Fascismo e Berlusconismo
1.
A Itália de Berlusconi não é o fascismo. A ditadura proprietária do cavalier
Berlusconi não é a ditadura política do cavalier Mussolini.
O fascismo foi, acima de tudo, violência paramilitar. Bandos armados que
ateavam fogo às sedes dos sindicatos, dos partidos de esquerda e das "casas do
povo", agrediam personalidades (mesmo católicas reformistas), espancando-as
brutalmente e obrigando-as a beber óleo de rícino, somando a humilhação à
violência. Piero Gobetti, jovem escritor-editor liberal, que dialoga com o
Gramsci teórico dos "conselhos de fábrica", morre logo após os espancamentos.
O fascismo foi essencialmente violência, indissociável da violência, foi
conquista violentado poder, numa subversão explícita das leis. Violência e
subversão note-se bem que poderiam ser facilmente detidas, se a maioria das
forças políticas e institucionais "moderadas" tivesse considerado a legalidade
um valor superior ao lucro e ao privilégio. A violência fascista, porém,
encontrou um zeloso amparo na cumplicidade de setores cruciais do Estado e na
aquiescência de todos os demais: do rei ao exército, do chefe de governo Luigi
Facta ao ex-premiê liberal Giovanni Giolitti, até Benedetto Croce. Convencidos,
estes dois últimos, de que poderiam utilizar o fascismo contra "os vermelhos" e
"dispensá-lo" depois que tivesse terminado o trabalho sujo. Condenável ilusão
dos liberais pela metade.
Uma vez no governo, Mussolini transformou rapidamente o poder executivo em
poder puro e simples. Graças a oposições frequentemente levianas ou fracas,
sempre divididas, e a inocentes úteis do mundo católico e liberal, obteve a
consagração das urnas. A partir daí perdeu qualquer freio: dissolveu os outros
partidos, aboliu a liberdade de imprensa, mandou assassinar o líder da
oposição, Giacomo Matteotti. Montou um sistema de espionagem declaradamente
fascista, criou novos crimes políticos, criminalizando qualquer forma de
dissidência e, como os magistrados regulares não os puniam com o rigor desejado
pelo regime, criou um "tribunal especial" que condenava à prisão ou ao
desterro1.
Mas a ditadura fascista não se limitou à violência, à repressão de todas as
formas de dissidência, mesmo apenas potencial. Não se contentou com a
destruição dos partidos, dos sindicatos, da imprensa livre. Quis integrar
organicamente todos os italianos no regime, tornar inevitável e obrigatória a
participação e a colaboração deles com o regime, impor uma identificação entre
fascista e italiano. Do berço ao túmulo.
Em primeiro lugar, por meio de um sistema capilar de espionagem mútua: em cada
edifício, um "chefe do prédio" de comprovada convicção fascista, que mantém a
polícia secreta fascista informada de qualquer suspeita ou mero boato, de
qualquer piada sobre o regime. Até aqui, porém, estaríamos ainda na repressão.
Mas é a vida inteira, em todos os seus aspectos, que é arregimentada,
fascistizada. Começa-se desde a infância. Entre os quatro e os seis anos, os
meninos se tornam "filhos da Loba" (e as meninas, "filhas da Loba")2. Aos nove
anos, os meninos passam a ser "balilla"3 e as meninas "pequenas italianas", e
aos catorze respectivamente "vanguardistas" e "jovens italianas". Entre os
dezoito e os 22 anos, são enquadrados nos "Grupos fascistas juvenis de combate"
(nas "Jovens fascistas" para as moças) e na "Juventude italiana do litório".
Nesse ínterim, os "escoteiros" foram dissolvidos.
Para quem chega ao ensino médio e superior, o enquadramento se dá nos "Grupos
universitários fascistas", que, a partir de 1934, também têm uma competição
cultural anual, os Littoriali, cujos vencedores ganham o direito de ostentar no
casaco o monograma dourado "M" (de "Mussolini"). Em todas as faixas etárias, a
educação também é, evidentemente, paramilitar: inicia-se com espingardas de
brinquedo para os filhos da Loba, e termina com o treino dos estudantes sob a
insígnia "livro e mosquete, fascista perfeito".
Mas, além da "educação" (isto é, do doutrinamento fascista) da juventude, na
idade adulta todos os serviços de um embrionário estado do bem-estar social são
distribuídos por meio da adesão ativa ao fascismo. Assim tem-se a "Obra
nacional da maternidade e infância", que fornece às mães assistência médica
pré- e pós-natal e a prevenção da tuberculose infantil, bem como a "Obra
nacional dos combatentes e veteranos de guerra", que organiza a assistência
social aos militares da Primeira Guerra Mundial (antes o intervencionismo e
depois a "vitória mutilada" foram os veículos para a ascensão política do ex-
socialista Mussolini), e o "Instituto nacional fascista para a previdência
social" (seguro-desemprego, bolsa família, complementações salariais para os
trabalhadores afastados ou com horário reduzido), e a "Obra nacional fora do
trabalho", que, nas palavras do regime, "cuida da elevação moral e física do
povo, com o esporte, o excursionismo, o turismo, a educação artística, a
cultura popular". Acrescentamos as colônias de verão para meninos e rapazes. E
para a "mulher fascista" os cursos de primeiros socorros, higiene e economia
doméstica.
Isso para o "tempo livre". Para o tempo das atividades econômicas, todo
trabalhador e todo empresário é enquadrado nas corporações e nos sindicatos do
regime. Na essência, não há momento ou aspecto do dia que se subtraia ao
recrutamento ético-político do regime. Seu ideal é a fascistização da
existência. Essa vontade totalitária se exerce mais do que nunca em relação à
cultura. A secular autonomia das universidades é desmantelada: todos os
docentes devem prestar um juramento de lealdade ao fascismo. Entre 1.250
professores, todos se dobrarão, exceto doze (ou catorze, segundo outros
cálculos). Cabe um discurso à parte para o cinema, ao qual o regime dá um
enorme impulso, ciente de suas potencialidades de sugestionar os espectadores.
Os cinejornais, que precedem a exibição de todos os filmes, são estritamente
fascistas. Os filmes explicitamente propagandísticos não têm grande sucesso, ao
passo que os dois filões que atraem o público são os monumentais sobre Roma
antiga (querendo sugerir uma analogia com o império fascista) e os "telefones
brancos", histórias intimistas da boa burguesia que "distraem" dos problemas da
vida real.
O fascismo, em suma, pretende preencher todos os âmbitos da existência com sua
presença, porque quer criar um novo tipo de ser humano. Com efeito, o fascismo
tem uma doutrina própria e também um filósofo oficial próprio, Giovanni
Gentile. Tem sua "concepção de mundo" fundada em "virtudes" retóricas e na
retórica de prevaricações indecentes (até as leis raciais). E quer moldar todos
os indivíduos segundo essa doutrina, alternando a violência e o envolvimento
por meio de serviços sociais ou do doutrinamento (o bastão e a cenoura, como
escreverá o próprio Mussolini).
