FAO, fome e mulheres rurais
INTRODUÇÃO
O estímulo para escrever este artigo veio da leitura do documento produzido
pela Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO)
(2011), intitulado O Estado Mundial da Agricultura e da Alimentação. As
Mulheres na Agricultura: Superar a Brecha de Gênero em prol do Desenvolvimento.
Trata-se de uma longa discussão sobre a contribuição que as mulheres rurais
poderiam dar para a alimentação dos 925 milhões de pessoas subnutridas
existentes no mundo. Segundo a FAO, as mulheres representam, em média, 43% da
força de trabalho agrícola nos países em desenvolvimento, variando esta taxa de
20%, na América Latina, a até 50% na Ásia oriental e África subsaariana. Na
verdade, as estatísticas subestimam a contribuição da mão de obra feminina ao
trabalho nas lavouras, porque, geralmente, as mulheres veem os campos em volta
de sua moradia como uma extensão da casa e não separam o trabalho que fazem nos
dois espaços, declarando todas as atividades como trabalho doméstico. Porém,
levantamentos feitos em várias regiões levam a acreditar que são as mulheres
que fazem a maior parte do trabalho agrícola nos países em desenvolvimento. Há
estimativas da própria FAO, em colaboração com outras instituições mundiais, de
que se pode falar em participação de 60% a 80% de trabalho feminino na
agricultura dos países do Sul. Essa proporção vem aumentando por causa da
diminuição do número de homens em decorrência de guerras, migrações e da AIDS
que devasta, principalmente, o continente africano.
No trabalho assalariado as mulheres também estão presentes nos campos, mas
muito ausentes das estatísticas, porque a elas fica reservado o trabalho
temporário, principalmente durante as colheitas. As próprias agricultoras não
veem esse trabalho como assalariado, consideram uma "ajuda"
temporária para o orçamento doméstico, apenas "um dinheirinho a
mais". A preferência dos proprietários por este tipo de mão de obra deriva
justamente do caráter de "ajuda" atribuído a tais atividades,
resultando em pouca revolta por parte das trabalhadoras com relação à baixa
remuneração.
Por um lado, o documento analisado é, sem dúvida, um avanço, porque cumpre um
importante papel no sentido de mostrar a desigualdade de gênero e, mais
importante ainda, afirmar que essa condição, não sendo uma fatalidade
biológica, pode ser mudada, inclusive citando exemplos. Por outro lado, toma
como padrão de medida ideal a produtividade agrícola masculina, minimizando,
desta forma, os fatores que impedem as mulheres de atingirem esse patamar e, o
que é mais grave, não discute se a equalização por esse caminho é desejável, ou
mesmo isenta de consequências perversas. Nada se pode obstar à afirmação que é
feita de que as mulheres não têm o mesmo acesso que os homens à terra, aos
financiamentos, insumos, serviços produtivos e instâncias decisórias. Quando
este acesso é igualitário, "as agricultoras são tão eficientes quanto seus
homólogos masculinos" (FAO, 2011:4; tradução livre). Para demonstrar essas
afirmações, há uma grande preocupação em levantar experiências, em nível
mundial, que confirmam esta assertiva.
De acordo com os autores, são vários os objetivos a serem alcançados: a)
apresentar os melhores dados empíricos disponíveis em relação à contribuição
das mulheres e os obstáculos que elas enfrentam nas empresas agrícolas e rurais
em diferentes regiões do mundo; b) demonstrar como a brecha de gênero limita a
produtividade agrícola, o desenvolvimento econômico e o bem-estar humano; c)
avaliar de maneira crítica as intervenções dirigidas a reduzir a brecha de
gênero e recomendar medidas práticas que os governos nacionais e a comunidade
internacional possam adotar para promover o desenvolvimento agrícola mediante o
empoderamento das mulheres (ibidem:5).
Ainda segundo o documento, se as mulheres tivessem o mesmo acesso aos recursos
produtivos que os homens, poderiam aumentar o rendimento de suas explorações
agrícolas em cerca de 20% a 30%, incrementando a produção total em
aproximadamente 2,5% a 4% nos países em desenvolvimento e, com isso, reduzir o
número de famintos entre 12% e 17% em todo o mundo. Além disso, quando as
esposas e mães conseguem mais dinheiro, geralmente investem em nutrição, saúde
e educação dos filhos.
O que colocamos em questão é se as políticas propostas, todas de cunho
produtivista (aumento de crédito, maior uso de insumos e de tecnologia etc.),
seriam as mais eficazes para alcançar esses objetivos. As críticas que fazemos
têm mais a ver com as questões que não são tratadas no relatório do que com as
que o são. Podemos, grosso modo, dizer que a ausência sentida gira em torno de
dois problemas: a relevância econômica do trabalho doméstico e o modelo de
desenvolvimento que está implícito nas sugestões apresentadas.
O TRABALHO DOMÉSTICO
As atividades domésticas têm uma trajetória interessante dentro do texto.
Aparecem nas páginas iniciais como sendo um empecilho ao trabalho produtivo da
mulher:
(...) entre 85% e 90% do tempo dedicado à preparação doméstica de
alimentos fica a cargo das mulheres, que também se encarregam
habitualmente do cuidado dos filhos, além de realizarem outras
tarefas domésticas. A carga que supõe a combinação do tempo dedicado
às tarefas do lar e ao trabalho agrícola é especialmente pesada no
caso das mulheres da África (Â ) razões que explicam sua incapacidade
para aumentar a produção destinada ao mercado (Â ) (ibidem:13-14;
tradução livre)
Porém, essas preocupações com a sobrecarga que o trabalho doméstico significa
vão desaparecendo ao longo do documento, só reaparecendo nas páginas finais,
sem que seja apontada uma solução convincente. Em nenhum momento se explicita
qual a idade, o estado civil, o número e idade dos filhos das mulheres que, nas
experiências relatadas, alcançaram produtividade semelhante à dos homens.
Também não é dito se elas contavam com ajuda no trabalho doméstico (mães,
sogras, filhas adultas ou creches). Por não constar do documento nenhum
esclarecimento sobre procedimentos de amostragem, pode-se presumir que essas
experiências foram escolhidas, o que as qualifica como exemplos, mas não
configuram uma demonstração.
As sugestões apontadas para aliviar a carga do trabalho doméstico são um tanto
utópicas e são dados pouquíssimos exemplos de situações em que suas aplicações
foram bem-sucedidas. Entre as sugestões está a utilização de tecnologias
poupadoras do esforço despendido pelas mulheres no lar, mas diferentes grupos
feministas já demonstraram que as atividades de "cuidado" com
crianças, idosos e doentes não são facilmente substituídas por outra solução
que não a atenção constante. A possibilidade de divisão dos afazeres domésticos
com os homens sequer é mencionada, pois entraria em contradição com a proposta
do documento, que é igualar a produtividade de mulheres e homens tendo como
modelo o padrão atual, no qual a casa e os filhos são encargos das esposas e
mães. Ressalta-se o cuidado com os filhos, mas pouco se fala ainda no cuidado
com os idosos, cuja necessidade vem aumentando com o aumento da expectativa de
vida das populações. Também o cuidado com os doentes toma proporções
significativas na África, onde os doentes são enviados ao campo para serem
cuidados pelas mulheres de sua família que lá permaneceram. Perguntada sobre
seguridade social nos países africanos mais pobres, uma representante dessas
populações, em um encontro realizado em Porto Alegre, em 2006, respondeu
"a seguridade somos nós", nós mulheres1, e isso em países devastados
pela AIDS.
