Para Além do Estado e do Mercado: A Dádiva no Fenômeno dos Sem-Abrigo
Sem dúvida, ela era a pessoa mais fiel a si própria -mesmo apesar de - ou
precisamente por causa - das suas diversas metamorfoses e enorme incoerência
(Cosey, Viagem a Itália).
INTRODUÇÃO
O papel da dádiva nas sociedades modernas ocidentais é demasiadas vezes
obscurecido, minimizado e/ou negado. O modelo moderno de sociedade é erigido
com base num conjunto de idealizações das quais a substituição do dom pelas
prestações estatais e pelas relações mercantis é uma das principais. O
resultado disto é uma incapacidade dos estudos sociais observarem o que circula
fora dos circuitos oficiais e que, contudo, permanece fundamental para a
criação de laços sociais e mesmo para a manutenção do Estado e do mercado. A
dádiva não é um fenômeno identificável em espaços-tempo "pré-modernos": é um
fato social total presente mesmo nas mais "modernas" sociedades (Godbout e
Caillé, 1997; Caillé, 2000; Godbout, 2000; Portugal, 2006).
O paradigma do dom é relevante para o estudo do fenômeno dos sem-abrigo por
motivos epistemológicos, políticos e ontológicos. Uma vez que este artigo olha
para um contexto de vida na rua numa sociedade capitalista liberal ocidental,
as negações da realidade habituais nas reflexões dominantes sobre este modelo
sociopolítico são facilmente identificáveis também nos discursos sobre tal
fenômeno. Um dos pontos fortes da teoria do dom é a reflexão sobre o que ocorre
para além do Estado e do mercado, nas relações não oficiais entre os sujeitos.
No caso do objeto deste estudo, encontra-se uma tendência para encará-lo como
algo que é motivado por falhas nestas duas esferas de regulação social,
pressupondo-se que quaisquer soluções deverão também daí provir. Sem dúvida que
o papel do Estado e do mercado é fulcral no tocante às causas do fenômeno e que
qualquer solução para ele terá de comportar uma reorganização profunda destas
esferas. Chegar à rua é indicador de que os mercados laboral e habitacional
estão estruturalmente organizados de um modo que impossibilita uma parte dos
indivíduos de acedê-los com segurança e estabilidade. É também uma expressão
bem visível de que as políticas públicas implementadas pelo Estado são
incapazes de chegar aos cidadãos mais desprotegidos - e que mais precisam delas
- , pelo menos de um modo significativo para garantir o bem-estar mínimo a que
estes não conseguem ter acesso pelo mercado. Contudo, há fatores que contribuem
para causar o fenômeno dos sem-abrigo que se encontram fora do Estado e do
mercado, sendo ele explicável pela conjugação de falhas de proteção dos
sujeitos nas três esferas de regulação social - Estado, mercado e dádiva.
Assim, para que o problema seja compreensível e solucionável, temos de olhar
também as relações interpessoais informais. Estas podem ou não fornecer apoio
aos envolvidos, substituindo ou complementando o Estado e o mercado como meios
de obtenção de recursos, e, desta forma, facilitar ou dificultar que os
indivíduos cheguem à rua. Chegar e continuar a viver na rua é, assim, também
motivado por uma incapacidade de obtenção de bens, dinheiro e habitação através
das redes de sociabilidade primária. As relações de dádiva em que os atores
sem-abrigo são donatários não são suficientes para assegurar-lhes, por si sós,
o que o Estado e o mercado não garantem. O dom pode substituir as outras duas
esferas em situações pontuais, mas, em um nível longitudinal, no caso de quem
se torna sem-abrigo, não é qualitativa nem quantitativamente suficiente para
proteger os indivíduos. Também a solução dos problemas associados ao fenômeno
dos sem-abrigo pode provir de fora do Estado e do mercado, sendo que ele não é
solucionável como um todo sem alterações nas relações interpessoais não
oficiais. Isto vale quer falemos da desqualificação social e da estigmatização
que só são minimizáveis por interações no registro da sociabilidade primária,
quer falemos da obtenção cotidiana de dinheiro, comida, roupa, trabalho
temporário ou outros recursos, que, muitas vezes, ocorrem por via não oficial
neste objeto de estudo. Mas vale também para a solução do problema - a falta de
casa - , também ela podendo provir desta esfera extraestatal e extramercantil.
Não defendo que o sistema da dádiva seja suficiente per se para eliminar o
fenômeno; ele não tem esse potencial, tal como as outras duas esferas não o
têm. Uma solução tem de vir da complementaridade dos três sistemas de regulação
e cada um deles precisa ser reorganizado para que a solução se torne possível,
mas tal só poderá se tornar numa realidade se rejeitarmos a negação do que está
fora do Estado e do mercado.
Se os motivos epistemológicos e políticos que tornam importante estudar as
relações de dádiva caracterizadoras do fenômeno dos sem-abrigo são os expostos,
há ainda uma questão ontológica que força a reflexão sobre o fenômeno a
contemplar o dom. As negações referidas devem-se, em grande medida, à hegemonia
do utilitarismo. Esta corrente tem um modo particular de observar o mundo e as
interações humanas que parte de uma concepção específica (e naturalizada) do
ser humano como homo economicus. Com base nesta visão, o mundo torna-se um
conjunto atomizado de seres humanos dotados de racionalidade instrumental em
busca permanente da maximização do seu bem-estar individual e dos seus
interesses próprios. Tudo o que não é caracterizável através desta construção é
invisibilizado ou pervertido de modo a tornar-se legível através das lentes
enviesadas que o utilitarismo fornece. Entenda-se: o interesse por si existe,
tal como existe a racionalidade instrumental, mas, ao seu lado e de modo
concomitante, há outras realidades, tão fundamentais para entender as
sociedades contemporâneas - e logo, o fenômeno dos sem-abrigo - quanto as
anteriores. A revisão ontológica do mundo é um dos passos para mudá-lo e um dos
passos para que o possamos compreender - se o homo economicus é tudo o que
aceitamos que exista, então, resta-nos continuar a reproduzir as mesmas
ausências que o utilitarismo produz e continuar a não entender o papel da
dádiva nos diversos espaços da sociedade. Os indivíduos são atores racionais e
estratégicos, mas isto não é tudo o que eles são. Ao lado do homo economicus,
encontramos também o que Godbout (2000) caracteriza como homo donator, o ator
envolvido numa relação de dom que rejeita o cálculo ubíquo. Isto vale para a
rua do mesmo modo que vale para outras figurações. A racionalidade estratégica
é fundamental para que os atores sem-abrigo consigam sobreviver (Snow e
Anderson, 1993; Zeneidi-Henry, 2002; Rullac, 2005; Damon, 2008; Aldeia, 2011) e
cria um homo economicus dirigido para fins de sobrevivência cotidiana e que
mobiliza meios bem mais escassos do que os disponíveis aos sujeitos
domiciliados. Mas a rua não é ontologicamente idiossincrática: também nela os
seres humanos são mais complexos do que o utilitarismo admite. O paradigma do
dom é especialmente adequado para desfazer esta construção ontológica que
também encontramos nas reflexões sobre o fenômeno dos sem-abrigo.
O texto divide-se em duas seções. Na primeira, esboço as principais
características do paradigma da dádiva. Na segunda abordo o lugar da dádiva no
fenômeno dos sem-abrigo recorrendo ao material empírico produzido em um
trabalho anterior (Aldeia, 2011), na qual analisei o papel dos laços sociais
neste campo de investigação. Com base neste material, olho para as relações de
dom que um indivíduo sem-abrigo desenvolve com a sua família, para o acesso ao
espaço de pernoite na rua, entendido como manifestação de uma forma de dádiva
atípica, e para os sentimentos de dominação criados por relações de dádiva
indesejadas.
A CENTRALIDADE DA DÁDIVA
Independentemente da intenção de desvendar as dimensões não declaradas das
interações humanas que os estudos sociais tantas vezes afirmam, estes têm uma
tendência para olhar, sobretudo, para a vida social oficial e pública. Daqui
derivam as duas principais negações referidas: a exclusividade analítica do
Estado e do mercado enquanto loci da regulação social e a negação do "homo
extra-economicus". Considerando estas invisibilizações insustentáveis, torna-se
necessário que os estudos sociais deem conta das dimensões não oficiais da vida
social que estão para além do Estado e do mercado e reconheçam as
características dos seres humanos modernos ocidentais não abarcáveis pelo homo
economicus (Godbout e Caillé, 1997; Caillé, 2000; Godbout, 2000; Portugal,
2006, 2011).
