O declínio: inserção internacional do Brasil (2011-2014)
Introdução
As relações internacionais do Brasil atravessam, durante os quatro anos do
primeiro governo de Dilma Rousseff, entre 2011 e 2014, um período caracterizado
pelo declínio relativamente ao período correspondente aos dois mandatos de Luiz
Inácio Lula da Silva, entre 2003 e 2010, quando se lidava com o conceito
"ascensão".
Neste trabalho serão examinados causas e indicadores como base empírica para
elaboração do conceito de declínio. Sobressai, nesse sentido, a dificuldade do
Estado em manter o diálogo intenso e confiante com os segmentos dinâmicos da
sociedade de que resultara a ascensão brasileira como potência emergente.
Outros problemas de pesquisa foram identificados sem dificuldade. Que foi feito
do multilateralismo humanitário do país? Em que medida, coalizões, blocos e
parcerias bilaterais alimentam a vocação globalista do país? Um passo para a
maturidade sistêmica da economia nacional havia-se dado mediante a expansão de
empresas brasileiras no exterior: como evolui a tendência da
internacionalização econômica? Enfim, a preocupação com a segurança
internacional, bem como no entorno geográfico e no Atlântico sul.
O declínio do Brasil nas relações internacionais é, pois, eleito nesse texto
como hipótese analítica aplicável ao período do primeiro mandato de Dilma
Rousseff, entre 2011 e 2014. O fenômeno é perceptível desde a transição do
governo de Lula da Silva para a sua sucessora e afeta a inserção internacional
da potência emergente. A tendência mantém-se depois por efeito de duas
causalidades que correspondem a variáveis explicativas. Em primeiro lugar, a
inexistência de ideias força, ou seja, de conceitos operacionais com capacidade
de movimentar sociedade e Estado em torno de estratégias de ação externa; em
segundo lugar, obstáculos acumulados pelo Estado com perda de eficiência da
função gestora de caráter indutor.
De potência emergente ao declínio sistêmico
Até 2010, o Brasil nutria autopercepção e exibia no exterior imagem de país
emergente e dinâmico, segundo estudos que conferências internacionais e
publicações divulgavam (Rolland_e_Lessa_2010; Cervo_e_Bueno_2011; Cornelet
2014). Percepção interna e imagem externa assentavam-se sobre sólidos
fundamentos, operacionalizados por ideias força. Tais pilares correspondiam à
estabilidade econômica e política, à inclusão de dezenas de milhões de pobres à
sociedade de bem estar mínimo e, enfim, à uma política exterior assertiva que
reposicionava a nação no mundo, além de dinâmica internacionalização de
empresas brasileiras. O presidente Lula da Silva costumava expressar ideias
força em linguagem simples, porém de impacto sobre a sociedade brasileira, o
processo decisório e a opinião internacional: a) conflito tem dono, solução não
tem, base de iniciativas de mediação de conflitos, até mesmo a questão nuclear
iraniana e a longa crise do Oriente Médio e base de ação em benefício da paz
entre as nações; b) toda pessoa tem direito a três refeições por dia, base
moral de ação em favor da inclusão social de cidadãos e da inclusão
internacional de nações, de que resultou a multiplicação de projetos de
cooperação nas áreas da agricultura, alimentação, saúde e educação patrocinados
pelo mundo tanto por governos quanto por organizações não governamentais; c)
reciprocidade de benefícios entre as nações, lema de todo ordenamento
multilateral, orientado especialmente ao tratado global de livre comércio
negociado no seio da Organização Mundial do Comércio-OMC; d) é bom para o
Brasil, ideia que servia ao diálogo intenso e constante com o empresariado
brasileiro, motivando-o a fazer investimentos diretos no exterior, de que
resultou a internacionalização econômica.
Sem novos conceitos e sem diálogo com a sociedade, o primeiro termo de Rousseff
no poder tolheu eficiência aos fundamentos internos e falhou em outros dois
pontos ao abrir o caminho do declínio internacional: não formulou uma política
de comércio exterior, apesar do malogro da fase anterior nesse aspecto, e não
programou junto com o empresariado uma estratégia de inovação exigida pela
competitividade sistêmica de economias internacionalizadas. Apenas dará
continuidade lerda e obstruída às estratégias externas da fase anterior.
A segunda causalidade do declínio internacional do Brasil advém dos entraves
que se acumularam no Estado e tolheram eficiência ao paradigma logístico de
conduta. Por paradigma logístico entendemos a colaboração entre Estado e
agentes não governamentais dinâmicos da sociedade, aos quais o dirigente
repassa poder e responsabilidade nas áreas interna e externa (Cervo_2008).
Embora alguns desses entraves fossem preexistentes, como a insuficiente
infraestrutura e a elevada carga tributária, o governo de Rousseff não somente
falhou ao enfrentá-los como ainda agregou novos entraves: inchou a máquina do
Estado, em três níveis - federal, estadual e municipal - multiplicando licenças
requeridas para implantação de projetos de infraestrutura, produtivos, de
desenvolvimento, e confiando, ademais, a burocratas subalternos o poder de
interrompê-los em qualquer etapa de execução; sustou o diálogo constante e
intenso com o empresariado industrial e do agronegócio, bem como com
dirigentes, a exemplo do próprio Ministro de Relações Exteriores; não supriu,
enfim, a baixa propensão do empresariado em inovar com política de Estado de
inovação tecnológica que envolvesse Universidades, centros de pesquisa e
empresas em dinâmica harmonizada.
Os resultados da queda de eficiência do paradigma logístico de aliança Estado-
sociedade são concretos e incidem sobre os fundamentos internos da emergência
no cenário internacional: queda do percentual da indústria no PIB,
reprimarização econômica, queda das exportações, especialmente de
manufaturados, queda do crescimento econômico e, mais grave, quebra da
confiança no país do empresariado nacional e estrangeiro.
