Cooperação horizontal Sul-Sul: arranjos de concertação política entre a Índia,
o Brasil e a África do Sul
Introdução
A ideia de concertações Sul-Sul não é recente e muito menos os objetivos que
levam a formar-se coalizões entre países do Hemisfério Sul, observando-se a
necessidade de se pensar nos interesses e nas estratégias desenvolvidas
conjuntamente num ambiente internacional interdependente e assimétrico. Este
contexto de maior aproximação entre países do Sul pode ser identificado como um
tipo de cooperação horizontal,objetivando-se uma concertação com vistas à
obstrução das desigualdades internacionais dirigidas pelos países desenvolvidos
do Norte, bem como ações conjuntas com vistas ao enfrentamento de problemas
domésticos semelhantes.
Segundo Oliveira et al (2006, 489) os Estados Intermediários: (i) teriam um
interesse comum ou então uma agenda internacional aderente às ideias dos
Estados Intermediários ou; (ii) teriam interesses divergentes que se
compatibilizariam devido a serem Estados Intermediários. Nesse caso, ainda
segundo Oliveira et al (2006, 490), essa articulação derivaria de: (i)
referências mútuas ao lidar com problemas de caráter semelhante e; (ii)
interesses de agenda em fomentar uma maior interdependência como recurso de
alargamento das parcerias, retirando-se de um limitado vínculo unilateral com
países desenvolvidos.
Política externa trata especialmente de escolher entre oportunidades e demandas
"ofertadas" no ambiente doméstico (porque a política externa éuma política
pública em nosso entender) e, claro, internacional. Por exemplo, saídas (busca
por novos parceiros) "ao Norte" e "ao Sul" são escolhas na formulação de
política externa da Índia, do Brasil e da África do Sul. Escolhas no sentido de
que as "saídas" (sejam por razões comerciais, de segurança, meio ambiente,
energia, etc) configuram, a priori, relevância no projeto interno dominante e,
naturalmente, tomam parte na agenda governamental. As escolhas podem indicar
uma reorientação de prioridades ou de tratamento preferencial por parte de
administrações na forma de melhor conduzir as inserções internacionais dos
países. Uma mudança de tratamento pode inferir que uma parceria não fosse mais
encarada como estratégica pelos policy makerse sim comocooperativa ou vice-
versa.
A percepção de melhores formas de inserção aos países insere-se dentro de um
quadro que aponta a seguinte indagação: qual a melhor forma de cooperação para
países como a Índia, o Brasil e a África do Sul? Não existe unanimidade na
resposta. Se a melhor "saída" for ao Sul, alguns analistas apontam que países
de capacidades materiais semelhantes tem mais razões para competir no ambiente
internacional do que motivos para cooperarem(Viola e Pio, 2003), perspectiva
que inviabilizaria um tipo de coalizão endógena-ofensiva, aqui identificada
como a caracterizada pela coalizão IBAS. Essa perspectiva tem seu contraponto.
Samuel Pinheiro Guimarães (1998) considera que, caso os países intermediários
sigam uma orientação de privilégio com os países desenvolvidos do Norte,
existiriam chances acentuadas de que não elevariam seus status no ambiente
internacional.
A efetividade de uma aproximação entre países intermediários calcando-se a
prerrogativa de uma maior cooperação internacional objetivando a contraposição
aos interesses e atividades de caráter unilateral dos países desenvolvidos,
concertou-se em cenários institucionais como a Organização das Nações Unidas
(ONU) e a Organização Mundial do Comércio (OMC), buscando, quanto à primeira,
uma reforma do Conselho de Segurança da ONU (CSONU), condomínio decisório da
instituição; quanto à segunda, uma maior articulação na recém-criada OMC com
vistas a obtenção de negociações econômicas mais benéficas aos países do Sul
nas inúmeras rodadas de negociação entre os países no seio da instituição.
É importante destacar que as instituições internacionais são tomadas aqui como
fatores de incentivo à cooperação, pressupondo que as instituições
internacionais promovem meios para a descoberta de interesses comuns por meio
de diálogo e reduzindo os custos de negociação (Keohane, 2005). Por exemplo, na
esfera econômica, o perfil de credibilidade e estabilidade macroeconômica é
perseguido pelos três países e suas políticas externas são orientadas em torno
da percepção de que seus países são grandes mercados emergentes. E na esfera
política, a busca por valorizar instituições internacionais prestigiando seus
colegiados decisórios e, ainda mais, na busca por reformar seus desenhos
institucionais demonstra a aderência ainda de um mesmo fio condutor que guiou
as políticas dos países desde a década de 1960 no ambiente internacional.
Desta forma, o novo desenho da política internacional tem, nos países do Sul,
atores de real importância, e os países em desenvolvimento reconhecem essa nova
condição e por ela articulam meios de maior projeção no ambiente internacional.
A institucionalização de coalizões Sul-Sul é percebida como um recurso válido e
estratégico para a melhor forma de inserção dos países no ambiente
internacional, algo comparativamente válido tanto no período da Guerra Fria
quanto hoje em dia. Embora exista um legado institucional no teor das
concertações entre países em desenvolvimento, o desempenho político das
coalizões diferencia-se de um momento para outro, seja pelas mudanças
estruturais no ambiente internacional, seja pelos novos arranjos das
concertações Sul-Sul pós Guerra Fria.
O desempenho político eficiente de uma concertação política entre a Índia, o
Brasil e a África do Sul depende de políticas externas assertivas e alinhadas
na busca por atingir suas respectivas metas institucionais, dimensionadas aqui
para avaliação em instituições internacionais como a ONU e a OMC. Portanto, a
observação de elementos de alinhamento entre as políticas externas da Índia, do
Brasil e da África do Sul está diretamente dependente de como e em torno de que
as políticas externas dos países concertados são orientadas.
Multilateralismo Sul-Sul: uma "saída" viável para enfrentar aos
constrangimentos sistêmicos?
A articulação entre novos centros de poder com capacidade de influir e decidir
conjuntamente os rumos do ambiente econômico e político internacional foi,
acentuadamente, galgando relevância não apenas nas relações bilaterais entre
Estados do Sul, mas também no seio das instituições internacionais, algo
caracterizado já dentro de uma concertação multilateral. Essa concertação
influiu na articulação de coalizões com propostas que contemplassem temas
comuns bem como o meta-exercício de poder no exercício do diálogo com as
potências do Norte (Soares de Lima, 2008).
