O Momento do Político: Evento, Indecidibilidade e Decisão
INTRODUÇÃO
Os protestos que marcaram, em 2011, rupturas de regimes e de estruturas
políticas há décadas consolidadas no norte da África e no Oriente Médio,
conhecidos por Primavera Árabe, não se restringiram aos países em que os mesmos
tiveram inicialmente lugar. As manifestações populares que forçaram a queda de
governos na Tunísia e no Egito, guerras civis na Líbia e na Síria, além de
protestos generalizados em países localizados nesta região predominantemente
marcada pela cultura árabe, ainda que por si só já impressionantes, espalharam-
se para muito além deste espaço geográfico, inspirando movimentos de protesto
na Europa, sobretudo na Espanha, Portugal e Grécia, e nos Estados Unidos.
Evidentemente que as naturezas política, econômica e social dos protestos de
2011 são muito distintas entre si se postas em perspectiva. Tais mobilizações
exigiam desde a renúncia de ditadores que governavam Estados há décadas e a
imediata instituição de regimes democráticos representativos, como nos casos do
Egito e da Síria, até a derrubada do sistema financeiro capitalista
especulativo internacional, a partir das manifestações ocorridas em diversas
cidades nos Estados Unidos, Espanha e Grécia.
Mais recentemente e de forma surpreendente, manifestações populares alcançaram
de forma dramática o Brasil em 2013. As chamadas "jornadas de junho", que
tiveram início com a luta contra o reajuste do valor das passagens do
transporte coletivo, foram o estopim para centenas de manifestações ocorridas
nas maiores cidades brasileiras naquele ano. O país - que vivia então uma
situação econômica considerada positiva e já experimenta um regime democrático
há décadas - testemunhou uma revolta generalizada contra governos de todas as
esferas (municipal, estadual e federal), que levou milhões de brasileiros às
ruas dois anos após a Primavera Árabe.
Diante deste quadro heterogêneo de protestos espalhados mundo afora, o qual
demonstra que os mesmos só podem ser compreendidos a partir da análise de suas
realidades políticas e sociais específicas, uma característica, no entanto,
lhes é comum: todos resultaram em manifestações ou revoltas populares que se
colocaram contra elites políticas e econômicas estabelecidas, mormente governos
e grandes corporações capitalistas e especulativas. Tais revoltas se opuseram
francamente contra distintos status quo, desafiando ordens, estruturas
consolidadas e até mesmo regimes políticos. Ainda que alguns desses movimentos
tenham sido mais radicais se comparados com outros, tendo, por isso,
experimentado consequências mais profundas, o fato é que, em todos esses
lugares, estruturas e regimes experimentaram eventos ou deslocamentos
estruturais.
Eventos ou deslocamentos são ocorrências extraordinárias amplamente discutidas
e analisadas por teóricos políticos normalmente identificados sob o rótulo de
pós-estruturalistas1. Eles tendem a alterar estruturas políticas, sociais,
econômicas ou culturais, pois marcam o limite da manutenção de ordens
estabelecidas. O limite de manutenção de ordens deve ser entendido como a
incapacidade de uma ordem particular em lidar com pontos de antagonismo a ela
existentes e que desafiam sua hegemonia.
Também resulta importante destacar, desde já, que eventos não são
necessariamente negativos ou positivos, mas possibilidades de mudanças
sistêmicas importantes. São características da ontologia pós-fundacional do
político, que aduz não haver ordem que se assente numa base última, imutável.
Toda ordem é sempre contingente, precária e resultado de um processo
hegemônico, de uma decisão, um ato eminentemente político tomado num terreno
indecidível, em que outros resultados poderiam ter ocorrido no lugar da decisão
que finalmente conhecemos.
Tendo em vista principalmente as obras de Badiou (1994, 2012), Laclau_(1993),
Laclau e Zac_(1994) e Rancière_(1996), este artigo tem como objetivo central
realizar uma incursão teórica afim de marcar o momento em que estruturas
políticas são postas em xeque a partir de eventos ou deslocamentos. Acreditamos
que tal tarefa é absolutamente fundamental para melhor compreendermos eventos
populares perturbadores à ordem, como os que brevemente fizemos referência
anteriormente.
Para cumprir este objetivo principal, inicialmente apresentaremos uma discussão
acerca da ideia de ordem e sua característica sempre contingente. Em seguida,
marcaremos o momento propriamente do político: o de uma decisão sempre
caracterizada por uma falta constitutiva, resultado da impossibilidade de
qualquer ordem específica ser capaz de se tornar, definitivamente, a própria
ideia de Ordem. Ao final, abordaremos as ideias de evento, indecidibilidade,
decisão e sua importância fundamental para a compreensão dos fenômenos
populares que têm marcado o mundo desde 2011.
ORDEM E ORDENS
Uma das tarefas primordiais da filosofia política tem sido imaginar formas
adequadas para administrar a polis, a civitas, o status. Desde a república
platônica, passando pelo governo misto ou republicano, pelo leviatã de Hobbes,
pelos princípios do Estado liberal de Locke, simplesmente para mencionar
algumas investidas filosóficas, a tarefa de pensar a política tem sido
concomitante à reflexão acerca da Ordem.
No entanto, neste artigo, não faremos mais uma busca na direção da "melhor"
forma de governo, até porque, tendo em vista os pressupostos teóricos pós-
fundacionalistas que guiam esta análise, trata-se de tarefa improvável de ser
cumprida. Nossa intenção é, antes, discutir a ideia de Ordem em si, e não
averiguar uma ordem específica. Partimos do seguinte pressuposto: a Ordem é
indispensável para toda comunidade política, mas toda ordem específica é
dispensável, pois contingente.
O ponto fundamental do argumento que será desenvolvido neste texto tem a ver
com o fato de que qualquer ordem política pode vir a ser legítima,visto que não
é simplesmente o conteúdo em si de uma ordem que gera a adesão de sujeitos a
esta, mas a própria sensação de Ordem que também se encontra presente em toda e
qualquer ordem contingentemente estabelecida. Nos termos de Laclau e Zac:
"qualquer ordem política existente pode ser legítima, não como resultado do
valor dos seus conteúdos, mas devido à sua habilidade para encarnar o princípio
abstrato da ordem social como tal" (1994:21)2.
