Formas tumulares e processos sociais nos cemitérios brasileiros
Uma das primeiras práticas socioculturais de que se tem notícia é a ocultação
do cadáver como meio de preservar os vivos da decomposição de seus mortos.
Inumado, queimado, embalsamado, exposto ao ar livre, no cume de montanhas,
depositado nas correntezas de rios, exposto para visitação, em casa, em funeral
home, no drive-up funeral home1 ou até mesmo em velório virtual, o cadáver é o
elemento decisivo e primordial que orienta práticas e ritos funerários dos
grupos humanos, um dos primeiros registros e testemunhos de sua história.
Aliás, foi Robert Hertz um dos primeiros a chamar a atenção para o fato de que
é o próprio corpo do morto o objeto sobre o qual a atividade coletiva irá atuar
e se exprimir depois da morte, sob formas ritualizadas (Hertz, 1980, p. 90).
Nas sociedades ocidentais buscou-se sempre preservar ou guardar os vestígios
dos mortos, seja por meio da construção de túmulos monumentais, como em algumas
civilizações do passado e também nos primeiros cemitérios secularizados, seja
em suas versões contemporâneas, nos cemitérios-jardins ou nos cemitérios
verticais, nos quais apenas se afixa o nome do morto para identificar o local
de sepultamento. Atualmente, em sua forma de expressão menos convencional, os
vestígios do morto são apenas confirmados pela gestão afetiva da memória,
quando o túmulo não é mais inscrição do corpo a um determinado lugar, quando o
cadáver é cremado e suas cinzas, espargidas no ar.
Os dispositivos funerários e as formas de enterramento também vêm acompanhando
mudanças significativas nas relações afetivas que os vivos estabelecem com os
seus mortos. Morrer com o se nasceu, no quarto de casa, cercado pela família,
deixou de ser uma prática comum na maioria das sociedades ocidentais
contemporâneas, preferindo-se submeter a morte e o moribundo à economia de
mercado, em clínicas e hospitais, longe dos olhos, do que conservá-lo no
interior do convívio doméstico. É certo que nas chamadas sociedades
tradicionais havia uma maior proximidade e familiaridade social com a morte,
reforçada mediante atividades simbólicas diversas que favoreciam a repetição de
formas ritualizadas, propiciando aquilo a que Marcel Mauss se referiu como
sendo "expressões obrigatórias de sentimentos" e que, por sua vez, contribuíam
para a construção coletiva das relações sociais (Mauss, 1921).
O mesmo não se observa em relação à dramaturgia contemporânea da morte, com
seus ritos e lugares de enterramento, que cada vez mais conferem ao protocolo
lúgubre o caráter de simulacro ou de dissimulação, em que o morto é privado de
sua própria morte e a família, do luto. E o que dizer dos vestígios do morto,
dos túmulos e dos disfarces com que os vivos se compraziam em eternizar seus
desaparecidos, por meio de costumes e práticas mortuárias que no passado
desempenharam um papel importante no campo ritual e na configuração do espaço
de enterramento?
Os novos espaços cemiteriais parecem refletir um outro tipo de realidade:
superfícies gramadas, com jardins que mais se assemelham à imagem do Éden e sua
eterna primavera, parques temáticos espetacularizados que conferem ao espaço do
morto a inequívoca marca do kitsch funerário high tech ou, ainda, luxuosos
edifícios, de altos andares, que abrigam os lugares para enterramento
individual, equipados com os mais modernos recursos tecnológicos para o
conforto e bem estar da família do morto, muitas vezes a se confundir em seu
aspecto exterior com verdadeiros prédios de apartamento ou hotéis de luxo.
Neles há também um elemento comum: não há referência explícita à morte, nem
tampouco ao morto. A preocupação com o espaço, antes de tudo, é torná-lo
aparentemente contraditório com aquilo que efetivamente se destina a oferecer:
as inumações ou cremações. Em vez das evidências alegóricas encontradas nos
antigos cemitérios oitocentistas, com seus cenários operáticos, de convulsiva
dramaticidade, o que os novos espaços de enterramento se propõem é diluir todo
e qualquer resquício da morte. Quanto menos evidente, mais distante é a idéia
da morte, quanto mais nega-se a morte, menor é a força de sua alteridade e a
grandeza de sua atração, concebidos na busca de "apagar no Morto o grande
castigo da Morte".2
Todavia, o que o leitor encontrará neste ensaio não é nenhuma reflexão teórica
ou hitórica sobre a morte, nem sobre suas formas de expressão ritualizadas mais
conhecidas: de dor, de sofrimento ou de aflição, tampouco sobre a dimensão
transcendental, escatológica ou religiosa, que indivíduos e grupos sociais
preferem atribuir à finitude. O que realmente interessa e mobiliza o foco desta
análise é o corpo do morto e o tratamento social a ele dispensado, apreendidos
a partir de lógicas particulares de sepultamento. De que maneira se pode ler e
entender atitudes e significados sociais a partir de um sistema de objetos
funerários, isto é, através de vestígios materiais encontrados nos cemitérios?
Não se trata de substituir enunciados por objetos ou vice-versa, mas
identificar e localizar na cultura material funerária elementos que
possibilitem dar sentido e significado à linguagem social de uma determinada
época, ao mesmo tempo em que permitam entender suas diferentes dinâmicas
socioculturais. Tanto as práticas de enterramento, concebidas sob diferentes
tipos de morfologias tumulares, como os epitáfios, os adornos e as
representações estatuárias, constituem elementos reveladores da organização
social, das representações de mundo e de pessoa. Quando submetido à leitura, os
dispositivos funerários plasmado nos túmulos permitem traduzir não só
acomodações e equilíbrios, mas também tensões e mudanças operadas no contexto
de um grupo específico ou no corpo social mais amplo; assim como é também capaz
de revelar atos institucionais e de condutas sociais e morais diversos, tendo
sempre como preocupação dar sentido e significado a alguma coisa.
No passado os mortos foram objeto de interesses e de cuidados específicos, hoje
relegados uns, esquecidos e ignorados outros, o que se converte em importante
dispositivo heurístico para se compreender as dinâmicas sociais aqui
analisadas. Os cemitérios oitocentistas brasileiros foram o campo privilegiado
onde se realizou esta pesquisa: São João Batista, Cemitério da Ordem Terceira
dos Mínimos de São Francisco de Paula (Catumbi), Cemitério da Ordem III de São
Francisco da Penitência, Cemitério da Ordem III de N. S. do Carmo, Cemitério de
São Francisco Xavier (Caju), todos no Rio de Janeiro; Cemitério da Consolação e
Cemitério do Araçá, em São Paulo; Cemitério de Santo Amaro, no Recife;
Cemitério do Campo Santo, em Salvador; Cemitério de Nossa Senhora da Soledade e
Cemitério de Santa Isabel, em Belém; Cemitério de São João Batista, em Manaus.
Neles, a principal característica é a preservação e a conservação dos vestígios
do morto, materializados nas construções grandiosas, decoradas com
representações estatuárias e outros adereços. A presença de túmulos monumentais
constitui por excelência a afirmação de uma posse simbólica do espaço
cemiterial por parte de determinados segmentos burgueses da sociedade
brasileira, na segunda metade do século XIX, que reivindicaram para si suas
singularidades de classe pela recomposição dos liames familiares e,
posteriormente, já nos primeiros decênios do século XX, pela progressiva
individualização de seus membros em túmulos personalizados.
Em outras palavras, isso significa dizer que, quando surgem os primeiros
cemitérios brasileiros, na segunda metade do século XIX, o que se vai notar é
um crescente interesse por parte de algumas famílias em construir o próprio
túmulo, nele reunindo seus descendentes diretos com o intuito de perpetuar a
cadeia geracional. Por sua vez, o culto da memória era freqüentemente motivado
pelo desejo de manter presente o morto no jazigo do grupo familiar, o que, de
certo modo, reiterava a idéia de ser aquele lugar a continuidade da casa ou
equivalente simbólico de unidade residencial da familia conjugal.
