Fatores familiares e desempenho escolar: uma abordagem multidimensional
INTRODUÇÃO
A influência da família no desempenho escolar dos filhos constitui objeto de
estudo da Sociologia da Educação desde, pelo menos, o período do pós-Segunda
Guerra Mundial. Na década de 1950 e início dos anos 1960, grandes levantamentos
estatísticos foram realizados com o objetivo de identificar as variáveis
associadas às disparidades de rendimento escolar entre os alunos. Os
resultados, de forma geral, destacaram o meio sociofamiliar como um poderoso
fator, focalizando, sobretudo, os dados posicionais do grupo familiar (renda,
ocupação e escolaridade dos pais, raça etc.) e suas características
morfológicas (número de filhos, sexo, ordem de nascimento, dentre outros)
(Nogueira, 1998).
Nos anos 1960-1970, com a hegemonia das teorias da reprodução, a família
continua sendo um elemento importante nas análises das desigualdades escolares,
enfatizando-se, agora, o patrimônio cultural por ela transmitido ou as
aspirações escolares em seu seio suscitadas, tudo isso em conformidade com sua
posição de classe. A partir da década de 1980, o lugar central da família nos
estudos sociológicos em educação consolida-se com a emergência do que se passou
a designar como a "sociologia das relações família-escola". As pesquisas na
área, que têm se multiplicado desde então, passam a investigar as dinâmicas
internas e os processos de socialização familiares, buscando apreender as
disposições e as estratégias desenvolvidas pelos pais no que tange à vida
escolar dos filhos, além de analisar de que forma esses elementos contribuem
para configurar diferentes destinos escolares (Lahire, 1997).
O presente artigo pretende contribuir para essa longa tradição de estudos,
discutindo resultados de uma pesquisa que investigou a influência das condições
e dinâmicas familiares sobre o desempenho de alunos dos anos iniciais do ensino
fundamental. A originalidade da pesquisa, especialmente no contexto
brasileiro1, consiste justamente na tentativa de averiguar simultaneamente uma
grande gama de fatores que compõem um conjunto representativo das principais
variáveis apontadas pela literatura: desde as clássicas características
posicionais e morfológicas do grupo familiar até os aspectos mais sutis
recentemente focalizados pelos sociólogos, como as concepções educacionais dos
pais e as práticas desenvolvidas cotidianamente pelas famílias. É de se
destacar que a investigação relativa a esses últimos aspectos tem assumido um
caráter predominantemente qualitativo, ao passo que, no presente estudo, o
desafio é o de tentar apreender algumas dessas variáveis de forma quantitativa.
Além disso, a pesquisa também inova ao associar as variáveis coletadas
diretamente junto às famílias, por meio de questionário, com a proficiência
escolar dos alunos, obtida por meio de testes padronizados.
Tal abordagem foi possível por se tratar de uma investigação articulada ao
Projeto Geres - Estudo Longitudinal da Geração Escolar 2005, pesquisa que
acompanhou, de 2005 a 2008, a evolução da proficiência escolar de cerca de 21
mil alunos do ensino fundamental de cinco cidades brasileiras, por meio da
aplicação de cinco "ondas" de testes de língua portuguesa e de matemática - a
primeira realizada no início de 2005, quando os alunos começavam a 1a série, e
as demais, aplicadas no final da 1a, da 2a, da 3a e da 4a séries2.
Para a presente pesquisa, construiu-se uma subamostra a partir da amostra Geres
de Belo Horizonte, a qual abrangia 4.611 alunos do Ensino Fundamental,
matriculados em estabelecimentos de ensino públicos e privados3.
Com o objetivo de tornar nossa amostra mais homogênea quanto à origem social, o
primeiro passo foi excluir, dessa população, o quintil superior em termos
socioeconômicos. Supusemos que isso permitiria verificar, com maior precisão, o
efeito, sobre o desempenho dos filhos, de diferenças secundárias entre as
famílias (processos socializadores, modos de relação com a escola, entre
outras). Em outras palavras, supunha-se que uma variação excessiva no perfil
socioeconômico das famílias tenderia a explicar quase completamente as
diferenças de desempenho escolar, eclipsando o impacto dos aspectos menos
visíveis da influência familiar. Desse modo, nossa amostra concentrou-se
basicamente nas classes populares e nas frações inferiores das classes médias.
Após esse procedimento, efetuou-se uma estratificação das famílias por tipos de
estabelecimento de ensino frequentado (escola federal, escolas privadas,
escolas estaduais e municipais comuns e escolas estaduais e municipais
destacadas), diferenciados segundo critérios que serão discutidos na seção
intitulada Modelo 2: Tipo de Escola. Finalmente, mantendo a proporção entre os
estratos delimitados, foram selecionados 300 alunos cujas famílias passaram a
constituir a amostra a ser investigada. Houve perda amostral de um caso, tendo
sido efetivamente interrogadas 299 famílias.
O instrumento de coleta de dados foi um questionário constituído de 145 itens
de resposta objetiva, aplicado, em 2007, a um dos genitores (em geral a mãe),
por meio de entrevista diretiva. Obteve-se, assim, um banco de dados bastante
abrangente, incluindo as respostas de todos os itens do questionário e a
proficiência dos alunos em quatro ondas de testes Geres, o qual vem sendo
tratado estatisticamente.
Uma parte desse tratamento consistiu em agrupar variáveis ordinais do
questionário em fatores, utilizando uma técnica estatística multivariada
denominada Análise Fatorial Confirmatória (AFC)4. A AFC é usada para testar
hipóteses teóricas e/ou empíricas sobre como as variáveis se agrupam na
população (Muthén e Muthén, 2006). No caso desta pesquisa, havia hipóteses
teóricas baseadas nas dimensões familiares que a sociologia das relações
família-escola vem associando à escolaridade dos filhos, que serão discutidas
na próxima seção deste artigo.
Na AFC encontramos um bom ajuste do modelo, e os fatores extraídos foram
incluídos no banco de dados da pesquisa5. São eles: conhecimento do sistema de
ensino; posse de bens culturais; práticas cotidianas de escrita; ordem racional
doméstica; práticas familiares de leitura; ambição escolar; interação pais/
filhos; acompanhamento do dever de casa; ações na escolha do estabelecimento de
ensino; modos de exercício da autoridade parental6.
O objetivo deste artigo é analisar a associação desses fatores com o desempenho
dos alunos. Foram ajustados vários modelos de regressão linear, nos quais a
proficiência dos alunos em língua portuguesa, na onda 1, foi tomada como
variável dependente, e os fatores familiares, como variáveis independentes.
Decidiu-se pela utilização da primeira onda por ser ela a menos sujeita: a) a
um eventual efeito-escola; e b) a perdas amostrais ocorridas nas ondas
subsequentes do projeto Geres. Todavia, houve uma perda amostral de 16 alunos
que não possuem proficiência na onda 1, embora tenham proficiências nas outras
ondas. Mas nessas as perdas são sempre maiores às da onda 1. Assim, os casos
considerados nas análises subsequentes se referem a 283 alunos e as suas
proficiências na primeira onda Geres. É lícito supor que o intervalo temporal
entre essa onda e a aplicação dos questionários não tenha prejudicado as
análises, uma vez que trabalhamos com disposições familiares que, sabidamente,
se modificam lentamente no tempo7.
