Repertórios de interação estado-sociedade em um estado heterogêneo: a
experiência na Era Lula
INTRODUÇÃO
Quando Luiz Inácio Lula da Silva assumiu a Presidência, em 2003, diversos
apoiadores esperavam que seu governo implementasse uma ampla reforma
democrática do Estado, reproduzindo, em âmbito nacional, as inovações
implementadas pelo Partido dos Trabalhadores (PT) em gestões municipais, como o
Orçamento Participativo (OP), que dotaram o partido de projeção internacional
na década de 19901. Parecendo dar continuidade a este legado, a gestão Lula
criou novos conselhos nacionais de políticas públicas e fortaleceu aqueles
criados anteriormente. Além disso, foram realizadas mais de 70 conferências
nacionais em suas duas gestões2.
No entanto, seria equivocado atribuir tais avanços a um compromisso geral da
Presidência com a participação. Eles resultaram menos da imposição de uma nova
abordagem participativa de governo por parte da Secretaria-Geral da Presidência
ou outros órgãos de coordenação do governo do que das dinâmicas políticas no
interior de cada setor de política pública. A presença de militantes no
interior de vários ministérios permitiu experimentações com resultados
variáveis a depender da forma como grupos da sociedade civil e atores do Estado
estabeleceram relações historicamente em cada setor. Estudo inovador de Maria
Celina D'Araújo, que examinou o perfil social e político dos cargos de alto
escalão do governo federal na gestão de Lula, demonstra que, pela primeira vez
na história brasileira, antigos líderes sindicais participaram intensamente de
altos cargos do governo, um fato que pode não ser surpreendente considerando
que o PT e, especialmente, o próprio presidente, eram provenientes e tinham
fortes ligações com o setor (2009:117). Os ministros também mantinham relações
próximas aos movimentos sociais, de maneira geral: 43% na primeira gestão e 45%
na segunda participaram deles de alguma forma, em comparação com cerca de um
quarto dos ministros nas gestões presidenciais anteriores (ibidem:120). Para
D'Araújo, estes números sugerem que o governo Lula representou uma gama de
interesses mais diversos do que já visto no passado.
Nosso argumento neste artigo é de que, neste contexto de maior proximidade,
movimentos sociais e atores estatais experimentaram criativamente com padrões
históricos de interação Estado-sociedade e reinterpretaram rotinas de
comunicação e negociação de formas inovadoras. Ativistas que assumiram cargos
na burocracia federal frequentemente transformaram agências governamentais em
espaços de militância nos quais continuaram a defender bandeiras desenvolvidas
previamente no âmbito da sociedade civil3. No governo, tais ativistas buscaram
construir e fortalecer espaços participativos formalizados, que até então se
restringiam a âmbitos municipais. Mas eles também experimentaram outros canais
de comunicação, negociação e colaboração entre Estado e sociedade civil, tais
como novas formas de negociação baseadas em protestos e outros encontros, menos
públicos e mais personalizados, entre Estado e representantes de movimentos
sociais. Em algumas áreas de políticas públicas, espaços participativos
formalizados como conselhos e conferências tiveram papel central, enquanto em
outros setores predominaram formas de interação menos formais. No governo Lula,
o mote da "participação da sociedade" abriu espaço para a combinação mais
criativa de diferentes práticas e rotinas, ampliando as chances de acesso e
influência dos movimentos sobre o Estado, obviamente com variações setoriais
importantes. Visto sob a ótica das relações Estado/movimento, o governo ampliou
as possibilidades de combinações novas e criativas em relação aos padrões
estruturais de interação, o que não significa que essas combinações resultem
necessariamente em ampliação do acesso aos direitos de cidadania, atendimento
das agendas do movimento no curto prazo ou fortalecimento das redes
movimentalistas no longo prazo.
Nesse texto buscamos evidenciar e compreender essa combinação de práticas e
rotinas de interação do Estado com os movimentos sociais em diferentes setores
de políticas públicas. Nosso argumento central é que essa variação pode ser
explicada por dois fatores: padrões históricos de relação Estado/movimentos em
cada setor, que expressa a heterogeneidade do Estado brasileiro, e a abertura
no contexto do governo Lula a um experimentalismo inédito resultante da
presença de aliados dos movimentos em postos-chave no interior do Estado.
Para lidar com a ideia de que as interações Estado-sociedade derivam tanto da
tradição histórica quanto de um grau de experimentalismo, utilizamos e
adaptamos significativamente o conceito de repertoire of contention, de Charles
Tilly. O autor empregou o conceito para analisar as escolhas feitas pelos
movimentos não no que se refere ao conteúdo da ação coletiva, mas à sua forma.
Tilly argumenta que quando ativistas decidem como organizar uma ação coletiva,
eles a escolhem a partir de um portfólio finito de técnicas e práticas já
experimentadas e que possuem legitimidade social e política. Exemplos clássicos
são as marchas, petições e barricadas. Apesar da escolha de como organizar ser
profundamente influenciada por experiências passadas e normas sociais, atores
constantemente modificam seu repertório de ação coletiva, experimentando e
combinando diferentes práticas em novas formas de organizar, mobilizar apoio e
expressar demandas (Tilly, 1992; Tarrow, 2009; Clemens, 2010). Neste texto,
adaptamos o conceito de repertório, originalmente concebido para o estudo dos
movimentos sociais sob a chave das dinâmicas contenciosas, para relações que
envolvem também dinâmicas colaborativas entre atores no Estado e na sociedade.
Nossa análise baseia-se em um estudo exploratório conduzido em 2010 em três
setores de políticas caracterizados por trajetórias totalmente diferentes de
relações Estado-sociedade: desenvolvimento agrário, através do Ministério do
Desenvolvimento Agrário (MDA); política urbana, através do Ministério das
Cidades; e segurança pública, através da Secretaria Nacional de Segurança
Pública (Senasp).
Estes setores são caracterizados por tradições bastante distintas de interação
Estado-sociedade, porém passaram por mudanças institucionais durante o governo
Lula que levaram a um resultado semelhante: o aumento da importância da
participação formal no processo de elaboração de políticas públicas, através de
conselhos e conferências. Utilizamos em grande medida análise de literatura
secundária sobre cada setor de política, além de uma breve pesquisa de campo
conduzida em novembro de 2010, na qual entrevistamos em profundidade seis
funcionários públicos de alto escalão envolvidos nos processos de formulação
destas políticas. Enfatizamos o ponto de vista de atores estatais como uma
forma de inverter a tendência de boa parte da literatura em analisar dinâmicas
participativas a partir da perspectiva de atores da sociedade civil4. Um dos
benefícios desta abordagem é contribuir para abrir a "caixa preta" do Estado,
apresentando seus atores como militantes e não apenas como engrenagens das
burocracias, colaborando para o debate em torno da heterogeneidade do Estado
brasileiro5.
A literatura sobre participação produzida nas décadas recentes tem examinado
sistematicamente as variações entre as experiências participativas em relação a
seu nível de democracia interna além de seu impacto na tomada de decisões
públicas. As explicações para tais variações referem-se ao desenho
institucional, ao grau de organização da sociedade civil e aos compromissos
políticos e ideológicos dos atores envolvidos. Este artigo parte desse debate e
propõe a introdução de um fator explicativo novo. As dinâmicas internas e o
impacto político da participação institucionalizada dependem também dos
repertórios de interação sociedade e Estado que se formaram historicamente em
cada área de política pública e que são a base para experimentação criativa em
governos que possibilitam a aproximação ainda maior entre estes atores,
especialmente na medida em que atores com experiências em movimentos sociais
assumem cargos governamentais6.