Exploremos um pouco mais este ponto. São abundantes os exemplos de regimes
políticos que perseguiram minorias, e elegeram bodes expiatórios, como uma das
formas para a construção de sua própria legitimidade. Comumente, tais regimes
ficam marcados por seus traços "inumanos", persecutórios, excludentes tout
court. Não obstante, é preciso compreender a razão da sua legitimidade e, para
tanto, devemos ir além da mera coleção de fatos históricos. Não que os fatos
históricos não sejam fundamentais para entendermos um movimento político que
depende inequivocamente das suas condições de emergência. Eles são cruciais,
mas não suficientes para produzir uma resposta mais apropriada, do ponto de
vista teórico, capaz de justificar a legitimidade de um regime específico.
Assim, tanto as condições históricas como a própria encarnação da ideia mesma
de Ordem são fundamentais para a compreensão de qualquer regime político
estabelecido.
Nesse sentido, em uma comunidade política, a transposição de um momento de
miséria, desespero e desesperança para um período posterior de prosperidade,
pleno emprego e esperança é razão fundamental para que uma ordem política
obtenha sucesso, independente do seu conteúdo específico, mais ou menos
inclusivo, mais, menos, anti ou não racista etc. Contudo, corremos o risco de
não entender mais a fundo determinado fenômeno político por nos concentrarmos
naquilo que ele nos afasta em termos de convicções éticas; devemos, pelo
contrário, fazer o exercício de compreensão justamente daquilo que todo regime
consegue produzir para a comunidade envolvida: um sentimento de plenitude. Em
uma palavra, a própria ideia de Ordem. Tendo em vista estes elementos, dois
pontos devem ser abordados: o primeiro, a origem de toda a ordem; o segundo, o
conteúdo do bem hegemonizado.
A origem de toda a ordem. Não se trata aqui de descobrir uma origem além da
origem, ou seja, postular algum princípio primeiro, o fundamento governante
dessa ou daquela ordem política. Por origem, não nos referimos a uma arché, mas
às condições discursivas de emergência de um regime. Evidentemente que na
composição de regimes específicos, suas lideranças nomeiam razões
"transcendentais", tais como a supremacia da raça, a grandeza do passado ou o
destino manifesto de um povo. Contudo, mesmo "origens" tão remotas não passam
de recursos retóricos próprios de construções discursivas que têm momentos
específicos de aparição.
Não há como escapar de tais condições de emergência. Certa vez, Foucault
acertadamente afirmou que "não se pode falar de qualquer coisa em qualquer
época; não é fácil dizer alguma coisa nova"(1997:51). De fato, tal
impossibilidade reflete-se na própria ideia de ordem; mais precisamente, de
certa ordem que hegemoniza seus conteúdos e, em determinado contexto, torna-se
muito difícil enunciar algo distinto. Em um regime racista, por exemplo,
defender politicamente a igualdade étnica é sistemicamente impossível. É
preciso, assim, ser antissistêmico para assumir tal posição. Não obstante,
nunca uma impossibilidade é absoluta e tanto mais possível esta será quanto
menor for o grau de hegemonia alcançado pela ordem vigente.
Neste sentido, trata-se de uma ilusão a proposição de uma forma de governo ou
de um método para tomada de decisões públicas ex nihilo, fora de todo e
qualquer contexto. Uma forma "racional", vista por seus formuladores como a
mais justa, não passa de um produto laboratorial, com poucas possibilidades de
aplicação e sem qualquer garantia de produzir os efeitos desejados por seus
criadores. A razão mais evidente vem do fato de que toda ordem política advém
de um contexto específico e a este está plenamente vinculada. Por mais absurda
que uma determinada ordem possa parecer diante de nossos olhos (pensemos
simplesmente num dos regimes totalitários do século XX), devemos, antes de
tudo, buscar compreender a sua lógica de funcionamento - o que chamaremos aqui
de lógica da lógica - que nada mais é do que a forma por meio da qual o
discurso político se estrutura a ponto de tornar-se hegemônico num dado
contexto sociopolítico.
O conteúdo do bem hegemonizado. Toda ordem política constitui-se a partir de
uma concepção própria de bem e a partir também de um corte antagônico (ou a sua
concepção particular de mal). Tais visões de bem e de mal são construídas e
materializadas em uma série de práticas discursivas. Como podemos
intuitivamente perceber, diante de uma miríade de regimes políticos que
existiram e que existem, as visões de bem e de mal variam de um para outro,
convergem entre diferentes sistemas ou, ainda, invertem-se de um caso para
outro. Isto quer dizer, por óbvio, que bem e mal dependem de um contexto
discursivo específico e que nunca podem ser vistos como transcendentes deste.
Tanto a origem de toda a ordem como o conteúdo do bem hegemonizado nos
apresentam a marca da finitude de uma ordem específica, ou seja, todas as
convenções sociais, leis, direitos, deveres, numa palavra, todas as ordens
nunca podem ser vistas como naturais, nem tampouco como transcendentes as suas
próprias condições de existência. Isto quer dizer que nenhuma ordem específica
é capaz de assumir permanentemente a condição mesma de Ordem, visto que seu
conteúdo, por mais hegemonizado que possa vir a ser, ainda assim não será capaz
de gerar efeitos efetivamente totalizantes.
Deve-se registrar, contudo, que mesmo que não haja ordem social natural, isso
não quer dizer que não seja possível a naturalização de uma ordem. A
naturalização de uma ordem significa o mesmo que dizer que ela está
sedimentada, hegemonicamente controlada. É o momento exato em que Foucault
menciona que "não é fácil dizer alguma coisa nova" (1997:51). A "coisa nova"
não é simplesmente outro ponto de vista, mas uma verdadeira ameaça à ordem
estabelecida. É um ataque, mas também o momento específico que demonstra não
haver nada que, estando sedimentado, não possa, em algum momento, ser
reativado, ou seja, nenhuma estrutura pode esconder ad infinitum a sua própria
historicidade, o seu tempo de aparição.
ORDEM, ORDENS, LEGITIMIDADE E IDEOLOGIA
Na seção anterior, vimos que tão importante quanto as condições de emergência e
o conteúdo específico de uma ordem estabelecida é a função que esta exerce, ou
seja, a de incorporar a ideia mesma de Ordem. Tal incorporação é própria de
toda representação hegemônica: a de cumprir um papel que sempre excede o seu
conteúdo particular original.
Toda ordem pressupõe e necessita de legitimidade. Mesmo considerando que uma
instituição específica possa ter origem em um conjunto de práticas repetidas
tais como costumes, regras morais etc., uma ordem depende de um ato anterior de
decisão. É importante mencionar que não se trata de qualquer decisão, mas de
uma que alcance legitimidade. Neste sentido, tanto uma ordem como sua
legitimidade prescindem de uma situação específica em que ambas façam sentido.
