A interação estrutural entre a desigualdade de raça e de gênero no Brasil
Os princípios de ordenamento social geram conseqüências que vão além dos seus
poderes causais específicos. As divisões sociais que organizam desigualdades
duráveis exercem efeitos conjuntos derivados da sua interação estrutural.
Investiga-se aqui a hipótese de que a desigualdade de gênero de renda no Brasil
seria afetada pela hierarquia racial. Tendo em vista este fim, assim como as
suas motivações teóricas, estima-se a distância (gap) de gênero de renda entre
os grupos raciais, usando novas soluções metodológicas, e analisam-se os
componentes desta desigualdade no âmbito de cada grupo racial. Este trabalho
focaliza as divisões de gênero no interior das divisões de raça, as combinações
dessas categorias, considerando a especificidade dos mecanismos de cada divisão
social e seus processos de interação social. A análise empreendida situa e
explora, de modo complementar, o papel do contexto subjacente da estrutura da
desigualdade econômica de classe no entendimento dos padrões de desigualdade
emergentes. Esta iniciativa inscreve-se, ainda, em um programa de investigação
de maior amplitude a respeito da produção e da reprodução da desigualdade
social na sociedade brasileira.1 Os estudos já realizados sobre as
desigualdades de raça e de gênero no Brasil servem de esteio para o tratamento
atual das interações entre essas categorias sociais (Figueiredo Santos, 2005a e
2008).2
Gênero e raça evoluíram como campos separados de investigação nas ciências
sociais. Os estudos raciais privilegiaram o homem não branco e os estudos de
gênero, a mulher branca. Esta modalidade de estudo de cada hierarquia separada,
em isolamento uma da outra, tanto marginalizou em ambas as áreas o estudo da
mulher não branca como incentivou o tratamento meramente aditivo dos atributos
de gênero e de raça (Glenn, 2000, pp. 3-4). Não são poucas as pesquisas que, ao
considerar gênero e raça como fatores independentes, focalizam um fator em
detrimento do outro. Do ponto de vista teórico, omitir gênero ou raça implica
assumir que a atribuição de recompensas é neutra em relação ao fator omitido.
Em um modelo estatístico, isso representa um erro de especificação, pois se
está suprimindo uma variável relevante, correlacionada com variáveis
independentes no modelo, o que enviesa as estimativas dos efeitos das variáveis
independentes correlacionadas. Já outras pesquisas, quando controlam o outro
fator, o que representa avanço, muitas vezes não testam a possibilidade de
interações entre ambas as variáveis (Reskin e Charles, 1999, p. 385).
As construções sociais de gênero e raça, embora distintas, estariam
entrelaçadas na sua constituição história e na experiência individual. A
natureza e a dinâmica do poder, do privilégio e da opressão poderiam ser mais
bem entendidas se gênero fosse considerado em combinação com raça, assim como
classe. Os papéis de gênero e as experiências de discriminação no local de
trabalho podem variar como uma função tanto de gênero como de raça (Ferdman,
1999). Em certo sentido, raça e gênero seriam sistemas de relações sociais
mutuamente constituídas, organizadas em torno de diferenças percebidas, e não
características de categorias fixas (Glenn, 2000, p. 9).3
No estudo das relações entre gênero e raça na produção de desigualdade ganhou
curso a tese da "dupla desvantagem", em que a pessoa que ocupa uma posição
subordinada em mais de uma hierarquia sofreria da soma das desvantagens de
ambas as dimensões. Essa idéia, embora freqüentemente invocada, não tem sido
devidamente examinada (Leffler e Xu, 1997, p. 71). A tese da "dupla
desvantagem" supõe que os efeitos de gênero e raça são aditivos, de modo que a
mulher não branca sofreria a soma da desvantagem plena associada aos dois tipos
de status subordinado. Uma revisão da literatura sociológica sobre a interseção
de gênero e raça no mercado de trabalho, com foco particular nos Estados
Unidos, sugere que a evidência coletada ainda seria mista, sem favorecer
claramente uma modalidade de interpretação, e dependeria da questão colocada,
do método empregado e do tipo de processo investigado. Apesar da ambigüidade
dos resultados empíricos apurados, este artigo argumenta que a focalização da
interseção entre ambas as divisões sociais pode enriquecer o entendimento da
desigualdade econômica e oferecer conceituações mais acuradas dos processos do
mercado de trabalho (Browne e Misra, 2003). A suposição de efeitos aditivos,
adotada como orientação ou por motivo de simplicidade, representa, na verdade,
uma tese bastante forte, pois supõe que o grupo subordinado enfrenta o ônus
integral do pior dos dois mundos. Estudo empírico mais recente apresenta
evidências amplas e robustas que colocam em questão a caracterização da "dupla
desvantagem" nos Estados Unidos, ao demonstrar que as mulheres de todos os
dezoito grupos minoritários estudados sofrem de uma menor penalidade de gênero
do que as mulheres brancas, dentro dos respectivos grupos raciais ou étnicos
(Greenmam e Xie, 2008).
As investigações da distância (gap) de gênero (ou raça) de renda devem estimar
médias ajustadas, não se limitando apenas a comparar médias observadas, pois
esse procedimento adicional revela-se importante para demonstrar relações
intrínsecas e especificar a natureza dos nexos subjacentes entre as variáveis.
Nas análises da distância de gênero de renda no Brasil, que estimam médias
ajustadas, predominam trabalhos escritos por economistas na perspectiva da
abordagem de "capital humano" (Kassouf, 1998; Matos e Machado, 2006). Este
paradigma hegemônico na área e com influências na própria sociologia subestima
as bases posicionais e relacionais da desigualdade social, o que não invalida
as contribuições parciais oferecidas e as evidências encontradas, embora
algumas delas precisem ser qualificadas e mesmo reinterpretadas, em particular
quando variáveis posicionais endógenas às divisões sociais são tratadas como se
fossem variáveis exógenas, a exemplo da aquisição de credenciais educacionais
(Reskin e Charles, 1999, pp. 389-390; Figueiredo Santos, 2002, pp. 199-216 e
253-262). A contribuição sociológica destaca-se particularmente nas
investigações sobre a desigualdade racial de recompensas (Valle Silva e
Hasenbalg, 1992; Hasenbalg et al., 1999; Telles, 2003). Entretanto, regra geral
esses trabalhos não conceituam nem modelam diretamente a possibilidade de
efeitos interativos entre ambas as variáveis. Um efeito interativo ocorre
quando a associação entre a variável independente de interesse (gênero) e a
dependente (renda) difere em força ou forma nos diferentes níveis, ou
categorias, da outra variável (raça) com a qual interage. Na medida em que raça
e gênero interagem, excluir um termo de interação do modelo explicativo produz
estimativas inexatas dos efeitos de gênero e raça (Reskin e Charles, 1999, p.