PARTICIPAÇÃO E REPERTÓRIOS DE INTERAÇÃO
A bibliografia brasileira sobre participação avançou muito nas últimas décadas,
tanto no que se refere ao refinamento teórico-metodológico quanto à combinação
de técnicas de pesquisa, resultando numa produção que, na diversidade de
enfoques e de pressupostos normativos, expressa a complexidade dos processos
recentes de construção da democracia entre nós.
No caso brasileiro, a participação emerge como demanda da sociedade civil ainda
no bojo da luta pela afirmação das liberdades democráticas, o que lhe confere
traços característicos quando comparada aos processos em voga no cenário
latino-americano. Nas décadas seguintes, a ascensão de governos de esquerda no
plano municipal permitiria a experimentação em torno de modelos participativos,
principalmente a partir do que ficou conhecido como o "modo petista de
governar". Nas tentativas de articulação entre sociedade civil e sociedade
política, forjaram-se os modelos institucionais do OP e dos conselhos de
políticas públicas, que ampliaram o imaginário político e abriram caminho para
que o Brasil se tornasse referência nos debates internacionais sobre
participação. Essas experiências foram escrutinadas ao longo das últimas
décadas, com base em um conjunto de teses, livros e artigos resultando em
avanços altamente relevantes nos debates sobre a democracia no interior da
ciência política brasileira.
No início essa produção esteve muito mais focada em produzir bons estudos de
caso que nos permitissem conhecer as dinâmicas, processos e resultados dessas
inovações democráticas. Com o conhecimento produzido por esses estudos
seminais, nos quais se destacamos trabalhos pioneiros sobre o OP (Abers, 2000;
Baierle, 2000; Baiocchi, 2005), desenvolveram-se estudos comparativos que, ao
explicitar a variação nos resultados, chamavam a atenção para a importância de
certas variáveis explicativas. Estudos mostraram que desenhos institucionais
semelhantes resultavam em processos políticos distintos em relação a critérios
como transferência real de poder decisório e abertura à participação de pessoas
de baixa renda e escolaridade (Tatagiba, 2002; Fuks, Perissinotto e Souza,
2004). Outros examinaram porque algumas cidades instituíram fortes programas
participativos, enquanto em outras, desenhos institucionais aparentemente
semelhantes envolveram pouca transferência de poder aos cidadãos (Avritzer,
2003; Borba e Lüchmann, 2007; Wampler, 2007; Wampler e Avritzer 2004). Com base
nesse conjunto de evidências, pesquisas posteriores investigaram o impacto de
três variáveis na implementação de políticas participativas: desenho
institucional, tradição associativa local e vontade política dos governantes.
Estudos mais recentes têm investido no aprofundamento de outras dimensões de
análise, tais como a relação entre desenho institucional e o empoderamento dos
cidadãos (Silva, 2001; Lubambo et al., 2005), a efetividade deliberativa
(Almeida e Cunha, 2009; Avritzer, 2007; Cunha, 2007), o problema da relação
entre participação e representação (Abers e Keck, 2008; Avritzer, 2007; Gurza
Lavalle, Houtzager e Castello, 2006; Isunza Vera e Gurza Lavalle, 2010;
Lüchman, 2007), a questão da escala (Silva, 2001; Faria, 2005) e seus impactos
distributivos (Avritzer, 2010). Evelina Dagnino e colegas (Dagnino, 2002;
Dagnino, Olvera e Panfichi, 2006) ainda exploraram o efeito do projeto político
compartilhado entre governantes e atores da sociedade civil na construção de
novos processos participativos, chamando atenção para a convivência e tensões
entre projetos distintos em torno de propostas semelhantes.
Todos esses estudos mais recentes partem de um insightcomum: novas instituições
podem parecer similares no que se refere às suas estruturas legais e
institucionais, mas seus processos deliberativos podem variar tremendamente,
assim como a extensão na qual eles promovem inclusão política ou incidem na
formulação das políticas públicas. Para além desses fatores, argumentamos que
olhar para a forma como essas novas arenas se encaixam na tradição da relação
Estado-sociedade pode nos ajudar a explicar a variação. Para esse propósito,
introduzimos a noção de repertórios de interação Estado-sociedade.
Charles Tilly (1992:7 apud Tarrow, 2009:51) define repertório como "um conjunto
limitado de rotinas que são aprendidas, compartilhadas e executadas através de
um processo relativamente deliberado de escolha". A ação coletiva, segundo
Tilly, é influenciada não apenas pela natureza de problemas, conflitos ou
demandas existentes, ou pelos recursos disponíveis para um grupo de atores, mas
também pelo know-howorganizacional que atores aprendem tanto de suas lutas
anteriores quanto de suas culturas. Essa experiência prática e o aprendizado
cultural influenciam a forma que a ação coletiva assumirá. Como mostra Tilly,
repertórios são criações culturais que nascem de lutas contínuas e das
respostas dadas pelos atores poderosos a essas lutas (1995:26). Essas práticas
são reproduzidas por duas razões: porque os atores aprendem como conduzi-las a
partir de experiências prévias e porque eles as percebem como formas moralmente
legítimas de organização, mesmo quando envolvem transgressões ilegais. Fazer um
abaixo-assinado, ocupar um prédio, marchar até a capital são ações que ocorrem
apenas porque possuem certo grau de legitimidade social na vida política
contemporânea, apesar de serem vistas como formas extrainstitucionais de se
fazer política.
Se um aspecto central de um repertório é que o mesmo é aprendido do passado,
por outro lado, Tilly e Tarrow enfatizam que atores sociais constantemente
criam e transformam os repertórios que os guiam.
Aqueles envolvidos em ação coletiva não podem inventar uma forma qualquer de
organização: eles trabalham com os formatos organizacionais com os quais estão
familiarizados e que são social e politicamente aceitos. Mas repertórios também
podem ser construídos criativamente. Em uma de suas últimas publicações, Tilly
(2008) enfatizou a ideia de que movimentos realizam performances: ao mesmo
tempo que reproduzem velhos repertórios, eles também improvisam e os
reinterpretam.
Embora a noção de repertório de ação coletiva seja muito útil por nos permitir
compreender a ação dos movimentos sociais, combinando a dimensão da estrutura
com a agência, ela apresenta limites para a compreensão de uma realidade como a
brasileira. A literatura internacional sobre ação coletiva tem historicamente
focado nas relações entre Estado e movimentos sociais sob a perspectiva do
conflito e, por esta razão, a categoria de protesto é um componente central do
repertório de movimentos sociais como Tilly e Tarrow descrevem7. Mas, como
notam Abers e von Bülow (2011), o caso brasileiro desafia esta concepção pela
contínua atuação dos movimentos no interior do Estado e a partir da forte
interação com agentes públicos, sobretudo em cenários nos quais se identifica
compartilhamento de projetos políticos (Dagnino, 2002). As autoras lembram que,
no caso brasileiro, a própria criação de movimentos importantes resulta de
alianças entre indivíduos dentro e fora do Estado, o que coloca em xeque a
visão do Estado como contraponto do movimento. Isto faz com que seja necessário
não apenas "teorizar sobre como os movimentos sociais constroem vínculos de
colaboração com o Estado", mas também "como às vezes movimentos sociais buscam
alcançar seus objetivos trabalhando a partir de dentro do aparato estatal"
(Abers e von Bülow, 2011:78).
Os movimentos sociais brasileiros não apenas negociam frequentemente com o
Estado (o que nos permitiria trabalhar como conceito original de repertório de
Tilly) mas também investiram pesadamente em ações por dentro das instituições
do Estado, tanto através de novas arenas participativas como assumindo
estrategicamente posições na burocracia, transformando o próprio Estado em
espaço de militância política. Para incorporar este aspecto da política
brasileira, sugerimos complementar a noção original de repertoire of
contention, de Tilly, através do conceito de "repertório de interação" entre
Estado e sociedade civil. Esta ampliação permite incorporar a diversidade de
estratégias usadas pelos movimentos sociais brasileiros e examinar como estas
têm sido usadas, combinadas e transformadas. Este estudo identificou ao menos
quatro rotinas comuns de interação Estado-sociedade no Brasil, descritas a
seguir.