Inicialmente, foram testados dois modelos: o primeiro, um modelo de regressão
simples, no qual o nível socioeconômico das famílias é a única variável
independente (modelo 1); e o segundo, que acrescenta ao primeiro as variáveis
indicadoras do tipo de escola frequentada (modelo 2). Este último foi tomado
como modelo básico. Em seguida, foram construídos 11 modelos nos quais os
fatores familiares foram incorporados, um de cada vez, ao modelo básico. O
propósito desses modelos parciais é o de estimar o efeito isolado de cada um
dos fatores no desempenho do aluno. Oito desses modelos tiveram um bom ajuste,
com coeficientes significativos para os fatores testados (modelos 3 ao 9)8.
Finalmente, foi ajustado um modelo incluindo todos os fatores que apresentaram
coeficientes significativos na etapa anterior, o qual denominaremos "modelo
final". Para constituí-lo, utilizamos uma técnica de seleção de subconjuntos de
variáveis denominada stepwise, que consiste em testar as variáveis
independentes, em diferentes combinações e ordens, até se chegar ao melhor
ajuste, no qual apenas algumas variáveis permanecem.
Na próxima seção, serão discutidos os resultados dos modelos 1 e 2, e dos
modelos parciais, 3 ao 9, a partir de uma breve síntese dos referenciais
teóricos que orientaram a construção do questionário e justificaram a
introdução de cada um dos modelos no estudo9. Em seguida, será realizada uma
análise do modelo final. A Tabela_1, no final da seção, sintetiza os parâmetros
obtidos em todos os modelos, ou seja, os coeficientes de regressão das
variáveis e os coeficientes de determinação (R2) que medem a qualidade do
ajuste dos modelos. No Apêndice, figuram a descrição das variáveis incluídas
nos modelos e suas estatísticas descritivas básicas, além da explicação dos
modelos estatísticos de regressão.

RESULTADOS
Modelo 1: nível socioeconômico (NSE)
A associação entre desempenho escolar e posição social é talvez a mais
importante e duradoura tese da Sociologia da Educação (Coleman et al., 1966).
Por isso, esse fator não poderia deixar de ser considerado, mesmo com a
relativa homogeneização socioeconômica da amostra, operada mediante a exclusão
das famílias da população Geres pertencentes ao quintil mais alto de NSE.
Neste artigo, assume-se que o NSE é um construto latente que expressa a relação
entre as dimensões nível de instrução e ocupação dos pais, além da renda
familiar, esta última medida de forma direta ou indireta pelo padrão de consumo
de bens e serviços da família10. O Gráfico_1 apresenta a relação entre o NSE
das 299 famílias e a proficiência dos alunos na onda 1. Cada ponto no gráfico
representa um aluno. Nota-se que há uma relação linear positiva entre as duas
variáveis, haja vista que a proficiência aumenta à medida que cresce o NSE. A
linha, ajustada por meio de uma equação de regressão linear simples, sintetiza
essa relação. Os pontos estão mais concentrados em torno da linha, mas,
obviamente, eles não caem exatamente na linha. O resultado do ajuste deste
modelo indica que o NSE "explica" 23% da proficiência (R2= 0,23 na Tabela 1)11.
Permanece ainda uma substancial variabilidade nos resultados, motivo pelo qual
procuramos formular modelos mais complexos.
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Modelo 2: tipo de escola
O sistema educacional brasileiro é bastante hierarquizado quanto à distribuição
de oportunidades escolares. As instituições de educação básica mantidas pelo
governo federal são reconhecidas pela excelência do seu ensino. Entretanto,
elas têm um número muito limitado de vagas, e o acesso é bastante restrito. As
escolas particulares, por sua vez, são uma opção apenas para as famílias com
melhores condições socioeconômicas. Para a maioria das famílias, as escolas
públicas estaduais e municipais constituem a única opção12.
Todavia, esse último segmento também não é homogêneo: algumas instituições de
ensino estaduais e municipais se distinguem pela reputação de boa qualidade. Os
critérios de distinção, no entanto, costumam ser difusos, tais como a percepção
do perfil dos alunos, o ambiente disciplinado, a fama sobre a qualidade do
ensino etc. (Costa, 2008; 2010). Esses atributos acabam por atrair famílias
dispostas a competir por suas vagas.
O fenômeno da disputa por vagas nas escolas públicas de maior prestígio tem
sido estudado por meio de uma categoria de análise denominada "quase mercado
escolar oculto" (Costa e Koslinski, 2011; 2012). A despeito das políticas de
setorização da matrícula impostas às famílias, estas se utilizam de estratégias
muitas vezes veladas para conseguir a vaga almejada. As escolas, por seu lado,
também de forma velada, podem adotar mecanismos, mais ou menos lícitos, para
selecionar alunos. Essas práticas, do lado da demanda e da oferta, contribuem
para reforçar a hierarquia entre as instituições de ensino públicas.
Em Belo Horizonte, as vagas nas escolas públicas são distribuídas - via
"cadastro escolar" - pelo critério de proximidade da residência do aluno.
Partimos da hipótese de que algumas famílias, mais mobilizadas, agiam de forma
velada para contornar o cadastro escolar e garantir que seus filhos fossem
designados para escolas públicas conhecidas por seu prestígio13. O interesse
pelo fenômeno da mobilização familiar justificou assim a distinção entre
escolas estaduais e municipais comuns e destacadas.
Uma vez que a "reputação" das escolas não é um atributo diretamente observado,
as escolas destacadas foram definidas como aquelas cujas médias estão situadas
no quintil superior do conjunto de médias da Prova Brasil de 200514. Assim, no
modelo 2 e subsequentes, foram considerados quatro tipos de escolas, cujas
proporções estão na Tabela 1, do Apêndice: (1) escolas estaduais e municipais
comuns; (2) escolas estaduais e municipais destacadas; (3) escola pública
federal; e (4) escolas privadas. A primeira categoria foi tomada como
referência.
O modelo 2 apresentou bom ajuste, com substancial melhora na explicação da
proficiência, haja vista que a inclusão das variáveis indicadoras dos tipos de
escola aumentou o coeficiente de determinação (R2 ajustado = 0,34), ou seja, os
tipos de escolas e o NSE, juntos, "explicam" 34% da variabilidade da
proficiência. Na análise dos fenômenos sociais, quando se utilizam informações
no nível dos indivíduos, valores dessa magnitude podem ser considerados muito
bons.
Para avaliar a pertinência da distinção entre escolas públicas destacadas e
comuns, testou-se também um modelo convencional apenas com as redes de
ensino15. O resultado praticamente não mudou (R2 ajustado = 0,33). Uma vez que
a separação dessas escolas nos permite obter resultados muito mais elucidativos
sobre as nossas questões de pesquisa, manteve-se a distinção. A mesma
estratégia analítica foi utilizada por F. Alves (2010), em estudo com os dados
do projeto Geres na cidade do Rio de Janeiro, e se revelou crucial para o
entendimento das escolhas educativas das famílias que matriculam os filhos na
rede pública.
Considerando este modelo 2 como básico, ou seja, assumindo suas variáveis como
controle, foram testados na sequência, um a um, os fatores de interesse da
pesquisa.16
Modelo 3: conhecimento do sistema de ensino
O modelo 3 testa o efeito do fator "conhecimento do sistema de ensino" na
proficiência, com o controle do NSE e dos tipos de escola. Observa-se, na
Tabela 1, que o modelo melhora a explicação da variação dos resultados dos
alunos (R2 ajustado = 0,38) e o coeficiente associado ao fator, como esperado,
está positivamente associado à proficiência. Esse construto foi medido por meio
de seis itens do questionário que buscavam captar o conhecimento dos pais sobre
a qualidade das escolas de ensino básico e superior da cidade de Belo
Horizonte17 e sobre a existência de faculdades gratuitas, além de três questões
gerais, a saber: "o que é vestibular?", "o que é o Enem"? "o que é o Prouni"?