386). O presente estudo pretende dar uma contribuição diferenciada em cinco
aspectos: a introdução da dimensão da estrutura subjacente da desigualdade
econômica de classe na análise das diferenças estimadas; a exploração do
entendimento de que raça e gênero representam mecanismos causais distintos,
cujas conseqüências para a renda variam em termos da natureza dos nexos causais
(diretos ou mediados; tipos de fatores mediadores) e das respectivas
intensidades, o que tem importantes implicações para o estudo dos efeitos
conjuntos; a modelagem explicativa estrita dos efeitos interativos entre raça e
gênero, com o uso de termos multiplicativos entre ambas as variáveis; o uso de
uma especificação loglinear de um Modelo Linear Generalizado para estimar as
discrepâncias de médias condicionais; e a formulação de uma interpretação
teórica da interação estrutural, ou efeitos interativos, entre as divisões de
raça e gênero no Brasil.
Os estudos contemporâneos da estratificação social de cor no Brasil
demonstraram que em termos de desigualdades de recompensas materiais o
contraste marcante se faz entre brancos e não brancos (pardos e pretos). Foram
geradas evidências que apontam a existência de um "ciclo cumulativo de
desvantagens" que afeta a trajetória e os resultados atingidos pelos não
brancos. Esses trabalhos destacam o papel das assimetrias nas trajetórias
educacionais e na distribuição da escolaridade entre os grupos raciais nos
processos de mobilidade social e de constituição das discrepâncias de
rendimento. A desigualdade racial no Brasil, quando comparada aos Estados
Unidos, possui como uma de suas características específicas a pequena presença
dos não brancos no topo da pirâmide social (Valle Silva e Hasenbalg, 1992;
Hasenbalg et al., 1999; Telles, 2003). Estudo das interseções e interações
entre classe social e raça no Brasil contribuiu para demonstrar que grande
parte da desigualdade racial de renda é uma desigualdade de acesso a contextos
e recursos valiosos, notadamente alocação à estrutura de classes, posse de
credenciais educacionais e distribuição socioespacial (Figueiredo Santos,
2005a). A distinção analítica entre desigualdade de acesso e desigualdade de
tratamento, assim como a correta interpretação do significado de ambas, é uma
questão chave para entender a desigualdade racial no Brasil. O elo entre classe
social e raça, particularmente forte no Brasil, decorre da importância dos
processos de exclusão do controle de recursos que as duas divisões sociais
envolvem. Divisões sociais que se cruzam tão fortemente realçam o papel dos
efeitos indiretos e dos processos mediadores. As conseqüências das divisões de
raça, quando operam mediante a colocação dos não brancos em posições inferiores
na hierarquia social, testemunham a importância da raça como uma categoria
social que condiciona o acesso desigual aos "bens posicionais" valiosos e em
relação aos quais se constituem processos de discriminação de acesso ou
alocação.
A desigualdade de gênero no Brasil, como procurei demonstrar em outro artigo
conectado ao mesmo programa de investigação, estrutura-se com características
bem diferenciadas de raça. Gênero cria uma discrepância de renda observada bem
menor do que raça (32% contra 75%), entretanto produz uma divergência de renda
ajustada ou controlada muito maior (35% contra 13%), o que indica que estamos
diante de processos geradores de discrepâncias de renda muito divergentes.
Embora exista uma desigualdade de gênero de acesso à estrutura de classes e à
ordem ocupacional, as mulheres têm importantes vantagens posicionais
particularmente nos controles de credenciais educacionais, e o efeito direto de
gênero (desigualdade de tratamento) prepondera sobre o efeito indireto
(desigualdade de acesso) na explicação das discrepâncias de renda entre homens
e mulheres (Figueiredo Santos, 2008). Os processos de seletividade social,
cujos efeitos excludentes podem ser cumulativos, e que têm impactos decisivos
no controle de "bens posicionais", operam de modo muito mais forte entre as
divisões raciais. Embora a maior parte do efeito de raça seja indireta e a
maior parte do efeito de gênero seja direta, isso não quer dizer que raça seja
menos importante do que gênero. As divisões raciais geram conseqüências mais
pronunciadas e excludentes, assim como têm se relevado mais difíceis de serem
erodidas no Brasil.
Trabalhos realizados por economistas interessados na temática da discriminação
focalizam a comparação entre grupos combinados de raça e gênero: mulheres
brancas, mulheres negras, homens brancos e homens negros. Mattos e Machado
utilizam cross sections empilhadas para analisar a presença de discriminação
por sexo e cor no Brasil. O estudo usa uma técnica de decomposição e define a
discriminação na ótica tradicional da teoria de capital humano, como o
diferencial de rendimento que não pode ser atribuído às discrepâncias de
habilidades (resumidas pelo diferencial de escolaridade). Ao comparar a
desigualdade de renda de cor, no âmbito do mesmo sexo, o estudo constata que,
além do diferencial associado à discriminação, uma parte significativa, em
especial para os homens, deve-se à deficiência na dotação do atributo de
qualificação. Já na comparação da desigualdade entre homens e mulheres da mesma
cor, o trabalho constata uma redução do diferencial de sexo de rendimentos
entre 1987 e 2001, sendo que o que ainda se mantém da desigualdade se deve
somente a fatores associados à discriminação. A investigação conclui que "a
desigualdade de rendimento do trabalho no Brasil é ainda uma questão de sexo e,
sobretudo, de cor" (Matos e Machado, 2006, p. 23). Outro estudo sobre o perfil
de discriminação no mercado de trabalho compara os grupos com atributos
desvantajosos com os homens brancos, tomados como o grupo padrão, que
estabelece a norma no mercado de trabalho. Diversas técnicas são usadas para
analisar o diferencial de rendimento devido à discriminação sofrida pelos
indivíduos por não serem homens brancos. Constata-se que os homens negros
sofrem mais discriminação na formação e na inserção ocupacional, enquanto as
mulheres brancas sofrem mais discriminação na definição salarial, quando ambos
os grupos são comparados aos homens brancos. O perfil de discriminação das
mulheres negras seria "intermediário" entre os homens negros (baseada na
formação e inserção) e as mulheres brancas (baseada na definição salarial)
(Soares, 2000). Cacciamali e Hirata analisam a discriminação no mercado de
trabalho para homens e mulheres, segundo o grupo racial, em dois estados
brasileiros com composição racial distinta: Bahia e São Paulo. A investigação
compara a probabilidade de obtenção de renda, usado um modelo probit, com o
controle de idade e escolaridade, em três categorias que estruturam o mercado
de trabalho: dirigentes e gerentes, empregados com carteira de trabalho e
empregados sem carteira. Além disso, o trabalho focaliza o grupo diferenciado
de trabalhadores pobres, entendidos como aqueles que estão no primeiro quintil
da distribuição da renda média familiar per capita. Contata-se que a
discriminação de gênero predomina na categoria de dirigentes e gerentes; no
entanto, as probabilidades de obtenção de renda de homens e mulheres não
brancos, independentemente do nível de escolaridade, são inferiores àquelas dos
brancos. No grupo de empregado com registro prevalece a discriminação de
gênero, enquanto no de empregado sem registro destaca-se a discriminação
racial. Entre os pobres, existe discriminação de gênero, porém a discriminação
racial não apresenta significância estatística (Cacciamali e Hirata, 2005).