Não estamos negando a importância de se investir em tecnologias poupadoras de
mão de obra com relação às tarefas domésticas, nem de se ter melhorias na
infraestrutura das localidades. Também não negamos que está havendo esforços
nesse sentido, como mostram documentos, entre os quais o do Programa das Nações
Unidas para o Desenvolvimento (UNDP, 2011). A questão diz mais respeito ao
acesso a novas tecnologias e serviços que a sua disponibilidade. Quanto às
tecnologias, a dificuldade de acesso aumenta enormemente pela falta de energia
elétrica ou a possibilidade de utilização de gás de cozinha.
Vale notar que enquanto as possibilidades apontadas para diminuir a
desigualdade de gênero entre homens e mulheres passam principalmente pelo
mercado, através de um aumento da produtividade feminina nas suas propriedades
ou empregos mais bem remunerados, as sugestões da FAO para reduzir o tempo
gasto com as atividades domésticas dependem, em muito, de uma ação dos órgãos
públicos: instalar fontes de água próximas das casas, encontrar outro
combustível que não a lenha para o preparo dos alimentos, desenvolver novas
tecnologias mais adequadas à força física das mulheres, abertura de creches,
pesquisas voltadas a cultivos melhorados resistentes a pragas, e aumento
significativo da presença das mulheres em órgãos decisórios. Essa proposta de
ação mais intensiva do Estado com relação ao alívio do peso das atividades
domésticas surpreende porque destoa do caráter mercantilista das ações
sugeridas para o aumento da produtividade das mulheres. Surpreende também por
ser uma ação historicamente rara nos países em desenvolvimento, mesmo quando o
Estado de bem-estar social presente nos países desenvolvidos poderia servir de
inspiração. Hoje temos uma erosão do papel dos governos nos países ricos, em
decorrência de uma visão neoliberal dominante, que se reflete nos países
pobres.
Uma outra proposta merece atenção: o emprego das mulheres em cadeias de
produção para exportação, onde os salários são mais altos. Pode-se citar um
exemplo em que a participação feminina na produção de frutas para exportação no
Chile, na Argentina e no Brasil foi bem analisada em um livro organizado por
Mônica Bendini e Nélida Bonaccorsi (1998). Entre as principais conclusões temos
que realmente os salários são mais altos e isso pode levar a um maior ou menor
empoderamento das mulheres nas relações familiares, dependendo da rigidez ou da
flexibilidade dos costumes locais. Porém, como as mulheres são contratadas com
base no que se considera "capacidades inatas" femininas, como
delicadeza das mãos para a colheita2 e cuidado no manuseio das frutas, elas não
são preparadas para outros tipos de trabalho, não lhes sendo dada uma
capacitação mais ampla. Quando são substituídas por máquinas, como já aconteceu
em algumas regiões, estas mulheres se veem totalmente despreparadas para outro
tipo de atividade.
Quanto à grande demanda que o cuidado com os filhos exerce sobre as atividades
femininas, é guardada, no documento analisado, a precaução costumeira para que
a reprodução não seja considerada um obstáculo. Alguns países da Europa já
estão precisando incentivar a natalidade. As crianças que nascem não são apenas
uma garantia de sustento para seus pais, mas para a sociedade toda. Quando
adultos, são eles que irão trabalhar, produzir, pagar impostos e gerar novas
crianças. Os que têm filhos trazem benefício para a sociedade como um todo, mas
isso é pouco reconhecido. O pai, como é considerado o provedor, detém os
empregos mais bem remunerados. Na velhice, pode reivindicar direitos
trabalhistas, como a aposentadoria. As mulheres, cuja dedicação aos filhos é
maior e fazem o trabalho não pago, na velhice, caso não recebam sustento do
marido, vão depender da boa vontade dos filhos. Nas famílias pobres, ao
diminuir a prole, há um aumento do risco de não se ter quem sustente os pais
idosos por causa de mortes na infância ou na juventude, doenças incapacitantes,
emigrações, pouco sucesso financeiro dos filhos, desemprego etc. Por isso é tão
difícil impor controle de natalidade em países em desenvolvimento; os filhos
são garantia de sobrevivência. Segundo Nancy Folbre, pesquisadora do
Departamento de Economia da Universidade de Massachusetts, nos Estados Unidos,
um terço das crianças já vive apenas com um dos pais, em geral, a mãe. Esta
situação está cada vez mais frequente. Quando os pais se separam, as mulheres
ficam com toda a carga de cuidar dos filhos e isso diminui sua possibilidade de
conseguir bons empregos. A moral desta história, segundo a autora, é que a
dedicação dos pais, principalmente da mãe, traz importantes benefícios para a
sociedade, pois divide com todos os seus membros os benefícios de uma nova
geração bem criada, mas os custos não são divididos, seu ônus recai
principalmente sobre as mães (Folbre, 1997, 2001).
Pesquisas realizadas no Brasil (Simões e Matos, 2010)3 mostram que, de 1995 a
2005, o número de domicílios em que a responsável pela família é unicamente a
mulher passou de 22,9% para 30,6%, um aumento, portanto, de 35%. Uma alta
porcentagem dessas mulheres é negra, casos em que a discriminação por gênero
soma-se à discriminação por raça. Da população ocupada4, as mulheres perfazem
42%, dos quais cerca de 30% são trabalhadoras domésticas, muitas sem carteira
assinada, o que significa que não usufruem dos direitos trabalhistas. Em média,
as trabalhadoras brasileiras recebem cerca de 70% do que recebem os homens (o
que acontece em maior ou menor grau no restante do mundo), e a diferença
salarial não desaparece quanto se trata da população com maior escolaridade,
isto é, de nível universitário. Isso ocorre por causa de uma forte segregação
profissional, ou seja, a mão de obra feminina está concentrada em ocupações
menos valorizadas. As propostas que se apóiam unicamente no aumento da
escolaridade das mulheres para reduzir a desigualdade, embora seja uma meta
importante, devem levar em conta a hierarquia entre as ocupações5.
