A segregação dos jovens em Paris
A situação de moradia dos jovens tem mais importância para eles do que para os
pais, com quem moram. Por um lado, sua mobilidade mais reduzida - ainda mais
reduzida quanto mais jovens forem - faz com que fiquem muito dependentes dos
bens e serviços disponíveis no bairro, em especial dos equipamentos e serviços
públicos, da presença e qualidade desses equipamentos e serviços, sendo
portanto diretamente atingidos pelas desigualdades urbanas que caracterizam as
diversas situações de moradia. Por outro lado, pelo mesmo motivo, a construção
de sua sociabilidade, elemento maior dessa fase da vida, apoia-se muito nas
relações de vizinhança, em especial na influência do grupo de pares, na escola
e no bairro. Essas duas dimensões das desigualdades urbanas e da sociabilidade
local articulam-se estreitamente com a da segregação residencial, definida como
distribuição desigual dos grupos sociais, segundo os diferentes espaços de uma
cidade: a segregação distribui os grupos nos espaços desiguais em recursos, ela
os distribui ao mesmo tempo nos espaços em que a configuração dos grupos em
copresença, que contribui para definir as condições da sociabilidade local, é
variável.
A segregação dos jovens, na literatura sociológica francesa, foi abordada
sobretudo do ponto de vista das situações de forte segregação, associadas
especialmente às interrogações quanto ao desvio e à delinquência nas práticas
dos jovens (Kokoreff, 1996); são, aliás, os jovens que estão no centro das
discussões sociológicas e político-midiáticas sobre esses bairros, sendo vistos
como vítimas do fracasso escolar, do desemprego ou como atores da delinquência
e das revoltas. Muitos trabalhos sobre esses bairros, de Lepoutre (1997) a
Lapeyronnie (2008), mostraram a importância do grupo de pares nas práticas dos
jovens, bem como, de modo mais geral, da composição social desses bairros e das
relações sociais aí contraídas entre os moradores e as instituições. A
importância dos efeitos das desigualdades urbanas talvez tenha sido menos
destacada; assim, em relação à escola, é a influência da composição da
população dos alunos que foi quase sempre apontada, ao passo que Oberti (2007)
mostrou a importância da desigualdade de oferta escolar, ao contrário do
caráter teoricamente igualitarista da escola pública, pilar do "modelo
republicano" de tipo francês.
Se o estudo dos efeitos das desigualdades urbanas nos bairros em dificuldade
merece, a nosso ver, mais atenção, parece também que a análise da segregação
não pode ser reduzida à dos espaços mais pobres, dos "bairros de exclusão";
mesmo para compreender a formação deles, o estudo das condições urbanas
referentes às práticas sociais dos jovens deveria considerar a gama das
diferentes situações residenciais que condicionam sua experiência urbana. Se a
mídia pratica diariamente uma leitura dualista caricatural da cidade, opondo os
"jovens da periferia" - expressão que designa, implicitamente, os jovens de
origem magrebina ou africana morando em conjuntos sociais deficientes, com
fracasso escolar e comportamento inquietante, delinquentes ou participantes do
narcotráfico - à população da cidade "normal", é indispensável que os
sociólogos desconstruam essa caricatura opondo uma leitura mais atenta à
diversidade dos bairros periféricos e dos jovens desses bairros. Uma das
intenções deste artigo é fornecer elementos para perceber a diversidade das
situações urbanas e os perfis de seus jovens.
Se a segregação tem consequências mais importantes para os jovens, ela está em
geral marcada pela que existe em relação à população adulta, da qual é mais
fácil descrever os traços que ajudam a localizar os grupos sociais:
características socioeconômicas, para as quais a categoria socioprofissional
(Desrosières e Thévenot, 1988) é a variável mais utilizada na França; e origens
nacionais que permitem, na França, situar a segregação etnorracial. Entretanto,
diferentes pesquisas de campo levam-nos a pensar que, para os jovens, a
segregação pode ter características que vão além daquelas sofridas por seus
pais. Vejamos dois exemplos.
O primeiro refere-se a um bairro na zona nordeste da cidade de Paris
(municipalidade cujo território é mais ou menos delineado pelo bulevar
periférico). Se a análise estatística (Préteceille, 2003; 2006) mostra um
perfil socioeconômico variado, com executivos e profissionais de nível
superior, profissões intermediárias, empregados e operários, o estudo da
população em idade escolar revela uma distribuição mais bimodal: de um lado,
crianças de categorias médio-superiores; de outro, de categorias populares com
pouca qualificação. A explicação do contraste está nos processos de povoamento
e nas modalidades de acesso à moradia no bairro: a alta dos preços imobiliários
faz com que apenas as categorias médio-superiores possam hoje residir em
apartamentos com espaço suficiente para criar os filhos; as famílias de nível
médio ou popular já não podem aspirar a tais domicílios, e quem lá reside são
jovens sem filhos ou pessoas idosas que vivem no bairro há muito tempo; enfim,
a forte presença de crianças das camadas populares menos qualificadas se
explica pela existência de muitos conjuntos habitacionais em que essas
categorias estão altamente representadas.