2.
Nada ou quase nada disso existe na Itália de Berlusconi, pelo menos até agora.
Nenhuma violência paramilitar, em primeiro lugar. E a diferença entre a
obediência e o consenso obtido por meio da violência física ou por meio da
manipulação midiática é essencial, sobretudo para quem a sofre, apesar de toda
a ideologia de Frankfurt e do pós-modernismo, que tende a esvaziá-la com a
categoria abstrata de "domínio".
Existe uma pluralidade de partidos, de jornais, de organizações sindicais.
Periodicamente elege-se um parlamento pelo voto secreto. A autonomia da
universidade é reconhecida, os magistrados são nomeados por concurso e estão
"sujeitos apenas às leis", com independência ante o poder executivo. Em suma, a
Constituição oficialmente vigente ainda é a carta republicana aprovada em 1948
e nascida da resistência antifascista. Uma descrição simplesmente formal das
instituições não deixa transparecer nada que diferencie a Itália sob o poder de
Berlusconi do padrão internacional de uma democracia liberal.
Mas sabe-se que as descrições convencionais podem ser enganadoras. No papel, a
constituição stalinista da urss de 1936 era a mais democrática que jamais se
vira em todo o planeta. E, mesmo sem chegar a este abismo de "distância" entre
a forma e a realidade, a politologia de qualquer tendência sabe que a palavra
pluripartidarismo pode expressar (ou ocultar) as mais diversas realidades, pois
o fundamental são as condições básicas sobre as quais se exerce o voto, aquilo
que se define como os pressupostos materiais ou socioculturais da democracia.
Num país dominado pelo narcotráfico e pela violência das quadrilhas para
controlar o território, não há voto formalmente secreto que garanta de fato a
livre escolha do cidadão. A livre escolha, para poder se exercer, também requer
um nível mínimo de informações verdadeiras sobre os fatos e sobre os
candidatos. O princípio "uma cabeça, um voto" estabelece a técnica para o
exercício da autonomia de cada um, mas antes disso é preciso que existam
contextos preliminares de legalidade e segurança, igualdade de direitos
políticos, informação, sem as quais o voto livre tende assintoticamente para a
quimera.
Assim, examinemos a constituição material efetivamente vigente na Itália
dominada por Berlusconi. Comecemos pela informação. Pelos dois indicadores
fundamentais, a imparcialidade (adesão aos fatos) e a pluralidade (canais de
televisão e rádio, agências de notícias, jornais impressos e nunca esqueçamos
agências de publicidade). Na Itália, cerca de 90% da população se informa
exclusivamente por meio dos canais de televisão. Ora, à exceção de uma pequena
emissora (La7, com uma média de audiência de 2% a 3%)4, Berlusconi controla
totalmente a informação televisiva. Entre os seis canais nacionais, três (os
"comerciais") são de propriedade dele, e a outra metade (os "públicos") é
indiretamente controlada pela maioria no governo que impõe os homens e os
programas. De fato, em dezenas de telejornais e programas de análises ou
debates, sobraram apenas dois que ainda dão espaço aos fatos incômodos para o
governo (um deles, que Berlusconi "mandou" fechar, vai ao ar graças a uma
determinação judicial). Nos demais, é o silêncio. O "telejornalismo" não se
limita mais a manipular e edulcorar os fatos. Anula-os pura e simplesmente, a
cada vez que possam projetar uma luz negativa sobre Berlusconi. Seu braço
direito, o senador Dell'Utri, foi condenado a vários anos de prisão por
associação mafiosa, mesmo após o recurso, mas o principal telejornal anunciou
sua absolvição (pois não foi condenado pelas acusações dos anos mais recentes).
A situação é diferente para os jornais impressos; no entanto, apenas 10% dos
italianos leem jornais diários (incluídos os esportivos). Os jornais, agora,
falam apenas para uma elite restrita. E mesmo no setor impresso Berlusconi
possui ou controla numerosos periódicos, a editora mais importante do país (a
Mondadori), já tentou conquistar o diário mais importante (Il Corriere della
sera) e agora se prepara para tentar novamente, depois de ter colocado amigos
de confiança no núcleo dos acionistas mais fortes.
3.
Da informação passemos à justiça. Se possível, são ainda mais graves as lesões
que o regime de Berlusconi já infligiu à "lei igual para todos", que na Itália
é uma conquista (parcial) recentíssima. Mesmo após a entrada em vigor da
Constituição republicana, a justiça continuou a ser fortemente "classista":
impunidade praticamente absoluta para todos os setores do sistema, rigor e
dureza para o delinquente "sem um santo padroeiro". E, acima de tudo, continuou
a funcionar o princípio celebrizado pelo cinismo de Giovanni Giolitti no início
do século xix: "aos amigos, tudo; aos inimigos, a lei".
As coisas começaram a mudar apenas nos anos 1970, devido a uma confluência de
motivos que aqui seria impossível examinar (mas aos quais não é estranha a
"onda longa" do movimento igualitário de 68). Alguns juízes de primeira
instância (logo definidos polemicamente como "juízes de assalto" pelo
jornalismo conservador) começam a ver e a indagar os escândalos envolvendo
grandes grupos industriais e personalidades do governo com relações de
corrupção. Mas depois, em geral, as investigações são transferidas
(tecnicamente: avocadas) a Roma, onde a procuradoria é conhecida como "o porto
das névoas", justamente pela maneira sistemática com que emperra os
procedimentos. Mas, nos anos 1980, aumenta o número de magistrados que não
temem investigar os poderosos, até o famoso inquérito das "mãos limpas" de
1992. Ele nasce de um caso de pequena corrupção (mas odiosa: diz respeito ao
lar de idosos de Milão, uma instituição "modelar" da cidade que remontava a
1771) e acaba por envolver todo o sistema político e todos os maiores
empresários italianos.
É o momento em que a administração da justiça mais se aproxima do ditame
constitucional: a lei igual para todos, a ação penal obrigatória, a
independência da magistratura sujeita apenas à lei.
Berlusconi está destruindo isso tudo. Sistematicamente. E muito frequentemente
com a cumplicidade, ou pelo menos a aquiescência, da oposição ex-comunista. No
plano do código penal, ele consegue a aprovação de uma quantidade enorme de
leis ad personam, que descriminalizaram os crimes pelos quais tinha sido
condenado em primeira instância ou corria o risco de sê-lo no futuro (ele ou
seus amigos, obviamente)5. Desaparecido o crime, a absolvição é automática.
Assim, praticamente todos os crimes típicos dos "colarinhos brancos" não estão
mais sujeitos a ações judiciais. Apenas um exemplo, clamoroso: a
descriminalização do "falso balanço" ocorre nos mesmos dias em que Bush Bush,
não um bolchevique! , na esteira da indignação popular perante alguns
escândalos financeiros, aumenta a pena para mais de vinte anos de prisão.