Ao se casarem, homens e mulheres estabelecem uma espécie de contrato, mesmo que
não escrito, segundo o qual cada um desempenha sua parte e há uma expectativa
de reciprocidade entre os dois. Essa reciprocidade, porém, não se aplica aos
filhos pequenos, eles têm que ser sustentados e cuidados. Nancy Folbre, no
texto já citado, trabalha bem essa questão da reciprocidade, mostrando que a
ciência econômica se dedicou muito ao que pode ser comprado e vendido, mas as
pessoas são produzidas por outras pessoas, não só no sentido físico de gerar,
mas por meio de alimentação, educação, cuidados e sacrifícios pessoais, e isso
se dá dentro das famílias. Nos compêndios de economia não aparece a palavra
"família", mas deveria aparecer, segundo ela. Os economistas
simplesmente ignoram, em termos de produção de riquezas e qualidade de vida, o
trabalho não remunerado, sua importância para a própria produção capitalista e
seu papel fundamental na criação do "capital humano", por meio do
cuidado exercido pelas mulheres.
Para Folbre, a reciprocidade entre marido e mulher, por ser algo que acontece
no presente, pode ser mais controlada e o casamento é um contrato que pode ser
desfeito. Mas a reciprocidade entre pais e filhos se dá em termos de futuro.
Temos uma imagem que o amor dos pais é incondicional, mas não é bem assim.
Somos educados para pensar que alguns valores já nasceram conosco, que são
naturais, mas são normas que aprendemos desde crianças e que estão
interiorizadas, são sociais embora pareçam individuais. Se os pais não tivessem
nenhuma obrigação com os filhos, a humanidade já teria desaparecido há tempos,
ou mesmo não teria surgido.
A sociedade espera que os pais cuidem dos filhos, tanto que podem ser punidos
quando não o fazem, inclusive com a perda da guarda das crianças6. Espera-se,
também, que os filhos cuidem dos pais idosos e já estão aparecendo casos na
Justiça de pedido de pensão de pais aos seus filhos. Mas há uma diferença: os
pais podem controlar o que dão aos filhos, mas não podem saber ou ter poder de
decisão sobre o que vão receber no futuro.
A educação das mulheres, voltada para o lar, não preparava grande número delas
para obter seu próprio sustento a não ser em funções sem qualificação e mal
remuneradas. Ainda assim, as mulheres de famílias pobres, principalmente as que
viviam no meio rural, sempre trabalharam. Porém, como o modelo idealizado era
ficar em casa, mesmo quando estavam sempre trabalhando, o trabalho produtivo
feminino7, remunerado ou não, era visto como uma "ajuda" ao marido e
era interrompido sempre que a família precisava: filhos pequenos, doenças,
mudanças de cidade por causa do emprego do marido etc. Não só a família cobrava
esse papel da mulher, como o próprio Estado o reforçava. Segundo a pesquisadora
Régine Dhoquois (2003), no final do século XIX, na França, na região onde as
mulheres trabalhavam nas fábricas têxteis, constatou-se que seus filhos eram
mais frágeis: houve 35% de dispensa do serviço militar, contra 17% em regiões
rurais. Não ter bons soldados sempre preocupou as nações. No Brasil, o discurso
médico no início do século XX associava higiene e saúde e, como na França (e no
resto do mundo), atribuíam às mães a responsabilidade pela mortalidade infantil
e fragilidade dos filhos. A educação das mulheres e seu acesso ao mercado de
trabalho vêm mudando, mas a situação descrita ainda permanece, até hoje, em
diferentes regiões e grupos sociais.
Segundo Alicia Puleo (2004:18), se em tempos passados a legitimação da divisão
de trabalho nos lares era dada pela religião, com a modernidade outras
justificativas foram e vão sendo criadas, de acordo com a linguagem e as
categorias conceituais de cada época. O discurso higienista é um exemplo.
Considerar casa e filhos como um encargo feminino resultou não só em um
desestímulo ao trabalho remunerado das mulheres, como também em uma forte
condenação moral. Hoje, a inserção das mulheres no mercado de trabalho não
sofre esse preconceito, mas a condenação moral da mãe continua quando há os
assim chamados "desvios de conduta" ou problemas de saúde durante a
criação dos filhos. Também continua pequena a participação dos homens nos
afazeres domésticos. Embora tenha havido mudanças com relação às gerações
passadas, o envolvimento masculino nos cuidados da casa, dos filhos e dos
enfermos não guarda nenhuma proporcionalidade com o grande aumento do número de
mulheres em profissões remuneradas.
O caráter produtivo do trabalho doméstico é negado tanto pela economia
neoclássica como pela marxista. Segundo Cristina Carrasco (1999), a economia
neoclássica racionaliza os papéis de homens e mulheres, na família e no mercado
de trabalho, reforçando o status quo. O marxismo trabalha como se as categorias
proletariado, exploração, produção e reprodução fossem neutras quanto ao
gênero, pressupondo uma convergência de interesses entre os membros da classe
trabalhadora, independente do sexo. Apenas os economistas clássicos mostraram
alguma preocupação ao defender a ideia de um salário compatível com a
reprodução da classe trabalhadora, em uma época de alta mortalidade infantil.
Embora não tenham incorporado o trabalho das mulheres em suas análises,
mantiveram, ao menos, uma tensão entre não incorporá-lo, mas reconhecer sua
existência, tensão que desaparece nos economistas neoclássicos. Ana Maria
Loforte (2003), pesquisadora moçambicana, critica também os neomarxistas,
principalmente o francês Claude Meillasoux, especialista em antropologia
econômica, por tomar as mulheres como uma categoria homogênea, numa análise a-
histórica e sem informações etnográficas.
Na década de 1970, no Brasil, houve grande esforço dos grupos feministas,
principalmente marxistas, no sentido de repensar o trabalho doméstico. As
pioneiras foram Heleieth Safiotti (1976) e Eva Blay (1978)8. Para algumas, o
trabalho doméstico deveria ser levado para as esferas das atividades
produtivas. Foram muitos os debates nos quais se propunha o conceito de Modo de
Produção Doméstico, ou se defendia que as mulheres, por meio do trabalho não
remunerado que "esticava" o salário baixo do marido, forneciam mais-
valia ao capitalista. Houve, também, propostas no sentido de remunerar esse
tipo de trabalho, proposta rejeitada por muitas feministas que alegavam que tal
procedimento legitimaria a reclusão das mulheres no lar. Carrasco mostra que o
mesmo estava acontecendo em outros países9. Aos poucos, com a crítica às
grandes teorias, esse debate foi arrefecendo. Nas últimas décadas, as
tentativas de tornar visível a sobrecarga das mulheres têm posto ênfase nos
estudos de uso do tempo por ambos os sexos.
Segundo um documento da ONU (United Nations, 1995), mesmo nos países ricos, as
mulheres trabalham mais que os homens. Pesquisas feitas na década de 1980,
principalmente em países desenvolvidos, concluíram que o trabalho doméstico não
remunerado é o que mais ocupa o tempo das mulheres. Na maioria dos países, elas
gastam, a mais, o dobro do tempo em trabalho não pago que os homens. Além
disso, o tempo de trabalho dos homens tende a ser o mesmo durante sua vida
produtiva, enquanto o das mulheres varia bastante, dependendo da idade dos
filhos.