Protestos e ação direta. Historicamente, movimentos sociais expressam demandas
e, ao fazê-lo, pressionam os atores estatais a negociar através da demonstração
de sua capacidade de mobilização. A forma de protesto exemplar é a marcha, mas
existem outros métodos que também buscam publicizar conflitos, reforçar
identidades e compromissos, e demonstrar o poder dos números. A experiência do
governo Lula sugere a necessidade de irmos um pouco além: quando governos são
vistos como aliados, protestos não necessariamente desaparecem, mas seu
significado é transformado. Identificamos então dois tipos de rotinas de
protesto e ação direta: "protesto para abrir ou restabelecer negociação", no
caso de governos que são menos permeáveis às demandas dos movimentos; ou
"protestos como parte do ciclo de negociação", mais comuns em situações nas
quais atores de governo e movimento são aliados em torno de projetos políticos
comuns, tal como veremos no caso do MDA.
Participação institucionalizada.Esta forma de interação é caracterizada pelo
uso de canais de diálogo oficialmente sancionados que são guiados por regras
previamente definidas, aceitas pelos envolvidos (e em alguns casos
estabelecidas pela lei). Arenas participativas formais são caracterizadas por
reuniões públicas e documentadas, que têm o propósito explícito de influenciar
decisões específicas sobre determinadas políticas. A participação é geralmente
indireta, envolvendo diferentes formas de representação (por exemplo,
representantes da sociedade civil são escolhidos em assembleias compostas por
grupos da sociedade civil ativos no setor de política). Se na primeira rotina
de interação atores de movimentos sociais definem a forma, o ritmo e a agenda
tanto de protesto como de negociação, essa segunda rotina é caracterizada pela
governança compartilhada, e por um papel central por parte dos atores estatais
em criar e conduzir o processo. No Brasil, três modelos de participação
institucionalizada tornaram-se predominantes: o orçamento participativo, os
conselhos de políticas públicas e as conferências.
Política de proximidade. Esta forma de interação Estado-sociedade funciona
através de contatos pessoais entre atores de Estado e sociedade civil. Atores
específicos obtêm distinção através de sua posição em um campo relacional, que
lhes confere um nível de prestígio tal que lhes possibilita prescindir das
mediações institucionais e/ou estruturas rituais que facultam acessos. A
política da proximidade é característica de relações clientelistas, mas a mesma
não deve ser reduzida a tais padrões, pois enquanto relações clientelistas
pressupõem uma troca personalista de favores, contatos diretos também podem ser
instrumentos para a feitura de demandas públicas e para a promoção do
reconhecimento de direitos coletivos (Teixeira e Tatagiba, 2005). Os militantes
frequentemente avançam suas bandeiras e objetivos através da negociação direta
com os tomadores de decisão, tanto no Legislativo quanto no Executivo. Isso é
facilitado quando ligações diretas entre os movimentos e o Executivo ampliam-
se, como é tendência em governos de esquerda, em que os militantes assumem
posições no Estado (ver abaixo). O recurso mobilizado pelos ativistas, neste
caso, é sua posição como interlocutor reconhecido. No entanto, as razões pelas
quais eles são capazes de "falar diretamente" com autoridades públicas podem
variar substancialmente, envolvendo laços pessoais até o status da organização
à qual pertencem.
A política de proximidade é frequentemente tratada como lobby e ocorre não
apenas no Poder Executivo, mas também no Legislativo. Estudos sobre a relação
entre movimentos sociais e o Legislativo são raros no Brasil, apesar de que em
vários setores de políticas e em diferentes momentos históricos, movimentos
sociais atuaram junto a partidos políticos para que leis ou artigos importantes
fossem aprovados. Esta ausência na literatura possivelmente resulta do fato de
que tais práticas tendem a ser percebidas como um tipo menos nobre de política.
Mesmo assim, avanços importantes na política brasileira resultaram de contatos
diretos, tais como leis que reformaram políticas sociais e criaram sistemas de
participação cidadã (por exemplo os Sistemas Únicos de Saúde e de Assistência
Social, o Estatuto dos Direitos da Criança e do Adolescente, o Estatuto da
Cidade, dentre outros).
Ocupação de cargos na burocracia.Para alguns movimentos sociais brasileiros,
ocupar posições no governo é uma estratégia comum para o avanço de seus
objetivos. Para o movimento ambientalista, por exemplo, a prática remete ao
regime militar, quando as primeiras agências ambientais foram lideradas por
militantes que lutaram por sua criação (Hochstetler e Keck, 2007; Alonso, Costa
e Maciel, 2008). Quando governos são percebidos como aliados dos movimentos,
esta rotina torna-se mais comum. Ocupar posições no governo gera efeitos de
retroalimentação sobre outras rotinas de interação. Por exemplo, movimentos
sociais têm mais oportunidades de envolver-se na política de proximidade quando
seus colegas ocupam cargos no governo. Quando amigos, aliados e companheiros de
militância tornam-se funcionários do Estado, conexões personalizadas entre
atores estatais e não estatais são facilitadas. As negociações são muito mais
prováveis de ocorrer em reuniões informais, não apenas nos ministérios, mas
também durante o jantar, ou outros espaços externos às instituições estatais.
Talvez na maior parte dos casos, burocratas militantes iniciaram suas carreiras
de militância fora do Estado. No entanto, é importante notar que alguns
movimentos sociais foram formados por pessoas que trabalhavam no Estado desde o
início. O movimento reformista do setor de saúde, por exemplo, foi fundado em
parte por profissionais de cargos técnicos e especialistas que trabalhavam no
governo (Dowbor, 2012).
Nas próximas seções, apresentaremos os três casos, enfatizando como diferentes
combinações destas práticas e rotinas formam o repertório de interação Estado-
sociedade nos setores de política por nós investigados.
ESTUDOS DE CASO
Política Urbana e o Ministério das Cidades
Fundado em 1985 com o objetivo de promover acesso à terra urbana e habitação
nas crescentes e desiguais cidades brasileiras, o Movimento Nacional de Reforma
Urbana (MNRU) incluía movimentos de favelas e sem-teto, arquitetos
progressistas, planejadores, advogados, ONGs e muitos outros grupos (Almeida,
2002; Lago, 2010). Inicialmente focando a política local, essa coalizão
diversificada de atores foi responsável por conquistas importantes no plano
nacional entre as décadas de 1980 e 2000, tais como a criação de conselhos
municipais de habitação, a aprovação da legislação de planejamento urbano em
âmbito federal (o Estatuto da Cidade), e a criação, em 2003, do Ministério das
Cidades. O repertório de interação Estado-sociedade nesta área da política foi
construído em um período de 30 anos e incluiu todas as quatro rotinas
discutidas anteriormente.
Durante os anos iniciais do governo Lula, militantes envolvidos na política
urbana nacional privilegiaram o fortalecimento da participação
institucionalizada, com a criação do Conselho das Cidades e da Conferência das
Cidades. Mas os mesmos também se envolveram diretamente no desenho da política
como funcionários do governo e consultores. A presença de militantes dos
movimentos dentro do Estado também facilitou que os de fora pudessem
influenciar o desenho das políticas urbanas.
