Falas, objetos e corpos: autores indígenas no alto rio Negro
Este artigo trata de um fenômeno recente entre os grupos indígenas do noroeste
amazônico (alto rio Negro): a publicação regular nos últimos dez anos de livros
de mitologia e histórias de clãs específicos, tal como ainda hoje contadas por
pessoas pertencentes a diversos grupos da região, como os Desana, Tukano,
Tariano e Baniwa. A edição desses escritos tem sido viabilizada pela Federação
das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN), que já publicou oito volumes
em uma coleção intitulada Narradores Indígenas do Rio Negro.1 Essa iniciativa
vem atendendo ao interesse demonstrado por várias pessoas em efetuar o registro
das narrativas de seus pais e avós, e, dessa maneira, conservá-las para as
novas gerações, as quais se consideram hoje em dia demasiadamente voltadas para
as coisas dos brancos e da cidade. Os volumes publicados são de autoria
compartilhada, com um homem mais velho, e conhecedor em detalhes da história de
seu grupo, narrando o texto a seu filho, que, mais versado no português, trata
de traduzir a narrativa, contando em geral com o apoio de um antropólogo para
transformá-la em texto escrito.2 Mas, uma vez preparado o manuscrito, o
processo não se encerra, pois sua publicação na forma de um livro não é, em
hipótese alguma, parte secundária na empreita. No que se segue, tentarei
levantar algumas hipóteses não apenas sobre o registro e a tradução para o
português dessas narrativas, mas também sobre o valor desses objetos-livro
entre os índios do Uaupés, para cuja produção alguns de seus etnógrafos vêm
sendo chamados a participar.
Poder-se-ia pensar inicialmente que, uma vez impressa, a narrativa está salva,
que a memória foi preservada e que estará, por meio de novos suportes,
disponível às futuras gerações indígenas. Assim valorizados, o problema passa a
ser a proteção dessas expressões e conhecimentos indígenas contra usos
indevidos por terceiros. Esse tipo de avaliação vincula-se diretamente ao
debate contemporâneo acerca de direitos intelectuais coletivos, das iniciativas
de registro de patrimônio imaterial e da idealização de medidas de
"salvaguarda", que visam assegurar tais direitos a seus detentores. Os povos
indígenas da região ao alto rio Negro talvez figurem entre os mais
familiarizados com essas discussões na Amazônia hoje em dia. Há mais de uma
década, algumas das associações indígenas da região, dispondo de uma variada
gama de apoios, de agências internacionais a órgãos de governo, passando por
ONGs nacionais e transações com empresas privadas, vêm desenvolvendo uma série
diversificada de atividades e projetos genericamente classificados sob a
rubrica da revitalização cultural. No contexto da implantação de escolas
indígenas diferenciadas, passando por projetos de valorização das formas
tradicionais de uso dos recursos naturais, até a venda de artesanato com "valor
cultural agregado", e, por fim, uma experiência recente de registro de um "bem
cultural" local como patrimônio imaterial,3 vários tipos de conhecimento
indígena vêm sendo registrados e publicados na forma de produção literária,
audiovisual ou como material didático. A coleção Narradores Indígenas do Rio
Negro é provavelmente a de maior visibilidade fora da região.
Em função desse notável conjunto de experiências, certos grupos nelas
envolvidos, tais como alguns clãs tukano, baniwa, wanano e tariano,
participaram nos últimos dois anos de algumas oficinas ligadas a um projeto
coordenado por advogados do Instituto Socioambiental - ONG brasileira, parceira
da FOIRN - com o objetivo de identificar alternativas para a salvaguarda de
criações intelectuais de povos indígenas. O horizonte desse projeto era o de
apreender formas particulares de produção e circulação de conhecimentos entre
os grupos indígenas do alto rio Negro e Xingu, apostando na possibilidade de
que elas próprias pudessem sugerir mecanismos alternativos para sua proteção
jurídica. Em suma, em face da aceleração crescente da disponibilização de
informações em formato digital via internet, bem como inspirando-se em novos
tipos de licenças de acesso que começam a surgir - basicamente, o regime
Creative Commons (CC)4 -, pretendia-se a proposição de alternativas aos
mecanismos vigentes de propriedade intelectual e de direito autoral quando o
assunto fosse direitos culturais indígenas. Algumas das conclusões desse
projeto são ilustrativas.
Por ocasião de uma das reuniões locais promovidas pelo projeto no ano de 2007,
uma liderança indígena sugeriu que o termo "proteção" (para direitos culturais)
soava impróprio, uma vez que conotava algo como "guardar" ou "esconder". De seu
ponto de vista, como diretor da FOIRN, o objetivo dos projetos de registro
cultural em curso na região era o de gravar narrativas, cantos, danças e
cerimônias, o que por si só já indicava o interesse de mostrar, de divulgar -
"se não tudo, alguma coisa.... mostrar com cuidados". Essa interpretação dos
próprios objetivos do projeto, bem como outras intervenções indígenas que
tiveram lugar ao longo de uma série de encontros, levou a uma reflexão por
parte de um dos coordenadores jurídicos do projeto, que assinalava,
precisamente, a dissonância entre os interesses dos índios e dos advogados,
que, juntos, vinham levando o projeto adiante. Para os advogados, o foco recaia
sobre a circulação potencial de uma "obra intelectual" e sua eventual
apropriação, especialmente as que começam a ser disponibilizadas em formato
digital via internet. A questão jurídica central era a necessidade ou não de
autorização prévia, seja no âmbito do sistema dos direitos autorais ou na
adoção das licenças CC - pagamento ou não pelo acesso, a depender do uso
pretendido. Para os índios, a autorização, ainda que necessária, não se tratava
de um assunto contratual, isto é, o que se visava em primeira instância não era
exatamente a um retorno, financeiro ou de qualquer outro tipo, garantido pelo
direito de propriedade intelectual, mas sim à possibilidade entreaberta pela
divulgação de sua "cultura" para estabelecer novas relações no contexto de uma
audiência ampliada.5
Se o problema inicial era de caráter jurídico, novos elementos vieram à tona. A
discussão jurídica vai então cedendo espaço para reflexões de outra ordem, e
passa-se a falar em termos de políticas públicas e sobre a necessidade de
programas e ações que apóiem a criação de novas relações culturais,
paralelamente, por exemplo, às ações governamentais voltadas para inclusão
digital. Não se trata aqui de avaliar ou tentar imaginar as ações apropriadas.
O interesse dessa história para nossos fins reside no fato de que as conclusões
do projeto, ou ao menos uma parte delas, sugerem novos problemas a serem
tratados: por que, afinal, o interesse em ampliar relações? Qual a
especificidade de tal impulso no contexto sociológico do alto rio Negro? De que
maneira os livros prestam-se a esse propósito?
Muito antes do advento da internet, e mesmo da emergência dos debates relativos
à propriedade intelectual dos povos tradicionais, escritos indígenas oriundos
do alto rio Negro, reconheça-lhes ou não a autoria, começaram a circular e
ganhar alguma notoriedade. Sua existência, bem como a da coleção Narradores
Indígenas do Rio Negro, são talvez manifestações do fenômeno identificado
acima, que aparentemente vem se tornando cada vez mais visível. É preciso,
portanto, ponderar que a coleção editada pela FOIRN associa-se a uma linhagem
nem tão recente, em geral oculta sob as publicações dos próprios antropólogos.
É o caso do baré Maximiano Roberto, que já ao final do século XIX entregou a
Stradelli o manuscrito de sua Lenda do Jurupari (Stradelli, [1896] 1964; Câmara
Cascudo, 2001). Nos anos de 1950 e 1960, os antropólogos Marcos Fulop (1954) e
Gerardo Reichel-Dolmatoff (1971) trabalharam com informantes igualmente
letrados, que pareciam interessados em colaborar em suas pesquisas pela
oportunidade que entreviam de efetuar o registro de mitos tukano e desana
respectivamente. Nos anos de 1980, o desana Luís Lana publicou, com o apoio da
antropóloga Berta Ribeiro, o livro Antes o mundo não existia, cuja segunda
edição veio a ser o primeiro volume da nova coleção. Há outros casos recentes
de autores indígenas residindo em Manaus que conseguiram publicar seus
manuscritos com o apoio de instituições públicas e editoras dessa cidade (ver
Gentil, 2005; Tariano, 2002).
A existência de todos esses casos mais ou menos recentes sugere que a nova
coleção não responde apenas à necessidade em geral apontada de se registrar
conhecimentos que podem desaparecer - ou que necessitam de algum tipo de
proteção. Entre outras hipóteses, parece plausível afirmar que, como trataremos
adiante, o uso da escrita e dos préstimos dos antropólogos para produzir livros
vieram, de fato, a se prestar para a atualização de diferenças entre clãs
tukano, desana, tariano e outros, ao longo de um processo histórico em que as
práticas rituais que criavam as ocasiões para a reiteração das diferenças
sociais a partir de falas e diálogos cerimoniais foram progressivamente
abandonadas. Mas se há razões para pensar o fenômeno em termos das relações
entre os diferentes grupos indígenas, é preciso não perder de vista as relações
desses com os brancos, relações que vieram se adensando e se expandindo
incessantemente desde o século XVIII.
É, portanto, necessário considerar antes de tudo certas características
específicas que apresentam os povos indígenas do alto rio Negro, bem como sua
história, no contexto mais geral da Amazônia, o que nos dará em seguida a
oportunidade de esboçar, em linhas gerais, o conteúdo que os livros produzidos
pelos autores-narradores do rio Negro oferecem ao leitor da região e de
alhures.
Elementos de sociologia rionegrina
Em escritos recentes, Stephen Hugh-Jones (2001, 2002, 2009, s/d.) vem
empreendendo uma revisão dos materiais etnográficos do alto rio Negro, e em
particular aqueles oriundos dos grupos de língua tukano do rio Uaupés, buscando
estabelecer alguns contrastes com relação às sínteses teóricas elaboradas desde
os anos de 1980 para as terras baixas sul-americanas (Rivière, 1984; Viveiros
de Castro, 1993, 1996, 2002; Overing, 1984, 1991, 1995; Overing e Passes,
2000). Segundo o autor, apesar de apresentarem avanços teóricos significativos
com relação às teorias clássicas da aliança e da descendência, essas sínteses
mantêm como referência de base o parentesco, seja privilegiando a afinidade, ou
seu aspecto de valor relacional absoluto tal como se manifesta na predação
canibal ou guerreira- economia simbólica da alteridade -, seja realçando o
cognatismo e a consangüinidade na produção da comunidade, e, assim, os valores
de partilha e de convivialidade - economia moral da intimidade.6
A dificuldade de descrever os grupos do alto rio Negro seguindo exclusivamente
uma dessas duas alternativas leva o autor a concluir que a construção desses
modelos é, em boa medida, pautada pela experiência etnográfica junto a grupos
indígenas específicos, como, de um lado, os guerreiros Araweté ou Jivaro, ou,
de outro, os pacíficos Piaroa. Em todos esses casos, trata-se de grupos que
exibem uma feição sociológica marcadamente distinta daquela dos grupos do alto
rio Negro: sociedades formadas por pequenos grupos locais dispersos e
atomizados, e cuja organização social não apresenta a existência de
segmentações sociocêntricas, sendo antes baseada em parentelas cognáticas e
egocentradas. Há forte tendência à endogamia de parentela e no próprio âmbito
do grupo local, que é considerado uma unidade politicamente autônoma. Esse
quadro básico é, de maneira importante, coerente com a vigência de
classificações sociais por gradientes de distância genealógico-residencial,
exprimindo um dualismo concêntrico e fronteiras bem marcadas entre exterior e
interior (Viveiros de Castro, 1993).
