Coexistência cultural e "guerras de religião"
Para abordar esse tema nos tempos presentes, é melhor inverter a ordem dos
conceitos e iniciar pelas "guerras de religião" adequadamente colocadas entre
aspas. A razão das aspas é óbvia: diferentemente daquilo que as primeiras
impressões fazem crer, nenhuma guerra de religião, no sentido normalmente
atribuído a esse tipo de conflito, está ocorrendo agora, pelo menos quando se
pensa nos embates militares que obtêm mais atenção de todos. Nem é necessário
que ocorra.
De fato, a menos que retrocedamos alguns séculos, é difícil encontrar uma
típica guerra de religião, ainda que certas situações como a da Argélia nos
anos de 1990 e a do Noroeste do Paquistão hoje em dia pareçam aproximar-se
daquele conceito. Depois da gigantesca expansão árabe-islâmica pela Ásia,
África e Península Ibérica, das mal-sucedidas cruzadas medievais, ou da Guerra
de Trinta Anos na Europa, que deu origem ao princípio internacional da não-
intervenção em assuntos internos, o conflito de ideologias que mais se
assemelhou ao de religiões foi a Guerra Fria. Parecido, mas não equivalente,
com a guerra de religiões mais típica é o conflito árabe-israelense no Oriente
Médio. Embora mantendo seus fundamentos étnicos e nacionalistas entre as duas
partes adversárias imediatas - o Estado de Israel e os palestinos sem Estado -,
essa questão não-resolvida, apoiada com parcialidade por potências externas,
alimenta substancialmente a arraigada disputa entre o judaísmo e o islã em todo
o mundo.
As guerras na antiga Iugoslávia, especialmente na Croácia e na Bósnia, assim
como a Guerra do Golfo de 1991, que deram inspiração a Samuel Huntington em seu
artigo de 1993, intitulado "Conflito de civilizações?", apenas remotamente se
assemelham a guerras de religiões. A razão pela qual jornalistas e acadêmicos
imediatamente absorveram essa idéia preexistente, atualizada e expandida por
Huntington, foi precisamente sua abordagem simplista. O artigo parecia
explicar, com seu título de três palavras, tudo o que vinha sendo observado e
não era possível entender. Pouco importava se muitas das premissas do autor
estivessem erradas (existe uma "civilização" específica e unificada latino-
americana ou africana?), conceitos, adaptados por redução (Seria o mundo
islâmico um monólito? A Grécia "ortodoxa" não seria parte do "Ocidente"?) e os
fatos históricos, escolhidos à la cartepor se amoldarem aos pontos a serem
ressaltados. Afinal, erros, reduções e escolha arbitrária de fatos como
ilustração são comuns a todos os ensaios.
Infelizmente, alguns intérpretes usaram a expressão - senão propriamente a
descrição mais detalhada, conquanto distorcida, de Huntington - como o novo
paradigma das relações internacionais. Certas ou erradas, as três palavras eram
eficazes e tempestivas. Afinal, desde 1989 scholarse estudantes ansiavam por
substituir o ultrapassado esquema da Guerra Fria, ele próprio, por sinal, muito
simplista, a que antes estavam habituados. Como quase todas as pessoas, tais
intérpretes desconsideravam o ponto de interrogação usado no título do artigo.
Viam e vêem até hoje os conflitos contemporâneos como episódios de um combate
inevitável entre duas grandes áreas culturais que se pressupõem intactas.
O problema maior, porém, materializouse quando conselheiros políticos de
governantes poderosos adotaram esse modelo epistemológico como guia de ação.
Optaram por linhas de conduta que se enquadravam no padrão do "conflito de
civilizações", tendo a palavra "civilizações" como sinônimo de "religiões",
como Huntington tendia a encará-la. Ao fazê-lo, cometeram erros grosseiros,
absurdos, que agravaram tragicamente a situação de todo o mundo.
Guerras de religião e outros conflitos
Não se pode negar que a Guerra da Bósnia - que, aliás, estava apenas no início
quando o texto de Huntington foi publicado - tenha tido um aspecto religioso
importante. Na medida em que o principal elemento da "diferença bosníaca" na
região era a religião islâmica, aquela herança histórica foi amplamente
manipulada por líderes nacionalistas diversos da Bósnia e da Herzegóvina, assim
como por seus amigos e inimigos externos próximos e distantes. "Bosníacos" nada
mais eram do que os eslavos longamente estabelecidos há muito naquela parte da
Península Balcânica que se haviam convertido ao islã sob o Império Otomano.1
Curiosamente, foi Tito, líder da Liga dos Comunistas da Iugoslávia, quem os
reconheceu como "nação", equiparando religião com nacionalidade, e
estabelecendo para os muçulmanos e demais co-habitantes, croatas e sérvios, da
velha Bósnia-Herzegóvina uma república federada, precursoramente
"multiculturalista". Sabe-se também que, durante a guerra, no período entre
1993 e 1995, o apoio de grupos islâmicos de fora, em armas, dinheiro e pessoal
de combate, foi importante para os bosníacos, ou muçulmanos - geralmente
seculares - da Bósnia, único grupo efetivamente atingido pelo boicote de
armamentos do Conselho de Segurança das Nações Unidas, vigente desde 1991,
contra as partes em conflito nos territórios da ex-Iugoslávia.2
A guerra de independência da Croácia, um pouco antes, também tivera conotação
religiosa. Antiga parte do Império Austro-Húngaro, a Croácia era historicamente
católica, enquanto os sérvios, identificados por eles próprios e pelos outros
com a Iugoslávia de antes e depois da Segunda Guerra Mundial, eram cristãos
ortodoxos de origem. Essa diferença entre sérvios e croatas, mais virulenta do
que aquela entre sérvios ou croatas e bosníacos - porque muito aguçada pelos
nazistas ocupantes e locais em seu Estado-fantoche croata -, também foi
alimentada por líderes políticos vários, como elemento demarcador das
diferenças "nacionais". Contudo, o fato de os bosníacos e croatas da Bósnia
terem se reunido no final da guerra respectiva e formarem uma entidade
binacional comum, de que se separou a República Srpska, no novo Estado
independente da Bósnia-Herzegóvina , já é de per siclara indicação de que os
conflitos na ex-Iugoslávia não haviam sido "guerras de religião". Além do mais,
quando aquelas guerras ocorreram, na primeira metade da década de 1990, quase
todos os indivíduos e grupos diretamente envolvidos tinham sido e ainda eram
essencialmente ateus, pertencentes à mesma "civilização" representada pela
ideologia marxista.
A primeira Guerra do Golfo contra o Iraque, simultânea àqueles conflitos pós-
Guerra Fria nos Bálcãs, parecia ter tonalidade religiosa, porque foi,
sobretudo, uma guerra da Otan contra um Estado muçulmano - que havia violado a
fronteira e invadido outro Estado muçulmano, o Kuwait. Na verdade, em todos
esses casos, assim como na guerra no Kossovo - primeiramente interna, depois
internacional em diversos sentidos -, as religiões foram usadas como pretexto,
encobrindo outras razões.3 Aparentemente nobres em alguns casos, como a defesa
do direito internacional e dos direitos humanos de populações envolvidas, essas
razões não diminuíam os interesses políticos, estratégicos e econômicos, mais
ou menos evidentes, como o controle de campos de petróleo, subjacentes à
intervenção estrangeira. Ou a atração de apoio internacional para um grupo
específico.