Às descriminalizações seguem-se normas processuais que facilitam cada vez mais
a escapatória dos acusados (diminuição dos prazos de prescrição, dificuldade
para as precatórias internacionais etc.) e uma política "material" da justiça
que torna árduo o trabalho dos juízes, devido à falta de recursos técnicos e de
pessoal administrativo. Assim, com um bom advogado, o processo de um personagem
"ilustre" quase sempre se extingue por "decurso de prazo" e o criminoso mantém
a ficha limpa.
A tudo isso se soma a intimidação institucional e a agressão midiática contra
os juízes que continuam a fazer seu trabalho. Mesmo um relato sumário ocuparia
um livro inteiro. Em alguns casos usam-se advertências no mais autêntico estilo
mafioso. Em todo caso, trata-se sempre de um linchamento de grande eficácia nos
meios de comunicação, que convence a parcela mais desinformada da população de
que Berlusconi é vítima de uma perseguição das "togas vermelhas" (e no entanto
muitos de seus "inquisidores" pertencem às correntes mais moderadas da
magistratura!). Acrescentemos a enxurrada de policiais transferidos por excesso
de eficiência nas investigações indesejadas pelo poder (um número
impressionante de casos, embora, isoladamente, não sejam notícia). E
acrescentemos a impunidade que o governo garante (aqui também com a colaboração
do centro-esquerda) aos responsáveis por uma verdadeira central de controles
ilegais, ligada a setores desviados dos serviços secretos6. É uma central que
"atencionava" (desprezando a gramática, assim como a lei: em suma, espionava)
numerosos magistrados, jornalistas, intelectuais e empresários considerados
"inimigos" pelo poder berlusconiano (este autor teve a honra de encontrar seu
nome nessas listas). Parece até um milagre, nessa atmosfera de deslegitimização
que já dura quase vinte anos, que ainda existam tantos magistrados que, entre
dificuldades cada vez maiores, continuam a trabalhar sem considerar os
poderosos figuras intocáveis.
As coisas não vão melhor no âmbito do ensino e da cultura. Aqui, a destruição
da autonomia crítica não se dá pelo doutrinamento de uma ideologia totalitária,
mas criando um clima de "pensamento único" que achata na gelatina do
conformismo e da espetacularização comercial o que agora é apenas "consumo"
cultural. Aliás, a gestão do "patrimônio cultural", que com o patrimônio
natural é a principal riqueza do país, foi tirada dos especialistas
(arqueólogos, restauradores, historiadores da arte) e a direção dos museus foi
confiada, por exemplo, a um ex-executivo do McDonald. A ciência tem sido
espezinhada com verbas de pesquisa ridículas, nomeações humilhantes (o vice-
presidente do Conselho Nacional de Pesquisa é um católico fundamentalista que
nega o darwinismo e a cronologia padrão: ele acredita que o dinossauro e o homo
sapiens conviviam algumas dezenas de milênios atrás)7 e programas de televisão
totalmente marcados pelo mistério e pela "objetividade" dos milagres (padre
Pio, as Virgens que vertem sangue e outras superstições). O ensino público está
arruinado, o número de professores foi reduzido em todas as matérias, exceto as
religiosas (cujos professores são pagos pelo estado, mas escolhidos pelos
bispos).
O princípio da laicidade do estado, já pisoteado pelo Tratado fascista e pelo
artigo 7 da Constituição, que, graças a Togliatti, o confirmou, é ainda mais
humilhado, cotidianamente. O clima que impera nos meios de comunicação é de
perpétua reverência ao Vaticano, e a legislação tenta transformar os pecados da
Igreja em crimes: uma das câmaras já aprovou a lei sobre o final da vida que
anula o valor do testamento biológico e obriga à alimentação e à hidratação por
meios artificiais. Inúmeros hospitais negam às mulheres o direito de abortar,
pela difusão das "objeções de consciência" entre médicos e enfermeiros,
fomentada pelas autoridades políticas. Na Itália, uma investigação como houve
na Bélgica sobre a Conferência episcopal seria pura fantasia. Mas os negócios
entre a cúria e o poder (beirando os limites da lei, e indo além) são uma
realidade do cotidiano.
4.
Onde o regime celebra a sua húbris, porém, é na corrupção e na mentira. As
estimativas oficiais do Tribunal de Contas calculam o custo da corrupção em 60
a 70 bilhões de euros, mas o prejuízo se multiplica com uma infinidade de
efeitos colaterais (obras públicas necessárias e não realizadas, obras inúteis
interrompidas no meio, nomeação de incompetentes mas leais ao corrupto em
todos os setores, inclusive na saúde: um mar de ineficiência e desperdício,
além da roubalheira). O parlamento tem um índice de delinquência
estatisticamente superior ao de uma periferia mal-afamada: uma vintena de
condenados em caráter definitivo (primeira instância, recurso, Supremo
Tribunal), um número altíssimo de indivíduos sob inquérito ou processo8. No
governo, um ministro nomeado justamente para livrá-lo de um processo, já
condenado nos tempos do "Mãos limpas" (só se demitiu devido à revolta da
opinião pública, inclusive a de direita), um subsecretário com ordem de prisão
por causa da Camorra, a descoberta de uma verdadeira "gangue" (numa
interceptação entre dois investigados) para a partilha de todos os tipos de
licitações. Todas as ocasiões são boas, do campeonato mundial de natação ao
terremoto que atinge Aquila ou à Exposição de Milão em 2015. Mas no séquito
berlusconiano há também a corrupção de magistrados, e antes de uma sentença
dois juízes do Tribunal Constitucional vão jantar com Berlusconi!
Do ponto de vista histórico e jornalístico, já está comprovado que o surgimento
da Forza Italia se dá com base numa negociação entre peças da máquina do estado
e a cúpula mafiosa. Do ponto de vista judiciário, há sentenças que adotam
explicitamente essa hipótese, mas, à falta de provas "além de qualquer dúvida
razoável", não impõem condenações. Além da confirmação na própria sentença de
recurso das ligações mafiosas do senador Dell'Utri, braço direito de Berlusconi
e presente nas origens da Forza Italia graças à rede da empresa publicitária
Publitalia, cada vez mais acumulam-se indícios gigantescos sobre as razões do
assassinato de Borsellino. Além disso, nada menos que três procuradorias
investigam os "mistérios" daquele biênio decisivo: 1992, com o assassinato de
Falcone e Borsellino e suas escoltas; 1993, com os atentados para destruir o
patrimônio artístico de Roma e Florença (destruição fracassada in extremis
no Estádio Olímpico). A natureza criminosa dos sequazes de Berlusconi já supera
em muito a fantasia de Bertold Brecht com seu Mackie Messer.