Paisagem bastante distinta é encontrada no alto rio Negro, região que, ademais,
abriga um sistema social aberto que se estende por milhares de quilômetros
quadrados, composto por quase três dezenas de grupos indígenas pertencentes às
famílias lingüísticas tukano, arawak e maku. Os processos históricos e
políticos que resultaram na formação desse extenso sistema social regional vêm
sendo objeto de hipóteses recentes, que defendem uma precedência dos grupos
arawak na região, para os quais é atribuída a origem dos aspectos mais
marcantes dessas sociedades: sistemas regionais de integração política,
hierarquia social, redes comerciais de longa distância, atribuição de
significados religiosos às paisagens. Em suma, uma maior ênfase em relações
pacíficas e de troca do que na guerra e no canibalismo. Se, de um lado, esse
conjunto de atributos distingue nitidamente essas sociedades daquelas que
enfatizam o idioma da predação, ele também não as enquadra automaticamente no
modelo concorrente, pois aqui se trata de relações pacíficas entre grupos
locais distribuídos em escala regional, o que não se confunde com a
convivialidade gerada pela partilha cotidiana e interna ao círculo dos parentes
consangüíneos, ou cognatos, que conforma o grupo local.
A precedência dos arawak no alto rio Negro é uma hipótese baseada em informação
arqueológica e em comparações com grupos aruak de outras partes da América do
Sul, bem como na ampla dispersão dessa família lingüística pelo continente
(Hill, 1998; Hill e Granero, 2002), mas constitui tema polêmico entre os
especialistas na região. Não havendo espaço, e sequer sendo o caso, de entrar
aqui nessa discussão, cabe, entretanto, ressaltar que há um amplo consenso
entre os pesquisadores do alto rio Negro quanto ao fato de que as sociedades
indígenas da região demonstram um sistema complexo de relações
intercomunitárias, no âmbito das quais, e ao lado do papel emblemático da
exogamia lingüística, verifica-se a ocorrência de trocas cerimoniais em vários
níveis. Amplamente conhecidos na literatura etnográfica por seu nome na língua
geral amazônica (nheengatu), os chamados "dabucuris" são, por assim dizer, o
evento chave da esfera político-ritual e consistem em cerimônias de
oferecimento de alimentos ou itens artesanais especializados e associados a
grupos específicos.7 Constituem episódios que se encadeiam ao longo do tempo,
em ciclos de prestações e contraprestações envolvendo principalmente clãs
aliados pertencentes a grupos exogâmicos patrilineares distintos (Tukano,
Desana, Baniwa, Pira-Tapuia etc.), muito embora ocorram também entre clãs
agnáticos hierarquicamente classificados no interior de um mesmo grupo
exogâmico e, até mesmo, no interior de um grupo local, em geral formado por
homens de um mesmo patri-clã casados com mulheres oriundas de grupos exogâmicos
diferentes residindo virilocalmente. Nesse último caso, um dabucuri pode ser
oferecido pelos homens às mulheres ou às pessoas mais velhas do grupo local.
É, a meu ver, importante notar que o fato de os dabucuris ocorrerem em vários
níveis reflete um esquema seqüencial de diferenciações cosmológicas, que liga o
tempo da transformação ou da emergência mítica dos ancestrais dos grupos atuais
às histórias mais recentes de dispersão e fixação de cada um deles em seus
respectivos territórios. Tal esquema pode ser divisado nas inúmeras versões do
extenso ciclo mítico da origem do mundo e da humanidade, cujos ancestrais foram
trazidos ao rio Uaupés no ventre de uma cobra-canoa. As diferenciações
efetuadas nessas narrativas ocorrem antes, depois e ao longo dessa viagem-
gestação da proto-humanidade (C. Hugh-Jones, 1979; Reichel-Dolmatoff, 1971),
constituindo subjetividades que virão a corresponder às posições possíveis nos
dabucuris do tempo presente: em seu conjunto, tais diferenciações - daquela
primordial de gênero até aquelas que separam cunhados próximos e distantes e
irmãos maiores e menores - constituem o campo relacional do qual os dabucuris
são uma, e talvez a principal, expressão. É igualmente importante notar que as
diferenciações do tempo mítico são efetuadas à medida que aparecem na narrativa
certos operadores materiais, tais como as flautas sagradas - roubadas pelas
primeiras mulheres, que adquirem com isso capacidades reprodutivas específicas
-, os adornos cerimoniais - obtidos pelos ancestrais junto às divindades, e que
irão propiciar que a verdadeira humanidade se diferencie dos peixes e animais
-, a cerveja de mandioca e o alucinógeno caapi - cujas variedades e potências,
ao serem diferencialmente apropriadas, irão distinguir os grupos exogâmicos
entre si. Nas narrativas, esses objetos e substâncias são partes de corpos. As
flautas e o caapi, em seus diferentes tipos e variedade, surgem a partir do
corpo decomposto de dois irmãos que nascem do primeiro parto, ao passo que o
conjunto de adornos, vomitado por divindades, dará forma ao corpo dos primeiros
seres humanos.8
De modo geral, os livros da coleção Narradores Indígenas do Rio Negro oferecem
versões particulares desse extenso ciclo mítico compartilhado. Nos capítulos
finais dos volumes, a narrativa se particulariza, pois após detalhar
minuciosamente a origem compartilhada de todos os grupos da região - em seu
conjunto referidos como "gente de transformação" -, bem como sua divisão em
subconjuntos, que passam a se relacionar coletivamente como cunhados ou como
irmãos maiores e menores, os narradores passam a tratar da história de seu
próprio clã, de sua fixação em um território e eventualmente de sua dispersão.
Em suma, os volumes consistem em um esforço para dar conta da ligação do grupo
do próprio narrador ao processo global de formação do sistema social da região
como um todo, informando assim sobre as várias modalidades de relação que
entretêm com as outras unidades do sistema.
As trocas cerimoniais - os dabucuris - criavam a ocasião para a exibição
pública e a circulação daqueles operadores materiais - flautas, adornos de
penas e bebidas fermentadas e alucinógenas - que propiciam ao longo da
narrativa as sucessivas transformações dos seres do começo e, assim, sua
diferenciação progressiva; exceção feita às flautas sagradas, rigorosamente
proibidas à contemplação feminina. Quando esses instrumentos eram tocados, as
mulheres eram mantidas em compartimentos separados, e só passavam a participar
das danças quando eles eram novamente escondidos pelos homens fora da maloca. A
exibição de instrumentos e ornamentos, bem como a farta distribuição de cerveja
de mandioca e as sessões de ingestão do caapi faziam-se acompanhar, além dos
cantos entoados em paralelo às danças, de outro componente verbal, que
antecedia o momento da entrega formal das dádivas. Antes de proceder a ela, as
duas partes envolvidas dispunham-se frente a frente, separadas pelas dádivas
que seriam entregues, e punham-se a recitar de maneira agressiva suas
respectivas genealogias e histórias. As exortações mutuamente dirigidas eram
feitas quase ao mesmo tempo, e acompanhadas de um tipo de coreografia que
simulava um ataque com lanças (ver Chernela, 2001; S. Hugh-Jones, 1979). Pode-
se supor que o sentido tomado pelas coisas oferecidas em uma dada ocasião
reforçava então a posição dos doadores em face dos receptores, de maneira que
tanto os objetos entregues, como aqueles exibidos de modo performático,
incorporavam valores sociais, isto é, consistiam em veículos de qualidades
inalienáveis que um determinado grupo dava a ver, buscando fazer valer sua
posição hierárquica e prestígio político. Pode-se supor também que as
narrativas longamente traduzidas e transcritas nos livros constituem uma versão
pormenorizada e reflexiva dessas falas agressivas performaticamente proferidas
nos rituais de troca.
É precisamente nesse sentido que Stephen Hugh-Jones (s/d.) sugeriu que no alto
rio Negro, em contraste com outras regiões da Amazônia, certos objetos de valor
e, em dadas circunstâncias, mesmo bens de uso ordinário fazem as vezes de
pessoas, isto é, aqui não seria possível uma distinção radical entre coisas e
pessoas, tal como se costuma generalizar para a Amazônia - o autor refere-se
especificamente à corrente classificação dos grupos amazônicos sob a rubrica de
brideservices societies, proposta em oposição às bridewealth societies por
Collier e Rosaldo (1981). Assim, sugere que, em complemento aos estilos
analíticos baseados na linguagem do parentesco, para o alto rio Negro, e de
maneira mais ampla para os sistemas regionais pré-colonias da Amazônia, uma
abordagem em termos de troca de dádivas e economia política poderia ser
bastante frutífera. Essa sugestão parece-me, aliás, ir na mesma direção daquela
proposta por Viveiros de Castro (1993, p. 105) quando adverte quanto aos
perigos de uma essencialização do modelo do atomismo sociopolítico amazônico.
Tal advertência precede a enunciação de uma de suas principais afirmações,
referente à limitação do foco no parentesco para dar conta "das propriedades
globais dos sistemas sociais da região". O autor aponta então que a sociologia
da Amazônia não pode ser apenas a sociologia do parentesco, mas também de
outros "circuitos de intercâmbio". A questão, em suma, parece-me equivalente:
dar conta dos processos supralocais.
As ressonâncias não param aí. Pois, ainda de acordo com Viveiros de Castro, não
haveria, no parentesco ou alhures, fórmula global de totalização do socius na
Amazônia, já que ali as dinâmicas supralocais não conformam morfologias bem
acabadas, mas articulam-se em rede, isto é, demonstram uma natureza mais
histórica do que estrutural. O problema passa a ser, então, o da dificuldade de
se trabalhar com tipologias - seja, como aponta Viveiros de Castro (Idem,
ibidem), "uma estrutura finalizada em termos de descendência ou território",
ou, como discute Hugh-Jones, a oposição brideservice/bridewealth societies,
cujos pólos ocultam significativas variações internas. Para este autor, a
inclusão generalizada dos grupos amazônicos no pólo das brideservice societies
passaria ao largo de uma gama variada de estratégias matrimoniais observáveis
em uma mesma sociedade e, em particular, daquilo que se passa no alto rio
Negro, onde a regra de residência pós-marital é virilocal e o serviço da noiva
absolutamente inusual. Coerente com isso, e para tentar precisar o papel que os
livros indígenas desempenham no interior dessa discussão mais ampla, podemos
recorrer, justamente, aos casos dos dois clãs, Tukano e Tariano, que auxiliei
na produção de seus respectivos manuscritos.