Os movimentos de moradia têm se envolvido em protestos e ocupações desde os
anos 1970, incialmente com um foco na publicização de demandas e na afirmação
de sua autonomia em relação ao Estado (Banck, 1986; Gay, 1990). A partir de
1987, no entanto, o MNRU buscou transformar as instituições políticas
nacionais, inicialmente através da Constituição então em formulação. O
movimento buscou apoio para uma proposta visando incluir os princípios da
reforma urbana na Constituição e foi capaz de convencer a Assembleia
Constituinte a aprovar garantias (ao menos em princípio) da função social da
propriedade, de maior autonomia municipal e de gestões democráticas. Estas
mudanças abriram espaço para a participação da sociedade civil nas gestões
municipais por meio de plebiscitos, referendos, audiências públicas, conselhos,
conferências e a participação na definição de planos municipais. Após a
aprovação da nova Constituição, o MNRU passa a se chamar Fórum Nacional da
Reforma Urbana (FNRU), expressando a ideia de que a organização se tornou uma
rede articuladora de movimentos e atores plurais.
A consolidação destes instrumentos no plano municipal tornou-se um dos
principais objetivos do FNRU nos anos 1990. Apesar de a ocupação de posições e
a política de proximidade serem rotinas importantes de interação dos movimentos
urbanos com os governos locais ao longo dos anos 1990 e 2000, uma de suas
bandeiras centrais era a criação de novas arenas de participação
institucionalizada. Na década de 1990, o FNRU atuou junto a governos locais,
especialmente os progressistas, e seus membros correntemente ocuparam cargos
nos mesmos buscando promover a criação de OPs, conferências e conselhos. Uma
vez criados, os atores do Fórum ' especialmente aqueles provenientes de
movimentos populares ' tornaram-se membros das novas instituições
participativas que contribuíram para criar. A atuação na mobilização de outras
organizações da sociedade civil e a pressão aos governos locais para a
implementação das decisões tomadas nestes espaços contribuiu para a construção
de conhecimentos e capacidades dentre as organizações do FNRU. Ao longo do
tempo, o Fórum ganhou legitimidade como um ator fundamental nas negociações
envolvendo a política urbana, e tornou-se amplamente reconhecido pela qualidade
técnica de suas propostas para a política.
Os atores do campo da reforma urbana também ganharam experiência em negociações
e pressão sobre o Congresso Nacional. Tais esforços iniciaram-se com a
Assembleia Constituinte e continuaram nos anos 1990, quando os movimentos
urbanos buscavam a aprovação da legislação complementar, regulando o capítulo
da política urbana da Constituição através de leis como o Estatuto da Cidade e
o Fundo Nacional de Habitação Popular. Este último foi finalmente aprovado em
2005 como o Fundo Nacional de Habitação de Interesse Social (FNHIS). Assim, ao
mesmo tempo que os movimentos urbanos se tornaram especialistas em participação
institucionalizada, práticas de lobby permaneceram como parte importante de seu
repertório de interação com o Estado.
Apesar da ênfase na mudança institucional, as organizações do FNRU também
utilizaram as rotinas de protestos, tais como ocupações e manifestações. Em
geral, essas ações visaram pressionar municípios, estados e o governo federal a
negociar, especialmente quando outros canais para encaminhar demandas estavam
fechados, como foi o caso durante boa parte dos anos 1990, enquanto o Estatuto
da Cidade se encontrava estagnado no Congresso. A aprovação dessa lei, em 2001,
trouxe um novo fôlego para os esforços do FNRU em transformar as instituições
do Estado, a partir de então mirando a burocracia federal.
Em 2002, um grupo de militantes da reforma urbana participou da elaboração da
proposta de política urbana da plataforma de campanha presidencial de Lula,
defendendo a criação de um órgão que integraria as políticas de desenvolvimento
urbano, habitação, saneamento, transporte e mobilidade urbana. Tais políticas,
ao menos o que existia delas em âmbito nacional, eram historicamente
fragmentadas entre diferentes ministérios. Ao assumir o poder em 2003, Lula
imediatamente criou o Ministério das Cidades, atendendo a essa demanda. O FNRU
celebrou a decisão como uma grande conquista, que se tornou possível em parte
porque os formuladores de políticas do novo governo compartilhavam de seus
ideais. Além disso, Lula nomeou Olívio Dutra ' ex-prefeito de Porto Alegre que
criou o OP na cidade ' como ministro. Para os militantes do FNRU, esta nomeação
foi um sinal do compromisso de Lula com o projeto de reforma urbana e, por
conseguinte, de participação.
Diversas lideranças e intelectuais do FNRU foram indicados para cargos de alto
escalão no Ministério, e logo foi realizada a Conferência das Cidades e criado
o Conselho das Cidades. O compartilhamento de projetos políticos foi claramente
importante para o estabelecimento destas novas instituições e para o fato de
que o ministro deu prioridade à sua construção. Todavia, de acordo com
entrevistados, as interações Estado-sociedade não se limitavam a tais arenas:
militantes do movimento atuaram como consultores em projetos específicos e
reuniões informais ocorriam regularmente com representantes de movimentos de
moradia, ONGs, organizações de profissionais do setor, acadêmicos. A política
de proximidade acompanhou a expansão da participação institucionalizada, ambas
impulsionadas por uma crescente presença de militantes de movimentos na
burocracia.
Durante o mandato de Olívio Dutra no Ministério, o Conselho e a Conferência
tornaram-se arenas centrais na definição da política urbana. O ministro e
lideranças do FNRU mantinham um acordo informal de que as decisões tomadas no
Conselho, seguindo as diretrizes aprovadas na Conferência Nacional das Cidades,
seriam adotadas pelo ministério. A situação modificou-se após 2005, quando
Márcio Fortes, do Partido Progressista (PP) substituiu Dutra, no contexto do
chamado mensalão. Fortes provinha de uma tradição política bastante distinta,
descrita por entrevistados como baseada em relações personalistas, bilaterais e
mesmo clientelistas. Com a saída de Dutra, boa parte do corpo técnico
proveniente do FNRU foi substituída por técnicos de perfil mais "tecnocrático"
e alheios à construção da plataforma pela reforma urbana. Esta reconfiguração
diminuiu a importância da participação institucionalizada na tomada de
decisões, apesar de os espaços terem permanecido ativos.
Entrevistados afirmam que, na segunda gestão, o Conselho das Cidades
enfraqueceu-se. Funcionários do Ministério ' muitos dos quais não
compartilhavam o compromisso com a colaboração nas decisões públicas '
participavam menos das reuniões. O ministro mantinha outras formas de relação
com a sociedade civil e, de acordo com um dos entrevistados, os atores da
sociedade civil mudaram seu comportamento como resposta. "Quando o padrão do
diálogo muda, mas os interlocutores da sociedade civil permanecem os mesmos,
eles mudam seu padrão de interação", disse o entrevistado. A política de
proximidade agora tornou-se a rotina central de interação. Os representantes
dos movimentos passaram a "jogar o jogo do ministro", adaptando-se à nova forma
de interação. Isso sugere que as mudanças na equipe de alto escalão dentro do
Estado ' com seus projetos políticos e práticas específicas ' pode fazer uma
enorme diferença em termos do tipo de interação prevalecente.
Apesar do declínio da centralidade da participação institucionalizada e do
aumento em uma forma particular da política de proximidade, o repertório de
interação Estado-sociedade sobreviveu à gestão Fortes, ao menos em parte. Os
atores continuaram a relacionar-se através das rotinas historicamente
construídas. Os conselhos e as conferências mantiveram suas reuniões,
juntamente com juntamente com os contatos entre sociedade civil e funcionários
do Estado. Essa continuidade sugere que, apesar das enormes mudanças na
situação política ' passíveis de ocorrer em qualquer governo ' um conjunto
relativamente estável de opções, constituído a partir de várias décadas de
ativismo, permanece disponível, mesmo que seu conteúdo e capacidade de
influenciar decisões políticas tenha flutuado ao longo do tempo.