Se no crime e na moral o modelo literário é Brecht, na comunicação como
manipulação é Orwell. O sistema televisivo berlusconiano realizou o pesadelo da
"novilíngua", o instrumento com que o Grande Irmão de 1984 conseguia impedir
que as massas pensassem. As palavras são desvirtuadas, graças ao poder de fogo
da televisão, para significar o oposto do que deveriam. Já se tornou comum
dizer que os magistrados que incriminam Berlusconi e seus amigos são
"magistrados politizados" (a verdade é exatamente o contrário). Que o monopólio
da televisão é a apoteose do "livre mercado". Que pedir respeito à Constituição
equivale a fomentar o ódio (na arena política italiana, finda a temporada do
terrorismo, dominava um fair play quase anglo-saxão. Foi Berlusconi que o
rompeu, incriminando seus adversários e utilizando uma linguagem a meio caminho
entre a frivolidade e a guerra de religião). Que na Itália não existe crise
econômica. Que os impostos diminuíram. Que, se aumentam, é por culpa do euro e
dos governos de esquerda anteriores. Que os meios de comunicação (inclusive os
dele!) são dominados pelos "poderes fortes"9 e pelo jornalismo de oposição, que
aqueles mesmos "poderes fortes", em conluio com o Tribunal constitucional,
violam o direito da maioria a governar (entendido como direito a "fazer o que
bem entenderem"). Poderíamos continuar até as calendas gregas.
Berlusconi é a encarnação do Grande Irmão não só na acepção orwelliana, mas
também em seu formato televisivo homônimo. Quanto ao primeiro, vimos que ele
adota a novilíngua do modelo "1984", mas também imita as pretensões alucinantes
do "Ministério do amor". Não se trata de um exagero polêmico: Berlusconi
batizou sua organização de "partido do amor", estigmatizando como "partido do
ódio" o centro-esquerda (e mais os magistrados e a imprensa livre). E
desencadeou sobre essa invenção maniqueísta uma verdadeira onda de fanatismo,
com rituais de entusiasmo e devoção dignos de Ceausescu10: slogans, canções e
risos sempre que aparece entre seus adeptos. O hino de seu partido, aliás, traz
o frugal e modesto título de "Ainda bem que Silvio existe!".
Como Grande Irmão no formato televisivo, ele materializa a apoteose da ilusão
que passa por "realidade" ao vivo, enquanto na verdade realiza o roteiro dos
sonhos estabelecidos pelo regime, embora, além das cenografias postiças,
existam apenas ruínas. É o que ocorreu, por exemplo, para a "reconstrução"
depois do terremoto em Aquila11.
Nessa contrafação da democracia, é evidente que a controvérsia política perde
qualquer resquício de ligação com a argumentação racional. Não existem mais os
"fatos", mas ninguém tampouco se prende aos vínculos da lógica. Pode-se
desmentir hoje o que foi afirmado ontem; no mesmo programa de entrevistas,
pode-se sustentar uma opinião e o contrário dela, uma opinião e o oposto das
consequências logicamente derivadas dela. O que importa é a capacidade de
berrar interrompendo o adversário, o histrionismo da atitude, o descaramento em
mentir, a arrogância da "bela figura" e a vulgaridade do insulto colocado no
momento certo. Torna-se "virtude" toda a panóplia das falácias semânticas e
pragmáticas estigmatizadas nos tratados de retórica.
O não raciocínio se torna uma segunda natureza para o político, mas também para
o eleitor. Este, aliás, no desprezo do político pelos fatos e pela lógica,
sofre o fascínio da "vontade de poder". Desprezo que, aclamado em vez de
desmascarado, se traduz em "delírio de onipotência" para o político, em volúpia
de submissão para o ex-cidadão.
5.
O regime de Berlusconi, portanto, não é o fascismo. Mas certamente é uma forma
nova e inédita de destruição das instituições liberal-democráticas e do ethos
público mínimo que as sustenta. Note-se bem que, aqui, não estamos levando em
conta sua política econômica e social, o crescimento exponencial da
desigualdade, a devastação do bem-estar social, a polarização da demanda,
porque são fenômenos que estão insidiando e desgastando todas as democracias do
Ocidente. Aqui trataremos apenas do aspecto liberal das democracias modernas,
dos traços que deveriam ser irrenunciáveis tanto nas de direita como nas de
esquerda.
Berlusconi está esvaziando uma das melhores constituições liberal-democráticas
do mundo, substituindo um sistema de controles de legitimidade, de balance des
pouvoirs, de direitos inalienáveis dos indivíduos, pela vontade despótica de
quem, consagrado pelas urnas, se torna um "Ungido do Senhor". Mas a maioria
como princípio que autoriza tudo, sem restrições, é um princípio jacobino. O
oposto da democracia liberal, do "governo limitado" de que falam Jefferson e
Madison. Assim, se quisermos conferir nobreza histórica a um regime puramente
empresarial, poderíamos definir o de Berlusconi como um jacobinismo dos ricos,
um jacobinismo reacionário, um jacobinismo da Vendeia.
Indo ao essencial: Berlusconi não quer reduzir a democracia a um plebiscito,
mas a uma sondagem, onde todo "cidadão" está isolado e privado de qualquer
instrumento cultural e social para sua efetiva autonomia, inerme diante de um
poder midiático-fabulatório-clientelista desprovido de contrapesos e do "Homem
da Providência" que o encarna. Para Berlusconi, a vida pública é apenas uma
grande arena para propagandistas e marqueteiros, um gigantesco sukh. Ou, se se
preferir, Berlusconi concebe o Estado em escala empresarial, a democracia como
uma empresa sua, onde não há cidadãos e sim funcionários e/ou clientes, um
acionista principal e alguns acionistas minoritários, e onde as decisões do
diretor-presidente não podem sofrer impedimentos nem atrasos. Por isso, para
sua mentalidade de magnata arrivista (o que se tornou, porém, graças ao apoio
político de Bettino Craxi, nunca esqueçamos!), a divisão dos poderes, o governo
limitado, os insuperáveis vínculos constitucionais são realmente
incompreensíveis e irracionais. O regime de Berlusconi não é o fascismo, mas
apenas porque, na verdade, ele está realizando uma versão pós-moderna do estado
patrimonial do Antigo Regime.
Agora, porém, o regime de Berlusconi está transpondo o limiar que separa o
esvaziamento da constituição e sua subversão propriamente dita. Há meses ocorre
uma luta acirrada no país sobre leis que constituiriam a primeira pedra de um
verdadeiro fascismo. Uma delas, que vetaria aos investigadores o instrumento
das escutas (propostas por um juiz e autorizadas por um segundo, note-se bem)
para quase todos os crimes12, e condenaria os jornalistas a um mês de prisão e
os editores a multas estratosféricas (quase meio milhão de euros) por cada
notícia sobre as poucas escutas ainda admitidas (em essência, juízes de mãos
atadas e jornalistas amordaçados: impunidade e silêncio), só foi retirada
depois de meses de mobilização popular e pela certeza de que não seria
ratificada pelo presidente da República13. Mas Berlusconi, obtido o voto de
confiança em dezembro, está cada vez mais decidido a conseguir a aprovação
delas. Aliás, preparou uma lei de reforma constitucional que transtorna
completamente o sistema judiciário, rumo a uma verdadeira abolição da
independência do judiciário em relação ao poder executivo.