Oyé e Koivathe
Do conjunto de cerca de quarenta clãs tukano, distribuídos atualmente entre os
rios Uaupés, Papuri e Tiquié, além de vários indivíduos e famílias dispersos ao
longo de comunidades situadas nas margens do rio Negro, o grupo
corriqueiramente chamado de Oyé, ou Oyé Porã, "filhos de Oyé", é reconhecido
como um dos que se situa entre as posições de mais alta hierarquia do conjunto
como um todo. Seu lugar tradicional, aquele que lhes coube ao cabo da extensa
saga de deslocamentos espaciais que se seguiu ao igualmente, ou mais, extenso
período da transformação descrito nos mitos de origem, é a chamada comunidade
do Pato, Dia Katapa, localizada no curso médio do rio Papuri, em um ponto
relativamente próximo da foz desse rio, que lança suas águas no rio Uaupés à
altura da Cachoeira de Iauaretê, Yai Poewa, a grande cachoeira das onças.
Iauaretê é um ponto de referência mito-histórico de grande relevância, cenário
de importantes acontecimentos do período mítico, bem como da história
subseqüente de fixação, ou territorialização, dos vários grupos exogâmicos ao
longo do rio Uaupés. Foi também um ponto estratégico ao longo da história da
colonização, presente nas primeiras crônicas de viajantes do século XVIII e,
por fim, lugar escolhido para a instalação do maior centro missionário do rio
Uaupés pelos salesianos no início do século XX. Ao longo de cinco décadas,
entre 1930 e 1980, seus grandes internatos abrigaram centenas de alunos
indígenas de várias gerações. A escolha dos salesianos fazia realmente sentido,
pois Iauaretê é o ponto de convergência de duas regiões desde então densamente
habitadas: o rio Papuri, onde se encontram os Oyé, inúmeras outras malocas
tukano, desana e pira-tapuia em suas margens, além de vários assentamentos
maku-hupda nas cabeceiras de seus igarapés; e o alto rio Uaupés, com extensos
trechos contínuos de presença wanano e cubeo. A distribuição desses grupos
falantes de línguas da família tukano pelo Papuri e alto Uaupés remonta à
viagem da cobra-canoa dos ancestrais, motivo comum a todas as versões da
mitologia dos povos tukano orientais do Uaupés, que subiu pelas águas em
sentido leste-oeste em busca do verdadeiro rio de leite, um lugar destinado
desde o início dos tempos para a fixação de uma verdadeira humanidade.9
Em sentido diferente, por uma via terrestre desde a bacia do rio Içana, ao
norte, em direção ao alto Uaupés, são relatados a transformação e o crescimento
de um dos grupos de língua arawak da região, os Tariano, composto por cerca de
quinze clãs igualmente hierarquizados entre si. Após alcançar a margem do alto
Uaupés, os clãs tariano empreenderam um extenso deslocamento ao longo do curso
desse rio, estabelecendo suas malocas em vários pontos rio abaixo, transpondo
até mesmo o território dos Arapasso, situado abaixo da Cachoeira de Iauaretê.
Mas foi também nessa cachoeira que os clãs tariano de alta hierarquia se
fixaram, alocando vários outros clãs inferiores em suas imediações. O
deslocamento e a fixação dos Tariano no Uaupés ocorreram ainda em período
anterior ao contato com os brancos, de maneira que as primeiras informações
mais precisas sobre os Tariano já os descreve como um grupo inserido em um
sistema de trocas permanentes com os grupos de língua tukano, inclusive no
sistema de exogamia lingüística que os interliga (ver Nimuendaju, [1927] 1982;
Koch-Grunberg, [1909-1910] 1995; Bruzzi, [1949] 1977).10 Em 1929, quando os
primeiros salesianos se estabeleceram em Iauaretê, foram recepcionados por um
importante chefe tariano chamado Leopoldino, que a essa altura já tinha sua
autoridade reconhecida pelo próprio SPI (Serviço de Proteção aos Índios)
mediante uma carta-patente. Leopoldino liderava um importante clã de chefes
tariano, conhecido pelo nome de Koivathe.
A distribuição dos grupos tukano e arawak nessa porção do médio Uaupés,
incluindo parte significativa de seu afluente Papuri, bem como a origem de tal
configuração sociológica podem ser apreendidas em seu conjunto por meio de
narrativas como a dos Oyé e a dos Koivathe, que se mostraram particularmente
interessados nos últimos anos em produzir versões especificamente voltadas para
circular na forma escrita, como volumes da coleção Narradores Indígenas do Rio
Negro. Ambos são reconhecidos como grupos de alta hierarquia pelos demais clãs
tukano e tariano, porém, como se passa com a grande maioria dos grupos do alto
rio Negro, atualmente não possuem flautas sagradas e adornos cerimoniais, e há
muitas gerações deixaram de viver em malocas. Como é bem documentado e sabido,
o abandono das malocas em favor de casas familiares alinhadas é apenas a
manifestação visível de mudanças que ocorreram em vários níveis a partir da
implantação das missões salesianas, e que se traduziram, sobretudo, na
proibição de certos rituais e do xamanismo, bem como na entrega de adornos e
instrumentos sagrados aos padres. Em seus respectivos manuscritos, os Oyé e os
Koivathe assinalam o grande abalo moral provocado pela intolerância dos
missionários e pelas exigências que lhes foram impostas, as quais em grande
medida se viram obrigados a aceitar em função da segurança que vieram a
representar as missões em pleno ciclo da borracha, quando a violência e a
opressão por parte de seringueiros e balateiros corriam soltas pelo rio Uaupés.
Mas, ainda que sem os meios tradicionais que eram empregados para reiterar
ritualmente suas respectivas posições hierárquicas, clãs como os Oyé e os
Koivathe gozam ainda hoje de notável prestígio. Em alguma medida, isso se passa
porque sua origem e trajetória são reconhecidas por outros grupos indígenas com
os quais se relacionaram historicamente. E com seus livros buscam, por certo,
cuidar para que tal reconhecimento perdure.
É, pois, por meio de seus manuscritos que viemos a saber como, ao longo de sua
história, ampliaram suas alianças. Os dois grupos demonstram extensas
genealogias, nas quais o ponto de partida se refere a uma situação em que as
trocas matrimoniais se restringiam àqueles cunhados que lhes coube ao final do
tempo mítico, isto é, quando o crescimento dos grupos passou a ocorrer por meio
de relações sexuais. Essa fase corresponde ao estabelecimento de um domínio
territorial, por sua vez vizinho daqueles dos clãs que se tornam os parceiros
preferenciais das trocas: no caso Tariano-Koivathe, um clã baniwa específico,
os Oalipero-dakenai; no caso dos Tuykano-Oyé, um clã desana, os Botea-Porã. Nos
dois casos, clãs que ocupam igualmente altas posições hierárquicas em seus
respectivos grupos exogâmicos, e com os quais o intercâmbio de mulheres fazia-
se acompanhar da troca de itens cerimoniais, como enfeites de penas e dentes de
animais. Com o passar do tempo e o crescimento dos grupos, tanto os Oyé como os
Koivathe diversificam seu leque de alianças, e passam também a obter mulheres
junto a outros grupos, como, no caso Oyé, entre outros clãs desana e entre os
Arapasso, Pira-Tapuia e Tariano, e, no caso Koivathe, entre os Wanano, Pira-
Tapuia e Tukano. Este segundo caso, Koivathe, é o mais expressivo em termos de
expansão de alianças, já que o estabelecimento de novas relações é concomitante
ao movimento de migração da bacia do Içana para a do Uaupés, e ao longo do qual
exerceram papel de liderança sobre vários outros clãs tariano. Sua fixação na
Cachoeira de Iauaretê, onde até hoje vive a maioria de seus descendentes, é
consolidada por meio de um casamento de um jovem koivathe com uma moça tukano
pertencente a um clã de chefes que, no passado, ocupava essa mesma cachoeira -
não se tratam dos Oyé.11 A história subseqüente, tal como contada pelos dois
grupos, aponta que, quando os brancos começaram a chegar a Iauaretê para
arregimentar trabalhadores para a construção do forte de São Gabriel, na
segunda metade do século XVIII, os cunhados tukano adentram o rio Papuri, e os
Tariano Koivathe mantêm-se no lugar, estabelecendo mais cedo relações com os
colonizadores, em cujos negócios irão se envolver e, com isso, angariar novos
meios para reforçar sua posição de liderança sobre outros grupos - trata-se da
posição de intermediários que vieram a assumir, colaborando com a
arregimentação de trabalhadores junto a outros grupos, e, com isso, tendo
acesso a bens manufaturados trazidos pelos brancos.
Se relações pacíficas foram estabelecidas com os Tukano, houveram, por outro
lado, relações belicosas com outros, em particular com os Wanano, o primeiro
grupo com o qual os Koivathe passaram a trocar mulheres após sua saída do
Içana. O motivo da guerra com os Wanano, outro tema importante de seu
manuscrito, foi, justamente, a dissolução do primeiro casamento com uma mulher
wanano. Conta-se que, vivendo entre os Koivathe, essa mulher sentia-se
maltratada e, além disso, reclamava por não poder participar dos rituais das
flautas sagradas dos Koivathe. Ela foge para junto de seus parentes, e se
sucede um ataque dos Wanano à maloca Koivathe. Estes estão preparados e matam
muitos Wanano, cujos corpos são deixados para apodrecer em um igarapé, que
passará a ser conhecido como "Igarapé do Tapuru" - os corpos em putrefação
fizeram aparecer muitos desses vermes. Ou seja, cadáveres abandonados à
putrefação, dos quais os matadores nada incorporam, ao contrário do que se
passa entre certos grupos em que a predação guerreira constitui uma forma de
obtenção de identidades exteriores, na forma de nomes, cantos, essências
(Viveiros de Castro, 1993; Fausto, 2001; Descola, 1993). Mais tarde, a relação
com os Wanano será reatada, e até hoje este grupo é um daqueles com os quais os
Koivathe continuam trocando irmãs.