O segundo exemplo refere-se a um bairro de periferia cuja análise estatística
mostra, ao contrário do anterior, que se trata de local bastante homogêneo no
plano socioeconômico - povoado essencialmente de empregados e operários - mas
bastante diverso no plano das origens nacionais, sendo, no entanto, os
imigrados nitidamente minoritários. Também nesse caso, o estudo da população
escolar (ver artigo de M. Oberti a ser publicado nesta Revista) mostra um
perfil diferente, marcado por nítida maioria de alunos de origem estrangeira.
Essa diferença não se explica por um problema de tratamento estatístico - foi
possível caracterizar a origem imigrada das crianças por meio da origem dos
pais quando elas residem com a própria família -, tampouco por uma opção de
rejeição escolar da parte dos pais não imigrados - estratégias de rejeição são
bem menos frequentes nos meios populares (Oberti, 2007; Van Zanten, 2009). A
explicação é essencialmente demográfica: os casais não imigrados são em média
mais idosos e, por isso, têm menos filhos em idade escolar; e a taxa de
fecundidade das mulheres imigradas, sobretudo das recém-chegadas, é mais
elevada que a das não imigradas.
Esses dois exemplos mostram as duas principais causas que levam a pensar que a
segregação dos jovens tem características específicas, podendo induzir a uma
inflexão significativa da segregação dos adultos; por um lado, os casais com
filhos não têm, em condições sociais semelhantes, a mesma localização que os
casais sem filhos; por outro, os casais com filhos não têm as mesmas
características sociais que os outros. Sobre esse último ponto, as diferenças
atuais são sobretudo função das origens, imigradas ou não, e pouco das
diferenças socioeconômicas, pois as diferenças entre categorias
socioprofissionais em relação ao número de filhos, que outrora se apresentavam
na clássica curva em U, praticamente desapareceram na França.
São essas duas dimensões da segregação específica dos jovens que, neste artigo,
vamos examinar no caso da metrópole parisiense1.
SEGREGAÇÃO SOCIOECONÔMICA E LOCALIZAÇÃO RESIDENCIAL DOS JOVENS
A localização residencial dos casais com filhos se distingue daquela dos casais
sem filhos, em determinada categoria socioprofissional, como se vê nos
trabalhos dos demógrafos sobre os efeitos residenciais do ciclo de vida (Le
Bras e Chesnais, 1976; Bonvalet, 1994). Os casais com filhos têm necessidade de
espaços maiores, com renda ou despesa igual para a moradia; são, portanto,
obrigados a localizações menos dispendiosas e, assim, menos centrais. Os casais
com filhos pequenos são mais jovens e, por isso, em início de carreira, com
salários menores em cada categoria profissional. Além disso, alguns desses
casais preferem casa com jardim para criar os filhos pequenos.
É preciso, contudo, ponderar sobre esse último ponto, pois, por causa da
elevada taxa de atividade feminina na França e pela cultura que conta menos com
a família do que na Itália ou na Espanha e mais com os serviços coletivos para
cuidar das crianças, uma parte das famílias pode preferir uma moradia menor,
mas em bairro que ofereça mais serviços coletivos, como creches. No entanto, é
apenas uma nuança ou moderação dos efeitos dos fatores indicados anteriormente,
que contribuem para explicar por que, como se vê nos dois mapas a seguir, a
proporção dos jovens na população local é tanto maior quanto mais periférica
for a localização residencial.

Um dos principais efeitos dessa localização periférica dos jovens é ficarem
eles longe dos recursos urbanos, dos equipamentos e serviços coletivos, que
estão em geral bem mais presentes nas zonas centrais da metrópole e se reduzem
nas regiões afastadas do centro, onde a urbanização é mais recente. Isso é
bastante claro no que se refere às creches - a ponto de se chegar a uma
correlação negativa entre o número de vagas de creche por criança em idade de
frequentá-las e a proporção dessas crianças na população local! -, aos
equipamentos culturais e aos serviços de saúde, públicos e particulares
(Préteceille, 2001). É claro que essa distância dos jovens em relação aos
recursos urbanos é, em média, maior quando pertencem a categorias sociais mais
modestas. Ao contrário, os jovens das categorias superiores ou médio-superiores
que podem residir em Paris ou na parte interior do primeiro anel da periferia -
com exceção dos municípios mais populares de Seine-Saint-Denis, que
empobreceram - gozam de ambiente urbano bem-provido de equipamentos e serviços.
Apresença de jovens dessas categorias populares é hoje fraca em Paris, a não
ser nos distritos da zona nordeste e nos mais periféricos, onde a existência de
muitos conjuntos habitacionais lhes possibilita morar. Isso é ainda mais nítido
nos municípios bem-equipados do primeiro anel da periferia, que, outrora,
constituíam o "anel vermelho", onde municípios de esquerda desenvolveram não só
uma série de conjuntos habitacionais, mas também importantes equipamentos
públicos.