Nos primeiros decênios do século XX inicia-se uma significativa mudança nos
hábitos de enterramento e, com ela, novas formas de morfologia tumular irão
gradativamente marcar os espaços cemiteriais, refletindo-se também no plano das
representações e das atitudes que os vivos passam a dedicar aos seus mortos. É
dessa época o gosto pelo túmulo individualizado, construído especialmente para
abrigar um único indivíduo, com o intento de evocar traços reveladores da
pessoa do morto, traduzido como expressão de afeto particularizado.
Espaço do morto e distinção
[...] o morto mais se inaugura do que morre, e duplamente: ora
sua própria estátua ora seu próprio vivo[...].
JOÃO CABRAL DE MELO NETO
Por volta do final da segunda metade do século XIX, o gosto pela sepultura
individualizada tornou-se importante referência para as elites brasileiras
urbanas, que logo se adaptariam aos novos padrões de uso e apropriação dos
espaços cemiteriais, assim como de suas lógicas de enterramento. Havia alguns
anos já construídos, os primeiros cemitérios brasileiros secularizados passaram
a concorrer entre si pela grandiosidade e luxo exibidos na construção de seus
túmulos e jazigos. Cada um a seu modo tentou atrair para seus quadros de
sepultamento as camadas mais afortunadas ligadas ao patronímico de velhas
famílias que gozavam de prerrogativas econômicas e políticas decorrentes do
comércio, da produção escravista, do latifúndio e de cargos importantes no
poder. Anos mais tarde, seria a vez das novas fortunas, procedentes do capital
financeiro especulativo, da indústria, de profissões liberais, assim como
outros setores das camadas urbanas que surgiam nas principais capitais do país.
Enquanto o Cemitério da Ordem Terceira dos Mínimos de São Francisco de Paula,
no Bairro do Catumbi, no Rio de Janeiro, inaugurado em 1850, tornara-se o lugar
predileto para o sepultamento da elite nobiliárquica do Império, com seus
marquezes, condes, barões, conselheiros, comendadores, tenentes-coronéis e
outros titulares da guarda nacional, além de proprietários de terras e de
escravos, o Cemitério de São João Batista, construído em 1852, no bairro de
Botafogo, ocupou esse papel durante a República, acolhendo figuras importantes
da vida pública do país: políticos, chefes de Estado, banqueiros, prósperos
comerciantes, donos de renda, humanistas, militares, bem como segmentos da nova
burguesia endinheirada da época (ver Valladares, 1972).
Mas, independentemente das afinidades eletivas, religiosas ou preferências
político-ideológicas na escolha dos cemitérios, o fato é que tanto um quanto o
outro foram exemplos privilegiados de representações diversas que as camadas
mais abastadas buscaram construir sobre si mesmas por meio de edificações
tumulares grandiosas, mediante as quais marcaram sua posição de classe e
referendaram a origem de suas genealogias familiares. O processo de
diferenciação e distinção nas formas de enterramento se reproduziu igualmente
em três outros cemitérios do Rio de Janeiro. O primeiro deles é o Cemitério da
Ordem III de S. Francisco da Penitência, inaugurado em 1858, que se manteve
mais hierarquizado quanto ao perfil de seus usuários, na medida em que
priorizou para sepultamento os membros da referida irmandade, entre os quais se
destacavam muitos nomes conhecidos da República. O mesmo se poderia dizer do
Cemitério da Ordem III de N. S. do Carmo, que passou a funcionar em 1857,
reunindo uma clientela nobiliárquica proveniente tanto do Império como da
República, além de destacadas figuras ligadas às novas profissões liberais. Já
o Cemitério de São Francisco Xavier, também no Bairro do Caju, inaugurado em
1851, possuía uma freguesia bastante diversificada, composta por alguns nomes
importantes da vida pública da época e também de profissões liberais, todavia,
atraindo em bem maior número segmentos remediados e pobres da população.
Provavelmente, por ser na época o Rio de Janeiro a capital do país e, portanto,
o centro de articulação do poder e das decisões políticas, teve igualmente o
privilégio de abrigar o maior número de cemitérios, quando comparado a outros
centros urbanos. Isto não quer dizer, todavia, que em outras capitais os
cemitérios não constituíssem prioridades no processo de modernização e de
transformação da malha urbana, reflexo evidente das políticas de salubridade
que foram amplamente adotadas e difundidas na segunda metade do século XIX.
Além disso, não se deve rejeitar a íntima relação entre alguns ciclos
econômicos, que impulsionaram o crescimento de determinados centros urbanos do
país, e a construção dos novos cemitérios.
O resultado mais concreto do processo de aburguesamento da sociedade
brasileira, notadamente nos primeiros decênios do século XX, manifestava-se de
forma mais evidente no Cemitério da Consolação, na capital paulista, construído
em 1856, considerado o mais tradicional da cidade por reunir tanto a velha
elite, oriunda da burguesia quatrocentonacafeeira, como os novos empreendedores
imigrantes no início do século XX. É preciso, todavia, assinalar que este
cemitério conheceu fases distintas. Na primeira, preponderam os túmulos da
nobiliarquia latifundiária, tanto da época do Império, como da República. Na
segunda, sobressaem os mausoléus e as sepulturas monumentais de propriedade de
grandes fortunas da indústria e do comércio, a maioria de origem imigrante.
Diante desse quadro, os jazigos mais antigos, de cantaria portuguesa e
italiana, de estruturas mais sóbrias e convencionais, característicos da
primeira fase, foram ofuscados pelo luxo e a ostentação das construções
tumulares posteriores, coincidindo com o apogeu do bronze como material de
expressão artística.3
Não se observa tal fenômeno na mesma proporção e intensidade em outros centros
urbanos do país, que somente por algum tempo chegaram a conhecer um período de
relativa ascensão econômica, como foi o caso de Salvador e Belém, já que o
Recife teve sua fase de maior apogeu econômico na transição do século XVIII
para o século XIX. Nesses cemitérios o que se nota, entre outras coisas, são os
jazigos imponentes, em mármore, da fase de consolidação que, em geral, vai de
1870 a 1900. Nos anos subseqüentes à sua inauguração, em 1851, o Cemitério de
Santo Amaro, no Recife, passou a aglutinar um número significativo de nomes
procedentes da velha burguesia rural, embora já em franca decadência, o que se
reflete em muitas de suas construções tumulares de pequeno e médio porte, com
parcos atrativos esculturais ou referências alegóricas. Mas nele há também
notáveis exceções, destacando-se pela suntuosidade e imponência alguns
mausoléus de propriedade dos chamados "barões do açúcar", proprietários
latifundiários na zona do cultivo açucareiro. Processo análogo ocorreu em
Belém, no Cemitério de Nossa Senhora da Soledade, inaugurado em 1853,
atualmente desativado, que reuniu na época expressivos nomes ligados ao ciclo
da borracha, assim como alguns túmulos construídos especialmente para abrigar
os principais líderes da Cabanagem. Também na mesma cidade, o Cemitério de
Santa Isabel, inaugurado em 1870, desempenhou papel importante na preservação
da memória das camadas mais afortunadas, isto porque na época ainda reuniu
alguns "barões da borracha", além de magistrados, comendadores, proprietários
de ricos jazigos importados da Europa, os quais margeiam principalmente o eixo
de sua entrada principal. Repetindo o mesmo processo de ostentação, o Cemitério
do Campo Santo, em Salvador, por volta de 1855 passou a ser o local predileto
de sepultamento das elites fundiárias baianas, de altos comerciantes e de
destacados nomes ligados às profissões liberais e à política, sobressaindo
alguns túmulos monumentais, muitos deles encomendados aos marmoristas de
Lisboa, sobretudo no período entre 1855 e 1870.
Em vez do modelo anglo-saxônico, conhecido como cemitério jardim ou rural
cemetery, no Brasil o esquema do urbanismo funerário seguiu de perto a
orientação européia, repleto de estatuárias e de réplicas em miniatura
inspiradas em construções passadas, para o qual o Père Lachaise e o
Staglienoconstituíam referências importantes. Dentro dessa linha de intenção e
execução, os planos urbanísticos dos primeiros cemitérios brasileiros seguiram
os modelos convencionais em voga na Europa, variando de acodo com a topografia
em que foram erigidos. Visto no conjunto, o esquema predominante é o do traçado
dividido em quadras regulares, entrecortadas por grandes alamedas e pequenas
ruas, geralmente centrado por um cruzeiro ou capela de onde parte o eixo
monumental ou central. Nesse eixo ou no seu entorno situam-se os mausoléus mais
antigos e também os ossuários, em forma de urnas ou de obeliscos, transportados
das igrejas para os novos locais de enterramento secularizados.
