Estrutura Social e Segregação em São Paulo: Transformações na Década de 2000
A região metropolitana de São Paulo é caracterizada por intensa segregação
residencial, construída ao longo das décadas de sua formação e consolidação
como metrópole. Entretanto, as intensas transformações econômicas, políticas e
demográficas vivenciadas pelo país e por sua mais importante cidade nas últimas
décadas fariam esperar diversas mudanças nesses padrões. Esta é, na verdade, a
expectativa das hipóteses existentes na literatura sobre as transformações
recentes em grandes cidades, apontando na direção da polarização da estrutura
social e dos espaços, com aumento da segregação, como veremos mais adiante.
Este artigo testa tais hipóteses utilizando dados dos Censos de 1991, 2000 e
2010 para analisar a segregação residencial na metrópole paulistana em período
recente, assim como suas transformações na última década. Os resultados
apresentados ao longo do texto indicam fortes mudanças, mas nem sempre na
direção esperada pelos debates da área.
O tema foi já vastamente explorado pela literatura desde os anos 1970. Uma
primeira geração de trabalhos analisou o fenômeno de forma narrativa,
qualitativa ou monográfica em estudos clássicos como Camargo_(1976), Kowarick_
(1979) e Bonduki_e_Rolnik_(1982). Mais recentemente, partindo dos dados
censitários de 1991 e 2000, diversos estudos revisitaram o tema de forma
quantitativa, construindo índices de segregação para renda e escolaridade
(Torres,_2005), tipificando situações de vulnerabilidade (CEM,_2004)ou
analisando segregação por classe, considerando diversas classificações
ocupacionais (Taschner_e_Bógus,_2000; Marques,_Bichir_e_Scalon,_2012; Marques_e
Scalon,_2009; Preteceille_e_Cardoso,_2008).
O presente artigo se inscreve nesse debate. Em primeiro lugar, investigo as
principais transformações na estrutura de classes, dialogando com as hipóteses
mais importantes da literatura internacional a respeito dos impactos sociais da
reestruturação produtiva recente e sobre as mudanças na segregação residencial
em grandes cidades. De uma forma geral, não se pode afirmar a presença de
polarização social, embora a hipótese de profissionalização tampouco seja
confirmada completamente. Em seguida, analiso os padrões de segregação em 2000
e 2010, discutindo as suas mais importantes características em termos de
concentração espacial e de localização. De forma sintética, a metrópole
paulistana continua intensamente segregada com um claro padrão de evitação
entre grupos sociais posicionados nos polos da estrutura social, o que é
compatível com a literatura existente. Entretanto, embora as transformações
ocorridas na década tenham trazido maior homogeneidade nas áreas habitadas
pelas elites, a heterogeneidade das periferias tendeu a aumentar.
O artigo é dividido em três partes, além desta Introdução e da Conclusão. Na
primeira, discuto os principais elementos conceituais envolvidos com a análise
a partir da literatura. Em seguida, investigo a estrutura social e o padrão de
segregação residencial em 2000 e 2010, considerando renda e classes sociais. Na
terceira seção, desenvolvo uma tipologia de espaços naqueles anos, de forma a
capturar as mudanças espaciais ocorridas. Ao final, resumo os principais
achados do trabalho.
O DEBATE SOBRE A SEGREGAÇÃO RESIDENCIAL EM SÃO PAULO
Como é amplamente conhecido, São Paulo é intensamente segregada, a exemplo de
outras cidades brasileiras e latino-americanas (Villaça,_2000; Carvalho,_Souza
e_Pereira,_2004; Píres,_2009; Centeno,_2009; Dureau_e_Vanegas,_2009). Estudos
clássicos sobre a cidade já apontavam esse padrão de segregação como uma de
suas mais importantes e constitutivas características (Camargo,_1976; Kowarik,
1979). Também desde os anos 1970 a estrutura geral da segregação residencial
foi caracterizada como radial e concêntrica (Bonduki_e_Rolnik,_1982). Nessa
estrutura, as amenidades, os serviços e os grupos sociais mais ricos
localizavam-se no centro da metrópole. O espaço a partir deste organizava-se em
gradientes de crescente esvaziamento e precariedade na direção das periferias
(Bonduki_e_Rolnik,_1982), lugar de sociabilidade ao mesmo tempo específica e
similar ao restante da cidade (Durham,_1988).
Mais recentemente, enquanto algumas análises ressaltaram a permanência dessa
estrutura (Taschner_e_Bógus,_2000; Maricato,_2003; Villaça,_2000), outras
destacaram a crescente heterogeneidade do território metropolitano, em especial
nas periferias (CEM,_2004; Marques_e_Torres,_2005), mas também nas favelas
(Marques_e_Saraiva,_2005), a exemplo de estudos sobre o Rio de Janeiro
(Valladares_e_Preteceille,_2000). Evidências trazidas por estudos etnográficos
reforçaram essas análises ao indicar significativa heterogeneidade nos espaços
periféricos (Feltran,_2011). É interessante observar que essa heterogeneidade
já era destacada classicamente (Bonduki,_1991; Vetter,_Massena_e_Rodrigues,
1979), embora a leitura predominante até recentemente destacasse a
homogeneidade das periferias.
Para os debates existentes sobre a São Paulo anterior ao ano 2000, essa
heterogeneidade teria sido o produto de diversos processos combinados. Por um
lado, seria produzida por um deslocamento na ação do Estado desde a
redemocratização, impulsionado pela ação de movimentos sociais urbanos e por
burocracias técnicas reformistas em um ambiente de competição partidária
organizada crescentemente pela política eleitoral (Faria,_1992; Marques_e
Bichir,_2003). Isso teria levado ao crescente provimento de políticas e
serviços, mesmo para os mais pobres dentre os pobres (Figueiredo,_Torres_e
Bichir,_2006). Por outro lado, a composição social desses espaços periféricos
também teria se alterado, com intensas mudanças demográficas (Baeninger,_2012),
na pobreza (Marques,_2010) e na estrutura social, que teria se transformado de
forma lenta, mas contínua. Por fim, esses padrões de heterogeneidade teriam
sido reforçados pela disseminação de novos produtos habitacionais ligados a
condomínios fechados localizados em espaços periféricos, em particular para
grupos sociais ricos (Caldeira,_2000).
Essas transformações até o final dos anos 1990 dialogam de forma contraditória
com os debates internacionais existentes sobre as grandes tendências urbanas
das últimas décadas. Podemos resumir os trabalhos internacionais sobre o tema
em dois grupos. Um primeiro conjunto envolve a discussão sobre a reestruturação
produtiva ocorrida desde os anos 1970 e suas consequências sobre as cidades, a
partir de contribuições fundadoras como Sassen_(1991) e Leborgne_e_Lipietz_
(1990), apenas para citar duas das tradições mais influentes (e distintas). Um
segundo grupo de estudos se insere mais claramente na tradição de análises
sobre segregação residencial no espaço, um tema canônico nos estudos urbanos
desde os trabalhos pioneiros da Escola de Chicago (Park,_Burgess_e_MacKenzie,
1925) e dos primeiros esforços de mensuração do fenômeno (Duncan_e_Duncan,
1955). Embora resenhar essas duas tradições esteja fora dos objetivos (e das
possibilidades) deste artigo, uma rápida recuperação dos argumentos recentes é
importante, pois estes informam as principais hipóteses existentes sobre as
transformações ocorridas nas últimas décadas.