Se a presença de conjuntos habitacionais nas localizações relativamente
centrais confronta parcialmente a hierarquização dos espaços dos jovens em
função do meio social, é claro que esse efeito tende a diminuir com o tempo. O
território da cidade de Paris e dos municípios dos subúrbios mais próximos está
praticamente quase todo urbanizado e já não pode se tornar mais denso. Por tais
motivos, por questões políti-cas2 e também por causa do preço dos terrenos, a
maior parte da produção de habitações sociais ocorre hoje no segundo anel da
periferia3. Assim, entre 1999 e 2007, em 17.165 novas famílias residindo em HLM
(Habitação de aluguel moderado), 12.544 estão no segundo anel, 3.977 em Seine-
Saint-Denis e no Val-de-Marne, 388 em Hauts-de-Seine e 256 em Paris.
Ao mesmo tempo, houve um aumento muito grande no preço dos imóveis e dos
aluguéis no centro da metrópole. Em dez anos, os preços das moradias subiram
mais que o dobro em toda a França: atingiram no 2o trimestre de 2011 um patamar
de 214, considerando-se 100 como base no 4o trimestre de 20004; para o conjunto
da metrópole parisiense, esse índice chegou a 229 e, para Paris, a 274! Como a
inflação para o mesmo período foi limitada (o índice dos preços atingiu 118 em
2010 para uma base 100 em 2000), tal aumento quase tríplice torna uma
residência em Paris inacessível não apenas às classes populares, com exceção da
habitação social, mas também às classes médias, e até mesmo a algumas médio-
superiores, sobretudo quando estão em início de carreira profissional e
necessitam de mais espaço para os filhos.
No esquema habitual das escolhas de localização em função do ciclo de vida,
viu-se que os casais tendiam a voltar para localizações mais centrais quando os
filhos cresciam, pois a busca de proximidade de uma boa escola superava o gosto
pela natureza. Os estudos de sociologia da educação mostraram a preocupação dos
pais e o investimento crescem-te deles no êxito escolar dos filhos, e isso em
todas as categorias sociais, fato que antes era só característico das
categorias médias. Parece que hoje a proximidade de estabelecimentos escolares
de qualidade se torna fator de crescente importância nas escolhas residenciais.
Contudo, parece também que o nível dos preços imobiliários e as fortes tensões
no mercado habitacional fazem com que somente os pais das categorias abastadas,
médio-superiores ou superiores possam de fato utilizar essas estratégias
residenciais. A considerável alta dos preços na parte central da metrópole,
onde se situam quase todos os colégios de prestígio, concentra ainda mais esse
tipo de mobilidade residencial da periferia para o centro só para as categorias
mais favorecidas. Para os moradores dos HLM, esse tipo de mobilidade é quase
impossível, pois, além de os HLM do centro urbano terem uma taxa de
rotatividade muito fraca, a atribuição dos HLM ocorre essencialmente dentro da
mesma entidade administrativa; o locatário de uma instituição municipal só pode
mudar de moradia no mesmo município.
Para explicitar o efeito dessas imposições, seria necessário analisar as
mudanças da população jovem de acordo com a categoria socioprofissional dos
pais e o status de ocupação habitacional. Nossa hipótese é que a segregação
entre os jovens das categorias populares e os das categorias superiores
aumentou mais que aquela existente entre os adultos dessas categorias, em razão
dos processos que acabamos de evocar; mas não temos uma hipótese nítida quanto
à evolução da segregação entre os jovens das categorias populares e os das
classes médias, pois os diferentes processos podem ter efeitos com sentido
diverso. Não pudemos desenvolver análises que levem a especificar e verificar
tais hipóteses por causa das dificuldades de acesso aos dados pormenorizados do
novo censo. Esperamos concluir esse trabalho quando tais dificuldades se
resolverem. Podemos, no entanto, como complemento dessa primeira análise da
dimensão socioeconômica da segregação dos jovens, examinar, a partir de dados
de que dispúnhamos sobre 1999, a dimensão etnorracial dessa segregação, assunto
importante tanto por motivos teóricos - a taxa de fecundidade de grande parte
das mulheres imigradas é mais elevada que a das mulheres não imigradas - quanto
pela intensidade das discussões sociais em torno da questão das dificuldades de
integração dos jovens de origem imigrada nos bairros populares.
SEGREGAÇÃO ETNORRACIAL DOS JOVENS
O termo raça não faz parte do vocabulário de categorização sociológica na
França. Tal ausência resulta da recusa explícita de importar uma categoria
ideológica que, sejam quais forem as circunvoluções intelectuais para afirmar
seu caráter de constructo social, guarda sempre no cerne a afirmação de uma
diferença biológica fundamentando diferenças culturais essenciais entre grupos
e, na maioria de seus usos históricos, a afirmação de uma hierarquia entre
esses grupos. Todavia, essa recusa de categorização sociológica em "raças" não
consegue impedir o reconhecimento e a análise pelo sociólogo da existência de
práticas e de representações racistas. Em matéria de segregação urbana, o
reconhecimento de práticas de discriminação segundo a raça atribuída -
discriminação no acesso à moradia, no trabalho, na relação com as instituições
públicas - justifica, a nosso ver, o uso do termo segregação etnorracial, visto
ser ela resultante de tais discriminações.
