Chacal ou Cordeiro? O Brasil frente aos desafios e oportunidades do Sistema
Internacional
Introdução
Este artigo analisa os efeitos estruturais do Sistema Internacional (SI) sobre
os Estados a partir do caso brasileiro. O estudo recente de Octávio Amorim Neto
(2011) sobre as "determinantes e condicionantes da Política Externa Brasileira
no período de 1945 até 2008" afirma que uma variável neorrealista ou sistêmica
é a mais relevante para analisar a condução da política externa do Brasil.
Assim, a partir dessa afirmação iremos analisar os cenários e projeções de
política externa do Brasil. Quais são as adaptações da política externa
brasileira às mudanças estruturais em curso no sistema internacional? Nesse
cenário de transição o Brasil configura-se como grande potência revisionista,
isto é, como um Leão no SI? Ou quer atuar como Leão, porém está mais para
Chacal ou Cordeiro, segundo as categorizações utilizadas por Randall Schweller
(1994, 1998)?
As análises sobre a emergência do Brasil como global player ou ainda como
potência regional (polo de poder) estão relacionadas com o relativo crescimento
de suas capacidades materiais (principalmente econômicas), mas também com o
crescimento da sua participação nas relações internacionais. (Hurrell 2010;
Flemes 2010a; Soares de Lima e Hirst 2006). A expansão da política externa do
Brasil, com uma atuação global (Villa e Viana 2010; Soares de Lima e Hirst
2006) e com a diversificação em "eixos" de inserção internacional (Pecequilo
2008; Visentini e Reis da Silva 2010) pode ser, portanto, o resultado de
condicionantes sistêmicas ou estruturais em função do crescimento das suas
capacidades materiais ou da redistribuição delas ao nível global.
Os trabalhos mais importantes sobre as relações internacionais do Brasil
relacionam-se, em sua maioria, com variáveis explicativas de 1ª e 2ª imagem,
isto é, remetem-se ao nível dos Indivíduos (por exemplo, Lideranças Políticas,
Ministros, Chanceleres) e do Estado (por exemplo, Burocracia Estatal, Força
Parlamentar). (Almeida 2004; Cervo 2003, 2010; Fonseca Jr 2011). A relevância
da estrutura internacional, ou seja, de uma variável explicativa derivada da 3ª
imagem e suas possíveis modificações recentes, notadamente a partir da
emergência chinesa, são por vezes negligenciadas, principalmente, pelo peso
excessivo dado aos formuladores internos da política externa, em especial ao
poder Executivo.
Neste estudo define-se como principal condicionante da política externa do
Brasil a estrutura do sistema internacional e suas mudanças recentes. (Amorim
Neto 2011). Iremos considerar a existência de relação causal entre a estrutura
do SI e os Estados, em função de suas capacidades materiais. Estas constituem a
base do tamanho de poder que concentra um Estado no sistema internacional
anárquico. (Waltz 1979, 2000). Consoante a isso relacionaremos as capacidades
materiais com os derivados constrangimentos ao qual estão submetidos os
Estados, bem como com as possibilidades de atuação que derivam desse
relacionamento. (Schweller 1994, 2004; Mearsheimer 2001; Wohlforth 1999).
Pretende-se demonstrar, enfim, que as opções estratégicas de um Estado
relacionam-se diretamente com a estrutura internacional e com o poder que
concentra no sistema internacional. Assim, opta-se primeiramente por analisar,
a partir do neorrealismo, a atual configuração do sistema internacional, que
pode ser definida tanto como uma Unipolaridade Estável (Wohlforth 1999) quanto
como por uma Multipolaridade Desequilibrada (Mearsheimer 2001; Cepik e
Schneider 2010; Schweller e Pu 2011). Complementarmente será realizado um
balanço das reais capacidades materiais do Brasil (Econômicas e Militares) que
permitam analisar se os objetivos propostos pelo país em sua grande estratégia
são alcançáveis por meio de sua operacionalização. Portanto, o objetivo deste
artigo é complementar as análises que são produzidas sobre a atuação do Brasil
no Sistema Internacional por meio de uma análise que se baseia, principalmente,
no Realismo pós-Waltziano (Moure Peñin 2009), conforme sugere Amorim Neto
(2011).
Assim será realizada uma abordagem em três partes. Primeiro, uma análise sobre
a configuração do Sistema Internacional a partir da perspectiva Neorrealista.
Segundo, em um exame sobre os principais aspectos recentes da política exterior
do Brasil para a região e para o mundo. Na terceira parte será feito um balanço
sobre as capacidades materiais do Brasil para poder inferir quais são os
efeitos da estrutura internacional sobre uma potência emergente. A principal
hipótese, portanto, a ser analisada neste artigo é de que os objetivos da
política exterior do Brasil estão condicionados pelas suas capacidades
materiais na relação com as mudanças recentes na estrutura do Sistema
Internacional.
O Sistema Internacional em transição
A configuração atual do sistema internacional é objeto de grande debate no
campo da política internacional. A teorização principal sobre esse tema é feita
por Kenneth Waltz, em 1979, no livro Theory of International Politics, obra que
inaugura o chamado Realismo Estrutural, Sistêmico ou ainda o Neorrealismo.