Poucas correntes teóricas têm desenvolvido esforços mais consistentes de
alargamento da nossa compreensão do mundo do que a perspectiva do paradigma da
dádiva, encabeçada pelo M.A.U.S.S1. Para esta corrente, a dádiva permanece
fundamental para a circulação de bens e serviços nas sociedades modernas
ocidentais. As interações sociais não são somente reguladas ora pelo Estado,
ora pelo mercado (ou pela complementaridade dos dois princípios). Ao lado
delas, o dom forma "um sistema, não sendo esse sistema outra coisa do que o
próprio sistema social enquanto tal. O dom constitui o sistema das relações
propriamente sociais enquanto estas são irredutíveis às relações de interesse
económico ou de poder" (Godbout e Caillé, 1997:22). A dádiva não só é, por
vezes, uma alternativa ao Estado e ao mercado, como, muitas vezes, surge a par
destes princípios, complementando-os e suportando-os. Tanto a nível qualitativo
como quantitativo, o dom é essencial nas sociedades contemporâneas (Godbout,
1996; Godbout e Caillé, 1997; Caillé, 2000; Godbout, 2000; Portugal, 2006,
2011).
Adotemos a definição de dádiva avançada por Godbout e Caillé:
qualifiquemos de dom toda a prestação de bens ou de serviços efetuada
sem garantia de retribuição, tendo em vista criar, alimentar ou
restabelecer os laços entre as pessoas. Propomo-nos ver como o dom,
assim caracterizado como modo de circulação de bens ao serviço dos
laços sociais, constitui um elemento essencial a toda a sociedade
(Godbout e Caillé, 1997:30).
Na dádiva, então, o fundamental não é tanto o que circula quanto o laço pelo
qual o bem ou o serviço circula. Circular ao serviço do laço significa que o
laço é mais importante do que a coisa que circula, que apenas ganha sentido
quando é inserida numa relação (Godbout e Caillé, 1997; Caillé, 2000; Godbout,
2000; Portugal, 2006, 2011).
Desde Mauss (2008) e em alguns de seus principais comentadores2 a dádiva é
inserida no ciclo tripartido de "dar, receber e retribuir", três momentos
frequentemente sobrepostos na circulação de bens e serviços através dos laços.
A importância dos três momentos é consensual entre os autores do paradigma,
ainda que o peso atribuído a cada um seja variável. Desde o Ensaio sobre a
Dádiva (Mauss, 2008), a retribuição surge como o momento privilegiado pela
análise (Godbout, 1996). Contudo, apesar desta ser importante, secundarizar os
atos de dar e de receber ao de retribuir é um modo de perverter o sistema do
dom, negando a sua existência, submetendo-o ao modelo mercantil. Se a
retribuição é mais relevante do que o ato de dar, então, dou para receber,
buscando uma equivalência relacional entre bens e serviços que circulam. Para
mais, se a retribuição é o momento privilegiado, então, o dom é pura obrigação,
não havendo nele espaço para a liberdade. A retribuição, do ponto de vista
utilitarista, é o momento de restabelecimento do equilíbrio perdido aquando da
dádiva inicial, é a eliminação da dívida (Godbout e Caillé, 1997; Caillé, 2000;
Godbout, 2000).
Olhando a circulação das coisas a partir do dom, a realidade dessa circulação
complexifica-se. O ciclo "dar, receber, retribuir" tem uma dimensão de
constrangimento, de obrigação, mas comporta também liberdade, espontaneidade,
incerteza. A busca de equivalência pode ser relevante para os envolvidos, mas
esta não pode ser entendida de modo mercantil: a equivalência mercantil é o fim
da dádiva, o fim da relação, o momento de reposição de equilíbrios em que a
relação volta ao estado inicial, prévio ao dom. Ora, ao contrário do mercado,
que se caracteriza pela equivalência, e do Estado, caracterizado pela igualdade
legalmente assegurada, o dom afasta-se do cálculo (instrumental) e funda-se na
dívida entre os envolvidos (Godbout e Caillé, 1997; Caillé, 2000; Godbout,
2000; Portugal, 2006, 2011). Uma relação de dom "saudável" é aquela em que cada
um dos envolvidos sente que recebe mais do que dá; é uma relação marcada pelo
estado de dívida mútua positiva inconcebível pelo mercado (Godbout e
Charbonneau, 1993; Godbout, 2000). Seguindo Portugal (2006), a equivalência não
está ausente no dom, mas este tem propriedades "alquímicas", tornando
"equivalente" o que não o é, dado que o que circula se subordina ao laço por
onde circula3. Como defendem Godbout e Caillé,
a equivalência não está ausente [da] relação de dom. Mas é apenas um
elemento dela, que não poderá ser central. A equivalência está
simultaneamente presente e ausente, no sentido em que:
não é possível fugir-lhe demasiado, sem se considerar que, em lugar
de dar, se "está a perder";
mas também não é possível aproximarmo-nos demasiado dela, liquidar
a dívida sem pôr fim à relação.
Quando a aproximação é excessiva, um dos parceiros realiza um gesto
que rompe a equivalência, uma loucura, um excesso que afasta de novo
os parceiros do equilíbrio. O campo da dívida situa-se entre estes
dois pólos, e o estado de dívida recíproca, voluntariamente mantido,
será o seu estado normal. Por outro lado, a própria equivalência é de
um tipo diferente da equivalência mercantil, porque ela tem em conta
as características pessoais dos agentes, os seus níveis de
rendimento, as suas necessidades, etc. (1997:48).
Então, a dívida é o estado normal da relação de dádiva: a equivalência pode ser
buscada mas não é atingida (sendo "encontrada" de modo "alquímico"). Quando a
relação se torna equivalente, reduz-se à troca mercantil, o que acaba a relação
de dádiva, sendo possível que se extingua o laço.
O dom é também caracterizado pela dicotomia liberdade/constrangimento. A dívida
funda-o, mas, sendo não mercantil, é não contratual, e logo, pode não ser paga.
Do mesmo modo, não há coercividade estatal a exigir que se cumpra uma
obrigação. "Coercividade" existe, é certo, mas sempre de modo incerto,
inseguro. O dom é, talvez acima de tudo, paradoxo. Ele tem uma normatividade
própria e há consequências, por vezes dramáticas, para o envolvido numa relação
de dom que quebre as suas obrigações. Mas, acima de todas as outras obrigações,
até mesmo as de "dar, receber e retribuir", está a "obrigação de não explicitar
a obrigação". A normatividade da dádiva é conhecida por todos os envolvidos,
mas parte intrínseca dela é o fato de dever permanecer não mencionada (Godbout,
1996; Godbout e Caillé, 1997; Caillé, 2000; Godbout, 2000; Portugal, 2006,
2011). Assim, é obrigação do doador procurar libertar o donatário das suas
obrigações, realçando o caráter livre de ambos na dádiva ("sou livre de dar, tu
és livre para receber, e, sobretudo, livre para retribuir"), sabendo à partida
os envolvidos que nenhum deles fica inteiramente livre na relação.
Ultrapassando a estéril discussão acerca da honestidade ou da hipocrisia dos
envolvidos, o fato de existirem obrigações de parte a parte só é sentido pelos
envolvidos como negativo se a dívida for indesejada. Se esta for querida, não é
em si mesmo problemático que se criem obrigações na relação. O dom, deste modo,
é livre e obrigatório; é constrangimento e espontaneidade; tentativa de
reciprocar e gratuidade de gestos sequenciais.
A negação da normatividade só é compreensível como uma "negação hipócrita das
reais intenções dos sujeitos" caso o que circula seja entendido como mais
relevante do que o laço por onde circula; caso os bens e serviços sejam
percebidos pelo modelo mercantil, que apenas percebe as coisas como tendo valor
de uso e de troca. Mas a dádiva tem também o valor simbólico de incorporar uma
parte da essência do sujeito que dá - o hau maori de que falava Mauss (2008) -
, um valor simbólico que está para além do que (também) existe no mercado4: o
dom tem, sobretudo, valor de elo (Godbout, 1996; Godbout e Caillé, 1997: 244-
247; Caillé, 2000; Godbout, 2000; Portugal, 2006, 2011). Como defendem Godbout
e Caillé,
ao circular, o dom enriquece o laço e transforma os protagonistas. O
dom contém sempre um além, um suplemento, qualquer coisa mais, que a
gratuidade tenta nomear. É o valor de laço. (...) na oferta de um
presente, o objectivo não é dispor de um mecanismo que permita uma
perfeita correspondência com as preferências do donatário. A aposta
do presente é que o doador demonstre que sabe de que é que o
donatário gosta [ou precisa; o essencial é que o doador mostre
conhecer o donatário e atender aos seus gostos e necessidades]. Isso
é mais importante do que a satisfação "mercantil" do donatário, pois
é o laço que conta, e o dom é uma operação ao serviço do laço. (...)
não há escala econômico, pois o valor de laço depende das
características das pessoas, da natureza do laço, de um conjunto de
variáveis que o valor económico, para se formar e se tornar puramente
quantitativo, teve de expurgar inicialmente (1997:245-246).