Para apreender os grupos sujeitos a essas discriminações, o sistema estatístico
francês dispõe de variáveis que, no censo e na maioria das grandes enquetes,
especificam a origem nacional das pessoas (local de nascimento e nacionalidade,
ou nacionalidade de origem para os franceses por aquisição). Tais variáveis
permitem efetuar uma leitura "limitada" da etnicidade para detectar as
discriminações sem ter de utilizar as categorias dos que discriminam5. Como os
grupos que podem ser vítimas de discriminação etnorracial são hoje, na França,
sobretudo os imigrados provenientes dos países magrebinos ou da África
subsaariana, ou franceses nascidos nos departamentos e territórios ultramarinos
das ilhas de Guadalupe ou Martinica, essas variáveis permitem caracterizá-los.
Deixam de lado, porém, seus descendentes, que, embora não imigrados e
franceses, na maioria dos casos podem ser igualmente discriminados em virtude
da cor da pele, do nome, da religião real ou suposta etc. Quanto aos filhos de
imigrados morando com os pais, é possível caracterizá-los por meio das
variáveis de origem dos pais. Para os que já não pertencem ao domicílio
parental, não é possível identificá-los nesse censo - mas o é em algumas
pesquisas do INSEE6, que incluem a pergunta sobre a origem dos pais do
entrevistado. Entretanto, até o censo de 1999, por causa do aspecto
relativamente recente das vagas migratórias referentes a esses grupos, a
maioria dos filhos - a chamada "segunda geração" - ainda era de jovens
residindo com os pais (Borrel e Simon, 2005).
Os Filhos dos Casais segundo a Origem dos Pais
Já mostramos (Préteceille, 2009) que a segregação dos imigrados era
sensivelmente superior à que seria resultante apenas das características
socioprofissionais, o que tende a validar a ideia de segregação etnorracial.
Também mostramos que, se essa segregação conheceu um ligeiro aumento na década
de 1990, permaneceu bastante moderada para a maioria dos grupos de origem, cuja
consequência era que a maioria dos imigrados residia em bairros onde os não
imigrados eram maioria e só uma pequena minoria dos imigrados residia em
bairros onde os imigrados eram maioria, ao contrário da ideia existente de que
os imigrados viviam confinados em guetos. Serão esses resultados transponíveis
para os filhos desses imigrados?7
Para responder a essa pergunta, cabe comparar, para 1999, os dados referentes à
população dos imigrados segundo a origem nacional com os dados descrevendo a
população dos filhos das famílias imigradas, definidas como famílias cuja
pessoa de referência ou seu cônjuge são imigrados, categorizados de acordo com
a origem nacional da pessoa de referência, se ela é imigrada, ou de seu cônjuge
imigrado, se ela não o for8. Trata-se, pois, da população dos filhos morando
com os pais. Na ficha, não consta a idade desses filhos, mas é cabível pensar
que a maioria deles está em idade escolar ou pré-escolar. Para 2007, os dados
divulgados pelo INSEE permitem medir a distribuição por idade do conjunto de
filhos das famílias (não se consegue distinguir os filhos das famílias
imigradas), indicada na Tabela_1.
[/img/revistas/dados/v55n2/a02tab1.jpg]
Para o conjunto das famílias, vê-se que 73% dos filhos têm menos de 18 anos.
Cabe pensar que a proporção é ainda maior para os filhos de imigrados, uma vez
que a população de imigrados é mais jovem que a média. Esses resultados de 2007
devem ser muito parecidos com os de 1999. Os dados que analisamos se referem,
portanto, aos jovens de famílias imigradas.
Para que o leitor possa avaliar o tamanho dos grupos em questão, na Tabela_2
estão os efetivos, tanto do conjunto de pessoas quanto dos filhos, por grupos
de origem.
[/img/revistas/dados/v55n2/a02tab2.jpg]
O campo geográfico considerado é o do conjunto dos TRIRIS9 da região Ile-de-
France, que tinha 10.951.136 habitantes em 1999. Logo, o campo estudado
corresponde a 77% do total. Os espaços em branco são os dos pequenos
municípios, sobretudo na periferia da aglomeração central da metrópole10.
Para todas as origens imigradas, a proporção entre o número de filhos das
famílias e o número de imigrados (que inclui apenas os filhos que são imigrados
ou estrangeiros, e não os nascidos franceses) é superior à dos franceses
nascidos franceses e à média. A proporção das crianças é especialmente
importante para os originários da Tunísia (quase três vezes a média), da
Argélia, do Marrocos e da África subsaariana (2,7 vezes a média).
As Diferenças de Distribuição Espacial: Índice de Dissimilitude
Para estudar a intensidade dessa segregação, calculou-se primeiro para os
filhos das famílias de cada um dos grupos de origem imigrada o índice de
dissimilitude11 em relação aos filhos das famílias não imigradas, e ele foi
comparado (Gráfico_1) com o dos imigrados em relação aos franceses nascidos
franceses12. Convém lembrar que esse índice pode ser interpretado como a
percentagem de um grupo que deveria mudar-se para ter a mesma distribuição
residencial do segundo.