Ainda de acordo com os técnicos da ONU, de meados da década de 1960 a meados da
década de 1980, houve uma diminuição no tempo de trabalho não pago das mulheres
e aumento do trabalho remunerado. Mudanças têm ocorrido no sentido de o casal
partilhar mais os encargos domésticos, mas essas mudanças ainda são tímidas,
haja vista que, quanto à maneira de gastar o tempo, há bastante semelhança
entre homens e mulheres quando são jovens e solteiros. Porém, uma vez que casem
ou coabitem, as coisas mudam e as diferenças de gênero ficam nítidas. Nos
países em desenvolvimento, as mulheres e as meninas gastam 3 a 5 horas a mais
por semana que os homens em trabalhos de subsistência não pagos - por exemplo,
buscar água e lenha e processar produtos agrícolas - e 20 a 30 horas a mais em
trabalhos domésticos.
Pesquisas mais recentes (CEPAL, 2010:35-36) mostram que a diferença entre
homens e mulheres quanto ao trabalho doméstico está longe da paridade. Dados
relativos a 12 países da América Latina que realizaram levantamentos, em 1998,
sobre o uso do tempo, mostram que, em todos eles, as mulheres dedicam mais
tempo aos afazeres domésticos que os homens e, não só isso, têm também uma
carga maior de trabalho total, resultado da soma dos esforços remunerados e não
remunerados. Quando as mulheres não se inserem no mercado de trabalho, ou o
fazem em tempo parcial, isso não significa necessariamente mais bem-estar para
elas, porque o fato de ter pouca renda, ou nenhuma, pesa negativamente em sua
autonomia e poder de decisão. Segundo a mesma fonte, em 2008, na média dos
países estudados da América Latina que dispunham de dados, da população de 15
anos ou mais, 32% das mulheres, contra 10% dos homens, estavam fora do mercado
de trabalho.
No Brasil, segundo a obra já citada de Simões e Matos (2010), entre 1995-2005,
em que pese a luta das mulheres por igualdade, houve pouco incremento da
participação masculina no trabalho doméstico, pois enquanto as mulheres
declararam dedicar 25,2 horas semanais aos cuidados da casa, os homens
declararam 9,8 horas semanais. Entre mulheres e homens trabalhadores, a média
foi de 21,8 horas para as primeiras e 9,1 horas para os segundos.
Gelinsky e Pereira (2005) afirmam que, para cobrir as lacunas das Contas
Nacionais quanto à contabilização dos trabalhos não pagos, estão sendo
utilizadas as Contas Satélites que focam setores específicos, como, por
exemplo, transportes, viagens e turismo, e a produção doméstica fora do
mercado. Quanto a essa última atividade, desde os anos 1960 alguns países têm
desenvolvido pesquisas de uso do tempo que posteriormente passaram a ser
utilizadas no cálculo das contas satélites do trabalho não remunerado. Nos time
use surveys, a imputação do valor econômico das horas de trabalho em casa pode
ser feita a partir do custo de oportunidade ou do custo de substituição. Pelo
custo de oportunidade, calcula-se o montante potencial que uma pessoa receberia
se, em vez de trabalhar em casa, desempenhasse uma atividade de mercado, de
acordo com suas habilitações. O custo de substituição é estimado sobre quanto
custaria contratar alguém para fazer o mesmo serviço. Tem havido uma
preferência pelo último método.
As mulheres sobrecarregadas com a dupla jornada não precisam entender de
estatísticas para chegarem a conclusões semelhantes quanto ao uso do tempo
(Paulilo, 1987:64):
A mulher acorda e levanta antes do marido. Prepara o café, tira o
leite, encaminha o almoço e, às vezes, ainda põe a roupa de molho. Aí
o marido levanta, e vão pra roça juntos. Voltam da roça, o marido
está cansado, claro. A mulher não, porque ela é feita de aço
inoxidável [...]. Eu já assisti - e me escandalizei - a esposa ter
até que cortar o fumo e fazer o cigarro para o homem fumar...
(professora primária e esposa de pequeno produtor, sul de Santa
Catarina).
María Ángeles Duran, socióloga espanhola, diz que se Aristóteles revivesse e
fosse visitar a Faculdade de Ciências Econômicas e Empresariais da Universidade
Complutense de Madri, "certamente ficaria com a boca aberta" (Duran,
2000; tradução livre), assustado com a mudança de sentido que sofreu a palavra
"economia", "oykonomikos" em grego, que deriva do termo
"oykos", ou seja, casa, significando, portanto, "administração
da casa". É bem verdade que, naquele período, o responsável pela casa
administrava também campos, plantações, criações e escravos, mas não havia a
separação entre trabalho produtivo e improdutivo que a Economia moderna tanto
preza e hierarquiza.
De acordo com a mesma autora, tentar contabilizar os bens e serviços que passam
pelo mercado e os que não o fazem requer a descoberta de uma medida comum entre
eles, o que é dificultado por três tipos de problemas: definição do que é
trabalho; medição do tempo de trabalho; e atribuição de valor aos distintos
tipos de trabalho10. Além dessas dificuldades, ao procurar informações junto às
Organizações para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDEs) de vários
países, Duran (ibidem:101) descobriu que se estima que o esforço dedicado a
conhecer o trabalho não remunerado equivale a menos da centésima parte do que é
investido (dinheiro, recursos institucionais, pesquisas etc.) no levantamento
do trabalho remunerado. Apesar de os dados não serem facilmente comparáveis,
aqueles obtidos em quatorze países mostram que, com uma única exceção, o
trabalho desenvolvido fora do mercado de trabalho é igual ou maior que o
trabalho desenvolvido para o mercado. Assim sendo, o nível de vida de
diferentes nações depende em muito do trabalho não remunerado, realizado
majoritariamente pelas mulheres. Na Espanha, segundo dados da Encuesta CIRES
para 1996, se fosse atribuído ao trabalho não remunerado 80% do valor do
remunerado, o PIB espanhol seria cerca de 102% maior; se fosse atribuído o
mesmo valor, o crescimento seria de 128% (idem:113). A autora ressalta, também,
que a proporção de trabalho não pago frente ao montante de trabalho total é
maior na Espanha do que em outros países da OCDE ou da União Europeia, embora
em todos o PIB aumentaria caso a incorporação das atividades não remuneradas
fosse feita em uma proporção de 40% a 60% (idem:113).
Melo et alii (2005), tendo por base as estatísticas demográficas e sociais
levantadas, no Brasil, pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD)
que, entre outros objetivos, contabiliza o tempo gasto com o trabalho doméstico
desde 2001, afirmam que esse trabalho corresponde a cerca de 12,7% do PIB
nacional. Em 2004, correspondeu a 225,4 bilhões de reais, sendo que 82% desse
valor, 185 bilhões de reais foram gerados por mulheres.