(Cepik e Schneider 2010). Iniciaremos a análise pela exposição dos principais
pressupostos teóricos sobre o sistema internacional, com base em Waltz, seus
críticos e seguidores. Portanto, o primeiro deles versa sobre quais são os
principais atores internacionais, ou seja, aqueles que serão analisados pelo
campo de estudos da política internacional. Waltz (1979) afirma que são os
Estados os atores principais do sistema internacional; essa premissa basilar
está presente nos principais autores que se relacionam com o neorrealismo,
segundo balanço feito por Moure Peñin (2009).
A segunda premissa definida por Waltz (1979) é de que o Sistema Internacional é
Anárquico, ou seja, há ausência de governo central. Essa premissa está
relacionada com a caraterística funcional dos Estados, pois são estes dotados
de iguais funções e podem ser considerados atores independentes e soberanos.
Essa independência funcional, que confere ao Estado o papel de protagonista no
sistema internacional e determina a sua forma de organização, se relaciona com
a terceira premissa do realismo estrutural, isto é, de que os Estados são
atores racionais. Implica afirmar que sua atuação está relacionada diretamente
com os objetivos que definem em sua política exterior. Por fim, é possível
definir a última premissa básica do realismo estrutural, ou seja, de que os
Estados perseguem seus interesses definidos em termos de poder. Destaca-se,
contudo, que apenas a primeira e a terceira premissas são compartilhadas de
forma geral pelos trabalhos posteriores do realismo estrutural (Moure Peñin
2009), enquanto, por exemplo, o realismo neoclássico - em especial Schweller
(2003) -, interpreta que Waltz não categoriza os Estados como atores racionais
(Elman e Elman 2003).
Todavia, a segunda e a quarta premissas são objetos de grandes debates teóricos
dentro do neorrealismo. É a partir da última premissa que decorre a divisão em
torno dos neorrealistas ofensivos e defensivos. Os primeiros afirmam que os
Estados perseguem objetivos de poder; já os segundos defendem que os Estados
perseguem interesses em termos de segurança. A partir dessa divisão podemos
identificar quais são as recentes divisões do neorrealismo entre os autores.
Kenneth Waltz, com suas hipóteses principais, está inserido dentre os autores
clássicos do realismo estrutural defensivo, pois em sua obra afirma que os
Estados buscam garantir a sua sobrevivência no sistema internacional, o que
representa uma busca contínua por segurança. Enquanto isso, John J. Mearsheimer
(2001) pode ser considerado o principal teórico do realismo estrutural
ofensivo, quando afirma que os Estados perseguem a maximização de poder no
sistema internacional e, por meio da conquista da hegemonia mundial - fim
último dessa busca por poder -, garantirem a sua sobrevivência. Como
consequência dessas definições teóricas a cooperação altruísta entre os Estados
não é opção válida para o realismo estrutural, porque os interesses dos Estados
enquanto atores racionais que buscam poder ou segurança impedem que isso seja
possível no sistema internacional anárquico. Assim o relacionamento esperado
dos Estados no SI é a competição, seja ela por segurança ou por poder. Após
destacar as principais premissas do neorrealismo podemos definir algumas
características teóricas da Estrutura do Sistema Internacional. Segundo Waltz
(1979, 100-101):
Structures are defined, first, according to the principle by which a
system is ordered […]; second, by the specification of functions of
differentiated units […]; third, by the distribution of capabilities
across units.
Como já fora definido, o princípio que ordena as unidades, os Estados, é a
Anarquia. Ainda, segundo Waltz (1979), não há diferenciação entre as unidades,
ou seja, os Estados são semelhantes em termos funcionais. No entanto, há a
distribuição de capacidades materiais entre as unidades e esta é fundamental na
definição das mudanças do Sistema Internacional e, principalmente, para a
definição dos polos de poder. O que varia, consequentemente, no sistema
internacional é a distribuição de capacidades entre os Estados e a partir desta
é que se pode identificar qual a configuração estrutural do sistema
internacional. Os Estados, enfim, têm semelhanças funcionais segundo essa
definição teórica; porém, o que os diferencia são os meios materiais que serão
utilizados para realização de tarefas semelhantes.
Atualmente os estudos sobre a distribuição de capacidades fazem uso de um
conjunto maior de dados e problematizações. A inserção de novos critérios para
definição de capacidades é uma das principais vertentes desse debate,
principalmente, porque se preocupam com as razões da manutenção da
unipolaridade no pós-Guerra Fria. No entanto, os teóricos tradicionais do
neorrealismo, como Waltz e Mearsheimer, defendem o uso de critérios mais
simples e objetivos, isto é, medidas de poder econômico e militar. No estudo de
Amorim Neto (2011) sobre a política externa do Brasil, o autor opta por
considerar, também, critérios parcimoniosos, em acordo com Waltz, e para isto
recorre aos dados sobre capacidades nacionais do Composite Index of National
Capability (CINC) do The Correlates of War Project2.