É interessante observar que, ao fim da bipolaridade, a nova ordem
internacional, embora promotora de maior distribuição de poder no mundo, também
acarretou maiores constrangimentos aos países do Sul, como, por exemplo: (i)
estímulos a inserção na globalização ao mesmo tempo em que restrições
assimétricas ao comércio equilibrado e justo e; (ii) não contemplação das novas
realidades políticas oriundas do mundo pós Guerra Fria. Constrangimentos estes
que, na análise aqui espelhada, derivaram em possibilidades mais efetivas de
arranjos cooperativos no eixo Sul-Sul da política internacional contemporânea.
A inserção dos três países, sob o contexto de reformas liberalizantes oriundas
do "consenso" de Washington, teve um caráter híbrido no trato econômico
doméstico dos países por parte dos governos brasileiro, indiano e sul-africano,
mantendo ao mesmo tempo reformas econômicas para uma inserção mais competitiva
na economia globalizada bem como uma postura de preservação do caráter
desenvolvimentista na formulação das políticas comerciais externas da Índia, do
Brasil e da África do Sul. Neste sentido, é possível dizer que o processo de
liberalização econômica dos países foi mais condicionado do que,
necessariamente, desatreladoàs ideias desenvolvimentistas.
De uma forma ou de outra, tanto a Índia, quanto o Brasil e a África do Sul
notabilizam-se, hoje, como atores relevantes no ambiente internacional. E
reconhecidos como tais pelos demais atores do ambiente internacional, formulam
políticas externas visando a obter maior aproximação e convergência na
diminuição da assimetria internacional. Segundo Celso Amorim, as semelhanças
entre os países foram condições fundamentais para uma aproximação trilateral:
São três democracias; são três países que têm um importante papel a
desempenhar em suas respectivas regiões; são três países
democráticos, países em que a democracia tem um forte papel na sua
vida política; são países que têm também problemas sociais, mas que
estão dispostos a enfrentá-los; e são países que têm também visões
muito semelhantes em muitos temas multilaterais, e, quando não em
absolutamente todos, a perspectiva que nós temos é, sem dúvida
alguma, muito semelhante. Então, era preciso transformar essa
coincidência virtual numa cooperação real(Brasil, 2007).
O multilateralismo Sul-Sul seria uma "saída" viável para enfrentar as
adversidades sistêmicas, num momento de acentuado unilateralismo por parte da
superpotência, os Estados Unidos pós-11 de Setembro, ampliando os leques de
possibilidades de cooperação e parcerias, tanto nas relações diretas entre os
países quanto no fortalecimento das instituições internacionais.
Realmente, um dos pontos fundamentais para essa observação ocorre no âmbito das
instituições internacionais, observadas aqui, principalmente, em relação a ONU
e a OMC, alvos institucionais de muitas das metas de política externa de seus
países. Por que tanto a Índia quanto o Brasil e a África do Sul formulam,
implementam e costuram suas políticas externas tanto no âmbito de relações bi
ou trilaterais, mas também no âmbito das instituições internacionais, cenários
elementares para a consecução de seus objetivos políticos, tenham suas
políticas algum teor reivindicatório ou propositivo.
As políticas externas da Índia e do Brasil, historicamente, foram arquitetadas
na busca por estratégias de inserções autônomas ao longo do século XX,
conformando essas inserções num aspecto de busca por protagonismo. Protagonismo
no cenário internacional no sentido de formulações claras e contínuas em torno
de políticas externas voltadas ao tema do não-alinhamento na Guerra Fria
(embora o Brasil tenha, ao longo de sua trajetória histórica, ondulações de
alinhamento irrestrito e autonomia aos Estados Unidos) e do pragmatismo
assertivo (configurado em políticas de coadunação em torno de interesses
setoriais, mas dentro de um quadro de multilateralismo) por isso gerando uma
postura de liderança, por exemplo, no G-20, em que ambos os países lideram a
coalizão e ampla concertação de interesses das potências médias.
É interessante observar, por exemplo, a percepção de que: "a Índia pertence a
categoria das potências médias que aspiram a fazer a transição para categoria
privilegiada das grandes potências." (Mallavarapu: 2006, 255). Caso avaliado de
forma semelhante ao do Brasil, já que seus formuladores de política externa
aspiram, de forma absolutamente consensual, transformar o Brasil em um ator
relevante na política internacional. Neste sentido, é possível inferir que a
aspiração tanto indiana quanto brasileira constitui parte das identidades
nacionais da Índia e do Brasil.
A política externa indiana costura suas alianças e projeta seus interesses de
forma a alcançar o statusde grande potência no ambiente internacional. Um ponto
também semelhante com o brasileiro, visto que suas elites formuladoras de
política externa também projetam seus interesses e costuram alianças com esse
fim. Todavia, ainda que exista um movimento por alçar os países ao status de
potências globais, existe um contra-movimento que restringe essa inclusão.
Para conseguir amenizar vulnerabilidades sistêmicas, os países necessitam
orquestrar, junto aos seus pares, políticas externas que se caracterizem por
alinhamentos em posições temáticas conjuntamente encaradas como prioritárias
para os interesses dos países no ambiente internacional. Samuel Pinheiro
Guimarães (1998) aponta essas vulnerabilidades e as reparte, fundamentalmente,
em três: (i) a primeira seria estabelecer programas de cooperação, tanto
econômica quanto política, com seus países vizinhos; (ii) reduzir também suas
vulnerabilidades econômicas externas; (iii) desenvolver sua capacidade militar,
como forma de estimular a pesquisa tecnológica e adquirir conhecimentos
necessários a etapas superiores de desenvolvimento.
E a África do Sul? Diferentemente da Índia e do Brasil, ela iniciou, de forma
irrestrita, sua inserção internacional no contexto pós apartheid, ou seja,
apenas a partir de 1990. Não que antes o país não atuasse no ambiente
internacional e mesmo em relações bilaterais, por exemplo, com o Brasil como
assevera o estudo de Pio Penna Filho (2008). A constrangedora relação à época
entre um país marcadamente miscigenado como o Brasil com um país
institucionalmente segregador como a África do Sul, teve momentos de cooperação
atlântica bem como momentos de afastamento e deterioração das relações.