Por exemplo, numa instituição militar em que a ordem depende de uma constelação
de postos de comando hierarquizados, é improvável e contraproducente que um
soldado ou um cabo tenham o mesmo poder de decisão de um tenente ou de um
capitão. Contrariamente, numa organização estudantil, que parte do pressuposto
da horizontalização do poder entre os indivíduos, qualquer decisão que gerará
ordem necessitará de legitimidade democrática.
A questão de cunho mais elementar, portanto, está na afirmação de que ordem e
legitimidade estão sempre ligadas a um contexto específico de aparição. É de
supor que tal contexto dependa também do seu próprio contexto (um "contexto do
contexto"), de modo que estamos lidando com estruturas, ordens, legitimidades
sempre contingentes e precárias. Se estamos admitindo a presença da
contingência, temos de assumir a sua existência como inexorável, ou seja, não
há nada que transcenda a própria contingência, não há uma necessidade além da
contingência ou, ainda, a contingência é a única necessidade possível.
Assim, toda ordem política específica não tem efetivamente uma raison d'être
além do seu próprio contexto de aparição e da sua legitimidade específica, que
é, enfim, sempre contingente. A questão de fundo, portanto, não é reificar uma
determinada ordem, como se a sua legitimidade transcendesse a sua própria
existência. Uma lei é uma lei não por ser um princípio de justiça desde sempre
existente, mas pelo fato de ser o reflexo de uma decisão política específica
tomada em um contexto também concreto.
Vimos acima que não podemos prescindir da ideia mais geral de Ordem, pois toda
organização política estabelece-se a partir de uma ordem. Contudo, nenhuma
ordem específica é necessária, mas contingente, ou seja, qualquer ordem pode
ser desafiada, pois um dia esta desafiou uma que a antecedeu. Do ponto de vista
da política prática, ou seja, das relações políticas realmente existentes, no
entanto, a ordem e sua legitimidade não são vistas conforme a contingência de
suas aparições. Existe uma tendência de ossificação das mesmas, de um
esquecimento das origens. Tal postura ocorre como forma de proteção da ordem
instituída, por duas razões principais. A primeira, e mais evidente, diz
respeito à ordem específica em si, ou seja, valoriza-se a mesma, pois esta é
corriqueira e "sempre foi assim". A segunda razão para a ossificação de uma
ordem ocorre pelo fato mais elementar de que a pior ordem possível é, ainda
assim, melhor do que ordem nenhuma.
Voltamos ao seguinte ponto: a ideia de Ordem é imprescindível para qualquer
organização social. No entanto, nenhuma ordem existente é realmente
imprescindível, pois contingente. A instabilidade e a contingência das ordens
políticas ocorrem justamente pelo fato de que todas são marcadas por uma falta
a elas transcendente, ou seja, uma falta que nunca será preenchida. Essa falta
somente pode ser entendida se considerarmos seriamente a presença da
contingência e do caráter vazio do universal ou, nos termos da nossa discussão,
o caráter vazio da Ordem em si. Portanto, se a Ordem é imprescindível como
forma geral de constituição social, e se todas as ordens realmente existentes
são, ao contrário, prescindíveis, isto é assim devido à razão elementar de que
o não conteúdo, ou a falta de conteúdo da Ordem, está dado. Esta é, conforme
estabeleceu Claude Lefort_(1991), um lugar vazio, que é parcialmente
preenchido, mas nunca de forma completa, pois não há ordem específica capaz de
encarnar a ideia mesma de Ordem. Esta última sempre "falta", porque é uma
ideia, uma imperiosa ideia sem conteúdo.
Uma questão se coloca neste momento: se a Ordem como tal nunca pode ser
encarnada permanentemente por uma particularidade, por que ocupá-la? Para
responder a esta questão, precisamos avançar em direção a uma noção apropriada
de ideologia.
Adotaremos a noção de ideologia que entendemos ser partilhada por Slavoj Žižek
e Ernesto Laclau, a qual será fundamental para compreendermos o porquê de uma
dada ordem ocupar, ainda que contingentemente, o lugar da Ordem. Iniciamos com
as palavras de Laclau:
O ideológico consistiria naquelas formas discursivas através das
quais a sociedade trata de se instituir sobre a base do fechamento,
da fixação de sentido, do não reconhecimento do jogo infinito das
diferenças. O ideológico seria a vontade de "totalidade" de todo
discurso totalizante. E na medida em que o social é impossível sem
certa fixação de sentido, sem o discurso do fechamento, o ideológico
deve ser visto como constitutivo do social. O social só existe como o
intento vão de instituir esse objeto impossível: a sociedade. A
utopia é a essência de toda comunicação e de toda a prática social
(1993:106).
Vários elementos podem ser extraídos deste trecho. Primeiramente, a ideologia
produz a ideia de fechamento ou de fixação de sentidos de um discurso. Isto
quer dizer que uma alternativa política entre outras não se coloca simplesmente
como uma alternativa, mas como a única alternativa. Está presente, portanto,
uma tentativa de fixação de sentidos baseada em uma ideia de verdade, no
desvelamento do mundo. Para o sujeito ideológico, o que ele porta não é uma
ideologia, mas a própria verdade do mundo, daí a ideia de fechamento.
Se admitíssemos teoricamente a perspectiva de um fechamento completo de
sentidos, de um acesso à verdade, não poderíamos falar da Ordememsi em termos
de ausência de conteúdo e com a ocupação parcial de seu lugar (igualmente o
lugar vazio de Claude Lefort não faria qualquer sentido). A sensação da verdade
finalmente alcançada é o próprio efeito da ideologia, que governa as ações dos
sujeitos políticos. A "verdade" do sujeito ideológico o "liberta" da angústia
de uma vida sem sentido; ele acredita viver fora da ideologia (mesmo estando
completamente nela inserido) e, em situações-limite, o fechamento é tão radical
a ponto de produzir uma visão totalitária de mundo.
Temos de advertir, apesar de neste momento isso já parecer óbvio, que a
ideologia não produz um mundo meramente ilusório para o sujeito, mas um que lhe
é materialmente real, que sustenta a sua própria existência3. Neste sentido,
Žižek afirma:
Esta é provavelmente a dimensão fundamental da "ideologia": a
ideologia não é simplesmente uma "falsa consciência", uma
representação ilusória da realidade, pois que a realidade já deve ser
concebida como "ideológica"[...]. "Ideológica" não é a "falsa
consciência" de um ser (social), mas este ser, na medida em que ele
está amparado pela "falsa consciência" (2005:46-47; ênfases do
original).