A expansão do poder dos EUA no decorrer do século 20 até a virada dos anos 2000
conduz os analistas a pensar sobre a condição de primazia dos EUA,
principalmente pela concentração de capacidades materiais. Nesse contexto,
figuram os trabalhos de Wohlforth e Brooks (2005) e Wohlforth (1999, 2009)
sobre a estabilidade e a durabilidade da atual configuração Unipolar. No
entanto, essa diferença de poder material entre a potência unipolar e os outros
Estados não explica totalmente a condição de primazia dos EUA, por isso os
autores somam a essas definições aspectos sobre as intenções "benignas" da
potência unipolar, bem como afirmam que a manutenção dos fatores
estabilizadores do sistema internacional - como, por exemplo, a concentração do
poder nuclear e o avanço da globalização sob sua liderança - favorece a
manutenção da unipolaridade. Em acordo com essa perspectiva o comportamento a
ser esperado pelos Estados é o Bandwagoning, ou seja, seguir a potência
unipolar, pois os custos de fazer o balanço ou equilibrar a distribuição
desigual de capacidades são muito elevados. Wohlforth e Brooks (2005) afirmam
que a estrutura do sistema internacional não se modificou com o crescimento dos
atores emergentes e que ainda são Hard Times for Soft Balancing. Por outro
lado, Cepik e Schneider (2010) destacam que a extensão demasiada da
superpotência conduzirá a formação de equilíbrios no sistema internacional,
pois os custos da gestão e da distribuição desigual de capacidades afetam os
atores interessados no revisionismo.
A definição de que a configuração do sistema internacional é Unipolar e
duradoura não é pacífica, pois tanto Waltz quanto Mearsheimer não pactuam, em
termos teóricos, dela. A unipolaridade é transitória por coerência teórica com
a balança de poder, afinal para Waltz a formação de equilíbrios é, também,
característica fundamental e constante do sistema internacional. As abordagens
em favor da unipolaridade destacam, em sua maioria, a diferença de poder entre
os EUA e o resto; o tamanho dessa diferença em conjunto com os fatores
estabilizadores são suficientes para demonstrar a primazia deste em relação aos
outros países. Contudo, ao analisar critérios "compromissados" (Cepik e
Schneider 2010) com o realismo estrutural podemos notar que os EUA ainda não
detêm a primazia nuclear (Cepik, Ávila, Martins 2009) nem espacial. (Cepik
2011).
Assim, embora os EUA apresentem um acúmulo de capacidades que não pode ser
atingido, podemos inferir que pode ser contraposto com a união de outras
grandes potências (Schweller 1998) - no caso atual, China e Rússia. Dessa
forma, a tendência unipolar ou ainda de "congelamento do poder" internacional
se rompe a partir das emergências chinesa e indiana e da recuperação russa, em
diversos aspectos, mas principalmente militares e econômicos, e que conferem ao
sistema uma tendência transicional para uma configuração de Multipolaridade
Desequilibrada (Cepik e Schneider 2010).
Cabe, enfim, destacar que essa redistribuição das capacidades no Sistema
Internacional afeta não apenas as grandes potências e sua busca por poder, mas
também as potências regionais, emergentes ou médias. Os constrangimentos às
grandes potências são mais notórios devido aos interesses revisionistas; porém,
quais as implicações aos novos atores emergentes do SI?
Antes, porém, é necessário ressaltar que Waltz não elaborou uma teoria da
política externa ou que se propunha a analisar a formulação dela pelos Estados.
Assim, iremos recorrer aos estudos de outros autores, como Schweller (1998),
que permitem identificar a estrutura do SI como variável independente e que
afeta a todos os atores, porém incluem em suas análises aspectos relevantes
para o estudo de caso proposto aqui, como, por exemplo, alguns aspectos
internos aos Estados e sobre a percepção de capacidades materiais.
A segunda parte deste artigo irá analisar alguns aspectos sobre a política
externa do Brasil, em especial as mudanças dos anos recentes (pós-2002) para
poder relacionar com o relativo crescimento das capacidades do Brasil. O
objetivo será identificar a dinâmica relacional entre a estrutura e a
capacidade de atuação dos atores emergentes no jogo das grandes potências.
Política Externa do Brasil pós-2002: aproveitando oportunidades sistêmicas?
É em consonância com as modificações estruturais que será realizada a analise
da política externa brasileira, pois, sem a compreensão dos constrangimentos e
condicionantes do Sistema Internacional, a análise da política externa fica
parcial. A recente política externa brasileira configura-se por algumas
modificações relevantes. A primeira e principal delas se refere à região. É
destinada uma maior ênfase discursiva e prática à região Sul-Americana. Como
destacam Spektor (2010) e Couto (2007), a mudança com relação à região esteve
mais presente na última década, principalmente como forma de garantir ganhos
para a Política Externa do Brasil, ou seja, destaca que a região passa a ser
interpretada a partir de cálculos de poder e que pode vir a servir como
"trampolim" para o País. Soares de Lima e Hirst (2006, 29-30) também notam
mudanças na prática política do Brasil com relação à América Latina, que passa
a ser substituída pelo termo América do Sul: "Brazil's identify as a Latin
American country has therefore been increasingly replaced by the idea of the
country as a South American power." Além disso, conforme Visentini e Reis da
Silva (2010), a política externa do País torna-se "ativa e afirmativa" e com
quatro eixos principais de inserção internacional: "(a) South America; (b) the
commitment to multilateralism in the process of peace development; (c) the
affirmative commercial agenda; and (d) diversified partnership with developed
and developing countries."