Como na cidade dos vivos, a desigualdade tornara-se ainda mais flagrante no
espaço póstumo. Havia os bons e os maus lugares. Os mais caros e cobiçados,
situados nas grandes alamedas ou avenidas centrais, cuja presença era notada e
admirada por todos os que chegavam ao local, eram destinados àqueles que podiam
pagar mais para ter o privilégio de um lugar especial e também de uma concessão
perpétua, isto é, um patrimônio material transmissível como qualquer um outro:
uma casa, um terreno, ou outros bens imóveis. Já os lugares mais recônditos,
situados nas extremidades ou quadras laterais desses cemitérios, destinavam-se
aos que tinham um poder aquisitivo menor, muitas vezes sem a concessão de
transmissão.
Todo o esforço de agregar elementos escultóricos aos túmulos refletia não só o
desejo de diferenciação por parte da família do morto, por meio da
individualização do túmulo, marca distintiva de um patronímico, mas era também
revelador de uma significativa mudança em relação aos hábitos e às expectativas
diante da morte. Por volta da segunda metade do século XIX, as visitas aos
cemitérios passaram a ser cada vez mais freqüentes e, com elas,
o culto dos túmulos tornava-se prática familiar, a um só tempo afetiva e
reputada como de boa conduta moral, sendo popularizadas por meio de crônicas e
outros gêneros literários. Ciosas de seus privilégios, as camadas mais bem
providas da época levaram às últimas conseqüências o projeto de materialização
unicitária do túmulo, fosse ele individual ou de família, projeto influenciado
na época por uma política de pacificação da morte que contemplava o respeito
pelos rituais, individualização do luto e visitas freqüentes ao cemitério. E
não é por coincidência que nessa época os túmulos de família, sob forma de
capelas, conheceram o apogeu máximo nos cemitérios brasileiros, obrigando
muitas vezes o indivíduo a abdicar de sua própria expressão de individualidade
para se integrar ao grupo familiar, sob o pretexto de solidariedade e coesão,
tendo como ancoragem principal o patronímico gravado com destaque no
frontispício do jazigo, pois, de agora em diante, "não é mais a alma que é
indestrutível, porém, a família, o sobrenome" (Ragon, 1981, p. 102).
Mortos em família
Tout graphéme est d'essence testamentaire
JACQUES DERRIDA
O epitáfio diz tudo
MACHADO DE ASSIS
Como toda marca, ou pedra de fundação, o túmulo é signo de uma inscrição
primeira: marca, traço, escrita, origem. Não é por acaso que em grego a palavra
sema, ao mesmo tempo, serve para designar signo e pedra tumular.
Construído em torno de um nome, geralmente do pai, o túmulo de família inscreve
o indivíduo num passado comum, unindo-o a uma cadeia de gerações. É por isso
que o morto deve abdicar parte de sua individualidade para se agregar a um nome
ou sobrenome: o da família. O que prevalece nesse tipo de construção é a idéia
do todo sobre as partes, buscando fortalecer laços entre os membros da família
e, por sua vez, despertando nos vivos o sentimento de uma identificação comum,
freqüentemente relacionada com uma casa ou unidade residencial, mesmo que esta
já não mais exista.
O que se vê nas versões mais elaboradas desses túmulos é o desejo de unidade e
continuidade que se impõe em face da segmentação e dispersão depois da morte,
evitando, com isso, que os sepultamentos fossem realizados separadamente. Neles
não importa o indivíduo isolado do seu grupo de filiação, mas o sujeito social
genérico, constituído a partir da referência a um antepassado ou herança comum
à qual se liga através de relações com seus ascendentes e descendentes.
Neste caso, o seu objetivo primordial seria reunir e conservar, depois de
mortos, os membros pertencentes a uma mesma unidade familiar, podendo ser
também extensivo a parentes secundários, a depender de cada caso. Os que ali se
encontram sepultados abrigam-se sob um mesmo patronímico, gravado em lápide:
dispositivo simbólico equivalente à coesão do grupo.
Do mesmo modo que nos cemitérios europeus, no Brasil também houve uma recepção
positiva em relação aos túmulos de família, sobretudo depois de 1870. Tal
morfologia recebeu interpretações diferenciadas, variando de acordo com as
convicções de gosto e de classe social, algumas delas com referências cristãs,
outras mais laicizadas, podendo variar também de estilos que iam desde as
conhecidas capelas, passando por formas piramidais, reinterpretações de
monumentos assírio-babilônicos, neogóticos, renascentistas, templos
neoclássicos, ecléticos, de transição, até versões proto-modernas, depois
substituídas pelas modernistas.
A referência tumular geralmente era determinada pela linha paterna, transmitida
aos filhos, netos e bisnetos, podendo o sobrenome vir gravado muito
discretamente ou visivelmente no frontispício do túmulo. Em muitos casos, o
indicativo resumia-se apenas a um patronímico, como por exemplo: "Família Vaz
Carvalhaes", "Família Carapebus", "Família Nioac", "Família De Mauá",
"Sepultura da Família Agra", "Família S. Clemente", "Família Guinle", "Família
Chamma".
Mas há também um detalhe importante que, de certa maneira, modificava a
configuração onomástica do jazigo de família. Em alguns casos, em vez do
sobrenome genérico de família, o que se tornava marca distintiva da inscrição
tumular, era o próprio nome do pai e do marido fixado como a principal
referência dos que ali se encontravam sepultados como, por exemplo, Jazigo
Perpétuo de José Borges de Figueiredo e sua família. Vale salientar que tal
referência geralmente dizia respeito à família conjugal, antes do matrimônio
dos filhos, conforme exemplos freqüentes de nominação encontrados: "Jazigo
Perpétuo de José Gomes de Pinho e sua Família", "Jazigo Perpétuo de Bernardo
José da Cunha e sua Família", "Jazigo Perpétuo de Joaquim Teixeira de Carvalho
e sua Família".
Entretanto, após a dispersão dos filhos e o estabelecimento de novas famílias
conjugais, as lógicas de enterramento estavam também sujeitas a modificações.
Em muitos casos, os filhos varões estabeleciam novo túmulo de família,
mantendo, todavia, o patronímico paterno. Há também situações em que os filhos
preferiam criar novos segmentos, adotando uma referência patronímica
secundária, adquirida por linha materna. Nessa linha de transmissão, a escolha
de um sobrenome de referência na vida pública era, em algumas situações, medida
pelo grau de prestígio que este chegava a adquirir, sendo, naturalmente,
avaliado em função do benefício que traria à sua descendência. Nesses casos,
isso também passava a orientar a lógica de adoção e inclusão do patronímico na
construção de um novo túmulo.
Para este modelo de enterramento, observa-se o desejo de uma inscrição social
baseada na aquisição de um novo status, seja por meio da riqueza, da posição
social alcançada, seja, ainda, por meio dos títulos nobiliárquicos, como foi de
praxe durante o Império, parte da República e no início do século XX, conforme
se pode encontrar em alguns túmulos: "Jazigo Perpétuo de Barão do Amparo e sua
Família", "Sepultura Perpétua da família Barão de Andaray, Visconde de
Andaray", Jazigo Perpétuo do Barão de Silveiras e sua Família", "Jazigo
perpétuo dos Barões de Mangaratyba e seus descendentes", "Família do Conde de
São Joaquim", "Jazigo da Família do Barão da Limeira".
No vasto quadro da onomástica tumular, observa-se a presença de alguns
"nobres", de "ricos", "novos ricos", cada qual à sua maneira reinventando suas
próprias raízes genealógicas. Entretanto, qualquer que fosse o caso em
particular, era sempre um único indivíduo a ser valorizado. Para essas
situações, o que de fato predominava era a prefixação do título honorífico
representado sempre por uma referência individual da qual deveriam se
beneficiar os seus descendentes. Já para outros proprietários de jazigos o que
deveria prevalecer era o patronímico, respaldado no peso e na importância de
uma profissão ou de uma tradição herdada. No início do século XX, em plena
expansão de uma sociedade de classes, começava a ser invocado na epigrafia
tumular o reconhecimento advindo da competência pelo trabalho e por mérito
pessoal, muitas vezes adquirido em atividades laborais ou humanísticas.