É pelo valor de laço que o dom se reveste da característica paradoxal (do ponto
de vista mercantil ou estatal) de "obrigação livre". Não só obrigação e
liberdade, mas obrigação com liberdade (ou liberdade com obrigação). O dom não
é gratuito mas tem um componente de gratuidade. Só por ele é possível que as
coisas circulem ao serviço do laço. O dom é "gratuito" na medida exata em que
tem uma carga de espontaneidade e em que cria incerteza nos envolvidos na
relação ("dou, mas posso não receber"; "dou, mas podem não aceitar"; "recebo,
mas posso não retribuir"). O incumprimento das obrigações tem consequências,
mas é pela liberdade do dom que é demonstrada a confiança no outro, essencial à
relação. É certo que a confiança não está ausente do mercado ou do Estado, mas
o contrato, o imposto, e o monopólio da violência "legítima" são mecanismos de
redução da incerteza presente na troca, na circulação de bens e serviços. Na
dádiva, tais mecanismos oficiais estão ausentes. Dou e o outro recebe (ou não
recebe). Ao receber, o donatário agradece, realça a obrigação ("obrigado"), mas
o doador procura libertá-lo da sua obrigação ("não é nada"). Só veiculando uma
imagem de liberdade a retribuição se torna insegura. Só sendo insegura,
incerta, é possível que, no gesto de dar, esteja implícita a confiança no
outro, confiança de que o outro cumpra as suas obrigações e que não o faça por
se sentir obrigado mas precisamente por se sentir livre para fazê-lo (Godbout,
1996; Godbout e Caillé, 1997; Caillé, 2000; Godbout, 2000).
Mas o dom tem gratuidade e liberdade (não sendo nem gratuito nem livre) também
pelos seus diferentes momentos (dar, receber, retribuir) se sobreporem. O corte
entre eles é analítico e não empírico. Na praxis, os momentos do dom mesclam-se
totalmente. Ao dar, recebo. Ao receber, retribuo. Ao retribuir, dou. Tal não
significa que o interesse por si5 seja o fator preponderante no dom ("dou
porque gosto de dar, o que é o mesmo que dizer que satisfaço o meu egoísmo"). O
interesse por si não está ausente, mas reduzir a ele todo o dom é simplificar a
questão; é retirá-la da dádiva para colocá-la no mercado. Dar e receber não é o
mesmo que dar para receber, tal como não é igual dar para receber a satisfação
de dar e dar para que me retribuam sob a forma de bem ou serviço - mesmo que
tal retribuição se verifique (Mermet, 1991; Godbout, 1996; Godbout e Caillé,
1997; Caillé, 2000; Godbout, 2000; Caillé, 2006; Portugal, 2006, 2011).
DAR, RECEBER E RETRIBUIR NO FENÔMENO DOS SEM-ABRIGO
Presenciei recentemente uma discussão entre dois indivíduos sem-abrigo em que
estes aparentavam discordar fundamentalmente sobre o que a rua significa. Para
um deles, "a rua nada tem de bom"; para o outro, "tem tudo de bom". Aos meus
olhos, a discordância aparente não era tão grande quanto poderia parecer, no
momento da discussão, para os intervenientes. O que estava em causa era,
sobretudo, a complexidade e o caráter paradoxal da vida na rua. A violência, os
roubos, as carências, o estigma, o desrespeito e o cálculo individual
coexistem, na rua, com o apoio, a camaradagem e a partilha de bens escassos.
Olhar só para um dos lados é ter uma leitura parcial do fenômeno dos sem-
abrigo. Viver na rua é uma injustiça social tremenda, isso é ponto assente,
tanto para mim quanto para os dois sujeitos que discutiam e que experienciam na
pele essa injustiça. Mas, no meio de tudo o que falta a quem vive na rua, há
laços que se desenvolvem, há apoio, há reciprocidade sem cálculo instrumental
(Snow e Anderson, 1993; Gowan, 2010; Aldeia, 2011). Pelos laços, circulam
coisas; aliás, os laços existem pois por eles algo circula.
Se a rua tem dimensões não negativas, estas não derivam do Estado ou do
mercado. Tais esferas estão presentes, mas de um modo que reafirma a injustiça
de viver na rua. O mercado é a esfera a qual só se pode aceder em posição
desfavorável, onde só bens baratos se podem comprar, muitas vezes de má
qualidade. O Estado está presente pelas transferências mínimas (em particular,
o Rendimento Social de Inserção6 - RSI) e pelas diversas instituições com que
os sujeitos sem-abrigo contatam (a polícia, a Segurança Social, as instituições
do Terceiro Setor parceiras do Estado), mas estas relações realçam uma posição
oficial de inferioridade face à cidadania, consubstanciada na negação do
"direito a ter direitos" (Feldman, 2006; Lyon-Callo, 2008; Gowan, 2010; Aldeia,
2011). Ser "sem-abrigo" é uma posição permanentemente desqualificada e não é
sob essa condição que quem vive na rua pode minimizar a negatividade da sua
situação. Só enquanto pessoa é possível minimizar a violência simbólica e
material da vida na rua. É por isso que tal não é alcançável através das duas
esferas referidas. A minimização do mal-estar de ser "sem-abrigo" só é
realizável pela interação na sociabilidade primária; não pela que ocorre nas
esferas da sociabilidade secundária. Para Caillé,
designemos por sociabilidade primária o tipo de ligação social onde a
personalidade das pessoas importa mais do que as funções que elas
desempenham (o que não impede essas funções de existir e de
importar). E sociabilidade secundária, o tipo de ligação submetido à
lei da impessoalidade (como no mercado, no direito ou na ciência),
onde as funções desempenhadas pelas pessoas importam mais do que a
sua personalidade (2000:128, ênfases no original)7.
Um dos principais problemas da vida na rua é o fato dos sujeitos sem-abrigo, ao
nível da sociabilidade secundária, não cumprirem qualquer função percebida como
positiva pela sociedade em que vivem. À desqualificação enquanto "sem-abrigo",
perante as enormes dificuldades de sair da rua para uma posição estruturalmente
menos desqualificada, só se pode contrapor de um modo positivo a qualificação
como pessoa, como ser humano inserido em redes interacionais. Como Godbout e
Caillé defendem: "o dom constitui o modo de relação por excelência entre as
pessoas enquanto elas se constituem e instituem como pessoas. Ele é aquilo que
transforma os seres e os indivíduos em pessoas. Corolário: o dom institui o
registro da 'sociabilidade primária', de que forma a própria trama" (1997:197).
É no espaço da dádiva que a desvalorização estatutária de ser "sem-abrigo" pode
ser combatida, ainda que, como veremos, tal não signifique que todas as
relações de dom permitam combater esta desqualificação.
Metodologia
Os dados empíricos discutidos neste texto dizem respeito à história de vida de
Rui Botelho, um indivíduo sem-abrigo, produzida no âmbito de uma observação
direta mais ampla, levada a cabo entre dezembro de 2010 e junho de 2011. Duas
questões metodológicas relevantes para a análise da dádiva no fenômeno dos sem-
abrigo derivam deste procedimento. Em primeiro lugar, defendo a perspectiva
segundo a qual, para entendermos a realidade da vida na rua, é fundamental
analisarmos intensivamente as biografias dos atores sem-abrigo (Aldeia, 2011).
Como Rui Botelho me disse uma vez, "cada pessoa tem uma história", e essa(s)
história(s) deve(m) ser conhecida(s) e analisada(s) para compreendermos o
fenômeno de um modo intensivo e longitudinal. Tal procedimento metodológico não
nos permite induzir dados do caso de nível micro estudado para a
macrorrealidade em que a questão existe. Mas tal só é um problema se o
propósito do conhecimento que produzimos for a generalização, e esta está fora
do âmbito deste texto. O caso estudado é tido como exemplar do fenômeno dos
sem-abrigo, seguindo a perspectiva defendida por Pais: "ao estudar-se um caso,
o objetivo não é o de representar o mundo; basta a representação do caso.
Aliás, um caso não pode nunca representar o mundo, embora possa representar um
mundo no qual muitos casos semelhantes acabam por se refletir" (2003:109).
Assim sendo, epistemológica e metodologicamente, uma única biografia é
suficiente na medida exata em que o caso não se afirma como representativo do
fenômeno em que se insere, mas sim como exemplar. Sendo exemplar, ele não é
idiossincrático: a vida de Rui Botelho apresenta semelhanças com outras vidas,
e estas parecenças não devem ser subvalorizadas.
A segunda questão metodológica prende-se com o estudo do dom. O dom é
relacional, pelo que Godbout (2000:15) defende a sua análise através do que
designa como "método dos olhares cruzados". Em linhas gerais, esta proposta
implica que o pesquisador fale com os diferentes atores na circulação de um
dom, com os diversos participantes numa relação de dádiva, para apreender o
sentido que cada um deles confere ao que circula ao serviço do laço. O dom é,
afinal, uma relação, não um ato isolado, pelo que é ao abordar um mesmo
fenômeno sociológico - uma relação de dom - a partir dos diferentes pontos de
vista nele envolvidos que é possível obter uma compreensão completa da relação.