Ao se defender, Rousseff afirmou durante o Fórum Econômico Mundial de Davos
(22-25 de janeiro de 2014), que seu governo não se posiciona contra a
iniciativa privada. Embora medidas amigáveis de recuperação dessa confiança na
linha da conduta logística - a parceria público-privada - como redução de
preços e isenções tributárias setoriais, além de créditos direcionados, a
tendência declinante se constata nos leilões de licitação de projetos de
infraestrutura, como modernização de portos e aeroportos e construção ou
manutenção de rodovias e ferrovias. São poucas as licitações bem sucedidas,
sendo iniciativas relevantes para o desenvolvimento obstruídas pela
insuficiente capacidade gestora do Estado, como foi o caso da licitação do
vasto campo de petróleo de Libra, na zona do Pré-Sal, em novembro de 2013: os
burocratas consumiram sete anos na elaboração das regras do edital e lograram
atrair depois apenas cinco grupos empresariais para o consórcio, quando
quarenta eram esperados1.
Em suma, as duas causalidades do declínio do Brasil sobre o cenário inter
nacional localizam-se no âmbito interno: baixa inovação e baixa competitividade
dos sistemas produtivo e de serviços, exceto o agronegócio; sistema político de
coalizão partidária, que desloca facilmente a governabilidade da eficiência ao
proveito pessoal ou do partido. Compromete-se, destarte, a qualidade do
processo decisório, o qual tende a separar o Estado da sociedade e a refugiar-
se no personalismo. Apenas de leve as causalidades internas são agravadas pela
circunstância de crise financeira e econômica internacional vigente no período.
Aliás, o declínio, por ironia, alcança a alta política internacional na
desconfiança de líderes mundiais, aos quais a Presidente brasileira no início
de seu mandato pontificava soluções de como superar os impactos da crise,
quando, na realidade, logo depois, trouxe-os para dentro, ao ponto de provocar
manifestações de massa de descontentamento diante de seu governo em junho-julho
de 2013.
Como consolo aos dirigentes brasileiros nesse período, observa-se, apesar de
tudo, que a consolidação de estratégias internas e externas durante o governo
Lula da Silva e sua continuidade, mesmo que frouxa e lerda, pela sucessora,
mantém o país como única potência emergente da América Latina no século 21,
apesar de declinante.
Atuação em órgãos humanitários multilaterais
A grande presença brasileira em órgãos multilaterais tradicionais, globais ou
regionais, mantém-se, sobretudo por meio da máquina diplomática, o Itamaraty.
Essa frente de ação associa-se à atuação em órgãos recentes criados por efeito
da formação de blocos, de coalizões de poder e de cúpulas de Chefes de Estado e
de governo, nos quais a delegação brasileira costuma agregar representantes de
segmentos ativos da sociedade. Observa-se que o multilateralismo brasileiro
penetra desse modo, por vontade nacional, o primeiro mundo e o mundo emergente,
guiado pelo objetivo de fortalecer o poder e expandi-lo, em sintonia com a
vocação globalista do país. Nesse parágrafo, analisamos a atuação brasileira em
órgãos humanitários e deixamos para mais adiante multilateralismo econômico e
coalisões de poder ao sul.
O tema da reforma do Conselho de Segurança, tão caro a Celso Amorim, Ministro
das Relações Exteriores de Lula da Silva, não é esquecido, porém ofuscado na
política exterior de Rousseff. Em seu discurso na Assembleia Geral das Nações
Unidas de 2010, Amorim reiterou pela última vez como chanceler sua ideia de
reforma do Conselho, cuja composição considerava inadequada à nova distribuição
do poder. De fato, à esta altura, o Brasil alinhava-se com o Brics, cujos dois
representantes no Conselho, Rússia e China, eram suficientes para vetar
decisões contrárias ao pensamento em segurança internacional com que os
emergentes confrontavam a Organização do Tratado do Atlântico Norte-Otan.
Aliás, os dois não desejam que o poder de veto se dilua em aumento de membros
permanentes e, nessas circunstâncias, o recuo brasileiro torna-se mais
compreensível.
A política exterior brasileira mantém princípios tradicionais em matéria de
segurança internacional, especialmente a autodeterminação dos povos e a não
intervenção, que fustigam os dois mecanismos de violência, intervenção e
sanção, aplicados como regras de conduta pela Otan, desde a Segunda Guerra
Mundial. Mas o confronto volta-se diretamente para os Estados Unidos, líder da
Aliança Atlântica. Basta examinar a oposição da diplomacia brasileira às ideias
ou iniciativas dos Estados Unidos diante da questão nuclear iraniana, da Líbia
e da Síria, bem como do conflito israelo-palestino, além da repugnância pela
presença norte-americana na Organização dos Estados Americanos-OEA, quando esta
presença tende a imiscuir-se na solução de conflitos na América do Sul. Tudo
isso lembra a posição brasileira diante das anteriores intervenções no Iraque e
no Afeganistão, bem como o sutil apoio ao governo do Paquistão, o qual, desde
2005, não aprecia a presença da Otan que deseja manipulá-lo.
A coerência da política externa brasileira em matéria de segurança
internacional aplica-se às operações de paz sob o patrocínio da ONU e, por esta
via, vinculam-se aos direitos humanos. Expressando tal raciocínio acerca das
operações de paz, o Ministro brasileiro de relações exteriores, Antônio de
Aguiar Patriota, advogava, em 2012, a favor dessas normas de conduta: soluções
multilaterais para conflitos, uso da força apenas em defesa das tropas e do
mandato específico da ONU, não ingerência em assuntos internos do Estado
anfitrião e substituição de funções do Estado débil como proteção de civis e
ação humanitária coletiva, quando necessário. Em razão de tais princípios e de
sua experiência histórica, a ONU escolheu o Brasil para dirigir as forças
destinadas à Missão de Paz no Haiti, a Minustah. Lembrava Patriota o
contingente de cerca de 1900 homens e mulheres brasileiros no Haiti, além de
presença em outras treze missões de paz da ONU.
Entre 2006 e 2011, o debate amadurece no Conselho de Segurança e na Assembleia
Geral, de tal sorte que o consenso multilateral em torno da responsabilidade de
proteger irá vincular segurança e direitos humanos. Desconfiada de outras
pretensões de grandes potências em operações de paz, a diplomacia brasileira
toma a iniciativa de agregar ao conceito de responsabilidade de proteger o de
responsabilidade ao proteger, disciplinando a aplicabilidade do primeiro ao
associar segurança, direitos humanos e desenvolvimento. De todo modo, os casos
de violações dos direitos humanos são difíceis de diagnosticar, mesmo que belos
conceitos os iluminem. Por isso mesmo, a diplomacia brasileira irá flexibilizar
suas posições e aprovar no Conselho de Direitos Humanos da ONU, em 20012-2013,
investigações e mesmo condenações específicas em alguns países, como Coréia do
Norte, Irã, Mianmar, Síria e Sri Lanka (Kenkel_e_Moraes_2012; Nasser_e_Moraes
2014; Battaglino_2012).