Sassen_(1991) sustentou que as transformações do capitalismo introduzidas desde
os 1970 pela abertura de mercados e pela reestruturação produtiva teriam
concentrado as atividades de comando do mundo dos negócios nas grandes cidades,
com o consequente esvaziamento de atividades secundárias, ligadas mais
claramente à produção fordista. As estruturas sociais de tais metrópoles teriam
sofrido processos de polarização, visto que os postos de emprego intermediário
típicos da indústria teriam praticamente desaparecido. Em seu lugar teriam
surgido dois grupos distintos de ocupação - empregos de grande qualificação e
remuneração, em especial nas finanças e nos serviços produtivos, e postos de
trabalho em serviços destinados às pessoas de baixa qualificação e remuneração.
O resultado geral teria sido de polarização de ocupações, de rendimentos e da
estrutura social como um todo. O surgimento de um grupo de super-ricos, assim
como de atividades globalizadas capazes de pagar elevadíssimas rendas da terra,
"espacializariam" essa polarização social com a criação de bolhas imobiliárias
e de grandes projetos de renovação urbana. Embora Sassen_(1991) tenha criado a
hipótese para Nova Iorque, Londres e Tóquio, esta logo se propagou para muitas
outras cidades (Knox_e_Taylor,_1995).
Partindo de premissas teóricas muito distintas associadas à teoria da
regulação, Leborgne_e_Lipietz_(1990) chegaram a um diagnóstico similar. Os
autores sustentaram que a crise do fordismo dos anos 1970 e 1980 nas economias
centrais do mundo capitalista gerou diversas respostas dos atores econômicos e
governamentais, a maior parte delas organizadas em torno de formas diversas de
flexibilização. Estas envolveriam as relações entre firmas, os contratos de
trabalho e os processos propriamente fabris, com inúmeras consequências para o
capital, o trabalho e as estruturas jurídicas e ideológicas. O que mais nos
interessa aqui, entretanto, diz respeito novamente a um diagnóstico de
polarização, tanto em termos da estrutura social, quanto no sentido geográfico,
com a concentração territorial de atividades e de riqueza nos locais já
privilegiados.
Em ambos os casos, portanto, previa-se, como resposta ao crescimento das
atividades terciárias ligadas ao comando dos negócios, polarização social e
espacial, esta última como consequência das novas dinâmicas de produção do
espaço e dos projetos de renovação urbana.
Essas hipóteses têm sido objeto de crítica desde então, em especial pelos
debates recentes sobre segregação residencial em grandes metrópoles, o que nos
leva a uma rápida recuperação deste segundo debate. É preciso apontar
inicialmente que certas partes das hipóteses descritas anteriormente resistiram
melhor ao tempo do que outras. Por um lado, o surgimento de um grupo social de
super-ricos e de um mercado para promoção imobiliária orientada para atividades
de comando dos negócios parece ser consensual. Este processo tem tido grandes
consequências espaciais sobre os mercados de terras, a habitação e as políticas
urbanas, levando a inúmeros projetos de renovação urbana (Fainstein,_2008),
assim como a importantes processos de gentrificação (Butler,_1997) em cidades
de todo o mundo.
A hipótese da polarização social, diferentemente, tem sido duramente criticada,
pois os efeitos locais dos processos globais parecem variar substancialmente.
Segundo alguns autores, os diferentes regimes de Welfare medeiam a influência
de processos globais (Hamnett, 1996a; Vaattovaara_e_Kortteinen,_2003). Como
consequência, os mercados de trabalho podem sofrer processos de depreciação,
melhora ou estabilidade das ocupações, assim como polarização propriamente dita
(Prates_e_Barbosa,_2013). Para muitos, as dinâmicas recentes seriam marcadas na
maior parte dos casos pelo crescimento significativo das ocupações de natureza
profissional, assim como pelo desenvolvimento de uma série de novas posições
intermediárias na estrutura ocupacional de cidades como Londres (Hamnett,_1994,
1996b), Paris (Preteceille,_1995), Tóquio (Fujita_e_Hill,_2012) ou Oslo (Baum,
1999).
Portanto, em termos de estrutura social, temos como hipótese a testar em São
Paulo não apenas a ocorrência de polarização, mas também a profissionalização
da estrutura ocupacional.
Também parece consenso que o rebatimento espacial das transformações produtivas
sobre os tecidos urbanos é mediado por várias dinâmicas e estruturas,
diferentemente da hipótese original de Sassen_(1991). Em cidades como Atenas
(Maloutas,_2007), Budapeste (Kovacs,_2012) e Paris (Preteceille,_1995) as
histórias e estruturas urbanas tiveram importância primordial para construir a
situação atual, enquanto em Madri os mercados locais de terras e de habitação
desempenharam um papel fundamental (Dominguez,_Leal_e_Goytre,_2012). Processos
políticos e políticas públicas locais parecem ter sido fundamentais em diversos
locais como Londres (Hamnett,_1994, 1996b), Paris (Preteceille,_2006),
Copenhagen (Andersen,_2012) e Helsinque (Wessel,_2000), assim como nas diversas
cidades estudadas pelo projeto Urbex (Musterd,_Murie_e_Kesteloo,_2006). Testar
a existência de polarização espacial em São Paulo, portanto, representa uma
segunda importante tarefa analítica.
De que forma então o debate internacional sobre segregação pode nos informar
sobre os processos em curso nas metrópoles brasileiras? Uma excelente e
atualizada revisão em 11 cidades pode ser encontrada no livro editado por
Maloutas_(2012). O autor lista grandes tendências observadas, que dialogam com
os resultados que apresento nas próximas seções. Em primeiro lugar, como já
destacado, tendências globais não necessariamente se verificam localmente,
visto que processos locais influenciam sobremaneira os resultados observados.
Na maior parte dos casos, o principal eixo de segregação é socioeconômico e,
embora dimensões étnico-raciais se façam presentes, superpõem-se àquela
segregação. Neste particular, em geral os ricos são mais segregados do que os
pobres, apesar dos debates usualmente destacarem principalmente os segundos. Os
níveis de segregação dependem muito das políticas estatais, mas não
necessariamente da forma prevista originalmente por seus formuladores. Além
disso, Maloutas_(2012)sustenta que se observa na maior parte das cidades um
aumento da diferenciação social dos lugares com uma crescente aproximação
espacial de grupos sociais diversos, sendo os condomínios fechados e a
gentrificação apenas partes deste processo. Por fim, reduções na segregação não
necessariamente significam redução da desigualdade ou maior contato entre
grupos sociais.