Ao olhar para a dádiva no fenômeno dos sem-abrigo a partir de uma história de
vida, o método dos olhares cruzados não é uma possibilidade ao dispor do
investigador. Seria, sem dúvida, melhor ter tido acesso às perspectivas dos
outros envolvidos nas relações de dom em que Rui se insere, mas não foi com o
propósito de estudar a dádiva que o meu trabalho de campo foi desenvolvido. O
que queria era entender a importância de laços sociais de diferentes tipos de
vida na rua ( Aldeia, 2011), e, para este propósito, a perspectiva de quem vive
na rua era suficiente. Mas, se era suficiente para entender o papel dos laços,
não é também suficiente para entender o que por eles circula? Se o dom é, acima
de tudo, relação, então, ele ganha significado para os envolvidos, e os
significados que cada um deles lhe atribui serão diferentes, ainda que possam
partilhar certas características. Assim sendo, abordo o dom como abordei os
laços: a partir do que este significa para um dos envolvidos, considerando que
ele não é nem mais nem menos relevante para a relação de dádiva do que os
outros envolvidos, mas que o modo como ele - sem-abrigo - experiencia esta
relação é mais importante para compreender o papel da dádiva na vida na rua do
que as perspectivas dos indivíduos domiciliados nela envolvidos. É certo que há
dom na rua entre atores sem-abrigo, mas, dado que a vida de Rui é tida como
exemplar, então, ela constitui um ponto de entrada no estudo do fenômeno tão
legítimo quanto qualquer outro.
A VIDA DE RUI BOTELHO8
Rui Botelho tem 53 anos. Filho de uma família pobre das classes populares, foi
entregue pelos pais a uma instituição logo após o seu nascimento. Aí permaneceu
até os 12 anos, quando os pais o foram buscar com o objetivo de ir trabalhar e
ganhar dinheiro para a família, passando a viver com os pais e os nove irmãos e
irmãs desde então. Com um percurso profissional irregular, majoritariamente no
setor da construção civil, apenas deixou de trabalhar durante os períodos em
que esteve preso, num total de 11 anos entre dois encarceramentos. Com 17 anos,
conheceu a companheira com a qual teve dois filhos. A relação foi mal recebida
pela família de Rui, motivando uma série de conflitos e mais de uma expulsão da
casa familiar onde viviam. Após alguns dos episódios em que o casal e os filhos
foram forçados a deixar a casa dos pais de Rui, foram acolhidos por outros
familiares - uma tia noutra cidade, por algumas semanas; uma irmã de Rui,
durante alguns meses. Contudo, a passagem pela prisão enfraquece os laços com a
família, terminando a relação com a companheira, deixando de falar com os
filhos e de poder contar com os irmãos após a saída da cadeia, pelo menos,
tanto quanto contava anteriormente. Na viragem do século XX para o XXI, saído
da prisão e novamente a trabalhar na construção civil, um problema de saúde
adiciona-se a uma crescente dificuldade em encontrar emprego no setor e ao
sentimento de que não podia contar com o apoio familiar, motivando uma
emigração, primeiro para a Espanha, depois para a França. Aí, torna-se sem-
abrigo pela primeira vez, ainda que apenas durante alguns dias. Após esse
período, passa a viver com uma família portuguesa emigrada na França, obtendo
emprego na empresa de construção civil para a qual trabalhava também o marido
do casal emigrante. Vive cerca de 6 meses com esta família, desenvolvendo o que
considera terem sido os laços mais fortes que conheceu desde a separação da
companheira. Porém, passado esse período, uma situação de conflito crescente
com a família emigrante leva a que Rui regresse a Portugal. Só, sem dinheiro
nem apoio familiar, permanece por alguns meses na casa de um amigo próximo.
Sentindo-se um "fardo" - devido a problemas que sentia que a sua presença
criava junto da família do amigo - decide sair da casa dele. Sem lugar para
onde ir, torna-se sem-abrigo, situação em que se encontra há 4 anos. Aí, o
apoio, quer familiar, quer estatal, é reduzido e não lhe permite sair da rua.
Apesar da violência, ansiedade e receios que marcam a vida na rua, é também
nesse espaço que Rui vai desenvolver uma série de laços com outros indivíduos
sem-abrigo e sujeitos que, ainda que domiciliados, têm posições estruturalmente
pobres e dominadas semelhantes à sua. O único familiar com o qual mantém uma
relação próxima, mesmo que conflituosa, é Nuno, um irmão mais novo com o qual
interage frequentemente.
A Hospitalidade
Godbout (2000: 20 et passim) distingue três tipos de dons familiares: os bens,
os serviços e a hospitalidade. Qualquer destes tipos pode circular segundo dois
registros: o da ajuda e o da prenda - "a hospitalidade pode ser de tipo 'ajuda'
(abrigamos alguém que se separou ou que está a mudar de casa) ou de tipo
'prenda' (recepções, festas)" (Godbout, 2000:31). Ao longo da vida, Rui foi
temporariamente apoiado por familiares através de dádivas de hospitalidade, por
mais de uma vez. Porém, atualmente, nenhum familiar se disponibiliza para
acolhê-lo, embora todos eles saibam que vive na rua. Vários conflitos
familiares, agravados pela passagem pela prisão, reduziram os fluxos de apoio
que os familiares lhe dirigiam. Mas nem sempre assim foi. A família é
fundamental para os indivíduos garantirem o acesso à habitação ( Portugal,
2006) e o foi no caso de Rui por algumas vezes, ainda que sempre de um modo
marcado pelo conflito. Recorrentemente, foi recebido em casa de familiares
durante o início da idade adulta, com a companheira e os filhos. Mas sempre
sentiu que a sua presença era causadora de mal-estar junto aos demais
habitantes da(s) casa(s). Poucos dias após nascer o filho mais velho, Rui e a
companheira foram expulsos da casa dos pais de Rui onde viviam juntamente com
vários dos seus irmãos e irmãs. A razão apresentada foi o fato de a criança
recém-nascida fazer demasiado barulho, o que incomodava o restante dos
habitantes da casa. Rui, contudo, sempre considerou que esse motivo escondia o
fato real pelo qual foram expulsos: a sua relação com a companheira, ainda
oficialmente casada com outro homem, fora sempre mal vista pela sua família.
Saídos da casa dos pais de Rui, foram acolhidos por uma tia dele, que residia
noutra cidade. Nessa casa ficaram apenas cerca de duas semanas, sendo novamente
expulsos por a tia considerar que a presença de outras pessoas em casa a
perturbava. Alguns anos depois, após o nascimento do segundo filho, de novo sem
casa, foram acolhidos por uma das suas irmãs. Dessa vez, permaneceram por
vários meses hospedados. Mas, novamente, acabaram por ter de sair, devido a
conflitos criados entre os habitantes da casa. Segundo Rui, a irmã nunca havia
gostado da sua companheira e incentivara-o a desenvolver uma outra relação
amorosa com uma mulher a quem o tinha apresentado. Os problemas decorrentes do
fato da companheira de Rui ter tomado conhecimento da situação levaram a que o
casal tivesse de mudar de habitação.
Assim, encontramos uma regularidade nesta forma particular de apoio familiar. A
dádiva existe e é significativa: quando precisava, algum familiar lhe
disponibilizava habitação. Mas tão rapidamente quanto a dádiva era feita, era
também retirada. A indeterminação característica do sistema de dom atinge, na
vida familiar de Rui, proporções consideráveis. O dom é em si mesmo inseguro,
não contratual ou legalmente assegurado. Porém, em vários casos em que Rui foi
donatário de familiares, esta insegurança prende-se não com a possibilidade da
dádiva não ser retribuída (direta ou indiretamente) mas, antes, com a
possibilidade dela ser retirada depois de dada. Recorrentemente, "a mão é
estendida" apenas para ser depois recolhida, o que não garante estabilidade
através dos laços familiares.
Apesar de Caillé (2000) afirmar que a dádiva é agonística, é uma forma de
guerra, as reflexões habituais sobre ela tendem a subvalorizar o conflito e a
insegurança que caracterizam as relações de dom. O princípio de que "uma mão dá
e a outra retira" diz-nos várias coisas. Desde logo, é significativo que a
dádiva seja realizada. Os sentimentos de obrigação familiar e o desejo de dar
explicam isto, em particular, dado que estes sentimentos são especialmente
fortes nas relações familiares (Portugal, 2006). Porém, a obrigação e o prazer
de dar não têm força suficiente para, em todos os casos, se sobreporem, ao
longo do tempo, ao mal-estar e aos inconvenientes sentidos pelos envolvidos na
relação de dom. Com o passar do tempo, os sentimentos de obrigação e/ou de
prazer que levaram ao dom vão perdendo força perante os fatores causadores de
mal-estar. O conflito torna-se mais relevante na relação, levando a que a
dádiva seja "exigida de volta"9. Isto não elimina a importância interacional ou
sociológica do gesto de dar, mas complexifica a relação de dom. Deste modo,
torna-se fundamental contextualizarmos a relação de "dádiva-feita-dádiva-
desfeita" de modo estrutural e circunstancial. Sendo a hospitalidade um dom
atuante ao longo de um período de tempo mais ou menos longo, o contexto em que
o dom é feito vai sendo alterado pela interação continuada dos envolvidos,
criando um contexto final diferente do inicial, já não propenso à dádiva. O que
gera conflito é a partilha de recursos (as contas no final do mês atingem
montantes superiores, o espaço da casa disponível a cada habitante reduz-se, a
privacidade é diminuída, dificultando a recomposição do self no final de um dia
de trabalho, dado que mais habitantes equivalem a mais barulho, a mais
atividades no mesmo espaço).