Atualmente, os conflitos são ainda mais complexos. Contrariamente às primeiras
impressões, eles tampouco constituem guerras de religião no sentido regular do
conceito. Em certa medida, pode-se até questionar se são realmente guerras.
Há, evidentemente, ataques brutais de grupos étnicos e segmentos religiosos de
certas populações contra seus irmãos inocentes, assim como entre forças armadas
de coalizões militares e grupos religiosos que se consideram em guerra em nome
de Deus. Há também, com certeza, conflitos intersectários que vêm destruindo
países específicos; antagonismo extremista de certos grupos de crentes contra
correligionários supostamente desencaminhados; bombardeios de vários lados
contra alvos encarados como símbolos do Mal; operações militares de vingança ou
compensação sob a cobertura de prevenção a agressões, estimuladas por citações
religiosas. Há, além disso, é claro, o conflito entre Israel e os palestinos,
um choque de nacionalismos e pela sobrevivência coletiva, profundamente marcado
pela religião.
Não obstante, nenhum dos conflitos armados correntes se encaixa no molde do
"conflito de civilizações", tomando-se ou não a palavra "civilização" como
significante de "religião". Acima e por baixo de todas essas manifestações de
violência, o conflito essencial de nosso tempo se dá entre fanáticos de
espécies variadas.
Fundamentalismo e terrorismo
Ultrapassa o escopo deste artigo adentrar nas diferentes escolas de pensamento
do islã ou do cristianismo. Tal matéria requer um conhecimento especializado de
que não disponho. Entretanto, pode ser útil apontar alguns fatos, às vezes
desconsiderados, que geram confusões quando se abordam os principais aspectos
dos conflitos de hoje.
Em primeiro lugar se coloca o crescimento generalizado daquilo que se chama
"fundamentalismo" em todos os credos.
A palavra, nas línguas ocidentais, vem do entendimento puritano anglo-
americano, divulgado nos Estados Unidos, de que os crentes devem se ater aos
"fundamentos" da fé cristã: a Bíblia e suas "narrativas fundamentais". Sua
origem remonta ao século XIX e à reafirmação de dogmas contra o chamado
liberalismo cristão e o Iluminismo em geral. O fundamentalismo evangélico
atual, protestante ou católico, manifesta-se mais visivelmente na defesa do
"criacionismo" bíblico, por oposição ao evolucionismo científico darwinista.
Uma vez estabelecido o rótulo, não negativo, de "fundamentalista", para aquele
que rejeita a interpretação de textos sagrados, observando-os em sentido
literal, foi ele transferido dos cristãos anti-hermeneutas do século XIX aos
defensores de posições assemelhadas em outras religiões. Com essa explicação em
mente, não é sem sentido dizer, com adaptações, que não somente os
protestantes, mas também os católicos romanos, assim como o islã, o judaísmo, o
hinduísmo e o budismo têm seus próprios tipos - no plural - de
"fundamentalismo".
Evidentemente, nenhum seguidor convicto de qualquer religião aceitará o uso de
tal palavra com conotação negativa, uma vez que a própria essência da fé requer
a observância de tradições e ditames inexplicáveis pela razão. Além disso, o
termo não se aplica aos ramos longamente estabelecidos do cristianismo, como a
igreja ortodoxa - um nome que fala por si mesmo -, ou do islã, como os xiitas
por oposição aos sunitas. Similarmente ao que aconteceu com os primeiros
protestantes e católicos - ou papistas -, suas diferenças se definiram ao longo
dos séculos de maneira tão marcante a ponto de formarem cultos com hierarquias
próprias, separadas e amplamente reconhecidas.
O significado contemporâneo do chamado "fundamentalismo", conquanto referente
principalmente às religiões, aplica-se metaforicamente a outros campos. Os
"fundamentalistas" têm se multiplicado por toda parte, e o "fundamentalismo"
tornou-se a forma mais difundida de se "tomar posição", inclusive na mais
material de todas as áreas: a economia. Desde o fim da Guerra Fria, a crença em
preceitos chamados neoliberais, baseados na idéia do mercado como regulador
benigno a distribuir justiça e sabedoria para todos, foi apresentada e imposta
como um consenso universal, do qual não haveria escapatória. Na ciência
econômica, a inspiração viria do laissez-fairedo século XVIII e da confiança na
"mão invisível" do mercado, com menos interferência estatal do que o próprio
Adam Smith pretendia. O resultado dessa crença "fundamentalista" no livre-
mercado como único padrão valorativo aceitável levou não somente à crise
econômico-financeira de 2008-2009, da qual parecemos estar-nos recuperando com
intervenção estatal maciça, mas também a outras formas de confusão societária.
Tais formas confundem o conceito de liberdade com comportamento antiético,
democracia com corrupção, emancipação com provocação, livre-arbítrio secular
com transgressão, individualismo com ganância sem limites.
Existem outros efeitos colaterais do tipo de "fundamentalismo econômico
globalizado" como resultado dessas distorções. Um deles manifesta-se na forma
de uma revalorização de tradições como reação à indiferença social e ao
consumismo desenfreado que o neoliberalismo tende a desenvolver. Juntamente com
o novo apego a velhas regras, teoricamente superadas pelo "desencantamento"
weberiano do mundo moderno, a religião reemerge, pela fé e pela razão, na cena
política global. O renascimento religioso ocorre não somente em comunidades e
países religiosos, mas também em Estados seculares. Ainda que com o objetivo de
garantir alguma forma superior de controle para o conjunto, incontrolável por
meio do direito e da aplicação policial da lei, governantes de Estados
constitucionalmente seculares vêm também recorrendo à religião e a líderes
religiosos, na defesa de objetivos comuns.
Fundamentalismo não é, certamente, "terrorismo", especialmente na esfera da
religião. Nem significa necessariamente a rejeição total de crenças e
comportamentos diferentes. Entretanto, para fundamentalistas intransigentes do
Oriente e do Ocidente, a diferença pode às vezes ser tolerada, mas entre "os
outros", não entre os crentes da mesma comunidade. Embora as primeiras versões
do fundamentalismo dentro de denominações protestantes e a salafyyahislâmica (o
caminho dos "bons predecessores") remontem a épocas muito anteriores à cena
presente; a recusa a formas "racionais" de crença constitui um dos ingredientes
culturais típicos de nossos tempos. Mais apegada a símbolos exteriores de
identificação - como códigos de indumentária, preces públicas, demonstrações
místicas de arrependimento, exorcismos e outros ritos - do que à devoção
íntima, à oração individual e às explicações teológicas para descobertas da
ciência, o renascimento religioso de agora, em todas as fés, escolhe
voluntariamente aquilo que Olivier Roy chama de "santa ignorância".4
O segundo fenômeno que provoca confusões cognitivas é o chamado "terrorismo
contemporâneo", expressão que logo traz à mente a destruição do World Trade
Center, em Nova York, em ações multiplamente assassinas e suicidas. Que elas
constituíram atos abomináveis de terrorismo, não há a menor dúvida e é
importante não fazer confusão com isto. Ainda que tenham sido precedidas por
muitos outros atentados de fanáticos, obcecados por fé distorcida, nenhuma ação
anterior tivera a mesma dimensão espetacular dos golpes mortíferos de 11 de
setembro de 2001 contra as torres gêmeas de Manhattan.