O conjunto de dados onomásticos reunidos nas lápides, repetidas vezes, apelava
à banalizada árvore genealógica, servindo tanto para avigorar as relações de
parentesco como rememorar o grau de prestígio social de uma determinada
família. No entanto, não se deve esquecer que toda memória genealógica irrompe
à medida de sua própria conveniência, podendo também revelar-se através de
outras interfaces, como lapsos, esquecimentos, restrições, seletividade.
Afinal, não se recorda senão daqueles por que se tem interesse, pois, entre os
antepassados há sempre o fascínio de se escolher aquele com quem se deseja
identificar e, volta e meia, tal escolha é determinada pelo prestígio de um
nome.
O lugar dos antepassados na cadeia genealógica, por razões óbvias, sempre
ocupou um papel importante entre a aristocracia francesa, ao passo que para os
segmentos burgueses o exercício genealógico, em muitos casos, não possuía
nenhum interesse ou uma ação efetivamente prática. Mesmo assim, como já
observou o historiador francês André Burguière (1991), algumas famílias
burguesas do séculos XVII e XVIII buscaram reconstituir ou, de certo modo,
reinventar suas raízes genealógicas, manipulando suas origens conforme seus
propósitos e necessidades, com o intuito de criar novas identidades em razão do
novo statussocioeconômico adquirido. Para isso, preferiram realçar supostos
sinais nobiliários do que exibirem o dinheiro como valor conquistado pelo
esforço do trabalho - já que este último se tornara apanágio da burguesia da
época.
Como ainda hoje se pode ver na maioria dos túmulos dos cemitérios aqui
referidos, a epigrafia onomástica orienta-se pela ordem cronológica do óbito,
resumindo-se apenas a informar o nome e o sobrenome do indivíduo, a data de
nascimento e falecimento, acrescidos eventualmente de informações suplementares
sobre a personalidade do morto. Além disso, a lógica de sepultamento, no
interior de um túmulo de família, a maioria das vezes era orientada pelo
princípio da consangüinidade, podendo nele reunir os ascendentes e os
descendentes em linha direta (pai, mãe, filhos, avô e netos).4 A depender do
caso, encontram-se incluídos alguns afins ou aliados. Em qualquer das hipóteses
é pouco provável a existência de sepultamentos dos filhos oriundos de relações
extras conjugais no interior desses jazigos, exceto quando são reconhecidos
civilmente ainda em vida pelo pai ou quando consignados em testamento.5 Viúvas
que contraíram matrimônio posterior, e com filhos do primeiro casamento, eram
geralmente enterradas no túmulo de família erguido pelo primeiro marido ali
sepultado. O mesmo não se verifica após a morte do cônjuge masculino de segundo
casamento, que geralmente era sepultado no túmulo da família paterna ou em
túmulo individual. Na hipótese de uma segunda união conjugal resultar em filhos
comuns, a responsabilidade de decidir pelo enterramento do pai e padrasto no
túmulo de família, herdado pela mãe na primeira união conjugal, caberia
geralmente aos filhos mais velhos.6 Quando se tratava de indivíduos solteiros,
ou eram sepultados em túmulos individuais ou se integravam ao jazigo de sua
família de origem.
Com efeito, todo esse argumento, que aponta para o desejo de distinção,
possessão material, reprodução e conservação de uma memória familiar, poderia
ser também corroborado por outra importante variante ou representação do
túmulo, isto é, uma possível analogia entre a casa e o jazigo.7 Quando a
convivência e a familiaridade com os mortos deixaram de existir, quando estes
foram levados para fora das cidades, sendo obrigados a deixar as igrejas e seus
entornos, para os cemitérios, os túmulos passaram a preencher esse espaço
anteriormente ocupado pela igreja. Como se sabe, era no interior desses
templos, sobre um chão de adubado humus cadavérico e sob a guarda de um teto
divino, pintado de carregadas nuvens e de arcanjos suspensos, que a
coletividade compartilhava momentos de intensa sociabilidade, não somente
irmanada por crenças e devoções comuns, como também pelos rituais que
celebravam: batizados, casamentos, aniversários de vida e de morte, confissões,
comunhões, cíclos festivos e religiosos, procissões, velórios etc. Nos
cemitérios, distantes de suas casas e igrejas, de suas paróquias, à céu aberto,
os mortos encontrariam abrigos nos túmulos. Por isso, muitos deles reproduziram
cenários de igrejas e de capelas, em escalas reduzidas, enquanto outros, com
morfologias laicizadas, assemelhavam-se às residências de seus proprietários.
Mas àquela altura não se tratava apenas de assegurar ao morto um lugar no céu,
mas garantir também um lugar na terra, sob a proteção de uma coberta, aos
cuidados da família, para lhe proteger das intempéries, e também resguardar a
imagem de conservação do corpo. Nos túmulos acumulavam-se cadáveres, um ao lado
do outro e não sobrepostos, cada um conservando parte de sua individualidade,
mas sempre invocando lembranças comuns, memórias genealógicas, pois os túmulos
passaram a ser também habitações familiares.
Se considerada dessa perspectiva, a casa e o túmulo de família cumpriam
praticamente funções análogas, podendo ser interpretados como o lugar em que se
reproduzia e se perpetuava o grupo familiar através de sucessivas gerações,
assegurando-lhes a transmissão de um sobrenome, de bens materiais e imateriais,
relações de poder, de autoridade e de hierarquia. Enquanto a casa poderia ser
vista como locusde socialização da família, sendo, em alguns casos, capaz de
reunir ao longo do tempo sucessivas gerações, integrando-as por meio de campos
rituais diversos (nascimentos, batizados, formaturas, casamentos, aniversários,
mortes, velórios, participação coletiva na elaboração do luto etc.), o túmulo,
por sua vez, reproduzia no plano imagético o desejo de reunificar e perpetuar
diferentes momentos de expressões coletivas da família e, com isso, fortalecer
com sua dimensão simbólica o pacto de continuidade dos laços de parentesco
entre seus membros. Visto desse ângulo, e a partir das bases sobre as quais se
estruturavam as relações familiares, a morte do pai poderia também representar
uma fratura econômica determinante na organização social do grupo familiar,
interferindo igualmente no plano afetivo das relações domésticas. Quando isso
ocorria, acarretava efeitos variados, podendo desencadear o processo de
dissolução da família patriarcal, seja por meio de desavenças na partilha
econômica dos bens, seja por meio de divergências na escolha de interesses e
valores a ser seguidos. Mas, se de um lado a morte do pai era sempre uma
ameaça, pois representava em certa medida a desarticulação econômica do grupo,
interferindo inclusive na redefinição de novos papéis entre seus membros, de
outro lado, era no túmulo onde se buscava corporificar, como espaço de
representação, conservação e "presentificação" do morto, a reintegração de
laços familiares e a neutralização de eventuais conflitos entre seus membros,
uma vez que a casa já não mais conseguia cumprir tal papel.
Várias são as semelhanças entre as suntuosas casas senhoriais nas fazendas de
café do Vale do Paraíba do Sul - algumas destruídas, outras atualmente sob
domínio de estranhos - e os jazigos não menos opulentos de seus respectivos
proprietários, muitos deles resistindo à ação do tempo, o que se pode comprovar
ainda hoje nos cemitérios do Rio de Janeiro, especialmente no Catumbi, e na
capital paulista, no Cemitério da Consolação.
Neste último cemitério, já em outro contexto econômico, um exemplo
significativo do que se pretende enunciar é o túmulo do proprietário de
fazendas cafeeiras, importador e empresário, o "Conde Alexandre Siciliano e de
seus descendentes", em mármore branco, de autoria do escultor Amadeu Zani.