Mas esta partilha é particularmente geradora de conflito quando o contexto em
que ocorre é um de escassez. A família de Rui é pobre, ainda que diferentes
elementos conheçam situações de pobreza diferenciada. Quando os recursos são já
escassos para um agregado familiar, partilhá-los entre mais elementos torna-se
difícil. Mesmo que as pessoas queiram ajudar os familiares, não sentem ter
condições socioeconômicas para o fazerem. A pobreza explica, em grande medida,
o fato de o dom ser retirado depois de dado. Os sentimentos de obrigação e/ou
de prazer que levam ao ato de apoiar um familiar são sentidos ao longo da
estrutura socioeconômica, mas quando há mais recursos para partilhar, o
conflito demora mais tempo a desenvolver-se. Em estratos sociais
estruturalmente mais elevados, os donatários precisam de menos ajuda e precisam
dela durante menos tempo, e os doadores têm maiores possibilidades de apoiá-
los. A relação torna-se mais complicada quanto mais descemos ao longo da
estrutura socioeconômica, alterando-se os equilíbrios entre a ajuda necessária
e a ajuda passível de ser dada.
O Irmão Nuno
Como é visível pelo dom de hospitalidade, as relações que Rui mantém com os
familiares são, sobretudo, tensas e conflituosas. Isto é válido para todas as
relações familiares, ainda que não diminua a sua importância, que "é
significativa mesmo quando os laços não são positivos (...). As relações de
conflito e de ruptura das relações familiares são sentidas com dor pelas
pessoas que as revelam" (Portugal, 2006:493). É neste contexto que mescla
conflito e apoio que se torna relevante olhar para a relação que Rui mantém com
o irmão mais novo.
Atualmente, apesar de não ser sem-abrigo, Nuno é o familiar que tem uma posição
estrutural mais semelhante à de Rui: ambos estão desempregados, ambos têm no
RSI a única fonte regular de rendimento, ambos mantêm uma relação tensa com o
resto da família. A relação entre os irmãos foi sempre conflituosa, marcada por
rupturas e reaproximações frequentes, mas é, apesar disso, fundamental para a
vida de Rui e claramente caracterizada pelo apoio recíproco. Por várias vezes,
os irmãos trabalharam e/ou viveram juntos, apesar de Rui afirmar que essa
interação cotidiana foi sempre conflituosa. A relação é particularmente
significativa pela empatia entre ambos, construída com base na rememoração do
passado familiar e na indignação e na injustiça sentidas face ao Estado, face à
incapacidade de acederem o mercado de trabalho regular e ao que percebem como
uma falta de apoio do resto da família. Entre os irmãos, o dom é frequente, sob
a forma de dinheiro, de bens, de camaradagem, de apoio emocional. O fato de se
privilegiar a perspectiva de Rui, como foi referido, impede o "cruzamento
metodológico dos olhares" defendido por Godbout (2000:15) para a análise da
relação de dom. Contudo, não estamos no registro da dívida mútua positiva. Na
ausência da perspectiva de Nuno, estamos perante uma dívida sentida como
unilateral ou como negativa (Godbout e Charbonneau, 1993:238).
O essencial, dada a entrada metodológica pelo olhar de Rui, é o fato de este
sentir que dá - que sempre deu - mais do que recebe na relação. Tal não
invalida que considere ser também donatário: pelo menos por uma vez desde que
está na rua, acedeu um trabalho precário e temporário através do irmão. Do
ponto de vista da narrativa veiculada por Rui, tal representação de si mesmo
como o principal doador da relação permite autoapresentar-se de modo positivo.
Como veremos mais adiante ao abordar a relação com as instituições
"assistencialistas", esta posição positiva enquanto doador apenas é possível
para Rui nas suas interações com sujeitos igualmente dominados e pobres, neste
caso, com o irmão. Dado que uma relação (como a "assistencialista") em que o
sujeito é permanentemente relegado para uma posição negativa de donatário sem
capacidade para se tornar doador é injuriosa, desqualificadora, colocar-se
primordialmente do lado da doação (e não da recepção) na relação com Nuno é um
modo de Rui combater de modo tênue e parcial a desqualificação e a
estigmatização que o fato de ser "sem-abrigo", "pobre" e "assistido" acarreta
na maioria das suas interações com indivíduos domiciliados. Mas as situações em
que Rui é donatário nesta relação são também significativas, reforçando a ideia
já constatada sobre o dom de hospitalidade, de que as relações de dádiva que
Rui estabelece com familiares são caracterizadas, sobretudo, pelo conflito,
pela insegurança e pela instabilidade. Também no caso em que Nuno arranjou
trabalho a Rui, "uma mão dá e a outra retira". Após conseguir trabalho para o
irmão, conta ao empregador de ambos que Rui vive na rua. Na posse desta
informação, o empregador decide pagar a Rui um salário inferior ao acordado
informalmente, por considerar que, vivendo na rua, Rui aceitaria vender o seu
trabalho em troca de menos dinheiro. A situação degenera em conflito, chegando
à violência física de modo a obrigar o pagador em falta a cumprir com o que
fora inicialmente acordado.
O laço entre os irmãos, neste caso como em outros, está permanentemente
envolvido em conflito e em tensão, apesar disso não o eliminar, nem invalidar
futuras trocas de dons através dele. O laço é desejado, fornece um apoio
fundamental a ambos os envolvidos, pelo que os problemas associados às dádivas
que por ele circulam são suportados. Isto demonstra o caráter secundário
daquilo que se desenvolve diante da relação onde circula: nesta relação, o
valor de elo sobrepõe-se às negatividades das dádivas específicas dado que o
laço é desejado pelos envolvidos.
O Espaço de Pernoite na Rua
Quando Rui saiu da casa do amigo que o acolhera após regressar a Portugal, não
tinha onde ficar. Pedro, um indivíduo sem-abrigo que conheceu, informou-o do
local onde pernoitava na rua, juntamente com outros indivíduos sem-abrigo, e
convidou-o a ficar lá. Será lá que Rui permanecerá durante quatro anos,
montando uma "tenda" improvisada com espaço para duas pessoas dormirem. Na
ausência de uma casa, o local de pernoite na rua é da maior importância. Para
quem vive na rua, a possibilidade de utilizar uma parte dela para dormir, comer
ou conviver é fundamental para a sobrevivência cotidiana. É aí que se pode
tentar criar um mínimo de privacidade em espaço público; é o local de pernoite
que possibilita uma tênue e precária reconstrução do self ao final do dia. Para
além da materialidade do espaço, ter acesso a um local de pernoita tem uma
dimensão de sociabilidade. Sendo partilhado com outros indivíduos, é ali que se
podem desenvolver de modo privilegiado relações de camaradagem, de partilha, de
apoio emocional. É também um ponto fixo na rotina diária de quem vive na rua,
fornecendo um grau mínimo de segurança - física, mas, sobretudo, emocional e
simbólica.
Chegar a esse espaço foi uma experiência ambígua para Rui. Lá conhecerá uma
história longa de agressões e roubos. Mas, apesar destes problemas
(significativos), o espaço de pernoite permite-nos observar também uma dimensão
de reciprocidade, de solidariedade e de apoio entre "pares" - indivíduos que,
com ou sem abrigo, têm posições estruturais similarmente dominadas e pobres. Lá
desenvolvem-se relações entre estes atores e os laços criados fornecem um grau
mínimo de proteção (partilha de bens, de comida, de dinheiro) e de
reconhecimento pela compreensão das semelhanças das experiências de dominação.
Tomar conhecimento do espaço de pernoite e obter a possibilidade de aí ficar
apresenta as quatro formas que Lemieux (2000:48) afirma poderem assumir os
fluxos de ajuda: informação, apoio emocional, material e camaradagem. Esta
ajuda multidimensonal está presente quando Pedro propõe a Rui que este
permaneça no local onde dorme. A informação indica um sentimento de
solidariedade que, com a interação continuada, se traduz em apoio emocional e
camaradagem recíprocas. Também a ajuda material está presente, ainda que
marcada pela pobreza e precariedade. O espaço é em si mesmo materialidade,
importante num contexto em que outras formas de apoio material estão
indisponíveis ou estão disponíveis em níveis muito reduzidos - dinheiro, bens,
habitação.