[/img/revistas/dados/v55n2/a02gra1.jpg]
O acréscimo de segregação para os filhos de famílias imigradas é significativo:
para as origens magrebinas (ARGélia, TUNísia, MARrocos) e subsaarianas (AFR),
passa-se de cerca de 0,35 para cerca de 0,40, ou seja, de 15% a 20% de aumento;
e é de idêntica ordem de grandeza para todos os outros grupos. É sensivelmente
mais forte para as origens italiana e espanhola, o que se explica visto que a
maioria dos imigrados dessas origens é mais idosa, enquanto as famílias com
filhos são mais jovens e apresentam outro perfil. Entretanto, a diferença é
quase nula para os portugueses.
As Diferenças de Contexto Social Local: Índice de Isolamento
Comparou-se do mesmo modo o índice de isolamento dos filhos dessas famílias com
o dos indivíduos dos mesmos grupos de origem (Gráfico_2). Lembremos que esse
índice mede a probabilidade de os membros de um grupo só terem como vizinhos os
membros do próprio grupo. Esse índice é, por definição, muito sensível ao
tamanho do grupo.
[/img/revistas/dados/v55n2/a02gra2.jpg]
Logicamente, pelas diferenças de tamanho, e como a segregação dos grupos é
moderada, o índice é bastante forte apenas para os não imigrados, sendo fraco
para cada grupo imigrado.
É interessante notar que, para os não imigrados, o índice de isolamento dos
filhos é inferior ao do grupo em seu conjunto - o que significa que os filhos
de pais não imigrados estão mais propensos a encontrar, em seu bairro (TRIRIS)
de residência, filhos de pais imigrados que o grupo a encontrar imigrados.
Ao contrário, para todas as origens imigradas, o índice de isolamento dos
filhos é superior ao do grupo. É duas vezes maior para os de origem portuguesa;
2,4 vezes para os de origem marroquina; 2,6 vezes para os de origem argelina e
subsaariana; e 2,4 vezes para os de origem indiana ou paquistanesa. Levando-se
em conta que os grupos de filhos das famílias são de menor tamanho que o grupo
imigrado de mesma origem, o que deveria a priori baixar o índice de isolamento
dos filhos em relação ao do grupo, chega-se a um forte argumento que faz pensar
em uma distribuição espacial nitidamente mais específica dos filhos.
Como o índice de isolamento é sensível ao tamanho dos grupos, e como se sabe
que os imigrados de diferentes origens tendem a ter localizações residenciais
bastante semelhantes (o que será verificado mais adiante para os filhos) na
metrópole parisiense, e como a questão das discriminações atinge
particularmente os imigrados provenientes do Magrebe, do Oriente Médio e da
África subsaariana, calculou-se igualmente o índice de isolamento reagrupando
essas origens. Encontra-se para o conjunto desse grupo imigrado um índice de
isolamento de 0,127; para o grupo dos filhos das famílias dessas mesmas origens
imigradas, um índice de 0,315, ou seja, 2,5 vezes mais, o que é um valor bem
inferior ao das minorias etnorraciais nas grandes cidades norte-americanas, mas
que não pode ser desprezado.
As Situações Locais de Forte Concentração
Esses índices são calculados no conjunto das situações urbanas e fazem, por
isso, uma média entre situações de maior ou menor mistura (mixité) residencial
entre grupos diferentes. Sabe-se que uma parte da discussão concerne à
existência ou não de "guetos de imigrados", e é preciso verificar essa
existência ou não, bem como a frequência de situações de forte reagrupamento.
Para tal, foram aqui reunidas as origens magrebinas, subsaarianas, médio-
orientais e asiáticas.
O Gráfico_3 representa os TRIRIS segundo a proporção dos imigrados desse grupo
na população local, em abscissa, e a proporção dos filhos das famílias dessas
origens imigradas na população local dos filhos das famílias, em ordenada.
[/img/revistas/dados/v55n2/a02gra3.jpg]
Vê-se que a correlação entre as duas distribuições é muito forte, o que não
surpreende. Vê-se também que os níveis extremos de concentração são bem
diferentes. Só havia 16 TRIRIS nos quais os imigrados dessas origens eram
maioria em 1999. Para os filhos das famílias, o caso é outro, já que uma
minoria não desprezível dos TRIRIS (82 em 1.126) apresenta uma proporção
superior a 50%, reagrupando 21% da população dos filhos das famílias dessas
origens.
A Tabela_3 mostra a distribuição dos filhos de imigrados dessas origens
conforme os graus de concentração local.
[/img/revistas/dados/v55n2/a02tab3.jpg]
Se a situação de mistura de grupos de origens diversas permanece, portanto,
como a experiência da maioria (quase 80%) dos filhos dessas origens, a parte
dos que são localmente maioria não é desprezível.