Esse fator, também denominado "capital informacional" por alguns autores
(Millete e Thin, 2005; Van-Zanten, 2009; Brandão, Mandalert e Paula, 2005),
refere-se à detenção, pela família, de um conjunto de conhecimentos e
informações pertinentes sobre a organização e o funcionamento interno da
instituição escolar, seus valores e hierarquias, seus métodos e linguagens
etc., os quais constituiriam vantagens altamente rentáveis no mercado escolar
ou, em outros termos, no processo de produção do valor que a escola confere ao
aluno; valor esse que se expressa, sobretudo, em seus resultados acadêmicos, em
particular nas notas a ele atribuídas.
De um modo geral, o papel do capital cultural da família no sucesso escolar dos
filhos já foi fartamente demonstrado por toda uma literatura sociológica de
âmbito internacional que se seguiu à publicação das primeiras obras de Bourdieu
e Passeron (1964; 1970) que, pioneiramente, a partir dos anos 1960, postularam
a importância fundamental desse fator na explicação das desigualdades sociais
de escolarização.
Na tentativa de conhecer as mediações pelas quais esse tipo de riqueza familiar
impacta o desempenho escolar, Bourdieu (1998a) detectou três diferentes
modalidades que o capital cultural pode assumir, a saber:
a) uma forma dita "incorporada" porque se integra ao corpo de uma pessoa,
passando a fazer parte de suas propriedades físicas (ex.: posturas corporais,
esquemas mentais, conhecimentos, habilidades linguísticas, preferências
estéticas etc.);
b) uma forma dita "objetivada" porque se materializa na forma de bens palpáveis
que representam a cultura dominante (ex.: livros, obras de arte e todos os
outros suportes materiais de cultura, como computadores etc.);
c) uma forma dita "institucionalizada" porque atesta o reconhecimento
institucional de competências culturais (ex.: o diploma).
Já em inícios da década de 1960, Bourdieu via no que hoje se chama de capital
informacional uma dimensão importante do capital cultural em seu estado
"incorporado", defendendo que as informações sobre o mundo da escola e sobre os
percursos escolares constituem "a parte do capital cultural que é a mais
diretamente rentável na vida escolar" (Bourdieu, 1998b:44). O que o levava a
tal afirmação era a convicção de que as famílias possuidoras de tais
informações as convertem em trunfos na medida em que - com base nessas
informações - logram realizar os investimentos escolares mais rentáveis, na
forma da escolha adequada - e no momento certo - do estabelecimento de ensino,
do curso, das opções curriculares etc.
Porém, só mais recentemente é que os sociólogos começaram a esmiuçar essas
condutas estratégicas, passando a observar como, no dia a dia da vida
doméstica, os genitores - particularmente, as mães (Establet, 1987) - mobilizam
seu patrimônio de conhecimentos na organização de um apoio pedagógico
permanente que dá suporte, complementa e amplia a ação cognitiva da escola.
Esses estudos vêm demonstrando que, cada vez mais informados - inclusive em
virtude do surgimento de uma indústria de publicações mais ou menos
especializadas e do contato mais frequente com outros genitores (informações
"quentes") - , alguns pais "desenvolvem um acompanhamento mais estreito e mais
adaptado às exigências da escola" e às características escolares dos filhos
(Van Zanten, 2009:106). E que, em suma, eles assumem um papel pedagógico
paralelo ao da escola, o qual abrange atividades como: "explicar novamente as
aulas"; "criar, a partir de livros didáticos, jogos para reforçar e desenvolver
os conhecimentos escolares" (Duru-Bellate Van Zanten, 2006:165); "estender e
enriquecer os deveres de casa"; "transmitir métodos de trabalho" (Van Zanten,
2009:105-106), entre tantos outros. Sem falar do fato de que são os pais mais
"informados" que são os mais "aptos" a "dominar as situações de interação" com
os profissionais da escola e a "desenvolver projetos individuais", visando à
boa escolaridade dos filhos (Duru-Bellat e Van Zanten, 2006:174).
Modelo 4: posse de bens culturais
O modelo 4 testa o fator "posse de bens culturais" e, tal como o modelo
anterior, o coeficiente estimado é significativo e no sentido esperado, além de
também apresentar a mesma qualidade do ajuste. Esse construto foi medido por
meio de dez itens do questionário relativos à existência no domicílio de bens
como: dicionários, enciclopédias, atlas, livros de literatura, livros infantis,
jornais, revistas, computador com acesso à internet etc.
Como se viu no item anterior, trata-se aqui do estado "objetivado" do capital
cultural que se expressa na posse, pela família, de bens e suportes materiais
de cultura que são capazes de exercer um efeito positivo sobre o rendimento
escolar. Mais especificamente, este fator diz respeito ao acesso domiciliar da
criança a materiais culturais e paradidáticos como: enciclopédias, dicionários,
atlas, calculadoras, jogos, brinquedos e CD-ROMs educativos, internet etc.
É evidente que essa forma de capital cultural é altamente dependente dos
recursos econômicos da família, mas ela depende também de seus "valores
intrínsecos" (Soares e Collares, 2006:621) que configuram um estilo de vida e
orientam a aquisição deste ou daquele tipo de bens de consumo. Como este último
ponto diz respeito diretamente ao estado "incorporado" do capital cultural, é
lícito concluir que a detenção de recursos financeiros é condição necessária,
mas não suficiente para garantir o capital cultural "objetivado".
Além disso, segundo Bourdieu (1998a), a característica mais marcante dessa
última forma de capital cultural reside no fato de que sua simples propriedade
legal não garante seu efetivo usufruto cultural, o qual, mais uma vez, depende
do capital cultural "incorporado", que é condição da "apropriação", ou seja,
condição para que se tire proveito intelectual desse recurso.
Portanto, para que haja ganho cognitivo decorrente dos bens materiais de
cultura disponíveis na residência (e supostamente reconvertidos em rendimento
escolar), é preciso ainda que existam na família disposições culturais que
ativem de modo simbólico essa forma de riqueza cultural, na forma de seu uso e
de seu "bom" uso.
As pesquisas de Lahire, em meios populares franceses, ilustram esse ponto.
Nelas, ele se defrontou com situações em que objetos comprados com muito
sacrifício financeiro pelas famílias permaneciam como "letra morta", um
"patrimônio cultural morto, não-apropriado, in-apropriado" porque os pais não
desempenhavam o "papel de intermediários" entre os filhos e os bens de cultura,
não "conseguiam acompanhá-los na descoberta desses objetos" (cf. Lahire, 1994:
91), "não desenvolviam estratégias de apropriação dos textos pelos filhos"
(idem:92), na medida em que: eles mesmos nunca forneciam o exemplo próprio de
utilização desses materiais; evidenciavam sua pouquíssima familiaridade com
eles; ou, até mesmo, dificultavam seu uso, em nome da boa conservação material
de objetos dispendiosos.
Modelo 5: práticas cotidianas de escrita
O modelo 5 atesta o valor significativo do índice composto pelas variáveis
relacionadas às "práticas cotidianas de escrita". A qualidade do ajuste do
modelo que incluiu esse fator é equivalente à dos modelos parciais analisados
até aqui.