Segundo uma lógica de reciprocidade indireta, mesmo após a saída de Pedro do
local, Rui continua a disponibilizar um colchão e proteção contra o frio a quem
lhe peça para dormir junto dele por algumas noites. O único argumento que Rui
concebe para proibir alguém de dormir dentro da tenda é o fato de já se
encontrar lá alguém, dado que o espaço exíguo não lhe permite aceitar mais de
uma pessoa de cada vez. Contudo, tendo em vista que considera que o espaço onde
a tenda se encontra não é seu, é sempre possível dormir naquele local, desde
que fora da tenda quando não há lá lugar para mais uma pessoa. Nestes casos,
Rui empresta uma manta ou um cartão a quem dorme do lado de fora.
O acesso ao espaço de pernoite permite-nos encontrar uma forma de dádiva
contextualizada na rua. Há uma lógica de reciprocidade no dom materializado no
acesso ao local, mas esta não é compreensível segundo a perspectiva mercantil.
Não é reciprocidade direta e simétrica entre os envolvidos. Rui não dá fruto de
um cálculo instrumental com o intuito de receber do sujeito a quem deu. Há
reciprocidade, mas ela é indireta, difusa e diferida no tempo10. Rui dá, pois
sente que recebeu quando necessitou - Pedro garantiu-lhe o acesso ao espaço de
pernoite. Mas, sobretudo, dá porque vê à sua frente um ser humano que precisa
de ajuda. O valor de elo deste dom é estabelecido não à escala dos dois
envolvidos diretos, mas à escala do grupo mais amplo possível - a humanidade. É
por via do sentimento de responsabilidade para com a humanidade em geral que o
dom é realizado. Qualquer valor de elo mais restrito entre Rui e o donatário
direto deriva da pertença comum à humanidade sentida entre ambos os envolvidos.
Como Chabal (1996) defende, é a reciprocidade que funda a responsabilidade para
com o outro, mas uma reciprocidade, no caso, estabelecida a uma escala que
ultrapassa tanto o doador quanto o donatário, inserindo ambos na comunidade
humana. O dom "puro" é impossível na medida em que for visto como
desinteressado. Mas, se o interesse não for reduzido ao interesse instrumental,
por si, constata-se que não há dom mais interessado do que o que é interessado
pelo bem-estar do outro, do outro enquanto entidade simultaneamente concreta (o
ser humano à minha frente, que necessita de ajuda) e abstrata (um membro da
humanidade, não importa que membro em particular). Como Chabal afirma, "eu dou
para que tu dês mas não forçosamente a mim. Não serás sequer talvez tu quem
dará mas um outro que dará a um outro... Uma reciprocidade descontínua,
aparentemente descontínua, reveladora de interações escondidas, é descoberta"
(1996:139, ênfases no original).
Esta observação de uma reciprocidade indireta e o mais difusa possível no dom
na vida na rua permite-nos olhar ainda para uma idiossincrasia desta relação de
dádiva, que força a reavaliar a importância da confiança para o dom. Como foi
visto, o valor de elo do dom necessita de confiança no outro, dado que só pela
confiança se pode fundar e manter o laço. Do ponto de vista do utilitarismo,
isto é extraordinário - ainda que as evidências empíricas nos forcem a admitir
que é também um estado normal das interações humanas. Mas, ao contrário do
postulado pelos teóricos do dom (Godbout e Caillé, 1997; Caillé, 2000; Godbout,
2000), defendo que, olhando para a relação de dádiva no fenômeno dos sem-
abrigo, é possível afirmar que a confiança não está sempre presente no dom, e
que ela não é, porventura, o mais importante para manter a relação. Se pode ser
visto como extraordinário que se dê - diriam os utilitaristas - "somente" com
base na confiança, mais extraordinário ainda é dar-se em situação de absoluta
desconfiança. Na rua, observam-se situações de dádiva em que o doador tem, com
base na experiência da interação concreta e continuada com o donatário,
consciência de que não pode, em situação alguma, confiar nele. Rui mais de uma
vez permitiu que indivíduos que o roubaram permanecessem na tenda. Ao fazê-lo,
não tem qualquer confiança no outro; tem a mais profunda desconfiança. Dá por
se sentir responsável, não tanto para com o outro específico que necessita de
ajuda, mas para com o outro abstrato, representante da humanidade. Se, quando
precisou, recebeu (foi-lhe permitido ficar naquele espaço), então, sente como
sua obrigação dar a quem necessita. E o faz sabendo que pode ser roubado pelo
donatário passado pouco tempo. O que permite que a dádiva ocorra em situação de
desconfiança é a esperança de que o outro cumpra a sua parte: que não o roube,
num plano imediato; que, eventualmente, ajude outrem quando for preciso; que,
ao mesmo tempo o ajude caso seja necessário ainda que isto seja secundário e
não pensado de modo instrumental.
O caráter extraordinário da dádiva assente na confiança empalidece perante o
desta dádiva fundada na esperança e na responsabilidade abstrata. Rui dá por se
sentir na posse de uma responsabilidade insubstituível para com o outro, na
qual o fato do outro cumprir a parte dele na relação é secundário perante o
fato de eu cumprir a minha. Esperar que o outro cumpra e confiar que ele o faça
são duas realidades substancialmente diferentes. A responsabilidade para com o
próximo (o familiar, o amigo) pode surgir através da confiança recíproca, mas
para com a humanidade apenas é concretizável com base na ideia de que eu tenho
responsabilidades independentemente das do outro serem ou não cumpridas, in
extremis, existam estas ou não. O fato do outro ser responsável na relação,
responsável a meu respeito, não tem o mesmo peso da minha responsabilidade para
com ele "porque sou responsável de uma responsabilidade total, que responde por
todos os outros e por tudo o que é dos outros, mesmo pela sua responsabilidade.
O eu tem sempre uma responsabilidade a mais do que todos os outros" ( Lévinas e
Nemo, 1988:91, ênfase no original)11.
DÁDIVA-CARIDADE: QUANDO O DOM DESQUALIFICA E O MERCADO E O ESTADO SÃO A SOLUÇÃO
Em razão dos baixos rendimentos provenientes do RSI e pequenos trabalhos
esporádicos na construção civil, Rui é forçado a recorrer frequentemente à
caridade para sobreviver. Para obter comida, recorre ao apoio de diversas
instituições que fornecem alimentos sem pedir retorno monetário a quem
necessita. Mas, mesmo assim, é, por vezes, forçado a pedir esmola a transeuntes
e a alguns conhecidos. Em todos os casos, estamos fora do âmbito da
sociabilidade primária e também do mercado. Na lógica de Godbout (2000),
estamos perante diversos tipos de dom aos estranhos que, para o autor, são
idiossincráticos da modernidade ocidental. Dependendo da relação em causa, Rui
torna-se donatário tanto como "estranho desconhecido" como quanto "estranho
conhecido", quanto ainda como "estranho familiar" (Godbout, 2000:79 et passim).
As relações do primeiro tipo - entre "estranhos desconhecidos" - são, talvez,
as que menos influenciam negativamente a identidade de Rui. Pedir esmola é
humilhante, desqualifica, mas Rui não utiliza a mendicidade como estratégia
cotidiana, excetuando no que toca ao recebimento de comida. Não sendo uma
estratégia frequente, Rui não se depara frequentemente com os "estranhos
desconhecidos" que exerceram para consigo caridade, pelo que os sentimentos que
esta relação pontual lhe possa despertar não estão sempre presentes.
O caso é diferente no tocante às relações com as instituições que trabalham com
indivíduos sem-abrigo e outros sujeitos extremamente pobres. Nestas relações,
estamos perante interações com "estranhos conhecidos" ou "estranhos familiares"
mas também diante de relações oficiais estatais. O setor da "assistência" aos
indivíduos sem-abrigo agrega tanto instituições do Estado quanto do Terceiro
Setor (parceiras do Estado ou não; religiosas ou seculares). Como defende
Feldman (2006), o fenômeno dos sem-abrigo é problemático não só em relação à
escassez de recursos materiais, mas também à frequente negação de
reconhecimento a que quem vive na rua é sujeito. O desrespeito pelos indivíduos
desprovidos de poder, que Sennett (2004) afirma ter-se tornado habitual na
contemporaneidade, é sentido por Rui nas suas interações com várias
instituições. Na sua relação com os profissionais destas instituições, Rui
sente-se constantemente desqualificado, e sente na pele toda a carga negativa
associada ao rótulo de "sem-abrigo". Os seus atos de reivindicação de direitos,
as suas exigências de que o tratem como cidadão, são frequentes. Funcionando no
registro da sociabilidade secundária, o que está em causa é a substituição de
um rótulo que exprime uma posição negativa - "sem-abrigo" - por outro,
indicador de uma posição positiva - "cidadão". Os sentimentos de
desqualificação e de desrespeito são particularmente fortes em Rui por sentir
que é inserido numa relação de dádiva (caridade e não direito) em que não pode
nunca cumprir as suas obrigações12. É precisamente isto que o desqualifica. Ao
exigir ser tratado como "cidadão", procura retirar as relações
"assistencialistas" da esfera da dádiva - em que nunca poderá reciprocar, nunca
poderá ser doador - para colocá-las na esfera do Estado, onde a "assistência"
que lhe prestam pode ser interpretada como uma questão de justiça. O problema
fundamental é o fato de, mesmo na sua interação com o Estado, Rui não sentir
que a relação se processa num registro de justiça e igualdade, mas num de
dádiva sob a forma de caridade. Ao ser permanentemente desqualificado, remetido
para a posição de um donatário incapaz de se tornar doador, e reificado como
"recipiente de assistência", Rui encontra-se numa posição em que é impossível
deixar de sentir que incorre numa dívida, e numa dívida que, pelas
características contextuais que tem, é sentida por ele como inteiramente
negativa e não recíproca. A dádiva, quando é realizada no registro caritativo
da "assistência", seja o doador o Estado ou uma instituição não estatal, magoa
o receptor. Do ponto de vista de Rui, a dívida é insuportável e ilegítima:
sente que o que devia ser um direito seu é encarado pelos doadores como um
"favor que lhe fazem", pelo que a única alternativa é exigir que a relação
substitua o registro da dádiva pelo da justiça.