Estes resultados sugerem um conjunto importante de hipóteses para o estudo da
segregação em São Paulo, mas antes de discutirmos a segregação, precisamos
recuperar os processos econômicos que a emolduram desde os anos 1990. A
abertura comercial ocorrida ao longo da década levou a intensos processos de
reestruturação produtiva na metrópole paulistana. Com relação às atividades
produtivas, a exemplo de várias grandes cidades dos países centrais, a presença
relativa da indústria se reduziu, sendo substituída pelo comércio e pelos
serviços, em especial às empresas (Comin_e_Oliveira,_2010). Na década de 2000,
os chamados serviços prestados a empresas foram responsáveis pela geração de
cerca de 800.000 postos de trabalho, ficando atrás apenas do setor de comércio
e distribuição (Marques,_Barbosa_e_Prates,_2013). Esse fenômeno, entretanto,
não encontra paralelo com a desindustrialização observada em centros produtivos
clássicos de outros países. Isso porque grande parte das atividades se deslocou
para um entorno da chamada macrometrópole, que engloba as regiões contíguas de
Campinas, São José dos Campos, entre outras, no processo denominado por
Campolina_Diniz_e_Campolina_(2007) de desconcentração concentrada. Embora a
centralidade da região metropolitana na economia nacional tenha se alterado, a
tendência foi mais de superposição de funções econômicas do que de esvaziamento
ou substituição. A metrópole associa hoje atividades de comando sobre o mundo
dos negócios com atividades produtivas diretas (Campolina_Diniz_e_Campolina,
2007; Comin_e_Oliveira,_2010). Como veremos a seguir, esses processos de
superposição são visíveis nas próprias transformações ocorridas na estrutura
social (lentas, mas de clara direção).
Como não poderia deixar de ocorrer, essas transformações econômicas geraram
importantes consequências sociais. O desemprego cresceu e a formalização dos
postos de trabalho e as remunerações médias caíram de forma quase contínua
entre meados dos 1990 até 2002. Como resultado, a pobreza se elevou durante o
mesmo período, após ter se reduzido de forma importante, mas pontual, com a
estabilização econômica de 1994. Após 2003, todos esses vetores tenderam a se
inverter, com a pobreza e o desemprego declinando e a formalização e os
salários médios aumentando.
De que forma estas transformações impactaram a estrutura social na metrópole?
Inicio a próxima seção pela discussão das transformações gerais ocorridas na
estrutura de classes.
A ESTRUTURA SOCIAL E A SEGREGAÇÃO EM SÃO PAULO
Para analisar a estrutura de classes, utilizo a classificação social gerada a
partir dos dados de ocupação presentes nos Censos de 1991, 2000 e 20101. A
análise segue uma longa tradição de estudos na sociologia urbana que
operacionaliza o conceito de classes sociais partindo de agrupamentos de
categorias ocupacionais (Preteceille,_1995). Utilizo aqui a classificação EGP
(Erikson,_Goldthorpe_e_Portocarrero,_1979), adaptada para o caso brasileiro e
para o Censo de 2010 segundo os procedimentos metodológicos registrados em
Barbosa_e_Marschner_(2013). Esta classificação é baseada em uma combinação de
distinções entre trabalho manual/não manual, rotina/não de rotina,
qualificações e controle e hierarquia sobre o processo de trabalho (contrata
trabalho/assalariado/autônomo). Basicamente, as ocupações listadas nos dados da
amostra do censo, seguindo a Classificação Brasileirade Ocupações (CBO), são
reclassificadas nas classes definidas previamente, segundo as definições da
EGP. O trabalho permite diferentes níveis de agregação e de detalhamento das
classes, cuja utilização envolve basicamente trade-offs entre detalhamento/
precisão e legibilidade/análise. Foram calculadas 11 classes EGP, porém três
classes rurais foram retiradas da análise pela pequena presença na metrópole
(proprietários de estabelecimentos agrícolas, autoempregados na agricultura/
trabalhadores de subsistência e trabalhadores manuais na agricultura).
Vale dizer que, para a análise da estrutura social, utilizo dados de ocupação
para os anos 1991, 2000 e 2010, construindo um quadro das transformações em
duas décadas. Para o estudo da segregação residencial, entretanto, comparo
apenas informações relativas a 2000 e 2010, pois infelizmente os dados
disponibilizados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE)
para o Censo de 1991 não permitem a identificação das áreas de ponderação (AP)
- unidade de análise de maior desagregação das informações de ocupação
(constantes apenas na amostra do censo).
A distribuição da população ocupada pelas classes EGP, de 1991 a 2010, é
apresentada no Gráfico_1. Como se pode ver, as classes mais frequentes referem-
se aos trabalhadores manuais - qualificados e não qualificados, seguidos dos
trabalhadores não manuais de rotina, níveis baixo e alto. Em um terceiro
patamar encontram-se os profissionais níveis alto e baixo.
Gráfico 1 Distribuição das Classes EGP (RMSP, 1991, 2000 e 2010)
Ao longo do tempo, entretanto, os profissionais tendem a aumentar a sua
participação, enquanto os trabalhadores manuais qualificados e não qualificados
reduzem suas presenças relativas, embora essas duas classes continuem sendo
predominantes em 2010. Os trabalhadores não manuais de rotina nível alto tendem
à manutenção ou a uma pequena redução que pode se dever à variação amostral. Os
trabalhadores não manuais de rotina nível baixo, por outro lado, apresentam
clara tendência de crescimento. Ao final do período, entretanto, os manuais não
qualificados e os trabalhadores não manuais de rotina nível baixo se encontram
quase em iguais proporções, o que em certo sentido é emblemático das
transformações em curso na parte inferior da estrutura social. Os proprietários
parecem se reduzir relativamente, mas o tamanho do grupo é muito pequeno e o
resultado pode se dever à variação amostral.
Esse resultado é amplamente contrário ao que seria de se esperar considerando
as teorias que associam os processos de reestruturação produtiva com
polarização social discutidas na primeira seção deste artigo. Um resultado de
polarização seria encontrado se tanto as classes superiores (em especial
proprietários e profissionais de nível alto) quanto os trabalhadores manuais
desqualificados crescessem, ao mesmo tempo que trabalhadores manuais
qualificados e não manuais de rotina de nível baixo diminuíssem. As
transformações indicadas no Gráfico_1 são mais compatíveis com a ideia de
profissionalização provocada pela reestruturação produtiva, também discutida
anteriormente. No entanto, também no caso desta hipótese seria de se esperar
uma redução mais significativa dos trabalhadores manuais, em especial dos
qualificados. A permanência dessa classe como a mais numerosa na metrópole,
mesmo que em queda, associada com o crescimento dos profissionais, é compatível
com a interpretação de uma combinação de centralidades econômicas na metrópole
paulistana ao fim do período estudado, concentrando novas atividades de comando
sobre o mundo dos negócios, mas sem perder completamente sua centralidade
fordista anterior.