Examinar gênero e raça simultaneamente pode oferecer um quadro relevante das
situações específicas dos vários subgrupos formados das combinações dessas
categorias (Leffler e Xu, 1997, p. 73). Entretanto, ao se fazer isso, perdem-se
as demarcações entre as divisões de raça e de gênero, que representam
mecanismos causais distintos e cujas conseqüências para a renda se fazem sentir
através de características e elos explicativos diferenciados. A mulher negra no
Brasil, por ser mulher e negra, tende a estar em maior desvantagem, mesmo que
não exista uma "soma simples" das duas desvantagens. Entretanto, ao se realizar
a superposição de raça e gênero, como conseqüência torna-se difícil precisar a
contribuição independente de cada "componente" responsável por esta grande
desvantagem, das co-variáveis associadas a cada um, assim como dos fatores que
permitem entender os efeitos conjuntos, o que pode ser especialmente
problemático diante da existência de processos claramente divergentes entre as
duas divisões sociais. Em face das divergências constatadas entre gênero e raça
na desvantagem de renda bruta e de renda ajustada, que têm relação com a
predominância dos efeitos indiretos na desigualdade racial e dos efeitos
diretos na desigualdade de gênero, seria melhor trilhar um percurso analítico
que distingue e especifica os efeitos aditivos, diretos e indiretos, e os
interativos, que são efeitos sobre efeitos, em vez de tomar como ponto de
partida a fusão das duas categorias.
Estudos sociológicos mais recentes que abordam os efeitos conjuntos de gênero e
de raça na produção de desigualdade de recompensas realizam comparações
relevantes e reveladoras, porém não chegam a modelar diretamente, com o uso de
termos multiplicativos, os efeitos interativos que especificam as condições
segundo as quais os efeitos de uma variável de interesse se altera em força ou
forma a depender do nível ou categoria da outra variável com a qual interage.
Uma investigação sobre a relação entre o desenvolvimento regional desigual,
confrontando os estados de São Paulo e Bahia, e a desigualdade salarial de raça
e gênero no Brasil, mostrou que em 1991 a maior distância de gênero se
encontrava entre os brancos. Ao usar um modelo tradicional de decomposição da
distância de renda, em que a discriminação representa o "resíduo" não explicado
pelas dotações de capital humano, o estudo chega à conclusão já preconfigurada
pelo modelo adotado de que a mulher branca seria o "grupo que sofre a maior
discriminação salarial" (Lovell, 2000, p. 291). Estudo mais recente focaliza
explicitamente a articulação e a tematização cruzada dos determinantes de
gênero e de natureza étnico-racial. A decomposição do diferencial de salários
revela que as mulheres brancas sofrem mais da discriminação gerada no interior
do mercado de trabalho. Os homens negros são mais penalizados pela desigualdade
de acesso às credenciais educacionais. Entre as posições mais elevadas no
mercado de trabalho, no entanto, prevalece também para os homens negros o
componente de discriminação. Já entre as mulheres negras um caleidoscópio de
fatores de acesso e de discriminação direta explicam a distância salarial em
relação aos homens brancos. O grau de discriminação é crescente conforme se
caminha para o topo da hierarquia de renda e isso prevalece para todos os
grupos subordinados (Bidernam e Guimarães, 2004).
Persiste ainda um conhecimento empírico limitado das discrepâncias de
recompensas que emergem das interações entre gênero e raça. Como se não
bastasse esta limitação, o tratamento das interações entre raça e gênero tem se
realizado muitas vezes de modo passivo, como se as evidências de efeitos
interativos representassem basicamente nuanças empíricas. Não tem sido feita
uma tentativa de derivar significado teórico para os padrões interativos
encontrados. Entretanto, os efeitos interativos entre raça e gênero possuem
informação de interesse teórico que deve ser abordada de modo direto e ativo
(Greenmam e Xie, 2008, p. 1219). O presente estudo insere-se em um programa de
investigação abrangente das principais divisões sociais no país, notadamente
classe, raça e gênero, com uma unidade ou convergência de orientações teóricas,
instrumentos de mensuração, base de dados e estratégias de análise. Os
resultados obtidos pela investigação prévia das características específicas das
divisões categóricas de raça e gênero contribuem para clarificar os termos de
comparação entre as categorias, esclarecem as divergências de processos e
conseqüências, assim como oferecem uma oportunidade especial para abordar os
efeitos interativos entre ambas as divisões sociais.
Pretende-se colocar à prova a proposição de que a desigualdade de gênero no
Brasil não seria homogênea entre os grupos raciais. Uma especificação adequada
dos processos causais nos estudos da desigualdade de gênero envolve a
incorporação das interações entre raça e gênero, de modo que o desenho da
investigação permita que o efeito de gênero possa diferir entre os grupos
raciais, evitando-se a suposição de que a desigualdade de gênero seria
equivalente entre brancos e não brancos (Reskin e Charles, 1999, pp. 385-386).
As explicações da desigualdade entre homens e mulheres não podem ser
generalizadas automaticamente para brancos e não brancos. Foi escolhido o
recorte racial dicotômico entre brancos e não brancos (pardos e pretos), pois
se encontra aí o divisor preponderante da desigualdade racial de renda no
Brasil (Valle Silva, 2000, pp. 18-19; Telles, 2003, p. 192).
Este estudo adota uma abordagem sociológica que privilegia os determinantes
relacionais, categóricos e estruturais na geração de desigualdades de
recompensas. Não se adota aqui a solução tradicional de estimar resíduos da
análise de regressão, após o controle dos fatores de capital humano, como
medidas do conceito de discriminação. Essa prática revela limitações em
particular quando se pretende comparar duas dimensões distintas da
desigualdade, como são raça e gênero, cada qual com os seus próprios
determinantes estruturais. Esse tipo de abordagem tradicional, ao constatar que
as diferenças de gênero de rendimentos, ajustadas por capital humano, são
maiores que aquelas de raça, estimula a conclusão artificial de que a
discriminação de gênero suplantaria a discriminação racial. Tal conclusão
representa basicamente um resultado construído pelos próprios termos em que a
questão é posta. A lógica subjacente a essa abordagem alimenta a prática
teórica e empiricamente pouco consistente de tratar variáveis endógenas como se
fossem exógenas. As variáveis estipuladas supostamente como exógenas às
divisões sociais podem responder estatisticamente por uma parte substancial das
diferenças de rendimentos do trabalho, em particular no caso de raça. Os
indicadores de capital humano e social, no entanto, devem ser tratados tanto
como resultados como causas da desigualdade racial e de gênero. Eles estão
inextricavelmente associados ao papel que raça e gênero tem tido e continuam a
ter como princípios fundamentais de organização da vida social (Marini, 1989,
pp. 361-362; Reskin e Charles, 1999, pp. 389-393).