Mas, se há relações de dádiva que são problemáticas na rua pela dominação que
criam, a saída em direção ao Estado nem sempre é percebida como a solução para
o problema. Um exemplo claro disto é a relação que Rui mantém com um
funcionário de uma instituição que costuma frequentar. Há anos que, todos os
meses, este indivíduo empresta pequenas somas de dinheiro a Rui (5 , em geral).
Quando recebe o RSI, Rui faz questão de devolver o empréstimo. Face aos
montantes em causa, é difícil conceber que o credor encare a relação como um
empréstimo; é mais plausível que a veja como uma dádiva. Mas o que é
significativo é o fato de Rui fazer questão de pagar. A honestidade do
pagamento daquilo que é contraído declaradamente como um empréstimo é
relevante, mas não esgota a questão. Mesmo que Rui pague a dívida monetária
mensalmente, uma parte fica sempre por saldar: a disponibilidade de conceder o
"empréstimo". Isto Rui não pode saldar, dado que não tem recursos suficientes
para reciprocar. Diante disto, o pagamento da quantia emprestada, ficando a
relação na esfera da dádiva, desqualifica Rui em permanência, colocando-
o sempre do lado do donatário sem possibilidade de vir a ser doador. Tal
dívida, contraída para com um indivíduo que não é um próximo (não é família,
não é um amigo), não pode ser sentida de modo positivo por Rui. Se a solução
para a desqualificação institucional atrás discutida é a saída da dádiva para o
Estado, aqui, o desejado é a substituição do dom pelo mercado. Ao ser
caracterizado pela (teórica) liberdade de saída de relações não desejadas, o
mercado funda-se na "liquidação imediata e permanente da dívida" (Godbout,
2000:152). Rui não tenta terminar a relação que tem com o indivíduo, mas
procura retirá-la da dádiva. Recodificando a relação de dom como uma relação
mercantil, é possível a Rui não se sentir inteiramente desqualificado por ela.
CONCLUSÃO
Toda a relação de dom tem de ser contextualizada e a sua compreensão só é
possível olhando para os laços pelos quais os dons circulam. Como defendem
Godbout e Caillé, "o dom não é bom nem mau em si, nem sempre é desejável. Tudo
depende do contexto da relação que lhe dá um sentido" (1997:295). Na rua, como
noutras figurações, encontramos relações de dom particulares, que, tendo uma
dimensão de liberdade, são sujeitas a constrangimentos estruturais e
circunstanciais específicos.
A chegada e a permanência na rua são explicáveis não só pela quantidade como
pela qualidade das relações de dádiva em que os indivíduos sem-abrigo se
inserem. Ou seja, não só a obtenção de recursos pela dádiva é insuficiente -
como é a que ocorre pelo Estado ou pelo mercado - para impedir que os
indivíduos se tornem sem-abrigo e, depois, para possibilitar a saída da rua,
como os dons que existem têm características particulares, passíveis de gerar
instabilidade e insegurança. É este o caso das relações de dádiva que Rui
estabelece com familiares, caracterizadas pelo princípio de que "uma mão dá
enquanto a outra retira", i.e., a dádiva existe, mas é revogável e marcada pelo
conflito. Esta possibilidade do que é dado ser depois retirado explica-se, em
parte, pela escassez de recursos disponíveis a todos os envolvidos nestas
relações de dom. Esta situação de revogabilidade do dom não diminui a sua
importância para os envolvidos nem a sua significação sociológica mas
complexifica a relação de dádiva. O dom é feito, o apoio é oferecido, seja ele
fruto de um sentimento de obrigação familiar, do prazer de dar, ou de um misto
de ambos. Isto leva a que o donatário seja, efetivamente, ajudado, ainda que
não a tempo indeterminado. Este caráter temporário do dom é o que causa dor,
mal-estar para o donatário, em particular, pois a importância representacional
da família não diminui com esta idiossincrasia da dádiva. Se a família tende a
ser o lugar de base da dádiva nas sociedades modernas ocidentais, o espaço onde
é praticada com mais intensidade e onde é aprendida (Mermet, 1991; Godbout e
Charbonneau, 1993; Godbout e Caillé, 1997; Caillé, 2000; Godbout, 2000;
Portugal, 2006, 2011), tal não se verifica no caso de Rui. Ao longo da sua
vida, as relações de dádiva que estabeleceu com familiares foram tensas,
conflituosas, por longos períodos inexistentes ou insignificantes - em
particular desde que chegou à rua. A sensação de uma ajuda que é insuficiente é
dolorosa, mas o é precisamente por ocorrer nas relações familiares, nas quais
as expectativas são maiores no tocante ao apoio.
Mas se a dádiva é insuficiente, é também fundamental para a sobrevivência
cotidiana na rua. Combater a dominação da vida na rua, na praxis, é impossível
pelo mercado ou pelo Estado. Apenas a dádiva tem este potencial, possibilitando
a partilha, a camaradagem, a circulação de bens escassos. É de realçar,
todavia, um tipo de relação de dom específico que não se baseia na confiança
para a criação e manutenção do laço pelo qual os bens e serviços circulam. Com
base na história de vida de Rui, encontramos, na rua, um tipo de dom que parte
da desconfiança e que a secundariza perante a responsabilidade sentida para com
o outro, responsabilidade essa que surge como derivativa do sentimento de
responsabilidade motivado pela pertença comum à humanidade. Esta relação de
dádiva não se forja na confiança mas na esperança: dou não por confiar que o
outro cumpra as suas obrigações na relação mas por esperar que ele o faça,
sendo que o fato de ele o fazer ou não é secundário perante o fato de eu, que
sou sujeito de uma responsabilidade insubstituível por outrem, cumprir com as
minhas obrigações - em que entro de livre vontade.
Se este tipo de dádiva existe, o dom em geral não deve ser romantizado, tal
como não o deve ser o fenômeno dos sem-abrigo. Viver na rua é, acima de
qualquer outra coisa, dominação e injustiça extremas, e as relações de dom em
que os indivíduos sem-abrigo se inserem muito contribuem para essa dominação e
para essa injustiça. Isto é particularmente válido para o caso das relações de
dom que assumem uma forma caritativa, levando a que o indivíduo sem-abrigo
donatário seja reificado numa posição permanentemente desqualificada de
"assistido", de donatário sem capacidade para se tornar doador, sem capacidade
para cumprir com as obrigações em que sente incorrer pela relação de dom. Se,
em um nível empírico concreto, o Estado e o mercado apenas desqualificam,
levando a que a dádiva se apresente como a única possibilidade de combater essa
desvalorização, o dom está longe de ser sempre uma relação ideal para quem vive
na rua. Por esse motivo, como as relações de Rui com as instituições
"assistencialistas" e com o indivíduo que lhe costuma emprestar dinheiro
permitem observar, o bem-estar de quem vive na rua não é assegurado pela dádiva
- antes, seria assegurado pela possibilidade de obter, no nível da
sociabilidade secundária, uma posição estrutural que não desqualifique o
sujeito. Quando as instituições do Estado e do Terceiro Setor prestam
"assistência" segundo o registro do dom, tal é sentido como indigno, desejando-
se transferir a relação para a esfera da justiça, onde a "assistência" é uma
questão de direito - basicamente, o que se sente passível de crítica é um
Estado que não se comporta como Estado mas como parceiro privilegiado numa
relação de dádiva. De modo similar, quando as relações de dádiva criam
obrigações não desejadas, como é caso dos empréstimos em que Rui incorre, o
mercado é encarado como a esfera preferencial para desenvolver a relação,
libertando o donatário de obrigações que não tem possibilidade de cumprir.