Observemos agora a segregação residencial. Vale indicar que as informações de
ocupação dos censos demográficos estão incluídas apenas na amostra, o que torna
as áreas de ponderação (AP) as unidades de análise disponíveis mais
desagregadas. Infelizmente, como já assinalado, só é possível desenvolver a
análise para 2000 e 2010, em razão da limitação dos dados das áreas de
ponderação em 1991. Para permitir a comparação entre aqueles dois anos,
construímos uma base cartográfica comparável entre os censos, agregando as 844
áreas de ponderação de 2000 nas 633 áreas de ponderação do Censo de 2010.
Um primeiro patamar de investigação pode ser alcançado pela observação da
renda. Primeiramente, podemos analisar a distribuição espacial da renda
utilizando o Índice de Moran, indicador de segregação que mede a autocorrelação
espacial com relação a alguma variável de interesse. Matematicamente, o índice
varia entre -1 e 1, e expressa a correlação entre o valor de uma variável de
interesse em cada área e as médias dessa mesma variável nas áreas vizinhas.
Quanto mais próximo à unidade, mais forte é a relação (Anselin,_1995). O Índice
de Moran para a variável renda do chefe para as áreas de ponderação de 2000 era
de 0,704, o que indica a existência de uma associação geográfica positiva e de
intensidade de média a forte. O mesmo índice para a variável renda do
responsável em 2010 alcançava 0,699, praticamente idêntico. Portanto, no que
diz respeito à renda, a metrópole apresenta segregação entre média e alta, que
permaneceu intocada entre 2000 e 2010.
Entretanto, os rendimentos nos dão uma medida demasiadamente simples da
segregação por grupos sociais. Outro desdobramento mais detalhado diz respeito
à segregação por classes sociais, medida pela classificação EGP já comentada
anteriormente. Essa informação é apresentada na tabela a seguir, com as mesmas
oito classes ordenadas de forma decrescente em termos de rendimentos.
São apresentados dois índices na Tabela_1: o Índice de Moran (IM) e o Índice de
Dissimilaridade (ID). A tabela apresenta os dois índices, pois cada um deles
tem vantagens e desvantagens. O Índice de Moran é menos sensível aos tamanhos
dos grupos, mas tem interpretação menos intuitiva, enquanto o ID sofre a
influência dos tamanhos relativos dos grupos. As classes manuais, por exemplo,
apresentam Índices de Dissimilaridade muito mais baixos do que seus Índices de
Moran, pois representam grupos grandes, que são predominantes em um amplo
território, embora concentrados em áreas segregadas (as periferias). A análise,
portanto, deve combinar a observação dos dois índices.
Tabela 1 Índices de Moran e de Dissimilaridade por Classes (RMSP, 2000 e 2010)
Classes Índice de MoranÍndice de Dissimilaridade
2000 2010 2000 2010
Proprietários e empregadores 0,71 0,59 0,39 0,43
Profissionais, nível alto 0,80 0,75 0,37 0,35
Profissionais, nível baixo 0,78 0,74 0,18 0,23
Não manuais de rotina, nível alto0,61 0,46 0,12 0,10
Técnicos e supervisores 0,62 0,49 0,12 0,13
Não manuais de rotina, nível baix0,61 0,58 0,10 0,11
Manuais qualificados 0,68 0,73 0,16 0,15
Manuais não qualificados 0,60 0,66 0,15 0,17
Fonte: CEM, Barbosa_e_Marschner_(2013) e cálculos do autor, a partir de dados
do IBGE.
Observemos primeiro o Índice de Moran. Usualmente considera-se que valores
superiores a 0,6 indicam alta segregação. As informações da tabela, portanto,
sugerem segregação entre média-alta e alta, em especial para as categorias
superiores. Além disso, os números variam pouco, mas predomina pequena redução,
exceto nas classes manuais. Por exemplo, o índice dos profissionais de nível
alto era de 0,80 em 2000, e passou a ser de 0,752. Isso indica certa redução da
concentração dessas classes, embora o resultado possa expressar também o
aumento proporcional dessas classes na década, como já vimos. No caso dos
trabalhadores manuais qualificados e não qualificados, observa-se elevação da
segregação (únicos casos de elevação dos Índices de Moran). Como vimos
anteriormente, essas duas categorias reduziram a sua presença da década, o que
pode ajudar a explicar o aumento da segregação.
As classes médias apresentam os menores índices. Também nessas classes se
observam as mudanças mais expressivas, em especial nas dos trabalhadores não
manuais de rotina, níveis alto e baixo. Embora essas não fossem as classes mais
segregadas em 2000, passaram a ser as menos segregadas em 2010, com índices de
0,46 e 0,58. Veremos que a redução da concentração dessas categorias médias
está inserida em uma tendência recente de expansão exatamente dos espaços
mistos. Os empregadores e os técnicos e supervisores também apresentaram
reduções expressivas, mas este resultado pode expressar apenas variações
amostrais, dado o tamanho destas classes.
Observemos agora o Índice de Dissimilaridade (Tabelas_2 e 3). O índice varia
entre 0 e 1 e totaliza as diferenças entre as distribuições de atributos de
interesse, considerando uma distribuição como referência. Isso pode parecer um
pouco obscuro, mas na verdade a sua interpretação é bastante intuitiva,
indicando a proporção da população com um atributo de interesse (como certa
origem migratória) que deveria ser movimentada espacialmente para igualar a
distribuição da população como um todo ou com outro atributo (a população de
outra origem, por exemplo). Como consequência, a tabela nos informa que em 2000
37% da população de profissionais de nível alto (ou 0,37) deveria ser
movimentada para que a distribuição dessa classe fosse igual à da população em
geral nas áreas de ponderação. Como se pode ver, encontramos índices de
moderados a baixos (entre 0,1 e 0,23) tendo o conjunto da população como
referência, exceto para profissionais de nível alto (0,37 e 0,35 em 2000 e
2010, respectivamente) e proprietários (0,39 e 0,43)3, não por acaso as classes
superiores já apresentavam Índices de Moran muito altos.
Tabela 2 Índices de Dissimilaridade entre Classes (RMSP, 2000)
Classes Proprietários e Profissionais, nível Profissionais, nível Não manuais de rotina, nível Técnicos e Não manuais de rotina, nível Manuais Manuais não
empregadores alto baixo alto supervisores baixo qualificados qualificados
Proprietários e empregadores - 0,15 0,26 0,36 0,42 0,45 0,53 0,50
Profissionais, nível alto 0,15 - 0,22 0,33 0,40 0,42 0,52 0,49
Profissionais, nível baixo 0,26 0,22 - 0,14 0,21 0,23 0,34 0,32
Não manuais de rotina, nível 0,36 0,33 0,14 - 0,13 0,15 0,25 0,25
alto
Técnicos e supervisores 0,42 0,40 0,21 0,13 - 0,15 0,19 0,21
Não manuais de rotina, nível 0,45 0,42 0,23 0,15 0,15 - 0,15 0,15
baixo
Manuais qualificados 0,53 0,52 0,34 0,25 0,19 0,15 - 0,10
Manuais não qualificados 0,50 0,49 0,32 0,25 0,21 0,15 0,10 -
Fonte: CEM, Barbosa_e_Marschner_(2013) e cálculos do autor, a partir de dados
do IBGE.