Em anos recentes, outro aspecto das relações internacionais ocupa governo e
sociedade no Brasil: as migrações internacionais. O pensamento brasileiro
vincula assuntos migratórios a direitos humanos e, por esta via, mune-se de
argumentos para criticar atitudes de países propensos a violar direitos humanos
de imigrantes.
Em razão das condições de emprego, favoráveis no Brasil e deterioradas nos
países avançados por efeito da crise econômica e social, o Ministério das
Relações Exteriores registra uma queda sensível do número de brasileiros
emigrados relativamente aos anos anteriores: de 3,1 milhões, estimativa em
2010, para 2,5 milhões em 2013. Regressavam do Japão (onde somavam 313 mil em
2007 e 193 mil em 2012), de Espanha e Portugal, França, Estados Unidos e
Paraguai. Além da reversão do fluxo, em razão de imagem positiva que os
brasileiros da missão da ONU no Haiti difundem, o Brasil torna-se alvo de nova
corrente migratória, provinda desde o Haiti e de outras sociedades pobres da
África e do Oriente Médio. O debate nacional sobre imigração externa se
instala, como ocorreu na Europa e nos Estados Unidos.
O crescente fluxo migratório internacional revela a existência de uma parcela
especial, os refugiados. O Comitê Nacional para Refugiados (Conare) chega em
2013 à soma de 4.500 beneficiados pelo governo brasileiro com o asilo político:
64% da África, 22% da América e 10% da Ásia. Sendo a outorga do asilo uma
operação delicada, estabeleceu-se estreita colaboração entre Conare e Acnur
(Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados) com o fim de enquadrar a
política brasileira nas normas internacionais de proteção de direitos dos
refugiados. Com efeito, a situação em certos países, especialmente aqueles
afetados por guerras de religião, agrava-se como nunca ocorrera após a Segunda
Guerra Mundial. Segundo relatório do Acnur de 2013, nesse ano os deslocados
dentro ou fora de seus países ultrapassavam a cifra de cinquenta milhões e o
Brasil, no mesmo ano, recebia mais de cinco mil pedidos de asilo.
O direito internacional do meio ambiente, uma variável do Direito
Internacional, vem sendo erigido em conferências da ONU com objeto e normas
próprias, porém em ritmo de sofreguidão, desde a conferência de Estocolmo de
1972. Em 2010, a 16ª Conferência sobre mudanças climáticas realizada em Cancun
foi precedida de diálogo promovido pela Federação das Indústrias do Estado de
São Paulo-Fiesp com o governo e segmentos da sociedade, visto estarem os
empresários preocupados com eventuais prejuízos. O acordo firmado pelas
delegações presentes em Cancun, em 12 de dezembro daquele ano, correspondeu a
um pacote de intenções destinado a salvar o malogro da conferência anterior de
Copenhagen. O presidente do Brasil não compareceu, visto não acreditar em
compromisso internacional sério. Apesar disso, para efeito pedagógico, a
delegação brasileira anunciou na ocasião a política ambiental do país, decidida
por decreto que reduziria a emissão de gases de efeito estufa entre 36% e 39%
até 2020.
Em Durban, na África do Sul, em 2011, a 17ª Conferência prorrogou o Protocolo
de Kyoto e discutiu a obrigatoriedade de metas de redução, postergando a 2020
decisões de todos os países nesse sentido. Como o Brasil já decidira, apenas
comprometeu-se a cumprir suas metas. Estados Unidos e China, os maiores
poluidores, aceitaram, enfim, o princípio da obrigatoriedade.
O esforço em normatizar a política internacional nesse setor chega à Rio+20, a
Conferência sobre Desenvolvimento Sustentável de junho de 2012. Nela
compareceram delegações de 193 países, que não incluíam os líderes de grandes
nações poluidoras. Apesar de prevalecente nos debates, a preocupação com a
emissão de gases que afetam o clima, mais uma vez o documento final revelou-se
polêmico. Para Rousseff, a inclusão nele do combate à pobreza representou um
avanço. Contudo, as Organizações Não Governamentais-ONGs o consideraram fraco,
senão decepcionante, visto renovar promessas anteriores, consolidando-as em
mais uma carta de boas intenções, sem clareza e sem compromisso com a
obrigatoriedade.
A vocação globalista: blocos, coalizões e parcerias bilaterais
A inserção internacional do Brasil mantém o universalismo como parâmetro da
ação externa desde os anos 1950. A insistência sobre relações Sul-Sul no século
21 traduz, precisamente, o universalismo: cabe aos emergentes traçar a ordem
internacional junto com o velho mundo desenvolvido. Atitudes diante de blocos,
coalizões, parcerias e prioridades regionais evidenciam, com objetividade, o
universalismo, e não correspondem a nenhuma opção exclusivista, mesmo que o
exclusivismo seja a preferência desse ou daquele segmento da sociedade. A
identidade nacional composta, bem como o interesse nacional explicam o zelo do
Estado em harmonizar com lógica o modelo de inserção, longe de teorias
maléficas como choque de civilizações, estabilidade hegemônica e mesmo o
ocidentalismo, tido por preconceito. O único requisito inerente ao
universalismo consiste na autonomia decisória da ação externa.
Conforma-se com o universalismo da vocação globalista a percepção acerca da
integração: a área próxima se amplia na visão brasileira, do Mercado Comum do
Sul-Mercosul à União das Nações Sul-Americanas (Unasul) e à Comunidade dos
Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac) para alcançar o mundo. O
pressuposto segue sendo o papel sistêmico a desempenhar pelo país nas relações
internacionais e, para tanto, a construção regional de um polo de poder. Por
tais razões, Rousseff dá continuidade ao governo de Lula da Silva, mantendo
como imutável a inserção de impulso universalista.