O trabalho doméstico não só gera valor como tem uma flexibilidade que lhe
permite, como diz a pesquisadora moçambicana Isabel Maria Casimiro (2004:231),
constituir "lugar seguro para aparar os golpes dos programas de
ajustamento estrutural", característica que o torna essencial para
amenizar os abalos que as políticas do Banco Mundial podem provocar.
Diante do exposto, vemos que se as mulheres investirem o mesmo tempo que os
homens na produção, podemos ter duas situações. Na primeira, a família teria um
incremento de renda tão substancial que lhe permitiria comprar no mercado os
bens e serviços antes a cargo da esposa, o que não só é difícil pelo alto
custo, mas por possíveis diferenças de qualidade e pela sua escassez em
determinadas regiões. Na segunda, tanto os membros da família, como toda a
sociedade, perderiam em qualidade de vida e bem-estar. Em uma proposta que diz
justamente respeito ao aumento da satisfação e do bem-estar das mulheres
rurais, o trabalho doméstico jamais poderia ficar em segundo plano, como ficou
no documento apresentado pela FAO. Em vez de tomar como padrão para a atuação
feminina a participação dos homens na produção, seria mais adequado desenvolver
métodos de pesquisa que pudessem captar a contribuição do trabalho não pago das
mulheres para a produção e reprodução da sociedade.
MODELO DE DESENVOLVIMENTO
As críticas ao modelo produtivista de desenvolvimento já é um tema bastante
discutido atualmente, muito em virtude das preocupações ecológicas. Por isso,
não precisará de uma análise tão longa como foi a do valor do trabalho
doméstico, tema ainda incipiente como área de estudo.
A noção de desenvolvimento contém um otimismo no sentido de que desenvolver é
evoluir para algo melhor. Nem sempre se faz a pergunta: melhor para quem? Não
se questiona quem são os beneficiários porque há, implícita, a ideia de que
embora a sociedade seja desigual (ninguém pode, em sã consciência, negar a
pobreza), não é contraditória, no sentido do bem de alguns depender do mal de
outros. Permanece no conceito, assim, um caráter evolucionista que faz com que
os pobres sejam vistos como alguém que não se desenvolveu, fazendo recair sobre
eles mesmos a responsabilidade por sua situação precária. Ainda que não se
atribua aos desfavorecidos uma "culpa", considerando-os preguiçosos,
pouco inteligentes etc., o que é bastante comum principalmente onde há racismo,
parte-se do princípio de que eles não têm oportunidades iguais e que é preciso
criá-las, e isto não implicaria diminuir a riqueza dos que a têm.
Não é preciso lembrar que foi Karl Marx e seus seguidores que trouxeram a ideia
de classes sociais antagônicas, quando os donos dos meios de produção
enriqueciam com a exploração da força de trabalho de outros. Mas nem só de
classes vive a exploração. Os grupos feministas lutaram muito para poder falar
de uma exploração de gênero, porque assim como a sociedade pode ser
supostamente vista como um todo orgânico em que o bem de um se transmite aos
outros, a família é geralmente vista da mesma forma, o bem do
"chefe", no caso o homem, traz o bem de todos. Quando as mulheres são
lembradas dentro de um contexto desenvolvimentista, as duas noções de
"todo integrado" se juntam e se reforçam. Daí decorre o pressuposto
de que as mulheres, para saírem de sua situação de subordinação, têm que se
igualar aos homens, e mais, essa situação de igualdade será positiva para a
família e para a sociedade. Que a família e a sociedade dependem do trabalho
não pago feminino não é sequer considerado, ou, quando o é, vê-se o trabalho
doméstico como algo facilmente substituível por tecnologias e relações de
mercado a serem pensadas no futuro.
Quando se fala em desenvolvimento, se pensa em bem-estar, e a fome é um dos
grandes sofrimentos da humanidade. Embora as políticas propostas para erradicar
a fome e a desnutrição até hoje não tenham sido eficazes, são uma constante em
qualquer programa desenvolvimentista. Surgiram, então, dois conceitos -
"segurança alimentar" e "soberania alimentar" - que, às
vezes, são tomados, erradamente, como sinônimos. De acordo com Marta Chiappe
(2010), pesquisadora uruguaia, enquanto "segurança alimentar"
significa ter quantidade suficiente de alimentos para todos e facilidade de
acesso a eles, para explicar o que é "soberania alimentar", a autora
se utiliza do conceito elaborado pela Via Campesina11, durante o Encontro
Mundial da Alimentação, em 1996, em Roma:
É o direito de cada povo de definir suas próprias políticas
agropecuárias em matéria de alimentação, de proteger e regulamentar a
produção agropecuária nacional e o mercado doméstico a fim de
alcançar metas de desenvolvimento sustentável, de decidir em que
medida querem ser autossuficientes, de impedir que seus mercados se
vejam inundados por produtos excedentes de outros países que os
colocam no mercado internacional mediante a prática de
"dumping" (Chiappe, 2010:1; tradução livre).
Jacques Chonchol (2005:34-35), com sua larga experiência não só em estudos
rurais, mas também no exercício de cargos relevantes ligados à agricultura12,
deixa clara a diferença entre produzir alimentos para todos e criar mecanismos
de acesso a esses alimentos, também por todos, dizendo que "a fome não é
tanto a consequência de uma produção alimentar insuficiente, como da
marginalização econômica de certas populações". Sendo assim, "a
prioridade não é tanto aumentar a produção dos que produzem muito, mas dar a
todos os meios necessários para produzir".
Note-se que o autor não fala em "meios necessários para comprar" e,
sim, "para produzir", fala de soberania, e não de segurança
alimentar. Na sua avaliação, o aumento de produtividade na agricultura não
resultou em benefício para os países pobres. Esses países tornaram-se grandes
importadores de cereais, principalmente a partir da década de 1970, o que fez
com que as grandes regiões produtoras, no caso regiões desenvolvidas, como a
América do Norte, a Oceania e, posteriormente, a Europa Ocidental, voltassem
sua produção de grãos para esse mercado. Porém, na medida em que crises
políticas e econômicas, guerras ou desastres naturais diminuíram a capacidade
de importação dos países pobres, a produção também diminuiu nas regiões
exportadoras e começou a ser mais direcionada para a produção de animais. A
pecuária tem um forte poder de exclusão das populações pobres quanto ao consumo
de cereais. O grande crescimento da produtividade agrícola não manteve as
mesmas taxas obtidas no início da Revolução Verde. A disponibilidade de
produtos alimentares não garante o fim da fome e da desnutrição porque não é a
quantidade produzida, mas, sim, as possibilidades de comercialização, ou seja,
o mercado é o fator mais determinante.