Cabe salientar ainda que mais da metade, 61%, reside em bairros (TRIRIS) onde
constituem mais de 30% da população local dos filhos das famílias, ao passo que
os imigrados que residem em bairros onde representam mais de 30% da população
local são nitidamente minoria.
O Mapa_2 indica a distribuição espacial dos TRIRIS em função da proporção local
dos filhos com essas origens.
[/img/revistas/dados/v55n2/a02map2.jpg]
Não é possível comparar diretamente esse mapa com o primeiro, que dava a
distribuição do conjunto dos filhos das famílias, porque há uma diferença de
escala das unidades espaciais (a primeira era no IRIS, essa é no TRIRIS), além
da ausência de dados para os pequenos municípios, muito numerosos no segundo
anel da periferia. Sabe-se, porém, que os imigrados estão nitidamente sub-
representados em média nesses pequenos municípios: em 2007, no conjunto dos
IRIS não pertencentes a um TRIRIS e que são ou pertencem a municípios demasiado
pequenos para serem divididos em TRIRIS, encontra-se 20% da população total da
região, mas apenas 10% dos imigrados. Logo, as famílias imigradas de origens
magrebinas, subsaarianas, médio-orientais e asiáticas estão em média pouco
presentes nesses pequenos municípios. Há assim um contraste entre as
distribuições espaciais dos filhos das famílias não imigradas, que estão
presentes em todas as áreas do segundo anel, e as dessas famílias imigradas,
que só têm forte presença na parte exterior do segundo anel em certo número de
TRIRIS que correspondem a grandes conjuntos habitacionais de aglomerações
periféricas (a oeste, no departamento de Yvelines, Mantes-la-Jolie, Les Mureaux
e Trappes; a leste, no departamento de Seine-et-Marne, Meaux e Montereau). Os
bairros com maior concentração desses filhos de famílias imigradas são
nitidamente mais centrais, e a maioria se encontra em um triângulo cujo vértice
sudoeste fica no distrito XIX de Paris, o vértice sudeste em Clichy-sous-Bois e
Montfermeil, a leste do departamento de Seine-Saint-Denis, e o vértice norte em
Villiers-le-Bel ou Goussainville, ao sul de Val-d'Oise.
A oeste da aglomeração central, os bairros com forte concentração de filhos dos
imigrados são menos numerosos; encontram-se em Argen-teuil, Gennevilliers e
Nanterre; ao sul, em Vitry, Grigny e Corbeil-Essonnes; a leste, em Bagnolet,
Noisy-le-Grand e Lognes.
Tipologia dos Espaços Residenciais dos Filhos das Famílias segundo a Origem
Para verificar se seria encontrado para os filhos das famílias o resultado
evocado anteriormente para os imigrados, de acordo com o qual os bairros de
forte concentração de imigrados reúnem os imigrados de diferentes origens (com
exceção daqueles vindos dos Estados Unidos ou da Europa do Norte, que ficam nos
melhores bairros), foi construída uma tipologia dos TRIRIS em função da
distribuição dos filhos das famílias segundo os grupos de origem dos pais. Não
é aqui apresentada em pormenor essa tipologia, o que excederia os limites deste
artigo, mas serão apenas indicados, na Tabela_4, os perfis dos dez tipos
conforme a densidade relativa das diferentes categorias de origem (média =
100).
Destacam-se quatro resultados.
a) Encontra-se o resultado obtido considerando apenas o total dos filhos de
imigrados não europeus ou norte-americanos; dos dez tipos obtidos, cinco (F, G,
H, I e J) caracterizam-se por uma proporção de filhos das famílias (FRA) não
imigrados inferior à média e concernem a 36% do total dos filhos e a 53% dos
filhos de imigrados não europeus ou norte-americanos.
b) Nesses cinco tipos, como nos outros que têm uma presença inferior à média,
mas notável, dos filhos dessas mesmas origens, encontra-se de fato uma presença
significativa dos diferentes grupos de origem. Quando um grupo de origens está
super-representado, quase todos os outros também estão; encontra-se o resultado
obtido para o conjunto dos imigrados, que é essa mistura residencial das
origens, tão diferente do mosaico urbano dos Estados Unidos, no qual cada grupo
tem seus bairros de reagrupamento quase exclusivo - mesmo que existam bairros
com tal mistura (Logan e Zhang (2010) e Logan (2011).
c) Dois grupos se distinguem, porém, pela fortíssima super-representação em
certos tipos apenas: os filhos das famílias imigradas provenientes da Ásia do
Leste ou do Sudeste, no tipo G - presença sete vezes superior à média; os
filhos das famílias imigradas originárias da Turquia, no tipo I - presença
quatro vezes superior à média; e o tipo J - onze vezes. Essa forte super-
representação não invalida, contudo, o resultado anterior, pois, mesmo nesses
espaços em que os filhos de origem asiática ou turca estão muito super-
representados, permanecem minoritários se comparados aos filhos de outras
origens imigradas.
d) Os filhos de origem turca formam um caso à parte; mais de 40% deles residem
nos dois tipos nos quais estão fortemente super-representados. Para os filhos,
é ainda mais acentuada a singularidade já constatada para a segregação dos
imigrados de origem turca, grupo cujo nível de segregação era o mais elevado em
1999 e único cuja segregação havia nitidamente aumentado entre 1990 e 1999
(Préteceille, 2009)13.