Tabela 3 Índices de Dissimilaridade entre Classes (RMSP, 2010)
Classes Proprietários e Profissionais, nível Profissionais, nível Não manuais de rotina, nível Técnicos e Não manuais de rotina, nível Manuais Manuais não
empregadores alto baixo alto supervisores baixo qualificados qualificados
Proprietários e empregadores - 0,18 0,27 0,41 0,48 0,51 0,56 0,57
Profissionais, nível alto 0,18 - 0,16 0,32 0,39 0,43 0,49 0,50
Profissionais, nível baixo 0,27 0,16 - 0,19 0,28 0,30 0,38 0,39
Não manuais de rotina, nível 0,41 0,32 0,19 - 0,15 0,16 0,22 0,25
alto
Técnicos e supervisores 0,48 0,39 0,28 0,15 - 0,16 0,17 0,21
Não manuais de rotina, nível 0,51 0,43 0,30 0,16 0,16 - 0,13 0,15
baixo
Manuais qualificados 0,56 0,49 0,38 0,22 0,17 0,13 - 0,10
Manuais não qualificados 0,57 0,50 0,39 0,25 0,21 0,15 0,10 -
Fonte: CEM, Barbosa_e_Marschner_(2013) e cálculos do autor, a partir de dados
do IBGE.
Portanto, sob o ponto de vista de ambos os índices, as classes superiores são
as mais segregadas4 e as demais apresentam graus de segregação entre medianos e
altos. Na década, as classes que mais cresceram proporcionalmente tenderam a se
desconcentrar, enquanto as que se reduziram aumentaram sua segregação.
Estes resultados, entretanto, ainda dizem respeito ao conjunto da metrópole.
Podemos também calcular o Índice de Dissimilaridade entre classes, investigando
de que forma os grupos sociais se segregam uns em relação aos outros. As
Tabelas_2 e 3 apresentam a informação para 2000 e 2010, respectivamente.
Exemplificando a interpretação dos indicadores, a Tabela_2 nos informa que o ID
entre profissionais de nível alto e trabalhadores manuais qualificados, por
exemplo, era de 0,52 em 2000. Isso quer dizer que 52% dos profissionais de
nível alto deveriam ser movimentados em 2000 para alcançar a mesma distribuição
dos manuais qualificados. Em 2010, esta proporção caiu para 0,49. O mais alto
índice dizia respeito a proprietários e manuais de nível baixo em 2010 - 0,57 -
valor bastante elevado. Os índices mais altos diziam respeito, portanto, às
elites, tendo as classes inferiores como referência. Por outro lado, os níveis
do ID entre grupos médios e inferiores eram entre medianos e baixos.
No entanto, a observação das tabelas ainda nos indica outra dimensão mais
importante. Como podemos ver, os índices são perfeitamente ordenados entre as
classes. Quando caminhamos à direita nas linhas ou para baixo nas colunas, os
índices aumentam para as classes superiores e diminuem para as inferiores. Para
as classes médias eles se reduzem e depois aumentam, embora com menor
magnitude. Desse modo, os dados sugerem de forma bastante eloquente que, quanto
maior a distância social entre classes, maior a segregação. A estrutura da
segregação em São Paulo, portanto, é fortemente hierárquica socialmente, em um
claro sentido de evitação social. Assim, entre classes de elite, ou entre
classes inferiores, os IDs são muito baixos, enquanto crescem muito entre
grupos de elite e inferiores. As distribuições espaciais das classes médias são
muito mais próximas daquelas dos grupos inferiores do que das elites,
reforçando que o tecido metropolitano tende a ser relativamente heterogêneo,
exceto pela localização das classes do topo da estrutura social5.
Em termos dinâmicos, comparando as duas tabelas, podemos notar que predomina em
geral a manutenção dos índices, mas eles tendem a aumentar entre os
profissionais de nível baixo e as categorias médias e baixas, assim como entre
os proprietários e todas as categorias médias e baixas. Entre profissionais de
níveis alto e baixo, os índices diminuem.
Portanto, a metrópole paulistana é segregada, em especial no que diz respeito
às classes superiores. O conjunto da estrutura de segregação é fortemente
hierárquico e as classes médias e inferiores tendem a se misturar mais, mas em
espaços não habitados pelas elites. A segregação se manteve em geral estável ao
longo da década, embora talvez com aumento da segregação das classes superiores
e redução da segregação das classes baixas, que se tornaram mais misturadas com
as médias. Observemos agora como esse processo se desdobra nos vários espaços e
regiões da metrópole.
OS TIPOS DE ESPAÇOS E SUA DISTRIBUIÇÃO GEOGRÁFICA
Esta seção explora os detalhes espaciais das dinâmicas gerais da segregação
observadas anteriormente. Para tanto, realizo dois exercícios analíticos
sucessivos. Primeiro, delimito tipos de espaços em cada momento censitário e
analiso as suas transformações ao longo dos anos 2000. Em seguida, investigo os
padrões de distribuição geográfica destes espaços utilizando mapas.
Tipos de Espaços
Para a construção dos tipos de espaços, desenvolvi classificações de unidades
espaciais (as áreas de ponderação) a partir das presenças relativas das classes
sociais em cada uma delas. Esta tipologia partiu da base cartográfica
compatibilizada 2000/2010, sendo a distribuição das classes EGP nas áreas de
ponderação em 2000 e 2010 submetida a análises fatorial e de cluster. O ponto
de partida da análise foi um banco de dados construído de forma que cada área
de ponderação entrasse duas vezes, cada uma com as distribuições proporcionais
das classes em um censo. Esse procedimento gerou tipos de áreas considerando a
composição de classes ali presente, e a utilização conjunta da distribuição dos
grupos para os dois censos gerou uma classificação para os dois momentos
simultaneamente, garantindo a comparabilidade. A seguir, discuto os resultados,
primeiro em termos de distribuição das classes, e depois em termos de mudança
dos espaços.
De forma a facilitar a análise de cluster, foi realizada primeiramente análise
fatorial da distribuição das classes nas 1.266 "áreas" (633 de cada censo). A
análise sugeriu uma grande concentração do fenômeno em dois fatores com
autovalores superiores à unidade, que explicavam 78,9% da variância. O primeiro
fator se associava de forma forte (e positiva) à presença de proprietários e
profissionais e negativamente aos trabalhadores manuais. O segundo encontrava-
se associado principalmente com técnicos e supervisores e com trabalhadores não
manuais de rotina, níveis alto e baixo.