A Sociologia da Educação já reconhece há muito tempo a importância da
familiaridade com a norma culta da língua, particularmente na sua forma
escrita, como um dos fatores favorecedores do sucesso escolar (Forquin, 1995;
Bautier, 2011). Na verdade, a discussão sobre o papel do domínio da norma culta
da língua na constituição das desigualdades frente à escola é uma especificação
da discussão mais ampla, sintetizada acima nas seções, Conhecimento do Sistema
de Ensino e Posse de Bens Culturais, sobre os efeitos escolares da posse
familiar do capital cultural. A escola esperaria de seus alunos e premiaria em
seus processos avaliativos o domínio de uma determinada variante da língua,
aquela constituída historicamente em sintonia com a emergência do texto escrito
e que é legitimada oficialmente, entre outras coisas, por meio da imposição de
uma norma gramatical única (Lahire, 1993). Esse padrão linguístico dominante
não estaria distribuído na população de modo aleatório, mas, ao contrário,
seria próprio das camadas sociais mais favorecidas, justamente aquelas que já
tiveram contatos anteriores mais significativos com o mundo da leitura e da
escrita. Tem-se, assim, a constatação de um círculo vicioso, no qual aqueles
historicamente menos impregnados pela cultura ou, mais especificamente, pela
linguagem valorizada pela escola têm menores chances de serem bem-sucedidos no
interior das escolas e, assim, de superarem suas desvantagens.
Inspirados, sobretudo, pela abordagem de Lahire (1997), buscamos investigar o
impacto dos usos menos formais da escrita no cotidiano familiar, usos muitas
vezes nem mesmo reconhecidos como práticas de escrita, seja por parte dos
pesquisadores, seja pelos próprios sujeitos. Assim, consideramos se as famílias
fazem lista de compras antes da ida ao supermercado, se utilizam agenda ou
listam as tarefas diárias, se fazem planejamento, por escrito, das despesas de
cada mês, se mantêm caderno de receitas, se deixam bilhetes escritos uns para
os outros e, finalmente, se redigem e-mails e cartas.
Lahire salienta que essa presença não explícita da escrita no cotidiano
familiar pode impactar positivamente a escolarização dos filhos basicamente de
duas formas. A primeira, mais evidente, consiste numa preparação informal da
criança para os usos da escrita que lhe serão exigidos no âmbito escolar. O
argumento é o de que as crianças que já convivem com a escrita em seu cotidiano
familiar estariam mais aptas a atender, com facilidade e naturalidade, às
expectativas e exigências do uso escolar da escrita.
Mas a hipótese central de Lahire é a de que o uso da escrita no cotidiano
familiar teria ainda um impacto indireto e mais difuso sobre a escolarização
das crianças, ao favorecer a emergência de disposições mais racionais relativas
ao uso do tempo, ao planejamento e organização das atividades diárias e até
mesmo à ordenação do próprio pensamento. Na pesquisa, investigamos os possíveis
efeitos de uma racionalização do cotidiano familiar por meio de um índice
próprio ("ordem racional doméstica"), discutido a seguir.
Modelo 6: ordem racional doméstica
O modelo 6, também com bom ajuste, corrobora - por método quantitativo - a tese
sustentada por Lahire sobre o impacto positivo que um ambiente familiar
racionalmente ordenado pode ter sobre o desempenho escolar.
Conforme apontado no item anterior, Lahire (1997:21) observa que certas formas
de presença da escrita no cotidiano familiar (agenda, lista de compras, lista
de coisas a fazer, livro de contas, caderno de receitas, caderneta de
endereços, lembretes, bilhetes etc.) estão associadas a "uma gestão mais
racional, mais calculada e, com isso, menos imediata e menos espontânea das
atividades familiares". A escrita funcionaria nesses casos como um instrumento
de ordenação da vida cotidiana, favorecendo o cálculo dos gastos e a previsão
das despesas domésticas, o estabelecimento de horários para as diferentes
atividades, o cumprimento de compromissos, a comunicação eficiente entre os
membros da família ou desses com outras pessoas, a contenção de impulsos de
consumo imediatos e o planejamento e a realização de projetos de mais longo
prazo.
Haveria, portanto, em certas famílias, um ordenamento mais racional da vida
cotidiana, favorecido pelo uso da escrita. Esse ordenamento se evidenciaria,
por um lado, na gestão da vida econômica da família e, por outro, no que ele
chama de ordem moral doméstica. Em relação à dimensão econômica, tenderia a
prevalecer nessas famílias o planejamento, a previsão, o cálculo, o
estabelecimento de metas prioritárias e um esforço de poupança, com vistas à
realização de objetivos de longo prazo. No que se refere à chamada ordem moral
doméstica, Lahire observa que são famílias nas quais existem regras claras em
relação ao comportamento dos filhos: exigências de cumprimento das tarefas
escolares, controle do tempo dedicado à televisão ou à internet, restrições das
saídas noturnas e definição de um horário para dormir, entre outras coisas.
A hipótese de Lahire é a de que essa ordem doméstica, material e moral, teria
um impacto positivo sobre a escolarização dos filhos na medida em que os
prepararia para o cumprimento das regras do jogo escolar, ou para o desempenho
do ofício de aluno, como diria Perrenoud (1995). O sucesso escolar depende em
parte da capacidade do aluno de se organizar para o cumprimento das tarefas
escolares, de distribuir bem o seu tempo, de ser capaz de se esquivar das
distrações e se dedicar com responsabilidade às suas obrigações de estudante. O
aluno socializado num ambiente familiar racionalmente ordenado estaria, assim,
em clara vantagem.
Em última instância, a tese de Lahire é a de que as ordens material e moral
domésticas se traduzem numa ordem cognitiva, que se evidencia não apenas num
comportamento mais reflexivo, ponderado, previsível, mas em formas mais
racionais de organização do pensamento e da linguagem. Ele chama a atenção para
o fato de que a produção de um texto explicativo ou argumentativo, componente
usual das atividades escolares, supõe a ordenação e o encadeamento lógico,
racional, dos argumentos, de modo a construir uma estrutura que faça sentido.
Na perspectiva dele, a capacidade de produção desse tipo de ordenamento
cognitivo do pensamento e do discurso seria favorecida pela socialização em um
ambiente igualmente organizado. O impacto da existência de uma ordem familiar
racionalmente organizada se faria sentir, assim, nas duas dimensões principais
em relação às quais os alunos são avaliados na escola, a comportamental e a
cognitiva.
Nesta pesquisa, em que pese a amplitude da noção de ordem racional doméstica,
optamos por nos restringir, na construção do índice relativo a esse tema, às
informações obtidas a partir de três questões. A primeira é relativa ao modo
como as famílias organizam seus documentos (contas a pagar e já pagas, recibos,
documentos pessoais etc.): misturados e em qualquer lugar da casa; misturados,
mas em um lugar específico; separados, classificados e colocados em lugares
diferentes. A segunda é concernente à capacidade da família de planejar o
futuro, estabelecendo e cumprindo objetivos de mais longo prazo. A terceira é
relativa ao modo de gestão da vida econômica, verificando a habilidade da
família para conter seus impulsos imediatos de consumo, visando economizar
parte da renda familiar.