Política de Desenvolvimento Agrário
Enquanto os movimentos sociais urbanos apresentam uma longa história de
relações com os governos para criar arenas participativas institucionalizadas
antes da chegada de Lula ao poder, em 2003, a história dos movimentos sociais
rurais foi dominada por rotinas de protesto de ação direta. Esta história
diferente de interação do Estado com a sociedade influenciou a forma como
arenas participativas foram recebidas pelo setor de desenvolvimento agrário na
gestão Lula. Durante seu primeiro mandato, os movimentos sociais rurais estavam
envolvidos fortemente na definição das políticas de promoção à agricultura
familiar. Isso envolvia a promoção e o fortalecimento de conselhos de políticas
públicas, mas as negociações entre os movimentos e o Estado geralmente ocorriam
através de adaptação inovadora de rotinas de protesto. Boa parte da literatura
sobre movimentos sociais rurais no Brasil analisou o MST (Movimento dos
Trabalhadores Rurais Sem Terra) e as ocupações de terras voltadas a pressionar
o governo a expropriar fazendas improdutivas para a reforma agrária.
O MST foi criado em 1984, mas a forma de ação de protesto pela qual o mesmo é
famoso ' o acampamento ' tem uma história anterior. Como demonstram Sigaud,
Rosa e Macedo (2008), a transição de ocupações de terras individualizadas para
a forma de acampamento deu-se na década de 1960. Desde o início, os atores do
Estado reconheceram que os acampamentos tinham certa legitimidade. De fato, os
primeiros acampamentos aconteceram com o apoio explícito de atores estatais, em
um caso exemplar sendo mobilizado por um prefeito municipal8. Seguindo a mesma
linha, o estudo de Wolford sobre uma ocupação do MST de um escritório regional
do Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) identificou uma
relação quase simbiótica entre o movimento e o órgão governamental. Wolford a
ponta que o Incra é "indiscutivelmente a agência mais mal financiada e com
maior déficit de pessoal no governo brasileiro" (2010a:96, tradução livre).
Essa fragilidade fez com que os funcionários do Incra dependessem das
capacidades técnicas e organizacionais dos atores sociais do campo para
efetivarem seu trabalho.
Outro importante movimento rural é a Contag (Confederação de Trabalhadores na
Agricultura), um sindicato criado sob um regime corporativista liderado pelo
Estado. A Contag foi criada em 1963, e apesar de permanecer sob intervenção
governamental por muitos anos, foi capaz de continuar funcionando legalmente
durante o regime militar, tornando possível aos militantes o uso de sua
estrutura sindical formal para promover a organização dos trabalhadores rurais,
apesar do contexto mais amplo de repressão violenta dos movimentos sociais. Sua
estrutura organizacional é piramidal, com sindicatos locais organizados nos
Estados, membros da Confederação Nacional. O resultado desta estrutura
organizada de baixo para cima é que os membros não necessariamente seguem
ordens da confederação (ibidem).
Em 1995, a Contag realizou o primeiro "Grito da Terra", uma enorme marcha
nacional em Brasília, na qual demonstrou sua capacidade mobilizatória e
apresentou suas principais demandas ao governo federal. Desde então, a
organização repetiu o Grito da Terra anualmente. As federações estaduais também
realizaram Gritos para fazer suas demandas aos governos estaduais. Essa rotina
de protestos reivindicativos foi também utilizada por outros movimentos rurais.
Em 1997, o MST organizou uma marcha em Brasília que recebeu grande atenção da
mídia. A primeira Marcha das Margaridas ' termo utilizado para referir-se a
mulheres trabalhadoras rurais ' ocorreu em 2000. Em 2005, outra organização
rural foi criada ' a Fetraf (Federação Nacional de Trabalhadores e
Trabalhadoras da Agricultura Familiar), que também organiza marchas anuais.
Criado durante a gestão de Fernando Henrique Cardoso, o MDA tem sido
influenciado por protestos, mas também buscou construir rotinas mais
institucionalizadas de interação: os conselhos de políticas. De acordo com
Wolford (2010b), o governo Cardoso criou uma política de reforma agrária em
resposta à atenção internacional após massacres de Corumbiara, em 1995, e
Eldorado dos Carajás, em 1996, nos quais a polícia matou trabalhadores sem-
terra que ocupavam terras. A principal política de reforma agrária de Cardoso
foi o Pronaf (Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar), um
programa orientado para o mercado cuja prioridade foi criar condições
econômicas para a produção agrícola de baixa escala, e não de distribuição da
terra (ver Branford, 2009). O Pronaf financiou infraestrutura e serviços em
municípios que criaram Conselhos Municipais de Desenvolvimento Rural.
Os movimentos rurais associaram o modelo de conselhos à abordagem mercadológica
da política agrária de Cardoso, vendo-os com desconfiança. Militantes e
acadêmicos simpáticos aos movimentos geralmente sugerem que, apesar de serem
uma boa ideia em princípio, sua implementação teve sérios problemas na prática
pois tenderam a ser criados com a única intenção de permitir que governos
municipais acessem recursos federais. Vários autores notam que os pobres rurais
tendem a ser sub-representados nestes conselhos burocráticos e legalistas e
que, de qualquer forma, tiveram baixo impacto na prática das políticas
agrícolas locais (Abramovay, 2001; Mattei, 2006; Schneider, Silva e Marques,
2009). Em alguns lugares, movimentos sociais rurais recusaram-se explicitamente
a participar dos conselhos, temerosos de que, ao fazê-lo, teriam diminuída sua
capacidade de criticar o governo (Silva, Rocha e Alves, 2011).
O governo Lula investiu em fortalecer e politizar o modelo de conselhos nas
políticas setoriais rurais. O governo reestruturou o Conselho Nacional de
Desenvolvimento Rural e Agricultura Familiar (Condraf), criado durante o
governo Cardoso. O conselho cresceu em tamanho e passou a incluir uma variedade
maior de grupos da sociedade civil, tais como aqueles de mulheres trabalhadoras
rurais e ambientalistas. O novo governo também criou o Conselho Nacional de
Segurança Alimentar e Nutricional (Consea) como parte do Programa Fome Zero,
política marcante de seu primeiro ano no poder. O Consea foi instituído
diretamente ligado à Presidência da República, e é também imbuído da definição
de políticas que afetam a agricultura familiar. Apesar destas mudanças, muitas
organizações de movimentos sociais continuaram evitando confiar apenas nos
conselhos para canalizarem suas demandas para o governo.
De acordo com um entrevistado,
Os mesmos movimentos estão representados no Condraf e não concordam
em transferir para esse espaço toda a negociação. É uma qualidade
isso porque a mobilização que eles fazem não é só pra resultar em
políticas, é pra ganhar força social. Se eles canalizam pro Condraf,
a institucionalização poderia ser um mecanismo de contenção.
Ao mesmo tempo, após 2003, surgiram novos padrões de negociação direta entre o
Ministério e os movimentos. Em governos anteriores, os movimentos rurais
marchavam regularmente para Brasília, apresentavam suas demandas ao governo e
aguardavam uma resposta. A partir de 2003, o governo e os movimentos passaram a
interagir muito mais intensamente através do que se tornou um ritual anual
(Sobrinho, 2011). Entre abril e julho, os movimentos rurais iniciam negociações
através de uma série de marchas e outras ações de protesto, faedas "jornadas de
luta". As jornadas ocorrem nos meses imediatamente anteriores ao anúncio, pelo
governo, das políticas agrícolas para o ano subsequente, o que ocorre em julho,
conforme o calendário agrícola. Ao chegarem a Brasília, os movimentos em marcha
apresentam uma lista detalhada de demandas para o próximo ano e então são
designados representantes do governo e do movimento para uma equipe de
negociação. Os negociadores acordam uma agenda de reuniões e um conjunto de
questões a serem discutidas.