Alguns analistas políticos ainda relutam em utilizar aquele rótulo, de
"terrorismo", primeiramente aplicado a uma fase da Revolução Francesa - o
Terror -, apesar das numerosas convenções que se referem explicitamente ao
terrorismo, sem que exista uma definição internacionalmente aprovada para o
conceito.5 No entanto, o uso do terror foi mencionado como terrorismo e
condenado sob este nome, sem reservas, até pela Conferência Mundial de Direitos
Humanos de 1993, em Viena. Sua Declaração e Programa de Ação, adotada sem voto
por todas as delegações, supostamente representando Estados de todas as
religiões e sistemas políticos, afirmava:
Os atos, métodos e práticas terroristas em todas as suas formas e
manifestações, bem como os vínculos existentes em alguns países entre
eles e o tráfico de drogas são atividades que visam à destruição dos
direitos humanos, das liberdades fundamentais e da democracia e que
ameaçam a integridade territorial e a segurança dos Estados,
desestabilizando governos legitimamente constituídos. A comunidade
internacional deve tomar todas as medidas necessárias para fortalecer
a cooperação na prevenção e combate ao terrorismo.6
Sem entrar nos significados da palavra "terrorismo" e estando eu plenamente
consciente de que o "terrorista" para alguns é o "herói", o "lutador pela
liberdade", ou o "mártir" para outros - ou até para os mesmos, em
circunstâncias diferentes -, o que torna a forma contemporânea de terrorismo
tão desnorteante não são os atos de violência difusa por si próprios. O
terrorismo, quaisquer que sejam a definição e os perpetradores, sempre visou a
espalhar o medo e a insegurança, violando direitos humanos e liberdades
fundamentais, ferindo e matando não-combatentes. Foi com esse entendimento
corriqueiro que a Conferência de Viena "universalmente" denegou legitimidade a
ele, propondo cooperação internacional para combatê-lo.
É verdade que o terror no passado era considerado uma "técnica" usada por
anarquistas e outros insurgentes contra o Estado, na qualidade de instituição
demarcada, específica.7 Com esse pano de fundo, não causaria surpresa a
condenação do terrorismo por representantes de todos os Estados, como ocorreu
em Viena.8 Hoje, porém, as manifestações daquela "técnica" em atentados
ultrapassam delimitações territoriais, políticas e religiosas.
Conquanto eu obviamente rejeite a implicação de que o terror possa ser
intrinsecamente relacionado ao islã, ao judaísmo, ao cristianismo, ao
hinduísmo, ao budismo ou a qualquer outro sistema de fé transcendental,
concentrarei aqui a atenção nos aspectos do terrorismo contemporâneo que possam
estimular a noção de um "conflito de civilizações": de um lado, explosão de
bombas, bombardeios e tomadas de reféns civis pelos chamados "djihadistas" -
não de indivíduos ou grupos insurgentes motivados por causas definidas mais
concretas - e, de outro lado, muitas das ações militares ou de segurança
doméstica de forças ocidentais e seus aliados.9
Compartilho a percepção de Habermas de que acontecimentos como os de 11 de
setembro - seguidos das bombas detonadas nos metrôs de Londres e Madri -,
desprovidos de objetivo minimamente realista, ficam sem conteúdo político.10
Acredito, inclusive, que a aceitação ou a atribuição da intenção de construir
um califado planetário na Terra aos autores de atentados como os que destruíram
o World Trade Center é um reconhecimento de legitimidade a eles que nenhum
outro muçulmano lhes confere. Contrariamente ao que dão a entender certos
estudiosos das diversas correntes do chamado fundamentalismo islâmico, nenhum
dos teóricos muçulmanos inspiradores de movimentos radicais propôs ataques a
inocentes, fossem estes "infiéis" ou correligionários, sem clara finalidade
política. Assim, procurarei não utilizar o galicismo "islamista", nem o
adjetivo "islâmico" ou qualquer outra expressão que automaticamente associe o
islã a atentados variados. Observo, assim, postulação compreensível dos
seguidores dessa religião, que lembram não serem chamados de cristão ou
"cristianistas" os autores de outros atentados no Ocidente.11 Por outro lado,
abordarei também aspectos das formas correntes de combate ao terrorismo, com
objetivos conhecidos evidentemente improváveis, que se equivalem, em termos
práticos, a técnicas de terror.
O que caracteriza o "terrorismo contemporâneo" como um tipo sui generisde
terrorismo não é a tecnologia empregada nas ações, nem a forma dos atos de
violência per se. A tecnologia moderníssima, com comunicação virtual e
desterritorializada, de arregimentação de agentes é, sem dúvida, um de seus
aspectos importantes. A outra maior "novidade" encontra-se na
incompreensibilidade dos objetivos últimos das ações perpetradas, assim como na
reação que alguns países decidiram adotar contra elas.
Objetivos terroristas
Embora a figura do homem-bomba constitua a imagem emblemática do terrorismo
contemporâneo, o fenômeno do auto-sacrifício absoluto voluntário não constitui
novidade. É fato que não se podem comparar atacantes-suicidas com os mártires
religiosos de todas as fés ou heresias, que se submetiam a formas excruciantes
de tortura e morte para afirmar sua devoção, sem causar dano aos demais, sempre
se poderão lembrar, porém, os kamikazes do fim da Segunda Guerra Mundial, avião
ou torpedo, como o piloto-suicida ou homem-bomba de hoje, o kamikaze japonês
tinha a intenção de carregar com sua morte a vida de inimigos. Mais
recentemente, nos anos de 1970 e 1980, os militantes da luta de independência
da Palestina já vinham recorrendo a ataques suicidas em diversas operações. Nos
casos dos kamikazes japoneses e dos homens-bombas palestinos, porém, o objetivo
político-militar estratégico foi sempre evidente. Hoje, a situação é outra,
mais difícil de interpretar ou apreender pela lógica a que estamos habituados.
Entre as já incontáveis histórias reais que se podem ler sobre os terroristas-
suicidas atuais, uma publicada em agosto de 2009 pareceu-me particularmente
eloqüente. Envolvia uma mulher, de um grupo de dezesseis candidatas a suicidas-
atacantes presas na província de Diyala, no Iraque, desde o começo de 2008,
algumas das quais flagradas já com coletes de bombas no corpo. Visitada mais de
uma vez pela jornalista autora da matéria, a prisioneira aparentemente
desenvolveu alguma afeição pela entrevistadora. Não obstante, quando indagada
se seria capaz de matar a própria jornalista, se recebesse instruções nesse
sentido, a prisioneira, após breve hesitação, respondeu, conforme citado no
texto: "Se eles insistissem, sim. Sendo você estrangeira, seria halalmatá-
la"12. É verdade que a entrevistadora era americana, e que a mulher iraquiana
tinha perdido seus cinco irmãos mujahedin, mortos pelas forças dos Estados
Unidos. Além do mais, ninguém questiona o fato de a Al Qaeda e outros grupos
similares, organizados em redes de comunicação pela internet, repudiados pelos
correligionários no poder em todo o islã, consideramse em guerra com o
Ocidente, mirando agora suas ações particularmente contra as forças ocidentais
no Iraque e no Afeganistão - não menos do que os Estados ocidentais e seus
aliados se consideram em guerra contra esses grupos e redes extremistas. Mas
quem propiciou e definiu esse objetivo prioritário inteligível, de expulsar as
tropas de ocupação estrangeiras em territórios do islã, não foram os homens-
bombas suicidas ou seus mentores terroristas. Foram os Estados que para lá
enviaram suas tropas. Dos terroristas contemporâneos as ações continuam muitas
vezes dirigidas a alvos menos compreensíveis, como as organizações humanitárias
presentes, freqüentemente integradas por pessoal local ou de origem oriental e
muçulmana.