Em resumo, o lento aumento do crescimento agrícola mundial explica-se
também pelo fato de que as pessoas que poderiam consumir mais não
dispõem de renda suficiente para demandar um suplemento de produtos
alimentares e suscitar assim uma maior produção. A produção mundial
poderia progredir mais rapidamente se a demanda efetiva aumentasse
com maior velocidade. (Chonchol:36-37)
Em conformidade com a análise de Chonchol, temos as considerações do atual
diretor-geral da FAO - José Graziano da Silva13 (2012). Segundo esse
economista, a fragilidade do modelo latino-americano de crescimento ficou clara
nos anos 1980. A adesão, nos anos 1990, ao modelo da autossuficiência dos
mercados não trouxe soluções, mas sucessivos colapsos financeiros, tendo
lançado 31 milhões de latino-americanos na miséria. Como resultado, tem-se que
um em cada cinco habitantes da América Latina e do Caribe (cerca de 113 milhões
de pessoas) participa de programas de transferência de renda. Embora aceite que
o grande agronegócio tenha vindo para ficar e seja importante para o
abastecimento mundial, "[...] na América Latina e no Caribe ele mostrou
mais uma vez que oferta não é sinônimo de acesso. A fome pode conviver
perversamente com a abundância".
O documento da FAO tem o mérito de propor uma solução para o problema da fome
de cada país por meio de um aumento endógeno de produção, utilizando mão de
obra que, segundo essa instituição, estaria subutilizada. Porém, não trata das
questões de mercado como o fazem Chonchol e Graziano da Silva. O aumento da
produtividade das mulheres é visto como uma solução, mas não fica claro, no
documento em questão, se o maior incremento seria por meio do autoconsumo da
família ou da renda obtida através do mercado. Outra questão que o documento
não leva em conta é a disponibilidade e a qualidade das terras. Há tecnologias,
como certos tratores, por exemplo, que só são compensatórias se utilizadas em
áreas planas e não tão pequenas. Porém, a questão mais central que não é
discutida são os riscos do uso intensivo de agrotóxicos e biotecnologias.
Quanto aos malefícios dos agrotóxicos em pessoas, um problema ainda não
solucionado é a dificuldade de registro dos casos ocorridos. Os sintomas da
intoxicação por produtos químicos podem ser confundidos com outras formas de
mal-estar. Ainda assim, Adriana Mello Barotto (2012), coordenadora clínica do
Centro de Informações Toxicológicas de Santa Catarina (CIT/SC) é taxativa em
seu alerta aos perigos desses produtos para a saúde humana. A análise dos dados
sobre o Estado de Santa Catarina, que vão de 2003 a 2011, mostra que depois dos
"animais peçonhentos" e "medicamentos", que perfazem 53,9%
do total das causas de intoxicação, a terceira causa, 9,2%, são os agrotóxicos
agrícolas e domésticos, muito acima das "drogas de abuso", que
respondem por 3% dos casos. Se separarmos os produtos de uso doméstico dos
agrícolas, temos que os segundos respondem por 6,63% do total. Entre os anos
2003 e 2011, foram registrados 5.004 casos de intoxicação humana por
agrotóxicos de uso agrícola em Santa Catarina. Segundo a pesquisadora, o
Glifosato, bastante utilizado no Brasil, é muito prejudicial à saúde.
Marineide Maria Silva (2003), ao analisar a fumicultura em um município de
Santa Catarina, sentiu falta de dados regionais e nacionais mais precisos sobre
intoxicações por agrotóxicos, independente dos atingidos serem fumicultores ou
não. Com base em dados da Organização Mundial da Saúde para o início dos anos
1990, afirma que, para cada caso diagnosticado, existem cerca de mais
cinquenta, o que resultaria em um total de aproximadamente 185 mil intoxicações
agudas por ano no Brasil durante sua pesquisa de campo, realizada na segunda
metade dos anos 1990.
Citamos apenas esses dados, resultantes de pesquisas bem localizadas no tempo e
no espaço, porque há muita polêmica e informações insuficientes sobre dados
mais globais. Nosso intento aqui é apenas chamar a atenção para a falta de uma
discussão sobre assunto tão pertinente no documento da FAO. É por esse mesmo
motivo que nos limitamos a falar de problemas com seres humanos, deixando de
lado a literatura sobre danos ao meio ambiente, na qual se destaca a
contaminação das águas, o efeito estufa, a perda da biodiversidade, entre
outros.
Entre as biotecnologias, vamos nos limitar aos transgênicos pela controvérsia
que provocam. Essas controvérsias geram conflitos nacionais acentuados,
inclusive polarizações, porque o poder de permitir seu cultivo ou sua
importação depende do governo de cada país. O Brasil, até início dos anos 2000,
teve uma posição mundial emblemática na resistência à introdução de soja
transgênica em âmbito nacional, apesar da forte presença desse cultivo na
Argentina (Otero, 2012). Devido a isso, quando essa resistência foi vencida,
principalmente pela forma como as coisas aconteceram, a atenção de ativistas de
diferentes posições, espalhados por todo o mundo, se voltou para o nosso país.
Inicialmente vamos clarear algumas confusões frequentes, sendo a primeira a
diferença entre Organismos Geneticamente Modificados (OGMs) e transgênicos.
Esses dois termos não são sinônimos, mas é comum usá-los como equivalentes
porque todo transgênico é um OGM, mas o reverso não é verdadeiro. Os OGMs são
organismos geneticamente modificados, mas que não receberam partes de outros
organismos; já os transgênicos são organismos que possuem uma sequência de DNA
ou partes do DNA de outros organismos, inclusive de espécies diferentes14.
Enquanto a descoberta da transformação genética se deu em 1928, a primeira
planta transgênica é de 1983. Esta identificação entre processos diferentes não
é inócua, facilita a aceitação e a falta de rotulagem adequada dos produtos
transgênicos. Não podemos igualar todas as biotecnologias quanto às suas
implicações, sendo que, dentre as biotecnologias, a transgenia e a clonagem de
mamíferos têm consequências mais profundas. Enquanto a primeira abre as
possibilidades de riscos ao ambiente e à saúde humana e seu uso sofre forte
influência das relações socioeconômicas e políticas, a clonagem pode ameaçar a
biodiversidade (Nodari e Guerra, 2003).
O texto da FAO trata os mercados como se fossem realmente autorreguláveis,
deixando de lado as pressões políticas. No Brasil, a aprovação do plantio de
soja transgênica é um claro exemplo do que podem as pressões. Embora fosse
proibido esse cultivo no Brasil, a falta de fiscalização fez com que, em 2003,
quando Luiz Inácio Lula da Silva assumiu o governo, já houvesse mais de um
milhão de hectares plantados com soja transgênica ilegal no país,
principalmente no Rio Grande do Sul, onde era mais fácil o contrabando de
sementes pelas fronteiras. O que fazer com a safra? Destruí-la seria impensável
nesse momento em que se criava nacionalmente o programa Fome Zero. Como não
temos o hábito de comer soja como os orientais - consumimos apenas de 2% a 3%
de nossa produção -, a então ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, sugeriu
que toda a soja transgênica fosse exportada. Porém, o governo gaúcho reagiu
porque, como da soja exportada não é cobrado o ICMS, o Rio Grande do Sul
perderia 900 milhões de reais. Entre marchas e contramarchas, a solução veio
através de uma Medida Provisória (MP) que autorizou a colheita sem mais
problemas. O fato aplainou o caminho da regularização que ocorreu neste mesmo
ano, em setembro de 2003 (Nodari, 2012; Otero, 2012).