CONCLUSÃO
Os jovens, que são mais dependentes dos recursos urbanos locais e das condições
de sociabilidade local, são os mais atingidos pelas desigualdades urbanas por
causa da localização mais periférica dos pais. Já o são a priori por
pertencerem às categorias sociais mais populares, exceto para aqueles que
residem em conjuntos habitacionais dos quais boa parte fica em Paris ou na
periferia mais próxima. Para as classes medi-as, que têm pouco ou nenhum acesso
à habitação social, seus recursos já não lhes permitem aceder às zonas
centrais. Para a fração das classes populares estáveis que pode aceder à
propriedade, esse acesso tem um preço: a localização nas partes menos equipadas
da metrópole. Só os jovens das categorias superiores têm, tendencialmente,
acesso ao alto nível de equipamentos escolares do núcleo da metrópole.
Tais diferenças segundo o nível socioeconômico se juntam às diferenças
aparentes entre filhos das famílias de acordo com a origem, imigrada ou não, e
as nacionalidades de origem dos pais. Se a segregação dos imigrados é
relativamente moderada e permaneceu estável durante a década de 1990, a dos
filhos das famílias de origem não europeia ou norte-americana é sensivelmente
mais acentuada. Era ainda moderada, mas em nível mais elevado, em 1999, exceto
para as crianças de origem turca, para as quais a segregação era bastante
forte, com um índice de dissimilitude superior a 0,5.
Essa segregação sensivelmente mais acentuada resulta de uma forte concentração
de crianças nas zonas em que a presença dos imigrados é maior. Mais de 20% dos
filhos de famílias originárias do Magrebe, da África, do Oriente Médio ou da
Ásia residia, em 1999, em bairros onde eles eram maioria entre as crianças.
Para essa porção, certamente minoritária, mas não desprezível, isso significa
condições mais difíceis de integração na sociedade francesa por três motivos.
Por um lado, essa composição da população local dos filhos se traduz
diretamente na composição da população escolar, com escolas em que a maioria
dos alunos é de origem imigrada. A explicação habitual para isso é que os pais
não imigrados evitam esses estabelecimentos; de fato, é antes de tudo o reflexo
da estrutura local da população escolarizável, ao passo que essa prática do
evitar é reduzida nos meios populares. É correto pensar que essa forte
segregação escolar se traduz por dificuldades escolares ainda maiores para as
crianças desses bairros, como Felouzis (2003) mostrou para os colégios mais
segregados da metrópole de Bordeaux.
Por outro lado, o grupo de pares no bairro também é formado de filhos de
imigrados, o que provoca decerto muitos efeitos de socialização específicos,
que reforçam a coesão do grupo local - cultura dos bandos de jovem, atitudes
físicas, culto da força e da "luta" entre os meninos, dominação das meninas,
afirmação de religiosidade muçulmana buscando derrubar o estigma por uma
requalificação simbólica (Kakpo, 2007), "linguagem de subúrbio" (Lepoutre,
1997) etc. -, mas dificultam a integração social mais geral na escola, nas
relações com os empregadores e com as instituições públicas.
Enfim, os bairros que aparecem como lugares de concentração elevada são, quase
sempre, bairros situados nos espaços de subúrbio mais marcados pela
precariedade, pelo desemprego e pela pobreza, dificuldades que qualificam as
precedentes e se agregam a elas. Para essa minoria não desprezível de filhos de
imigrados, tais condições de difícil experiência urbana combinadas com as de
sociabilidade local reforçam a desigualdade de oportunidades, que se acumulam
como obstáculos que levam forçosamente a preparar difíceis condições de vida
para a sua idade adulta.
Os resultados aqui apresentados ainda são parciais e insatisfatórios
metodologicamente. Esperamos que as providências tomadas permitam o acesso a
dados mais elaborados e recentes, a fim de responder a essas questões de
maneira completa e consistente. Por um lado, a escala espacial que pudemos
estudar, a dos TRIRIS, bairros com cerca de 8.000 habitantes, talvez mascare
segregações ainda mais fortes segundo a escala mais apurada dos IRIS, que
correspondem melhor ao bairro da experiência cotidiana dos jovens. Por outro
lado, será preciso especificar aquilo que, nessas segregações e em seus
efeitos, decorre de causalidade socioeconômica e o que decorre de
discriminações etnorraciais, visto que só pudemos analisar essas dimensões
separadamente.
Seria também preciso analisar de modo mais apurado as situações e as evoluções
sobre essas duas dimensões nos diferentes tipos de espaço da metrópole, e não
apenas nos mais pobres; os espaços mais comuns, que qualificamos de "médios-
mistos" são importantes porque se pode propor a hipótese de que, para muitos, a
coesão social se estabelece e se desenvolve nesses espaços de mistura social
realizada.