Se com os cunhados ancestrais as relações de troca envolviam itens do
diversificado conjunto de adornos cerimoniais, com os novos cunhados
conquistados ao longo de uma trajetória histórica a troca de mulheres parece
preponderar, e o conflito mostra-se como uma possibilidade latente. No primeiro
caso, as trocas ocorreriam entre grupos pertencentes a um mesmo patamar
hierárquico; no segundo, esse aspecto - isogamia - seria secundário, pois aqui
a linguagem do parentesco ou da descendência strictu sensu perde importância,
uma vez que se trata de estratégia política, abertura à história. Este quadro
de possibilidades de intercâmbio é complementado por informações relativas a
expedições guerreiras que, no passado, mobilizavam tanto os Koivathe como os
Oyé para o roubo de mulheres e adornos cerimoniais de grupos distantes, o que
denota que, não obstante a existência de cunhados preferenciais, ancestrais ou
não, a guerra para o saque de objetos rituais e mulheres coexistia como forma
de aumentar renome e prestígio. Tanto na troca pacífica como no saque
guerreiro, objetos cerimoniais e mulheres ocupam a mesma posição, o que reitera
a equivalência entre riquezas e pessoas, constituindo uma atualização histórica
da indiscernibilidade entre pessoas e coisas, própria às narrativas míticas do
Uaupés - lembremos dos operadores materiais que promovem a série sucessiva de
diferenciações do tempo mítico antes apontada.
A ampliação de alianças e a mobilização de vários meios para obtê-las denotam
uma ênfase particular em relações políticas de largo espectro, e com um foco
específico na reiteração de posições hierárquicas. Esse caráter performático no
âmbito das relações externas sugere, como já o fez Stephen Hugh-Jones (1993,
1995), a aplicação não rigorosa da noção de Casa de Lévi-Strauss a esses
patriclãs do Uaupés, que, por se identificarem sobretudo por meio da
transmissão de um patrimônio composto por itens materiais e imateriais, seriam
pessoas morais - casas são sistemas cognáticos, situados para além da estrutura
elementar, em geral atribuída aos sistemas de parentesco amazônicos. Isto é,
tal como no caso das sociedades ditas "de Casa", no Uaupés, apesar da
existência de um ideal de casamento com irmãs de cunhados ancestrais, que
redundaria na troca restrita bilateral, não vigoraria uma regra única,
prescritiva e positiva, de casamento; e assim o campo sociopolítico se abre,
permitindo estratégias de expansão das alianças. De fato, as narrativas oyé e
koivathe esclarecem que se há, de um lado, grupos de cunhados ancestrais,
parceiros preferenciais em trocas matrimoniais, há, de outro, uma indicação
muito precisa acerca de outros grupos com os quais essas alianças são
proibidas. Os Tukano não devem se casar com mulheres wanano, pois são
considerados seus pahkó-maki, "filhos de mãe", primos paralelos
matrilaterais;12 já os Tariano não podem se casar com mulheres desana,
consideradas suas irmãs. Ou seja, se há um casamento preferencial, parece
vigorar, sobretudo, uma regra negativa relativa a apenas um grupo restrito de
parentes. No mais, as opções de casamento e estabelecimento de relações de
alianças são múltiplas, pois com todos os demais é possível criá-las.
Como disse Lévi-Strauss em relação à noção de Casa, trata-se de uma estrutura
social na qual os interesses políticos e econômicos se expressam na única
linguagem disponível, a do parentesco, mas apenas para subvertê-la (1982, p.
187). Ora, é preciso considerar portanto que, do ponto de vista de grupos como
os Oyé e os Koivathe, e de vários outros cujas posições hierárquicas constituem
o objeto de um esforço permanente de afirmação, a circulação de um livro de sua
própria autoria, contendo os pormenores das narrativas que fundamentavam
aquelas falas que tinham lugar nos dabucuris de outrora, vem representar um
meio estratégico para estabelecer seu próprio lugar, ou seu próprio ponto de
vista, diante de outros clãs, tanto os agnáticos, como os aliados.
Parece-me plausível, assim, sugerir que os livros indígenas condensam em um
mesmo objeto as porções materiais e imateriais do patrimônio distintivo dos
clãs do Uaupés. Se os itens materiais legados pelos ancestrais, como as flautas
sagradas e as caixas de ornamentos cerimoniais, foram levados pelos
missionários, os nomes e muitos dos conhecimentos continuaram a ser
transmitidos no decorrer das gerações. E esse aspecto invisível e imaterial
mostra-se potencialmente passível de incremento através de um objeto dos
brancos, os livros. Em Iauaretê, que, desde o fechamento dos internatos
salesianos no final dos anos de 1980, vem conhecendo um acelerado processo de
urbanização,13 torna-se cada vez mais importante tornar visível e atribuir uma
forma material a esses conhecimentos ainda disponíveis para marcar distinções
sociais tradicionais, que vêm sendo eclipsadas por outras que passam a vigorar
- professores, funcionários, comerciantes, soldados, profissões quase que
exclusivamente exercidas ali pelos índios. É nesse contexto que vivem hoje os
Koivathe e a quase totalidade dos Oyé. Assim como objetos e instrumentos
cerimoniais levados pelos padres, as falas ancestrais proferidas nos dabucuris
referiam-se aos nomes e feitos dos antepassados, e, em seu conjunto,
representam o que algumas pessoas de Iauaretê referem-se como sua "riqueza",
cujo valor virtual, wapatisehé, é reivindicado por meio de sua origem: foram
obtidos pelos ancestrais em sua transformação mítica e repassados através das
gerações. Inscritas no papel, essas falas ensejam um novo tipo de
materialidade, que aparentemente vem compensar a visibilidade perdida dos
grandes rituais do passado. Ou seja, à medida que passam a circular, esses
objetos-livro trariam o potencial de gerar o mesmo efeito que se alcançava com
a exibição dos objetos-rituais nos dabucuris, isto é, a afirmação de um lugar,
ou de um ponto de vista singular, no contexto de um amplo sistema de relações.
Como se dá essa transformação do valor é uma questão em aberto e que merece ser
continuamente observada - afinal, a coleção Narradores Indígenas do Rio Negro é
ainda um fenômeno relativamente recente e há pouca informação sobre o raio de
circulação de seus volumes. É possível que, do ponto de vista das relações
entre diferentes grupos indígenas, sua eficácia jamais possa se igualar àquela
das antigas performances rituais, mas, por outro lado, é certo que os livros
podem circular para muito além do lugar de seus autores, e mesmo muito além dos
lugares onde vivem seus parentes mais distantes. Eles são vendidos pela FOIRN
em São Gabriel da Cachoeira - e pelo Instituto Socioambiental em São Paulo.
Este não é um ponto em hipótese alguma desconsiderado por seus autores, aliás,
bem ao contrário: os Tukano com quem trabalhei estavam bem cientes da
circulação potencial de seu livro e esperavam mesmo que pudesse chegar às mãos
daqueles grupos tukano que, segundo eles, baixaram o Rio Negro e o Amazonas
desde os primeiros tempos da colonização e, ainda hoje, sem esquecer de sua
origem, viveriam como brancos em cidades como Belém ou Rio de Janeiro (ver
Andrello, 2006a, cap. 6). Para os Tariano Koivathe, o envolvimento crescente
com o mundo dos brancos requer que os jovens conheçam sua história e sejam
capazes de dizer quem são eles em novas situações que passam a enfrentar -
como, por exemplo, as possibilidades que vêm surgindo de freqüentar cursos
universitários em Manaus com a abertura de vagas especiais para índios.
Mas o que se pretende evidenciar nesse caso não é uma indianidade genérica,
algo que a história do contato se encarregou de criar por meio de sucessivos
programas de "civilização de índios", isto é, como uma condição selvagem
igualmente compartilhada por todos os grupos nativos do rio Uaupés, ou do rio
"dos Uaupés", os incivilizados "comedores de tapuru".14 Podemos aventar, dessa
maneira, que, para além de uma circulação local entre as comunidades indígenas
da região, o que se pretende com os livros é também rebater essa imagem
construída no contexto das relações com os brancos, pois, apropriando-se da
escrita e dos papéis, um dos mais fortes índices da civilização, os autores dos
livros fazem questão, sobretudo, de enunciar os nomes de seus ancestrais, que
são, ao mesmo tempo e ainda hoje, seus próprios nomes pessoais e o de seus
clãs.15
Livros, nomes, riquezas
Os nomes dos clãs aparecem regularmente no título de todas as publicações, cujo
texto irá narrar em detalhes seu surgimento. Uma aparição que se refere, ao
mesmo tempo, ao nome, ao ancestral e a seu grupo. Com efeito, assumindo papéis
rituais especializados - chefes, guerreiros, xamãs, cantores e servidores - e
ordenados hierarquicamente de acordo com a ordem de surgimento de seus
ancestrais, os clãs do Uaupés não são qualificados por um conceito nativo
específico. São chamados simplesmente de kurupa, "grupo", um termo que pode ser
aplicado em contextos muito diferentes. Mas todos eles possuem um nome próprio,
que em geral é o próprio nome do ancestral fundador. Esse é exatamente o caso
dos Koivathe e Oyé. Especialmente entre os Tukano, todos os membros do clã são
chamados com a expressão "filhos de X", como, por exemplo, Oyé Porã, filhos de
Oyé. O nome do ancestral do clã é sua principal marca distintiva, denota sua
posição em uma escala hierárquica e, em muitos casos, é o nome principal de um
estoque limitado de nomes transmitidos em gerações alternadas - em geral, o
nome do ancestral fundador cabe ao filho mais velho das famílias que pertencem
ao clã. É a atribuição do nome de um antepassado a uma pessoa que lhe garante
uma alma específica, aquela que se aloja no peito e corresponde à respiração,
ao sopro - ehêri-porã, "filho da respiração". Trata-se um modo de subjetivação,
que se efetua à medida que uma parte da força de vida (katisehe) acumulada no
período da transformação mítica é acoplada a uma pessoa. Com a morte, esta alma
retorna à casa de origem, de maneira que pode ser reciclada com o nascimento de
novos membros do clã.
Todos esses processos são operados por meio de um conhecimento especializado,
os basesehé, as encantações xamânicas sopradas com fumaça de tabaco, que se dão
a conhecer por meio dos mitos de origem, de maneira que seus melhores
narradores são os detentores desse conhecimento esotérico, os kumua, os xamãs
verticais do Uaupés (Buchillet, 1990, 1995; Hugh-Jones, 1996). É por isso que
os livros indígenas mais detalhados, e "completos", como se diz, são aqueles
cujos autores dominam um grande repertório dessas encantações. Um bom exemplo
disso é o penúltimo volume publicado na coleção Narradores Indígenas do Rio
Negro, o Livro dos Antigos Desana - Guahari Diputiro Porã, produzido por dois
homens de um importante clã desana do igarapé Urucu, afluente do médio Papuri.
São pai e filho, um kumu experiente e seu filho em fase de formação
respectivamente (ver Tõramü Bayar e Guahari Ye Ñi, 2004). O mais velho deles
fez questão de introduzir no texto várias das encantações que vão surgindo ao
longo dos acontecimentos narrados, muitos deles constituindo por si mesmos as
fórmulas mágicas, outras expressando as ações ou o pensamento dos seres
míticos. Mas outro detalhe referente a esse volume que merece destaque diz
respeito a uma cena produzida pelos membros desse clã desana por ocasião de seu
lançamento público, na maloca da FOIRN na cidade de São Gabriel da Cachoeira em
junho de 2004. Esse episódio nos permitirá tratar mais detalhadamente do valor
desses objetos-livros em sua relação com os nomes.