Tal como expõe Žižek, a ideologia produz para o sujeito, mesmo sempres endo uma
"falsa consciência", a sua própria realidade. Por um lado, a verdade ideológica
- que pode gerar uma ordem específica, tal como um regime democrático ou
totalitário - nunca é o desvelamento da verdade em si, pois a ideologia
essencialmente representa uma visão particular de mundo. Isso quer dizer que
somente podemos ver o que chamamos de realidade a partir de lentes ideológicas
distorcidas; somos incapazes de ver as coisas como elas realmente são, pois não
existe a possibilidade de olharmos nada sem um conceito também imbuído neste
olhar (princípio de sobre determinação). Um livro, por exemplo, nunca é apenas
um conjunto encadernado de folhas de papel, mas uma bíblia, um manual de
química etc., e, nesse aspecto, não há como distinguirmos as coisas dos
sentidos já a elas pertencentes. Não há como diferenciarmos a existência do ser
do ser da existência.
Por outro lado, a ideologia produz uma realidade, uma forma de vida. Neste
sentido, ela consegue alcançar uma verdade, ainda que particular. Tal verdade
pode tornar-se hegemônica e constituir-se, por exemplo, em uma ordem política,
religiosa, moral etc. Assim, contrariamente ao que foi dito no parágrafo
anterior, não há efetivamente uma verdade sobre a verdade ou, sendo mais
específico, não há uma verdade em termos sociais que seja transcendente às suas
condições históricas de existência (ao mesmo tempo que não podemos ver as
coisas "como elas realmente são", as coisas nunca são "como realmente são" -
tal como propugnam os realistas -, mas como realmente e finalmente as
percebemos). A verdade não é algo absoluto, libertador. Paradoxalmente ela está
aprisionada numa gaiola ideológica, sempre inconstante, mas igualmente "pronta"
para, tortamente, "desvendar" todo o mundo a partir de uma parte deste. Nestes
termos, e somente nestes termos, é que podemos falar em verdade social: esta é
sempre ideológica. Como tal, a ideologia é uma fantasia, mas que tem como
objeto a construção de uma dada realidade. Assim, poderíamos dizer que a
realidade é a nossa própria fantasia. A seguinte passagem de Žižek é exemplar
neste sentido: "[o] nível fundamental da ideologia, no entanto, não é o de uma
ilusão que mascara o estado real das coisas, senão o de uma fantasia
(inconsciente) que estrutura a nossa própria realidade social" (2005:61).
Agora temos todos os elementos para responder a questão acima proposta. Se a
Ordem em si nunca pode ser definitivamente ocupada por uma ordem específica
(mas somente de forma contingente), qual seria a razão para ocupá-la? Não
cairíamos num vazio niilista admitindo tal impossibilidade?
Não cremos neste suposto niilismo por duas razões, e a partir da enunciação das
mesmas já estaremos encaminhando nossa resposta à questão. A primeira tem a ver
com a noção de construção ideológica de todo discurso político. Como vimos,
para Laclau a ideologia é a negação mesma do "jogo das diferenças": é a
"vontade de totalidade", e tal operação se realiza no nível da fantasia, ou
seja, na afirmação de que a forma de olhar a "realidade" (a minha forma, é
claro!) é a única possibilidade de verdade sobre esta realidade. A "fantasia
ideológica" (nestes termos, torna-se evidentemente um pleonasmo) estrutura
relações sociais e ordens políticas, pois ela gera uma certeza a ponto de
desconsiderar a contingência de toda experiência possível. Glynos e Howarth,
acerca da fantasia, apontam: "O papel da fantasia neste contexto não é
construir uma ilusão que proporciona um sujeito com uma falsa imagem do mundo,
mas para assegurar que a contingência radical da realidade social - e a
dimensão política de uma prática mais especificamente - permaneçam em segundo
plano" (2007:145).
Uma discussão sobre ideologia como fantasia pode parecer um tanto escatológica
e relegada ao plano das experiências políticas totalitárias, porém ela está
diretamente vinculada ao nosso cotidiano, às nossas crenças mais ordinárias e
imperceptíveis. Não é à toa que diariamente ainda podemos nos surpreender com
posições políticas de partidos de esquerda, assumindo bandeiras outrora tidas
somente como de direita. A defesa para tal mudança de postura é a de que
estaríamos vivendo em uma era pós-ideológica e que esse novo comportamento da
esquerda denotaria, na verdade, um "realismo político", um respeito às regras
do jogo, partilhadas agora por todas as correntes políticas.
Do ponto de vista da teoria da ideologia, poderíamos dizer, contudo, que uma
mudança de postura como esta representa simplesmente o compartilhamento de uma
fantasia, como a que sustenta em nossas democracias representativas
capitalistas, por exemplo, que o mercado tem de ser como ele é, que a
democracia representativa é isso mesmo que aí está e que mesmo ela sendo ruim,
falha, está boa, porque mantém as liberdades individuais e isso é um bem
supremo que deve ser preservado, apesar de eventuais efeitos perversos etc. De
forma contrária, é igualmente a fantasia da possibilidade da completude ou da
emancipação final que tem movido as mais diversas manifestações populares que
tomaram as ruas de dezenas de países em distintos continentes, desde a
Primavera Árabe em 2011 até as Jornadas de Junho no Brasil em 2013.
A segunda razão para negar este niilismo tem mais a ver propriamente com a
outra face da mesma moeda. Se nunca poderemos, de forma efetiva, alcançar a
Ordem a partir de ordens específicas (visto que o conteúdo da primeira é sempre
vazio, contingente e parcialmente preenchido), podemos, no entanto, ter sempre
presente essa possibilidade. Se não há como alcançarmos definitivamente a
Ordem, isso também significa que as oportunidades de mudanças estarão sempre
abertas, bastando que não nos conformemos, no caso da nossa democracia
representativa, por exemplo, com a tão presente ideia de que este é "o pior dos
regimes, mas ainda hoje não inventaram nada melhor". Aqui, remetemos nossa
atenção à democracia aversiva de Aletta Norval_(2007), que propõe uma constante
postura inconformada com o status quo para exercermos a imaginação democrática.
Valendo-se do perfeccionismo de Cavell e da noção de democracia por vir de
Derrida, a autora propugna termos uma postura transformadora para avançarmos na
superação de uma série de impasses da e na própria democracia.
Tendo em vista a perspectiva de Norval, amplamente compatível com a nossa,
podemos dizer que toda tarefa democrática é indeterminada e incompleta. Nestes
termos, a democracia deve ser entendida como um ethos e não como um mero regime
político pronto e isento de toda e qualquer crítica. Instituir um limite, um
padrão de funcionamento ou um modelo de organização para a democracia é o mesmo
que aprisioná-la no campo da metafísica da presença. Em uma palavra, é
conformá-la, e uma democracia conformada, comportada, não é uma democracia no
sentido mais radical do termo.