Essa relação é retomada de forma acentuada e irrestrita (não só com o Brasil e
a Índia, mas com o mundo) apenas com o processo de democratização que levou ao
fim do apartheid no país. Esse cenário de relações exteriores para a África do
Sul para com o Brasil não têm caráter singular, mas reflete um contexto amplo
de adversidades enfrentadas pela África do Sul no ambiente internacional que
apenas após o fim do apartheid são completamente exumados por sua política
externa. Entretanto, é importante ressaltar que o fim do regime de apartheid
não teve o caráter "mágico" de resolução de todos os problemas domésticos e de
inserção internacional da África do Sul, mas ao menos minimizou os
constrangimentos sistêmicos à inserção do país.
Resulta desse contexto, portanto, que indagar sobre o potencial e a construção
das ambições da África do Sul são válidas, efetivamente, apenas no cenário pós
apartheid (no sentido da reconfiguração da política doméstica e externa do
país), destacando que foram muito mais os constrangimentos sistêmicos
(rompimentos diplomáticos entre países, restrições ao comércio e intercâmbio
cultural, fim do marco da bipolaridade sistêmica, etc.) que dificultaram a
edificação das ambições internacionais sul-africanas ao longo do século XX. É
interessante observar que a mudança de direção política da África do Sul já se
esboçava um pouco antes do fim do apartheid na maneira como o país se
reconhecia e se projetava regional e sistemicamente (prefigurando, na verdade,
a insustentabilidade do nefasto regime). Ao reconhecer o país como africano e
não como uma extensão da Europa na África, em 1988, o Diretor Geral do
Departamento de Negócios Estrangeiros, Neil van Heerden, reflete no seu
discurso a ideia que formaria e passaria a orientar a política externa sul
africana:
Os problemas africanos devem ser resolvidos pelos africanos. Os
interesses comuns e a responsabilidade com relação ao bem-estar
econômico, sociológico e ambiental da África Austral devem ser a base
da cooperação e da boa vizinhança. A África do Sul é economicamente
poderosa e detém a infra-estrutura e as capacidades para ser a base
do desenvolvimento regional (Mendonça: 2000, 42).
É seguro afirmar que a mudança da política externa regional sul-africana foi
muito mais ambientada no seu estilodo que na sua substância, resguardando sua
hegemonia regional e projetando-a dentro de uma expansão de seus interesses
políticos e, principalmente, econômicos na região. Mas as aspirações por
protagonismo (o regional efetivamente foi contínuo) do país no ambiente
internacional desenharam-se de forma paralela, por exemplo, às da Índia e do
Brasil, ressaltando, nesta avaliação presente, também um pragmatismo assertivo
por parte da política externa sul-africana.
Quanto à Índia, um aspecto fundamental de análise e explicação do seu
pragmatismo assertivo, por exemplo, ocorre na maneira como o país tem
dimensionado sua finalidade de autonomia política concernente ao contexto de
que os policy makers acreditam que o papel da Índia no sistema internacional
seja muito maior que o de um país periférico (Harris: 2006, 199): "é claro que
o 'clube exclusivo', no qual as elites mais aspiram ver seu país (...) é o de
membros permanentes do Conselho de Segurança das Nações Unidas." Uma aspiração
também compartilhada pelos policy makersbrasileiros e bem refletida nas
palavras do Ministro das Relações Exteriores Celso Amorim: "o Brasil é um dos
países que mais esteve presente no Conselho [de Segurança]. Temos, portanto,
autoridade para apontar os problemas e os desequilíbrios que afetam o trabalho
do Conselho e impõem a necessidade de mudanças" (Brasil: 2007, 197).
A ambição da África do Sul por um assento permanente no CSONU na agenda
política externa do país efetuou-se de forma mais recente. Entretanto, de forma
alguma significa que a inclusão no Conselho de Segurança das Nações Unidas
(CSONU) não tenha aderência relevante na agenda política externa sul-africana.
Muito ao contrário. Sua eleição recente como membro não-permanente do CSONU
articula-se diretamente às suas aspirações tanto no continente africano quanto
no próprio ambiente internacional, já que Pretória busca trabalhar uma sinergia
entre o Conselho de Paz e Segurança Africana (CPS) e o CSONU com vistas a
projetar sua liderança regional na África (especialmente na África Austral) e
na resolução de conflitos que consomem a região e fomentam sua instabilidade.
A importância (dentro do potencial de recursos políticos dos países), para as
aspirações indiana e brasileira, por um assento permanente no CSONU, é
refletida na quantidade de vezes em que os países foram eleitos para os
assentos não permanentes do CSONU. Como acima afirmado, embora tenha apenas um
mandato ao longo de sua história, a África do Sul tem no condomínio decisório
do CSONU um recurso de projeção de poder fundamental enquanto Estado
Intermediário e Potência Média, algo, indubitavelmente, característico nas
políticas externas da Índia e do Brasil.
Tanto sob a perspectiva indiana quanto brasileira e sul-africana, a aspiração
pela admissão ao CSONU e a projeção de países com envergadura para a admissão
ao condomínio decisório é certamente um motivo de prestígio e reconhecimento
internacional. Um lugar permanente no CSONU permitiria aos países "falarem mais
alto" ao exporem os seus pontos de vista acerca de propostas articuladas pelas
grandes potências.
A ambição da Índia, do Brasil e da África do Sul para uma reforma institucional
do CSONU (contemplando sua regionalização) busca uma efetiva transformação do
statusda instituição derivando, desta inferência, uma relevância maior para o
desempenho dos três países no ambiente internacional. Embora deva ser
ressaltado que a Índia e o Brasil têm um plano conjunto mais composto e já bem
dimensionado nas suas políticas exteriores, a África do Sul tende a uma
política de equilíbrio entre essa aspiração por ser membro permanente do CSONU
e representante do continente africano na instituição e a aderência à proposta
da União Africana, que não necessariamente a insere como a melhor alternativa à
representação continental africana.
Um ponto semelhante nas políticas assertivas multilaterais por parte da Índia e
do Brasil, especialmente, é a característica de ampla articulação em torno de
objetivos comuns. Suas políticas externas, ao mesmo tempo em que aspiram
adquirir poder, não se efetuam como ambições políticas de curto prazo. Ao
contrário, é possível observar que a Índia e o Brasil costuram alianças não
apenas entre outros países desejosos de reformas institucionais nas Nações
Unidas, mas também se articulando com países desenvolvidos do Norte, como a
Alemanha e o Japão, formando o G-4, cujo âmbito de reivindicação concerta-se em
torno de um novo desenho do CSONU especialmente dimensionado a considerar a
realidade política do mundo contemporâneo. Essa articulação busca ampliar e
efetivar institucionalmente uma regionalização do CSONU, garantindo, para a
Índia e o Brasil, prestígio no sistema internacional, mas para isso, os policy
makers indianos e brasileiros dimensionam que para sua efetivação, deve antes a
instituição (no caso a ONU e o CSONU) ser prestigiada.