Nota-se, então, a relevância que é dada pelo Brasil na última década ao
ambiente regional em que se insere. A substituição do conceito de América
Latina pelo de América do Sul, portanto, relaciona-se com os objetivos de
projeção de poder no Sistema Internacional do Brasil, mas também orienta as
novas iniciativas de cooperação regional, como ficou evidente após a criação da
União das Nações Sul-Americanas (Unasul) e do Conselho de Defesa Sul-Americano
(CDS). Ainda, conforme Rafael Villa e Manuela Viana (2010), a América do Sul
esteve sempre on the top na agenda de política externa do País; no entanto, o
bilateralismo era a forma prioritária de relação entre os Estados da região.
Isso se modifica com a criação da Unasul, pois representa, segundo Villa e
Viana (2010, 100), "i) rupture with the bilateralism that has prevailed up to
that moment in South American countries intra-regional relations; and ii)
rupture with the priority given to trade in previous integration processes
developed within the region."
Além do mais, a associação entre os eixos "verticais e horizontais" e o
rompimento com a "primazia" das relações entre o Brasil, os Estados Unidos e a
União Europeia permitiram a ampliação da inserção do País nas relações
internacionais contemporâneas. (Pecequilo 2008). A cooperação Sul-Sul é um
desses eixos (Soares de Lima 2005, Flemes 2010b), no qual se relaciona
primordialmente com os países do IBAS (ou seja, Índia e África do Sul), mas
também propõe uma agenda diferenciada para o conjunto dos países africanos.
(Saraiva 2010). Do mesmo modo, a ênfase no multilateralismo relaciona-se com
aquilo que chamam Visentini e Reis da Silva (2010) de "geometria variável", no
qual se inserem os vários Grupos que o país integra e por vezes tenta liderar.
Amorim Neto (2007, 3) destaca alguns "ganhos" da Política Externa do Brasil:
[…] a liderança do G-20; o ativismo na América Latina, cujo grande
exemplo é o envio de uma força de paz ao Haiti; o aumento do fluxo
comercial na América do Sul; o avanço da interconectividade da região
centrada na questão da energia e o reforço das relações com outras
grandes nações do eixo Sul-Sul (Índia e África do Sul).
No segundo mandato do Governo Lula ocorre, como destacam Villa e Viana (2010),
portanto, a "mundialização" da política externa do País com novos alcances e
novos desafios inerentes à ampliação da presença do País no mundo. Essas
mudanças acompanham a identificação da necessidade de "gerir" a região em que
se insere, para por fim configurar-se como um Polo de Poder Regional e eventual
líder regional. É notável, portanto, que nos últimos anos ocorreram inúmeros
ganhos ao País oriundo do sucesso econômico, da estabilidade política e de uma
política externa "assertiva". (Visentini e Reis Da Silva 2010; Amorim Neto
2011). Não obstante, é necessário verificar a capacidade real do País de buscar
seus objetivos e, principalmente, realizar a gestão de sua região. Isso afeta
decisivamente a consolidação do Brasil como polo de poder mundial por meio da
liderança na região Sul-Americana. (Malamud 2011). Ademais, os ganhos e
oportunidades não podem ser entendidos apenas por meio do voluntarismo
político, mas sim pela sua relação com as mudanças estruturais em curso que
abrem espaço ao protagonismo de atores de médio alcance, como o Brasil.
Desse modo, conforme Amorim Neto (2007, 4) a diplomacia do governo Lula também
teve fracassos importantes:
O Brasil não teve o apoio nem de seus principais parceiros latino-
americanos nem da China para ganhar um assento no Conselho de
Segurança da ONU. Os parceiros latino-americanos também não apoiaram
a candidatura do Brasil no seu pleito pela direção geral da OMC. Os
parceiros latino-americanos também não apoiaram a candidatura do
Brasil para a presidência do BID […].
Com ênfase em aspectos que podem ser considerados Soft Power (Nye 2004), os
ganhos relativos ofuscam as novas demandas ao País que surgem com o ganho de
poder no sistema internacional por meio da atual redistribuição de capacidades.
Derivam dessa "nova etapa" estrutural e da política externa as configurações do
Brasil como um Ator Intermediário (Soares de Lima e Hirst 2006), Estado
periférico (Alsina Jr 2009; Guimarães 2001), Potência Regional (Nolte 2006;
Flemes 2010a) ou ainda como Middle Power (Sennes 1998; Flemes 2009).
A inserção do Brasil no sistema internacional relaciona-se com a ampliação da
agenda e maior participação multilateral, mas também com a percepção do tipo de
"poder" que concentra no Sistema Internacional. Esse debate é desenvolvido por
Daniel Flemes (2010a), que afirma que o Brasil é uma Potência Regional e um
ator médio no mundo. Disso decorrem algumas considerações relevantes. A
primeira delas é a de que o Brasil reúne as características principais para ser
caracterizado como Potência Regional: "(1) é parte de uma região
geograficamente delimitada; (2) está pronta para assumir a liderança; (3)
ostenta as capacidades necessárias para projeção de poder regional; e (4) é
altamente influente em questões regionais." (Flemes 2010a, 406). E a segunda é
a de que o país não reúne as condições para ser uma Grande Potência,
principalmente poder militar com que possa competir com as outras grandes
potências. (Flemes 2010a).