O processo (repetido com cada organização) termina com um pronunciamento do
presidente, anunciando o Plano Safra daquele ano, que incorpora os resultados
combinados de todas aquelas negociações. Em suma, as interações dos movimentos
com o governo foram moldadas por conhecidos repertórios tradicionais de
contestação/contenção que se parecem em grande medida com os protestos que os
movimentos tradicionalmente realizaram para expressar demandas ao governo
federal. A diferença é que em uma gestão "amigável", tais rotinas se
desenvolvem de duas formas. Em primeiro lugar, na gestão Lula, um processo mais
interativo de negociação ocorreu, com a participação direta do Ministério, bem
como da Secretaria-Geral da República, que coordenou as negociações quando
outros ministérios precisariam estar envolvidos. Em segundo lugar, tal processo
de negociação tornou-se rotinizado, ocorrendo todo ano, sempre no mesmo
período. Apesar de a rotina ter permanecido completamente informal, ela tornou-
se uma "instituição não-institucionalizada"9.
A rotinização de protestos e negociações não necessariamente reduz conflitos. A
relação entre o governo e o MST deteriorou-se ao longo dos primeiros anos do
governo Lula, após a organização ter concluído que o governo traiu sua promessa
de campanha de realizar uma reforma agrária ampla (Branford, 2009). Apesar de a
Contag ser frequentemente considerada uma aliada do governo, a estrutura
descentralizada da organização significou que enquanto a liderança nacional
tendia a defender a posição do governo, os sindicatos estaduais e locais
frequentemente apresentaram posições distintas e fizeram demandas que estiveram
fora da agenda nacional da Contag10.
De fato, o valor que o MDA atribuiu a rotinas de protesto provavelmente
resultou da relativa fraqueza do setor dentro do governo. Wolford aponta que,
apesar de o governo Lula ter maior afinidade ideológica com o projeto de
reforma agrária, o contexto não foi propício para o avanço da reforma. Em 2004,
a pressão internacional existente em torno dos massacres dos anos 1990 havia se
dissipado e o preço da terra rural teve uma dramática alta (2010b:214-215).
Wolford demonstra que, após um primeiro ano de investimento crescente no MDA e
no Incra, a situação financeira e de pessoal rapidamente retornou à
precariedade vivida nos governos anteriores. Funcionários do MDA viam os
protestos bastante publicizados dos movimentos sociais rurais como uma forma de
ganhar apoio político para seu setor de política pública e negociar dentro do
governo: "A capacidade de negociação interna no governo se utiliza da força
destas mobilizações. Isso empodera o ministro na negociação interna". Essa
afirmação, feita por um funcionário de alto escalão entrevistado, sugere que
repertórios de interação são influenciados não apenas por relações entre Estado
e sociedade, mas também por relações internas em um governo heterogêneo. Essa
noção desafia a ideia de que tais práticas podem ser compreendidas simplesmente
como um reflexo de confrontos entre Estado e sociedade.
Segurança Pública
Os esforços para construir uma política nacional de segurança pública são ainda
incipientes no Brasil. A Constituição de 1988 tornou os governos estaduais
responsáveis pelo desenho e pela implementação da política de segurança
pública, sem definir claramente as responsabilidades dos governos federal e
municipal. Em 1995, dentro do Ministério da Justiça, o governo Cardoso criou
uma secretaria responsável por segurança pública, posteriormente denominada
Senasp, cuja missão era trabalhar com os governos estaduais na implementação de
uma política nacional (Carvalho e Silva, 2011). Quando o bastante publicizado
sequestro a um ônibus no Rio de Janeiro mobilizou a atenção nacional para o
tema, em 2000, o governo rapidamente publicou o Plano Nacional de Segurança
Pública em que a Senasp estava trabalhando, e anunciou a criação de um Fundo
Nacional de Segurança Pública para financiá-lo. Embora sejam considerados
avanços importantes, esses primeiros passos em direção à criação de uma
política nacional ocorreram com pouquíssimo debate dentro do que foi percebido,
na época, como uma comunidade de política fragmentada e pouco organizada.
Um debate tímido em torno do assunto começou na sociedade civil no início dos
anos 2000, largamente insuflado pelas denúncias de violência policial contra
minorias e pobres (Pavez, Toledo e Gonçalves, 2009). Embora o nível de
organização fosse mínimo em comparação aos dois casos analisados anteriormente,
o número de grupos civis envolvidos nos debates políticos sobre a segurança
pública começou a crescer. Enquanto nos anos 1990 os principais protagonistas
eram ONGs e institutos de pesquisa, no início dos anos 2000, grupos religiosos
(especialmente, um grupo maçônico e a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil
' CNBB), grupos de defesa dos direitos humanos e organizações que representam
os pobres urbanos começaram a organizar campanhas, protestos e outras
atividades para chamar atenção ao problema (ibidem). Em 2000, a CNBB organizou
sua Campanha da Fraternidade anual (um programa nacional com um forte impacto
na comunidade católica) sobre o tema "Solidariedade e Paz". O referendo
nacional do desarmamento que ocorreu em 2005 também mobilizou debates públicos
acerca dessa questão.
Em 2002, o Instituto da Cidadania, ligado ao PT, escreveu uma proposta para o
Plano Nacional da Segurança Pública que seria mais tarde incluída na plataforma
presidencial de Lula. Para escrever a proposta, o Instituto realizou encontros
com oficiais do Estado, pesquisadores, profissionais e ativistas de várias
regiões do país (Soares, 2007). Apesar desse esforço, entretanto, nenhum avanço
significativo foi feito durante o primeiro mandato do governo Lula. O foco
nesses primeiros anos foi no combate à corrupção através da Polícia Federal,
mais que na violência urbana (ibidem). Isso começou a mudar no meio do segundo
mandato de Lula, quando o governo anunciou uma série de políticas voltadas para
o aumento do envolvimento e do apoio do governo federal nas políticas urbanas
estaduais e municipais (Pavez, Toledo e Gonçalves, 2009).
Nenhuma dessas políticas, no entanto, abriu precedentes para a participação
cidadã, algo que só entrou na agenda depois de 2008. A proposta para criar um
conselho de política e para realizar uma conferência nacional para a política
de segurança pública não veio da sociedade civil, mas de um grupo de oficiais
do Estado na Senasp, os quais eram pessoalmente comprometidos com abordagens
participativas. Um Conselho Nacional de Segurança Pública (Conasp) foi criado
alguns anos antes, em 1990, na esteira da Constituição de 1988, mas foi uma
letra morta, sem nenhum impacto na definição da política (refletido no fato de
que nenhum estudo acadêmico foi escrito sobre ele mesmo após 20 anos de
operação). Reativar o Conselho e realizar a Conferência Nacional de Segurança
Pública não foram demandas nem do governo nem da sociedade civil. Ao invés
disso, esses movimentos resultaram do trabalho de um pequeno número de atores
do Estado comprometidos com uma agenda participativa. O apoio do ministro da
Justiça ' Tarso Genro, mais um ex-prefeito de Porto Alegre cuja carreira esteve
intimamente associada ao programa municipal de Orçamento Participativo ' também
desempenharia um papel importante. No entanto, o fato de apenas um pequeno
número de organizações da sociedade civil estarem envolvidas com a questão, a
falta de tradição no diálogo Estado-sociedade e um histórico de conflito entre
organizações civis e a polícia, bem como entre organizações policiais de mais
alto ou mais baixo escalão, criou um terreno inóspito para experimentações com
dinâmicas participativas.