Em seguida foi realizada análise de cluster das áreas segundo esses dois
fatores. Foram testadas várias soluções, mas a que produziu melhor
diferenciação entre grupos incluiu cinco grupos6. A distribuição das classes
para 2000 pode ser observada na Tabela_4. Como se pode ver, à medida que
trafegamos do 1 ao 5, os grupos apresentam proporções decrescentes de classes
superiores - proprietários e profissionais - e crescentes de trabalhadores
manuais. As classes intermediárias tendem a aparecer mais fortemente nos grupos
intermediários, caracterizados por conteúdos mistos, mas com baixa presença
relativa dos grupos superiores.
Tabela 4 Distribuição Proporcional das Classes por Grupos (RMSP, 2000) (%)
Número de População %da Proprietários e Profissionais, nível Profissionais, nível Não manuais de rotina, nível Não manuais de rotina, nível Técnicos e Manuais Manuais não
Grupos Áreas de população empregadores alto baixo alto baixo supervisores qualificados qualificados
Ponderação
Total 633 17.718.900 100,0 3,0 7,7 8,1 11,7 16,4 4,9 28,1 19,2
1. Espaços das elites 43 1.116.233 6,3 10,6 29,0 18,2 11,8 9,8 3,3 6,5 10,6
2. Espaços das classes médias-
altas 58 1.671.129 9,4 7,5 17,5 14,0 14,1 15,5 4,5 14,7 12,0
3. Espaços médios-misturados 127 3.816.541 21,5 3,6 9,5 10,5 15,5 17,4 6,0 23,1 14,1
4. Espaços médios-baixos
misturados 215 6.506.186 36,7 1,8 4,6 6,6 11,6 17,8 4,9 30,5 21,0
5. Espaços dos trabalhadores
manuais 190 4.608.810 26,0 1,0 2,3 4,3 8,5 16,0 4,7 37,6 24,8
Fonte: CEM, Barbosa_e_Marschner_(2013) e cálculos do autor, a partir de dados
do IBGE.
O exercício analítico também gerou grupos para 2010, como demonstrado na Tabela
5. Os resultados apresentaram muita semelhança com os obtidos para 2000, embora
as diferenças sejam mais expressivas nos espaços médios-baixos misturados e nos
espaços manuais.
Tabela 5 Distribuição das Classes por Grupos RMSP, 2010 (%)
Número de População % da Proprietários e Profissionais, nível Profissionais, nível Não manuais de rotina, nível Não manuais de rotina, nível Técnicos e Manuais Manuais não
Grupos Áreas de 2010 população empregadores alto baixo alto baixo supervisores qualificados qualificados
Ponderação
Total 633 19.601.268 100,0 2,2 10,9 9,9 11,8 17,2 4,0 25,4 17,8
1. Espaços das elites 47 1.346.324 6,9 8,7 38,5 20,8 10,0 7,0 2,3 5,0 7,5
2. Espaços das classes médias-
altas 53 1.711.317 8,7 6,2 24,4 17,5 13,7 13,5 3,2 12,7 8,6
3. Espaços médios-misturados 136 4.325.736 22,1 2,4 13,3 13,4 15,4 17,3 4,8 21,0 12,1
4. Espaços médios-baixos
misturados 214 7.029.647 35,9 1,2 6,3 7,7 11,8 19,2 4,1 28,1 20,2
5. Espaços dos trabalhadores
manuais 183 5.188.244 26,5 0,5 3,4 4,8 9,0 18,5 3,9 34,4 24,5
Fonte: CEM, Barbosa_e_Marschner_(2013) e cálculos do autor, a partir de dados
do IBGE.
Mas será que essas configurações de classe mostram características sociais
distintas? Estas podem ser analisadas pelas médias de indicadores não
utilizados na análise, inclusive como forma de validar o exercício analítico. A
Tabela_6 apresenta a informação, indicando uma clara ordenação decrescente dos
tipos de espaço em termos de condições sociais e urbanas. Os rendimentos tendem
a cair substancialmente entre os grupos, quando consideramos quocientes em
relação à média metropolitana em 2010. É importante notar que os espaços
superiores distam muito mais da média do que os inferiores. A composição social
também indica população mais rica, menos jovem, menos preta e parda e mais
escolarizada nos espaços superiores, com inversão paulatina desses conteúdos
quando caminhamos para baixo na tabela.
Tabela 6 Indicadores Sociais Escolhidos por Grupos (RSMP, 2010)
Grupo N Renda/renda média Moradores População com até 5 anos de idade (População com até 10 anos de idade (Autodeclarados Alfabetizadas
metropolitana por pretos ou com 5 anos de
domicílio pardos (%) idade ou mais
(%)
Total 633 1 3,3 5,3 15,2 38,1 93,7
1. Espaços das elites 31 3,5 2,6 3,4 9,1 10,3 98,1
2. Espaços das classes médias-
altas 65 1,9 2,9 3,9 11,0 17,8 97,0
3. Espaços médios-misturados 125 1,0 3,1 4,6 13,1 28,7 95,9
4. Espaços médios-baixos
misturados 200 0,7 3,4 5,6 16,3 43,6 92,8
5. Espaços dos trabalhadores
manuais 212 0,5 3,5 6,3 18,3 51,7 91,2
Fonte: CEM, Barbosa_e_Marschner_(2013) e cálculos do autor, a partir de dados
do IBGE.
Com base nos indicadores das tabelas anteriores e em outras variáveis do censo,
podemos caracterizar os grupos de unidades em 2010 como se segue:
1) Espaços das elites
Caracterizava-se pela elevada presença de proprietários e profissionais
(68,0%), com renda muito alta (quatro vezes a média da metrópole) e
escolaridade elevada. A presença de crianças era baixa e a de pessoas
autoclassificadas como pretas ou pardas era de apenas um quarto da média da
metrópole. Os trabalhadores manuais tendiam a ser residuais - 12,5%. Esses
espaços incluíam majoritariamente apartamentos (69,5%), densidade domiciliar
baixa e acesso à infraestrutura quase completa (coberturas maiores do que 96%
para todos os serviços urbanos). Esses espaços representavam claramente as
áreas ocupadas pelos grupos sociais de elite. Perderam população na década de
1990 com taxas médias negativas de -1,1% ao ano, mas inverteram as taxas e
cresceram a 1,1% ao ano nos anos 2000.
2) Espaços das classes médias-altas
Os proprietários e profissionais também eram predominantes neste grupo, mas já
não majoritários - 48,1%. Além disso, esses espaços também alojavam proporções
acima da média de trabalhadores não manuais de rotina nível alto - 13,7%,
totalizando 61,8% dessas classes na sua população. A renda era média-alta, mas
muito inferior à dos espaços da elite (pouco superior à metade). Esses espaços
também se apresentavam predominantes como de apartamentos (43,9%) e condomínios
(2,8%, a mais alta presença entre os grupos), e dispunham de infraestrutura
completa (praticamente igual à do grupo anterior). Essas áreas também
apresentaram queda populacional nos anos 1990 - taxas negativas de -0,7% ao
ano, em média, e também recuperaram o crescimento nos anos 2000 (1,2% aa).