Trata-se de uma reinterpretação de capela em estilo assírio-babilônico,
encimada por figura alegórica no pórtico e vários detalhes leoninos, inclusive
a presença de dois grandes leões guardiões que margeiam a entrada principal do
mausoléu, símbolo de vigilância, muito freqüente nas casas senhoriais. Mas o
que interessa destacar é a afinidade do túmulo com a residência do referido
Conde, projetada, em 1896, pelo arquiteto Ramos de Azevedo, na Avenida
Paulista. Talvez, o detalhe mais peculiar seja a transposição do universo
doméstico para o espaço mortuário, como a presença de uma cadeira que o Conde
costumava utilizar no seu cotidiano, com talha de sua heráldica no espaldar,
bem como outros objetos decorativos.
Da Avenida Paulista já não resta quase nada da época de seu apogeu econômico,
então dominada pelas vivendas da burguesia afortunada, cujo capital acumulado
com o café era investido na produção industrial. A maioria de suas residências
converteu-se em vistosos edifícios empresariais, mas a maior parte dos jazigos,
pertencente aos antigos proprietários das velhas casas, ainda continua vivo
testemunho de memórias familiares.
A casa do Conde Francisco Matarazzo e de sua família, um dos ícones da
indústria brasileira, construída em meio a uma área de aproximadamente 12 mil
metros quadrados, projetada pelos arquitetos italianos Giulio Saltini e Luigi
Mancini, com o destacado brasão de família gravado no frontão principal da
residência, atualmente abriga um enorme estacionamento, depois de sua demolição
na década de 1980. Paradoxalmente, se o terreno dessa emblemática vivenda de
família endinheirada, que foi no passado, converteu-se temporariamente em
grande garagem para carros, enquanto os herdeiros especulam sua venda, o
mausoléu da família, no Cemitério da Consolação, parece cumprir o desejo de seu
antepassado fundador, preocupado em eternizar sua linhagem. Ademais, a
narrativa mítica de imigrante italiano bem-sucedido, com título nobiliárquico
extensivo a cada um dos seus filhos varões, coaduna-se perfeitamente com o
partido arquitetônico que orientou a construção do faraônico mausoléu, erigido
em 1925, com peças em bronze de autoria do escultor genovês Luigi Brizzolara, e
que até hoje cumpre o desígnio do poderoso chefe de família que pretendia
reunificar e proteger o núcleo formado por seu nome, esposa e filhos, incluindo
sua genitora. Com enorme cripta no subsolo, galerias laterais e capela no nível
da rua, a construção de volume compacto ocupa uma área de mais de 150 metros
quadrados de construção em blocos de mármore genovês, da oficina L. Brizzolara,
transportado de navio e remontado no local. Destaca-se dos demais pela
exagerada escala, cujo ponto mais elevado ultrapassa os 15 metros do solo, onde
se descortina o brasão da família.
Embora essa lógica de sepultamento tivesse como função precípua cultuar a
memória dos antepassados, quase sempre conjugada a outros interesses do grupo,
permitia também aos membros vivos da família se distinguirem socialmente a
partir do habitat póstumo de seus parentes. Não se pode esquecer que a morte no
mundo burguês, além de sua dimensão dramática, é também transmissão de um
patrimônio, de uma herança, quando não material, simbólica. Por essa razão, no
túmulo de família se configurava não apenas o desejo de continuidade e de
perpetuação dos laços familiares, como igualmente se exibiam, por meio de sua
arquitetura, na maioria das vezes suntuosa, signos de classe, marcando, assim,
a posição social do morto e de seus descendentes.
Toda essa empreitada simbólica em eternizar a família surtia importante
eficácia no plano intersubjetivo da recomposição de relações familiares, pois
os túmulos possibilitavam aos membros de uma família, a depender de interesses
particulares, se reconhecerem entre si, através de uma memória genealógica
comum, ao mesmo tempo em que permitiam reconstituir e atualizar entre eles
laços identitários, conforme fosse o caso. Mesmo se levando em consideração a
descontinuidade de sepultamentos entre gerações, alguns desses jazigos,
precários em seu estado atual de conservação, continuam ainda hoje, pelo menos
no plano simbólico, representando esse último lugar mais perene através do qual
algumas famílias ainda se permitem disfarçar os efeitos da decadência
econômica, uma vez que seus bens materiais, incluindo as velhas residências,
não suportaram as dinâmicas de transformação do sistema.
Conquanto a analogia entre cemitério e familistério fosse bem mais evidente
durante toda a segunda metade do século XIX, apesar disso, já se podia observar
nos últimos decênios desse mesmo século algumas das primeiras manifestações de
individualidade, com renúncia pessoal de se integrar ao grupo de filiação,
prática que se tornaria ainda mais freqüente nos primeiros anos do século XX.
Assim, alguns túmulos suntuosos seriam construídos especialmente para abrigar
uma única pessoa, ornados de representações alegóricas para marcar e eternizar
a sua presença. A partir de então, cada vez mais, já não é a família que se
tornava imperecível, tampouco o sobrenome, porém, o indivíduo.
À flor da pedra
j'écris, je ne veux pas mourir
GEORGES BATAILLE
Écrire, c'est se souvenir. Mais lire, c'est aussi se souvenir
FRANÇOIS MAURIAC
Se o modelo de enterramento da família burguesa conheceu o seu apogeu durante a
segunda metade do século XIX, com a "panteonização" de seus membros, por outro
lado, foi nos primeiros decênios do século XX que insurgiu o culto ao indivíduo
e sua contrapartida narcisista: os primeiros túmulos desvinculados de
genealogias familiares. É em torno do indivíduo - que ora se complementa, ora
se separa do núcleo familiar - que iriam se ordenar outras possíveis lógicas de
sepultamento e, por sua vez, determinar a configuração arquitetônica dos novos
túmulos, assim como também o campo de representações por meio do qual se
exprimem as aspirações e as atitudes dos vivos em relação aos mortos.
Não que a família tenha desaparecido nesse novo modelo de enterramento, pois o
indivíduo burguês, nessa época, emerge em sua singularidade a partir dos laços
afetivos que mantém com o seu grupo familiar. Mas, além disso, ao seu redor
começavam também a se criar expectativas e obrigações recíprocas, gerando
relações baseadas tanto no princípio de pertencimento como de diferenças, o
que, em algumas situações, o obrigava a redefinir papéis sociais que
hierarquicamente deveria ocupar no contexto doméstico e, de forma correlata, na
esfera pública. Tais atribuições sociais podiam ser visualizadas nos túmulos
que agora mostravam representações mais particularizadas e que abrangiam tanto
aspectos ligados à vida em família, como à vida do "amor conjugal", do "amor
materno e filial", do respeito pelo legado material e imaterial de um parente
longevo; quanto aos aspectos relacionados com o próprio indivíduo: o
enaltecimento de virtudes pessoais, da promoção de valores adquiridos pelo
trabalho, da competência profissional etc.
O que se observa a partir dos primeiros decênios do século XX é um progressivo
distanciamento do modelo anterior, calcado basicamente no reconhecimento de
laços consangüíneos por meio da procriação, na importância patronímica, como
elemento diferenciador e de prestígio social, e no interesse corporativo de
perpetuar vínculos parentais.8 Ainda em relação à noção de família
anteriormente descrita, vários são os autores que sublinham a importância do
caráter autoritário como motor das relações familiares centradas no poder de um
chefe, o que não só inibia como, muitas vezes, impedia que se concretizassem
laços afetivos e emocionais entre seus membros. Refletia-se inclusive na opção
pela escolha dos jazigo-capelas, equivalentes simbólicos das casas, que dada a
natureza de suas morfologias austeras mascaravam expressões de afeto
particularizadas, o que nos túmulos individuais seriam exacerbadas. É também
recorrente se associar a esse modelo de família o ideal de matrimônio
subordinado aos interesses econômicos e de reprodução social do grupo, em vez
da união conjugal por motivação afetiva que começava a se impor entre os
indivíduos e que, pouco a pouco, se converteria em padrão recorrente.
Enquanto nos modelos mais convencionais do túmulo de família deveriam ser
evitadas possíveis marcas valorativas de seus membros, singularidades que
eventualmente pudessem conflitar entre si ou até mesmo atrair e dirigir as
atenções do espectador para um único componente do grupo de filiação - pois em
princípio todos eles deveriam receber tratamento posicional -, no túmulo
construído para um único indivíduo ou casal, sobressaía o desejo de valorizar e
enaltecer determinados atributos da pessoa do morto, ocultando outros
indesejáveis. O que mais parecia importar era o desejo de auto-expressão
subjetiva, de auto-reconhecimento ou reconhecimento de um outrem como sujeito
singular. Em algumas situações, o morto poderia ser representado como sujeito
autônomo, cujo grau de independência não necessitava ser partilhado nem
dividido, sob pena de perder suas próprias características.