Apesar de não ter presenciado esse evento, chegou-me às mãos uma foto da
ocasião, na qual um exemplar do livro se encontrava sobre um suporte feito com
varetas enfeixadas, amarradas umas às outras pelo meio e abertas nas
extremidades de modo a formar um círculo superior e outro inferior - esse
objeto apresenta o aspecto de dois cones invertidos, um apoiando-se sobre o
outro pelas pontas; corresponde assim ao formato aproximado de uma ampulheta.
Este suporte, por sua vez, está apoiado sobre um banco esculpido em madeira,
todo decorado com pinturas. Este banco é um objeto muito comum no Uaupés, sendo
uma especialidade artesanal dos Tukano, que o trocam regularmente por outros
artefatos específicos produzidos por outros grupos. Esse banco é um objeto
mencionado em inúmeras partes da narrativa mítica, notadamente logo no começo,
quando o "Avô do Mundo" vivia uma existência solitária, adornado e cercado por
seus "instrumentos de vida e transformação": sentava-se sobre esse banco,
segurava uma forquilha de madeira com um cigarro encaixado e seu bastão de
comando. A seu lado, encontrava-se um suporte como o descrito acima, e sobre
ele apoiava-se uma cuia de ipadu.16 Ou seja, na composição de objetos montada
para o lançamento do livro, este ocupa o lugar da cuia de ipadu. Todo o
conjunto está suspenso pelas mãos de um homem paramentado com pinturas e um
cocar de penas na cabeça. Não se vê sua face: o banco está à altura do abdômen,
o suporte de cuia (ausente) corresponde a seu tórax; o livro lhe esconde a
face, mas sobre ele se projetam as penas de seu cocar. Atrás desse homem, vêem-
se vários outros homens do clã, todos exibindo cocares com penas de arara
vermelhas e azuis. Na capa, o próprio livro leva uma ilustração composta pelos
mesmos objetos, bancos, suportes, cuias, forquilhas, cigarros e bastão. A
imagem da capa do livro traz, portanto, uma montagem de objetos equivalente
àquela da qual ele próprio faz parte. O conjunto de objetos é emoldurado na
imagem por uma multiplicidade de corpos adornados. Tudo isso parece ser uma
espécie de revelação ritualizada da imagem do próprio clã. Os que vieram para o
lançamento, entre índios de vários outros clãs, lideranças e mesmo brancos,
saíram dali carregando seus exemplares que, assim, irão se distribuir por
vários rios e comunidades, e mesmo cidades distantes - havia gente ali de
Manaus e São Paulo.

Qual o significado dessa montagem de objetos? E, sobretudo, o significado da
imagem como um todo, que os Desana projetaram sobre a variada audiência
presente no evento? Como foi dito, os objetos da imagem, incluindo aqueles que
adornam os corpos, são abundantemente mencionados nos mitos registrados nos
livros, e é significativo que em pelo menos dois volumes eles apareçam também
como ilustração da capa. A meu ver, é possível afirmar que o lançamento do
livro desana exprime de maneira exemplar uma relação entre pessoa, nome e
corpo, mas também uma forma nova de objetificação dessa relação. O que esta
nova forma de exibição parece manter, no entanto, é a mesma relação entre
interior e exterior, ou entre a unidade e a multiplicidade, por meio da qual se
concebem pessoas e coletivos no Uaupés. Explico.
Nas histórias narradas nos livros, os ancestrais têm aparição em pontos
específicos da trajetória da cobra-canoa. Seu surgimento ocorre em diferentes
casas subaquáticas, onde vive a gente-peixe, e que correspondem a pontos de
parada da extensa jornada. Nessas casas, os tripulantes desembarcam, cantam e
dançam, e, assim, se multiplicam. Essa multiplicação tem como referente a
piracema dos peixes, que, aos olhos dos humanos de hoje, são suas festas e
rituais. A proto-humanidade, porém, compartilhava com a gente-peixe de uma
mesma condição. Nessas festas-piracema, surgem os ancestrais dos humanos
atuais, cujos grupos seguem aumentando em número à medida que a cobra-canoa se
aproxima do Uaupés, onde, ao passar por um buraco em uma laje da cachoeira de
Ipanoré, irão separar-se definitivamente da gente-peixe, despindo-se de suas
roupas de peixe e assumindo definitivamente a forma humana. Os ancestrais
tukano são, em sua capacidade de reprodução e crescimento, protótipos da
humanidade, mas retiram tal qualidade, descrita como a força de vida que irão
legar a seus descendentes, do mundo subaquático dos peixes. Ao fazê-lo,
condensam um nome e um corpo no próprio ato de seu aparecimento: vários de seus
nomes são nomes de peixe e seus corpos são considerados "ossos de peixe". A
expressão marie katsehé wa'í-o'ari, "nossos ossos de peixe de vida", engloba
nomes e ossos de peixe. Os objetos que são evocados ao longo da narrativa
constituem um índice material, uma forma visível, da força de vida alojada nos
ossos de peixe. Eles próprios são, assim, ossos de peixe. Sua multiplicação é
entendida como aumento da força de vida.
O aparecimento de um ancestral encontra-se, por assim dizer, entre os
principais acontecimentos míticos para os grupos do Uaupés, mas não há espaço
aqui para tratar dos detalhes desse processo tal como é elaborado nas
narrativas. O importante é que o corpo do ancestral ganha existência por meio
de uma composição de objetos similar àquela já mencionada, em que o banco é o
quadril, o suporte de cuia é o tórax, a cuia é o coração e a respiração. Esses
objetos, acompanhados da forquilha do cigarro e do bastão ritual, compõem,
assim, o corpo prototípico do ancestral, e sua matéria-prima seria o quartzo
branco existente no mundo de baixo.17 Pode-se dizer que constituem a
contrapartida interior dos adornos cerimoniais, que evidenciam a forma exterior
do corpo humano. Se estes foram vomitados e entregues pelo Avô do Mundo aos
demiurgos responsáveis pelo aparecimento da humanidade, aqueles eram seus
instrumentos de vida e transformação, com os quais deu início ao surgimento do
mundo. Os detalhes dessa seqüência de acontecimentos primordiais podem ser
verificados em todos os volumes da coleção Narradores Indígenas do Rio Negro. O
interessante é que, no caso desana de que estamos tratando, o próprio livro vem
a ser acoplado a esse conjunto geral de objetos e corpos que formaram a cena de
seu lançamento público. Dessa maneira, o livro torna-se, ele próprio, parte da
imagem do clã: um ancestral, que é o conjunto banco-suporte-livro, tendo às
suas costas numerosos membros do grupo, os diversos corpos adornados atrás do
homem que sustenta o banco. O grupo numeroso que ali se encontra exprime,
sobretudo, o crescimento da força de vida do ancestral, isto é, expressa em sua
pluralidade a multiplicação do princípio incorporado na figura única do
ancestral, portador de um nome, que é, ao mesmo tempo, o nome do clã. Ao longo
da viagem da cobra-canoa, o crescimento do grupo de um ancestral específico é
descrito como a multiplicação dos adornos cerimoniais que ele carrega em uma
caixa - as mesmas levadas pelos missionários a partir do início do século XX,
confeccionadas em palha e no interior da qual os ornamentos cerimoniais eram
cuidadosamente conservados.
Como afirmei, o referente dessa imagem é a piracema, a festa na qual os peixes
se multiplicam. Do ponto de vista dos humanos atuais, seus ancestrais dançavam
com os peixes, faziam uso das flautas existentes em suas casas no fundo do rio.
E assim seu grupo aumentava, isto é, seus adornos se multiplicavam. O variado
conjunto de adornos cerimoniais constitui sua progênese. A piracema é o
verdadeiro protótipo da capacidade de reprodução, que não depende de relações
sexuais. Os objetos cuja composição conforma o corpo do ancestral, bem como os
adornos que denotam o crescimento de seu grupo, são índices que descrevem tal
capacidade. São igualmente índices de força de vida, da capacidade de
demonstrar atividade diante de outrem, qualidade agregada no interior dos
corpos como bancos, suportes e cuias, mas que se evidenciam e se realçam
externamente por meio dos adornos ritualmente exibidos. Possuindo uma dimensão
interior e outra exterior, único e múltiplo, o corpo ancestral dissolve a
dicotomia entre pessoas e coisas.
O nome é o próprio conjunto banco-suporte-cuia - o suporte de cuia é feito de
varetas amarradas entre si por cipós, concebidas como veias que conduzem o
conteúdo da cuia à base estável - o banco. Ou seja, no que se refere a seus
ancestrais míticos, os povos do Uaupés não separam os aspectos visível e
invisível, material e imaterial, eles são uma e mesma coisa. Por isso, quando
se atribui nome a uma pessoa, o kumu deve lançar mão de uma encantação
apropriada, na qual esses objetos são verbalmente ativados e, por assim dizer,
tratados com leite e suco de frutas doces, que podem também estar armazenados
na cuia.18 Como se comenta em geral, o kumu tem que ir em pensamento até a casa
onde surgiu o nome, e soprar os nomes de todos os objetos em um cigarro. Sua
fumaça será então baforada sobre a criança que recebe o nome. Tal procedimento
permite atribuir uma alma à pessoa, na forma dos objetos de vida e
transformação, os ossos de peixe, a parte dura e, como os nomes, imperecível da
pessoa. Assim, o nome é, ainda que alma, considerado um segundo corpo
introjetado no corpo exterior. Ora, que função cumpre o livro ao ser inserido
na montagem do corpo do ancestral senão materializar o nome em seu próprio
título. A escrita parece aqui prestar-se a um novo uso: em sua materialidade,
torna-se parte do corpo artefactual do ancestral, bem como de seu corpo
ampliado na imagem do clã. Além disso, ele condensa todo um corpus de
conhecimento. Não é por acaso, portanto, que substitui a cuia de ipadu,
associada também à capacidade de pensamento e reflexão.
Índice material e repositório de conhecimentos, os livros de mitologia parecem,
portanto, objetos particularmente adaptados ao processo de fabricação xamânica
da pessoa, no qual a distinção entre corpo e alma é essencialmente borrada. O
livro é corpo, pessoa, ou uma parte destacável da pessoa; materialmente
visível, é inequivocamente investido de sua essência metafísica, de seu nome.
No lançamento do livro desana, tudo isso está implícito. Um comentário de um
autor tariano parece explicitar essa interpretação. Por ocasião de um período
de trabalho com narrativas míticas, ele disse o seguinte: "com tudo isso, é
como que se meu avô tivesse ressuscitado". À medida que vai ganhando forma, o
manuscrito, que resulta de processo intenso de pensamento e reflexão à frente
da tela do computador, parece permitir ainda que o conhecimento seja revelado.