Enquanto nas duas áreas de políticas estudadas formas institucionais de
participação foram criadas e tiveram que se adaptar a um contexto em que densas
redes (entre os movimentos sociais, e entre eles e o Estado) já existiam; nesta
área da política, a participação institucionalizada tinha o objetivo de
produzir relações, ativar conexões e superar a desconfiança e a hostilidade. Na
ausência de um repertório histórico de interação, atores do Estado buscaram
gerar interação e, para tal, basearam-se nos modelos mais citados pela
literatura acadêmica.
Superar a resistência à participação requereu identificar atores-chave na
sociedade civil e no Estado e comprometê-los com o processo. Os organizadores
começaram criando um grupo de trabalho cuja missão era preparar a Conferência
Nacional. Esse Comitê de Organização Nacional incluía oficiais de segurança
pública, organizações da sociedade civil e funcionários federais, estaduais e
municipais das três esferas do governo. A Comissão concebeu uma "metodologia da
conferência" que incluía eventos por todo o país entre julho de 2008 e agosto
de 2009. Ela também permitiu que "conferências livres" ocorressem em qualquer
lugar (como escolas, prisões e igrejas) a partir da iniciativa de organizações
da sociedade civil (Pavez, Toledo e Gonçalves, 2009)11. O estudo de Pavez,
Toledo e Gonçalves usou análises de redes sociais para mostrar que um dos
principais resultados da Conferência foi o aumento nos contatos entre os atores
nessa área de política. A comparação da rede em T1 (antes da conferência) e T2
(depois da conferência) revelou
maior densidade, ou intensificação dos vínculos, em relação ao
momento anterior ao início do processo preparatório da primeira
Conseg, T1, que envolveu a implementação de estratégias de
mobilização das entidades envolvidas com a temática de segurança
pública no país (...). A comparação do total de entidades com o total
de vínculos de um período a outro (T1 a T2) mostra uma diferença
significativa em relação ao aumento do número de vínculos: ao passo
que o aumento do número de entidades de T1 para T2 foi de 10%, o
aumento do número de vínculos foi de 60%. A densidade média da rede,
a proporção de vínculos efetivos em relação aos vínculos possíveis
aumentou em quase 70% e, com isso, as entidades passaram a percorrer
em média uma distância menor para alcançar outras entidades da rede.
O resultado revela que o efeito do processo de mobilização produziu
um forte adensamento das conexões entre entidades que já estavam
presentes no período anterior ao processo preparatório (T1). Assim,
após o início da mobilização, a rede teria se tornado mais coesa, com
"novos caminhos" entre as entidades (Pavez, Toledo e Gonçalves, 2009:
38).
O estudo mostrou ainda que o efeito da construção da rede foi maior para os
sindicatos de trabalhadores em segurança pública, que estavam particularmente
interessados em estabelecer novos contatos com outras organizações ao longo do
processo da Conferência. Grupos pastorais e organizações de defesa dos direitos
humanos também aumentaram o seu envolvimento com essa comunidade política
emergente.
Após o primeiro ciclo de encontros, os participantes da Assembleia Nacional
decidiram, em 2009, estender o mandato da Comissão para mais um ano, a fim de
que pudessem organizar eleições para a renovação do Conselho Nacional (Soares,
2007). Um ano depois, a comissão organizadora cumpriu o estabelecido ao
convocar uma assembleia geral em que organizações da sociedade civil e
sindicatos de trabalhadores em segurança pública escolheram quais de seus pares
ocupariam lugares no mandato 2010-2012 do Conselho. Havia 12 assentos para a
sociedade civil, nove para os trabalhadores e nove para oficiais do Estado
(nomeados pelo governo, e não pela assembleia). Organizações da sociedade civil
mobilizaram-se ativamente para essa eleição e as organizações eleitas tinham
visões claramente diversas, senão mesmo conflitantes, sobre os problemas da
segurança pública e as prioridades políticas. A formação do Conselho fez com
que, pela primeira vez, esses grupos tivessem que trabalhar juntos.
CONCLUSÕES
Neste artigo, argumentamos que dois fatores influenciaram mudanças na relação
Estado-sociedade durante o governo Lula: a migração de ativistas dos movimentos
sociais e simpatizantes para dentro do governo e a transformação criativa dos
repertórios de interação Estado-sociedade já existentes nessas novas
circunstâncias. Quando o PT assumiu o governo federal, movimentos sociais
ligados ao partido enfrentaram inúmeros dilemas e desafios enquanto interagiam
com um governo que parecia ser aliado, mais notadamente através de pressões
para conter suas críticas ou mesmo moderar as suas demandas (Tatagiba, 2009).
No entanto, os casos discutidos aqui também sugerem que os laços mais fortes
entre atores dos movimentos sociais dentro e fora do Estado permitiram uma
combinação criativa de tradições históricas de interação Estado-sociedade em
modos que promoveram novas formas de negociação e diálogo.
Boa parte da literatura sobre as relações Estado-sociedade em governos de
esquerda no Brasil enfatiza instituições participativas formais como o OP,
conselhos e conferências. Nós argumentamos, entretanto, que essas instituições
não devem ser examinadas de modo isolado em relação a outras formas de
interação dos movimentos com o governo. Entender esse contexto mais amplo
requer olhar para a história distinta das relações Estado-sociedade em cada
área de política pública, uma das formas pelas quais podemos apreender a
heterogeneidade do Estado brasileiro.
A própria criação do Ministério das Cidades refletiu décadas de lutas do
Movimento Nacional de Reforma Urbana para mudar instituições federais,
estaduais e municipais. Componente-chave nessas lutas foi o foco na criação de
arenas formais para a participação da sociedade civil. Na época em que Lula
chegou ao poder, movimentos de moradia trabalhavam com tais instituições há
décadas e, comparadas com as duas outras políticas aqui estudadas, tinham uma
fé substancial nelas. Mas esses movimentos também sabiam como se engajar em
formas mais personalistas de interação quando necessário para os seus objetivos
(Gay, 1990; Telles, 1987). Quando um novo ministro, habilidoso no uso dessas
práticas, chegava em cena, os movimentos sociais se adaptavam ao novo contexto,
procurando combinar rotinas de interação baseadas na participação institucional
em conselhos e conferências com um estilo mais personalizado de negociação.
Movimentos sociais rurais, por outro lado, percebiam fortemente as instituições
participativas criadas antes de Lula como uma imposição de um governo
neoliberal que carecia de comprometimento com os seus interesses. Esses
movimentos sentiram-se mais confortáveis com práticas de protesto, um
sentimento que eles compartilharam com funcionários do Ministério do
Desenvolvimento Agrário, vários dos quais vindos dos próprios movimentos. Nesse
contexto, as principais inovações no repertório de interação não ocorreram na
área da participação institucional, mas, sobretudo, no modo como os protestos
se davam. Funcionários do Estado e ativistas dos movimentos reinterpretaram
tradições reivindicatórias através de protestos pela criação de uma rotina
ritualizada de negociação marcada por demonstrações de força e pela capacidade
de atores não governamentais em definir a agenda das negociações. Isso era em
grande medida possível porque a política de proximidade e de ocupação dos
cargos públicos por ativistas tornou mais fácil para o povo, dentro e fora do
Estado construir canais de comunicação e confiar nele mesmo. Essas conexões
provavelmente permitiram que eles modificassem uma rotina que beneficiava os
dois lados, uma vez que marchas para Brasília tornavam mais fácil não apenas
para os movimentos imporem as suas demandas, mas também para o Ministério do
Desenvolvimento Agrário fazer lobbypor apoio dentro do governo.