As percepções indiana e brasileira sofrem um ponto de vista semelhante com a
perspectiva dos policy makerssul-africanos quanto a eficácia de uma concertação
em torno da reforma institucional da ONU e especialmente do CSONU: sem o devido
prestígio das Nações Unidas, não há sentido em buscar um assento permanente no
CSONU. E para ambos os países, num cenário unipolar e de hegemonia dos EUA,
somente pelo prestígio de instituições internacionais como as Nações Unidas e a
disposição de um novo desenho institucional do CSONU esse cenário assimétrico
poderá ser minimizado.
O que remete à assimetria não apenas no âmbito político, mas também da
interdependência econômica assimétrica. Um ponto de acentuada relevância nas
aspirações das políticas externas indiana, brasileira e sul-africana é a
atuação articulada entre países do mesmo status nas negociações econômicas
internacionais. Este processo, embora existente e importante desde a década de
1960 para a Índia e o Brasil, ganhou peso e status acentuado nas políticas
externas contemporânea dos países, tendo a África do Sul alçado essa condição
de concertação após o fim do apartheid. Identifica-se neste processo tanto na
conjuntura sistêmica, marcada com o fim da bipolaridade da Guerra Fria e a
necessidade de inserção competitiva dos países no ambiente econômico
internacional globalizado, quanto na conjuntura doméstica com os pacotes de
reformas macroeconômicas que visavam a dispor os países maiores condições de
competitividade no comércio internacional, ainda que sob fortes e acentuadas
assimetrias.
É possível inferir mesmo que o comércio internacional (dirigido pelos países
desenvolvidos do Norte) restringia, efetivamente, uma participação equilibrada
dos países em desenvolvimento do Sul. Neste sentido, julgo oportuno inferir
que, nas negociações e nas implementações de regras multilaterais de comércio,
não somente o desnível de desenvolvimento entre os países do Norte e do Sul
eram percebidos, mas também entre os países do Sul em seus respectivos níveis
de desenvolvimento econômico (diferenças entre, de um lado, países com
economias emergentes e, do outro lado, países com menor desenvolvimento
relativo), envolvendo, neste sentido, a exigência de tratamentos diferenciados
nas negociações.
Três momentos históricos podem ser identificados nas posturas dos países em
desenvolvimento nas negociações econômicas multilaterais:
1) O primeiro iria de 1947 a 1964, com participação diminuta de
países em desenvolvimento devido a inexistência de tratamento
diferenciado nas negociações, o que inviabilizava, efetivamente, a
participação de países com economias mais frágeis;
2) O segundo iria de 1964 a 1986, com um aumento substancial da
participação de países em desenvolvimento, derivando essa
participação do tratamento diferenciado e;
3) Por fim, o terceiro momento, de 1986 aos dias presentes, ocorrendo
negociações econômicas multilaterais concertadas entre os países em
desenvolvimento ao lidar com os pleitos e reivindicações dos países
desenvolvidos. O último momento é diretamente vinculado à concertação
Sul-Sul aqui avaliada, entre a Índia, o Brasil e a África do Sul.
Neste sentido, é possível inferir que o General Agreement on Tariffs and Trade
(GATT) não possuía possibilidade efetiva de sucesso para os países em
desenvolvimento, já que não estava organizado e muito menos preparado para
atender as demandas dos países em desenvolvimento, ou seja, por uma agenda de
comércio internacional menos assimétrica e pela inclusão de status especiais
aos países de economias mais frágeis e, observando-se que o GATT não se
constituía em um fórum político, as reivindicações com teor político que de
alguma forma pudessem vincular o comércio internacional às demandas por
desenvolvimento dos países do Sul eram rapidamente excluídas.
São importantes as observações sobre o desenho político do GATT por entender
que o subaproveitamento das demandas dos países em desenvolvimento, em suas
rodadas de negociação, foram absorvidas politicamente pelas elites políticas da
Índia e do Brasil (a África do Sul, como bem se ressalta, era um outsider no
ambiente internacional na maior parte deste período avaliado) e, desta forma,
transformadas em recursos para a formulação e implementação de políticas
externas mais pró-ativas. Os policy makers indianos e brasileiros conceberam o
papel da Índia e do Brasil nas rodadas de negociação, antes postuladas no GATT
e hoje na OMC, não como países periféricos no âmbito das tomadas de decisões
das rodadas, mas sim como protagonistas destas decisões.
Decisões, afinal, que afetariam as economias dos países em desenvolvimento do
Sul. Assim como o Brasil, a Índia assumiu um papel de liderança do bloco de
países em desenvolvimento nas negociações com os países desenvolvidos do Norte.
É interessante observar que o próprio arranjo institucional da OMC permite esse
quadro. Afinal, o processo decisório orquestrado na instituição preza por uma
igualdade soberana, gerando, portanto, representação igualitária. Contudo, é
claro, ainda que se desenhe esse cenário, os países desenvolvidos ditaram as
regras de comércio internacional na imensa maioria das rodadas de negociação,
mudando este cenário apenas após a reunião ministerial de Cancun da OMC, em
2003.
Retomando, é possível identificar o protagonismo indiano bem como brasileiro
nos nove anos da Rodada Uruguai do GATT. Tanto a Índia quanto o Brasil podem
ser identificados não apenas como aspirantes a protagonistas das decisões tanto
no GATT quanto na OMC, mas realmente como protagonistas ao longo dos nove anos
de negociações entre os países desenvolvidos do Norte e os países em
desenvolvimento do Sul. Este protagonismo indiano bem como brasileiro pode
também ser identificado como o exercício da liderança conjunta dos países do
Sul na esfera tanto do GATT quanto da OMC.
Um exemplo possível do exercício desta liderança, podendo ser identificada como
conjunta pode ser percebida na criação do G-10 com vistas ao questionamento da
agenda proposta pelos Estados Unidos, cuja percepção de ameaça ao
desenvolvimento dos países do Sul era percebida, originando dessa articulação o
General Agreement on Trade in Services (GATS). O acordo, entretanto, "minguou"
devido a consistência de posicionamento do G-10 restringindo a liberalização do
setor de serviços. O fracasso dessa iniciativa deveu-se, em muito, ao
posicionamento indiano bem como brasileiro, contrário a liberalização.