Sabe-se que alguns fundamentalistas islâmicos radicais têm, há tempos,
teorizado em favor da violência contra outros muçulmanos - proibida pelo Corão
- encarados por eles como traidores do islã, logo "infiéis", com linguagem que
remonta ao tempo das cruzadas. Fatos históricos comprovam com abundantes
atentados em muitos países a colocação em prática dessas teorias - que, aliás,
nunca foram exclusividade islâmica. Extremistas de diversas fés, causas e
ideologias têm há muito perpetrado atentados políticos e massacres envolvendo
seus irmãos mais próximos. Motivados pela religião ou por crenças não-
religiosas, a explosão do edifício federal em Oklahoma City em 1994 por
norteamericano branco anglo-saxão, o assassinato de Itzhak Rabin, em 1995 por
judeu israelense, o ataque com gás venenoso no metrô de Tóquio, também em 1995,
por japonês budista são apenas três exemplos dos inúmeros casos congêneres
ocorridos fora do contexto do islã. Lógica semelhante subjaz a outros atos, de
feições superficialmente distintas, como, por exemplo, os incêndios provocados
por cristãos em clínicas norte-americanas que praticam o aborto.
Poucos dias após a publicação da matéria sobre as mulheres-bombas no Iraque, o
mesmo jornal internacional relatava que um homem-bomba havia explodido em área
limítrofe entre o Afeganistão e o Paquistão, no primeiro dia do mês de Ramadã,
junto de guarda-fronteiras tribais, matando um total de 22 pessoas. Segundo uma
testemunha, o suicida teria oferecido comida aos policiais, que estavam se
preparando para a quebra do jejum religioso, pouco antes do crepúsculo, sendo
convidado a unir-se ao repasto no gramado.13 Se o atacante-suicida estava
testando a devoção religiosa dos guardas antes que o último raio de sol daquele
dia se apagasse, ou, mais provavelmente, se tinha sido simplesmente instruído a
matar os guardas no contexto das guerras tribais afegãs, pouco importa. O que
conta aqui, nesse atentado com mortes numerosas, hoje quase rotineiro, é o fato
de o perpetrador não estar cometendo um ataque contra hereges, infiéis ou
inimigos religiosos. Ele e seus instrutores estavam ou combatendo o "pecado",
ou praticando um ato típico do terrorismo contemporâneo para realizar um
assassinato coletivo tribal dentro da mesma esfera cultural e política. Afinal,
não havia qualquer indício de que os tais "guarda-fronteiras tribais"
estivessem ali sob ordens do Ocidente, que trabalhassem para os americanos, ou
sequer que sua tribo fosse ligada à aliança militar liderada pelos Estados
Unidos. Não disponho, aliás, de qualquer indicação de que as rivalidades
étnicas no Afeganistão sejam especificamente baseadas em religião.14
Se os episódios de violência atuais devem ser interpretados como práticas de
uma guerra dentro de uma mesma religião, ou se constituem aspectos de uma
guerra de religiões, envolvendo, de um lado, forças militares estatais e, de
outro, extremistas religiosos, muitos dos quais oriundos dos mesmos Estados que
combatem, é um ponto a ser discutido. De acordo com declarações de líderes de
movimentos islâmicos que utilizam homensbombas e pilotos-suicidas, eles têm
plena convicção de que se encontram em "guerra santa", uma forma extrema de
djihadcontra o Mal e os infiéis, de proporções planetárias. Posição simétrica
parecem - ou, melhor, pareciam - ter os líderes ocidentais das coalizões
militares formadas para combater esses movimentos. Alguns dos chamados
neoconservadores dos Estados Unidos são, aliás, devotos de denominações
evangélicas enquadradas no fundamentalismo cristão original.
Nem uns, nem outros, contudo, são suficientes para compor um verdadeiro
"conflito de civilizações". Ao contrário, independentemente das convicções que
possam respectivamente alimentar, de que se acham em fitnaou djihad, guerra
civil ou resistência a ocupação estrangeira, guerra santa, cruzada, ou guerra
preventiva, intervenção humanitária ou operação militar de vingança, os
participantes dos conflitos atuais mais violentos contradizem o paradigma
intercivilizacional disseminado por Huntington. Enquanto apenas um dos lados se
afigura "irracional" a ponto de recorrer ao suicídio individual de
correligionários como tática de uma estratégia sem finalidade, ambos
constituem, na prática, independentemente dos objetivos de cada, adversários
extremos em combates "não-civilizados" de fundamentalismos distintos. A menos
que nos disponhamos a aceitar esses fundamentalistas dos dois lados como
representantes legítimos do Ocidente e do islã, admitindo que o iluminismo seja
pior que todas as tradições e se acha superado por uma pós-modernidade
irremediavelmente regressiva, esse combate de dois grupos não configura uma
verdadeira guerra de religiões.
O terror contra o terror
Passando agora à forma de reação que alguns Estados decidiram adotar contra o
terrorismo, as definições e os rótulos são igualmente elusivos. Se levarmos em
consideração as declarações bíblicas e maniqueístas, com conotação religiosa
explícita, feitas por certos líderes ocidentais, especialmente na fase de
consideração do curso de ação a adotar como resposta aos atentados do 11 de
setembro, a impressão que se tem é de que esses líderes, como a Al Qaeda,
estavam convencidos de que se encontravam num conflito de religiões. Com o
primeiro anúncio de uma "cruzada" contra aqueles que davam "santuário" aos
terroristas e operações militares sob nomes como "Justiça Infinita" e
quejandos, a reação parecia enquadrar-se num plano transcendente, também
noumenal. Ecoavam a postura de seu inimigo mais procurado, líder de um
movimento autodeclarado em guerra contra os "judeus" e "cruzados". Endossavam a
posição do oponente de que os ataques do 11 de setembro tinham "dividido o
mundo em duas moradas: a morada dos crentes, onde não há hipocrisia, e a morada
da descrença, que Deus nos livre dela!".15 Embora as primeiras qualificações
religiosas tenham sido rapidamente alteradas em aparente correção de um faux
pas, substituídas por termos mais "apropriados" - na prática, tão ruins quanto
os anteriores -, e apesar das afirmações e reiterações de que a coalizão
comandada pelos Estados Unidos não estava em guerra com o islã, mas contra o
Terror, o contínuo uso de expressões bíblicas, associadas a outros fatores -
como a utilização ofensiva do Corão para coagir prisioneiros em interrogatórios
-, fortaleceu a sensação de que aquelas estratégias militares, questionáveis de
todos os pontos de vista, ressaltavam a correção do paradigma de Huntington.
Pior do que qualquer impressão gerada por palavras e gestos simbólicos, os
líderes ocidentais pareciam, com sua conduta e as peculiaridades que a
cercavam, haver deliberadamente optado pelo tipo de reação desejada pelos
próprios terroristas.