3) Espaços médios-misturados
Esses espaços tinham características próximas da média da metrópole em quase
todos os indicadores, mas proporções levemente acima da média de profissionais,
trabalhadores não manuais de rotina nível alto e técnicos e supervisores. A
proporção dessa última classe é a mais alta em toda a metrópole. Certamente
representavam áreas misturadas, mas com predominância de classes médias e
também presença de grupos superiores. Os indivíduos autodeclarados pretos e
pardos já alcançam 29% da população. Em termos gerais, suas características
eram um pouco superiores à média em termos de composição social. Os
apartamentos eram amplamente minoritários (apenas 22%), mas as condições
urbanas continuavam bastante elevadas e a infraestrutura próxima da
universalização. Estes espaços apresentaram quase estabilidade demográfica nos
1990 - taxa média negativa de 0,1% aa, e crescimento bastante reduzido nos anos
2000 (apenas 0,5% aa).
4) Espaços médios-baixos misturados
Áreas com predominância de trabalhadores manuais (qualificados e não
qualificados), mas também não trabalhadores manuais de rotina nível baixo e
técnicos e supervisores. Essas quatro classes totalizavam 71,6% da população.
Esses espaços apresentavam a mais elevada presença de trabalhadores não manuais
de rotina nível baixo - 18,5%, e a renda relativa situava-se entre média e
baixa. Tratava-se de áreas com características sociais mistas entre classes
médias e grupos sociais baixos e com elevada presença de pretos e pardos (44%).
A habitação predominante eram casas (apenas 9% de apartamentos), e os setores
subnormais eram mais frequentes do que a média da metrópole. Esses espaços
tiveram crescimento alto nos anos 1990 - 2,8% aa, e continuaram crescendo nos
anos 2000 (1,1% aa). As condições de infraestrutura eram próximas da média
metropolitana ou mesmo melhores do que ela para a maior parte dos indicadores.
5) Espaços dos trabalhadores manuais
O último grupo apresentava uma elevada e clara predominância de trabalhadores
manuais qualificados e não qualificados - 58,9%. A única outra classe com
proporção superior à média metropolitana era a dos trabalhadores não manuais de
rotina, nível baixo, com 18,5%. A renda era muito baixa. A população morava
quase sempre em casas (91,7%) e os moradores de setores subnormais eram muito
frequentes. Indivíduos autodenominados pretos ou pardos eram predominantes -
51,7% (único tipo de espaço com essa predominância), e jovens eram abundantes.
Essas áreas experimentaram explosão demográfica nos anos 1990 - 6% aa, e
continuaram crescendo a taxas expressivas nos anos 2000 - 1,9% aa. As condições
de infraestrutura eram muito precárias em quase todos os indicadores - apenas
72% dos domicílios contavam com banheiros de uso exclusivo, 72% tinham lixo
coletado por serviço de coleta e 73% dos domicílios tinham acesso a serviços de
energia elétrica com medidor individualizado. É de se notar que os quatro
espaços precedentes apresentavam pequena variação nas condições de
infraestrutura, com coberturas altas e próximas às médias da metrópole. O único
espaço que discrepava era exatamente o dos trabalhadores manuais, em que todos
os indicadores apresentam coberturas inferiores à média (por vezes
substancialmente), e os indicadores de precariedade do entorno das habitações
indicavam condições muito precárias em 2010.
Mas será que estes espaços já tinham essas características em 2000? Que tipo de
transformações ocorreram em termos de conteúdos sociais nesses espaços? Para
controlar as mudanças nos conteúdos dos tipos de espaço em cada censo,
analisamos as diferenças das classes nos grupos, o que pode nos indicar
alterações nas composições sociais destes espaços. A subtração das proporções
relativas das classes nas áreas nos censos (Tabelas_4 e 5) resulta nas
diferenças apresentadas Tabela_7 (valores inferiores a 1,5% em módulo foram
ocultados, para aumentar a visibilidade).
Tabela 7 Diferenças entre as Proporções nas Áreas (RMSP, 2010-2000) (%)
Diferenças: 2010-2000 Proprietários e Profissionais, nível Profissionais, nível Técnicos e Não manuais de rotina, nível Não manuais de rotina, nível Manuais Manuais não
empregadores alto baixo supervisores alto baixo qualificados qualificados
Total 3,2 1,7 -2,7
1. Espaços das elites -2,0 9,5 2,6 -1,8 -2,8 -1,5 -3,1
2. Espaços das classes médias-
altas 7,0 3,5 -2,1 -2,0 -3,4
3. Espaços médios-misturados 3,8 2,8 -2,2 -2,0
4. Espaços médios-baixos
misturados 1,7 1,4 -2,4
5. Espaços dos trabalhadores
manuais 2,5 -3,1
Fonte: CEM, Barbosa_e_Marschner_(2013) e cálculos do autor, a partir de dados
do IBGE.
Nota: diferenças inferiores a 1% ocultadas.
Como se pode ver, há diferenças substantivas apenas nas classes profissionais,
altos e baixos (positivas), e nos trabalhadores manuais (negativas). As classes
profissionais aumentaram a sua presença generalizadamente, mesmo onde eram
amplamente minoritárias, reforçando as evidências de profissionalização.
Simultaneamente, os trabalhadores manuais reduziram sua presença em todos os
tipos de espaço, o que certamente se relacionou com o processo de restruturação
na indústria já citado.
A mudança mais impressionante, entretanto, foi o tamanho da elevação da
presença de profissionais de níveis alto e baixo nos espaços onde essas classes
já se encontravam concentradas - espaços das elites e das classes médias-altas.
Adicionalmente, é importante assinalar que os trabalhadores manuais não
qualificados reduziram mais intensamente a sua presença justamente nesses
espaços superiores. Esses espaços, portanto, tornaram-se mais exclusivos ao
longo da década. Os trabalhadores manuais qualificados, diferentemente,
reduziram mais a sua presença relativa nos espaços inferiores, onde eram
predominantes. Estes espaços também sofreram os maiores crescimentos relativos
dos trabalhadores não manuais de rotina de nível alto, assim como aumentos não
desprezíveis de profissionais. Vale acrescentar que os trabalhadores não
manuais de rotina nível baixo apresentavam renda superior à das classes
manuais, o que reforça a melhora dos conteúdos sociais médios dos espaços
inferiores.
Portanto, sob o ponto de vista dos tipos de espaço, aumentou em geral a
presença de profissionais (alto e baixo) e reduziu-se a de trabalhadores
manuais (qualificados, mas também não qualificados). As classes superiores
tornaram-se ainda mais predominantes nos espaços superiores, mas os espaços
inferiores tornaram-se menos operários e manuais, e mais ligados aos
trabalhadores não manuais de rotina, assim como a classes superiores. Os
espaços inferiores, portanto, se tornam mais heterogêneos. Este resultado é
diverso do que seria de se esperar considerando a hipótese da polarização
espacial. O caso de São Paulo mostra que um aumento na exclusividade dos
espaços de elite pode conviver com maior heterogeneidade dos espaços médios e
baixos.