Paulatinamente, neste novo contexto, a família vai se rendendo diante da
individualidade de seus membros. A depender de cada situação em particular,
começa-se a deslocar o interesse das relações de parentesco para o das relações
intersubjetivas - aspecto que se reflete ainda mais nas novas formas de
enterramento nos cemitérios-parques e nos cemitérios verticais.
Há casos em que os túmulos refletem expressamente o desejo de alguém que aspira
depois da morte ser lembrado por suas ações e realizações sob a aspiração de
ser, posteriormente, convertido em síntese edificadora de memória e de
reconhecimento coletivo. Nesse gênero de epitáfio autobiográfico é comum
atribuir-se ao indivíduo qualidade de pessoa, o que pressupõe sua construção a
partir de uma dimensão sociocultural particular e, portanto, vinculada a um
sistema simbólico e de representações também específico - representações cujos
dispositivos rituais muitas vezes costumam conferir a essa noção tanto
atributos de identidade como valorativos.9 Nos cemitérios ocidentais, à pessoa
do morto se costuma adicionar epítetos diversos, sendo invocados entre outros
aspectos aqueles de foro mais íntimo, e também a capacidade deser moral e
civil. É por isso que repetidas vezes no léxico tumular são ressaltadas
qualidades como: pessoa de "mérito", "digna", "honesta", "caridosa",
"espiritual", "benfeitora", "honrada", "íntegra", "fraternal", "justa",
"trabalhadora" etc.
Vários são os exemplos nos cemitérios aqui referidos em que os méritos pessoais
são evocados, sobretudo aqueles advindos do esforço pelo trabalho, sendo
igualmente acompanhados de alegorias representativas da pessoa do falecido.
Talvez, um dos modelos mais significativos da ideologia de valorização do
trabalho seja o túmulo erigido no cemitério do Araçá, em São Paulo, pelo
próspero comerciante de cereais, Antonio Lerario.
Como muitos outros imigrantes de origem italiana, Antonio chegou à cidade de
São Paulo para tentar a vida. O túmulo erigido por ele, em blocos de granito
escuro, sobre os quais se apóiam placas de bronze em alto relevo, narram sua
trajetória, destacando como principal conteúdo da mitologia funerária a
ascensão social via trabalho incansável e penoso. Suas raízes campesinas,
dominadas pela paisagem rural, ainda na terra natal, a Itália, são
representadas por cenas de semeadura, cultivo e colheita de trigo, servindo
como leitmotivpara as três primeiras placas que servem de vedação nos locais de
enterramento, situadas na base do túmulo.
Em posição de destaque, as demais placas compõem outra seqüência narrativa na
qual se evidencia a construção mítica do herói, concebida por méritos próprios.
Na primeira, no topo do volume vertical, a cena evoca a partida. Ao que tudo
indica, em busca de maiores oportunidades, Antonio decide ganhar a vida em
outro continente. O rosto voltado para trás, com um guarda-chuva apoiado sobre
o braço esquerdo e a mão direita acenando para o pai e a mãe que retribuem com
o mesmo gesto ao filho que parte. Na próxima cena, já no navio que o leva ao
Brasil, o jovem apóia os braços sobre o guardacorpo da embarcação, segurando
com as duas mãos a cabeça num gesto contemplativo: olha sem ponto fixo no
espaço. Na alegoria seguinte, na capital paulista, Antonio inicia sua nova vida
como jornaleiro nas ruas. Na mão, o jornal levantado é oferecido a dois
senhores devidamente caracterizados como da elite local bem-sucedida, à qual o
próprio imigrante logo se integrará. A alegoria final é representada pela
figura de Antonio, homem maduro, afortunado comerciante de cereais, com
evidentes inscrições sociais da burguesia ascendente, em meio a dois
trabalhadores que carregam sacas de cereais. Ao fundo da cena as sacas
empilhadas sugerem a base da riqueza, ao mesmo tempo, produto convertido pelas
virtudes do próprio esforço pessoal, legado que provavelmente pretendia deixar
como mensagem aos descendentes que posteriormente se incorporariam ao túmulo
comum.
É interessante, todavia, ressaltar que a mesma ênfase não se verifica em
exemplos análogos, de imigrantes igualmente bem-sucedidos, que preferiram
construir suas mitologias funerárias calcadas menos no esforço e conquista pelo
trabalho penoso - velho apanágio da burguesia - do que na legitimação de um
ethos aristocrático, como fez o Conde Matarazzo, seguido por outros quadros da
burguesia oriunda do comércio e da indústria paulista.
A alegoria ao trabalho e à fortuna reaparece também de forma mais genérica ou
difusa, servindo como elemento decorativo em alguns túmulos, sobretudo no
Cemitério da Consolação, em São Paulo, e no São João Batista, no Rio de
Janeiro, algumas vezes sob formas de signos alusivos ao comércio e à indústria
(máquinas de tecelagem, equipamentos industriais, bigornas, peças de montagem,
produtos de consumos etc.), outras vezes referentes à produção agrícola e à
pecuária (café, cacau, borracha, cana-de-açúcar, animais de corte etc.), a
depender das atividades laborais do proprietário do túmulo. A alusão ao
trabalho é também valorizada como qualidade humanitária da pessoa do falecido,
especialmente quando se trata dos túmulos de médicos, advogados, engenheiros,
bem como de outras atividades técnicas menos reconhecidas.
O mesmo se poderia dizer em relação aos túmulos de figuras ligadas ao mundo das
artes, da música e da literatura. Ainda no mesmo patamar, poder-se-ia incluir
aqueles que desempenhavam atividades de notório reconhecimento público ou
simplesmente "mortos ilustres" como, por exemplo, políticos, militares,
governantes, chefes de Estado etc.10
A emulação dos "grandes vultos", geralmente realizada pela representação épica,
adquire dimensão de panteão em alguns cemitérios, já que uma das funções da
imaginação histórica é edificar mitos e, portanto, promover o culto cívico ou
patriótico. Esse gênero de túmulo-monumento cumpria também seu papel
civilizador, posto a serviço ideológico da construção do Estado-nação
brasileiro no final do século XIX e nos anos subseqüentes, reforçando o
sentimento coletivo de pertencimento cívico na construção de uma identidade e
memória nacionais.11 Quando se tratava de heróis, mortos a serviço da pátria,
as representações dos túmulos deveriam fazer alusão aos signos de força,
grandeza, glória, honra, virilidade e outros atributos do gênero. Tanto maior
fossem a sua bravura e o sacrifício pela pátria, mais reconhecimento e
importância adquiriam a pessoa do morto, sendo promovida à nobre categoria de
mártir nacional. A modalidade que lhe era reservada no monumento poderia variar
entre o cívico e o patriótico, dependendo da grandeza de suas ações, o que
certamente lhe promoveria a um monumento individual, quando se tratava de um
destemido personagem; ou coletivo, quando inserido em um determinado grupo a
serviço da pátria.12
Mas, se as mortes dos heróis eram vistas como nobres e grandiosas, raramente
acidentais, pois a coragem e a previsibilidade do perigo faziam parte da
própria condição mítica do sacrifício heróico, a morte das pessoas comuns não
despertava o mesmo sentimento. Não mais a "bela morte", mas a "boa morte" por
causas "naturais", sem dor nem sacrifícios, modelo ideal disseminado por todo o
século XVIII. A forma e as circunstâncias em que uma pessoa comum deixava o
mundo dos vivos assumiam um papel determinante na compreensão, no significado e
no sentido que os mais próximos costumavam exprimir em relação à pessoa do
morto, refletindo em particular na escolha da forma tumular.