O mesmo narrador contou-me que, desde que começamos a trabalhar em seu livro,
seu avô lhe aparece em sonho freqüentemente. Falando-lhe ao ouvido, esse
antepassado ensina-lhe os mesmos cantos e histórias que, em sua juventude, não
lhe prendiam a atenção. Com esses elementos, passa, não raras vezes, a buscar
esclarecer detalhes das histórias com outros parentes vivos mais velhos e, com
isso, começa até mesmo a conseguir curar certas doenças com encantações
apropriadas que está, em seus mais de 60 anos, aprendendo.
Em suma, os livros da coleção Narradores Indígenas do Rio Negro apresentam-se
como objetos plenamente aptos a serem subsumidos em um conceito tukano
utilizado tanto para a riqueza cerimonial como para as mercadorias dos brancos:
ahpeká, termo composto por ahpe, "outro", e ká, "coisas". "Coisas outras",
portanto, uma expressão englobante que se aplica, em primeira instância, às
especializações artesanais dos diferentes grupos, como o banco confeccionado
pelos Tukano, o ralo baniwa, a canoa tuyuka e assim por diante. Índices de
diferenças sociais internas que, uma vez projetados para o contexto do mito, no
qual a humanidade indígena atual diferenciou-se tanto dos peixes e animais como
dos brancos, irão recair precisamente sobre os objetos cerimoniais e as
mercadorias. Tudo isso é qualificado como ahpeká. As mercadorias são o ahpeká
dos brancos, incluindo aí os papéis, o dinheiro. E os adornos cerimoniais,
ainda que idênticos entre si, são também considerados o ahpeká de cada grupo
indígena específico. Uma expressão que explica o conceito é [/img/revistas/
rbcsoc/v25n73/a01caract01.gif]sa wek[/img/revistas/rbcsoc/v25n73/
a01caract01.gif]-simia kio'ke, literalmente, "aquilo que nossos avós
possuíram". Essa expressão surgiu assim que solicitei a um Tukano que
traduzisse para sua língua a palavra "riqueza", usada com muita freqüência para
explicar aos brancos o sentido que os índios atribuem a seus objetos e adornos.
Segue-se à tradução a seguinte exegese: ao nascer, um branco já tem dinheiro no
banco; no caso dos índios, o banco é sua roça, mas possuem ainda suas relíquias
ancestrais. Obtidas pelos antepassados remotos junto à gente-peixe, vieram a
ser incrementadas por certo tipo de akpeká dos brancos, os livros. A analogia
entre os brancos e a gente-peixe é patente, mas não há espaço aqui para tratar
desse tópico. Convém, para finalizar, voltar ao tema da expansão das relações
que se pretende propiciar por meio dos livros.
Distribuição, transformação, valor
A linguagem utilizada para interpretar o acoplamento dos livros ao corpo
ancestral, aquela dos protótipos e dos índices, evoca claramente o livro Art
and agency, de Alfred Gell (1998). Há várias sugestões interessantes nesse
trabalho para um tratamento aprofundado dos objetos rituais no Uaupés, pois a
proposta do autor no sentido de tratar os objetos de arte a partir de seu
aspecto relacional, e da agência que exercem no contexto das relações sociais
em que se inserem - em vez de analisá-los sob o prisma dos códigos simbólicos
que expressam - evoca muito nitidamente a concepção uaupesiana de que os ossos
de peixe e os chamados objetos de vida e transformação são assim qualificados
por encapsularem, precisamente, força de vida, em tukano, katisehé. É por meio
de sua inserção nos corpos via nominação que se propicia subjetivação, uma
potencialização da força-fala da pessoa, u'unkusehé, que, assim, poderá agir
intencionalmente sobre o mundo, expressando conhecimento ou soprando
encantações. Os objetos encapsulam vida, não no sentido biológico, mas no
sentido de capacidade de agência, de intencionalidade. Tal qualidade advém da
composição daquele segundo corpo, o nome. Força de vida, portanto, que é
manejada na construção de um corpo artefactual. Vida como intencionalidade e
corpo feito de artefatos, duas outras idéias que fazem parte linguagem proposta
por Gell.
Mas ao sugerir que objetos podem ter agência, atributo que normalmente
determina a condição de sujeito, o autor trata de distinguir entre agentes
primários e secundários. Coisas e artefatos seriam, em suas palavras, "agentes
secundários", através dos quais os "agentes primários", pessoas em sentido
pleno, "distribuem sua agência em certo meio causal" (Idem, p. 20). Nesse
sentido, para que objetos exerçam agência é preciso que haja pessoas na
vizinhança dessas coisas inertes, ou seja, o que conta é sua inserção em uma
rede de relações sociais, não importando o que uma coisa (ou mesmo uma pessoa)
é em si mesma. O pressuposto dessa formulação é que o outro imediato em uma
relação social não é necessariamente um ser humano. Levando-se em consideração
o que até aqui foi dito a respeito dos objetos cerimoniais dos Uaupés, parece
estranho, em princípio, considerá-los agentes apenas de segunda classe. É
possível que do ponto de vista tukano as coisas se passem exatamente de maneira
inversa, pois, como vimos, os instrumentos de vida e transformação preexistem à
humanidade. Seriam, assim, como fontes de força de vida, um dispositivo
primário de agência, cujo manejo xamânico visa, precisamente, transferir essa
virtualidade aos corpos humanos no próprio ato de sua fabricação.
Há, porém, que se considerar que todos os objetos postos em cena nas narrativas
míticas são intrinsecamente ligados ao Avô do Mundo e à gente-peixe, junto a
quem os demiurgos os adquirem. Pode-se pensar, neste caso, que os agentes
primários corresponderiam a essas duas posições, a da divindade-avô e a da
alteridade-animal; da combinação de suas capacidades objetificadas dependeria a
emergência daquilo que os grupos do Uaupés designam como a verdadeira
humanidade.19 Mas qual o estatuto exato da relação entre essas entidades e seus
objetos? Eles possuem as coisas ou são as coisas? Esse não é um problema
desconsiderado por Gell. Ao contrário, tomando com referência a relação de um
soldado com seus armamentos e outros instrumentos letais - como as minas
implantadas pelos soldados de Pol Pot no Camboja que mataram ou mutilaram
milhares -, ele tende para a segunda alternativa, sugerindo que artefatos como
armas constituem o nexo de ligação dos agentes com outros entes sociais. As
armas de um soldado são parte de sua pessoa, são o que fazem dele o que é.
Sugere, assim, a noção de "pessoa distribuída", de acordo como a qual um agente
não se localiza apenas dentro dos limites circunscritos por seu próprio corpo.
Sua agência social realiza-se, de fato, pela proliferação de partes desanexadas
de sua pessoa na forma artefactual. Apesar de manter a distinção entre agência
primária (da pessoa) e secundária (do artefato), Gell, após extenso percurso
argumentativo - que passa por vários exemplos etnográficos, da feitiçaria por
exúvias à animação de ídolos -, conclui que, em termos da posição que podem
ocupar em redes de agência social humana, artefatos ou seres humanos "podem ser
considerados quase que inteiramente equivalentes" (Idem, p. 153).
Objetos são, assim, índices que permitem abdução de agência das entidades que
descrevem, ou mesmo que representam visualmente, isto é, de seus protótipos. O
ponto a destacar é que, em certos casos, um índice pode ser tanto uma imagem
como uma parte desanexada do protótipo. Nas palavras do autor, índices são
"signos naturais" de seus respectivos protótipos, tal como a relação entre
fumaça e fogo. Abdução de agência por meio de um índice implica, pois, a
existência de uma relação de tipo parte-todo deste para com o protótipo (Idem,
p. 104). É nesse sentido que se pode pensar em uma noção de pessoa como algo
distribuído em um dado meio, para além de suas fronteiras corporais. Um exemplo
significativo desse dispositivo fornecido por Gell provêm do estudo de Nancy
Munn sobre as formas simbólicas de transformação do valor na ilha de Gawa. Como
os tantos outros participantes nas trocas de colares e braceletes do circuito
do Kula, dispersos por inúmeras ilhas e arquipélagos, os homens de Gawa são
"pessoas espaço-temporalmente estendidas" (Idem, p. 229). Esse espaço-tempo
opera, de acordo com a interpretação de Gell, como um campo de forças exercidas
por objetos de valor, todos eles ligados ao nome de pessoas de renome e
prestígio, mas em contínua circulação. Por seu intermédio, essas pessoas são
capazes de influenciar estratégias e decisões de outros homens em lugares muito
distantes, para muito além de seus parceiros mais imediatos. Os objetos ligados
a seu nome são índices de sua presença corporal, de suas capacidades e beleza,
uma vez que são adornos corporais, e, assim, parte de sua pessoa. São belos na
mesma medida que antigos e poderosos. Do que já foi dito sobre os livros
indígenas do rio Negro, vê-se que a ressonância entre eles e os objetos de
valor de Gawa é patente. Pois, a distribuição dos exemplares de um livro por
entre várias comunidades, associações e escolas indígenas da região, além de
sua comercialização pela FOIRN na cidade de São Gabriel da Cachoeira, permite
ampliar o raio de ação de um clã específico e, nesse sentido, ampliar sua
influência para além dos círculos sociais mais próximos, nos quais sua posição
é mais usualmente reiterada ritualmente por meio dos dabucuris.
Mas há ainda outro ponto que, a meu ver, permite aprofundar tal paralelo.
Refiro-me àquilo que Gell chama de "mapa espaço-temporal dinâmico",
qualificando com essa expressão os intrincados caminhos nos quais circulam os
objetos do Kula. Esse mapa resulta de uma construção baseada na experiência e
na memória acumuladas pelas pessoas, bem como em um mundo historicamente
construído que "se encontra lá", isto é, em um extenso espaço contínuo e aberto
povoado por muitos outros sujeitos. Um mundo, segundo o autor, no qual os
pensamentos se expandem, se encontram, disputam e se afirmam, por meio,
precisamente, dos objetos de valor. Mente e mundo tornam-se coextensivos, uma
condição necessária para a participação bem-sucedida nas trocas Kula, isto é,
para uma transformação do valor dos objetos em renome. Uma transformação
positiva, portanto.
São as coordenadas circunscritas por esse mapa que, a meu ver, permitem operar
aquilo que Nancy Munn (1986, pp. 8-10) chamou de expansão, ou extensão, de um
espaço-tempo intersubjetivo. De maneira significativa, os livros indígenas do
rio Negro concentram-se em larga medida em detalhar como, em diferentes
episódios, o mundo veio a se constituir como tal, e, sobretudo, em apontar um
conjunto de referências espaço-temporais que funcionam como coordenadas para o
estabelecimento dos diferentes grupos na região, e mesmo alhures. Os
manuscritos costumam contemplar o processo de dispersão dos vários clãs em
pontos específicos, detalhando o nome de cada um e o nome do lugar que lhes
coube, em geral nos próprios rios da região. Seguem relatando os processos de
expansão de alianças empreendidas pelo grupo do autor ao longo de sua história,
e é preciso levar em consideração que a própria narrativa da diversificação de
suas relações ao longo do tempo constitui parte de seu patrimônio no presente.