A POLÍTICA E O POLÍTICO: ELEMENTOS PÓS-ESTRUTURALISTAS
Para falarmos acerca do momento do político, como aquele que põe em xeque uma
ordem constituída, demonstrando sua contingência, precisamos inicialmente
estabelecer a distinção entre "o político" (the political) e "a política" (the
politics), a qual já vem sendo realizada há algum tempo por vários teóricos,
sobretudo aqueles vinculados à tradição pós-estruturalista ou pós-
fundacionalista do pensamento político. Há que se advertir, no entanto, que
tais autores não são unânimes no que diz respeito ao uso dessas expressões. Por
exemplo, se por um lado Chantal Mouffe_(2005) francamente lança mão de ambos os
termos, por outro, Jacques Rancière_(1996) prefere fazer a distinção entre
política e polícia.
Não entraremos nos pormenores das razões para tais distinções, pois uma
discussão como esta não auxiliaria no avanço da construção do argumento aqui
pretendido4. O que julgamos importante para a presente análise é a
característica comum entre os autores pós-estruturalistas com relação aos
aspectos inerentemente conflitivos da política (Norval,_2007). De forma geral,
podemos dizer que entre eles é compartilhada a ideia de que toda a normalidade
ou ordem é tão somente resultado de uma forma de poder sedimentada e que devido
à característica conflitiva do social, trata-se de uma hegemonia sempre
ameaçada.
A distinção entre normalidade, ordem social e a sua ameaça representa a própria
diferença entre apolítica e o político. A política é a normalidade sedimentada,
ou seja, a ordem e o esquecimento de suas origens decisórias. Como apresentamos
na seção anterior, esta operação propriamente política é encoberta pela
ideologia que nos oferece não simplesmente uma visão de mundo, mas um
congelamento deste mundo, para buscar insistentemente ocultar a contingência de
uma ordem sedimentada.
A política é uma engrenagem mais ou menos azeitada, dependendo do nível
alcançado de hegemonia. Partidos políticos disputando eleições, liberdade de
expressão combinada com a existência de grandes conglomerados midiáticos, voto
universal, entre outros elementos, são traços que distinguem a democracia
representativa de regimes que competiram ou que ainda competem com ela.
No âmbito da teoria política ocidental, em suas mais diversas correntes -
liberal, deliberativa, pós-estruturalista - apesar de serem comuns críticas ao
regime democrático representativo, dificilmente as mesmas sugerem feri-lo de
morte. "A democracia é o pior dos regimes, mas até hoje não inventaram outro
melhor" é a própria expressão da fantasia ideológica das democracias
ocidentais. Tal fantasia gera uma sensação de impotência com relação ao futuro,
uma vez que sugere a ideia de que temos de ficar com a democracia
representativa, "ruim do jeito que ela está". Žižek faz semelhante observação:
É fácil ridicularizar o conceito de "fim da história" de Fukuyama,
mas hoje a maioria é fukuyamista: o capitalismo democrático liberal
tem sido aceito como a fórmula que finalmente atingiu a melhor
sociedade possível; tudo que resta é fazê-lo mais justo, mais
tolerante etc. Contarei o que ocorreu com Franco Cicala, um
jornalista italiano: ele tinha escrito um artigo em que utilizava uma
vez a palavra "capitalismo" e o chefe da redação lhe perguntou se
realmente era necessário utilizar este termo, se não seria possível
substituí-lo por um sinônimo como, por exemplo, "economia". Qual é a
melhor prova do triunfo total do capitalismo do que o desaparecimento
virtual do próprio termo durante as últimas duas ou três décadas?
(2010:233-234).
Sejamos mais claros, tomando um texto que já é paradigmático em termos da
defesa da democracia representativa. Trata-se do livro Sobre a Democracia, de
Robert Dahl_(2001), sobretudo o seu capítulo 8, no qual o autor enuncia os
requisitos para uma poliarquia (uma democracia representativa contemporânea ou,
como ele mesmo menciona, uma democracia em grande escala). Antes de enunciá-
los, Dahl faz uma interessante advertência que o coloca numa posição "realista"
acerca dos fundamentos básicos do regime democrático. Afirma o autor: "[N]o
mínimo, ele[o regime] terá de ter determinados arranjos, práticas ou
instituições políticas que estariam muito distantes (senão infinitamente
distantes) de corresponder aos critérios democráticos" (2001:97; ênfase do
original). Notemos que Dahl admite o óbvio, ou seja, o que é efetivamente
necessário para que uma democracia funcione não funcionará como "desejamos".
Vejamos agora os critérios. A partir da pergunta "que instituições políticas
exige a democracia em grande escala?", os mesmos são listados:
Uma democracia em grande escala exige:
1. Funcionários eleitos
2. Eleições livres, justas e frequentes
3. Liberdade de expressão
4. Fontes de informação diversificadas
5. Autonomia para as associações
6. Cidadania inclusiva (Dahl,_2001:99).
O que esta enumeração nos sugere? Claramente são seis os requisitos que nos
autorizam a classificar como democracias em grande escala ou poliarquias países
tão distintos como Brasil, Estados Unidos, Índia, Suécia, Argentina etc. Nos
termos deste artigo, essa classificação formalista de Dahl é uma constatação
institucional, propriamente política, a própria ideia de ordem. Para mantermos
uma "ordem democrática", devemos defender cada um desses requisitos com unhas e
dentes, visto que são instituições "essencialmente" democráticas. A forma como
Dahl enumera os requisitos democráticos não é nada mais do que um exemplo de
tentativa de sedimentação política, ou seja, congela-se ideologicamente sob o
rótulo de democracia representativa um conjunto de requisitos, condições
imperiosas para a sua existência e a consequente tarefa de defesa, que pode ser
resumida no sugestivo grito de guerra: " - Democratas de todo mundo: uni-vos!"
No entanto, o próprio Dahl, ao fazer um breve histórico dessas instituições, na
sequência do capítulo, admite que as mesmas não são necessariamente
características da democracia em grande escala, mas que foram sendo
incorporadas a esta. Daremos apenas um exemplo, visto que o entendemos o
suficiente para darmos sequência à continuidade de nosso argumento:
Normalmente, essas instituições não chegam de uma só vez num país.
Vimos na breve história da democracia [...] que as últimas duas
claramente chegaram há pouco tempo. Até o século XX, o sufrágio
universal era negado tanto na teoria como na prática do governo
republicano democrático. Mais do que qualquer outro aspecto, o
sufrágio universal distingue a moderna democracia representativa de
todas as formas anteriores de democracia (Dahl,_2001:100).