Mas o fato de o berlusconismo não ser (ainda) o fascismo não deve nos
tranquilizar. O fascismo não é a única maneira de sepultar a convivência
democrática: ele é a maneira historicamente determinada como isso ocorreu na
Europa a partir do começo dos anos 1920. Podem existir, e existirão, outras
maneiras: em matéria de mal, a história tem uma imaginação exuberante. A via
berlusconiana já é uma forma inédita de destruição da democracia. Cabe apenas
perguntar se, sob ela, a Itália não estaria mais uma vez se tornando, menos de
um século depois, um laboratório de vanguarda de um processo degenerativo que
poderia contaminar novamente a Europa.
Marx, corrigindo Hegel, afirmava que os fatos e os personagens da história se
apresentam duas vezes, primeiro como tragédia e depois como farsa. Mas logo foi
desmentido, pois a "farsa" do "pequeno Napoleão" levou a França à tragédia da
guerra e da derrota contra a Prússia, e a burguesia francesa à sangrenta e
sanguinária repressão da Comuna de Paris, sacrossanta reação popular àquela
derrota.
Assim, é melhor que a Europa não se embale com o embelezado "pequeno
Mussolini" de Arcore no minimalismo reconfortante e ilusório. Quando se fala
em Berlusconi, faz anos que a Europa se concentra principalmente nas bufonarias
do personagem, em seu comportamento de cabaré nas reuniões de cúpula
internacionais, no ridículo daqueles cabelos implantados, nas cirurgias
plásticas do rosto, nas jactâncias imaginárias de um Casanova de meia-tigela,
nas banalidades e vulgaridades de piadas rançosas que despertam o riso apenas
de quem as conta. Como o personagem não é sério, a Europa pensa que também não
precisa levar a sério a destruição democrática que o "palhaço da Europa", como
o definiu L'Expressna capa de julho de 200914, vem realizando entre uma piada e
outra. Mas, quando um personagem farsesco numa democracia europeia é capaz de
acumular um poder ilimitado, a burla já se tornou catástrofe. E não apenas para
o povo que tem de sofrê-la e, em todo caso, é culpado, mas também para o resto
da Europa, que se limita irresponsavelmente ao escárnio e à ironia, em vez de
adotar as medidas inadiáveis para debelar o vírus da antidemocracia que poderá
contagiá-la.
6.
A Europa tem razão em pedir a nós, italianos, explicações sobre o enigma do
consenso em torno de Berlusconi. Por que sua guerra declarada contra a
Constituição republicana desperta consenso? O que leva metade dos italianos a
essa desejada "servidão voluntária"? Na verdade, não há mistério algum. As
explicações são simples, mas exatamente por isso são recusadas com muita
frequência. Vamos por ordem, começando pelos interesses "estruturais" que a
antidemocracia de Berlusconi protege e favorece.
Berlusconi se proclama um arauto de todas as liberdades. Mas depois dissemina a
mancheias (ou melhor, a videocheios) o desprezo por todas as minorias, sexuais,
étnicas ou políticas. E, provindo do topo do poder executivo, o insulto é mais
do que uma ameaça, pois alguém irá interpretá-lo como "passe livre" para as
"vias de fato" (não por acaso a multiplicação das agressões a homossexuais está
se tornando endêmica). Berlusconi, na verdade, odeia as liberdades liberais que
protegem as minorias, até aquela minoria extrema que é o indivíduo, o
dissidenteindividual. Berlusconi é paladino exclusivo das "liberdades das
matilhas"15, em que apenas "a maioria" tem direito de ser protegida, porque é
mais forte. Inevitavelmente vem o passo seguinte, ou melhor, simultâneo: a
liberdade exclusiva de quem "tem mais". A única liberdade que Berlusconi
reconhece é a dos espíritos animais do capitalismo sem regras. A liberdade
proprietária como liberdade canibal, homo homini lupus.
Como existe uma certa corrupção por parte dos políticos no governo em todos os
países europeus, muitos pensam que o caso italiano se resume a um índice de
roubalheira um pouco mais alto. Erro crasso. O assalto das "quadrilhas" de
governo é gigantesco, exagerado, sistemático, onipresente, e tão confiante na
impunidade que se exibe com uma arrogância despudorada. Não por acaso, um
quilômetro de estrada, de metrô ou de via rápida custa o dobro, o triplo ou o
quíntuplo do que custa na França, na Alemanha ou na Espanha. Na Itália atual, a
definição de Marx e Engels no Manifesto do partido comunista, segundo a qual o
estado é o encarregado de negócios da burguesia, só não corresponde à verdade
porque o governo é o encarregado de negócios da desonestidade, a criminalidade
que se encarnou no estado.
Essa licença selvagem dada pelo privilégio desmedido obtém o consenso popular
sobretudo pela difusão de massa do privilégio-ilegalidade-impunidade. As
isenções para a construção civil e o perdão fiscal dos impostos sonegados, por
exemplo. Os efeitos são devastadores para as gerações vindouras, mas, enquanto
isso, legiões são cooptadas pelo interesse imediato na violação das leis. Teve-
se uma verdadeira orgia dessa "liberdade lupina" com a lei sobre o retorno de
capitais, que reduziu a 5% o imposto sobre lucros não declarados, o qual teria
sido até dez vezes maior, e garantiu absoluto anonimato e impossibilidade de
investigações sobre a origem desses capitais, realizando uma verdadeira lavagem
de estado. Quanto às repetidas isenções para a construção civil, destroem o que
resta de uma das riquezas históricas da Itália, a beleza natural de suas
paisagens.
O princípio da impunidade para os poderosos, em suma, ganha popularidade graças
à miragem de uma fruição conivente de massa. Os efeitos sobre o ethos público
são facilmente imagináveis. Na verdade, o privilégio da ilegalidade impune não
é como o milagre dos "pães e peixes": a multiplicação tem limites, se não
quiserem acabar como a Grécia, à beira, ou melhor, em plena bancarrota. Por
isso as benesses da ilegalidade de massa, que, por sua própria natureza, serão
distribuídas de maneira abissalmente assimétrica, vêm acompanhadas pela
demagogia do sonho e do inimigo, imensamente potencializada pela televisão. É
impossível sequer tentar arrolar uma lista, tão entranhada no cotidiano está a
fantasia dos "efeitos publicitários". Uma verdadeira vie en rose com resultados
hipnóticos para a ágora catódica das donas de casa e dos aposentados que vivem
natevê.