Por fim, na ausência de uma história de mobilização da sociedade civil em
âmbito nacional nesse campo, mudanças na forma como o Estado e a sociedade
devem negociar a política federal de segurança pública ocorreram quase
inteiramente a partir da iniciativa de funcionários do governo. O modelo de
participação com conselhos/conferências ' amplamente descrito na literatura
acadêmica ' era a forma de interação que esses funcionários podiam imaginar
mais facilmente. Sem surpresa, um dos membros-chave do grupo que propôs a
criação de instituições participativas para a segurança pública escrevera uma
dissertação de mestrado sobre os conselhos participativos. O fato de o ministro
da Justiça à época ter sido um dos principais idealizadores do orçamento
participativo de Porto Alegre se mostrou também crucial na garantia do suporte
para essa proposta participativa mais institucionalizada.
Entender a construção concreta de novas rotinas de conflito, negociação e
participação requer examinar como as redes que obtiveram acesso ao Estado em
momentos particulares trabalharam com práticas históricas de interação Estado-
sociedade em cada área da política. A diversidade dessas experiências reafirma
nosso argumento inicial de que o governo Lula não possuía um projeto
centralizado e uniforme que apontava para a institucionalização de políticas
participativas. Ao invés disso, iniciativas participativas, capacidades e
experiências já existiam em vários setores da política, muito antes de Lula
chegar ao poder. O fato de novas rotinas parecerem ter proliferado durante seu
governo deve ser entendido como um resultado da maturidade e da complexidade de
movimentos sociais brasileiros específicos, combinado com oportunidades
providas pela presença de ativistas e aliados dos movimentos dentro de certos
órgãos12.
Uma direção óbvia para pesquisas futuras é investigar as diferenças nos
repertórios de interação Estado-sociedade nos governos Lula e Dilma. Há
diversos sinais de que a administração Dilma Rousseff se distanciou dos
movimentos sociais. Os protestos massivos no Brasil em meados de 2013 parecem
evidenciar isso. O governo Dilma Rousseff ainda emprega importantes ativistas
em órgãos como a Secretaria-Geral da Presidência da República (SGPR), que
continua a promover o fortalecimento de arenas participativas ao longo de sua
administração. Porém, as rotinas de negociação mais fluidas que descrevemos na
política de agricultura familiar, por exemplo, se esfacelaram durante o governo
atual. Dilma Rousseff é comumente lembrada como uma tecnocrata menos
comprometida com o tipo de negociação aberta que Lula, muito habilmente, sabia
conduzir. Apesar disso, as arenas de participação institucional, mais formais e
limitadas, que o governo dela ainda garante, dificilmente são capazes de ser
flexíveis o bastante para absorver o que parece ser uma sociedade civil cada
vez mais mobilizada e abrangente, ainda que difusamente organizada. A questão
que permanece é se os ativistas dentro e fora do Estado serão capazes de
inventar novas rotinas de interação que possam se adaptar a esse novo contexto.
NOTAS
* Este estudo foi desenvolvido no contexto do projeto "Inter-University
Consortium on the Americas in Comparative and Transnational Perspective.
Interrogating the Civil Society Agenda: Social Movements, Civic Participation,
and Democratic Innovation", coordenado por Sonia Alvarez, do Center for Latin
American, Caribbean, and Latino Studies (CLACLS), University of Massachusetts,
Amherst (UMass), com financiamento da Fundação Ford. Agradecemos também o apoio
financeiro do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico
(CNPq).
1 A ordem de nomes das autoras segue lógica estritamente alfabética, não
representando qualquer diferença na participação na pesquisa e escrita deste
artigo, as quais foram divididas igualmente.
2 Baierle (2000); Abers, (2000); Cortês (1998); Navarro (2003); Avritzer
(2003).
3 Durante todo o governo Lula (2003-2010), foram realizadas 74 conferências e
criados 18 novos conselhos (www.secretariageral.gov.br). A Secretaria-Geral da
Presidência da República (SGPR), responsável pela coordenação das relações
entre governo e sociedade civil, estima que pelo menos 5 milhões de pessoas
participaram de conferências desde 2003 (comunicação pessoal). Para avaliações
sobre a participação no governo Lula, ver Silva (2009); Moroni (2005); Avritzer
(2009); Pogrebinschi (2010); Losekann (2009).
4 Quando nos referimos à burocracia enquanto espaço de militância, aludimos ao
compromisso apaixonado de vários dos ativistas que foram convidados para
trabalhar nas secretarias e ministérios do governo durante o período. Atuando a
partir de um forte senso de urgência, eles tentaram trazer avanços às lutas
sociais construídas e legitimadas nas décadas anteriores no âmbito das redes
movimentalistas que compõem a sociedade civil brasileira. Este tipo de
militância por dentro do Estado foi um tema que surgiu em várias de nossas
entrevistas, mas necessitariam de pesquisas mais detidas para serem analisadas
detalhadamente.
5 As entrevistas seguiram roteiro estruturado e tiveram duração aproximada de
1h50 minutos. Agradecemos aos entrevistados o tempo que nos dedicaram e as
valiosas contribuições para a nossa pesquisa. No caso da Segurança Pública,
foram entrevistadas a Chefe de Gabinete da Senasp (na função entre 2007 e
2010), e a Assessora do Secretário de Segurança Pública, que também acumulava a
função de Secretária-Adjunta da Conferência e do Conselho de Segurança (na
função entre 2007 e 2010). No MDA, entrevistamos o Chefe de Gabinete (na função
desde 2005). No Ministério das Cidades, entrevistamos o Diretor de Planejamento
Urbano e o Secretário Nacional de Programas Urbanos (entre 2003 e 2008) e a
Coordenadora da Área de Reabilitação de Centros Urbanos (na função desde 2009).
Também entrevistamos a Secretária Nacional Adjunta de Articulação Nacional, da
Secretaria-Geral da Presidência da República (na função entre 2006 e 2008) pela
importância que a SGPR assumiu na articulação do diálogo com a sociedade civil
durante todo o governo Lula.
6 Sobre esse ponto, remetemos ao texto de Abers e Tatagiba (2014) sobre
ativismo institucional.
7 Em pesquisas futuras valeria a pena considerar o impacto da construção dos
enquadramentos interpretativos entre atores do Estado e da sociedade civil e a
concorrência entre as áreas dentro do governo sobre as dinâmicas de inovação e
variação nos repertórios de interação, algo que não foi possível avançar nessa
pesquisa. Agradecemos ao parecerista anônimo suas sugestões nesse ponto.
8 Importantes esforços para ampliar nosso conhecimento acerca das ações
institucionais dos movimentos e suas interações conflitivas/colaborativas com o
sistema político incluem Goldstone (2003); Giugni e Passy (1998).
9 Ver também Rosa (2009) para uma discussão do acampamento como uma rotina, ou
"forma" organizacional histórica dos movimentos sociais do campo.
10 No governo Dilma Rousseff, tal rotina não perdurou. Em 2012, por exemplo,
houve uma interrupção nas negociações e o estilo pacífico de protesto que
prevaleceu durante os anos de Lula foi interrompido quando o MST ocupou os
escritórios do MDA em Brasília, levando o governo a suspender as negociações
(Borba, 2012).
11 Agradecemos a João Elias de Oliveira Costa Sobrinho, que compartilhou esta
interpretação, baseada em entrevistas realizadas com membros da Contag em 2011
e 2012.
12 De acordo com entrevistados, em torno de 1.500 conferências livres foram
realizadas ao longo da preparação da Conferência Nacional (Conseg).
13 Um desdobramento futuro dessa pesquisa seria avaliar os efeitos das
diferentes práticas e rotinas de interação com o Estado sobre a configuração e
formas de luta dos movimentos sociais. Somos gratas ao parecerista anônimo de
DADOS ' Revista de Ciências Sociais por suas sugestões nessa direção.