A atuação da diplomacia brasileira, segundo Flemes (2010a), é de acordo com uma
potência regional, mas na busca por se tornar uma Grande Potência. No entanto,
integrar a gestão do Sistema Internacional no rol das grandes potências ainda
está longe de se tornar realidade. O País, porém, inicia este caminho
destacando que o poder que concentra está em seu tamanho físico (recursos
naturais e estratégicos), populacional (demográfico) e de sua economia, ou
seja, baseado numa mescla de recursos com capacidades materiais.
Ao analisar a atuação do Brasil como potência regional nota-se, conforme Andrés
Malamud (2011), que a liderança e a hegemonia regional do Brasil são duvidosas
e suscitam questionamentos importantes. Malamud (2011) considera que o Brasil é
deficiente em sua liderança, pois ela é exercida sem seguidores. Além disso,
destaca que os principais objetivos da política externa, quais sejam a
liderança regional e o ingresso no Conselho de Segurança da ONU, não são
alcançados. (Malamud 2011). Destaca ainda que o País é desprovido de meios
materiais para exercer liderança e tenta promovê-la, por isso, a partir de seu
Soft Power ou então na forma de uma Hegemonia Consensual (Malamud 2011; Burges
2008). O Brasil apresenta ainda uma limitada capacidade de financiar a
integração regional, ou seja, configurar-se como Paymaster do processo de
integração sul-americana. Igualmente, as grandes desigualdades sociais e
econômicas internas ao País dificultam a tomada de decisão política em prol do
financiamento dos países vizinhos. A escolha por resolver problemas internos é
prioridade no orçamento do País.
Como exemplos da falta de liderança do Brasil, conforme Malamud (2011), está o
mau funcionamento do Mercosul e o ambiente de rivalidade e ideologia da Unasul,
em que o Brasil não consegue fazer valer sua liderança na região. O
comportamento dos "seguidores" é, portanto, errático e livre sem a adequação
aos objetivos do líder. A forma de atuar do Brasil e seu novo "status" de poder
suscitam reações nos vizinhos sul-americanos de forma que passam a ver o País
de duas formas, segundo Malamud (2011): como um welcome paymaster e também como
uma potência neocolonial. Dessa forma, mesmo que o Brasil detenha condições de
exercer liderança e vir a tornar-se líder, ainda não o é e não a exerce.
A capacidade de um Estado em projetar força define o tamanho do poder relativo
que detém no sistema internacional, mas também os meios para efetivar sua
política externa.3 A ausência de poder desse tipo para fins de uma análise
sobre a capacidade de modificar e alterar o sistema internacional é relevante.
Se considerarmos o caso brasileiro a partir das análises feitas pelos
estudiosos da atual conjuntura externa do Brasil, há um relativo consenso sobre
as limitadas capacidades militares do País. Além disso, é necessário destacar
que o País ainda se encontra em estágio inicial de seu desenvolvimento
socioeconômico e que desafios ou crises ainda podem estar no horizonte da
economia nacional.
Como forma de visualizar que as mudanças na condução do Brasil se relacionam
com mudanças estruturais, insere-se o Gráfico_1, que contém dados agregados
sobre a capacidade nacional dos países4. Dele constam os dados da série
histórica de distribuição relacional de capacidades materiais do BRIC+EUA de
1945 até 2007. Permite identificar que o crescimento de poder dos emergentes,
em especial Índia e China, produz alterações estruturais que corroboram os
argumentos do realismo estrutural. Também nota-se que o crescimento econômico
do Brasil não é suficiente para afetar o índice de capacidade nacional. Assim,
as mudanças na política externa do País não podem ser explicadas apenas por
conjunturas internas ou regionais, mas sim por remeterem-se às mudanças na
estrutura do sistema internacional (Amorim Neto 2011) e que são bem
"aproveitadas" pelo Brasil. (Fonseca Jr 2011).

O Gráfico_1 ilustra que a distribuição de capacidades no sistema internacional
altera-se, principalmente com a queda da URSS e com a emergência da China e da
Índia. Essas alterações são recentes e cabe destacar que é a partir do final da
Guerra Fria que ocorrem as principais mudanças. Portanto, elas coincidem com a
estabilidade política e econômica do Brasil. (Power 2010). Podemos destacar que
a política externa do País é bem-sucedida na expansão global de sua atuação,
aproveitando as mudanças estruturais; porém, os ganhos relativos são maiores
que os objetivos, pois há uma superestimação do poder que concentra,
ocasionando alguns erros de cálculo, como na recente questão da tentativa de
mediação do Brasil entre Irã e EUA.
O que podemos concluir da análise da política externa recente do Brasil é que
pretende atuar como grande potência, principalmente no amparo do BRICS, mas que
suas capacidades reais estão mais adequadas ao nível de potência intermediária,
com grandes limitações de atuação e inserção internacional. Assim, o País não
dá conta de alcançar os principais objetivos de sua política externa. Dessa
forma, cabe questionar que implicações derivam para o Brasil em função de deter
um baixo nível de capacidades materiais ou recursos para implementar sua
política externa? Para além dos efeitos regionais de inviabilizar a liderança
regional ou a sua configuração como potência regional, há limitações
importantes à maior participação internacional, por exemplo, na configuração
como membro permanente do Conselho de Segurança da Organização das Nações
Unidas (CSONU).