A isso se segue a enumeração dos inimigos como "seres malignos" que impedem o
desabrochar das ditas "rosas". São batizados de "comunistas", embora o
comunismo esteja extinto há mais de uma geração, e para quem tem menos de
trinta anos seja tão fantasmagórico quanto o "buuu" da infância. Mas serve para
conferir a espectral robustez do "Mal" a tudo que possa restringir ou
contrariar seu poder (por antonomásia, o dispensador do "Bem") desde juízes e
jornalistas que cumprem seu dever ao fisco, que quer que os sonegadores paguem
seus débitos. De fato, acusam-se "os comunistas" de querer implantar um "estado
de polícia tributária"16, embora o centro-esquerda tenha começado a luta contra
a sonegação fiscal com toda cautela e usando luvas de pelica. Em suma, para
Berlusconi, o "comunismo" significa a igualdade dos cidadãos perante os
impostos e as leis, o beabá histórico e teórico das democracias liberais.
7.
Há mais um aspecto que explica o enigma. Ainda mais banal e, portanto, mais
difícil de acreditar para os observadores estrangeiros: a monumental estupidez
dos líderes de oposição, quando não a cumplicidade, que ocorre com frequência.
Vamos aos fatos. Berlusconi foi derrotado duas vezes, em 1996 e 2006. E poderia
ter sido derrotado desde sua "entrada em campo" em 1994, quando todas as
pesquisas apontavam a vantagem esmagadora do centro-esquerda, se a aliança
democrática apresentasse um candidato independente em vez do último secretário
do pci, Achille Occhetto. Vaidade fatal. Berlusconi conduz uma campanha sob a
bandeira do mais tradicional anticomunismo e, em aliança com a Lega e os ex-
fascistas, ganha com pequena margem. Mas, dois anos mais tarde, entra em
conflito com a Lega e recorre às urnas. Basta que o centro-esquerda apresente
um candidato não ex-comunista, Romano Prodi (nada de excepcional, mas
economista respeitado e católico "conciliador"), para vencer com facilidade.
Para Berlusconi, parece o fim. Não só na política, mas também em termos
empresariais e mesmo pessoais. Vejam-se os jornais da época: perguntam quem irá
ocupar o lugar de Berlusconi na liderança das direitas ("quem", não "se"),
quando será declarada a falência de suas empresas astronomicamente endividadas
("quando", não "se"), qual, entre as várias investigações por crimes
gravíssimos, o levará à prisão ("qual", não "se alguma").
Nesse momento surge o golpe de gênio de Massimo D'Alema, que sucedeu Occhetto
como secretário do ex-pci: em vez de trabalhar para tirar definitivamente
Berlusconi de campo (bastava não fazer nada!), propõe-lhe que desempenhem
juntos o papel de pais "refundadores" da Constituição, na insana convicção de
que Berlusconi é o adversário mais fraco e, portanto, não precisa ser temido.
As consequências são conhecidas: canonizado pelo ex-pci como "pai
constituinte", Berlusconi reafirma a liderança em suas fileiras, encontra
créditos opulentos nos bancos, consegue leis bipartidárias que o poupam da
prisão. Então, em 2001, vence as eleições. Mas seu governo é tão ruim que, dois
meses antes das eleições de 2006, Prodi aparece nas pesquisas com vinte pontos
de vantagem. A campanha eleitoral do centro-esquerda, porém, será uma obra-
prima de tolice e masoquismo, e a vitória se dá com a diferença de alguns
milhares de votos. Devido à lei eleitoral, mantém larga maioria na Câmara, mas
no Senado de apenas duas cadeiras. Isso porque o centro-esquerda simplesmente
recusara o apoio das "listas cívicas regionais" independentes (de esquerda), já
prontas em quase todas as regiões e credenciadas pelos resultados segundo a
região entre 3% e 12%. Os dirigentes de centro-esquerda explicarão que um
sucesso das "listas cívicas" iria constituir um "problema político". Em outros
termos: melhor perder, continuando a controlar monopolisticamente "seus"
eleitorados, do que vencer com o apoio de uma parte da "sociedade civil".
Assim, o segundo governo Prodi, refém de ex-aliados de Berlusconi que tinham
virado casaca por puro oportunismo, cai dois anos mais tarde.
Enfim, nunca houve ascensão mais resistível do que a de Silvio B. Acrescentemos
a não oposição dos últimos dois anos e meio, culminando com o "presente"
solicitado pelo presidente napolitano e tolamente avalizado por Gianfranco Fini
(o qual, como presidente da Câmara, tinha autonomia para decidir de outra
maneira): adiar por um mês a votação da Câmara sobre a quebra de confiança,
prorrogação esta que permitiu a Berlusconi a indecente compra de parlamentares,
a qual possibilitou que seu governo se desenlameasse com um punhado de votos.
Além disso, em seus sete anos de governo, o centro-esquerda não teve destaque
algum em comparação ao que fará Berlusconi nos dois temas que desde 1992
dominam a política italiana: a justiça e a televisão17. E, estando na oposição,
uma oposição evanescente, vai se preocupar basicamente que os movimentos
autônomos da sociedade civil, os quais em duas ocasiões levarão às ruas mais de
1 milhão de pessoas18, não se transformem em força política organizada.
Berlusconi, por sua vez, soube aproveitar a onda "antipolítica" que percorre a
sociedade, e se apresentou como alternativa aos políticos profissionais, coisa
que ninguém na esquerda soube fazer até agora. Ou melhor, na esquerda continua-
se a condenar o sentimento crescente de indignação e raiva pela classe política
como manifestação de indiferentismo. Contudo, o desprezo que atinge a "casta"19
é ambivalente; pode adotar os traços de uma sereia para o homem forte e para um
governo autoritário, mas hoje expressa de modo mais geral a vontade de uma
política radicalmente mais democrática, próxima dos cidadãos e controlada por
eles. A preguiça jornalística define essa vontade como "antipolítica", mas ela
é no máximo antipartidocracia e, pelo contrário, exige "mais política", a
restituição da política aos cidadãos.
Com efeito, a democracia fundada no monopólio de profissionais vitalícios da
política tem transformado a esfera pública em esfera privada, a atividade
representativa numa profissão autorreferencial, cuja medida é o lucro pessoal
que pode ser obtido. Nessas condições, inverte-se a relação entre representante
e representado. O "representado" não se sente de forma alguma representado:
sente apenas que pode escolher entre "alienações" mais ou menos completas de
sua própria vontade. Não por acaso tem diminuído a participação nas eleições e,
mesmo quando permanece alta, nas pesquisas do dia seguinte os cidadãos
manifestam toda a sua desconfiança em relação a quem acabaram de eleger: "São
todos iguais", "um vale o outro", "bonnet blanc et blanc bonnet", até "todos
roubam mesmo".