Modelo 7: práticas familiares de leitura
O modelo para testar as "práticas familiares de leitura" apresenta um
coeficiente significativo e positivo para o fator, confirmando, mais uma vez, o
conhecimento, já consolidado na área de Sociologia da Educação, da importância
da familiaridade com a língua padrão, como um elemento favorecedor do
desempenho escolar (Forquin, 1995). Do mesmo modo que na discussão realizada
anteriormente, relativa à importância da escrita, é possível argumentar que a
presença da leitura no cotidiano familiar prepara a criança para lidar com
maior facilidade e naturalidade com todas as práticas escolares nas quais essa
habilidade será exigida (Lahire, 1993; Bautier, 2011). É preciso lembrar que,
além de ser estudada em si mesma - constituindo, sobretudo nos anos iniciais da
Educação Básica, um objeto central do currículo - a leitura é, também, um
instrumento necessário para a realização eficiente de todas as demais
atividades escolares, incluindo o aprendizado de todos os outros conteúdos
disciplinares.
No âmbito desta pesquisa, investigamos a existência de leitores na família
(pai, mãe ou outras pessoas), a frequência de sua prática de leitura (diária,
semanal ou mais esparsa) e o tipo de suporte (livros, jornais ou revistas).
Averiguamos ainda se os adultos têm o hábito de ler para as crianças e se a
família costuma conversar sobre o que lê. Considerando o objetivo de examinar
os efeitos das práticas familiares de leitura sobre o desempenho escolar,
seria, sem dúvida, importante realizar também uma análise do conteúdo das
leituras: verificar quais livros, jornais e revistas são escolhidos e quais
seções são selecionadas, no caso dos periódicos e jornais. Essa análise mais
detalhada não foi possível, no entanto, nos limites do questionário.
Modelo 8: ambição escolar
O modelo 8 testa o fator "ambição escolar", e o resultado do ajuste desse
modelo é comparável ao do modelo 7. O valor significativo e positivo do
coeficiente do fator atesta a importância das aspirações educacionais das
famílias nos processos educacionais. No âmbito desta pesquisa, o nível de
ambição escolar das famílias foi apreendido a partir de três dimensões: o grau
de escolaridade que os pais acham necessário que os filhos alcancem; a idade em
que acham que eles devem começar a trabalhar; a importância que atribuem ao
ensino superior como elemento definidor de um futuro bem-sucedido.
As grandes pesquisas estatísticas sobre as desigualdades escolares realizadas,
nos países desenvolvidos, no período pós-Segunda Guerra Mundial, já apontavam
que as famílias não se diferenciavam apenas em relação ao nível de desempenho
escolar alcançado por seus filhos, mas igualmente por seu grau de aspiração
escolar (Forquin, 1995). Desde então se tem observado, com frequência
(Brinbaum, 2011), famílias que têm filhos com resultados escolares equivalentes
desenvolverem expectativas bastante diferenciadas e tomarem decisões mais ou
menos ambiciosas: parar ou continuar os estudos, optar por ramos de estudos de
maior ou menor prestígio, escolher estabelecimentos de ensino mais ou menos
seletivos etc. De acordo com a teoria de Bourdieu (1998; 2007), essas
diferenças no grau de aspiração escolar são manifestações de um habitus
constituído em função das condições objetivas de existência. Em função de sua
localização no espaço social - e, portanto, do volume e peso relativo dos
diferentes capitais (econômico, cultural, social etc.) no seu patrimônio - ,
cada grupo social constituiria um conhecimento prático sobre o que está ou não
ao seu alcance e sobre as estratégias mais viáveis a serem utilizadas para
garantir a manutenção ou ascensão em relação à posição social ocupada. No que
se refere à educação, o grau de aspiração e de investimento das famílias
dependeria basicamente do volume de capital cultural possuído, que definiria a
probabilidade objetiva do êxito escolar, e do peso relativo desse capital no
conjunto do patrimônio familiar, que estabeleceria o quanto a posição social
atual ou futura depende especificamente da posse de certificados escolares. Os
grupos sociais com maiores chances de alcançar o sucesso escolar e que mais
dependem dele para se manter ou ascender socialmente tenderiam a apresentar
níveis de aspiração e graus de investimento mais elevados na escolarização dos
seus filhos. É tipicamente o caso das classes médias. Inversamente, aqueles
grupos cujo sucesso escolar é menos provável, pela falta do capital cultural,
ou que dependem menos desse sucesso, por possuírem outros recursos, tenderiam a
apresentar graus de aspiração e investimento escolares menos acentuados. É,
respectivamente, o caso das classes populares e das elites econômicas.
É interessante observar que, embora existam críticas importantes ao modo como
Bourdieu concebe o processo de constituição das aspirações em relação à escola,
e que sejam propostas teorias alternativas, não parece existir uma contestação
frontal da importância desse fator como elemento a ser considerado na
explicação das desigualdades escolares. O modelo teórico de Boudon (1979;
2000), por exemplo, classicamente contraposto ao de Bourdieu, sustenta que o
nível de aspiração não seria estabelecido de maneira tão durável por um suposto
processo de socialização, do qual resultaria o habitus, mas que seria fruto de
uma avaliação racional por parte dos atores, refeita a cada momento, em função
das condições objetivas em que se encontram, dos custos, riscos e benefícios do
investimento escolar. A discordância aqui é, sobretudo, em relação ao grau de
estabilidade dos níveis de aspiração e ao modo mais ou menos consciente e
racional como esses são estabelecidos. No entanto, no que concerne à relevância
desse fator para a explicação das desigualdades escolares, Boudon lhe confere
uma importância ainda maior do que o faz Bourdieu. Segundo ele, enquanto as
diferenças de sucesso escolar, relacionadas ao nível de capital cultural
familiar, afetam as trajetórias escolares basicamente nos anos iniciais de
estudo, as diferenças de orientação, diretamente associadas aos níveis de
aspiração escolar, afetariam todo o percurso de escolarização.
Modelo 9: interação pais/filhos
O modelo 9 confirma que a "interação pais/filhos" é positivamente associado à
proficiência. O fator foi composto a partir dos seguintes itens do
questionário: conversas dos pais com o filho sobre a escola, sobre o que o
filho vê na TV, sobre o que lê, sobre o que os pais leram, sobre o futuro;
prática de algum esporte junto com o filho; realização de jogos (dama, jogos
infantis, baralho etc.) e passeios (parques, praças, sítios, museus e
exposições) com o filho.
Coleman (1997) é um dos autores cujas abordagens fundamentaram a construção
desse fator. Ele destaca, como um dos componentes do background familiar, o
capital social, o qual, referente às relações no contexto familiar18,
incluiria, dentre outros aspectos, a presença física dos adultos e a atenção
por eles dispensada às crianças, em interações que permitem a elas o acesso ao
capital humano (representado pela escolaridade) dos pais ou parentes próximos,
ou que podem até mesmo compensar a falta de capital humano.
Alguns trabalhos recentes vêm demonstrando a variação dos estilos de interação
entre pais e filhos conforme a classe social, o nível de instrução dos pais, o
tipo de família, a divisão de papéis educativos entre pai e mãe, dentre outros.
Conforme Le Pape e Van Zanten (2009), vários estudos apontam que, nos meios
populares, as relações entre pais e filhos são mais hierarquizadas, com
fronteiras mais claras. Nas classes médias e superiores predomina uma relação
mais horizontal, que valoriza a autonomia, a iniciativa, a negociação - valores
esses atualmente mais consoantes com as práticas escolares.