Morando nos Estados Unidos, ainda que não em Nova York, por ocasião do 11 de
setembro, eu próprio me recordo da perplexidade pavorosa que os ataques
provocaram em todo o país. Em larga medida, também compartilhei do medo e da
sensação de insegurança gerada por eles e amplificada pela imprensa, para não
falar dos constantes "alertas laranja e vermelho" emitidos pelas agências do
governo. Lembro-me igualmente de como era fácil promover suspeitas,
intolerância e "patriotismo" exaltado numa população ofendida e amedrontada,
contra opiniões discordantes. Nunca esqueci como Susan Sontag foi boicotada
depois de publicarem suas observações contrárias à interpretação de que os
ataques haviam sido perpetrados contra a "civilização" e o "mundo livre",
opinando que se dirigiam à "autoproclamada única superpotência do mundo, em
conseqüência das alianças e ações americanas".16 Sem subscrever opinião tão
contundente, por sinal também simplista, mas certamente sem submergir no clima
de hipersensibilidade prevalecente, podia-se facilmente compreender que
bombardeios a um país pobre e já destroçado em guerras anteriores não seriam
nunca uma boa reação. Quanto mais se o país-alvo era muçulmano, com inclinações
fundamentalistas. Ação militar era precisamente o tipo de reação que os
mentores dos ataques ao World Trade Center e ao Pentágono deveriam desejar.
Pois era bastante evidente que a força armada de per sinão tem condições para
desmantelar uma rede de fanáticos dispersos, que se coordenam pela internet e
recorrem a operações suicidas. Quase ninguém ousava dizer isso abertamente.
Quando alguma personalidade conhecida o fazia, o que diziam não era divulgado
adequadamente nos principais meios de comunicação norte-americanos.17 Indagado
das razões pelas quais a Otan estava hesitando em unir forças com Washington
para atacar os talibãs, o sempre indomável Noam Chomsky respondeu:
Ela reconhece, assim como qualquer um com conhecimento adequado da
região, que um assalto maciço a uma população muçulmana seria a
resposta às preces de Bin Laden e seus associados e levaria os
Estados Unidos e seus aliados a uma "armadilha diabólica", nas
palavras do ministro do exterior francês.18
Na França, com uma perspectiva mais filosófica, mas não afastada da realidade,
em novembro de 2001, Jean Baudrillard, para quem o terrorismo seria o fenômeno
extremo decorrente da globalização, qualificava a ação militar como um falso
acontecimento, particularmente sem sentido. Explicava sua interpretação
acurada, invertendo a célebre definição de Clausewitz para a guerra, de maneira
a descrever essa guerra contra o Terror como "a continuação da falta de
política por outros meios".19
Enquanto as declarações políticas e operações militares contra os terroristas
pareciam confirmar a noção de um conflito de civilizações, ainda que não
exatamente uma guerra de religiões - um dos aliados vitais na Coalition of the
Willing era o muçulmano Paquistão -, outras práticas contra o terrorismo
levavam a crer na vitória daquilo que elas se dispunham a combater.
É difícil sumariar brevemente todas as medidas de segurança adotadas por países
ocidentais a enviarem a mensagem de que "o Ocidente" havia decidido abandonar
aquilo que sempre reivindicara como "valores ocidentais". Muitas dessas medidas
constituíam violações grosseiras de liberdades e direitos civis, histórica e
doutrinariamente considerados como a primeira geração dos direitos humanos.
Começando por detenções arbitrárias, feitas com base em estereótipos raciais e
religiosos, seguidas de prisão extrajudicial prolongada, da recusa em obedecer
às convenções de Genebra sobre o direito humanitário e do emprego de eufemismos
ridículos para evadir definições legais preestabelecidas, as medidas de
segurança, estendidas a práticas de vigilância crescentemente generalizadas,
com escuta telefônica, gravações em áudio e vídeo etc., correspondiam à
abolição não-decretada do direito à intimidade de populações inteiras, com foco
em grupos específicos. No degrau mais baixo da renúncia aos valores auto-
atribuídos como ocidentais situava-se o recurso à tortura, muitas vezes
associada à prática, igualmente infame, das chamadas renditions: entrega de
prisioneiros para serem interrogados com "técnicas fortes" em países
estrangeiros, numa "terceirização" do jogo sujo reminiscente das terceirizações
privatizantes recomendadas pelo neoliberalismo. Tais absurdos ocorriam, por
sinal, com ampla divulgação pela imprensa e conhecimento do público,
denunciados como violações grosseiras de direitos humanos universais.20 Em
suma, desde a Segunda Guerra Mundial, nunca a visão de Giorgio Agambem de que o
mundo vive atualmente num Estado de exceção permanente21 se afigurara tão
acurada.
Chega-se assim à questão essencial: se, para termos êxito em batalhas
específicas, precisamos abdicar dos valores que representam nossa identidade
moral, quem, afinal, estará ganhando a guerra? Tal questão, que deve ter
habitado o fundo de nossas mentes já há algum tempo, adquiriu sinistra
atualização, desde o recrudescimento de explosões coordenadas de bombas no
Afeganistão, imediatamente antes das eleições presidenciais de agosto de 2009,
juntamente com advertências e ameaças destinadas a manter, pelo medo, a
população afegã distante das urnas.22
Ademais do Afeganistão, dos talibãs e da Al Qaeda, permanece a questão da
ocupação do Iraque. A esta altura, soa absurdo recomeçar a discussão das causas
da ação militar decidida de maneira unilateral pela liderança ocidental de uma
aliança ad hoc. Está hoje mais do que comprovado que as razões alegadas para o
ataque eram erradas, a operação, injustificável, seus resultados finais, ainda
instáveis, e seus efeitos de longo prazo, imprevisíveis. Soa também irrelevante
chamar a ação de "intervenção", "prevenção", "invasão" ou qualquer outro nome.
O fato concreto hoje é que existe um novo governo no país, eleito pelos
iraquianos, reconhecido no exterior, e esse mesmo governo favorece a retirada
das tropas estrangeiras. Por mais que os terroristas ainda sacudam o cenário
iraquiano inesperadamente, e malgrado o arremesso de sapatos humilhantes contra
seus patrocinadores, os atores políticos locais encontram-se hoje legitimados.
Não há como negar, entretanto, que essa segunda intervenção militar no Iraque
parece confirmar a impressão propiciada pela primeira, de que um conflito de
civilizações está em curso.
A concentração prioritária de terroristas e homens-bombas, desde 2003, naquele
país, facilita a interpretação de que se trata de forças de resistência à
ocupação estrangeira. Por mais que algumas das correntes fundamentalistas
extremadas venham ensinando, há muito, ser halalmatar infiéis, a maneira pela
qual a prisioneira potencialmente suicida de Diyala se via, e se reconhecia
capaz de matar a entrevistadora norte-americana, era como resistente anti-
estrangeira, não como "djihadista".
Não obstante, cabe a pergunta se isso é realmente o que está acontecendo, se a
visão dos terroristas e homens-bombas contemporâneos como resistentes,
comparáveis aos maquisardse partisansantinazistas na Segunda Guerra Mundial,
aos insurgentes argelinos na luta de independência em meados do século XX, ou
aos milicianos palestinos atuais, é minimamente verdadeira. Não seriam os
próprios iraquianos e afegãos comuns e inocentes os alvos principais da maioria
dos ataques? Os orientadores dos terroristas suicidas seriam realmente
"terroristas islâmicos", assim rotulados num Ocidente que não reconhece suas
culpas?23 Não são esses terroristas rejeitados e combatidos pelo islã? Não são
eles, muitas vezes, cidadãos nascidos e criados no Ocidente? Não estariam agora
apenas provisória e majoritariamente reunidos em território iraquiano e afegão,
deste extravasando as fronteiras com o Paquistão, onde parecem confundir-se com
os talibãs na tentativa de construção de um califado virtuoso? Essa
concentração geográfica não seria para eles uma fase necessária de um combate
planetário contra as fontes terráqueas do Mal, a envolver como inimigos todos
aqueles por elas seduzidos? Se a resposta for positiva nestes casos
significativos, eles certamente não configuram um conflito de civilizações, nem
uma guerra de religião ou religiões de sentido habitual.