Benefícios auferidos pelo Brasil da integração regional são palpáveis, como
também resultados adversos à conquista da maturidade sistêmica. A
complementariedade econômica regional é baixa, os agentes econômicos acompanham
a diretriz política, porém hesitam entre o regional e o extrazona, o comércio
exterior entre os países latino-americanos cresce, porém é composto de bens de
consumo em maior proporção do que de bens de produção, os países mantêm,
ademais, maior volume de comércio extrazona. A integração vem abrindo, por
certo, boas oportunidades de negócios para o Brasil, como exportações de
manufaturados, investimentos e interpenetração empresarial, porém o
desenvolvimento ainda revela baixa vinculação com o mercado regional. Os
agentes econômicos brasileiros padecem com a fraqueza das instituições
regionais e a falta de consenso estratégico, condicionamentos que conduzem à
dispersão generalizada dos modelos de desenvolvimento interno, das concepções
da integração, das visões de mundo e dos modelos de inserção internacional.
Ademais, uma divisão do pensamento latino-americano confronta liberais com
nacionalistas introspectivos. E para coroar a fraqueza da integração regional,
exibe-se a auréola das empáfias políticas nacionais. Por efeito de tais
condicionamentos, a melhor performance da integração latino-americana consiste
no entendimento político regional, responsável pela mais vasta zona de paz do
universo humano.
O processo de integração latino-americano como desígnio brasileiro tem o
Mercosul por mola propulsora e agrega objetivos políticos, geopolíticos,
financeiros e sociais que ultrapassam o econômico-comercial, como a superação
de assimetrias. Constrói-se como experiência específica sem formatação acabada
e deriva, operacionalmente, do paradigma logístico interno. Destarte,
iniciativas e instituições surgem em sua evolução: o Fundo para a Convergência
Estrutural e Fortalecimento Institucional do Mercosul (Focen), a colaboração
deste com o CAF - Banco de Desenvolvimento da América Latina - e o Banco
Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para superação de
assimetrias; a Iniciativa para a Integração da Infraestrutura Regional Sul-
Americana (IIRSA) com sua Agenda de Implementação Consensuada, o Conselho de
Infraestrutura e Planejamento da Unasul (Cosiplan) e o BNDES com seus vultosos
recursos, para projetos de infraestrutura. Em 2013, de aproximadamente 600
projetos de infraestrutura na carteira do Cosiplan, 14% estavam concluídos e
30% em execução. Quase tudo se fazendo sob parceria brasileira público-privada.
Os tropeços, contudo, escandem o processo: a suspensão do Paraguai do Mercosul
em 2012 e a admissão da Venezuela como membro pleno logo depois provocaram
comoção e surpresa, revelando a natureza em construção da integração regional;
Alba (Aliança Bolivariana para as Américas) e Aliança do Pacífico espelham
divergências com outros blocos acerca de integração e comércio, por mais que
líderes políticos afirmem a conveniência da concertação entre todos os órgãos
regionais. Em 2014, o órgão de planejamento estratégico da Unasul, o Cosiplan,
promove seminários técnicos que fazem evoluir o conceito de integração, da
IIRSA à integração integrada, aquela capaz de harmonizar combate à pobreza,
infraestrutura, integração produtiva e inclusão social. Em suma, o discurso da
integração evolui com perfeição, resta medir a influência prática. No fundo, o
caráter em construção se deve à essência do processo: à diferença da União
Europeia, na América Latina a cultura política, inclusive no Brasil, considera
legítimo sobrepor o projeto nacional ao regional e não ceder o controle da
autonomia decisória a ponto de debilitar a soberania; contudo, todos os países
elegem o entendimento político como bem supremo da integração (Cervo_2013;
Baumann_2013; Couto_2013; Resende_2013; Desiderá_Neto_2012; Álvarez_2012)2.
Poderia a vitória da direita nas eleições europeias para o Parlamento em 2014
fazer convergir a rota dos dois processos pela via da valoração do nacional
sobre o regional?
O dilema entre regional e global não machuca a política exterior brasileira,
comprovam as coalisões ao Sul e as parcerias estratégicas.
O declínio do Brasil como potência emergente durante o governo de Rousseff
desloca o protagonismo do Brics aos outros dois grandes, Rússia e China. Com
efeito, a letargia externa de Rousseff contrasta com a projeção geopolítica
russa e econômica chinesa, convergindo os dois quanto à promoção conjugada de
suas presenças sobre o continente asiático. Destarte, o Brics mantém consenso
em algumas conferências internacionais, no Conselho de Segurança para
condenação de intervenções unilaterais da Otan, como também na cooperação sul-
sul e na promoção da inclusão social interna e da inclusão das nações mais
pobres no sistema internacional Mas o Brics anda sem posições consensuais em
outras questões, como na OMC e no G20, e sobre o regional. Está longe de
alcançar a OCDE quanto à cooperação para o desenvolvimento e aos gastos com
inovação. Em maio de 2014, Rússia e China firmam relevante acordo comercial e
vislumbram a formação de um bloco econômico no mercado euroasiático, de porte a
equilibrar no futuro a União Europeia, havendo Vladimir Putin avançado nesse
caminho no mesmo mês mediante acordo assinado com os presidentes de
Bielorrússia e Cazaquistão para criação da União Econômica Euroasiática (De
Jesus_2014; Thorstensen_2012).
O Brics continua a impressionar como coalizão. Na V cúpula de Durban, em 2013,
na África do Sul, acenou com três decisões: a criação do Banco Brics para
financiar o desenvolvimento, do fundo de compensação cambial para fazer face a
desequilíbrios financeiros de seus membros, enfim, concordou com investigações
sobre violação de direitos humanos na Síria. Ao termo da VI cúpula realizada no
Brasil, o documento final, Declaração de Fortaleza, assinada em 15 de julho de
2014, além de reafirmar os princípios da ação internacional da coalizão,
anunciou três acordos anteriormente previstos: foi criado o Banco de
Desenvolvimento do Brics, com capital inicial de cem bilhões de dólares, sede
em Xangai e direção colegiada dos membros da coalizão; foi instituído o fundo
de reservas cambiais, dotado do mesmo montante; foi firmado, enfim, termo de
entendimento para cooperação entre as agências nacionais de crédito às
exportações. Como ocorrera em Durban com os países africanos, após a cúpula de
Fortaleza, os cinco Chefes de Estado do Brics reuniram-se com os onze
presidentes sul-americanos com o fim de estender à região a cooperação das
novas instituições especialmente para projetos de infraestrutura. Sobre o plano
financeiro global, o Brics as considera instituições complementares e
alternativas ao FMI e ao Banco Mundial, nas quais os países avançados detém
maior poder que os emergentes3.