A GEOGRAFIA DOS ESPAÇOS
Por fim, devemos explorar a geografia destes espaços e de suas transformações.
O mapa a seguir mostra a distribuição das classes segundo os tipos de espaço de
2000. Como era de se esperar, o espaço das elites encontra-se fortemente
concentrado a sudoeste do Centro Expandido. A sudeste dessa região pode-se ver
o espraiamento dos espaços de elite na direção do centro dos municípios mais
ricos da região do ABC paulista - São Caetano, Santo André e, em menor
proporção, São Bernardo do Campo. No entorno dessa área de elite, regiões de
classe média operam como uma espécie de transição para as áreas periféricas,
com significativa heterogeneidade.
[/img/revistas/dados/v57n3//0011-5258-dados-57-03-0675-gf02.jpg]
Mapa 1 Distribuição dos Grupos (RMSP, 2000)Fonte: CEM e cálculos do autor, a
partir de dados do IBGE.
No espalhamento dessa região a sudoeste, pode-se observar claramente a favela
de Paraisópolis como um espaço de trabalhadores manuais enclavado no território
contínuo da elite. E entre as duas manchas contínuas mais escuras a sudeste do
Centro Expandido e próximo à fronteira com o Município de São Caetano localiza-
se outro espaço manual e médio-baixo misturado, neste caso, o complexo de
favelas de Heliópolis/São João Clímaco. Trata-se dos únicos casos de
microssegregação de toda a região central, não por acaso as únicas duas favelas
de grande porte no Centro Expandido de São Paulo.
A leste e a norte da mancha mais extensa da elite destacam-se as regiões do
Tatuapé e de Santana também como espaços de elite, embora de pequenas
dimensões. A nordeste e a leste, os centros de Guarulhos e de Mogi das Cruzes
aparecem como espaços médios-altos. A oeste, a região dos condomínios fechados
sobressai classificada como média-alta e médios-misturados em Santana do
Parnaíba, Barueri e Cotia.
O Centro Histórico aparece como espaço predominantemente médio-misturado,
imediatamente a nordeste da mancha de elite do Centro Expandido. As regiões
mais periféricas, também como esperado, correspondem predominantemente a
espaços médios-baixos misturados e manuais, embora com descontinuidades
espaciais e substancial presença de espaços médios-misturados, em especial a
zona leste do Município de São Paulo.
O Mapa_2 apresenta a mesma informação para os grupos de 2010. Embora a
configuração geral dos espaços seja similar, é possível observar importantes
mudanças concentradas, destacadas no mapa.
[/img/revistas/dados/v57n3//0011-5258-dados-57-03-0675-gf03.jpg]
Mapa 2 Distribuição dos Grupos (RMSP, 2010)Fonte: CEM e cálculos do autor, a
partir de dados do IBGE.
As principais tendências de mudança podem ser resumidas como se segue:
Expansão da mancha de elite do Centro Expandido: a mancha de elite no Centro
Expandido aumentou em direção ao sudeste sobre áreas antes classificadas como
médias-altas ("a") em direção ao ABC paulista ("b"). O mesmo se verificou nas
direções oeste e sudoeste na expansão do Morumbi ("d") e a norte ("c") e
noroeste da mancha de elite, na Vila Leopoldina ("e"). Contrariamente ao que
seria de se esperar pela literatura sobre a metrópole paulistana, não há
efeitos expressivos identificáveis das Operações Urbanas, nem mesmo da Faria
Lima/Berrini.
Popularização do Centro Histórico: nesta região, várias áreas que apresentavam
em 2000 características de espaços médios misturados se tornaram espaços
médios-baixos misturados, sendo, portanto, mais populares do que antes (marcada
no mapa em negrito como "f"), confirmando a informação já demonstrada no Mapa_1
relativo à renda.
Condomínios fechados concomitantes com continuidade de periferização:no oeste
da região, uma área em Barueri transitou para espaço das classes altas ("g"),
enquanto outras nesse mesmo município, assim como em Cotia e em Santana do
Parnaíba, tornaram-se espaços das classes médias-altas ("h").
Outras áreas da mesma região fizeram o caminho inverso ao migrar de médias-
altas para médias misturadas. No extremo sudoeste do Município de São Paulo,
várias áreas antes classificadas como médias-baixas misturadas tornaram-se
manuais, ao mesmo tempo que outras fizeram o caminho contrário. Em Guarulhos,
vários espaços tornaram-se mais populares, não muito longe das áreas em
elitização já destacadas.
Portanto, as distâncias espaciais entre grupos tenderam a se reduzir, a exemplo
dos resultados apontados por Maloutas (2012). Processos de expansão da região
mais rica da cidade, de empobrecimento das áreas centrais e de elitização
acompanhada de periferização de áreas periféricas coexistiram ao longo da
década, tornando a estrutura da metrópole ainda mais complexa, apesar da
permanência da segregação.
RESUMINDO TENDÊNCIAS
É bastante difícil fazer um balanço único de todas essas tendências. De modo
geral, é possível dizer que São Paulo é uma cidade bastante segregada, em
especial no que diz respeito às classes superiores. As classes médias e
inferiores são bem menos segregadas e tendem a coabitar mais frequentemente,
mas a estrutura geral da segregação indica uma clara hierarquia entre grupos,
apontando para um padrão que poderíamos chamar de evitação social por parte das
classes superiores. Ao longo da década, essa estrutura mudou pouco, tanto no
que diz respeito aos indicadores de segregação, quanto na distribuição espacial
da renda e das classes sociais.
Essa estabilidade é reforçada pela análise geral dos tipos de espaços sociais.
Entretanto, a análise dos detalhes da composição dos tipos, assim como a sua
distribuição espacial sugerem importantes transformações. Os espaços superiores
parecem ter se tornado mais exclusivos em 2010, ao mesmo tempo que espaços
manuais e populares se tornaram menos operários e mais misturados ao final da
década. Os espaços superiores, portanto, se tornaram ainda mais homogêneos, mas
os demais espaços da metrópole, inclusive os periféricos, aumentaram a sua
heterogeneidade.
A espacialização das informações confirma essa análise, sustentando a presença
simultânea de diversas tendências em termos territoriais na década. Se por um
lado os dados indicaram expansão da mancha mais rica do Centro Expandido (que
tendeu a ficar ainda mais elitizado), áreas do centro velho se popularizaram.
Nas amplas periferias da metrópole, tanto processos de elitização (ligados a
condomínios, mas não apenas a eles) quanto de continuidade das tendências
clássicas de periferização puderam ser observados, tornando a estrutura da
metrópole mais heterogênea na década, com periferias mais diversificadas,
embora com um Centro Histórico mais popular e espaços de elite mais exclusivos
e de maiores dimensões territoriais.