Um dos estudos mencionados pelas autoras é o de Lareau (2007). A partir de
investigação etnográfica realizada nos Estados Unidos com famílias de classes
sociais e grupos étnicos diferentes, essa pesquisadora constatou, na maior
parte das famílias de classe média, que os pais envolvem os filhos em um grande
número de atividades organizadas e específicas para sua idade, com o objetivo
de desenvolver neles habilidades e talentos considerados úteis para a vida.
Assim, desenvolvem interações com os filhos nas quais o uso da linguagem e da
razão, bem como o diálogo como forma de disciplina, são enfatizados. Esses pais
tendem ainda a conversar bastante com os filhos sobre as diferentes situações
do cotidiano, estimulando-os a expressar opiniões, ideias e necessidades. Já na
maior parte das famílias de classes trabalhadoras e pobres, Lareau e sua equipe
não identificaram uma preocupação específica com o desenvolvimento de talentos
ou das habilidades de linguagem e de negociação. Grandes discussões verbais não
são frequentes e não se verifica um cuidado particular dos pais com as
oportunidades de expressão ou de desenvolvimento do pensamento crítico dos
filhos.
Segundo Lareau (2007), as crianças de classes médias, em interações com
profissionais como médicos e educadores, mostram-se mais seguras e assertivas
do que as crianças das classes trabalhadora e pobre, o que permite supor que
haja desdobramentos desses estilos de educação também no que se refere ao
desempenho escolar propriamente dito.
Alguns estudos já realizados no Brasil permitem, também, sustentar a hipótese
da relação entre interações pais/filhos e o desempenho escolar. Soares e
Collares (2006) trabalharam com dados do Sistema de Avaliação da Educação
Básica para avaliar a relação entre recursos familiares e desempenho cognitivo
de alunos da 8a série (atual 9o ano) do ensino fundamental. Na discussão dos
resultados, destacaram o envolvimento dos pais (indicador que registra o grau
de participação dos pais tanto na vida diária quanto no acompanhamento escolar
dos filhos, incluindo itens como conversas com os filhos, refeições em comum
etc.), atribuindo a ele um "papel de ativação dos recursos culturais" (p. 636)
que permitiria concretizar, no desempenho dos alunos, as vantagens econômicas e
culturais da família.
Outro estudo, realizado por Bonamino et al. (2010), utilizou dados do Programa
Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa), de 2000, para verificar a
relação entre os efeitos dos diferentes tipos de capitais e de sua mobilização
familiar sobre o desempenho em leitura dos alunos participantes (com idade de
15 anos). Com relação ao capital social, utilizou-se, além de outras variáveis,
um indicador de "diálogo familiar" que incluiu itens como: conversas com os
filhos sobre assuntos políticos, sociais, sobre livros, filmes, programas de
TV, refeições realizadas em conjunto e outros. Os resultados apontaram uma
forte correlação entre diálogo familiar e desempenho escolar, sendo que, em
média, os estudantes de todos os grupos sociais investigados se beneficiaram de
seu efeito positivo.
Modelo final
Após analisar cada um dos fatores separadamente, investigou-se o efeito de
todos os fatores familiares no desempenho do aluno tal como eles atuariam
conjuntamente na realidade social, segundo os referenciais analíticos
anteriormente discutidos. Entretanto, a transposição da teoria para o modelo
estatístico esbarra no limite da técnica utilizada neste trabalho. Sabe-se que
muitos desses fatores apresentam forte correlação entre si. Ou seja, embora as
dimensões familiares focalizadas na pesquisa sejam teoricamente sólidas e
tenham sido empiricamente confirmadas, por meio de análises prévias, esses
fatores poderiam, uma vez misturados em um modelo de regressão múltipla, se
confundir. Nesse caso, a presença concomitante de todos eles, ao contrário de
melhorar o ajuste do modelo, pode produzir coeficientes não significativos.
Há várias técnicas estatísticas que auxiliam a construção de modelos de
regressão mais complexos e com muitas variáveis independentes. Utilizamos aqui
uma técnica denominada stepwise, que testa, em passos sequenciais, subconjuntos
alternativos de variáveis até que se chegue ao melhor ajuste19.
Para a construção desse modelo, foram necessários seis passos. No primeiro, a
variável que individualmente apresentou o maior coeficiente de regressão foi
"conhecimento do sistema de ensino". Ela resistiu aos testes subsequentes até o
modelo final, no qual permaneceram, além dela, o NSE, as três indicadoras do
tipo de escola (pública destacada, pública federal e escola privada) e a "posse
de bens culturais".
Esse modelo final, cuja síntese se encontra na última coluna da Tabela 1, ao
final desta seção, apresentou o maior coeficiente de determinação (R2 ajustado
= 0,39), o que significa que essas variáveis juntas "explicam" 39% variação na
proficiência. Além disso, todos os coeficientes de regressão, como esperado,
são positivos e significativos. Assim, o coeficiente do NSE indica que, a cada
incremento nesse indicador, o aluno ganha em média 9,6 pontos na escala de
proficiência Geres.
Quanto ao tipo de escola, a leitura do resultado deve considerar a escola comum
como referência. Dessa forma, um aluno que estuda na escola pública destacada
obtém, em média, 6,7 pontos a mais do que obteria, se estudasse em uma escola
pública comum; um aluno que estuda na escola pública federal ganha, em média,
13,2 pontos a mais do que ganharia se estudasse em uma escola pública comum; e
um aluno que estuda em uma escola privada obtém, em média, 21,1 pontos a mais
do que obteria se estudasse em uma escola pública comum20.
Os dois fatores das dimensões familiares que permaneceram no modelo final têm
coeficientes positivamente associados à proficiência. Observa-se que, a cada
incremento na escala do fator "posse de bens culturais", o aluno ganha em média
4,7 pontos; e, em relação ao fator "conhecimento do sistema de ensino", o
efeito é de 4,9 pontos.
O significado desses valores torna-se mais claro quando os situamos na escala
Geres, na qual se espera que, a cada ano de escolaridade, os alunos ganhem em
média 50 pontos. Portanto, os resultados do modelo final evidenciam a grande
vantagem dos alunos matriculados na rede particular de ensino, mesmo na
presença de outros fatores. Este último fato torna-se ainda mais contundente
quando se tem em mente que o segmento da rede privada considerado nesta
pesquisa não se destaca por um alto padrão de excelência escolar e, por isso,
não deve ser confundido com o segmento que atende as elites culturais e
econômicas21.
Quanto aos fatores familiares que permaneceram no modelo final, uma maneira de
examinar seu efeito consiste em compará-lo com o modelo 2, ou seja, com o
modelo que contém apenas as variáveis de controle. Nota-se assim que, no modelo
final, a "posse de conhecimentos sobre o sistema de ensino" e a "posse de bens
culturais" afetam mais fortemente os coeficientes do NSE e da escola pública
federal (redução no valor do coeficiente em 48% e 30%, respectivamente). No
caso da escola privada, a redução do coeficiente fica num patamar intermediário
(16%) e no da escola pública destacada a redução é muito menor (6%).
Embora se saiba que a escolaridade dos pais constitui um dos itens sintetizados
no NSE e represente uma das formas do capital cultural, a redução no valor do
coeficiente de regressão na presença dos fatores "informações sobre o sistema
escolar" e "posse de bens culturais" indica que essas outras dimensões do
capital cultural podem "compensar" o NSE das famílias. A evidência sugere que
se trata de dimensões independentes, mas que colaboram, em conjunto, para o
desempenho dos alunos.