No excerto acima, Dahl faz referência à chegada tardia das duas últimas
instituições da poliarquia, a saber, "autonomia para as associações" e
"cidadania inclusiva", além da também recente incorporação pelo regime do
sufrágio universal. Os países analisados pelo autor, seus modelos de
democracias em grande escala, é claro, são os Estados Unidos e a Inglaterra. Se
verificarmos as instituições poliárquicas em países da América Latina, por
exemplo, suas chegadas são ainda mais tardias e por caminhos bem mais
tortuosos. No entanto, não parece produtivo, pelo menos no que diz respeito aos
objetivos deste artigo, medirmos país por país, a partir da régua de Dahl, para
classificarmos as melhores, as piores ou as falsas poliarquias. Preferimos
entrar mais especificamente em um ponto que parece insuficientemente discutido
em termos teóricos.
Enunciemos a questão de forma abrupta: nenhuma das seis instituições listadas
por Dahl são partes necessariamente inerentes de uma democracia representativa:
todas foram contingentemente articuladas pelos regimes assim classificados.
Tais instituições não são, em absoluto, conquistas "da" democracia, mas "na"
democracia. Parte importante das mesmas, como o sufrágio universal - que dá a
feição da democracia representativa - não foi incorporado pelo regime por ser a
"melhor" ou mesmo a opção "mais razoável", mas pelo resultado de lutas
inclusivas promovidas por grupos que se colocaram como antagônicos ao voto
censitário então vigente nas democracias representativas. Nestes termos, o
sufrágio universal passou a ser considerado democrático somente depois que foi
absorvido pelo sistema político, pois antes era considerado subversivo. Antes
da incorporação, o voto universal mostrava-se como a dimensão do político, ou
seja, aquela que apresenta os limites da outra dimensão, a da política, esta
última sempre sistêmica.
Outros fatores que hoje estão fora da discussão democrática, como uma
distribuição mais justa de renda e de riqueza são vistos, no limite, como
antidemocráticos, pois afetam o princípio da liberdade individual e do livre
mercado, que são as pedras angulares da própria democracia representativa
articulada com o sistema capitalista. Assim, milhões de desempregados no mundo
são vistos como meros efeitos colaterais do sistema; ao contrário,
eventualmente pensar na expropriação da riqueza concentrada por 1% dos mais
ricos no mundo representa uma ameaça à própria democracia, pois,
sistemicamente, eles devem ter seus direitos individuais preservados.
A partir do que foi dito, podemos fazer o seguinte exercício. Não há nada de
essencial na democracia representativa, assim como não há nada de essencial em
qualquer regime. Vivemos uma ilusão ideológica achando que os pressupostos,
tais como os enunciados por Dahl, são corretos por si só. Eles são tão somente
a própria expressão da política: sedimentos que podem, a qualquer momento ser
desenterrados. Tal processo arqueológico é próprio do político. Passemos,
portanto, para esta dimensão.
O político representa tanto o momento em que uma ordem é desafiada como aquele
em que uma nova ordem é instituída. Vejamos sua ocorrência, a partir da sua
distinção com a noção de política:
Por um lado, a política, no nível ôntico, continua sendo um regime
discursivo específico, um sistema social particular, uma certa forma
de ação; enquanto que, por outro lado, o político assume, no nível
ontológico, o papel de algo que é de uma natureza totalmente
distinta: o princípio de autonomia política, ou o momento de
instituição da sociedade. Enquanto diferenciada da política, a noção
do político não pode integrar-se nas diferenças sociais, a repetição,
a tradição, a sedimentação ou a burocracia. O político, como outras
figuras da contingência e da infundabilidade, tais como o
acontecimento, o antagonismo, a verdade, o real ou a liberdade, mora,
por assim dizer, no não fundamento da sociedade, o qual se faz sentir
no jogo diferencial da diferença política (Marchart,_2009:22).
A primeira observação tem a ver com o fato de que a dimensão do político é
estranha à da política. Como temos visto, a política é toda a experiência
sistematizada, ordenada, o regime vigente (a poliarquia de Dahl, como vimos
acima). Apesar de todas as contradições que podem ser observadas numa
determinada ordem política, a maior parte delas, tais como diferenças
ideológicas entre partidos políticos numa democracia representativa, movimentos
mais ou menos tolerantes com relação às diferenças, entre outras, ainda assim,
estamos no terreno da política, o que chamaremos aqui de dimensão
administrativa. Administrativa, pois não faz diferença para a manutenção da
ordem democrática se um partido mais à esquerda ou mais à direita vencer a
eleição: o regime permanecerá funcionando normalmente, seja porque quem vencer
o pleito seguirá as regras do jogo, seja pelo sistema de freios e contrapesos
existente, que impede a tomada de medidas de caráter radicalmente transformador
da ordem.
Nesses termos, insistimos, o político é estranho à política, pois ele
representa o caráter subversivo e radical contra o próprio sistema. A razão
para isso está no fato de que o político opera fora do código da ordem, ou
seja, constitui o que Alain Badiou (1994, 2012) chama de uma verdade, uma
novidade no sentido mais radical do termo, pois é um corpo estranho na
repetição e no contraste de um saber. O saber é, contrariamente, a rotina. Por
exemplo, o processo eleitoral e a alternância de poder são saberes de uma
democracia: é, neste sentido, que a direita e a esquerda, pacificamente, trocam
de lugar na dança das cadeiras do poder, sem comprometer o funcionamento do
sistema como tal. Pode-se, inclusive, inferir que essas correntes políticas
tendem a se indiferenciar tanto maior for a experiência de ambas à frente da
esfera governamental. É assim, portanto, que a política não passa de uma esfera
administrativa: a dimensão badiouniana do saber que é oposta por uma verdade.
Vejamos como o tratamento à dimensão do político ocorre para alguns teóricos
pós-fundacionalistas (Marchart,_2009), como forma de prepararmos a nossa
discussão em torno da indecidibilidade, decisão e ruptura, as três dimensões
presentes neste momento. Iniciaremos por Jacques Rancière, com a distinção
entre política e polícia, passando pela análise do evento em Alain Badiou para,
enfim, nos atermos à abordagem da relação entre o discurso e o momento do
deslocamento, segundo a perspectiva de Ernesto Laclau.