Em suma, é preciso analisar as evoluções em nosso período mais recente, pois as
condições de conjunto da primeira década do século XXI na França são duplamente
preocupantes, por causa do aumento da desigualdade social que se acelerou com a
crise financeira e econômica mundial, e também pelo agravamento das
discriminações etnorraciais incentivadas por elites políticas que tentam avivar
o racismo e a xenofobia, até mesmo nas práticas de instituições públicas como a
polícia, no intuito de obter benefícios eleitorais na competição com a extrema
direita.
NOTAS
* Este artigo foi, originariamente, apresentado no Seminário "Juventude,
Desigualdades e o Futuro do Rio de Janeiro", realizado na Casa de Rui Barbosa,
em junho de 2011, como parte das atividades do Programa de Apoio a Núcleos de
Excelência (Pronex), sediado no IESP-UERJ. [A tradução do original em francês,
"La Ségrégation des Jeunes à Paris" é de Estela Abreu].
1. A metrópole no sentido socieconômico é apreendida estatisticamente pelo
INSEE (Institut National de la Statistique et des Études Économiques) como
categoria de área urbana: http://www.insee.fr/fr/methodes/
default.asp?page=definiti-ons/aire-urbaine.htm. Utilizamos aqui, por motivo de
acesso aos dados, uma definição um pouco mais restritiva, que é a da parte
urbana da região Ile-de-France, ver mais adiante.
2. Se a municipalidade de Paris, dirigida pela esquerda, deseja desenvolver a
habitação social, o mesmo não ocorre com as municipalidades de direita de
Hauts-de-Seine, como Neuilly-sur-Seine, que não têm esse desejo.
3. Embora a área urbana de Paris ultrapasse a região desde 1999, Ile-de-France
contém o essencial. Essa região é o primeiro nível infranacional de governo
local; o segundo é o departamento; o terceiro, a municipalidade. A região Ile-
de-France tem oito departamentos: Paris, no centro (que é ao mesmo tempo
departamento e municipalidade); um primeiro anel ao redor de Paris, com os
departamentos de Hauts-de-Seine a oeste, Seine-Saint-Denis a nordeste e Val-de-
Marne a sudeste; um segundo anel, com os departamentos de Yvelines a oeste,
Essonne ao sul, Seine-et-Marne a leste e Val-d'Oise ao norte.
4. Fonte: Indice des Notaires (Índice dos Tabeliães) - INSEE, série longa http:
//www.insee.fr/fr/indicateurs/ind96/20110908/sl.xls
5. Para uma apresentação da discussão sobre as chamadas "estatísticas étnicas"
e uma análise das práticas e das dificuldades da estatística pública na França
sobre o assunto, ver Héran et alii (2010).
6. O INSEE é o principal organismo responsável pela produção das estatísticas
públicas na França, equivalente ao IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística).
7. Para discutir o sentido desse termo no contexto francês e os problemas de
escolha de categorias adequadas à análise da segregação em um país em que a
categoria de raça está excluída do sistema estatístico, cf. Préteceille (2009:
492-495).
8. Tabulação especial do recenseamento de 1999 obtida por meio da rede
Quételet; definição do quadro realizada com a ajuda de A. Kych, ADISP-CMH.
9. Os TRIRIS são reagrupamentos de três IRIS; IRIS (Setores Censitários
Reagrupados para Informação Estatística) são áreas com cerca de 2.000 pessoas,
definidos pelo INSEE. Os TRIRIS são um pouco menores (8.000 habitantes em
média) que as áreas de ponderaçãodefinidas pelo IBGE para o censo brasileiro.
10. Restrição decorrente do modo como o INSEE aplica as regras da Comissão
Nacional de Informática e Liberdades, que proíbem a difusão dos dados sobre as
nacionalidades, chamadas variáveis sensíveis, referentes a unidades com menos
de 5.000 habitantes. Isso leva a subestimar a segregação dos imigrados, que
estão pouco presentes nessas comunas periurbanas, sem que se possa afirmar se,
por isso, a de seus filhos é mais ou menos subestimada.
11. Índice mais utilizado para medir a segregação pela diferença das
distribuições. Ver Duncan e Duncan (1955), na apresentação da 1a ed., e Massey
e Denton (1988) para uma discussão dos diferentes tipos de índice.
12. Os valores são diferentes dos que publicamos anteriormente (Préteceille,
2009) por-que não só a escala do recorte espacial é aqui a dos TRIRIS mas
também porque não distinguimos os franceses nascidos franceses na metrópole
daqueles nascidos nos DOM-TOM, o que não pode ser feito com os filhos das
famílias.
13. A discussão dessa singularidade referente aos imigrados turcos nos levaria
além dos limites deste artigo, sobretudo porque, para a metrópole parisiense,
enquetes localizadas mostram que esse grupo é heterogêneo, uma vez que essa
mesma origem nacional compreende imigrados de origem turca propriamente dita,
de língua turca e de tradição muçulmana, mas também imigrados de origem curda,
e ainda outros de origem caldeia que são cristãos; esses três grupos têm
relações historicamente conflituosas decorrentes da dominação muitas vezes
violenta do primeiro sobre os outros dois.