A vida política agora é exclusivamenteuma carreira, dentro de um circuito
investimento-consenso-lucro-novo investimento. Se não se enfrentar o nó da
partidocracia, se não se planejar uma estratégia para reduzi-la aos termos
mínimos, a alternativa será entre duas formas de se despedir da democracia: a
partidocrática e a populista-autoritária. As esquerdas atualmente existentes
(as social-democracias e outras terceiras vias ridículas) são incapazes não só
de enfrentar o problema, mas até mesmo de colocá-lo, pois fazem parte
integrante e estrutural do próprio problema. Por isso foram incapazes de
aproveitar uma crise financeira que, no entanto, oferecia trunfos fenomenais
aos amigos da igualdade. Na verdade, do ponto de vista da própria divindade
capitalista, a eficiência, ela demonstrou a necessidade de uma transformação
radical, a partir da conquista democrática da Bastilha de uma economia "livre".
Em suma, a esquerda está cada vez mais distante de seus potenciais eleitores,
que com razão exigem mais "igualdade e liberdade".
Na direita, a reação e o conservadorismo podem desempenhar um papel nos dois
cenários, o esvaziamento partidocrático e a subversão constitucional. Para a
esquerda, basta que se apresente, mesmo em doses homeopáticas, como alheia aos
ritos da deriva partidocrática, para prevalecer20. Na Europa, agora vencerá
quem souber ocupar a fortaleza estratégica da antipolítica. O crime que as
esquerdas estão cometendo é entregá-la às novas direitas carregadas de
ressentimento racista. E o fazem porque estão comprometidas até o último fio de
cabelo com os interesses do sistema.
8.
Alguns podem continuar a pensar que Berlusconi é apenas a versão enfatizada dos
defeitos de todas as direitas europeias. Seria cegueira.
A liberdade lupina do privilégio, o jacobinismo dos optimates, é apresentada
pelo despotismo dos meios de comunicação de Berlusconi como uma "garantia"
contra a vocação "policial" e "inquisitorial" em suma, incorrigivelmente
stalinista dos comunistas. A lei das "mãos atadas" para os juízes e da
"mordaça" para os jornalistas é apresentada como proteção da privacidade. Tal é
a lenda. A realidade, porém, é um regime policial, mas contra "os últimos".
Agora existem na Itália verdadeiros campos de concentração para os
extracomunitários, as prisões estão lotadas de pequenos traficantes e também
dos "peões" das máfias, mas a criminalidade das licitações, das fraudes e da
reciclagem financeira, da corrupção política, da espionagem industrial "amiga",
enfim, o jaquetão do crime organizado (o que realmente manda) agora é
protegidopela lei. A justiça de classe se transforma de prática do poder em
ordenamento jurídico.
Para o tecido social, tudo isso é catastrófico. Toda lei promulgada para
imunizar os amigos e os "amigos dos amigos" reverbera seus efeitos de
impunidade numa esfera criminal mais ampla, visto que uma lei perfeitamente
classista, que diferencie níveis de renda e posição social, não é (ainda?)
possível. As máfias na Itália nunca foram tão "mimadas" como nos governos
Berlusconi. Mentindo descaradamente, o regime brada aos quatro ventos que a
máfia nunca foi combatida com tanto rigor e eficácia, e enquanto isso
Berlusconi lança o anátema contra Gomorra, o romance de Saviano, que estaria
difamando e enlameando a Itália. Enfim, o inimigo é a legalidade. Ainda mais
porque a trama política/negócios/criminalidade começa a se afirmar como uma
característica estrutural de grande parte da Europa. Também sob esse aspecto, a
Itália, acompanhando a Rússia de Pútin, corre o risco de ser a precursora
abrindo caminho para as outras democracias do Ocidente.
Note-se o paradoxo: historicamente, as direitas são o partido do law and order;
as esquerdas é que são tachadas de permissividade e justificacionismo
"sociológico" em relação aos criminosos, enquanto as direitas levantam a
bandeira da tolerância zero. Desse ângulo, à primeira vista, Berlusconi é o
mundo (da direita) às avessas. Na verdade, assinala uma transformação profunda:
se o judiciário, com plena autonomia diante do poder político (e financeiro),
puder aplicar a tolerância zero, ou pelo menos seus rudimentos, ele se
aproximará do que mais abominam os integrantes do sistema: a drástica redução
material, e não só legal, do próprio privilégio. A legalidade democrática, se
coerente, é o poder dos sem poder.
Por isso Berlusconi provavelmente representa a direita do futuro, a qual nem em
linha de princípio pode aceitar a igualdade político-jurídica, caso haja o
risco de se converter em realidade. A qual terá de constitucionalizar o
privilégio, dar forma legal à sociedade das novas castas. A Rússia de Pútin,
com seus oligarcas e suas máfias, os jornalistas sob ameaça de eliminação
física, um judiciário submisso, é seu protótipo. Por isso, mais do que nunca, a
Europa corre o risco de um contágio do berlusconismo, o putinismo adaptado ao
Ocidente. O terrível modelo Pútin é exorcizado como uma transição incompleta da
Rússia do totalitarismo à democracia. Mas agora na Itália celebra-se a saída da
democracia, ao risco de um totalitarismo inédito. Minimizar é lesar a si mesmo.
Comentamos que o berlusconismo traz arraigado um outro ingrediente histórico do
fascismo: o clericalismo. A aversão à laicidade, a qual, aliás, é um efeito
colateral do ódio pelo pensamento crítico. Como o fascismo, o berlusconismo se
dispõe a homenagear a Igreja institucional das formas mais aviltantes, a servi-
la com todas as dádivas de Mâmon, a traduzir em lei todas as monstruosidades
intolerantes de sua bioética. Desde que a Igreja, maternalmente, saiba absolver
de antemão e abafar no silêncio as fraquezas da carne (sempre as mesmas:
dinheiro e sexo) do regime que tanto faz pela "verdadeira religião". Mas, se a
Igreja, ingrata, se arriscar a criticar, os métodos mafiosos atingirão também o
topo da hierarquia21. Clericalismo em versão pós-moderna, em todo caso: a
genuflexão e a reverência à moral ao lado da mais desenfreada vulgaridade nas
telas de tevê, porque business is business e não se consegue audiência com
pais-nossos e aves-marias.
As oposições se iludem quando comentam à meia-voz o fator da idade ("Berlusconi
tem 75 anos, não é eterno, sua trajetória ruma inevitavelmente para o fim"). Em
primeiro lugar, Berlusconi, a não ser que seja derrotado, não renunciará ao
poder enquanto estiver vivo. Nisso sua psicologia de aspirante a déspota é
igual à dos déspotas consolidados. Em segundo lugar, o caráter extrademocrático
do regime berlusconiano se evidencia também nisto: é apenas o poder que garante
a impunidade judicial a Berlusconi e seus cúmplices. Se ele perder o poder,
irão todos para a cadeia. Isso explica também a fidelidade perinde ac cadaver
de suas tropas. Sem Berlusconi, o regime não se sustenta por nem mais um
minuto.