No tratamento das interações entre gênero e raça, com a construção de termos
multiplicativos, manteremos o foco na desigualdade de gênero, tendo em vista o
argumento teórico que será desenvolvido. Sem desconhecer a natureza simétrica
dos efeitos interativos, pretende-se estimar a variação racial do "efeito de
gênero". Essa abordagem possui a virtude de mensurar a magnitude e a
significância estatística do efeito condicional, ou seja, o montante da
distância de gênero de renda em cada grupo racial. Entretanto, possui a
limitação de não realizar uma comparação direta entre, por exemplo, o homem
branco e a mulher não branca, ou entre quaisquer dois grupos que difiram um do
outro tanto em raça como em gênero (Greenmam e Xie, 2008, p. 1218). Por outro
lado, ao se considerar os grupos que contrastam em ambas as dimensões,
confundem-se os mecanismos e os resultados característicos de cada divisão
social e perde-se a distinção da desigualdade de gênero, que foi o "ângulo"
escolhido para olhar as interações entre gênero e raça.
Este estudo pretende abordar igualmente, como um passo preliminar, a
desigualdade de alocação ou acesso à estrutura de classes dos grupos combinados
de gênero e raça. A estrutura social marca um padrão de desigualdade entre as
posições de classe. Parte importante das discrepâncias entre estes grupos
combinados pode ser mediada pelo acesso aos contextos de classe que são
desigualmente recompensados. O contexto subjacente da estrutura da desigualdade
econômica de classe ajuda a situar e entender os componentes de alocação
subjacentes às discrepâncias de gênero de renda entre os grupos raciais.
Distribuição dos grupos e acesso à estrutura de classes
A Tabela_1 retrata os padrões de distribuição e acesso desproporcional de
homens e mulheres, diferenciados por grupo racial, à estrutura de posições de
classe no Brasil. A distribuição percentual de gênero entre as categorias de
classe permite desde já identificar uma relação, ou associação, entre as duas
variáveis e mostrar o quanto gênero condiciona o acesso à ordem de classe.
Entretanto, a comparação entre os grupos será realizada recorrendo à noção de
chances (odds) e ao cálculo das razões entre chances (odds ratio) ou chances
relativas. Uma chance representa a razão entre a freqüência de estar em uma
categoria e a freqüência de não estar nesta categoria. Isto equivale a comparar
duas probabilidades formando a razão entre as probabilidades. O resultado pode
ser interpretado como a chance de um indivíduo selecionado ao acaso na
população ser encontrado na categoria de interesse em vez de em outra
categoria. Na análise de dados categóricos, o "efeito" de uma variável na outra
é mais bem expresso em termos de chances relativas, que corresponde à razão
entre duas chances. A chance de uma categoria pode ser comparada com qualquer
outra. Comparam-se nesta tabela apenas as discrepâncias de gênero de chances em
cada universo racial distinto. Esta medida que permite comparar as chances, ou
mensurar as chances relativas, possui uma interpretação simples. Quando as
chances das duas categorias comparadas são iguais, o razão resultará no valor 1
(um), o que equivale à inexistência de associação estatística. Valores menores
que 1 (um) implicam em uma associação negativa, e maiores que 1 (um), em uma
associação positiva. Quanto mais o valor se distanciar de 1 (um) maior será a
associação (Reynolds, 1982; Rudas, 1998). Na Tabela_1 o homem (branco ou não
branco) forma o numerador das razões entre chances.
No universo do grupo branco, os homens possuem uma vantagem de gênero de acesso
a todas as posições que implicam em controle de ativos de capital e de terra.
Esta vantagem cresce conforme aumenta a dimensão do capital controlado. Na área
agrícola, onde predominam relações de gênero mais tradicionais, a chance
masculina de ser o titular de uma pequena atividade agrícola é multiplicada por
4,45 em comparação à feminina.
Entre as localizações privilegiadas de classe média existe no grupo branco uma
forte desvantagem masculina no acesso à condição de empregado especialista, um
quase equilíbrio à posição de especialista autônomo e uma pequena vantagem à
posição de autoridade exercida pelo gerente. Ao olhar o conjunto da
configuração de classe média no universo branco, os homens ostentam uma
desvantagem de acesso, devido ao peso relativo ou densidade maior do emprego de
especialista ' o que pode ser visto comparando as percentagens nas colunas ' e
ao fato de as chances relativas da mulher serem pronunciadamente maiores nesta
categoria.
Entre as posições ambíguas de classe de empregados qualificados e supervisores,
as associações se fazem em direções opostas. As chances de acesso aumentam
significativamente entre os supervisores e regridem fortemente entre os
empregados qualificados. O quadro registrado na última categoria reflete o
avanço educacional das mulheres e o forte contingente de professoras de
primeiro grau presentes nesta posição.
Ao voltar o olhar para a base da estrutura de classes, constata-se que os
homens brancos têm chances relativas maiores, embora não muito maiores, de
estarem no grande agregado de trabalhadores típicos. Entre as posições de
classe destituídas, logo abaixo na Tabela_1, a chances masculinas suplantam
bastante as chances femininas de serem encontradas entre as ocupações mais
braçais tanto agrícolas como não agrícolas que compõem os trabalhadores
elementares. Por outro lado, os homens possuem uma vantagem de gênero de
estarem negativamente associados às posições de autônomos precários e
empregados domésticos, que obtêm menores recompensas.
Não serão comentadas aqui as discrepâncias de alocação entre os grupos raciais,
que podem ser facilmente constatadas comparando as colunas de percentagens,
pois isso foi objeto de outro estudo (Figueiredo Santos, 2005a). Tendo em vista
o foco do presente estudo nas variações raciais da desigualdade de gênero, a
Tabela_1 serve para mensurar o componente de desigualdade de gênero de acesso
às posições de classe desigualmente recompensadas que podem estar subjacentes
às discrepâncias de gênero de renda e às possíveis divergências neste hiato de
renda quando são confrontados os grupos raciais.
Quando são comparados o universo branco e o universo não branco percebem-se
semelhanças e divergências nos padrões de interseções ou cruzamentos entre
classe e gênero. Os homens não brancos possuem maiores vantagens relativas no
acesso a ativos de capital, e estas vantagens crescem igualmente conforme
aumenta a dimensão do capital controlado.
Entre os não brancos o exercício de autoridade representa uma prerrogativa de
acesso masculina mais forte, em particular na posição de primeira linha de
supervisão. Já na dimensão de controle de ativos de qualificação, exceto entre
os especialistas autônomos, ser homem no universo não branco implica em
associação fortemente negativa com as posições que incorporam qualificação e
perícia entre os empregados.
Entre a classe trabalhadora assalariada vinculada às formas coletivas de
trabalho, que exerce um trabalho típico ou elementar, os homens não brancos
possuem fortes vantagens de gênero de acesso quando confrontados às mulheres do
mesmo grupo racial. Já entre as posições de classe destituídas que são
autônomas ou estão inseridas no âmbito domiciliar, as chances relativas de
gênero mostram-se bastantes semelhantes em ambos os universos raciais. A
distribuição racial entre estas posições, cabe observar, é extremamente
divergente: os não brancos estão muito mais concentrados entre os trabalhadores
elementares e os empregados domésticos. Entretanto, a análise realizada aqui
focaliza as discrepâncias de gênero dentro de cada grupo racial. As razões
entre chances cumprem bem este objetivo, pois representam medidas de associação
que buscam captar relações inerentes entre as variáveis, ou seja, as relações
intrínsecas que independem das divergências entre as distribuições marginais
das variáveis contrastadas.