É interessante, neste sentido, observar que a Índia e o Brasil figuram na lista
de principais países interpelantes e interpelados no Órgão de Soluções de
Controvérsias (OSC) da OMC, entre o período de 1995-2008. Por exemplo, a Índia
foi interpelada por 20 vezes no OSC, enquanto o Brasil ocupa o sexto lugar no
período com 14 interpelações no OSC. Já no quesito país interpelante, a Índia
acionou o OSC 18 vezes, figurando na quinta posição na lista de países
interpelantes, enquanto o Brasil ocupou a quarta posição, com 24 casos. A
África do Sul foi interpelada em apenas três casos desde a instituição do OSC
em 1995, não ocorrendo medidas interpelantes por parte do país (WTO, 2008).
O papel acentuado de liderança dos países em desenvolvimento nas rodadas do
GATT/OMC implicou no reconhecimento não apenas da potencialização econômica
indiana e brasileira no ambiente econômico internacional, mas também pelo
reconhecimento da assimetria não apenas entre o Norte desenvolvido e o Sul em
desenvolvimento, mas também entre os próprios países do Sul. Entretanto, é
válido ressaltar que as atuações indiana, brasileira e sul-africana na OMC
pautaram-se pela construção de um sistema multilateral de comércio mais
equitativo, mediante a correção de distorções e a diminuição das restrições às
capacidades de fomentar políticas voltadas para o desenvolvimento dos países do
Sul.
Por exemplo, é interessante observar que, diferentemente da Índia que prezava
além da agenda econômica também a agenda de segurança, as elites dirigentes
brasileiras detinham uma percepção de ameaças ao Brasil muito mais ligadas a
vulnerabilidades econômicas do que de segurança propriamente. Como efeito, o
teor das políticas externas indiana e brasileira deteve em suas agendas um
acentuado caráter desenvolvimentista, sendo consideradas um recurso fundamental
para a busca de desenvolvimento dos países, seja no âmbito da busca por mais
cooperação econômica Sul-Sul, seja no âmbito da articulação por uma
reorientação do regime de comércio internacional com os países do Norte. No
caso brasileiro, as palavras do próprio Celso Amorim, Ministro das Relações
Exteriores do Brasil, atestam essa articulação:
O tema do desenvolvimento tem sido historicamente um elemento central
para a política externa brasileira, sobretudo no âmbito multilateral.
Desde nossa contribuição pioneira à UNCTAD, estivemos presentes nos
principais debates que se travaram sobre o assunto (Brasil, 2007,
12).
Ressalto que o desenvolvimento não foi o tema central apenas da política
externa brasileira, mas também da política externa indiana e sul-africana. O
desenvolvimento, meta perseguida pelas elites políticas indianas, brasileiras e
sul-africanas (neste caso, é interessante observar a continuidade da orientação
da política externa antese depois do fim do regime de apartheidpara a África do
Sul), certamente orientou a percepção, formulação e implementação de suas
políticas externas.
Novas percepções também passaram a configurar a formulação e implementação das
políticas externas dos três países em temas que podemos identificar como
estáveis,com comportamentos em negociações comerciais aderindo a um
multilateralismo econômico acentuado e institucionalizado como estratégia para
obtenção de maiores benefícios e ampliação do comércio internacional e
emergentes,com um comportamento menos reativo em temas como o meio ambiente
(mudanças climáticas), direitos humanos ou a cooperação em nível de segurança
da agenda internacional. Boa parte da agenda do Sul era determinada pelos mais
avançados países em desenvolvimento (Brasil e Índia entre eles). Os ganhos
políticos da liderança eram maiores que os ganhos econômicos e motivavam, tanto
à Índia quanto ao Brasil, a se dar conta de eventuais perdas derivadas de
posicionamentos arriscados. Desta forma, a manutenção da liderança fazia parte
da estratégia, ainda que ferisse, de alguma forma, os interesses nacionais.
O caso sul-africano deve realmente ser avaliado a parte. Por quê? Assim como no
caso da ONU, a África do Sul sofria restrições econômico-comerciais acentuadas
por parte de diversos países do Mundo (o Brasil, por exemplo, acentuou as
restrições da década de 1970 em diante enquanto a Índia manteve uma política de
restrições a Pretória por toda sua história independente), o que implicava
negativamente no seu comércio internacional. Neste sentido, as ambições sul-
africanas e os interesses por um ambiente mais equilibrado registram-se também
no âmbito da OMC. Julgo oportuno registrar que, para a África do Sul, as
políticas de subsídios agrícolas da União Européia ferem diretamente os
interesses sul-africanos e, neste sentido, a África do Sul não aspira apenas
uma reforma da ONU, mas também da própria OMC, embora, deva ser ressaltado, sua
atuação na OMC, junto ao OSC, seja bem menos ativa que a indiana e brasileira.
Neste sentido, observou-se que as políticas externas indiana, brasileira e sul-
africana trabalharam com suas capacidades no efetivo exercício de obtenção de
poder, não apenas no sentido clássico do realismo (a busca por prestígio, no
caso), mas também na efetiva promoção de mudanças no ambiente internacional.
Suas políticas externas atuaram com vistas à promoção de mudanças em ambientes
institucionais internacionais, seja por meio de políticas objetivando reformas
institucionais (no âmbito de aspiração) como o CSONU ou na concertação liderada
de países no GATT/OMC. É importante ressaltar que a Índia e o Brasil possuem
peso político muito mais denso (capacidade influente e decisória nas
instituições internacionais) que a África do Sul, especialmente devido a
inclusão mais recente (pós apartheid) do país nas relações internacionais, e
por isso é possível identificar a maior proeminência indiana e brasileira nas
relações internacionais contemporâneas.
Índia, Brasil e África do Sul são países de porte intermediário, mas aspiram
condições (e constroem cenários para isto) de negociações equilibradas com as
grandes potências. Primeiramente, é fundamental identificar que a concertação
Sul-Sul dos países, objetivo alvo dessa avaliação, obedece a uma dupla
incidência: 1º) uma concertação Sul-Sul com outros Estados Intermediários
oferece aos três países uma maior possibilidade de parceiros comerciais,
diversificando e alternando oportunidades de cooperação e ganhos econômicos e
comerciais; 2º) um tipo de concertação Sul-Sul de caráter estratégico oferta
aos Estados Intermediários uma possibilidade maior de interferência no contexto
decisório do ambiente internacional, especialmente dimensionado nas
instituições internacionais.