Sobre a distinção entre política e polícia, segundo Jacques Rancière_(1996),
inicialmente vejamos um exemplo dado pelo autor no que diz respeito à
resistência e à intransigência dos patrícios em torno das demandas políticas
dos plebeus no período da república romana. Tal postura derivava-se de um não
reconhecimento pelos primeiros de que os plebeus detinham o próprio dom da
fala: "não há por que discutir com os plebeus, pela simples razão de que estes
não falam. E não falam porque são seres sem nome, privados de logos, quer
dizer, de inscrição simbólica na polis" (1996:37).
Assim, a luta dos plebeus não era por ocupar os espaços políticos existentes,
pois os mesmos lhes eram estranhos e não os incluíam, uma vez que as linguagens
eram completamente incompatíveis. A solução que eles encontraram foi a
instituição de "uma outra ordem, uma outra divisão do sensível" (Rancière,
1996:37-38). A partir de então, vendo que os plebeus possuíam fala, não restou
alternativa aos patrícios: eles teriam de falar com este grupo. A questão da
igualdade política não está, deste modo, na simples construção de pretensos
espaços comuns para tomada de decisões públicas, visto que a mesma é anterior.
Os espaços são, ao mesmo tempo, inclusivos e excludentes. A luta pela igualdade
é sempre uma disputa política pela inclusão. Nas palavras de Rancière:
A política é primeiramente o conflito em torno da existência de uma
cena comum, em torno da existência e a qualidade daqueles que estão
ali presentes. É preciso, antes de tudo, estabelecer que a cena
existe para o uso de um interlocutor que não vê e que não tem razões
para vê-la já que ela não existe. As partes não preexistem ao
conflito, que elas nomeiam e no qual são contadas como partes.[...]
Existe política porque aqueles que não têm direito de ser contados, e
instituem uma comunidade pelo fato de colocarem em comum o dano que
nada mais é que o próprio enfrentamento, a contradição de dois mundos
alojados num só: o mundo em que estão e aquele em que não estão, o
mundo onde há algo "entre" eles e aqueles que não os conhecem como
seres falantes e contáveis e o mundo onde não há nada (1996:40).
É neste momento que a distinção elaborada por Rancière entre polícia e política
faz sentido. Polícia é o momento da ordem, da manutenção de uma regra, aquilo
que é possível ser dito, pois já é regrado e visto como discurso, ao contrário
do ruído. Naquele contexto da república romana, os patrícios tinham a polícia
instituída e esta não admitia, pois que estavam fora da regra e do discurso, a
presença dos plebeus, aqueles que emitiam somente ruído. Por outra parte, a
política é o instante do rompimento desta ordem: "ela faz ver o que não cabia
ser visto, faz ouvir um discurso ali onde só tinha lugar o barulho, faz ouvir
como discurso o que só era ouvido como barulho" (1996:42).
Já para Alain Badiou, o momento que podemos caracterizar como o do político
deve ser compreendido a partir de dois elementos que se conectam: a verdade e o
evento. Vejamos ambos em conjunto.
Primeiro, a verdade. Como mencionado anteriormente, a verdade para este autor
difere-se claramente da noção de saber. Enquanto este está no domínio da
techné, do conhecimento sistematizado e reproduzido pela ordem, "uma verdade é
primeiro uma novidade" (Badiou, 1994:177). No entanto, uma verdade, por ser
realmente o novo, não pode acontecer no âmbito do próprio sistema, não advém
deste, porque simplesmente não compartilha qualquer conteúdo com ele. Conforme
Badiou:
Para que se inicie o processo de uma verdade, é preciso que algo
aconteça. Pois, o que existe, a situação do saber tal como está, dá-
nos apenas a repetição. Para que uma verdade afirme sua novidade, tem
de haver um suplemento, o qual está entregue ao acaso. Ele é
imprevisível, incalculável. Situa-se para além daquilo que existe,
chamo-o evento (ibidem:178).
O evento representa uma ruptura com uma situação vigente. "Um evento é a
criação de novas possibilidades" (Badiou,_2012:138). O evento,em contraste com
outra noção badiouniana - a de Estado (que é a finitude da possibilidade, visto
que o Estado está no campo do saber) - é a "infinitização" da possibilidade,
pois o evento não é, em absoluto, uma possibilidade interna, mas algo
totalmente exterior à ordem vigente: ele é a criação de novas possibilidades
(ibidem). É neste novo ambiente que uma verdade tem condições de emergência:
uma verdade, portanto, tão rara, advém de um evento, algo improvável e
impensável diante de uma situação existente.
Neste sentido, o evento representa uma situação extraordinária sempre em
relação ao Estado, este último entendido nos termos de Badiou, conforme
afirmamos há pouco. Em termos políticos, uma revolução, tal como a bolchevique,
em 1917, tem o caráter radical e disruptivo próprio de um evento. Neste artigo,
são também eventos os movimentos políticos que têm tido lugar no mundo árabe
desde 2011. A derrubada de governos e o processo ainda em curso de mudança de
regimes, com todos os seus avanços e retrocessos, como o que ocorreu no Egito e
na Líbia por exemplo (citamos somente os casos que consideramos os mais
avançados, mas podemos pensar para outros contextos, como na Síria que, desde
2011, vem enfrentando uma guerra civil), apontam, em nossa opinião, claramente
para a ocorrência de eventos, uma vez que nestes contextos foram criados,
primeiramente, processos de verdade e de constituição de sujeitos a eles
relacionados e, além disso, claramente foram criadas novas possibilidades
independentemente dos resultados, os quais, por se tratarem de eventos,
encontram-se no plano da contingência radical.
Por fim, a noção de deslocamento para Laclau. Tal momento, para o autor,
representa o claro limite de significação de um sistema político, sempre visto
por ele como uma estrutura discursiva. Este ocorre justamente quando a
estrutura não consegue processar, semantizar novos pontos de antagonismo, os
quais lhe fogem à significação. O deslocamento é, portanto, um encontro com o
Real5, um momento em que a ocorrência de um evento não é passível de ser
dialetizada, ameaçando a própria existência da estrutura. Em termos
sociopolíticos, uma ordem deslocada é aquela que experimenta uma crise radical.
O deslocamento só pode ser, portanto, externo ao discurso, à ordem: trata-se de
uma experiência traumática e desajustadora por que passa uma estrutura, a qual
somente pode ser e compor a partir de novos processos de significação, que
substituem outros processos de significação. Tendo em vista que a falha de toda
estrutura - que é reativada a partir da experiência dislocatória6(um encontro
com o Real) - é, talvez, a única essência existente em toda experiência
política possível, sempre contingente.