Distâncias de gênero de renda entre os grupos raciais
A Tabela_2 apresenta dados sobre as diferenças de renda média em reais entre as
interseções ou cruzamentos das categorias sociais de interesse, tendo em vista
a necessidade de situar o papel mediador da estrutura de classes no
entendimento da variação racial das discrepâncias de gênero de renda. A última
linha dessa tabela, onde está o total, revela que a vantagem masculina de
renda, não ajustada por outras variáveis, é maior entre os brancos (46,14%) do
que entre os não brancos (38,55%). Além disso, observa-se que na verdade
existem diferentes patamares de vantagem masculina, a depender do contexto de
classe, o que testemunha o papel não apenas mediador, mas também moderador da
estrutura de classes. O papel mediador decorre do acesso diferenciado às
posições que são desigualmente recompensadas. O papel moderador de classe
mostra-se através do fato de que a distância de gênero de renda se acentua ou
se atenua a depender do contexto de classe, conforme demonstrado em outro
artigo (Figueiredo Santos, 2008). Caberia então observar se o distanciamento da
média geral, ou seja, a sua variação entre os contextos de classe, seria
semelhante ou não entre os grupos raciais, particularmente entre as categorias
de classe que possuem uma densidade maior na estrutura de classes e por isso
possuem um peso maior na formação da média do grupo racial. O resultado não
mostra um contraste marcante. Entre os brancos e não brancos iguais números de
contextos de classe (seis) e quase os mesmos contextos, exceto um, puxam a
média da discrepância de gênero de renda para cima. Os dados sinalizam, então,
uma importância maior da desigualdade de gênero de acesso à ordem de classe
como um fator a ser considerado no entendimento das variações raciais da
discrepância de gênero de renda.
Método de análise e modelo estatístico
Passa-se agora à especificação do método de análise dos dados e das
características do modelo estatístico usado para estimar a distância (gap) de
renda ajustada. O confronto simples de rendas médias, ainda que relevante, pois
mostra a distância bruta de renda entre as categorias, não permite demonstrar
sem ambigüidades o "efeito de gênero", uma vez que a renda está associada
também a outras variáveis, que cabe controlar, para ver a variabilidade da
renda que decorre do fator de interesse. Além disso, a aplicação de um modelo
estatístico incorpora à análise as múltiplas variáveis que atuam no interior do
nexo original constatado. Esse processo de elaboração da relação original
permite abordar e trazer à superfície a estrutura subjacente dos dados. A
análise da variação da desigualdade de gênero de renda no Brasil, entre os
grupos raciais, será realizada estimando-se a distância de gênero em sucessivos
Modelos Lineares Generalizados, que incluem outros fatores com impacto
importante na renda e que podem estar associados às divisões de gênero e de
raça. O uso destes "experimentos estatísticos" permite conhecer os principais
fatores que conformam, especificam e medeiam a desigualdade de gênero, assim
como estabelecer os efeitos diretos, não mediados, das divisões de gênero entre
os grupos raciais.
A presente investigação beneficia-se de uma nova proposição metodológica
formulada pelo professor Trond Petersen, da Universidade da Califórnia-
Berkeley, para a estimativa da média condicional de uma variável dependente
intervalar, como a renda. Essa solução retém a vantagem interpretativa de
estimar diferenças relativas de rendimentos médios, porém sem os problemas
associados à especificação semilogarítmica de um modelo de regressão padrão.
Uma especificação loglinear de um Modelo Linear Generalizado produz
interpretações de diferenças relativas, em termos de médias aritméticas, em vez
de médias geométricas, ao contrário do que ocorre com a especificação
semilogarítmica do modelo de regressão OLS, após o cálculo do exponencial do
coeficiente estimado, visando à sua reconversão para a métrica original da
variável dependente intervalar (Petersen, 2006; Goodman 2006). O Modelo Linear
Generalizado têm três componentes: um aleatório, um sistemático e um de
ligação. O primeiro refere-se à variável dependente e à distribuição de
probabilidade que está associada a ela. O componente sistemático diz respeito
às variáveis independentes e como elas se combinam com a finalidade de
construir um modelo explicativo. O de ligação especifica como a média da
variável dependente está relacionada com o chamado preditor linear (o modelo
explicativo). A média pode ser modelada diretamente ou alguma função monotônica
da média pode ser então modelada (Agresti, 2007, pp. 66-67; Jaccard, 2001, pp.
3-4).4 O presente estudo utilizará o Modelo Linear Generalizado com uma função
de ligação logarítmica e uma distribuição Gamma. Na especificação loglinear
deste Modelo a transformação logarítmica é internalizada dentro do próprio
modelo. A função de ligação exponencializa o preditor linear em vez de fazer a
transformação logarítmica da variável dependente. Já a distribuição Gamma é
apropriada para lidar com variáveis dependentes positivas com coeficiente de
variação constante ' propriedade que compartilha com a distribuição log-normal
', mas o modelo é robusto mesmo na presença de grandes desvios deste critério.
Modelar observações com uma distribuição Gamma e uma função de ligação
logarítmica é uma alternativa melhor do que usar a regressão padrão com a
transformação logarítmica da variável dependente, pois o modelo não requer
nenhuma transformação externa, retém as observações originais e é mais fácil de
interpretar. "De fato", explicam Hardin e Hilbe, "porque o formato dos dois
parâmetros da distribuição gamma é flexível e pode ser parametrizado para
ajustar muitos formatos de resposta, ele seria preferível ao modelo Gaussiano
para muitas situações de dados com respostas estritamente positivas" (Hardin e
Hilbe, 2007, p. 90; Halekoh, 2007). Todos os Modelos formam estimados, usando o
programa estatístico Stata, versão 9.2 (Stata, 2005).
A medida apropriada da distância de renda entre categorias contrastadas depende
do propósito da análise. A distância de renda estimada aqui reflete diversas
formas de discriminação, não apenas aquelas que ocorrem no âmbito da inserção
no mundo do trabalho, mas também as conseqüências decorrentes de escolhas e
trajetórias empreendidas sob a influência de constrangimentos vividos ou
antecipados (Gunderson, 1989, pp. 48-49). Os coeficientes da especificação
loglinear, ao fornecerem diferenças relativas entre as categorias, ajustam-se
bem à lógica teórica do estudo da desigualdade. Esta especificação, além disso,
ajuda a corrigir a forte assimetria positiva da distribuição e contribui para
reduzir a influência na estimativa dos valores extremos dissonantes do
conjunto.
Na especificação da equação de rendimentos para estimar a distância de gênero,
o tratamento das horas trabalhadas joga um papel bastante importante. Segue-se
aqui a especificação proposta pelo inovador trabalho metodológico de Morgan e
Arthur, que evita a subestimação do gap de gênero de renda. Recomenda-se o uso
do log do rendimento como variável dependente e do log do tempo trabalhado como
variável independente de controle, com o retorno para o equivalente em log das
horas trabalhadas variando de modo seccional (piecewise), em uma função spline,
através do espectro de horas trabalhadas (Morgan e Arthur, 2005, pp. 398-401).