Para os muçulmanos em geral, "moderados" ou simplesmente não-extremistas,
independentemente da simpatia que muitos - assim como muitos nãomuçulmanos -
possam ter com algumas ações, os agentes típicos do Terror atual não são
civilizados, nem integrantes do islã.24 Essa mensagem, reiteradamente
transmitida por líderes reconhecidos, sunitas e xiitas, em todas as ocasiões,
não tem chegado como devia aos ouvidos das comunidades islâmicas em territórios
do Ocidente. Menos ainda atingem a consciência popular do "Primeiro Mundo",
amortecida por notícias superficiais e análises irresponsáveis, amedrontada
pela demagogia perigosa de alguns políticos expressivos e crescentemente
barricadas contra os imigrantes em geral, aí inclusos os concidadãos de fé ou
origem muçulmana. Da mesma forma que não convencem o mundo muçulmano em geral
as declarações dos líderes ocidentais, envolvidos nas operações militares no
Afeganistão e Iraque, de que não estão em guerra com o islã.
Coexistência cultural
Deixando de lado a idéia, no mínimo questionável, de que o mundo pós-Guerra
Fria está fadado a viver num conflito de civilizações, é possível encarar a
inevitável coexistência cultural de hoje de maneira mais racional. A
interculturalidade não constitui objetivo que se escolha; ela é um fato.
Ocorre, em graus variados, com recepção diferente, basicamente em toda parte.
Rejeitá-la não faz sentido, assim como não faz sentido rejeitar o processo de
globalização per se. O máximo que se pode decidir é a melhor maneira de lidar
com esses dois fenômenos.
Antes de ser o funcionário brasileiro designado para a função de coordenador
nacional dos aspectos governamentais da iniciativa das Nações unidas denominada
"Aliança de Civilizações", tenho participado, desde 2002, do trabalho do Comitê
para a Eliminação da Discriminação Racial - Cerd25, "órgão de tratado" da Onu
composto de 18 membros, estabelecido para supervisionar a execução da Convenção
Internacional sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial, de
1961. No Comitê, em Genebra, ao dedicar-me à tarefa de examinar os relatórios
periódicos dos Estados-Partes da Convenção, juntamente com as comunicações e as
queixas de indivíduos, grupos, organizações intergovernamentais e
nãogovernamentais, tenho podido observar o quanto cada sociedade já se acha
atualmente misturada. No século XXI, a heterogeneidade é feição comum a
praticamente todos os países, de tal forma que o Cerd, integrado por peritos
eleitos pelos Estados-Partes, levando em consideração "uma distribuição
geográfica equitativa e a representação das diferentes formas de civilização e
dos principais sistemas legais",26 regularmente se opõe a afirmações de
qualquer governo de que sua população seja homogênea. Assim como rejeita a
idéia de que não ocorram qualquer tipo de discriminação no Estado-Parte
respectivo.
Enquanto os Estados vêm-se tornando continuamente menos homogêneos, e o mundo,
crescentemente entrelaçado, o mesmo não ocorre com pequenas comunidades e
grandes religiões. Ao contrário, seja como forma de auto-afirmação de grupos
não detentores do poder, seja como autoproteção étnica contra o consumismo
amoral, inerente à globalização em curso, as culturas vêm-se revigorando -
ainda que de maneira distorcida - a ponto de parecerem sagradas. Uma vez que as
religiões sempre foram aspectos importantes das culturas, o renascimento
religioso pós-moderno tem sido um dos aspectos marcantes da fase contemporânea,
ao passo que a religião em si vem-se reapresentando como fator essencial da
política, inclusive em Estados constitucionalmente seculares.
Há, certamente, diferentes maneiras de lidar com a composição pluricultural das
sociedades contemporâneas, que poucos Estados ou partidos ainda insistem em
negar. É possível dividir as atitudes correntes com relação à pluralidade
étnica e racial em duas grandes linhas: aqueles que professam o
"multiculturalismo" para lidar com a assimetria de condições entre comunidades
distintas e aqueles que preferem a "integração"-, vocábulo que não deve ser
confundido com "assimilação". Comum em quase todos os Estados até o fim da
Guerra Fria, a política de assimilação é hoje repudiada por lideranças
acadêmicas e sociais como o esmagamento forçado da diversidade para absorção do
diferente na cultura dominante.
Originalmente inventada no Canadá como sistema para evitar o separatismo dos
franco-falantes do Québec, "multiculturalismo" é um padrão de tratamento das
diferenças raciais, étnicas, culturais e origens nacionais, agora normalmente
associado à tradição anglo-saxã, postulante da manutenção das diferenças sem
misturas, na forma de mosaico de comunidades adjacentes. Do outro lado do
espectro, ligado à tradição republicana francesa, encontram-se as políticas de
integração - não exatamente "integracionismo", expressão encarada com
desconfianças por trazer à mente políticas supostamente antiquadas dos "Estados
nacionais homogêneos", usadas no passado para apagar, sem genocídio, os traços
da identidade de minorias étnicas, ou, como se diz correntemente, contra o
"direito à diferença".
Ambas as expressões, "multiculturalismo" e "integração cultural", são, como é
usual na linguagem política, imprecisas, quando não voluntariamente
enganadoras. Ambas podem ser positivas e negativas, conforme a semântica que se
lhes atribua. O multiculturalismo, uma das principais tendências ideológicas de
nossos tempos, será com certeza positivo, na medida em que se proponha a
reconhecer e respeitar as diferenças existentes. Pode ser também
contraproducente ou, mais diretamente, negativo, com ou sem boas intenções, se
tratar as culturas como monólitos refratários ao sincretismo e à miscigenação,
estimulando o chamado "racialismo" - maneira de enfocar as sociedades apenas
pela ótica das raças - e, juntamente com ele, como efeitos colaterais do
reconhecimento, a discriminação e a auto-segregação. Menos na moda do que o
multiculturalismo, e colocada sob suspeita por movimentos em defesa dos
direitos de minorias, a integração constitui um objetivo positivo, contanto que
promova condições de igualdade reais e respeite o direito de cada um a seus
elementos de autoidentificação original. Quando a igualdade é afirmada pela
força, com desatenção para as distinções existentes ou esmagando as
individualidades que não queiram continuar com traços de identificação
ancestrais, transforma-se em assimilação, majoritária ou comunitária, que
geralmente viola direitos humanos universais. Por outro lado, muitos países
adotam políticas de ação afirmativa, inclusive preferências e cotas, para
grupos específicos, sem a estes se referir como "minorias" e sem se
autodeclarar "multiculturalistas". Outros Estados se autoqualificam como
"multiculturalistas" querendo dizer simplesmente que reconhecem as várias
contribuições culturais e populacionais que compõem a Nação, evidentemente
misturada. Outros ainda continuam a declarar-se homogêneos em matéria de raça e
religião, mas asseguram os direitos das pessoas e dos grupos diferentes
presentes em seu território, sejam elas cidadãs ou estrangeiras.