A coordenação do Brics, enfim, e sua agenda baseada na cooperação entre os
membros e no esforço em transformar a ordem internacional são vistas amiúde com
desdém por intelectuais dos Estados Unidos, da União Europeia e por
estrategistas da Otan. Estes desejam a manutenção da ordem que lhes convém,
porém o Brics deseja transformá-la em favor da paz e da multipolaridade, que
contemple, enfim, interesses e valores complexos da comunidade internacional.
Por vezes decisivo por vezes não em dimensão global, o Brics ofusca o papel de
outra coalizão ao Sul, o Ibas, que se refugia na cooperação entre seus membros,
Índia, Brasil e África do Sul. Para fazer face à penetração chinesa e indiana
no continente, a política africana do Brasil usa o soft powerda cooperação em
setores de apelo popular, como inclusão social, agricultura, educação e saúde,
havendo, por exemplo, inaugurado em 2012 uma fábrica de medicamentos contra a
Aids em Moçambique (Bertonha_2013).
Em outra linha de continuidade, mesmo que lerda, considerados os avanços do
Brics, a inserção internacional do Brasil preserva no período a relevância das
parcerias bilaterais. A crítica à globalização e o retorno do Estado, agora sob
a égide do paradigma logístico no Brasil, reforçam o bilateral, historicamente
usado pelo país para estender os braços do poder e veicular interesses
nacionais. Como tudo no modelo brasileiro de inserção internacional, o
bilateralismo se conforma com o universalismo.
As chamadas parcerias estratégicas, laços de intercâmbio de fatores com
potencial de influir sobre a formação nacional de longo curso do país em
desenvolvimento, são preservadas como bens preciosos da ação externa: parcerias
tradicionais, com Estados Unidos, Alemanha, França, Itália, Japão, Inglaterra,
Argentina e outras, como novas, com China, Espanha, Portugal e outras. Ousar
pôr em risco uma parceria estratégica configura-se como temeridade. Daí, por
exemplo, porque os dirigentes toleram medidas comerciais heterodoxas, até
agressivas, de parte da Argentina, daí porque a opinião brasileira considerou
desmesurada a reação da Presidente Dilma Rousseff à espionagem norte-americana
da NSA.
As relações entre Brasil e Estados Unidos passam por uma fase instável. A
inteligência norte-americana não confere ao Brasil a atenção que este supõe
merecer em razão do papel que pretende desempenhar no mundo. Tampouco aprecia
certas tendências de longo prazo, como o universalismo e a autonomia decisória
da política externa. A Secretária de Estado, Hilary Clinton, ao termo do
governo de Lula da Silva, expressara a discordância, afirmando com clareza que
não cabe ao país envolver-se em assuntos do Oriente Médio. Com efeito, as
visões de mundo, as políticas de segurança e as posições ideológicas de ambos
os países muito divergem. É na esfera bilateral que as relações adquirem
relevância.
Barack Obama veio ao Brasil em 2011 e Rousseff foi aos Estados Unidos em 2012.
As duas visitas oficiais trataram de assuntos bilaterais em profundidade ao
estilo de conduta logística dos Estados. Uma dezena de acordos foram firmados,
descobrindo ou criando oportunidades de movimento para empresários e entidades,
bem como agentes de ambas as sociedades, cujos interesses eram estimulados:
cooperação entre Universidades, Embraer e Boeing, petróleo, proteção de marcas
nacionais de bebidas, facilitações comerciais, de fluxo de cidadãos, de
negócios para investidores etc.
A revelação da espionagem da Agência Nacional de Segurança (NSA) deixou
Rousseff injuriada pessoalmente, mesmo porque, além de ter seu telefone
grampeado, comunicações entre civis foram interceptadas, até mesmo a Petrobras
e outras empresas monitoradas. As reações foram quatro: o rompante da voz de
protesto, a suspensão da visita de Estado que Rousseff faria aos Estados Unidos
em 2013, um projeto de regime internacional para a Internet apresentado à ONU
conjuntamente com outra vítima da espionagem, a Alemanha de Angela Merkel,
enfim, aceleração do projeto Brics Cable, destinado a uma internet autônoma
entre os países do Brics. A 2 de junho de 2014, em entrevista ao jornal The New
York Times, Rousseff declara encerrado este ciclo de desentendimento e
retomadas as relações entre Brasil e Estados Unidos, do ponto onde haviam sido
interrompidas no ano anterior, inclusive com a remarcação da cancelada visita.
Em Brasília, no mesmo mês, o vice-presidente americano, Joe Biden, confirmou
mudanças no sistema de monitoramento e disposição de retomar as relações na
linha da parceria estratégica bilateral.
Apenas as relações com a China medem-se com a parceria entre Brasil e Estados
Unidos, em termos de fatores envolvidos, negociações entre dirigentes,
comissões de concertação e envolvimento de agentes das duas sociedades.
Recentemente, a cooperação em ciência e tecnologia definha, porém afinidades de
visões de mundo convergem e facilitam o entendimento. O grande desafio
brasileiro, conduzido a termo com êxito, repete a história: assim como os
norte-americanos desejavam o mercado brasileiro de manufaturados nos anos 1950
e foram forçados a investir na industrialização brasileira, assim desejava a
China exportar manufaturados para o Brasil e está sendo convencida a mudar de
atitude e facilitar investimentos diretos no país. Entre 2010 e 2013, os
investimentos diretos chineses no Brasil aproximam-se de 30 bilhões de dólares,
oitavo mercado de destino no mundo, o que torna o Brasil diferente de seus
vizinhos latino-americanos (Bernal-Meza_2013).
Como cooperação sul-sul, a parceria Brasil-China revela três eixos em curso:
político, empresarial e científico-tecnológico. E se descola dos Estados
Unidos, exibindo autonomia tanto no bilateral quanto no global. Ademais, em
2012 a China se torna o primeiro parceiro comercial do Brasil, superando a
posição histórica ocupada pelo comércio entre Brasil e Estados Unidos.