Quanto à escola pública federal, a redução de seu coeficiente de regressão, no
modelo final, em comparação com o coeficiente do modelo 2, indica que as
famílias usuárias dessa instituição de ensino são mais bem aquinhoadas em
relação aos atributos familiares - acima referidos - escolarmente rentáveis
para os alunos. Essa escola pertence a uma grande universidade federal, o que
lhe garante um prestígio local. Porém, o sistema de ingresso se dá por meio de
sorteio, o que, em princípio, deveria produzir certa aleatoriedade no perfil
sociocultural das famílias contempladas. Entretanto, o resultado deste estudo
coloca dúvidas sobre isso. A vantagem dos alunos dessa escola, em relação aos
alunos das escolas públicas comuns, é impulsionada em parte porque eles têm
mais probabilidade de pertencer a famílias com mais alto capital
informacional22 e mais elevada posse de bens culturais. Assim, um aluno da
escola federal, dadas as características de sua família, poderia compensar a
vantagem de um aluno da escola privada menos dotado desses atributos
familiares. Esse resultado vem confirmar estudo recente (Resende, Nogueira e
Nogueira, 2011) que demonstra que as famílias da escola federal fizeram
escolhas mais acadêmicas do que práticas, ao optar pelo estabelecimento de
ensino. Isso evidencia que a aleatoriedade da população submetida ao sorteio é
apenas relativa.
A ausência, no modelo final, de efeitos significativos para os outros fatores -
não obstante os efeitos significativos observados quando eles foram analisados
um de cada vez, juntamente com as variáveis de controle - não deve ser
interpretada como se eles fossem irrelevantes. De fato, o efeito relativo de
múltiplos fatores é algo muito difícil de ser calculado, pois depende não
apenas do número de casos e de variáveis, mas também da correlação entre elas.
Todavia, os resultados dos fatores analisados individualmente, à luz da teoria
sociológica sobre a relação família-escola, fornecem boas pistas para o
conhecimento das dinâmicas familiares e de suas consequências para o rendimento
escolar, o que justifica a continuidade desse programa de investigação.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O programa de pesquisa do qual decorre este artigo constitui uma tentativa de
contribuir com as investigações que buscam avaliar a influência das famílias no
desempenho escolar dos filhos, a partir de diferentes níveis de análise ou
escalas de observação. A partir dos anos 1980, observa-se uma proliferação de
estudos microssociológicos sobre a relação família-escola (baseados em análises
de trajetórias, realização de entrevistas, observações), os quais, colocando
esse objeto em evidência no campo da sociologia da educação, têm produzido uma
grande quantidade de resultados que, embora revelando nuances importantes dos
processos de construção das desigualdades escolares, correm o risco de gerar
uma dispersão de dados que não contribuem para compreender as configurações
mais gerais desses processos na estrutura social.
Diante dessa constatação, a pesquisa em pauta neste texto buscou reunir, em um
mesmo instrumento de resposta objetiva, diferentes variáveis familiares que vêm
sendo apontadas pela literatura como influentes no desempenho escolar dos
filhos, a fim de ponderar seus efeitos relativos e verificar como interagem na
configuração das desigualdades de desempenho dos alunos investigados. Para
isso, assumiu-se o desafio de abordar, por meio de questionário, construtos que
vêm sendo elaborados a partir de abordagens predominantemente qualitativas, na
busca de confirmá-los (ou não) quantitativamente. Os resultados encontrados
confirmam a significância, para essa análise, de aspectos como: o NSE familiar;
o tipo de estabelecimento de ensino frequentado; o capital de conhecimentos
sobre o sistema de ensino; a posse de objetos culturais; as práticas cotidianas
de escrita; a racionalização da vida doméstica; as práticas familiares de
leitura; a ambição escolar parental; as interações entre pais e filhos.
Uma das principais contribuições deste trabalho consiste em testar esses
fatores em um contexto no qual - além do controle do NSE e do tipo de escola -
configurou-se uma relativa homogeneização da amostra no que refere aos aspectos
socioeconômicos. Ou seja, para além da velha contraposição entre elites,
classes médias e classes populares, o que se encontra são diferenças e
desigualdades entre as famílias, no interior de um grupo bastante próximo em
termos de macroclassificações socioeconômicas - pertencente às camadas médias
baixas e às camadas populares.
Como se viu, ao serem incluídos em um mesmo modelo, nem todos os fatores
testados se mantiveram significantes, o que em absoluto invalida sua
importância individual. Não se trata, portanto, de afirmar que aqueles fatores
que não tiveram significância no modelo final não tenham efeito sobre o
desempenho; pode ocorrer que, na presença de diversas variáveis inter-
relacionadas, o modelo não consiga estimar esse efeito adequadamente,
especialmente porque, nesse caso, busca-se explicar as variáveis no mesmo nível
de correlação. Uma perspectiva que se abre para trabalhos futuros com a mesma
base de dados é a realização de modelos de equações estruturais, que possam
incluir e explorar ideias de causalidade entre os fatores.
Da mesma forma, o fato de alguns itens presentes no questionário não terem se
mantido como fatores após a Análise Fatorial Confirmatória (como foi o caso de
"concepção sobre brincadeiras" e "atividades extraescolares"), ou terem se
mantido, mas com conteúdo teoricamente insatisfatório (como foi o caso de
"concepções sobre a infância"), ou ainda de fatores confirmados na AFC não
terem se mostrado significativos nos modelos de regressão realizados (como
"acompanhamento do dever de casa", "ações na escolha da escola" e "autonomia/
heteronomia") não exclui sua relevância para outros estudos quantitativos e
qualitativos. Alguns desses fatores, como "concepção sobre brincadeiras" e
"autonomia/heteronomia" referem-se justamente a aspectos difíceis de serem
captados por questões objetivas, sendo necessário um aperfeiçoamento dos
instrumentos a fim de efetuar sua análise com maior segurança.
Ainda com relação aos resultados do trabalho e considerando o modelo final, um
aspecto que chama a atenção é o forte efeito do tipo de escola frequentada, o
que mais uma vez confirma a perversa desigualdade interna ao sistema
educacional brasileiro, ainda longe de lograr uma escola pública realmente
democrática no sentido de oferecer ensino de qualidade para todos. No caso
deste trabalho, os dados se mostram mais contundentes quando se considera que a
amostra, formada basicamente por famílias de camadas médias baixas ou de
classes populares, não inclui nenhuma criança matriculada nas escolas de maior
prestígio de Belo Horizonte. De fato, as escolas privadas envolvidas no estudo
são, em sua maioria, instituições de pequeno porte que, até certo ponto,
"disputam" alunos com o setor público. Ainda assim, a diferença de proficiência
identificada ao se passar da escola pública comum para a escola privada foi
muito significativa.
Finalmente, vale ressaltar que, se na pesquisa que gerou este texto se fez um
movimento de tentar apreender quantitativamente variáveis até então abordadas
predominantemente de modo qualitativo, o "jogo de espelhos" teórico-
metodológico (Brandão, 2008) pressupõe, agora, que se busque refinar as
análises com uma nova etapa de investigações, na qual um subgrupo de famílias
de nossa amostra possa ser ouvido em profundidade. Como vem apontando a
literatura sobre desigualdades sociais de escolarização, é claramente na
configuração de diferentes fatores no interior de um mesmo caso (Lahire, 1997)
que se encontra a explicação para situações de sucesso e de fracasso escolar. O
estudo qualitativo permitirá, assim, compreender melhor o sentido das
diferentes respostas, analisar as configurações específicas e aproximar-nos do
sentido das ações detectadas, neste tratamento estatístico, de modo agregado.