Se não podemos alcançar o Real, pois ele não é passível de significação, o
deslocamento é a evidência da incompletude da estrutura, da impossibilidade de
sua estruturação final. Se o Real refere-se ao limite de significação de todo
sistema, então, no limite, estamos sempre diante de estruturas incompletas,
marcadas constantemente pelo trauma do deslocamento. Numa palavra: são
estruturas da falta. É neste momento de falha na estrutura que o sujeito toma
seu lugar de destaque. Conforme Laclau, "[o] lugar do sujeito é o lugar do
deslocamento. Portanto, longe do sujeito ser o momento da estrutura, ele é o
resultado da impossibilidade de constituir a estrutura como tal - quer dizer,
como objetividade" (1993:57). Segundo Howarth:
É neste momento de "falha" da estrutura para conferir identidade aos
atores sociais que "compele" o sujeito a agir. Neste sentido, o
sujeito não é simplesmente determinado pela estrutura, nem, contudo,
ele constitui a estrutura. O sujeito é forçado a tomar decisões (...)
quando identidades sociais estão em crise e estruturas necessitam ser
recriadas. É no processo desta identificação que as subjetividades
políticas são criadas e formadas (2000:109).
No sentido pós-estruturalista mais corriqueiro, ou seja, em que a estrutura
molda o sujeito, mas que também é, em certa medida, por ele estruturada, é que
existe a resposta ao trauma do deslocamento. A partir de uma estrutura
deslocada, gera-se a necessidade de sua redefinição por novos sentidos ou da
reativação de sentidos já existentes. É neste momento que o antagonismo tem
lugar para o autor: como parte de processos de significação, de constituição de
novas formas de inclusão, mas também de exclusão de sentidos discursivos. Nas
palavras de Laclau:
[...] a resposta ao deslocamento da estrutura será a recomposição da
mesma por parte das diversas forças antagônicas em torno de pontos
nodais de articulação precisos. O centramento - a ação de centrar -
só é possível, portanto, na medida em que há deslocamento e
desnivelamento estrutural. Novamente: o deslocamento é a condição de
possibilidade e de impossibilidade de um centro (1993:57).
Assim, o (re)centramento da estrutura, segundo Laclau, passa necessariamente
pela constituição de novos antagonismos e de novos processos hegemônicos. Uma
ordem incompleta será substituída por outra, igualmente falha.
CONSIDERAÇÕES FINAIS: O PÓS-ESTRUTURALISMO E O EVENTO
Com esta breve apresentação das dimensões sistêmicas (a política) e
antissistêmicas (o político) presentes nas obras de Rancière, Badiou e Laclau
(7), acreditamos ter todos os elementos para encerrar nossa discussão em torno
da indecidibilidade, da decisão e da ruptura, elementos que marcam o momento do
político nos termos do pensamento pós-estruturalista. A dimensão ruptural do
evento é, em nossa análise, fundamental para iluminar teoricamente análises
destinadas à compreensão mais amiúde das revoltas populares que seguem
ocorrendo em diversas partes do mundo desde a Primavera Árabe em 2011.
Neste sentido, não há um discurso que consiga transcender a sua lógica de
constituição, visto que, como percebemos, qualquer ordem é constitutivamente
incapaz de encarnar plenamente a ideia própria de Ordem. Assim, qualquer
estrutura política é limitada, incapaz de completar-se, de dar o sentido de
comunidade ou de sociedade reconciliada. A razão para tal incompletude não
ocorre por uma inflação de possibilidades, por um excesso de opções políticas
possíveis. É claro que as mesmas existem. No entanto, estas não são causas de
suas próprias incompletudes, mas consequências. A "sociedade é impossível",
como nos adverte Laclau_(1993), justamente pelo fato de que a ideia mesma de
sociedade não possui qualquer conteúdo. É, segundo Lefort_(1991), um lugar
vazio, que somente pode ser contingentemente preenchido, portanto nunca de
forma completa.
Preencher o espaço da Ordem, do universal, do certo, do discurso, é sempre uma
tarefa política complicada, pois depende de uma operação hegemônica. Esta
última é, segundo Laclau_(1993), uma situação em que, de forma precária e
contingente, uma visão particular de mundo (uma ordem) consegue representar a
si e ao que a excede (a ideia de Ordem), dando a fantasiosa impressão de um
momento emancipatório, aquele em que sonhamos chegar e que por instantes
especiais temos a plena convicção de que enfim alcançamos.
No entanto, este momento é o de uma decisão tomada em um terreno indecidível,
em que outras decisões poderiam ter sido tomadas, pois nenhuma delas é, em
última análise, essencial. Estruturas políticas substituem outras, marcadas
pela ruptura do político. No mundo árabe, a democracia representativa liberal
é, para grande parte dos manifestantes, a quintessência da liberdade. Nos
Estados Unidos do Occupy Wall Street, é justamente este sistema que tem sido
contestado fortemente, como um mero executor de ordens do capitalismo
financeiro. É diante dessas e de outras perplexidades que temos testemunhado
desde 2011 que as análises teóricas pós-estruturalistas são fundamentalmente
importantes de ser compreendidas por teóricos e cientistas políticos. Elas são
as ferramentas mais úteis para compreendermos o que está acontecendo atualmente
no mundo. Quando tudo parece estar de forma mais lenta ou rápida desmoronando,
esses teóricos nos demonstram que a sedimentação ou a reativação de sentidos
são próprias da dimensão do político, essencialmente marcado por relações
conflituosas. Primavera Árabe, Occupy Wall Street, Los Indignadose Jornadas de
Junho são traços que marcam novas possibilidades que se abrem para o mundo
político a partir de eventos, de deslocamentos estruturais.
Tais movimentos, compreendidos à luz das análises pós-estruturalistas, nos
demonstram claramente que a política como ciência não pode simplesmente
dedicar-se aos estudos das instituições que pretensamente garantem
estabilidade. É papel do cientista pensar igualmente na instabilidade, talvez a
marca mais essencial da política, e que Maquiavel, na Florença do século XVI,
já nos anunciava como sendo a marca indelével desta dimensão humana e bem antes
dele, lembremos, Políbio e Platão já faziam referência à dimensão cíclica das
formas de governo.
Contrariamente ao mainstream da ciência e teoria políticas que privilegiam
estudos focados na dimensão institucional em detrimento da análise de momentos
de crises e de rupturas, o pós-estruturalismo dá centralidade justamente a
estes últimos. A razão é simples: não há ordem capaz de tornar-se a própria
ideia de Ordem, não há instituição perfeita. Todos os regimes são contestáveis,
e conhecer mais sobre tais momentos de contestação sistêmica deve ser, em nosso
entendimento, tarefa central da ciência política como um todo.