A depender da situação, o que se observa é a preferência pela construção de
túmulo individual, de pequena proporção, como testemunho afetivo da família ao
membro desaparecido, podendo assumir características diferenciadas quando se
tratava de uma morte esperada, em que o túmulo e suas representações
estatuárias geralmente adquiriam uma dimensão de recompensa subjetiva pelo
legado material e imaterial deixado pelo morto. Mas o que dizer quando a morte
sobrevinha em circunstâncias inesperadas, considerada desastrosa? Nestes casos,
as representações tumulares são mais propensas à dramatização. Muito freqüente
nos cemitérios são os túmulos construídos para as mães cuja morte súbita
deixara órfãos filhos ainda pequenos. A representação da figura materna
geralmente reproduz cenas do convívio doméstico, cercada pelos filhos. Quando a
figura masculina, esposo e pai, morto também em circunstâncias inesperadas,
torna-se o objeto de representação, é figurado sob forma de busto ou em placa
de alto relevo, a que se atribui sentido épico, muito comum durante todo o
século XIX. Em outras situações, o busto masculino vem acompanhado de
representação tridimensional da viúva, algumas vezes cercada pelos filhos, em
gesto de reverência à figura do marido e do pai falecido. Quando se deseja
imprimir maior dramaticidade à perda, a figura masculina torna-se ausente na
representação para em seu lugar aparecer em destaque a figura feminina
pranteadora.
As alegorias também costumam refletir lugares de gênero, isto é, as esferas
socialmente atribuídas ao masculino e ao feminino. Às mulheres, uma identidade
ligada à maternidade e às atividades domésticas; aos homens, a competência na
esfera da vida pública e do trabalho.13 A partir dos primeiros decênios do
século XX, começam a surgir, de forma pontual e com destaque no conjunto
estatuário, representações masculinas tridimensionais geralmente associadas ao
trabalho e à vida pública. Quando vinculadas a situações ou a cenas da vida
privada, geralmente se limitam a invocar algum tipo de legado moral ou
espiritual, como nas representações em que aparece a figura do avô com o neto,
referência cronológica e valorativa de conhecimentos e valores morais
transmitidos.
O tributo ao "amor conjugal" é outro tema freqüente nas alegorias tumulares. No
amplo quadro de representações é comum se ver a figura de matronas, encobertas
com véus ou mantilhas, cujas expressões faciais podem variar entre o pranto e o
desconsolo explícitos e o recolhimento introspectivo e sereno do luto. A
expressão do personagem pode se alterar conforme o sentimento que o
proprietário do túmulo gostaria que fosse transmitido como mensagem: ora é a
figura feminina que se estende ou se debruça inconsolável sobre o túmulo ou
esquife do marido, ora situações nas quais prevalecem sentimentos difusos que
vão da melancolia ao êxtase.
Cada um a seu modo, os túmulos individuais buscavam reconstituir por meio de
representações traços ou elementos que pudessem identificar o morto como único
e insubstituível, restituindo no plano imagético tanto momentos ou cenas
importantes da vida, como a lembrança de circunstâncias sinistras em que a
pessoa foi subtraída do convívio mais próximo. Devido à diversidade e à riqueza
com que se apresentam os túmulos nos cemitérios aqui referidos, seria
impossível reagrupar todas as categorias de representação encontradas. Entre
elas, todavia, chamam a atenção em especial aquelas que expressam situações em
que a morte surpreende pela violência. Nesses casos, diferentes valores são
evocados como atributos positivos à pessoa do morto, podendo incidir sobre a
honra, a idade, a coragem, a sensibilidade, convergindo de forma positiva para
a construção individual da mitologia funerária.
Como a morte acidental ou provocada, a morte de jovens e crianças é também
inadmissível para a maioria das sociedades ocidentais de tradição cristã, em
muitos casos sendo-lhes reservados túmulos à parte que não os das respectivas
famílias. Quando se tratava de recém-nascidos, o acontecimento era
freqüentemente inserido no plano da crença dos "anjinhos", que provavelmente
encontra suas raízes no catolicismo popular.14 De acordo com esse tipo de
representação, a alma infantil, dado o seu estado de "inocência originária",
ascendia mais facilmente à imortalidade, sendo corriqueiramente associada à
figura dos anjos, tal como aparece na maioria das alegorias funerárias. Em
alguns cemitérios, ainda hoje se observa em determinadas áreas uma maior
concentração de túmulos reservados às crianças, povoados de representações de
meninos com asas (os putti), pequenos querubins e serafins, espaços
provavelmente previstos em seus projetos iniciais para enterramento de crianças
e recém-nascidos - local chamado de Cripti di Bambini nos cemitérios italianos.
Quando a morte sobrevinha na primeira infância, as representações infantis
passavam a ser outras, pois as crianças já começavam a possuir uma identidade
própria, passando a ser vistas como pessoas singulares: além de um nome, um
direito reconhecido, um lugar ou papel determinado, uma idade cronológica e
algumas funções específicas na vida familiar. Em muitos casos, também não
deveriam integrar o túmulo de família, sendo sepultadas em jazigos individuais,
especialmente concebidos para eternizar sua presença na terra e marcar o
convívio entre os familiares. As representações variavam em função das
circunstâncias da morte e do grau de afeto familiar. Geralmente no lugar dos
anjos, o que se vê são representações de crianças que realçam suas
singularidades de pessoa, retratadas tanto de forma realista como metaforizada
por meio de alegorias: crianças em suas atividades escolares, crianças
brincando, acompanhadas dos irmãos, crianças sendo levadas pelos anjos etc.
Já em relação aos adolescentes ou aqueles que morreram ainda jovens, o
tratamento simbólico, quando representados sob formas escultórias, muda
completamente. Isto porque os jovens de alguma forma já integravam o mundo dos
adultos, com identidades sexuais definidas, inclusive aptos à procriação. Além
disso, suas funções e atribuições tornavam-se mais específicas no âmbito da
família e das relações sociais mais amplas, frustrando com a morte expectativas
futuras. Em alguns casos, integravam os jazigos de família, outras vezes, a
depender das circunstâncias da morte, eram-lhes erigidos túmulos individuais
com o intuito de cultivar e preservar uma mitologia funerária pessoal.
No final da primeira metade do século XX, as construções tumulares, pouco a
pouco, deixaram de constituir prioridades de investimento relacionadas com a
distinção social de algumas famílias, a identificação e a transmissão de um
patronímico comum, a atualização de laços identitários, o culto à memória. Do
mesmo modo o túmulo individual também passou a comportar outras expectativas e
interesses, subtraindo à pessoa do morto referências alegóricas.
Uma das tendências foi tornar os túmulos mais versáteis, funcionais e menos
decorativos, com capacidade de renovação nos locais de enterramento, já que
suas morfologias também deveriam se nortear por princípios racionais, adequados
então às pequenas dimensões dos lotes ainda disponíveis que, a depender do
cemitério, poderiam atingir altos valores especulativos. As novas construções
passaram a ocupar toda a extensão do terreno, com proporções que permitem
apenas abrigar um determinado número de sepultamentos, sendo substituídos à
medida das novas necessidades de inumação de seus proprietários, e com isso
refletindo as novas dinâmicas de composições familiares. Antigos túmulos foram
refeitos para atender às necessidades práticas de seus herdeiros ou de novos
compradores.
Simultaneamente ao crescimento demográfico das cidades e da expansão da
economia mortuária, emergiram outros espaços de enterramento alternativos, com
concepções arquitetônicas e paisagísticas inteiramente diferenciadas. A nova
tendência é de que nenhuma evidência alegórica alusiva à conservação do corpo
do morto deve se tornar elemento constitutivo da paisagem cemiterial. Nas
versões dos cemitérios-parque ou jardim, predominam as campas-chão, com
aberturas horizontais, na altura do solo, com dimensão exata do corpo humano,
que comportam de uma a três inumações em lages sobrepostas. As superfícies
externas são recobertas por gramado com uma discreta sinalização no local de
inumação. O mesmo princípio aplica-se aos cemitérios verticais, em que os
lóculos para inumação se distribuem pelos andares, alocando os mortos de uma
mesma família pelos corredores dos diferente pavimentos. Mas tanto em um quanto
no outro, a lógica acumulativa de enterramentos, e também de presentificação,
como nos antigos túmulos de família, desaparecem completamente.