NOTAS
1. Em que pese a recente publicação do livro de Barbosa (2009) que explorou a
relação entre desempenho escolar de alunos de escolas públicas de Belo
Horizonte e o capital social familiar.
2. Para maiores informações sobre o Projeto Geres, consultar Franco, Brooke e
Alves (2008).
3. No plano amostral do Projeto Geres, a base para a seleção da amostra do
setor privado incluiu apenas estabelecimentos de ensino com até três turmas
para cada série. Assim, os grandes colégios privados da cidade, inclusive os de
maior prestígio, não estão representados.
4. Como as variáveis são ordinais, o ajuste do modelo da AFC foi feito com um
estimador robusto do software MPLUS denominado Mean and variance-adjusted
weighted least squares estimator (WLSMV), que utiliza correlação policórica
(Muthén e Muthén, 2006).
5. Essa etapa da pesquisa foi realizada por meio de consultoria estatística ao
projeto dada pelo professor Daniel Seabra Matos, da Universidade Federal de
Ouro Preto. Para os interessados, o relatório técnico com informações sobre o
tipo de estimador utilizado, os itens testados em cada fator, os índices de
ajustes utilizados, a qualidade do ajuste, os níveis de significância e de
precisão das estimativas pode ser requisitado a Maria Teresa Gonzaga Alves, uma
das autoras deste artigo.
6. Acrescente-se, ainda, que foram testados também os seguintes fatores:
"concepção sobre brincadeiras", "atividades extraescolares" e "concepção de
infância". Entretanto, os dois primeiros não se mantiveram como fatores após a
AFC. O último se manteve, mas com apenas dois dos itens considerados
teoricamente relevantes para o entendimento dessa dimensão. Nesse caso,
avaliou-se que o fator extraído, embora confirmado estatisticamente, produziu
um construto difícil de ser justificado. Tais problemas podem ter resultado da
formulação de itens do questionário, de especificidades da amostra ou de outras
contingências. Faz-se assim necessário realizar novas tentativas de estudos
quantitativos e qualitativos dessas dimensões.
7. De toda forma, testes realizados com a 3a onda (a última realizada antes da
aplicação do questionário) geraram resultados convergentes.
8. As exceções foram os modelos relativos aos fatores acompanhamento do dever
de casa, ações na escolha do estabelecimento de ensino e modos de exercício da
autoridade parental. Em vista desse resultado e por razões de espaço, esses
fatores não serão discutidos neste texto.
9. Evidentemente, a seleção desses referenciais teóricos não esgota a produção
no campo da sociologia das relações família-escola, refletindo as perspectivas
dos autores e obedecendo aos limites de espaço deste artigo.
10. A metodologia para a construção do fator "nível socioeconômico (NSE)" do
Projeto Geres está descrita em Alves e Soares (2009).
11. O emprego das aspas adverte dos riscos de uma leitura determinista dos
modelos de regressão. Nas Ciências Sociais, o uso mais adequado dos modelos de
regressão deve consistir na análise da associação entre uma variável resposta
(ou dependente) e variáveis independentes (chamadas de covariáveis).
12. De acordo com a Sinopse Estatística da Educação Básica, em 2011, as escolas
federais detinham 0,5% das matrículas na educação básica; as escolas
particulares, 15,5%; e as escolas estaduais e municipais, 38,2% e 44,7%,
respectivamente. Informações em http://portal.inep.gov.br/basica-censo (acesso
em 15 de agosto de 2013).
13. Esta hipótese é deduzida de uma pesquisa finalizada em 2006, cujos
resultados foram publicados posteriormente (Alves, M.T.G., 2010).
14. A "Prova Brasil" é uma avaliação de rendimento escolar realizada pelo
Instituto de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep/MEC) a cada
dois anos. Participam da avaliação alunos do 5o e 9o ano do ensino fundamental
de todas as escolas públicas urbanas do país que tenham mais de 20 alunos nas
séries avaliadas. Os resultados, por escola e por município, são divulgados no
portal do Inep, no ano seguinte à aplicação dos testes.
15. Cabe destacar que os alunos que participaram do projeto Geres não fizeram a
Prova Brasil, a qual foi aplicada aos alunos que estavam no final da primeira
etapa do Ensino Fundamental, isto é, quatro anos à frente da população de
alunos da presente pesquisa. As médias da Prova Brasil foram utilizadas,
portanto, como um indicador do nível de qualidade da instituição escolar e não
do nível de proficiência do aluno.
16. Em estudos dessa natureza, costuma-se considerar também, como variáveis de
controle, o sexo, a cor/raça e a adequação idade série do aluno, porque esses
atributos são reconhecidos na literatura educacional como associados ao
desempenho escolar (Barbosa, 2009). Entretanto, análises estatísticas prévias
(Teste T e ANOVA) não mostraram diferenças significativas entre as
proficiências dos alunos na primeira onda segundo as categorias das variáveis
"sexo" e "idade adequada para a série". O teste com a variável cor/raça do
aluno revelou diferença entre as proficiências dos alunos brancos comparados
aos alunos não brancos, porém, com significância fraca e que não persistiu nos
modelos de regressão que incluíram a variável NSE.
17. O conhecimento dos pais sobre a qualidade das escolas foi avaliado
solicitando aos respondentes que indicassem as melhores escolas e Universidades
de Belo Horizonte. As respostas foram cotejadas com os resultados de cada
instituição na Prova Brasil e/ou no Enem, no caso da educação básica. No caso
do ensino superior, Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e Pontifícia
Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-MG) foram tomadas pelos
pesquisadores como as instituições de mais alta performance da cidade.
18. Coleman (1997) também considera como parte do capital social familiar a
rede de relacionamentos da família, que não enfatizamos aqui por ser menos
relevante para a análise do fator em questão. Observa-se que o conceito de
capital social de Coleman é diferente do que foi construído por Bourdieu
(1998c). Para uma comparação entre ambos, ver Bonamino et al. (2010).
19. A dinâmica computacional do modelo stepwise consiste em introduzir
inicialmente a variável que apresenta o maior coeficiente positivo ou negativo
na associação com a variável dependente e, em cada passo subsequente, adicionar
a variável com a maior correlação parcial, testando-as para decidir sobre a
remoção ou permanência no modelo (Norusis, 2005).
20. Tal como no modelo 2, testou-se, no modelo final, o tipo de escola sem
fazer distinção entre escolas públicas comuns e destacadas. Isso resultou em
coeficientes com valores menores para as escolas particulares e a escola
federal (9,3 e 17,1, respectivamente) em relação às escolas estaduais e
municipais em conjunto - tomadas como referência - e um pequeno aumento no
coeficiente do nível socioeconômico (11,0). A mudança nos coeficientes é
esperada, uma vez que a hierarquização entre as escolas ficou menos acurada.
Não houve mudança no nível de significância e valores dos coeficientes dos
demais fatores.
21. Além das restrições impostas à amostra do setor privado (cf. nota 2),
procedeu-se também à eliminação das famílias do quintil superior em termos
socioeconômicos (conforme exposto no item Introdução), onde os alunos das
escolas privadas de alto prestígio se fazem mais bem representados.
22. O fato dessas famílias deterem informações sobre a existência de um colégio
de aplicação dentro de uma universidade federal, sobre sua forma de
recrutamento dos alunos e sobre as condições gerais do sorteio representa, por
si só, um elemento do capital informacional.