O equivalente da primeira recomendação em um Modelo Linear Generalizado seria a
escolha da função de ligação logarítmica.
A comparação entre grupos envolvendo o controle de múltiplas variáveis, visando
a estudar efeitos interativos ou condicionais, às vezes é feita por meio do
cálculo de equações de regressão para cada grupo em separado. Entretanto, essa
prática analítica usualmente não resulta num teste estatístico de diferenças
nos coeficientes estimados entre os dois grupos, quando este teste é necessário
caso se queira falar de diferenças entre os grupos. A análise conduzida com a
construção de termos interativos, aplicada aqui, realiza esta avaliação
estatística das diferenças entre grupos (Jaccard e Turrisi, 2003, p. 36). No
modelo interativo, a variável independente X possui um efeito condicional, que
depende do valor da variável Z, com a qual interage. Estima-se o efeito de X em
Y, dado Z=0 (zero). Quando são construídos termos interativos entre variáveis
binárias, como gênero e raça, o efeito condicional ao valor 0 (zero) refere-se
naturalmente à categoria de referência (omitida) da outra variável que compõe o
termo interativo (Brambor, Clark e Golder, 2006, pp. 73-74). A análise das
variações da distância de gênero entre os grupos raciais utilizará a estratégia
de "recodificação das variáveis binárias", em que são realizados sucessivos
recálculos da equação de regressão e produzidas as estatísticas relevantes após
a especificação de cada categoria de referência de interesse (Jaccard e
Turrisi, 2003, pp. 55-60).
A pesquisa empírica utiliza a base de microdados da PNAD de 2005 (IBGE, 2006).
A amostra utilizada neste estudo é composta de 165.147 casos, que possuem
informações válidas para todas as variáveis. Devido à escolha da especificação
loglinear de um Modelo Linear Generalizado, a análise foi restrita aos casos
com renda positiva. Utiliza-se apenas a renda do trabalho principal, por motivo
de ajuste, já que a classificação socioeconômica usada para mensurar o conceito
de classe social foi construída com base no trabalho principal da pessoa.
Variações da distância de gênero entre os grupos raciais
A Tabela_3 apresenta os resultados dos modelos estimados já convertidos em
diferenças percentuais a favor do homem5. O modelo 1, composto apenas das
variáveis do termo interativo, mostra que a vantagem de gênero dos homens não é
homogênea entre os grupos raciais. A distância de gênero entre os brancos
suplanta a registrada entre os não brancos. Este padrão revelador de uma maior
penalidade de gênero para as mulheres brancas será mantido em todos os modelos,
com variações de intensidade.
O modelo 2 controla as diferenças de horas trabalhadas entre homens e mulheres
recorrendo a uma solução que evita a subestimação da distância de gênero,
conforme foi demonstrado em outro artigo (Figueiredo Santos, 2008). A
desigualdade existente de horas trabalhadas entre homens e mulheres, ainda
assim, faz com que a distância de gênero seja reduzida em ambos os grupos
raciais. Entretanto, a distância se reduz mais entre os não brancos, mostrando
que neste grupo existe uma maior divergência de gênero no efeito das horas
trabalhadas, conforme captado pela spline linear, o que gera um aumento da
discrepância de gênero entre os dois universos raciais.
O modelo 3 introduz o controle das credenciais educacionais. Controlam-se neste
modelo os efeitos da desigualdade de educação entre os grupos e dos
diferenciais de renda por nível educacional. Na especificação do modelo de
regressão sem termos interativos entre a credencial educacional e o fator
atribuído raça ou gênero, os diferenciais de renda por nível educacional seriam
equivalentes entre os grupos. Isso significa que o efeito produzido na
distância de renda decorre, dados os diferenciais existentes de renda por nível
educacional, da desigualdade de educação encontrada entre as categorias. Esse
procedimento produz e revela um incremento muito significativo da desigualdade
de tratamento de gênero nos grupos raciais. O aumento absoluto ainda mais forte
da distância entre os brancos faz com que a discrepância racial na desigualdade
de gênero atinja aí o seu ponto mais alto. Como a distância de renda já está em
um patamar muito elevado entre os brancos, o controle estatístico das
credenciais educacionais ' o controle de um fator que faz emergir o efeito
direto da desigualdade de tratamento de gênero ' incrementa a variação absoluta
da distância de gênero entre os grupos raciais, embora o seu aumento relativo,
em comparação ao percentual registrado no modelo anterior, mostre uma
divergência muito pequena entre os grupos raciais.6
O controle das discrepâncias de tempo de trabalho e tempo no trabalho atual,
realizado no modelo 4, em que as mulheres brancas e não brancas possuem
desvantagens, reduz a diferença entre as duas distâncias, mas essa defasagem
ainda se mantém em um patamar alto. De uma maneira muito simplificada pode-se
dizer que o controle da variabilidade devido a uma desvantagem diminui a
distância de renda entre o grupo em desvantagem (mulher) e o privilegiado
(homem), revelando-se, desse modo, o peso da contribuição deste componente da
distância de gênero de renda. Nesse sentido as discrepâncias de gênero em
relação a estes fatores parecem ser maiores entre os brancos, poisocorre aí a
maior retração tanto absoluta como relativa da distância de gênero.
Os controles das circunstâncias de localização geográfica, moradia urbana e de
condição de migração, realizados no modelo 5, aumentam as distâncias de gênero
em ambos os grupos raciais, porém esse processo ocorre com mais força no grupo
não branco, o que precipita uma redução da sua variação racial. Esse resultado
mostra que a distribuição regional e urbana dá uma pequena vantagem relativa à
mulher no grupo não branco, quando confrontada ao homem não branco, pois o seu
controle estatístico faz com que aumente mais a distância de gênero neste grupo
racial.
A partir do modelo 6 são introduzidas variáveis socioeconômicas relacionadas
com a divisão social do trabalho e que são de natureza tipicamente estruturais.
O modelo 6 faz com que volte a crescer a divergência na distância de gênero. A
desigualdade de gênero de acesso aos setores econômicos, nos quais existem
diferentes padrões de renda média, revela-se maior entre os não brancos, pois o
controle deste componente mediador da desigualdade gera uma redução maior da
distância de gênero de renda neste grupo racial, o que produz o incremento da
sua discrepância entre os grupos raciais.
A introdução das categorias de classe, no modelo 7, reduz a discrepância entre
as distâncias de gênero ao seu nível mais baixo. Isso significa que o acesso
assimétrico às posições de classe, que são desigualmente recompensadas, joga um
papel chave na explicação da divergência existente. Cabe primeiro descortinar o
tipo de distância de renda que passou a ser estimada neste modelo. Controla-se
agora a distribuição diferenciada de homens e mulheres entre as posições de
classe, dentro de cada universo racial, e as discrepâncias de remuneração entre
as posições de classe. A desigualdade de acesso à ordem de classe entre homens
e mulheres parece ser maior no universo branco, pois o controle das interseções
entre classe e gênero em cada grupo racial aproxima mais as distâncias de
gênero de renda entre brancos e não brancos, devido ao fato de a distância de
gênero cair mais no grupo branco, tanto no nível absoluto como relativo. O
forte componente de acesso desigual a recursos valiosos, que está associado à
opressão racial, responde possivelmente por uma menor diferenciação de classe
entre mulheres e homens não brancos.