Aparentemente, ao registrá-la e tentar fazê-la circular por circuitos cada vez
mais amplos, os autores demonstram um esforço em desenvolver, nos termos
propostos por Munn, relações espaço-temporais progressivamente mais distantes
de seu contexto imediato. Antes da trajetória particular de seu grupo, tratam
de enumerar um conjunto extenso de "casas de transformação" existentes ao longo
do curso dos rios Negro e Uaupés, os pontos de parada da cobra-canoa, bem como
sua partida desde o Lago de Leite. Nos manuscritos de hoje, o Lago de Leite é
situado na Baía da Guanabara, e muitas das casas de transformação são as
próprias cidades situadas ao longo de seu percurso, como Belém e Manaus. Em
todos os livros a origem do homem branco é igualmente esclarecida, pois seu
ancestral era o irmão mais novo do ancestral dos índios, que, por sua índole
violenta, veio a ser, de acordo com os Oyé, levado pela cobra-canoa para os
outros continentes. Como no caso do Kula, a produção e a circulação de livros
indígenas exprimem assim uma forma da cognição que, no transcurso da história,
veio a englobar a figura do homem branco.
É portanto no interior desse mapa espaço-temporal que se processa o valor por
meio do qual uma comunidade se faz viável como parte de um extenso sistema
relacional. Renome e prestígio - "fama", no caso dos moradores da ilha de Gawa
- constituem o resultado desejado do processo, e que passa por uma avaliação do
"eu" por "outros" significativos - não é preciso que você conheça pessoalmente
alguém para que este saiba de sua existência e lhe reconheça prestígio, pois
objetos de valor ligados a seu nome estão sempre lhes chegando às mãos por meio
das trocas do Kula. A partir disso, a hipótese mais ampla que sugiro é a de que
o processo recente de produzir e fazer circular livros no alto rio Negro
constitui-se igualmente como uma ação que visa expandir as dimensões de
controle espaço-temporal de seus autores, para usar novamente a terminologia de
Nancy Munn. É um processo no qual a alteridade participa como um elemento
organizador, o solo a partir do qual o "eu" se constitui, pois atravessando os
círculos dos parentes próximos e distantes para, então, circular entre os
brancos de rio abaixo, pretende persuadi-los a adotar uma perspectiva
propriamente tukano - ou tariano, desana etc. - acerca de quem eram de fato os
"índios Uaupés". Isto é, uma imagem projetada pelos autores dos livros acerca
de si mesmos, dirigida tanto a outros grupos indígenas da região como aos
brancos, de cujas técnicas e objetos vieram a se apropriar. A circulação dos
livros é, portanto, uma forma de distribuição do nome e da pessoa; configura-se
como uma ação que combina a riqueza herdada a novas capacidades incorporadas
historicamente para afetar o juízo de outros sobre si. Um processo que visa à
transformação do ponto de vista de outrem, que idealmente deve coincidir com o
seu próprio.
Em suma, os livros parecem se prestar como um recurso estratégico em um
processo constante de expansão de relações. Um dispositivo que permite de
maneira inédita a distribuição ampliada da pessoa e de seu nome, e,
potencialmente, a participação de uma comunidade local em um mundo que veio
incessantemente se expandindo.
Nota final
Foi tratando da produção desses livros indígenas que Stephen Hugh-Jones cunhou
recentemente a expressão "antropologia faça você mesmo".20 O autor aludia a um
espaço emergente de colaboração entre índios e antropólogos no alto rio Negro
na produção dos livros indígenas, o que evidencia a natureza sempre co-autoral
das descrições etnográficas, poucas vezes reconhecidas na história da
disciplina. Mas Hugh-Jones também alerta para os riscos que envolvem esses
experimentos, pois, ao explicitar a posição indígena como autores ou co-autores
de textos escritos por antropólogos, essas iniciativas remetem a uma concepção
restrita de "cultura", que acaba por direcionar a etnografia ao mito e ao
ritual, deixando de lado, por exemplo, o modo de vida e as atividades de
subsistência, coisas em geral englobadas em nossa concepção de cultura. O
resultado é que a visão corrente na antropologia amazônica quanto à existência
de um fundo cultural compartilhado em face do qual os diferentes grupos tukano
corresponderiam a variações locais é posta em segundo plano. Pois, do ponto de
vista indígena, o esforço em transformar narrativas em textos escritos quer,
precisamente, evidenciar as diferenças entre suas respectivas "culturas" - seus
cantos, danças, nomes e versões próprias das histórias de origem.
As aspas no termo cultura denotam, precisamente, um uso indígena da noção (ver
Carneiro da Cunha, 2009). Trata-se de um uso bastante peculiar, e cujo
aprendizado se deu a duras penas, pois essa cultura que diferencia os índios
entre si - cada qual possui a sua própria -, diferencia-os de seu próprio ponto
de vista conjuntamente dos brancos de uma maneira inusitada: os brancos
simplesmente são despojados de "cultura", pois não possuem nomes ou "etnias".
Além disso, condenaram historicamente as culturas indígenas como coisas do
diabo. Os índios possuíam a cultura, os brancos, a chamada civilização. Nomes,
cantos, adornos cerimoniais são os instrumentos da cultura, por meio dos quais
os ancestrais indígenas fizeram aumentar e transmitir força de vida às atuais
gerações. Mercadorias, incluindo papéis - o dinheiro, a Bíblia -, foi o que
coube ao ancestral do branco no conhecido episódio mítico da má-escolha, do
qual os grupos indígenas do rio Negro oferecem inúmeras versões. Dessa maneira,
a medida de comparação, ou o termo de mediação, do que seria uma antropologia
reversa dos índios do rio Negro (ver Wagner, [1975] 1986) não seria realmente
"cultura". O mais forte candidato, como vimos, é a noção de ahpeká, as "coisas
outras", que hoje engloba tanto as riquezas tradicionais como as mercadorias.
Fazendo circular os livros, entre si e mesmo entre os brancos, o papel e a
escrita tornam-se objetificações de um novo tipo nas mãos dos índios. Não se
referem a um valor meramente utilitário - preservar a memória, pleitear
propriedade sobre conhecimentos -, pois nesse caso, e ainda de acordo com
Wagner, eles seriam a mesma coisa que os livros dos brancos: "nossos
'fantasmas', nosso passado, onde vive uma parte tão grande daquilo que chamamos
nossa "Cultura". É certo que os livros dos índios contam seu passado e os
feitos dos ancestrais, e, além do mais, eles provavelmente não hesitariam em
dizer que ali está a sua "cultura". Mas, como já diagnosticou Stephen Hugh-
Jones, há um claro equívoco em torno do termo cultura. A apropriação indígena
do termo parece introduzir ainda mais ambigüidade na cultura. Wagner sugeriu
que isso se deve ao fato de que os antropólogos imaginam uma cultura para
pessoas que não imaginam algo como sua própria "cultura". Mas a história da
etnografia no rio Negro começou depois que os índios já haviam passado por toda
uma outra história de civilização e catequese, de modo que a cultura solicitada
pelos antropólogos, e mesmo por alguns etnógrafos salesianos, foi facilmente
imaginada pelos próprios índios: tratava-se daquilo que "nossos avós
possuíram", e que ao longo da história lhes foi expropriado. Ou, ao menos,
quase.
Esse último ponto não é nada trivial, pois, como foi discutido, se adornos e
instrumentos foram levados pelos padres, tudo aquilo que hoje se registra nos
novos livros não havia como ser carregado. Além disso, foram-se certos objetos,
e vieram outros, as mercadorias e os papéis. É também por meio deles que hoje
em dia a grande maioria das comunidades indígenas da região torna viável o seu
mundo vivido. Em Iauaretê, concomitantemente ao interesse de certos moradores
de determinados clãs em produzir livros de mitos, uma boa parte dos dabucuris
ocorre por ocasião de efemérides escolares, como os dias das mães, dos pais, o
dia do soldado, do professor e assim por diante. E por meio desses dabucuris a
circulação de mercadorias e dinheiro é, em certa medida, agenciada e a
comunidade, produzida. Algo próximo a esse processo ocorre entre os Piro da
Amazônia peruana, entre os quais, conforme descreve Gow (2001), verifica-se a
substituição dos rituais de iniciação feminina por festas comunitárias
relacionadas com a introdução da educação escolar. Gow aponta que o xamanismo
associado às divindades celestes, assim como as narrativas míticas acerca de
contatos com seres celestiais, foram desaparecendo em um processo paralelo ao
abandono progressivo dos rituais de iniciação, quando as meninas eram adornadas
para que se mostrassem belas aos olhos daquelas mesmas divindades. O abandono
dos rituais, do xamanismo e das histórias relacionadas com seres celestiais
cede lugar às festas das comunidades nativas e ao engajamento com o
conhecimento dos brancos, o que leva o autor a se perguntar se, em alguma
medida, não se trata de processos relacionados. Ou seja, em que medida a
presença decrescente dos deuses no mundo vivido piro dos Piro se explica pela
presença crescente do homem branco. Para tanto, Gow sugere uma incursão
prolongada na história do século XIX a fim de verificar como os gringos foram
inventados pelos Piro.
A importância crescente dos brancos no interior do mundo tukano ou tariano é
igualmente inegável. Em seus respectivos livros, dá-se conta tanto da origem de
seus poderes específicos como dos primeiros episódios em que com eles travaram
relações. Aproximações exploratórias, fugas e violência, mas também alianças e
trocas; tudo isso aparece nos relatos. E, por fim, a implantação definitiva das
missões, o batismo cristão e a obtenção de um nome civilizado, e todo um novo
estilo de vida comunitário fora das antigas malocas e sem os rituais
tradicionais. Hoje, as relações com os brancos diversificaram-se de maneira
jamais imaginadas, pois além de padres e patrões, há os antropólogos, as ONGs,
os funcionários de vários órgãos de governo, os turistas etc. Ou seja, o
espaço-tempo intersubjetivo que envolve brancos e índios se alargou
historicamente e parece ter aberto, ao menos, uma possibilidade inaudita, pois
a apropriação dos livros e da escrita tornou-se uma forma pela qual os índios
intentam controlar e inverter a perspectiva dos brancos sobre o que era e quem
eram os índios. Se isso se tornará uma forma de transformação positiva de
valor, isto é, se este processo vai realmente criar novas condições de
viabilidade de seu mundo vivido, é cedo para avaliar.
Notas
1 Ver Barbosa et al. (2000); Cornelio et al. (1999); Diakuru e Kisibi (1996);
Fernandes e Fernandes (2006); Maia e Maia (2004); ?ahuri e Kümarõ (2003);
Tõramü Bayar e Guahari Ye Ñi (2004); Umúsin Panlõn Kumu e Tolamãn Kenhíri (
[1980] 1995).