Desafios estruturais a uma potência emergente
Após identificarmos o papel fundamental da estrutura do sistema internacional
sobre todas as unidades, pode-se inferir que a estrutura do sistema
internacional importa e condiciona os atores emergentes. (Waltz 1979; Amorim
Neto 2011). É relevante destacar que as mudanças estruturais, para além das
mudanças políticas na condução da agenda da política externa, abrem espaço para
um maior protagonismo brasileiro na região e no mundo. No entanto, os
principais desafios que podemos destacar estão relacionados com as limitadas
capacidades do País, pois ao mesmo tempo em que foi "ajudado" pela
redistribuição de capacidades no sistema internacional, não obteve maiores
ganhos, e isso em função de não deter capacidades que permitam operacionalizar
os objetivos aos quais se propõe principalmente à liderança regional ou na
participação mais ativa em assuntos internacionais de poder. (Malamud 2011).
Entretanto, devemos destacar que houve o interesse dos definidores da política
externa do Brasil em participar da política mundial de forma diferente. (Flemes
2010a).
Responder aos constrangimentos e condicionantes estruturais faz parte do
comportamento "previsto" dos Estados, em termos teóricos pelo neorrealismo e
pelo realismo neoclássico, inclusive daqueles que emergem no sistema
internacional e que passam a atuar no âmbito da high politics. Os desafios
estruturais relacionam-se com as respostas que o País dará ao sistema
internacional. Nota-se que as respostas em termos de Soft Power e no âmbito do
Multilateralismo pelo País alcançam o nível global; contudo, quando a ênfase
analítica é posta no lado do Hard Power (Nye 2004), a resposta do País está
diretamente relacionada com a sua limitada capacidade material. Alfredo
Valladão (2005) ilustra bem esse aspecto ao afirmar que enquanto o ambiente de
competição internacional é Grociano, o Brasil entra no "jogo"; mas se muda para
um ambiente Hobbesiano, ele sai de cena. A tese central de Valladão (2005) dá
conta de uma necessária "multilateralização" do poder dos EUA entre os
parceiros ocidentais da América Latina e da Europa Ocidental, pois a autonomia
que buscam os Estados dessas regiões poderá vir pelo aumento de sua
responsabilidade no mundo. Ser capaz de usar a força pode ser um dos critérios
na definição de coalizões de poder na transição. Isso está relacionado
diretamente com as capacidades limitadas do País, que impedem sua inserção em
ambientes de negociações geopolíticas globais. Conforme Fonseca Jr (2008, 125):
Para o Brasil, foi uma coincidência favorável o fato de que no
momento mesmo em que no jogo de poder mundial reduzia-se a
importância singular dos fatores militares (especialmente no jogo
entre as potências), fomos capazes de estabilizar a nossa economia e
de alcançar um grau de abertura sem precedentes nos últimos anos. […]
De outro lado, nossa capacidade de influência internacional ainda
está limitada por problemas internos, a restringir estruturalmente as
possibilidades de ação do Estado, que dispõe de instrumentos
(econômicos, militares etc.) escassos e nem sempre plenamente
mobilizáveis.
Esse afastamento das políticas de poder pode não ser mais uma opção válida
devido ao papel condicionante e constrangedor do sistema internacional sob a
política externa do País. Para este autor o cenário vindouro de uma
multipolaridade é benéfico ao Brasil e pode ser um cenário otimista com ganhos
quando atuar na cena multilateral. Cabe notar que esse cenário é distinto do
previsto pelo realismo estrutural que aqui expomos, ou seja, de uma
Multipolaridade Desequilibrada, que se caracteriza por grande instabilidade
internacional. (Mearsheimer 2001). Dessa forma, interpretamos como tentativa de
responder aos constrangimentos estruturais o País passar a desenvolver um
conjunto de ações para minimizar essas limitações econômicas e, principalmente,
militares.
Como exemplos dessa nova preocupação do País, citam-se a Política de Defesa
Nacional (PDN)5 e a Estratégia Nacional de Defesa (END)6, que têm como
objetivos dotar o País de capacidades de projeção de força militar regional e
de dissuasão, mas também se vinculam a um projeto de desenvolvimento nacional e
integração regional. Uma análise crítica dessas iniciativas é relevante, a fim
de evitar percepções equivocadas dos projetos de incremento militar do Brasil.
Ademais, um balanço crítico dos principais indicadores econômicos do País na
última década complementará a análise das suas capacidades materiais.
Incremento militar?
Para iniciar o conjunto de críticas às iniciativas de incremento militar,
recorreremos ao estudo de Paulo Roberto de Almeida (2010) sobre a END, pois ele
afirma que há nesta uma definição de como não fazer a guerra. Para esse autor
os objetivos de "desenvolvimento" suplantam as definições sobre Defesa. Não há,
segundo Almeida (2010), uma definição clara dos objetivos de defesa, nem quem
são os possíveis inimigos ou rivais do País.7
Um balanço crítico sobre orçamento, efetivos e equipamentos das Forças Armadas
do Brasil é realizado por Eugênio Diniz (2010). Nesse estudo ele demonstra que
a porcentagem orçamental do setor de defesa já é demasiado grande em relação à
composição de gastos do poder Executivo do Brasil8; dessa forma, um incremento
orçamental é difícil. Por conseguinte, a viabilização de grandes projetos que
envolvam vultosos gastos e compras é de complicada efetivação. Os
desequilíbrios entre os efetivos e os equipamentos destacam a necessidade de
reequilibrar a razão entre eles, pois há, no caso do Brasil, demasiado número
de efetivos para poucos equipamentos militares. Sem destacar para efeitos de
contabilidade quais deles estão em funcionamento e quais estão comprometidos
para o uso em combate. (Saint-Pierre 2010). A ausência de um projeto de força
que oriente a elaboração política em defesa no País conduz aos equívocos
destacados e à limitação da capacidade militar do País. Diniz (2010), ao
comparar as Forças Armadas de Brasil, Índia, Israel e África do Sul, destaca
que em diversos aspectos as forças brasileiras são as mais mal equipadas e que
apresentam a pior relação entre efetivo e equipamentos militares.