NOTAS
1. Mouvement Anti-Utilitariste dans les Sciences Sociales. Nas últimas décadas,
este movimento intelectual tem desenvolvido um trabalho variado sobre o
paradigma da dádiva, impulsionado, sobretudo, por Alain Caillé e Jacques
Godbout. O nome do movimento deve ser entendido como tendo, em simultâneo, uma
dimensão negativa - o antiutilitarismo - e uma positiva - a homenagem ao
trabalho de Marcel Mauss, em particular, à sua obra mais conhecida, o Ensaio
sobre a Dádiva (2008). Para uma breve história do M.A.U.S.S. e uma discussão
destas duas acepções do seu nome, cf., por exemplo, Caillé (2010).
2. Encontramos diferentes (ainda que não antagônicas) e estimulantes
interpretações da obra de Marcel Mauss em Caillé (2000:27-44), Godbout (2004),
Graeber (2001) e Martins (2005).
3. Para Portugal (2006), o que tem propriedades "alquímicas" é o parentesco,
i.e., é nos laços familiares, em particular, nos laços consanguíneos, que se
encontra esta característica de tornar "equivalente" o que não o é. Concordando
com a autora sobre a diferença fundamental entre as características dos laços
familiares e as de todos os outros, parece-me, contudo, que o seu conceito pode
ser ampliado. Pode haver uma tendência mais pronunciada para, fora do
parentesco, procurar equivalência na dádiva, reconvertendo-a numa relação
mercantil. Mas, fora do parentesco, o dom pode também ser "alquímico", dado que
se assenta na manutenção da dívida. A equivalência pode ser buscada e até mesmo
atingida, passando a relação para o modelo mercantil, mas, quando tal ocorre, a
relação sai do princípio do dom para o do mercado. Enquanto a relação é regida
pelo dom, ela tende a "encontrar equivalências" onde não as há, quanto mais não
seja, pois os participantes na dádiva têm em conta as características pessoais
dos donatários e doadores, valendo o que circula em função do local onde
circula e dos sujeitos entre os quais circula. Tal não significa que todo o dom
é "alquímico", mas, onde há dívida mútua positiva, há "alquimia", e há dívida
mútua positiva fora da família.
4. Como nos mostram vários autores, em particular, desde Veblen (2009), o
mercado não tem só valor de uso e de troca: as coisas têm valor simbólico e
estatutário. Têm também valor de signo, como Baudrillard (1995) defendeu. Mas
estas são perspectivas mercantis, ainda que ultrapassem largamente o mercado da
troca contratualmente estabelecida. A perspectiva da dádiva avança noutra
direção, olhando para o valor extramercantil das coisas.
5. Cf. Caillé (2006) para uma discussão sobre as variações dos termos
(dés)intérêt e (dés)intéressement, palavras francesas dificilmente
transponíveis para português e cujas traduções imperfeitas podem ser,
respectivamente, "(des)interesse" e "(des)interessamento". Em linhas gerais, o
primeiro termo remete para o interesse instrumental, pelo próprio, e o segundo
para o interesse por outrem. Apesar de nos depararmos com um problema claro de
tradução, a questão é mais vasta do que isso: a atual naturalização ontológica
e sociológica de várias premissas da perspectiva utilitarista levam a que seja
difícil (impossível?) conceber, dentro do modelo mercantil hegemônico, uma
versão do interesse que não diga respeito ao próprio. Como consequência, ao
afirmar que o dom é "interessado", a real significação desta afirmação perde-
se, enfatizando-se somente uma das várias dimensões da dádiva - que não é
possível negar em abstrato nem em geral - o interesse por si. Esta forma
particular de entender o interesse leva a que a dádiva surja ora como egoísta,
ora como altruísmo puro. Mas, se o altruísmo puro é somente a negação do
egoísmo, este se revela impossível, impossibilitando também a existência da
dádiva - a dádiva desinteressada não existe. O que esse argumento dominante
torna invisível é o fato de nem todo o interesse ser interesse por si; de nem
todo o interesse ser fruto de um cálculo racional instrumental: há interesse
por outrem. Assim sendo, aceitar que a dádiva é sempre interessada não equivale
a aceitar que toda a dádiva decorre de um interesse egoísta em busca de
retribuição. Ver também Caillé (2000).
6. O Rendimento Social de Inserção foi instituído em Portugal em 2003,
substituindo o Rendimento Mínimo Garantido, que vigorou desde 1996.
Oficialmente, trata-se de uma prestação social estatal que procura garantir um
rendimento mensal a sujeitos que não possuem outros rendimentos, visando
combater situações de pobreza, mediante a assinatura de um contrato de inserção
individual. Em 2014, tem um valor máximo de 178,15
mensais, o que corresponde a 36,7% do salário mínimo nacional (485 mensais).
7. Todas as citações originalmente em idioma que não o português foram por mim
traduzidas.
8. Cf. Aldeia (2011) para uma versão mais aprofundada desta história de vida.
9. Bourdieu (1995: 4 e ss.) atribui particular importância à dimensão temporal
da dádiva, realçando que, para que a relação se mantenha, é necessário um
diferimento temporal entre o dom e o contradom. Na ausência deste diferimento
temporal, i.e., caso o donatário decida, no momento em que recebe, retribuir
com um contradom imediato, a normatividade da dádiva, que, em situação normal,
é ativamente não explicitada pelos envolvidos, torna-se inegavelmente
explícita. No momento em que esta explicitação é realizada, a dimensão
instrumental do dom é demonstrada em toda a sua intensidade, surgindo o
contradom imediato como uma acusação do donatário ao doador: "o que me estás a
dar é dado com o objetivo de me subordinar, pelo menos até ao momento em que
surja uma retribuição". Deste modo, o contradom imediato consubstancia-se num
insulto do contra-doador ao doador inicial, na medida em que o primeiro,
rejeitando ficar subordinado ao segundo, rejeita as obrigações em que incorre
pelo ato-relação de dom, passando a relação da normatividade da dádiva para a
do mercado. Para que a relação de dom se mantenha, segundo Bourdieu, a
existência de um período de tempo nem demasiado curto (que seria contradom
imediato) nem demasiado longo (que seria dom nunca retribuído) é conditio sine
qua non. Ou seja, a sequência de dom/contradom tem um tempo próprio que, caso
não seja respeitado por um dos envolvidos, gera insulto, terminando a relação.
Apesar do valor heurístico da reflexão bourdieusiana sobre a temporalidade do
dom, a perspectiva do autor foca-se excessivamente no caráter instrumental dos
atores em todos os seus atos. Vendo apenas a multiplicidade de estratégias
contínuas pelas quais os atores envolvidos numa relação de dom procuram manter-
se numa posição não dominada pelos outros envolvidos, este quadro conceitual
não permite dar conta das dimensões não instrumentais das interações dos atores
envolvidos numa relação de dádiva. Visto que as ações não calculadas (em rigor,
não calculistas no sentido mercantil) são essenciais para que o dom possa ser
compreendido, o quadro bourdieusiano é menos útil para compreender o dom do que
a alternativa encabeçada pelo M.A.U.S.S. No caso empírico discutido, a dádiva é
"exigida de volta" não pelos donatários, segundo um cálculo de custo-benefício,
se sentirem prejudicados por Rui, ou por se sentirem por ele insultados, uma
vez que ele não retribui, mas antes devido a um conjunto de tensões
interacionais decorrentes de uma copresença próxima e prolongada na mesma
habitação. Ainda que estas tensões possam incluir decisões instrumentais e
estratégicas, não se reduzem nunca a elas.
10. Cf. Chabal (1996) e Portugal (2006:563-564 et passim) para discussões mais
amplas sobre os diferentes tipos de reciprocidade envolvidos no dom.
11. É importante não romantizar esta questão. Na vida de Rui, como em outras,
existe também interesse estratégico por si próprio e cálculo instrumental. Mas,
na vida de Rui como em outras, as estratégias calculadas (calculistas) estão
longe de esgotar o que existe. Assim sendo, uma leitura utilitarista - mesmo
dentro do quadro conceitual de Bourdieu (1995), sem dúvida um exemplar complexo
e rico dentro desta corrente - conferiria uma forma "perversa" a este tipo
particular de dom verificável na rua. A reciprocidade transformar-se-ia em
reciprocidade direta (pelo menos em desejo de reciprocidade direta para
benefício próprio), deixando de contemplar a possibilidade holística de uma
reciprocidade indireta que motiva a ação de um sujeito que, concebendo-se a si
mesmo e ao outro como representantes de uma mesma humanidade, se sente obrigado
para com o outro sem que o outro aja explicitamente de modo a obrigá-lo e sem
procurar, pelo dom que realiza, eliminar essa obrigação pela subordinação do
donatário.
12. Sobre a dominação criada pelo dom que não pode ser retribuído, cf. Bourdieu
(1995). Nas palavras do autor, "dar é também uma forma de possuir (um dom que
não pode ser correspondido por um contra-dom cria um laço duradouro,
restringindo a liberdade do devedor e forçando-o a adotar uma atitude pacífica,
cooperante, prudente); (...) na ausência de qualquer garantia jurídica, ou de
qualquer força coerciva, um dos poucos modos de "aprisionar" alguém é manter
uma relação assimétrica duradoura tal como o endividamento" (idem:195).