Raramente se encontram hoje Estados que recusem aos etnicamente diferentes o
direito de usar a língua materna, de professar a própria religião, de praticar
os próprios cultos, contanto que nada disso viole a legislação local. Com isso
não quero dizer que todos os líderes políticos e religiosos, agentes policiais,
juízes, funcionários públicos em geral, executivos, comerciantes e as pessoas
comuns respeitem os direitos dos "diferentes" todo o tempo. Quero dizer, sim,
que são raríssimos os governos estabelecidos que não empregam o discurso dos
direitos.
Discurso e legislações à parte, uma das tendências contemporâneas mais
marcantes, conforme já mencionado, consiste na radicalização dos extremos, não
somente na esfera religiosa. A intolerância fascistóide, o racismo e a
xenofobia, agravados pela competitividade acirrada dentro do capitalismo
globalizado, assim como a negação pós-moderna de valores universais,
correspondem a fenômenos correlatos. Enquanto esta afirmação aqui se refere às
sociedades, ela se aplica igualmente ao contexto internacional. Não acrescento
o terrorismo a essa lista de correlações atuais porque me recuso, moralmente, a
qualificá-lo como natural. Ainda que em termos lógicos qualquer um, eu
inclusive, possa subscrever a interpretação de Baudrillard - e de Derrida,
entre outros analistas - de que o terrorismo contemporâneo é o vírus gerado
pelo sistema econômico-tecnológico existente, que vem globalizando sua
desumanidade intrínseca juntamente com suas próprias formas de terror.
A aliança de civilizações
Em 2004, na esteira das explosões que mataram 192 pessoas em estação do metrô
de Madri, um novo governo foi eleito na Espanha. Enquanto outros governos de
muitos países, que se haviam unido à reação militar ao 11 de setembro e na
posterior invasão do Iraque sob outros pretextos, continuavam sem pruridos nas
duas alianças bélicas, o novo governo da Espanha imediatamente retirou o
contingente espanhol do Iraque, mantendo somente uma participação quase
simbólica na operação, corroborada pela ONU, no Afeganistão. Além disso, o novo
presidente do governo, José L. R. Zapatero, na primeira sessão da Assembléia
Geral de que participou, propôs às Nações Unidas uma "aliança de civilizações"
de cunho pacífico, preventivo, assim como a designação pelo Secretário Geral de
um Grupo de Alto Nível para "impulsionar essa iniciativa".27 O nome soava
bonito, positivo, em contraste com o "conflito de civilizações", mas a forma e
o conteúdo dessa "aliança" precisavam ser inventados.
Aceitando a sugestão do Chefe de Governo da Espanha, com o co-patrocínio do
Primeiro Ministro da Turquia, Recep T. Erdogan, em julho de 2005, o Secretário
Geral das Nações Unidas, Kofi Annan, lançou a "Aliança de Civilizações,
destinada a construir pontes sobre as divisões entre sociedades, exploradas
pelos extremistas".28 Também anunciou a decisão de convocar um grupo de
personalidades eminentes para discutir a possível substância da iniciativa e
apresentar relatório com recomendações e um plano de ação. O Grupo de Alto
Nível, integrado por vinte intelectuais de todas as áreas geográficas,29
manteve reuniões e debates, vindo a apresentar seu relatório em novembro de
2006.30 Desde então esse relatório tem sido a fonte de referência para todos os
planos e projetos implementados no âmbito da Aliança de Civilizações.
O relatório é direto, sem circunlóquios. Assinala inter alia: "(A) a ansiedade
e a confusão causadas pela teoria do 'conflito de civilizações' distorce de
maneira lamentável os termos do discurso sobre as dificuldades que o mundo vem
enfrentando".31 No item intitulado "A emergência do extremismo", o texto
explicita: "A exploração da religião por ideólogos [...] tem levado à percepção
equivocada de que a religião per seé a causa profunda de conflitos
interculturais". A expressão "fundamentalismo" vem descrita como vocábulo
"cunhado por cristãos protestantes [...] não adequadamente aplicável a outras
comunidades". O relatório considera importante notar, a esse respeito, que
movimentos assemelhados ao "fundamentalismo", nem sempre violentos, "existem na
maioria das tradições [...]. O que há de comum a todos eles é um grande
desapontamento e medo da modernidade secular, de que muitos tiveram a
experiência como algo invasivo, amoral e desprovido de significação mais
profunda". O extremismo, "não necessariamente religioso", tem o significado
delineado como a advocacia de "medidas radicais para alcançar objetivos
políticos".32
Composto de 102 Estados e organizações internacionais, em setembro de 2009, a
aliança abrange grande variedade de parceiros privados - empresas,
universidades, fundações e ONGs - e não tem implicações militares. Baseada no
entendimento de que, para superar "percepções polarizadas, alimentadas por
injustiças e desigualdades", agravadas por "guerras, ocupação e atos de terror"
que têm exacerbado as suspeitas mútuas e o medo entre sociedades e dentro
delas", é necessário "forjar a vontade política de abordar os desequilíbrios do
mundo", a Aliança de Civilizações concentra suas ações em quatro prioridades:
educação, juventude, migrações e meios de comunicação. Enquanto os Estados e as
organizações intergovernamentais são os membros constitutivos da aliança, a
maioria dos projetos, que se espera tenham efeito multiplicador, são
planejados, financiados e implementados pela sociedade civil, inclusive,
evidentemente, instituições de ensino e pesquisa.
Havendo experimentado o terror causado por agentes internos no país, os
socialistas da Espanha haviam optado desde antes pela negociação com a ETA
basca, como um meio melhor do que a repressão, para aplacar a fúria extremista.
O diálogo pode não ter saciado os elementos radicais já terroristas, mas
certamente não terá estimulado um ressentimento generalizado capaz de facilitar
a mobilização de novos agentes. Atitude semelhante inspira a Aliança de
Civilizações. Ninguém espera que a iniciativa em si seja capaz de erradicar as
causas do terrorismo contemporâneo. Nem sequer a crença determinista de que as
culturas tendem a chocarse. Ela pode, no máximo, ajudar a criar condições para
um melhor entendimento mútuo. Ao procurar contrabalançar estereótipos, ela
certamente não alimenta condições a excitarem aquilo que o escritor e pensador
libanês Amin Malouf chama de "identidades assassinas".33
O multiculturalismo é uma denominação para políticas sociais em voga. A
realidade é, porém, multicultural, não multiculturalista, muito menos
integracionista no sentido positivo da expressão. Não obstante, gostando-se ou
não dessa realidade, o mundo, já interligado, continuará a aproximar
literalmente as culturas ainda mais, colocando-as crescentemente lado a lado ou
mesclando-as. É necessário fazer todo o possível para enfrentar a situação
presente, em que as respostas predominantes à alteridade têm sido a
intolerância fascistóide, o racismo discriminatório, a xenofobia agressiva, o
terrorismo e outros tipos de extremismo.
Se, apesar das recaídas correntes, as maiorias em quase todas as sociedades
entenderem que a diversidade é algo bom, e muitos Estados vêm declarando que
reconhecem o pluralismo cultural como riqueza, não como defeito, o mundo pode
também, algum dia, dar seguimento a isso.
Talvez esta opinião não passe de uma expressão de otimismo ingênuo. Talvez não.