Nesse sentido, podemos adicionar os acordos para o incremento tecnológico e
para a produção de equipamentos militares que foram firmados recentemente. Os
projetos mais destacados são os referentes ao submarino de propulsão nuclear,
com a França, e os acordos bilaterais para produção de satélites e veículos de
lançamento, com a China, e a compra de novos aviões de combate com a
transferência de tecnologia para o Brasil. (Cepik 2011; Flemes e Nolte 2010).
A preocupação do Brasil com segurança e o incremento de poder associam-se,
nesse caso, ao fomento da cooperação regional e à criação de regimes de normas
que possam dotar a região de previsibilidade e institucionalidade em matéria de
defesa e segurança. A defesa passa então a ser objetivo da política externa do
Brasil. Essa é outra crítica feita por Almeida (2010). João Paulo Alsina Jr.
(2009), por outro lado, aborda a necessidade de o Brasil associar capacidades
materiais de força à política externa.
A Estratégia Nacional de Defesa revela uma associação entre a política regional
e a política de defesa do País. A defesa passa a ingressar na prioridade
regional; como exemplos dessa preocupação, pode-se citar a criação da Unasul e
do CDS. A primeira organização visa a promover a cooperação política entre os
países da região, enquanto a segunda relaciona-se diretamente com cooperação e
coordenação da defesa regional. O incentivo a uma indústria de defesa regional
figura dentre os objetivos da END para promoção de vínculos de defesa e de
desenvolvimento na região. Enfim, as respostas aos constrangimentos estruturais
vão ao encontro de incrementar poder e buscar a segurança do Estado. Assim, ao
mesmo tempo em que existem oportunidades oriundas da redistribuição de
capacidades, surgem desafios importantes que ainda estão longe de serem
solucionados.
Desenvolvimento econômico?
Dentre as oportunidades e desafios das mudanças estruturais, o País vê nessa
transição para a multipolaridade o momentum de incrementar seu desenvolvimento
nacional9. Os objetivos buscados pelo Estado brasileiro vão de acordo com os
que os teóricos neorrealistas propõem, ou seja, na busca de interesses de
poder. Contudo, os desafios sistêmicos ao desenvolvimento econômico do País
relacionam-se diretamente com a emergência dos novos atores, principalmente da
China. (Cunha 2011). Destaca-se a relação que emerge na última década, pois
nota-se um crescente volume de negócios entre esses países, de forma que a
China supera a importância dos EUA nas exportações brasileiras.
É nesse contexto de crescimento das relações comerciais com a China que ocorre
o debate sobre a reprimarização e desindustrialização do Brasil. Alguns
trabalhos apontam para dados iniciais desse processo, mas não permitem afirmar
que já esteja em curso a desindustrialização da economia brasileira. Segundo
Oreiro e Feijó (2010), os dados referentes ao processo de desindustrialização
do período recente do Brasil não dão conta de uma desindustrialização, porém
apontam para um cenário "inquietante de doença holandesa" no País em longo
prazo.
O Gráfico_2 demonstra as recentes mudanças no comércio exterior do País, chama
a atenção ao declínio dos produtos manufaturados e ao crescimento dos básicos.
Cabe destacar que a força da economia interna é que está a conduzir o
desenvolvimento; portanto, essa realidade do comércio exterior reflete uma
parte do conjunto da economia do Brasil. No entanto, retrata com fidelidade o
modelo de inserção internacional e os desafios em termos de relações econômicas
internacionais.
[/img/revistas/rbpi/v55n2/a05gra02.jpg]
O crescimento das exportações de produtos básicos relaciona-se diretamente com
fatores econômicos externos, como o aumento da demanda internacional e o preço
em alta das commodities, produzindo uma tendência à reprimarização da economia
do País. Isso, por seu lado, relaciona-se, portanto, com um aumento na demanda
internacional por produtos desse tipo - principalmente a demanda chinesa -, mas
também com o aumento do preço das commodities. A emergência da China provoca a
redistribuição nas capacidades materiais ao redor do mundo, principalmente pela
ascensão da Ásia como zona econômica com maior crescimento mundial. Essa
redistribuição abre um conjunto de possibilidades aos Estados, em especial aos
outros emergentes. No entanto, a emergência chinesa implica dificuldades
derivadas da sua forma de inserção mundial. A demanda crescente por commodities
e a inserção de bens manufaturados com preços mais baixos afetam diretamente o
comércio internacional de alguns países, como o Brasil. Assim, a diversificação
em novos "eixos" de inserção internacional do Brasil liga-se a essas novas
dinâmicas econômicas internacionais.