As políticas externas de Estados do porte da Índia, do Brasil e da África do
Sul são mais convergentes do que divergentes na busca por políticas que
contemplem seus interesses sistêmicos. Essa convergência pode então ser
operacionalizada, em vista do objetivo de indicar as características que
fortalecem vínculos entre as políticas externas de países geopoliticamente
eqüidistantes e com contextos econômicos também diversificados.
Índia, Brasil e África do Sul: alinhamentos políticos substanciais nas
instituições internacionais?
Segundo Mônica Hirst (2006), os Estados Intermediários possuem recursos
suficientes para, em conjunto, atuarem no ambiente internacional de forma pró-
ativa, afetando temas da agenda internacional. Dois pontos importantes devem
ser ressaltados: 1º) as políticas externas da Índia, do Brasil e da África do
Sul mantiveram uma trajetória em comum na obtenção de seus objetivos políticos
e econômicos num eixo de cooperação Sul-Sul; 2º) ocorreu uma reformatação do
modelo de coalizões Sul-Sul. O fator globalização nos faz remeter a uma
diferenciação fundamental dos tipos de coalizões Sul-Sul arregimentadas entre
as décadas de 1950 e 1970 do século XX e as atuais. A ideia comum de se
reformar o modelo de capitalismo deu lugar ao objetivo específico de tomar
parte do sistema, de também ser um país desenvolvido (ainda, ressalte-se, a
busca por parte dos países em equilibrar o desenvolvimento econômico com o
desenvolvimento social).
Para Nalikar e Tussie (2004), coalizões internacionais de caráter restrito a
países em desenvolvimento (especialmente) possuem fragilidades que tendem a
esvaziar a manutenção desses tipos de coalizões. Em especial duas
características são apontadas: 1º) a capacidade econômica e política que os
Estados possam ter diante de outros Estados; 2º) risco de fragmentação ou mesmo
desprestígio da coalizão em virtude de conflitos de interesses entre seus
membros.
Adota-se como prerrogativa analítica que as instituições aprendem e desta forma
os Estados podem evitar repetir erros vivenciados em outros arranjos
cooperativos. Essa inferência deriva de uma reflexão oriunda também de Narlikar
e Tussie (2004), na qual consideram o aprendizado como algo fundamental para
que a coalizão seja eficiente, já que se leva em consideração a trajetória de
articulação entre Estados, prerrogativa aderente ao se observar, por exemplo, a
institucionalização do Fórum IBAS.
Na abordagem de Narlikar e Tussie (2004), as coalizões teriam duas
características particulares: 1º) uma coalizão cujo caráter é restringido em
torno de um bloco e suas fundamentações mais elementares desvela em torno de
questões vinculadas às ideias ou identidades e adotam posicionamentos coletivos
por meio de temas e numa trajetória; 2º) o outro modelo vincula-se a coalizões
baseadas em assuntos stricto sensu, caracterizados por especificidades de
caráter de racionalidade instrumental e tais coalizões surgem para enfrentar
ameaças e se dispersam também rapidamente quando o tema em questão é resolvido.
Conquanto a política externa de um país venha a alimentar o desempenho da
coalizão internacional que o mesmo tome parte e prestigie junto à sua agenda
governamental, a ocorrência de potencialidade na formulação das políticas
externas descende de interesses orientados em torno de uma agenda internacional
com objetivos sumariamente semelhantes (efetivados ou não). Prescindido esse
quadro de potencial (semelhante no âmbito político, econômico e de segurança,
por exemplo) que os países tenham para a negociação internacional em que os
mesmos venham desenvolver em alguma instituição internacional. Esse quadro se
desdobra no âmbito de inferir que a convergência política entre países na seara
da cooperação pode ser identificada por dois tipos de parcerias entre os
Estados.
1º) Parceria Cooperativa é considerada como uma forma de relação harmoniosa
quando ocorre menor grau de envolvimento entre os pares do que na parceria
estratégica. Os mesmos desfrutam de relações fundamentalmente positivas e
produtivas em diversas áreas, entretanto, buscam desenvolver a cooperação
apenas de forma limitada em questões estratégicas e de segurança;
2º) Parceria Estratégica (modelo de orientação na institucionalização da
coalizão entre a Índia, o Brasil e a África do Sul) é necessário ocorrer quatro
variáveis fundamentais abaixo relacionadas: (i) condução de diálogo profícuo e
amistoso entre altas autoridades políticas de ambas as partes, sustentado por
mecanismos institucionais; (ii) manutenção de relações dinâmicas nos campos
econômicos e sociocultural, com participação de diferentes atores sociais,
contribuindo para o desenvolvimento de seus projetos nacionais; (iii)
desenvolvimento de cooperação ativa e abrangente em questões estratégicas e de
segurança, inclusive no campo militar; (iv) compartilhamento de visões a
respeito da organização do ambiente internacional.
Nas Parcerias Estratégicas de grau mais avançado, os países envolvidos possuem
interesses estratégicos e sistemas políticos semelhantes e desenvolvem relações
militares estreitas, subsidiadas por serviços de informação interligados. Já as
relações entre aliados envolvem uma forma mais íntima e duradoura de cooperação
entre nações com sistemas políticos ou econômicos semelhantes, conjugando
objetivos de segurança, estabilidade e influência. Tais relações podem evoluir
em direção a formação de um eixo de poder internacional, que implica não apenas
em influência mútua entre os países envolvidos, mas também na ação articulada e
coordenada no tratamento das mais importantes questões internacionais.
Cabe perguntar em até que medida é possível inferir que a convergência entre os
posicionamentos da Índia, do Brasil e da África do Sul refletem um alinhamento
Sul-Sul nos temas mais proeminentes da agenda internacional? É importante
ressaltar, primeiramente, que tanto a Índia quanto o Brasil e a África do Sul,
embora tenham priorizado em suas agendas concertações Sul-Sul para melhor
operacionalizarem seus interesses no ambiente internacional, não deixaram,
também, de exercer autonomia em questões que refletissem as particularidades de
suas preferências, reconhecendo, mesmo, que existem diferenças entre os países,
mas que as mesmas não devem ser tomadas como obstáculos à cooperação entre os
mesmos.
Por exemplo, foram analisados estatisticamente pontos de convergência/
divergência nos posicionamentos entre os países do Fórum IBAS no âmbito de três
regimes internacionais: segurança, direitos humanos e desenvolvimento. É válido
acrescentar que o foco de observação analítica comparada entre a Índia, o
Brasil e a África do Sul, não incorrendo em acréscimo de outros países para
efeito de análise, deriva da possível dispersão analítica que poderia ocorrer,
já que o artigo busca observar apenas a articulação institucional entre os três
países.