Por fim, o modelo 8 incorpora um indicador de segregação ocupacional de gênero,
que é a proporção de mulheres em cada um dos 519 grupos ocupacionais da PNAD. O
controle da segregação ocupacional de gênero existente no interior das
categorias de classe social ' a alocação entre as posições de classe já foi
controlada estatisticamente no modelo anterior ' tem um grande impacto na
distância de gênero, porém aumenta apenas ligeiramente a sua divergência entre
os grupos raciais. Note-se então que a divergência entre os grupos raciais está
mais associada aos grandes agregados da estrutura de classes, já que o
componente interno de segregação ocupacional, apesar da sua importância como
fator mediador da desigualdade de gênero nos dois grupos raciais, responde
apenas por uma tênue desvantagem relativa da mulher não branca, indicada pelo
fato da vantagem masculina diminuir mais no grupo não branco.
Método alternativo: o efeito contido no termo interativo
Uma metodologia alternativa para analisar e apresentar os efeitos interativos
entre gênero e raça nos rendimentos foi proposta e utilizada por Emily Greenmam
e Yu Xie (2008). Após fazer uma revisão crítica da tese da "dupla desvantagem"
na literatura norte-americana, assim como das estratégias desenvolvidas para
estudar os efeitos conjuntos de raça e gênero, o trabalho oferece um modelo de
investigação empírica, usando o que seria, na formulação das autoras, uma
conceituação nova e menos restritiva dos seus efeitos. Nesta abordagem, o
coeficiente de interesse principal na equação de regressão é aquele formado
pelo termo de interação entre as variáveis raça e gênero. Para entender
adequadamente o significado do valor captado pelo termo interativo, cabe
atentar para o fato de este não representar estritamente a magnitude de um
efeito, como são os coeficientes das variáveis que o compõem, mas expressar
essencialmente como um efeito muda, ou seja, ele corresponde a um efeito sobre
um efeito (Kam e Franzese, 2007). O estudo desenvolvido aqui tem relação
estreita com esta metodologia, diferindo mais na forma de apresentação dos
dados, pois a variação racial do coeficiente de gênero entre os grupos raciais
decorre justamente da magnitude e do sinal (positivo ou negativo) do termo
interativo, que estima como o efeito de raça muda o efeito de gênero ou,
simetricamente, como o efeito de gênero muda o efeito de raça.7
No modelo interativo construído aqui para aplicar este método alternativo, raça
é incluída como variável binária que assume o valor 1 para o branco. Gênero é
incluído como uma variável binária que recebe o valor 1 para o homem. Gerou-se,
então, um termo interativo ou multiplicativo entre a variável raça e gênero. O
coeficiente do termo interativo representa a extensão em que ser membro do
grupo racial branco tem um efeito diferente para o homem em comparação à mulher
ou, alternativamente, a extensão em que ser homem tem um efeito diferente para
membros do grupo branco em relação aos membros do grupo não branco. O
exponencial ou antilog do coeficiente do termo interativo, na codificação
adotada aqui, pode ser pensado como a taxa de rendimento observado/predito ou
esperado do homem branco, em que o rendimento predito é baseado na suposição de
efeitos apenas aditivos (ausência de interação) entre as variáveis raça e
gênero. O Modelo Linear Generalizado usado neste estudo exponencializa o
preditor linear. As pesquisadoras norte-americanas usam um modelo de regressão
padrão com a transformação logarítmica dos rendimentos. Um valor positivo do
coeficiente corresponde ao exponencial maior que 1, enquanto o valor negativo
corresponde a um valor menor que 1 (Greenam e Xie, 2008). O exponencial do
coeficiente no valor de 1 equivale à ausência de interação entre as variáveis,
ou seja, o coeficiente de raça não afeta o de gênero e vice-versa. Esta forma
de apresentação tem o mérito de realçar o significado do termo de interação, de
um modo matemático simples e claro, como uma discrepância positiva ou negativa
em relação ao valor 1 (um) neutro, que traduz ausência de interação.
A Tabela_4 apresenta o exponencial do coeficiente estimado do termo interativo,
que dá a taxa de rendimento observado em relação ao predito para o homem
branco. Os valores do exponencial do coeficiente, nos diversos modelos
estatísticos, indicam que os rendimentos médios do homem branco variam de 5,0%
(modelo 7) a 9,9% (modelo 3) a mais do que seria predito sob a suposição de
relações apenas aditivas entre as variáveis raça e gênero. A discrepância entre
o rendimento observado e predito do homem branco mostra que este se beneficia
de um ganho adicional de gênero em comparação ao homem não branco.
Greenmam e Xie (2008) constataram a existência na sociedade norte-americana de
uma maior penalidade de gênero para a mulher branca, quando comparada a todos
os outros grupos raciais e étnicos. Na interpretação deste resultado,
recorreram ao enfoque de especialização de papéis, baseado na economia
neoclássica, cujo modelo teórico vincula a desigualdade no trabalho à
desigualdade de gênero na família. As autoras encontraram alguma evidência que
sugere que nas famílias brancas existiria uma maior especialização de papel do
que nas famílias de outros grupos raciais. Isso significa que a mulher branca
nos Estados Unidos, na ótica desta abordagem de especialização de papéis,
possuiria uma maior penalidade de gênero na sua renda individual, pois o
contexto familiar particularmente dos casais brancos com filhos, diferente
daquele da mulher não branca, indicaria uma "racionalidade econômica" derivada
desta vantagem de grupo, associada à especialização de papéis entre homens e
mulheres, dentro da divisão de trabalho e do compartilhamento de renda
familiar, ainda que a mulher tenha nesta especialização uma função individual
subalternizada no mercado de trabalho. A convergência metodológica entre os
dois estudos, no entanto, não impede a existência de uma importante divergência
teórica na interpretação dos resultados obtidos, apesar de as evidências
apresentadas por ambos os artigos contradizerem os pressupostos aditivos
inerentes à proposição da dupla desvantagem. O presente artigo, ao se debruçar
sobre os dados brasileiros, inscreve-se em uma orientação sociológica situada
dentro da tradição marxista em ciências sociais e adota uma linha de
interpretação distinta.