Já a cremação, que vem ganhando adeptos nos últimos anos, parece impor ainda
mais novos desafios em relação ao tratamento dispensado ao morto e suas formas
de recordá-lo. É possível conservar a lembrança de alguém sem um signo material
referente à sua existência ou sem a memória de objetos que o evoquem? Muito
prontamente poderia alguém retrucar que o verdadeiro túmulo está muito mais
presente na memória dos vivos, ou no cemitério dos vivos, a ser cultivado no
interior de cada indivíduo, do que na representação alegórica dos restos
mortais de uma pessoa.
Há várias forma de se recordar. Um álbum de fotos, um eventual objeto de
estimação herdado, um souvenir de viagem, uma música, um livro, um aroma não
seriam também capazes de evocar a lembrança de alguém desaparecido e, ao seu
modo, render-lhe homenagem? Mas para isso sempre necessitamos de alguém que nos
recorde, e por certo aí reside um dos fantasmas de quem vive: o medo de ser
esquecido.
Na medida em que os antigos cemitérios não se renovam, tendem cada vez mais a
se tornar vestígios arqueológicos, atrativos de curiosidade muselógica, lugar
de memórias residuais, o que já há algum tempo atrás metaforizava Marcel Proust
ao comparar um livro a um grande cemitério, no qual sobre a maior parte de seus
túmulos não se pode mais ler os nomes apagados. Talvez por isso, para muitos, a
descontinuidade na cadeia geracional represente ainda hoje uma constante
ameaça, como a situação vivida por uma mulher, já bastante idosa, que no São
João Batista, no Rio de Janeiro, costuma dedicar horas semanais a cuidar do
túmulo de seu único filho, morto na juventude. Entretanto, lastima que não lhe
restando muitos dias pela frente, nem laço algum de família, pois todos os seus
já se foram, o nome do filho pouco a pouco perderá os contornos na pequena
lápide, e sem nervuras, como uma grande mancha impalpável, não tardará a
alcançar por completo toda a superfície lisa da pedra, juntando-se a outros
nomes apagados.
Mas independentemente das imagens que suscita e dos meios que os vivos
mobilizam para superá-la, a morte é sempre ruptura radical, por isso ainda hoje
continua sendo objeto de uma série de atitudes ritualizadas, senão coletivas,
individualizadas, mesmo que as morfologias tumulares, as dinâmicas sociais e
seus sistemas de representação em nada mais se assemelhem às dos antigos
cemitérios, que buscavam eternizar, por meio da pedra e de outros elementos
alegóricos, os elos intersubjetivos que a morte foi capaz de desagregar.
Notas
1 Equipamento móvel criado nos Estados Unidos, na década de 1970, cujo objetivo
é expor os corpos dos defuntos em vitrines a fim de que os familiares e amigos
possam do próprio interior do automóvel contemplar o morto e registrar suas
condolências em livro, sem a necessidade de sair do veículo. Experiência
homóloga à do conhecido drive-in que se destina ao consumo de fast food,
propagadas por todo mundo através de cadeias como McDonald's e similares.
2 Trecho do poema O defunto, da autoria de Pedro Nava. Trata-se de cópia dada
pelo autor a Manuel Bandeira, posteriormente incluído no livro organizado pelo
poeta pernambucano, intitulado Apresentação da poesia brasileira(1946, pp. 384-
387).
3 É importante assinalar que o Cemitério do Araçá, construído em 1897, passou a
ser palco de enterramento de segmentos médios da população e de profissionais
liberais, muito deles imigrantes. O Cemitério do Brás, em 1880, tornou-se com o
tempo lugar de inumação popular, conservando um grande contingente de origem
italiana. Já o Cemitério São Paulo, no bairro de Pinheiros, construído na
década de 1930, foi planejado para receber uma parte da elite empresarial e
progressista que emergia com força a partir dos anos de 1940 até a década de
1960.
4 O direito de quem pode e deve ser sepultado em um jazigo de família já foi
estudado por João de Pina Cabral, em contexto contemporâneo, sob a perspectiva
da gestão das sepulturas por algumas famílias burguesas da cidade do Porto. A
noção de que "o sangue é mais denso do que a água" (máxima predileta de David
Schneider: "blood is thicker than wather"), identificada por Pina Cabral como
categoria recorrente entre as famílias burguesas do Norte de Portugal para
"descrever a sua vida familiar", parece também constituir uma referência
importante na lógica de enterramento nos túmulos de família aqui referidos,
embora em outro contexto histórico (ver Pina-Cabral, 1991).
5 É o que se depreende da leitura de alguns testamentos de famílias
tradicionais da segunda metade do século XIX, no Rio de Janeiro e Pernambuco.
Em geral, o testador identifica-se pelo nome e estado civil, número e nome dos
filhos, após instituir o destino do corpo e o local da sepultura.
6 Foram realizados contatos com alguns descendentes de proprietários de túmulos
em alguns dos cemitérios pesquisados. A escolha foi pela antiguidade e
prestígio de algumas conhecidas famílias. No universo pesquisado, só foi
possível localizar e ter acesso apenas àqueles mais idosos, que forneceram
informações a respeito dos critérios adotados em relação aos que poderiam ou
não ser enterrados no túmulo pertencente às suas famílias. Em alguns casos, o
contato foi estabelecido com aqueles que ainda se ocupavam com tarefa de zelar
pela conservação do túmulo ou que visitavam mais freqüentemente o local.
7 Sobre esses assunto, ver Freyre (1951); Ariès, "Du sentiment moderne de la
famille dans les testaments et les tombeaux", artigo apresentado no Colóquio
sobre Familia, realizado em Cambridge, em setembro de 1969 e depois incluído no
livro Essais sur l'histoire de la mort en Occident, 1975, pp. 141-142.
8 Sobre as transformações da idéia de família na sociedade contemporânea, isto
é, de liames familiares a serviço do indivíduo e da identidade pessoal, ver
Sangly (1996a e b), Théry (1999), Roussel (1989). Esses autores, cada um à sua
maneira, reforçam a tese de uma individualização familiar baseada na
"desinstitucionalização" do grupo familiar, isto é, de que a família não mais
se funda a partir do respeito a um passado ou a um projeto comum, tampouco
sobre a vontade de perpetuar uma linhagem, passando doravante a se organizar de
forma mais estritamente pessoal e relacional sobre a qual prevalece a idéia de
indivíduo.
9 No espaço desse ensaio não cabe aprofundar uma reflexão sobre a noção de
pessoa, tal como foi elaborada na antropologia por Marcel Mauss, Lévy-Bruhl,
Maurice Leenhardt e, mais recentemente, por outros antropólogos contemporâneos,
como Louis Dumont,entre outros. Tal noção será retomada em próximo trabalho.
Sobre o assunto, consultar as referências já consagradas: Mauss ([1929] 1969;
[1938] 1950). Ver também C. Carrithers, C. Steven e L. Steven (1985).
10 Sobre esse assunto, consultar o trabalho de Bonnet (1986).
11 Sobre o culto cívico e patriótico, evidenciado na construção de monumentos
aos mortos, é interessante consultar o artigo de Prost (1984).
12 No caso brasileiro, a panteonização dos heróis combatentes quase sempre
encontra-se vinculada às forças armadas: exército, marinha e aeronáutica, ações
de combate muito limitadas. Já no continente europeu, a Primeira e a Segunda
Guerra mundiais marcaram profundamente a concepção de monumento, concorrendo
para que se passasse da celebração individual do herói para a celebração
coletiva das vítimas. Isto não ocorreu no Brasil, haja vista a participação
secundária das forças armadas nacionais na Segunda Grande Guerra, o que
inclusive resultou na construção de monumento coletivo aos soldados
desaparecidos em parque do Rio de Janeiro. No que diz respeito à Europa, ver
Volvelle (1988).
13 A este respeito, consultar Bronfen (1975); Rahme (2000).
14 Provavelmente, o simbolismo dos "anjinhos" tem origem na Península Ibérica,
posteriormente influenciando o imaginário popular de países latino-americanos.
Com o barroco, é possível que tenha se difundido ainda mais essa crença, devido
à abundante representação de cunho religioso nas igrejas, assim como o papel
dos jesuítas no processo missionário entre os povos indígenas. Sobre as
representações da morte infantil, consultar Ariès (1973).