2 A redação e os dados apresentados neste artigo derivam de minha experiência
direta como antropólogo-colaborador em dois volumes da coleção Narradores
Indígenas do Rio Negro. O primeiro deles já se encontra publicado (ver Maia e
Maia, 2004); o segundo, que traz uma versão tariano do ciclo mítico de origem
dos povos do rio Uaupés encontra-se em fase de preparação. Alguns argumentos
apresentados ao longo do texto beneficiaram-se largamente de um diálogo direto
com Stephen Hugh-Jones sobre a etnografia rionegrina de um modo geral e, em
particular, sobre o interesse dos índios da região na produção de manuscritos.
3 Trata-se do registro da Cachoeira de Iauaretê, rio Uaupés, como "lugar
sagrado dos povos indígenas dos rios Uaupés e Papuri" pelo Iphan (Instituto do
Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), em agosto de 2006 (ver Andrello,
2006b; Oliveira e Andrello, 2008).
4 Oferecer uma obra sob uma licença Creative Commons não significa abrir mão de
seus direitos autorais. Significa oferecer alguns dos direitos para qualquer
pessoa, mas somente sob determinadas condições, como, por exemplo, de uso "não
comercial". Para mais informações ver <http://www.creativecommons.org.br>.
5 Relatos, reflexões, depoimentos indígenas e outros variados materiais
relacionados com o projeto "Inovar para Avançar: propondo novas formas de
salvaguarda aos direitos intelectuais coletivos dos povos indígenas" podem ser
encontrados em <http://ct.socioambiental.org>, acessado em 14/1/2010. É preciso
salientar que a conclusão a que chegaram os advogados que coordenavam o projeto
foi, em grande medida, sugerida por Eduardo Viveiros de Castro, antropólogo
consultor convidado a participar do projeto e que presenciou alguns dos
encontros
6 As duas expressões, economia simbólica ou economia moral, denotando,
respectivamente, relações de alteridade e intimidade, foram sugeridas por
Viveiros de Castro (1996) para qualificar de maneira esquemática duas das
principais tendências analíticas no interior da etnologia das terras baixas
sul-americanas
7 Entre as várias referências e descrições na literatura etnográfica, ver o
sumário em Brandhuber (1999) e também Chernela (2001).
8 Para uma análise detalhada de uma narrativa tukano que descreve o conjunto de
transformações sucessivas que leva ao surgimento da humanidade, bem como o
papel aí desempenhado por um conjunto de objetos chamados "instrumentos de vida
e transformação", bem como por substâncias como o caapi, o ipadu e o tabaco,
ver Andrello (2006a, cap. 6)
9 Habitam tradicionalmente a bacia do rio Uaupés, em territórios brasileiro e
colombiano, cerca de quinze grupos de língua tukano oriental: Tukano
(propriamente dito), Desana, Pira-Tapuia, Wanano, Tuyuka, Arapasso, Cubeo,
Miriti-Tapuia, Carapanã, Makuna, Bará, Barasana, Tatuyo e Siriano. Os grupos de
língua arawak encontram-se situados ao norte do Uaupés, nas bacias dos rios
Içana, Xié, Cuiari e Guainia. São eles: Baniwa, Curipako, Warekena e Baré - os
Tariano, ao migrar para a bacia do Uaupés, adotaram a língua tukano há muitas
gerações. Todos esses povos são ribeirinhos e agricultores. Nas porções
interfluviais da bacia do Uaupés encontram-se os povos de língua maku,
caçadores-coletores semi-nômades: Hupda, Yuhup, Daw e Nadeb.
10 Ver Eduardo Neves (1998) para uma datação da migração dos Tariano do Içana
ao Uaupés a partir de pesquisa arqueológica realizada em Iauaretê, pesquisa
essa baseada igualmente em vários relatos orais disponíveis sobre o grupo.
11 Contam alguns homens koivathe que ao chegar a Iauaretê seu antigo líder, ele
próprio chamado Koivathe, haveria encontrado Waûro, o "chefe dos tukano",
líder do grupo que ocupa o topo da escala hierárquica tukano. Contam ainda que,
uma vez estabelecidos na margem direita da cachoeira, abaixo da foz do Papuri,
haveria recebido dois emissários de Waûro, que oferecia sua filha em casamento
ao filho de Koivathe. A versão tukano, por sua vez, conta que o primeiro
casamento entre os dois grupos ocorreu quando, já vivendo em Iauaretê, os
Tukano decidiram viajar até o Içana para "procurar uma esposa" para o filho de
seu chefe entre os Tariano. Efetuada essa aliança, os Tariano haveriam decidido
se estabelecer permanentemente no Uaupés. A contradição entre as narrativas
quanto a esse ponto tem várias implicações que espero poder tratar em outra
ocasião. Vale frisar, no entanto, dois aspectos relevantes para a presente
discussão: em primeiro lugar, é importante esclarecer que em várias narrativas
aponta-se que todos os clãs tukano estiveram reunidos próximos a uma serra
existente na cabeceira do igarapé Turi, afluente do baixo Papuri. Com o
crescimento, dispersaram-se, e foi quando alguns se fixaram por certo período
na cachoeira de Iauaretê. Adentram definitivamente o Papuri com a chegada dos
brancos, como apontamos acima. Várias narrativas apontam igualmente que, ao
começarem a se casar com mulheres dos grupos situados no Uaupés, os Tariano
vieram progressivamente a perder sua língua original, da família arawak, e
adotar a fala de seus novos cunhados de língua tukano. Atualmente, apenas um
dos clãs tariano, localizado no alto Uaupés e de baixa posição hierárquica,
mantém a língua original.
12 A terminologia de parentesco no Uaupés é de tipo dravidiano, ou de duas
seções, na qual está implícito o casamento ideal com a prima cruzada bilateral,
e, assim, a replicação de alianças ao longo do tempo. Mas na realidade há uma
terceira categoria na geração de ego, além de consangüíneos e afins, que são os
filhos de mãe - filhos ou filhas da irmã da mãe -, com quem o casamento não é
recomendado. Nesse caso, o casamento preferencial é, de fato, com a prima
cruzada patrilateral, pois a prima cruzada matrilateral é uma "filha de mãe".
Para essas especificidades do sistema uaupesiano com relação aos demais
sistemas de parentesco amazônicos, ver Cabalzar (2009)
13 Boa parte da população das comunidades do alto Uaupés e Papuri passou a
estabelecer residência permanente em Iauaretê após o fechamento dos internatos,
em função da necessidade de cuidar das crianças em idade escolar. Além disso,
ao longo dos anos, a oferta de educação foi se ampliando. Hoje, há um colégio
mantido pelo governo do Amazonas no local, com estudantes de ensino fundamental
e médio em número superior a mil. A população total do povoado hoje é de cerca
de 3 mil pessoas, pertencentes a oito diferentes etnias: Tariano, Tukano,
Desana, Pira-Tapuia, Arapasso, Wanano, Tuyuka e Maku-Hupda
14 É, de fato, a própria denominação do rio que o indica, pois "rio Uaupés" é
uma forma contemporânea abreviada daquele que foi por muito tempo conhecido com
o "rio dos Uaupés" ou "rio dos Boapés", dia posaya em tukano, isto é, o "rio
dos índios". Uaupés ou Boapés eram, portanto, os índios que, assim chamados,
eram pejorativamente qualificados como "comedores de tapuru", as larvas
encontradas no pau das árvores e palmeiras em decomposição. Gente que não tinha
sua própria comida, que vivia da comida de outros. Uma gente qualquer, sem
valor, sem nome, sem riquezas. Sem civilização, em suma, selvagens simplesmente
15 O nome Boapés, ou Boupés (Uaupés) foi no passado atribuído aos habitantes
desse rio, cujo nome nas fontes mais antigas é Caiari, e também a um poderoso
chefe cuja maloca situava-se, precisamente, na cachoeira de Iauaretê. Os feitos
de Boupé são narrados em relatos coletados já no século XIX por Brandão de
Amorim ([1928] 1987) e Stradelli ([1896] 1964). O livro que os Tariano estão
elaborando relata as mesmas histórias, entre elas a da guerra com os Wanano
acima mencionada. Mas agora corrigem o nome de seu ancestral: Koivathe. Da
mesma forma, fazem questão de apontar os nomes de seus três filhos, Kuenaka,
Kali e Kui, que, até hoje, são os principais nomes pessoais atribuídos a
crianças do sexo masculino nascidas no seio de seu clã
16 Pó de coloração verde escuro, muito fino, elaborado com as folhas de coca
torradas e moídas (Erythroxylum coca), de uso ritual. Possui efeito psicoativo,
e se considera que ao mascá-lo a pessoa ganha perspicácia e capacidade de
transmissão de conhecimento. Sobre esse conjunto de objetos e a recorrência de
sua aparição nos volumes da coleção Narradores Indígenas do Rio Negro, ver
Hugh-Jones (2009)
17 Todos os objetos que aparecem no mito são feitos dessa matéria, cuja
existência no mundo atual se concentra no patamar inferior do cosmos. Entre os
adornos cerimoniais, há um colar com um cilindro pingente de quartzo perfurado.
Brancura e dureza são as características salientes dessa matéria-prima, o que
sugere uma aproximação aos ossos (de peixe), pois no conjunto dos adornos esta
peça é a mais evidentemente imperecível.
18 Conta-se que essa aplicação de substâncias doces sobre os objetos presta-se
a moldar a própria índole da pessoa que está sendo nomeada, para que seja
serena e tranqüila. A matéria-prima dos objetos é também alvo de cuidados, e
estes são citados várias vezes em diferentes versões: de quartzo, de ouro, de
ferro. Invariavelmente é agregado o adjetivo "vida": cuia de quartzo de vida,
cuia de ferro de vida, e assim por diante, para todos os objetos. Ao final,
explicita-se que se trata dos objetos de vida e transformação do nome que se
quer atribuir à pessoa. Para um exemplo de transcrição desse tipo de
encantação, ver Andrello (2006a, pp. 264-266). Ver também S. Hugh-Jones (2002),
que trata do sistema de nominação do Uaupés de maneira mais ampla, apontando a
existência de três tipos de nomes: além desse considerado sagrado, há também os
apelidos e os nomes de brancos, de uso vocativo mais usual. O nome sagrado,
baseke-wame, corriqueiramente traduzido como "nomes de benzimento", não é
empregado correntemente. Há uma aura de segredo em torno deles. Podem ser
empregados, por exemplo, na feitiçaria.
19 Fica esta formulação como uma sugestão a ser desenvolvida em outra ocasião,
já que remete à complexa questão acerca da relação entre transmissão vertical e
captura horizontal como formas alternativas ou complementares de constituição
de pessoas e coletivos no Uaupés. O problema refere-se mais precisamente ao
papel da chamada predação ontológica (Viveiros de Castro, 1993) entre esses
grupos.
20 "DIY Anthropology (Do it yourself Anthropology)". Esse foi o título de uma
confêrencia proferida no congresso anual da Society of Anthropology of Lowland
South America (SALSA), Santa Fé, Estados Unidos, 2007.