Significado teórico da interação entre gênero e raça
A noção de limitação estrutural ajuda a clarificar o aparente paradoxo
subjacente à menor penalidade de gênero sofrida por um grupo racialmente
privilegiado, que ocorre como conseqüência dos processos de interação entre os
determinantes sociais. Erik Olin Wright introduziu a noção de "modo de
determinação" com a finalidade de enfatizar a pluralidade de causas dentro da
teoria marxista. A limitação estrutural seria, então, um modo de determinação
em que uma estrutura ou processo estabelece limites de variação em outra
estrutura ou processo (Wright, 1980 e 1981). A interpretação dos resultados
encontrados destaca a forma assumida pelo processo de interação estrutural
entre as hierarquias sociais e as características da desigualdade racial no
Brasil. Em primeiro lugar, deve-se entender que a hipótese da "dupla
desvantagem" reflete uma visão "estanque" da estruturação da desigualdade, pois
pressupõe que a desigualdade em uma hierarquia não gera conseqüências para a
desigualdade na outra hierarquia. A pessoa em posição subordinada nas duas
hierarquias sofreria, então, o efeito integral somado de ambas as
desigualdades. A relação não aditiva ou interativa supõe a possibilidade de uma
hierarquia social condicionar o efeito da outra hierarquia: interação equivale
justamente a um efeito sobre outro efeito. A forma deste condicionamento pode
ser pensada como um constrangimento da assimetria passível de ser produzida
pela outra hierarquia. Em segundo lugar, no Brasil existe uma disparidade
racial de renda muito elevada, como pode ser constatado na distância racial
bruta. Da mesma forma, homens e mulheres não brancos sofrem de um elevadíssimo
componente de desigualdade de acesso a contextos e recursos valiosos, que
caracteriza a desigualdade de raça no Brasil. Esta opressão racial tão
acentuada seria capaz de tolher, em certa medida, a variação que pode ser
produzida por outros atributos, como gênero, no interior do grupo não branco,
subordinado na dimensão racial. Processo semelhante foi constatado no estudo
das interações entre classe e raça no Brasil, que demonstrou a existência de
uma menor desigualdade de classe entre os não brancos, em relação aos brancos.
A interação estrutural entre classe e raça assume um sentido especialmente
restritivo quando a exploração de classe comum limita a desigualdade racial
dentro da classe trabalhadora e, de modo especial, no seu segmento mais
destituído (Figueiredo Santos, 2005a). Quando são controladas as diferenças de
recursos e contextos valiosos, que estão no cerne da desigualdade racial
brasileira, a variação racial entre as distâncias de gênero de renda recua para
um patamar menor. A explicação, no Brasil, da maior vantagem de gênero do homem
branco, equivalente à menor vantagem do homem não branco, se radicaria nas
características da desigualdade racial. O peso da opressão racial comum de
mulheres e homens não brancos deixaria um espaço menor para a realização da
assimetria causal associada ao atributo de gênero. A hierarquia racial
estabeleceria certo limite de variação à hierarquia de gênero. Parte principal
do efeito de raça na discrepância de gênero é mediada pela alocação desigual
dos grupos raciais na estrutura de classes. A variação racial da distância de
gênero de renda, como foi demonstrada, atinge o seu menor montante (6,56%)
quando ocorre o controle estatístico das categorias de classe social. A
estrutura subjacente da desigualdade econômica de classe revela-se um
importante fator mediador na constituição dos padrões que emergem das
interações entre raça e gênero.
Em um quadro geral de alta vantagem de gênero a favor dos homens, a menor
penalidade de gênero sofrida pelas mulheres não brancas, por conta de uma certa
compressão social introduzida pela opressão racial, não deve obscurecer o fato
de estas mulheres experimentarem uma forte desigualdade de acesso aos contextos
de classe desigualmente recompensados. A dimensão de perícia e qualificação
permitiu avanços de classe para a mulher no seu mundo racial de não brancos.
Entretanto, a vantagem obtida pelas mulheres não brancas, em relação aos homens
da mesma cor, no acesso às posições privilegiadas de classe média, mostra-se
contraditada por uma forte distribuição relativa entre as posições mais
destituídas, que possuem uma densidade social muito maior. Entre as mulheres
não brancas, deve-se lembrar, a divisão racial permanece ainda como uma
barreira bem mais difícil de ser transposta do que a desigualdade de gênero. Na
verdade, todos os não brancos (homens e mulheres) estão em clara desvantagem na
ordem de classe.
Notas
1 Tal programa explora os efeitos das divisões de classe, raça e gênero, assim
como de suas interseções e interações, na produção da desigualdade. Utiliza-se
como instrumento analítico uma classificação socioeconômica para o Brasil que
aperfeiçoa a tipologia utilizada no livro Estrutura de posições de classe no
Brasil (Figueiredo Santos, 2002). Os fundamentos teóricos das suas categorias
empíricas foram formulados em outro artigo (Figueiredo Santos, 2005b).
2 Considerando o percurso já trilhado e o interesse atual pelas relações
condicionais entre essas categorias, não será repetido aqui o posicionamento
teórico dessas noções sociológicas. A recapitulação de manifestações empíricas
de desigualdade organizadas no Brasil em torno dessas categorias ocorrerá
apenas quando houver necessidade.
3 Não se assume neste trabalho a tese de que gênero seria inerentemente
constituído por raça. Exploram-se aqui os efeitos da interação entre essas
categorias.
4 A transformação logarítmica, de amplo uso, faz parte da família de
transformações monotônicas que preserva a ordem subjacente da variável
transformada.
5 Embora o interesse principal deste estudo esteja na estimativa dos
coeficientes parciais que captam os efeitos interativos, a Tabela_1-A do Anexo
Estatístico fornece a estatística BIC, usada para comparação de modelos. O
modelo com melhor ajuste é aquele que registra o menor valor. Como esta
estatística freqüentemente possui um valor negativo, o modelo com o maior valor
negativo seria preferível (Hardin e Hilbe, 2007, pp. 56-58).
6 Na mudança do modelo 2 para o modelo 3, ocorre entre os brancos um maior
aumento absoluto da discrepância percentual, de 20,85%, contra 15,70% entre os
não brancos, o que explica a ampliação da divergência racial. Entretanto, o
aumento relativo da distância de renda, em relação ao patamar anterior, difere
muito pouco entre os grupos raciais. Entre os não brancos a distância é
multiplicada por 1,548, ao passar de 28,66% para 44,36%; já a distância entre
os brancos é multiplicada por 1,553, ao passar de 37,73% para 54,58%. A
vantagem feminina no controle de credenciais educacionais, dentro do respectivo
grupo racial, é maior entre os não brancos quando computada em termos de médias
de anos completos de estudo. A mulher não branca possui em média 7,565 contra
5,999 anos de escolaridade do homem, o que dá uma vantagem de 1,566 anos; já a
mulher branca têm em média 9,538, contra 8,154 anos do homem, o que gera uma
vantagem de 1,414 (dados para as pessoas com posição de classe e renda
positiva).
7 O trabalho de Greenmam e Xie apresenta uma instrutiva representação e
demonstração matemática da divergência entre os efeitos aditivos e interativos.
As autoras modelam os efeitos interativos pela introdução de termos interativos
na equação de regressão. A convergência entre as abordagens fica clara, por
exemplo, quando elas sintetizam a metodologia para examinar a relação entre a
determinação dos rendimentos de raça e de gênero: "Para cada grupo racial ou
étnico k, nós computamos a quantidade d, que representa a diferença entre a
distância de renda de gênero da minoria e dos brancos" (Greenam e Xie, 2008, p.
1225).