Mesmo após a institucionalização do Fórum IBAS, como mostrado na tabela_2,
ocorreu a manutenção na tendência a maiores pontos de convergência entre os
países. Mas esse processo de convergência entre os países no âmbito da ONU pode
ser encarado como um processo sustentável de convergência? Ou sua configuração
de alinhamento deve ser entendida como pontual ("coincidente") e não
necessariamente orquestrada?
O resultado obtido por meio dos dados, considerando os onze anos dispostos no
recorte temporal e todas as votações envolvidas em torno de três grandes
regimes: (i) segurança, (ii) direitos humanos e (iii) desenvolvimento demonstra
uma alta incidência de convergência (no âmbito das votações na Assembléia Geral
das Nações Unidas) de posicionamentos entre os países, 88,50% de convergência
de posicionamentos. É possível inferir uma dupla incidência de autonomiaem
posicionamentos ao mesmo tempo em que alinhamentos estratégicos nas posições
tomadas ante os regimes internacionais.1
Feita essa observação em relação às atividades e alinhamento conjunto dos três
países no âmbito da ONU, julgo importante voltar a observação ao espectro da
OMC. Considero fundamental discorrer brevemente sobre o G-20 com o fim de
observar uma coalizão não formal que tanto Índia quanto Brasil e África do Sul
tomam parte. Surgido na conferência da OMC em Cancun, outra concertação entre
países do Sul, com presença da Índia, do Brasil, da China, da África do Sul, da
Argentina etc, e especialmente liderado pelos três primeiros países nas rodadas
de negociação da OMC. O G-20 caracteriza-se por ser uma coalizão setorial,
focado fundamentalmente no tema da agricultura, objetivo central da Agenda de
Desenvolvimento de Doha. É interessante observar que, no caso do G-20, os
países em desenvolvimento conseguiram, graças ao seu arranjo de concertação,
impor um novo papel (protagonístico) no âmbito das negociações sobre
liberalização do comércio internacional. Esse peso reflete nos números que
representam os países de três continentes: 60% da população rural do planeta,
12% da produção agrícola, 26% das exportações e 18% das importações mundiais
(Oliveira, 2005).
O Brasil e a Índia, embora exerçam liderança no âmbito da OMC, possuem
comportamentos diferenciados devido a interesses diferenciados no que tange a
abertura de seus respectivos mercados domésticos. Enquanto a Índia mantém uma
postura mais defensiva e protecionista para bens agrícolas, o Brasil destaca-se
por um comportamento mais flexível à possibilidade de abertura comercial,
promovendo, nas rodadas de negociação, comportamentos mais demandantes e
dispostos às negociações com os países do Norte de forma a barganhar melhores
condições de competitividade comercial. No caso, Índia e Brasil estreitam uma
cooperação desde antes de se alinharem também à África do Sul, já que o país
africano esteve, como já foi ressaltado, passível de restrições à sua atuação
no ambiente internacional com o regime do apartheid.
A cooperação existente entre os três países também não se caracteriza por uma
questão específica, já que os três países são parceiros, também, no G-20 e no
Fórum Trilateral de Diálogo IBAS, o que indica a existência de interesses e
demandas em comum para os países. É interessante observar, também, que num
cenário de interdependência econômica assimétrica tanto para a Índia quanto
para o Brasil e a África do Sul a atuação de forma multilateral com outros
países, na esfera da OMC, tende a gerar benefícios maiores do que uma atuação
unilateral (Keohane, 1992, p. 165). Essa inferência pode ser disposta como
suporte analítico ao se observar as coalizões que cada país toma parte no
âmbito da OMC como visualizados na tabela_3.
Políticas externas de caráter multilateral são comuns aos três países. E as
rodadas de negociação no âmbito da OMC são percebidas como cenários ideais para
a ampliação dos benefícios possíveis com a articulação multilateral de
interesses dos países em desenvolvimento. Tanto Índia quanto Brasil e África do
Sul, ao longo de suas trajetórias de negociação tanto no GATT quanto na própria
OMC, atuam de maneira assertiva em torno de coalizões em bloco ou temáticas. A
Índia participa de 09 coalizões, enquanto o Brasil e a África do Sul participam
de cinco e quatro coalizões, respectivamente, sendo que as coalizões em que os
três países participam são majoritariamente temáticas, com objetivos
específicos de reivindicação e proposição.
Também é possível observar que o Brasil encontra-se em coalizões tanto com a
Índia quanto com a África do Sul, mas não ocorre com a África do Sul encontrar-
se numa coalizão com a Índia sem a participação brasileira. Por exemplo, é
possível observar que outros Estados mantêm coalizões regulares na OMC com o
Brasil, como a participação argentina, tradicional parceira brasileira, em
todas as coalizões (quatro ao total) que algum país do Fórum IBAS tome parte.
Contudo, analisar a convergência entre do Brasil com a Índia (principalmente) e
com a África do Sul não remete que Brasília tenha mais convergência com New
Delhi ou Pretoria do que com Buenos Aires, mas sim que no tipo de coalizão
desenhada apenas entre Índia, Brasil e África do Sul não configura relevância a
inclusão dessa variável para mensurar o grau de convergência indiana,
brasileira e sul-africana em temas do comércio internacional. De qualquer
forma, para a Índia, o Brasil e a África do Sul ocorre em suas trajetórias uma
manutenção de políticas multilaterais no âmbito da OMC e, como conseqüência, a
participação acentuada em diversas coalizões refletiu no arranjo e
sustentabilidade da concertação entre os três Estados Intermediários.
É oportuno ressaltar uma característica das relações trilaterais entre: a)
Brasil e Índia; b) África do Sul e Brasil; c) Índia e África do Sul. As
relações entre Brasil e Índia bem como entre África do Sul e Brasil, e Índia e
África do Sul são de baixa complementaridade bilateral(refletida nas baixas
relações comerciais e estratégias políticas conjuntas quando tomadas em uma
longa trajetória), enquanto nas relações Sul-Sul, por parte da Índia, do Brasil
tanto quanto da África do Sul, a baixa complementaridade bilateral de relações
entre os países, por exemplo, é amenizada pela alta complementaridade
multilateral (ONU, OMC). Neste sentido, tanto um aspecto quanto outro influem
no desempenho da coalizão IBAS.