Durante os governos de Dilma Rousseff e Cristina Kirchner, as relações entre
Brasil e Argentina mantêm-se relevantes, porém prolongam dificuldades em seu
curso. Os vultosos investimentos brasileiros no país vizinho recuam ante
percalços de caminho que desanimam empresários. Quando da reestatização da YPF,
a companhia petrolífera argentina, em 2012, a Petrobras recusou-se a
estabelecer uma parceria solicitada e necessária para consolidar a empresa
irmã. Grandes grupos empresariais brasileiros reconsideram seus projetos no
país, alguns são desativados como o grande projeto de exploração do fosfato em
Mendoza. Em frequentes encontros na Argentina, Rousseff se dispõe a salvar o
entendimento político bilateral, porém ela e agentes econômicos lamentam
medidas administrativas que emperram os fluxos do comércio, acentuam o
isolamento financeiro argentino e espantam investidores. O tradicional acordo
automotivo para comercialização de veículos, renovado em julho de 2014, faz
transparecer dificuldades maiores do que no caso do acordo similar que o Brasil
mantém com o México. De fato, a industrialização da Argentina, legítima e
necessária sob o aspecto econômico e social, é conduzida no período por
decisões que denotam exacerbada introspecção econômica e choques entre governo
e setores econômicos, enquanto o Brasil mantém sua parceria público-privada
interna e maior abertura aos mercados externos. Dois modelos de desenvolvimento
distintos, senão irreconciliáveis.
A internacionalização da economia brasileira
A modernização do Brasil passou por duas fases, a primeira entre os anos 1930 e
2000, a segunda no século 21. Na primeira fase, sob vigência do paradigma
desenvolvimentista até por volta de 1990, a internacionalização ocorreu de fora
para dentro e deu forma à industrialização, tocada por capitais,
empreendimentos e tecnologias de países avançados, os parceiros estratégicos.
Esse modelo incorreu em duas falhas estruturais: voltados para o mercado de
consumo interno, feito reserva em função de elevado protecionismo alfandegário,
os empresários da indústria pouca importância atribuíam às exportações em seu
planejamento; como não competiam com produtores externos, pouco ou nada
investiam em inovação, comprometendo a competitividade e eventuais exportações
com valor agregado. O neoliberalismo dos anos 1990 com o choque da abertura
desestabilizou o modelo de desenvolvimento introspectivo. Somente no século 21,
contudo, se adentra pela segunda fase da modernização, quando empresas,
capitais e mesmo tecnologias setoriais impulsionam a internacionalização para
fora, com penetração de empresas brasileiras em mercados externos e crescente
envolvimento em cadeias produtivas globais Por volta do ano 2000, com efeito, a
sociedade estava preparada para a segunda fase, porém coube ao Presidente Lula
da Silva estabelecer decisão política clara em diálogo com um empresariado
entusiasta (Schenoni_2012).
As relações econômicas externas serão examinadas a partir da primeira década do
século 21, nos dois aspectos de comércio e investimentos, considerando-se os
efeitos da crise econômica global que se estende de 2008 ao presente, bem como
a atuação brasileira no G20, o grupo criado para conjurá-la.
Segundo dados do Instituto para a Integração da América Latina e do Carive-
Intal, a América do Sul acelerou seu comércio exterior no século 21. Entre 2003
e 2011 as exportações aumentaram 17%, superando a expansão do comércio mundial
(11,6%). Nesse período, o crescimento do comércio entre os países sul-
americanos, 19%, superou os envios para outros mercados, estes com expansão de
11,6%. Contudo, a América Latina como um todo enfrenta desafios na segunda
década desse século, em razão da queda dos preços dos produtos primários, da
queda das exportações e da maior oferta de manufaturados provindos da Ásia como
também de países avançados, cujos excedentes aumentam devido à queda do
consumo.
A crise financeira acentua, ademais, mudanças anteriores em curso no comércio
internacional: as tarifas alfandegárias são substituídas por entraves nacionais
às importações, o liberalismo pelo mercantilismo, a OMC pelas negociações
bilaterais. O G20 cuida do imediato, não de estratégias de longo prazo, suas
cúpulas revelam-se inócuas, porque sem entendimento entre desenvolvidos e
emergentes, o que também ocorre entre os mais de 150 membros da OMC. O regime
do comércio internacional torna-se complexo, porque suas normas advêm agora do
bilateral ou regional, não do global via OMC. Todos esses desafios suporiam,
racionalmente, adaptação de estratégias regionais: para aproveitar o
aparecimento de nova classe média na América Latina, fruto dos programas de
inclusão social, uma nova política industrial; e para enfrentar pressões sobre
o mercado, novas políticas de comércio exterior.
Durante a primeira década do século 21, o superávit comercial do Brasil
aumentava, atingindo o pico de 46,5 bilhões de dólares em 2006. Caia para 25 em
2008-2009. Os manufaturados correspondiam a 59,1% da pauta exportadora em 2000,
44% em 2009. A importação de produtos de alta tecnologia triplica entre 2004-
2010. As cinco commodities mais exportadas representavam 28% sobre o total da
pauta em 2005, 47% em 2011. Segundo dados do Ministério do Desenvolvimento,
Indústria e Comércio Exterior, em 2013, as exportações totais alcançam 242,2
bilhões de dólares, queda de 1% relativamente ao ano anterior; as importações
totais alcançam 239,6, isto é, aumento de 6,5% relativamente ao ano anterior.
Uma deterioração da balança do comércio exterior em curso.
Apesar do grande crescimento das exportações de produtos primários com destino
à China, duas evidências econômicas se impõem: desindustrialização e
reprimarização. Diante de tais circunstâncias, o Brasil de Rousseff não reage
com estratégia adequada para o comércio exterior, não negocia acordos do novo
modelo, por isso não penetra o novo regime do comércio internacional, volta-se
para o consumo interno com medidas setoriais de incentivo à produção e ao
crédito e não para exportações por meio de incentivos à inovação. Ora, como a
economia nacional alcançara o maior índice de industrialização da América
Latina, o dinamismo do comércio exterior brasileiro estava ligado ao dinamismo
das exportações de manufaturados. Urgia proceder a uma reestruturação produtiva
nesse sentido, para repor a pauta industrial do comércio exterior. Como não
ocorreu, as estatísticas indicam consequências negativas e múltiplas: queda
sensível do ritmo de crescimento do PIB, particularmente do PIB industrial,
queda das exportações de manufaturados, perda de parcela crescente do próprio
mercado interno de manufaturados, queda do emprego industrial, piora das contas
externa e reprimarização econômica, mesmo porque o único setor dinâmico que
anda por si corresponde ao agronegócio4.
