demográficas afins. Na
região de São Paulo, onde está a capital, e em Santos, região litorânea, ambas
altamente urbanizadas, tem presença maior o voto de oposição ao governo e,
notadamente, o voto petista.
Além disso, identificamos contextos de votação à esquerda e à direita do
espectro partidário no estado, corroborando a ideia de que, nos agregados
urbanos e suas distinções internas, é possível identificar características
socioeconômicas que beneficiam a presença de tendências específicas. Nesse
aspecto, encontramos que contextos caracterizados por municípios menos
populosos, com maior taxa de analfabetismo e uma ocupação da PEA associada
predominantemente à agricultura, beneficiam o desempenho de partidos
conservadores, como o PDS/PP, PTB e PFL/DEM, além de acolher o voto governista.
Também encontramos a manutenção parcial do perfil do voto petista observado no
estado desde sua fundação, localizado em contextos mais urbanizados e
industriais e com menor taxa de analfabetismo, uma tendência que se transforma
com o "espalhamento" das preferências a partir de 2006.
Com relação à evolução da competição no estado, mostramos que a partir de 1994
a política paulista se orienta pela dinâmica que estrutura a política nacional,
e o terreno de preferências, ao final do período, constitui uma clara partilha
entre o PSDB e o PT.
Finalmente, sobre as bases dos principais partidos no estado: tanto os dados de
associações apresentadas para as votações de um mesmo partido entre eleições,
quanto a distribuição das votações nas regiões administrativas, permitem
apontar que as agremiações estudadas estruturam preferências e organizam a
escolha eleitoral, em uma dinâmica resistente ao cenário partidário fragmentado
paulista.
NOTAS
* Trabalho apresentado no 35ºEncontro Anual da Associação Nacional de Pós-
Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (Anpocs), Caxambu, MG, outubro de
2011. Agradecemos a Yan Carreirão, Bruno Speck e aos pareceristas da Dadospelos
comentários aqui incorporados.
** Ver lista de siglas dos partidos políticos comos respectivos significados ao
final do artigo.
1. Adefinição arbitrária dos cargos analisados, com a exclusão das votações
para deputado federal e senador, responde à escolha por aprofundar neste artigo
a análise de dados de nível local; sustentamos que, ao lado da compreensão da
competição para o cargo de governador, as votações para prefeito e deputado
estadual podem nos dar esse panorama.
2. Os dados de votação por município no Estado de São Paulo disponibilizados
pelo TRE-SP e pela Fundação SEADE para a Assembleia Legislativa nas eleições de
1986, 1990 e 1994 apenas incluem as dez maiores votações por municípios. Essa
limitação não prejudicou a análise dos partidos selecionados.
3. Conhecemos o debate sobre a pertinência ou não da consideração de níveis de
significância quando os dados analisados não são amostrais, como é o caso dos
dados utilizados neste artigo. Optamos por considerá-los nas várias tabelas
apresentadas. Para os dois lados desse debate, ver Cowger (1984) e Rubin
(1985).
4. Estamos cientes das mudanças na composição da força de trabalho e do impacto
dos processos de reestruturação produtiva ocorridos nas últimas décadas sobre o
perfil da PEA (ver Araújo, 2001; Matteo e Tapia, 2002). As definições de PEA
agrícola, industrial e de serviços estabelecidas ao longo do período não estão
explicitadas aqui, mas recorremos a esses fatores para embasar nosso argumento
de que posicionamentos e preferências político-partidárias são fenomenos em
parte associados aos processos sociais neles refletidos.
5. Em 1988, 25 partidos lançaram candidatos a prefeito, 15 obtiveram votos em
no máximo 20 municípios (3%); em 1992, de 25 partidos, 11 obtiveram votos em no
máximo 20 municípios; em 1996, de 29 partidos, 16 obtiveram votos em no máximo
20 municípios; em 2000, dos 30 partidos, 18 obtiveram votos em no máximo 20
municípios; e em 2004 e 2008, de 27 partidos, 13 obtiveram votos em apenas até
3% dos municípios.