As transformações estruturais e até antropológicas que Berlusconi realizou, e
que sumariamente traçamos, correm o risco de sobreviver mesmo na derrocada (se
e quando houver) de seu regime. Demasiadas vezes as oposições tiveram
corresponsabilidade na degradação dos principais fatores de salvaguarda das
liberdades: a autonomia dos magistrados, a autonomia dos jornalistas, a
autonomia dos sindicatos. A Itália não se libertará do berlusconismo sem uma
transformação radical dos partidos de esquerda, hoje totalmente envolvidos nas
lógicas do sistema.
Concluindo: nenhum dos atos de Berlusconi, tomado isoladamente, pode ser
acusado de transformar a democracia em seu oposto. Todos os governos
ocidentais, em maior ou menor grau, estão habituados à distância entre a poesia
das constituições e a prosa da ação de poder. Mas o decisivo é justamente o
índice desse "maior ou menor grau". De fato, mesmo nunca tendo participado da
oposição mais radical e consequente de outros (poucos) intelectuais contra o
berlusconismo, Umberto Eco tem razão: "Quando uma transformação das
instituições do país ocorre gradualmente, isto é, em doses homeopáticas, é
difícil dizer que cada uma, tomada em si, prefigura uma ditadura... pode-se
dizer que o laudo Alfano prefigure uma tirania? Tolice. E controlar as escutas
realmente atenta contra a liberdade de expressão? Ora, vamos... A função dos
golpes de estado insinuantes é que as mudanças constitucionais quase nunca são
percebidas. E, quando a soma delas tiver gerado a terceira República, será
tarde demais, porque a maioria terá absorvido as mudanças como naturais e
estará, por assim dizer, imunizada"22.
O berlusconismo não é o fascismo. Mas somente porque é o equivalente funcional
e pós-moderno do fascismo. Porque constitui a destruição da democracia liberal
nas condições do novo milênio, na época do domínio da imagem, da globalização
das mercadorias e da manipulação irrestrita da verdade.
PAOLO FLORES D'ARCAIS, filósofo e jornalista, é editor da revista MicroMega
[*] Publicado originalmente em MicroMega1/11, jan. 2011.
[1] Domicílio forçado em ilhas quase desabitadas, sem possibilidade de vida
civil. Era a "colônia de férias", como diziam com ironia e amargura alguns
antifascistas submetidos a ela. Mas Berlusconi, para reabilitar Mussolini,
declara seriamente que o Duce não fez nada de mais contra seus opositores, a
não ser lhes conceder alguns anos de férias.
[2] Onde a Loba é o símbolo da romanidade.
[3] Apelido do rapaz de Portoria (perto de Gênova), Giambattista Perasso, que
em 05/12/1746 desencadeia uma revolta popular contra a arrogância dos soldados
austríacos.
[4] Em aumento vertiginoso num mês superou 10% , depois que seu telejornal
passou a ser dirigido, no início de setembro, por um jornalista de direita
moderada, que por muitos anos dirigiu o telejornal da rede de Berlusconi, mas
que prefere ser jornalista em vez de lacaio.
[5] Marco Travaglio catalogou e ilustrou dezenas de casos em seu livro Ad
personam. Milão: Chiarelettere, 2010.
[6] As atividades ilegais são dirigidas por Pio Pompa, braço direito do general
Pollari, chefe dos serviços secretos sismi, mas o governo invoca segredo de
estado, bloqueando os inquéritos em curso.
[7] Roberto de Mattei, que vai publicar com verbas do cnr (cuja finalidade é
incentivar pesquisas científicas!) um volume intitulado O darwinismo, ocaso de
uma hipótese, onde se sustenta, entre outras amenidades, que o Grande Cânion se
formou em apenas um ano por causa do dilúvio universal, o mundo não tem bilhões
de anos, a datação dos fósseis é falsa, os dinossauros ainda existiam 20 mil
anos atrás e, de modo mais geral, que a hipótese científica de Darwin jamais
foi demonstrada, é falsa e deriva de preconceitos ideológicos anticristãos.
[8] Ver as várias edições, com atualização constante, de Gomez, Peter e
Travaglio, Marco. Se li conosci li eviti. Milão: Chiarelettere.
[9] Expressão que remete à Confidustria e a entidades financeiras e
institucionais, como se conspirassem contra Berlusconi.
[10] Aliás, certa vez seu mais próximo "companheiro de armas" Fedele
Confalonieri, fiel no nome e de fato, definiu-o a sério como "um Ceausescu
bom".
[11] Como narrado no extraordinário filme Draquila, de Sabrina Guzzanti, muito
aplaudido em Cannes.
[12] Inclusive os crimes de mafiosos para os quais, teoricamente, os limites
não valem. Com efeito, é raro descobrir diretamente uma "associação mafiosa" a
partir, por exemplo, de um assassinato. Quase sempre descobre-se a associação
mafiosa investigando crimes como extorsão, fraude em licitações, reciclagem, em
que se tornarão impossíveis as interceptações eficazes.
[13] O artigo 74 da Constituição reza: "O presidente da República, antes de
promulgar uma lei, pode com uma exposição de motivos requerer às câmaras uma
nova deliberação. Se as câmaras aprovarem novamente a lei, ela será
promulgada".
[14] "Enquête sur le bouffon de l'Europe berlusconi", n. 3027, jul. 2009.
[15] No sentido em que se diz "lobo de matilha".
[16] Ao pé da letra. Aliás, em outra ocasião ele tinha encorajado a evasão
fiscal com uma declaração oficial, transmitida em todas as emissoras de
televisão.
[17] Não por acaso, hoje a única oposição parece ser a de Gianfranco Fini,
fundador com Berlusconi do "Popolo della Libertà", agora em rota de colisão, o
qual começa a reconhecer a validade de todas as críticas que dirigimos há anos
ao "pequeno Duce de Arcore", mas, no momento em que escrevemos, ainda continua
no governo.
[18] Em setembro de 2002, com os "girotondi" (por iniciativa de Nanni Moretti,
Pancho Pardi e deste autor), e em novembro de 2009, com o "popolo viola",
convocado através do Facebook ambos na Piazza san Giovanni, em Roma.
[19] É a expressão que entrou em uso depois do enorme sucesso do livro La
casta, com mais de 1 milhão de exemplares vendidos, em que Rizzo e Gian Antonio
Stella, jornalistas do Corriere della sera, analisam todos os privilégios
ligados às dezenas e dezenas de milhares de políticos (do parlamento às
pequenas cidades).
[20] Jospin, Zapatero, Prodi.
[21] Foi clamoroso o caso de Dino Boffo, diretor do L'Avvenire, diário da
Conferenza episcopale italiana (cei), que havia criticado, com mil cautelas, os
comportamentos sexuais de Berlusconi. Il Giornale, de propriedade da família de
Berlusconi, publica um falso "documento judicial" acusando-o de
homossexualidade e crimes sexuais, casos para os quais teria feito um acordo
para escapar à condenação.
[22] L'Espresso, 28/05/10.