Em razão de seu dinâmico multilateralismo comercial anterior, apesar de
conquistar a direção da OMC, uma instituição praticamente falida, o Brasil não
influi mais sobre os ordenamentos do comércio internacional. Segundo a OMC, os
acordos de livre comércio elevaram-se a 25 entre 1958 e 1990, 88 entre 1991 e
2000, 158 entre 2001 e 2012. Em contraste, o primeiro acordo global de livre
comércio, tímido e sem impacto previsível, foi alcançado pela OMC na reunião de
Bali, Indonésia, em dezembro de 2013.
Uma sorte de unanimidade se faz entre estudiosos em torno da inércia da
política de comércio exterior durante o governo de Rousseff. Quatro carências
fundam tal conceito: de investimentos internos, de inovação, de exportação com
valor agregado e de mercados (Cesar_e_Sato_2012).
Poderiam os investimentos brasileiros no exterior compensar a inexistência de
política de comércio exterior e elevar a internacionalização econômica
brasileira ao nível da maturidade sistêmica? Sim e não. A segunda fase da
modernização brasileira configura-se, por certo, uma tendência irreversível
desde o início do século 21, rumo à maturidade sistêmica da economia de
mercado. A expansão para fora de empresas brasileiras é insuficiente, contudo,
para evitar desequilíbrios e carências estratégicas, como as deficiências acima
descritas, cuja superação estaria requerendo o concurso de outras causalidades.
Capitais e empreendimentos brasileiros deslocam-se para o exterior no século
21, a começar pela América do Sul, em razão de estímulos criados pela
integração regional, porém desviando-se depois para outros mercados, Estados
Unidos, Canadá, África, China e Europa. Ao lado do comércio, o movimento
corresponde a indicador concreto da vocação globalista, incorporado à política
exterior como desígnio de Estado e acompanhado com entusiasmo pelos segmentos
dinâmicos da sociedade. Os estoques de investimentos diretos brasileiros no
exterior, em bilhões de dólares, aumentam em ritmo acelerado, segundo dados da
Confederação Nacional da Indústria-CNI: 51,9 em 2000; 79,2 em 2005; 188,6 em
2010; 202,5 em 2011 e 266,2 em 2012. A CNI indica, contudo, as dificuldades de
um movimento que já anda por si, como faz o setor agrícola, porém não amadurece
como conviria aos interesses da economia brasileira.
Com efeito, se Lula da Silva estimulou, Rousseff não avançou na percepção dos
investidores brasileiros. A expansão de empresas brasileiras carece de uma
política de Estado coerente, por isso tais empresas andam espontaneamente.
Desde a década de 1990, o BNDES é usado como instrumento da política exterior,
provendo recursos para o movimento de expansão de empresas brasileiras no
exterior, porém os empresários consideram que este importante suporte da
internacionalização, por si só, não corresponde a uma política de Estado. Ao
invés de avançar, Rousseff cogita na tributação de lucros no exterior e tolhe
competitividade às empresas brasileiras. Por isso a expansão ocorre mais com
empresas de serviço intensivas que de capital intensivas. As bem sucedidas no
exterior transferem para filiais funções nobres de inovação, inclusive exportam
de lá em vez de exportar do Brasil, quando compram plantas ou se associam. Em
suma, desejam os investidores brasileiros no exterior mais acordos de não
bitributação, menos tributos sobre lucros no exterior e mais institutos de
inovação tecnológica no Brasil (Confederação_Nacional_da_Indústria_2013).
A criação do Mercosul, em 1991, já previa a inserção competitiva impulsionada
pela interpenetração de cadeias produtivas regionais. Os investimentos diretos
brasileiros na América do Sul cresceram ao ponto de tornarem-se variável
substantiva dos balanços de pagamentos, estoques de investimentos e estrutura
produtiva dos países da vizinhança. Com o tempo, porém, as reações dos governos
da vizinhança colocaram em perigo essa filosofia política da integração,
quando, em sua percepção, concluíram que servia diretamente como instrumento do
desígnio globalista brasileiro. Obstáculos foram sendo erigidos nos países da
América do Sul à penetração de capitais e empreendimentos brasileiros, segundo
o paradigma logístico da colaboração Estado-sociedade, obstáculos derivados de
políticas de exploração estatal de recursos primários, como na Bolívia e no
Equador, pelas medidas protecionistas argentinas de industrialização, pelos
princípios ideológicos da Alba. Daí o desvio do movimento para mercados além da
vizinhança, mesmo porque os mercados de Chile, Colômbia e Peru, países que
apreciam a parceria público-privada do paradigma logístico, são limitados.
O último grande mercado de destino de investimentos diretos brasileiros no
exterior, a Europa, somava, em 2011, 80 bilhões de dólares, mais do que China,
Rússia e Índia juntas nele investiam. Segundo a Fundação Dom Cabral, em 2012, a
JBS é a empresa brasileira mais internacionalizada, com 72,2% de sua receita
realizada no exterior. Em segundo lugar situa-se a Gerdau, com 52,4% (Álvarez
2012; Cervo_2013; Resende_e_Mallmann_2013).
O Brasil e a segurança
Apenas em duas ocasiões históricas cogitou-se no Brasil em construir
capacitação militar: nos meados do século 19 e nos anos 1970. Ambos os projetos
foram abandonados. Contudo, a preocupação com segurança e defesa agrega-se à
política exterior de modo visceral e à política interna de modo pragmático,
mesmo que a indústria militar padeça da ineficiência do Estado desde 2011, como
outros aspectos do desenvolvimento interno e da inserção internacional acima
descritos.