Outra forma de pressão de que tivemos conhecimento ocorreu na África. Em abril
de 2010, durante um encontro realizado em Chapecó (SC), onde a proposta era um
intercâmbio de agricultores africanos e brasileiros, a representante de
Moçambique disse que sementes transgênicas foram distribuídas pelas
instituições competentes aos produtores, os quais só perceberam que havia algo
diferente quando as novas sementes produzidas não germinaram.
Voltando à questão dos agrotóxicos, o gene da Soja RR transgênica a torna
resistente ao herbicida Round-up, à base de Glifosato (Nodari, 2012). O Round-
up diminui a necessidade de capinação, ou da limpeza do cultivo por outros
métodos, porque elimina as outras plantas, sem atingir os pés de soja,
economizando horas de trabalho. Daí sua aceitação por muitos produtores. A
questão que fica é se o inseticida, ou mesmo o grão transgênico, provoca ou não
males à saúde e ao meio ambiente. Também existe a possibilidade de contaminação
de lavouras não transgênicas via pólen, sementes ou resíduos. Casos de
contaminação por polinização já têm provocado brigas judiciais15.
O fato de o cultivo da soja transgênica requerer o uso de inseticida à base de
Glifosato pôs em xeque a esperança, que muitos tinham, de que o avanço da
biotecnologia diminuísse a necessidade de agrotóxicos. Segundo Nodari (2011),
nos Estados Unidos houve uma diminuição no uso de agrotóxicos, mas este uso
tornou a aumentar com a liberação da transgenia, o mesmo tendo acontecido no
Brasil e na Argentina, país onde o cultivo de transgênicos é bastante elevado.
Um ponto a ser considerado quando se propõe a inclusão das mulheres no cultivo
de plantas que exigem inseticidas é o fato de que as possibilidades de
intoxicação têm a ver com o peso corporal: além de, em geral, as mulheres serem
mais leves que os homens, podem estar grávidas ou acompanhadas de crianças
pequenas.
Ao citarmos apenas exemplos que põem em xeque a disseminação de agrotóxicos16 e
transgênicos, não queremos tomar aqui, neste texto, uma posição contrária a
eles. Queremos alertar para o fato de que documentos como o analisado tomam
todas as inovações tecnológicas como sendo sempre benéficas, mesmo que de
maneira implícita, numa postura evolucionista que precisa ser questionada, do
mesmo modo que precisa ser questionado o fato de que as mulheres dos países em
desenvolvimento, em nenhum momento, foram ouvidas.
Por serem as mulheres que, tradicionalmente, cuidam da saúde da família, elas
têm uma grande preocupação com a qualidade da alimentação e o uso de
agrotóxicos. Não é por acaso que, no Brasil, um dos movimentos sociais rurais
que carrega com mais força a bandeira da produção de alimentos saudáveis seja o
Movimento de Mulheres Camponesas (MMC). Surgido no início dos anos 1980 com
preocupações voltadas para questões trabalhistas, foi pouco a pouco
incorporando questões de gênero que acabaram por fazer aflorar as questões de
saúde e, com elas, uma forte rejeição à agricultura feita com uso de
agrotóxicos e transgênicos e uma recusa aos reflorestamentos17. Existe também o
medo da dependência das empresas, principalmente quando há oligopólio ou
monopólio por parte delas, na obtenção das sementes, porque, quando se usa as
sementes modificadas, não é possível produzi-las na propriedade. O MMC não é um
movimento pequeno, abrange 19 estados brasileiros. Esta também é a posição da
Via Campesina, movimento internacional ao qual o MMC se encontra vinculado. Sem
a concordância das mulheres, dificilmente alguma política pública voltada para
elas surtirá efeito.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Podemos considerar um avanço o fato de organizações como a FAO começarem a
levar em conta a grande importância das produtoras rurais na produção de
alimentos, bem como denunciar as desigualdades existentes entre os sexos em
termos de financiamentos, acesso à terra e a órgãos decisórios, sobrecarga de
trabalho, entre outros. Também é importante que surjam propostas de solucionar
a fome nos países pobres, através de formas endógenas de aumento da produção
agrícola. Porém, o documento analisado ainda conserva muito da visão
tradicional sobre a relação entre mulheres e desenvolvimento, no sentido de
apresentar como única possibilidade a inserção da mão de obra feminina no
modelo agrícola produtivista, tendo como inspiração o comportamento masculino.
Contra esse tipo de igualdade em que o homem é visto como "certo" e a
mulher como "atrasada", mesmo que não seja por sua própria culpa ou
por motivos biológicos, muito já têm lutado os movimentos feministas.
A postura produtivista, e porque não dizer machista, da FAO implicou sérias
consequências, como menosprezar o valor econômico do trabalho doméstico e não
dar a devida importância às graves polêmicas que cercam o uso das novas
tecnologias. O documento conserva e reforça a convicção de que a eliminação da
fome no mundo depende da quantidade de alimentos produzidos, convicção já
bastante criticada pelos que levam em conta o poder e a concentração dos
mercados mundiais. Outro ponto menosprezado são as diferenças de poder entre os
que podem produzir muito e os que passam fome. Nada é dito que são as pressões
exercidas pelos defensores dos agronegócios lucrativos sobre o governo de
diferentes nações. No Brasil, a força política da Bancada Ruralista no
Legislativo é fato sabido. As dificuldades de diálogo entre diferentes formas
de agricultura são tão fortes em nosso país que temos dois ministérios ligados
à produção agropecuária: o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento
(MAPA) e o Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA).
Mas, de todas as críticas, a que deve ser feita com mais veemência é o
estabelecimento do padrão de produtividade masculino como um ideal a ser
alcançado pelas mulheres. Mudam-se os termos, mas não a inferiorização e a
desqualificação do trabalho feminino. Se não é a religião e a biologia que são
chamadas para legitimar as desigualdades, é o padrão tecnológico produtivista
que exerce esse papel. Mesmo que no texto não haja uma culpabilização das
agricultoras dos países pobres, fica a ideia de que é do aumento de
produtividade delas que depende, em grande parte, a diminuição da fome no
mundo. Seria o caso de se perguntar por que, entre tantos responsáveis, uma
carga tão grande está sendo posta em ombros tão frágeis, debilitados por
séculos de colonização, racismo e exploração econômica.
NOTAS
1. Seminário internacional Política para Mulheres na Reforma Agrária e no
Desenvolvimento Rural, Porto Alegre, 2006.
2. Em uma reunião de feministas na Argentina, em 1987, um médico, o único homem
presente, disse que a delicadeza das mãos femininas são muito lembradas na hora
dos trabalhos mal pagos, porém, quando a questão são as microcirurgias, nada se
diz sobre o tamanho da mão dos médicos responsáveis por elas.