Há pouco mais de um ano, um presidente mulato, ou negro, nos Estados Unidos era
algo inconcebível. Há cerca de dois anos, ninguém leria da pena de um Almirante
norte-americano que preside o Estado Maior conjunto:
Cada vez que deixamos de corresponder a nossos próprios valores...
mostramo-nos mais e mais como os americanos arrogantes que nossos
inimigos dizem sermos [...]. A comunidade muçulmana é um mundo sutil
que não compreendemos plenamente, nem tentamos sempre compreender.34
Também surpreendentemente, já por mais de sete anos, o presidente da República
do Brasil, eleito e reeleito em sufrágio popular, é um ex-operário metalúrgico,
hoje admirado no mundo inteiro.
Há já vinte anos que a Guerra Fria terminou. Antes da queda do Muro de Berlim,
ao longo de quatro décadas, ninguém ousava prever que isso pudesse acontecer
durante seu tempo de sua vida.
Notas
1 A palavra usada antes da guerra era simplesmente "bósnio", gentílico sem
conotação de etnia. "Bosníaco" é neologismo forjado durante o conflito dos anos
de 1990 para diferenciar os bósnios muçulmanos dos demais eslavos habitantes da
Bósnia-Herzegóvina , identificados como croatas e sérvios.
2 Os adversários imediatos dos bosníacos - croatas e sérvios da Bósnia-
Herzegóvina - não tinham problema para abastecer-se nas respectivas repúblicas
étnicas vizinhas.
3 Convém lembrar que até os albaneses, convertidos ao Islã, como os bosníacos,
durante a dominação otomana, desde o fim da Segunda Guerra Mundial eram ateus,
dentro da Albânia e da antiga Iugoslávia. Foi com Milosevic e com as guerras na
região que os albaneses de Kossovo (e da Macedônia) voltaram a apegarse à
identidade muçulmana.
4 Olivier Roy, La Sainte Ignorance - le temps de la religion sans culture,
Paris, Ed. du Senil, 2008.
5 Entre elas a Convenção Internacional para a Supressão do Financiamento ao
Terrorismo, de 1999, e a Convenção Internacional para a Supressão de Atos de
Terrorismo Nuclear, de 2005, adotadas pela Assembléia Geral das Nações Unidas.
6 Declaração e Programa de Ação de Viena, Parte I, Parágrafo 17.
7 Os revolucionários russos, Lênin inclusive, rejeitavam o terrorismo, não por
motivos éticos, mas porque a técnica difusa seria incapaz de fazer avançar a
causa dos trabalhadores.
8 Embora a primeira tentativa de definir e criminalizar internacionalmente o
terrorismo, esboçada pela Liga das Nações como "atos criminais dirigidos contra
um Estado", no projeto de Tratado de Genebra de 1937, nunca tenha entrado em
vigor por falta de ratificações suficientes, e desde então nenhuma definição
jurídica tenha sido aprovada.
9 Peço desculpas aos muçulmanos por empregar o esdrúxulo neologismo
"djihadista", pois, sem falar árabe, sei que o conceito de djihad(luta) em que
se baseia é muito mais nobre em textos sagrados.
10 Jacques derrida & Jürgen Habermas, Le "Concept" Du 11 Septembre -
Dialogues à New York (Octobre-Décembro 2001) avec Giovanna Borradori, Paris,
Galilée, 2003. É claro que se poderiam agregar à lista, entre outros, o
primeiro atentado contra o World Trade Center, em 1993, assim como a explosão
em uma discoteca de Bali, e muitos outros golpes. Aqueles de Londres e Madri
apenas se amoldam melhor à idéia de "seguimento" de Onze de Setembro.
11 Enquanto ninguém rotula com base em religião ou etnia os franco-atiradores
que, nos Estados Unidos, "rotineiramente" fuzilam passantes, fregueses de
supermercados e colegas de escola, quando, em novembro de 2009, um major
psiquiatra norte-americano de nome árabe (Nidal Malik Hasan) matou treze
companheiros em Fort Hoods, no Texas, todos assinalaram sua fé muçulmana, tendo
algumas instituições logo qualificado seu crime como terrorismo.
12 Alissa Rubin, "Determined to die in a suicide blast", International Herald
Tribune, 15-16/ago/09.
13 Ismail Khan & Pir Zhaubair Shah, "At least 22 dead in Pakistan Bombing",
International Herald Tribune, 28/ago/09.
14 Embora o país tenha uma minoria xiita, a maioria de toda a população é
sunita.
15 Primeira declaração pública de Bin Laden após o 11 de setembro, apudAs'ad
Abukhalil, Bin Laden, Islam and America's new "War on Terrorism", p. 84.
16 Observações publicadas pela revista The New Yorker, 24.set.2001, na coluna
"Talk of the Town".
17 Jornais europeus, como The Times, contudo, faziamno. Citações de analistas e
políticos europeus podem ser encontradas inter alianas entrevistas via e-mail
dadas por Noam Chomsky em set.-out. 2001, reproduzidas em seu livro 9-11(New
York Seven Stories Press, 2001 - minha tradução do trecho).
18 Noam Chomsky, op. cit., p.17.
19 Jean Baudrillard, L'espirit du terrorisme, Paris, Galillée, 2002, p.45-6
(publicado originalmente no Le Monde, em 3/nov./2001).
20 Pelas organizações não-governamentais mais conhecidas, como a Anistia
Internacional e a Human Rights Watch, mais do que pelos foros
intergovernamentais competentes.
21 Giorgio Agambem, Estado de Exceção, trad. Iraci D. Poleti, S. Paulo,
Boitempo, 2004.
22 O mesmo iria ocorrer meses depois, no início de 2010, por ocasião das
eleições iraquianas.
23 É sintomático que ninguém qualifique de "cristão" ou "cristianista" outros
terroristas, como Timothy McVeigh, que explodiu o prédio de Oklahoma City, ou o
quase simpático "Unabomber" Theodore Kaczynski, norte-americano, que utilizava
cartas-bombas em protesto contra o complexo tecnológico-industrial e a
degradação ambiental.
24 Evidentemente, não incluo no "terrorismo contemporâneo", de objetivo
impreciso, as operações, inclusive suicidas, inseridas em conflitos
territoriais de longa data, como os da Palestina ou da Cashemira, inteligíveis
e muitas vezes apoiadas do exterior.
25 Iniciais da sigla inglesa Committee on the Elimination of Racial
Discrimination, pela qual é conhecido.
26 Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial,
Artigo 8º, Parágrafo 1º.
27 Statement by the President of the Government of Spain, Jose Luis Rodrígues
Zapatero, at the Fifty-Ninth Session of the United Nations General Assembly,
New York, September 24, 2004 (unofficial translation - Misión Permanente de
España en las Naciones Unidas).
28 Press Release, SG/SM/10004, 14 jul. 2005.
29 Entre os quais o brasileiro Candido Mendes, o espanhol Federico Mayor, o
iraniano Seyyed Mohammad Khatami, o indonésio Ali Alatas e o sul-africano
Desmond Tutu.
30 Publicado e distribuído pelas Nações Unidas em forma de livreto, o
relatório, juntamente com informações sobre tudo o mais que diga respeito à
Aliança de Civilizações, pode ser lido, em inglês, em <www.unaoc.org> e seus
links.
31 Report of the High Level Group, parágrafo 1.3.
32 Ibid., par. 3.8 e 3.10.
33 Amin Maalouf, Les Identities Meurtrières, Paris, Grasset, 1998.
34 Citação do Almirante Mike Mullen em artigo no Joint Force Quarterly, feita
por Tom Shanker em "U.S. message to Muslims is flawed, admiral says",
International Herald Tribune, 28 ago. 2009.