Em janeiro de 2014, um balanço acerca do equipamento de defesa brasileiro
revela forte conexão com a cooperação tecnológica externa, lentidão e certa
descoordenação de ações, por outro lado. O acordo com a França para construção
do submarino nuclear de 2009 e o contrato de 2013 para compra dos caças Gripen
da Suécia preveem transferência de tecnologia militar; a Embraer em cooperação
com a Boeing conclui a produção de cargueiro militar de grande porte, porém a
crise na Ucrânia, com a qual mantinha-se cooperação tecnológica, pode atrasar
por anos o programa espacial brasileiro; enfim, a revelação da espionagem da
NSA norte-americana comprova o atraso do equipamento brasileiro destinado à
defesa ou à guerra eletrônicas .
Três dimensões da política brasileira de segurança são perceptíveis: posição
tradicional e firme em segurança internacional conjugada com a negociação de
conflitos e longe da violência; promoção do entendimento político e construção
da zona de paz na América do Sul; cuidado com a defesa do Atlântico Sul, onde
se procede à prospecção do petróleo.
As ideias e iniciativas brasileiras em segurança internacional se projetam
sobre o Conselho de Segurança da ONU e no esforço em harmonizar as posições do
Brics em oposição à Otan. O pacifismo do Brasil, ao invés de esmorecer, se
reforça diante das intervenções da Otan. Estas comportam o uso de tecnologias
que desumanizam a guerra, afastam-na de todo direito humanitário e da moral,
provocam a morte de inocentes e são conduzidas por pretextos por vezes fúteis,
além de semearem o caos como resultado, em vez de erigiram a ordem e a paz
(Monod_2012). O risco que a diplomacia brasileira percebe nas intervenções da
Otan é a promoção de interesses escusos de quem as conduz, não necessariamente
os interesses da paz e da segurança humana. Daí porque a diplomacia brasileira
confronta a tradição de violência da Otan com a inovação das operações de paz:
cabe à ONU manter a paz, não à força. (Kenkel_e_Moraes_2012).
A estratégia de segurança internacional do Brics vem modificando a segurança
internacional e levando a Otan a repensar suas ações. Por certo, as estratégias
nacionais de segurança dos países do Brics divergem, porque distintos dos
brasileiros são seus desafios internos e no entorno geopolítico. Grosso modo,
elas convergem sobre o global: reforçar ordenamentos multilaterais com apoio de
coalizões que se opõem ao mundo unipolar; substituir a força militar pelo soft
power da diplomacia. Contudo, a nova estratégia internacional de segurança do
Brics encontra resistência dos Estados Unidos e aliados europeus, que
prosseguem espalhando ameaças e sanções. No interior da coalizão Brics, o
Brasil confere menor confiança à força militar, tem menor preocupação com o
terrorismo, menor preocupação com a unidade nacional e maior confiança no
entendimento com a vizinhança. Apesar dessas resistências e diferenças, o Brics
exerce influência concreta sobre a segurança internacional, perceptível nas
diferenças conceituais diante da Otan e na mudança da estratégia da Otan, que
evita novas intervenções, da questão líbia à questão síria. (Bertonha_2013).
As relações do Brasil com a África, especialmente com os países da África
atlântica, contribuíram para agregar novo conceito à política internacional de
segurança do país: o desenvolvimento. Com efeito, vários acordos firmados com
países africanos da costa atlântica agregam o zelo pela segurança do Atlântico
Sul, interesse específico brasileiro, e a cooperação em desenvolvimento,
interesse específico africano (Aguilar_2013).
Mais relevante para a política de segurança do Brasil e mesmo para sua dimensão
internacional é o cinturão de paz na América do Sul. A construção desse
cinturão envolve forças armadas moderadas e senso de segurança internacional
global. Incorpora, por isso, segurança humana e defesa dos direitos humanos,
prevê afastamento da securitização norte-americano de agendas regionais após o
11 de setembro de 2001, afastamento da OEA, incorporação da criminalidade e da
violência transnacional, manutenção da área livre de armas de destruição em
massa e de ameaças externas. O Conselho de Segurança e Defesa da Unasul obtém
sucesso na implementação dessa agenda, mesmo durante o governo Rousseff, não
sem dificuldades, especialmente ao conectar segurança regional com segurança
internacional e tentar erguer a América do Sul como complexo de segurança. O
êxito brasileiro está mais próximo do cinturão de segurança (Battaglino_2012;
Nasser_e_Moraes_2014).
Conclusão
Após uma fase de ascensão do país como potência emergente, a inserção
internacional do Brasil entra em declínio entre 2011 e 2014. As causas que
determinam a mudança e a nova tendência localizam-se no enfraquecimento do
diálogo entre Estado e segmentos dinâmicos da sociedade; na quebra da confiança
de investidores e empresários nacionais e estrangeiros no governo; no
enfraquecimento de estratégias e inexistência de ideias novas capazes de
motivar agentes externos; no emperramento da gestão pública com perda da
capacidade indutora do Estado; enfim, no protagonismo de Rússia e China no seio
do Brics. Esses fatores de caráter interno conduzem à deterioração de
indicadores de medida da presença e da influência econômica, política e
geopolítica do Brasil sobre o cenário internacional.
O declínio do país torna-se perceptível de vários modos. A escassez de
investimentos internos e de progresso tecnológico e a ausência de política de
comércio exterior conduzem à queda do ritmo de crescimento, da competitividade
sistêmica e das exportações, bem como ao agravamento das contas externas. O
país não influi mais na produção do ordenamento e dos regimes internacionais na
esfera do comércio internacional, os quais transitam então do multilateralismo
ao bilateralismo.
O conceito de declínio aplicado à inserção internacional do Brasil durante o
período do primeiro governo de Dilma Rousseff há de ser qualificado para bem
expressar a realidade. A crise financeira e econômica internacional apenas de
leve afeta o declínio, cujas causas são eminentemente internas. As grandes
estratégias externas da era Lula da Silva, quando são mantidas, o são de modo
lerdo e obstruído. Dois setores apenas andam por si, embora também se ressintam
da inércia do Estado: o agronegócio e a expansão para fora de empresas
brasileiras, isto é, a internacionalização econômica. Na esfera do
multilateralismo humanitário e da segurança internacional, princípios e conduta
se mantêm. Em suma, declínio leve do Brasil sobre o plano global.