Assim como a atuação em cenários geopolíticos - quer sejam regionais, quer
sejam globais - implicam dificuldades ao País devido à sua limitada capacidade
de projeção de força, a inserção econômica do País também é limitada, pois ele
representa apenas 1% do volume mundial de mercadorias. A iniciativa BRICS
representou uma grande oportunidade ao Brasil, porque é a partir dela que o
País integra o jogo dos grandes, sem necessariamente sê-lo. Isso não impediu de
adquirir ganhos relativos e cumprir com alguns objetivos de política externa.
No entanto, consolidar os objetivos e projetos, como o status de líder regional
e membro permanente do CSONU, ainda necessitam de modificações grandiosas no
tamanho do poder que o País concentra e que será necessário operacionalizar
para garantir seu espaço no "jogo das grandes potências".
Considerações finais: Brasil - Chacal ou Cordeiro?
Dessa forma, resta identificar quais as possibilidades de ações do Brasil nesse
cenário exposto em função de suas capacidades materiais. Tomamos por base as
proposições de Schweller (1994, 1998) para identificar as possibilidades de
comportamentos dos atores no sistema internacional. Para Schweller os Estados
se dividem entre aqueles que mantêm o Status Quo e entre os Revisionistas da
estrutura do sistema internacional.10 Dentre os status quo seekers encontram-se
os Leões e os Cordeiros; dentre os Revisionistas, os Lobos e os Chacais. Os
Leões são os líderes do sistema internacional, que atuam constantemente em prol
da manutenção da estrutura, impedindo que os Lobos e os Chacais modifiquem-na.
Os Leões, por coerência teórica, têm comportamentos de autopreservação e de
manutenção da sua posição relativa no sistema internacional. Por seu lado, os
cordeiros serão as presas nesse jogo de poder. São, portanto, os atores com
fracas capacidades, com recursos escassos e não estão dispostos a colocar em
risco o status quo. (Schweller 1994). A imagem mais relevante para este artigo
é a dos Chacais, pois são os atores insatisfeitos com o status quo e tendem a
aproveitar as oportunidades sistêmicas.
A categoria de Lobo refere-se àqueles Estados revisionistas que não aceitam a
configuração do sistema internacional e que chegam a adotar posturas
agressivas. A essas categorias comportamentais devemos somar as opções dos
Estados, ou seja, o Balancing e o Bandwagoning. O equilíbrio dos interesses
postulado por Schweller (1994) define que o comportamento de Balancing é
esperado pelos Estados líderes, enquanto o Bandwagoning prevalece entre aqueles
com menor poder no sistema internacional. Portanto, o comportamento de
Balancing seria o esperado dos Leões e dos Lobos, enquanto o Bandwagoning
dentre os Chacais e os Cordeiros. Em que categoria poderíamos inserir o Brasil,
para fins analíticos? De acordo com o acima exposto, há uma nítida tentativa do
País em promover mudanças no sistema internacional. Conforme Samuel Pinheiro
Guimarães (2001), a multipolaridade deve ser o objetivo a ser buscado. Assim,
os esforços em integrar o IBAS e o BRICS corroboram essa nova face da atuação
política internacional. É fácil notar que não é líder nesta mudança; porém,
busca proveito dela, assim o Brasil se encaixa na categoria de Chacal na atual
configuração, ou seja, oscilando entre o Leão do Status Quo (EUA) e o Lobo
Revisionista (China) à espera de ganhos relativos.
Não há incoerência entre práticas de Balancing e Bandwagoning, segundo
Schweller (1994), pois a motivação de ganhos de poder ou de se evitar perdas no
sistema internacional são as motivações básicas desses comportamentos. Assim,
são previsíveis em termos teóricos os comportamentos do Brasil no sistema
internacional, ora na promoção do Balancing em conjunto com os atores do Sul-
Sul, China e Índia, ora no Bandwagoning ao líder - EUA. Schweller (2011) afirma
que o Brasil emerge como principal ator revisionista entre os emergentes;
contudo, as mudanças do atual governo Dilma em favor dos eixos tradicionais
(EUA e Europa) contrapõem essa afirmação. Michel Glosny (2010, 128) ainda
destaca os receios chineses com relação à atuação global do grupo do BRICS.
Participar do grupo ocorre em resposta aos constrangimentos estruturais da
unipolaridade, porém uma preocupação central é demonstrar à potência unipolar
que não se trata de uma coalizão para promover o Hard Balancing.
Portanto, a estrutura do sistema internacional pode ser considerada como
principal variável causal do comportamento das potências emergentes, como ficou
observado a partir do caso brasileiro. No entanto, há limitações evidentes
desse tipo de análise, pois dá peso demasiado à estrutura do sistema
internacional em contraposição ao ambiente interno e as condicionantes que dela
derivam. Entretanto, como verificamos, o País responde às condicionantes do
sistema internacional por meio de uma busca por maior inserção mundial, pela
tentativa de incremento de suas capacidades materiais, pelo projeto de gerir a
região e pelas novas coalizões que efetua no sistema internacional. Dessa
forma, esta análise pode promover um complemento às análises de política
externa do Brasil, que se focam em sua maioria nas suas condicionantes
internas.