Embora sejam competidores em vários produtos e serviços nos mercados mundiais,
acrescentando, ainda, que o comércio entre os países seja dificultado pelas
distâncias (o que gera em parte a baixa complementaridade bilateral), os
governos da Índia, do Brasil e da África do Sul ambicionam redimensionar suas
relações, seja no âmbito comercial, seja no âmbito de cooperação técnica, por
exemplo. Um ótimo aspecto para se observar esse quadro (baixa complementaridade
bilateral) pode ser encontrado no âmbito do comércio entre os países. O
comércio entre a Índia, o Brasil e a África do Sul equivale a apenas 2% da soma
do intercâmbio entre os três países.
Tanto o comércio entre a Índia, o Brasil e a África do Sul quanto com seus
respectivos blocos de integração econômica aumentaram significativamente (e
especialmente após a institucionalização do Fórum IBAS). O intercâmbio entre
Índia e Mercosul mais do que duplicou entre 2001 e 2005, passando de menos de
US$ 1 bilhão para US$ 2,3 bilhões. Além disso, o fluxo comercial entre a Índia
e a África do Sul aumentou 133% no mesmo período, subindo de US$ 1,3 bilhão
para US$ 3,1 bilhões.
Observa-se que os Chanceleres da Índia, do Brasil e da África do Sul possuem um
otimismo político quanto ao aumento do comércio trilateral entre os países bem
como a superação dos obstáculos existentes. Para Celso Amorim: "Acreditamos que
em poucos anos atingiremos de US$ 14 bilhões a US$ 15 bilhões nesse tríplice
comércio. Atualmente, os acordo bilaterais entre Brasil e Índia e Brasil e
África do Sul, já rendem US$ 4 bilhões. Então, chegar aos US$ 15 bilhões não é
um projeto tão difícil de concretizar." Perspectiva acrescentada por Nkosazana
Zuma, Chanceler da África do Sul em 2006: "Não adianta avançarmos nas relações
comerciais se não houver logística para amparar este intercâmbio. Se não
tivermos transportes, o comércio entre os países será afetado. Por isso, nos
próximos meses os grupos de trabalho nessa área vão fazer um esforço dobrado
para evoluir no que diz respeito a transporte aéreo e marítimo" (Gazeta
Mercantil, 2006).
A divisão entre baixa complementaridade bilateral e alta complementaridade
multilateral denota uma rota política que fundamenta uma aproximação
multilateral entre os países e permite visualizar uma inferência positiva na
construção de arranjos de interesses mútuos, como a formulação de uma agenda
IBAS, ou seja, embora existam paralelamente (baixa complementaridade bilateral
X alta complementaridade multilateral), a primeira é tomada como incentivo para
o incremento das relações (bilaterais ou trilaterais) caracterizando a
percepção de oportunidade, enquanto a segunda reflete a absorção da
oportunidade pelos países e na operacionalização de seus interesses em
políticas de caráter multilateral.
Considerações Finais
O desenho da concertação entre os três Estados Intermediários obedece a um
arranjo de cooperação amplo (diversos interesses e objetivos), com uma agenda
em comum setorizada cujos efeitos são desdobrados pelas políticas externas
(assertivas e protagonísticas) da Índia, do Brasil e da África do Sul, cujo
maior desdobramento foi a institucionalização do Fórum de Diálogo Trilateral
IBAS. Como efeito, a concertação entre Índia, Brasil e África do Sul, como
arranjo de interesses derivado das políticas externas indiana, brasileira e
sul-africana e sob efeito dos constrangimentos sistêmicos, é marcada por
configurar-se como uma cooperação entre Estados fundamentalmente ambiciosa (do
ponto de vista sistêmico cujas políticas são de reconfiguração e re-equilíbrio
de poder entre as nações) e pontual (do ponto de vista da articulação comercial
trilateral ou no âmbito da cooperação técnica). Esse quadro gera, do ponto de
vista de eficácia, de certa forma uma tensão entre os objetivos da coalizão
(Lima, 2005).
Ainda que ocorram críticas ao caráter de concertação estratégica entre os três
países, é possível observar que as complementaridades são mais aderentes às
políticas multilaterais da Índia, do Brasil e da África do Sul do que os
fatores competitivos. Indubitavelmente, o próprio Fórum IBAS carece de
conhecimento público nos três países, ainda que iniciativas já estejam sendo
feitas para minimizar esse quadro deficitário, seja por iniciativas de câmaras
comerciais interessadas em estreitar laços comerciais ou no fomento de ações
parlamentares trilaterais. Justamente por ser uma iniciativa de caráter
político, a concertação entre três países do Sul foi constituída por aspirações
em comum, positivamente orientadas em torno de um mesmo eixo de preferências
conduzindo suas políticas externas, essas aspirações em comum fomentaram os
esforços por sistematizar uma concertação política. Esforços estes que se
desdobraram em consultas políticas de forma contínua ao longo dos anos
transcorridos e na maior exploração de políticas tanto multilaterais quanto
trilaterais, até mesmo para amenizar a baixa complementaridade bilateralentre
os países.
Em relação aos alvos institucionais internacionais, a coalizão tem um
desempenho eficiente em cenários onde é possível maior dispersão de poder
decisório (como a OMC) enquanto cenários mais concentradores de poder decisório
(CSONU) o desempenho político da coalizão é ineficiente no tocante aos seus
objetivos de agenda, observando-se que o comportamento das políticas externas
da Índia, do Brasil e da África do Sul mantém um mesmo padrão de atuação
(perseguição de seus objetivos que podem conflitar ou não com seus parceiros em
alguns pontos) tanto no âmbito da ONU quanto da OMC. Desta forma, o objetivo
original da concertação entre os três países, a reforma do CSONU, encontra-se
muito mais próximo de forte retórica do que necessariamente do sucesso no
objetivo.
O Fórum IBAS "veio para ficar", afirmou o Presidente Lula da Silva (Moura:
2008, p. 34). É uma consideração realmente válida, mas, retóricas a parte, o
desempenho político da coalizão Sul-Sul, como uma concertação sui generis entre
países em desenvolvimento de três continentes diferentes, reflete a própria
ambição de seus participantes. Os objetivos da concertação política entre a
Índia, o Brasil e a África do Sul são diversos (por isso uma agenda que
contempla diversos temas) e por serem diversos o desempenho político da
coalizão também é diversificado, seja para uma eficiência maior, menor ou
inexistente.