3. As autoras usaram fontes primárias e secundárias, entre as quais a Pesquisa
Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD/IBGE, 2005), a pesquisa do
International Social Survey Programme (ISSP) sobre Gênero, Família e Trabalho
(2003), e a pesquisa A Mulher Brasileira no Espaço Público e Privado (Fundação
Perseu Abramo, 2001).
4. Abrange pessoas que desempenham trabalho pago ou não pago (por exemplo,
membros não remunerados da família na agricultura) na produção de bens e
serviços, com dez ou mais anos de idade (PNAD-IBGE, 2005).
5. Silvana M. Bitencourt (2010) fez uma análise interessante sobre o sofrimento
das mulheres no campo da Engenharia.
6. Por não tomar o amor das mães como natural, algo inato, o livro de Elizabeth
Badinter, Um Amor Conquistado: O Mito do Amor Materno, causou muita polêmica
(ver Badinter, 1980).
7. Como a separação entre trabalho produtivo e improdutivo remete a construções
teóricas específicas como, por exemplo, o marxismo, em que o trabalho produtivo
produz mais-valia e o improdutivo, não, com a flexibilização e releituras das
grandes teorias o conceito de "trabalho produtivo" foi tomando
distintas significações. Neste texto, usamos o termo tanto no sentido de
trabalho remunerado, como de trabalho não remunerado, desde que voltado para a
produção de bens e serviços que têm valor no mercado, que podem ser
comercializados. Reconhecemos a fragilidade teórica dessa conceituação, mas
como é assim que o trabalho produtivo é visto, inclusive no documento da FAO,
onde aparece também o termo "economicamente ativo" como sinônimo,
mantivemos o sentido para facilitar o diálogo com o material analisado.
8. Em termos internacionais, não podemos esquecer o trabalho pioneiro de Ester
Boserup (1970), realizado na África, que denunciou como os trabalhos realizados
pelas mulheres na produção e nos serviços de subsistência, fundamental para o
bem-estar econômico das populações, eram subestimados no cálculo do Produto
Nacional.
9. Para um apanhado das várias possibilidades teóricas desenvolvidas no
período, ver Gelinsky e Pereira (2005). Para elas, tanto quanto para Melo
(2005), como para Hirata (2004), o trabalho doméstico não pode ser avaliado em
termos puramente econômicos, por ser uma atividade psicossocial. Para Gelinsky
e Pereira essa é a causa do debate sobre sua caracterização como produtivo ou
improdutivo ter ficado inconcluso.
10. Tem havido tentativas, por parte de alguns países, de incorporar o valor do
trabalho doméstico na Contabilidade Nacional. Helena Hirata (2004) cita o
exemplo da Noruega, que fez isso depois da Segunda Guerra Mundial, mas
abandonou logo tal procedimento, embora ainda desenvolva propostas com relação
ao problema. Segundo Gelinky e Pereira (2005), a inclusão do gênero na
elaboração dos orçamentos públicos é uma das bandeiras de luta da Unifem/ONU.
Há uma vasta literatura internacional sobre a necessidade de uma análise do
orçamento com enfoque de gênero. No Brasil, merecem destaque o Centro Feminista
de Estudos e Assessoria (Cfemea) <http://www.cfemea.org.br/site> e a Ações em
Gênero, Cidadania e Desenvolvimento (Agende) <http://www.agende.org.br>. Também
tem havido esforços individuais entre as economistas feministas nesta direção.
Podemos citar, entre outras, Hildete Pereira de Melo, Carmen R. O. Gelinski e
Rosângela Saldanha Pereira.
11. A Via Campesina é um movimento internacional que coordena organizações
camponesas de pequenos e médios agricultores, trabalhadores agrícolas, mulheres
rurais e comunidades indígenas e negras da Ásia, África, América e Europa. Uma
das principais políticas da Via Campesina é a defesa da soberania alimentar.
12. Jacques Chonchol foi ministro da Reforma Agrária do Chile no governo de
Salvador Allende. Foi diretor do Instituto de Altos Estudos da América Latina,
Universidade de Paris III, Sorbonne Nouvelle e coordena atualmente um doutorado
em Estudos das Sociedades Latino-Americanas.
13. Deve-se esclarecer que José Graziano da Silva não ocupava o cargo de
diretor-geral da FAO quando da elaboração do documento em análise.
14. Com o estabelecimento das normas gerais de biossegurança é que se começou a
utilizar a expressão Organismo Geneticamente Modificado - OGM. Do ponto de
vista legal, no Brasil, OGM é o organismo cujo material genético (ADN/ARN)
tenha sido modificado por qualquer técnica de engenharia genética. A Lei 8.974,
de 05/01/95, definiu ainda engenharia genética como a atividade de manipulação
de moléculas ADN/ARN recombinantes" (Nodari e Guerra, 2003:7-8). Porém,
segundo os autores citados, a legislação brasileira sobre o assunto é complexa,
pois a Medida Provisória 2.191-9/2001 introduziu modificações na Lei 8.974/95 e
existem, ainda, outras leis que devem ser cumpridas concomitantemente, ligadas
à política nacional sobre o meio ambiente e ao Código de Defesa do Consumidor
(idem).
15. O caso do agricultor canadense Percy Schmeiser ficou mundialmente
conhecido. Ele cultivava canola tradicional e fazia seus próprios melhoramentos
genéticos. Como a canola é uma planta de polinização aberta, assim como o
milho, suas plantações foram contaminadas por canola transgênica da Monsanto,
introduzida no país em 1995. Schmeiser foi processado pela Monsanto, sob a
alegação de ter adquirido as sementes ilegalmente, e enfrentou-a na Justiça,
num longo processo que ele mesmo se incumbiu de difundir em diferentes países.
O embate judicial terminou em 2008, com ganho de causa do agricultor.
Disponível em: <http://www.guardian.co.uk/environment/2008/jan/22/
pollution.gmcrops>; <http://www.percyschmeiser.com/>. Acessado em 2/5/2012.
16. Não é rara a afirmação de que os pequenos produtores se intoxicam por usar
agrotóxicos em excesso, seja por ignorância ou por sede de lucros. Em
contrapartida, pouco se fala sobre o fato de que esses agricultores sofrem
diretamente o peso de suas decisões, enquanto nas grandes propriedades as
consequências recaem sobre os empregados, enquanto o lucro fica com os donos do
empreendimento. Nem a sede de lucros é apanágio dos pobres, nem a virtude,
apanágio dos ricos.
17. Tanto o MMC como a Via Campesina se empenham em tornar públicas suas
convicções. São muitas as publicações. Citamos, dentre elas, Vários Autores
(2010). Citamos também um fato de grande repercussão, ocorrido em março de 2006
no Rio Grande do Sul, quando se deu a destruição de um laboratório de plantas
da Aracruz Celulose por cerca de duas mil mulheres ligadas aos movimentos de
defesa dos trabalhadores do campo, em especial à via Campesina (Paulilo e
Matias, 2006).