Lusotopia como Ecumene
Num ensaio já clássico, Ulf Hannerz (1991) sugere que devemos ver o mundo
contemporâneo como uma ecumene; quer dizer, como um espaço indiviso de
intercomunicação humana, uma rede de redes. Uns anos mais tarde, Sidney Mintz
(1996) sustenta que, dentro deste espaço mais vasto, urge identificar áreas no
interior das quais, devido a razões históricas, a intercomunicação é mais
intensa. Uma ideia semelhante de áreas de intercomunicação que definem a
humanidade como historicamente construída pode ser encontrada na obra de ficção
de Tolkien, onde o conceito de ecumene desempenha um papel criativo central sob
o nome de middle-earth (terra do meio).
Neste ensaio, desenvolveremos o argumento de que a partilha de um passado comum
funciona como um catalisador para a disposição que Meyer Fortes considera a
própria raiz dos fenômenos de parentesco; e que descreve usando a palavra
latina amicitia.1 Assim, sustentamos que, dentro do nosso mundo globalizado
contemporâneo, o tempo/espaço originado pela expansão histórica dos portugueses
(isto é, a lusotopia) manifesta as características que estes autores
identificaram por meio dos conceitos de middle-earth e ecumene. Tal deve-se não
só à partilha de uma língua, mas também à partilha de uma série indeterminada
mas significativa de códigos culturais ou, ainda, à partilha de uma série de
instituições cívicas e políticas. Outrossim, a escolha do conceito de amicitia
para caracterizar o que subjaz à emergência de uma ecumene pretende sublinhar
que, para além destes aspectos comuns mais facilmente identificáveis, a ecumene
é constituída por aspectos menos visíveis tais como redes de parentesco,
passado familiar, amizades, relações de homonímia etc. ' todos esses aspectos
que marcam primordialmente a pessoa social.2
Neste ensaio propomos "ecumene" como um conceito alternativo às limitações que
têm sido identificadas com os termos de demarcação dos terrenos de estudo que
caracterizaram as ciências sociais do século XX, tais como "grupo", "sociedade"
ou "cultura" (ver James, Plaice e Toren, 2010).
Um catalisador para a amicitia
Quando conhecemos alguém, invariavelmente levamos a cabo um processo de
comparação da sua condição com a nossa. A primeira coisa que ocorre é que
tentamos identificar o que temos em comum com essa nova pessoa. Isso envolve um
exercício de memória: Será que falamos a mesma língua? Com a mesma pronúncia?
Será que temos experiências de vida semelhantes? Será que temos gostos
parecidos? Será que viemos da mesma cidade? Será que conhecemos pessoas em
comum?
Apesar de esse processo normalmente ocorrer de forma subconsciente, é comum
verificarmos que ele dá motivo a uma espécie de intensidade peculiar.
Desenvolvemos um esforço maior em situações em que lidamos com pessoas que não
conhecíamos anteriormente do que quando lidamos com pessoas conhecidas. A prova
é que as ocasiões em que conhecemos pessoas novas são geralmente mais
cansativas.
O contexto em que as encontramos, porém, importa muito. Quando eu era jovem,
descobri que, em Joanesburgo (África do Sul), uma pessoa oriunda de Moçambique,
onde viviam os meus pais, contava como uma presença amigável na atmosfera
etnicamente hostil do Transval ' onde ser português era uma condição
estigmatizada. Logo de seguida, contudo, percebi que, se encontrasse essa mesma
pessoa numa rua de Lourenço Marques,3 ela não me prestaria a mesma atenção
amistosa. Da mesma forma, uns anos mais tarde, na Inglaterra, só o fato de eu
falar português já constituía passaporte suficiente para ser recebido como
amigo em casa de muita gente.
O que está em causa é que nós aproximamos as pessoas na base de quem eles são
por relação a quem nós somos ' mas o contexto importa e muito. Assim, partilhar
um passado aproxima as pessoas e, dependendo do contexto, pode até chegar a
afastar a solidão no sentido que Epiteto dava à expressão quando insistia que,
se um viajante se encontrar por acaso no meio de um grupo de ladrões, não se
sentirá menos solitário por causa dessa companhia: "não é a vista de uma pessoa
por si mesma que retira a minha tristeza, mas a vista de alguém que seja fiel,
honrado e colaborativo" (2004 [1916], vol. II, p. 24).
Por essa razão insistimos no conceito de amicitia' a disposição que Meyer
Fortes considerava a base das relações de parentesco e que Julian Pitt-Rivers
estendeu para aplicar às relações de vizinhança e amizade (Fortes, 1970; Pitt-
Rivers, 1973). As interações que estão na base da identificação de uma ecumene
' uma área de intercomunicação humana mais intensa ' são também processos de
co-construção humana. Nesse aspecto, são da mesma natureza que os processos de
constituição emocional que caracterizam o parentesco, a amizade ou a
vizinhança.
No seu ensaio clássico sobre o tema, Pitt-Rivers definiu amicitianos seguintes
termos: "Todas estas relações 'amistosas' implicam uma obrigação moral de
sentir ' ou pelo menos de fingir que se sente ' sentimentos que obrigam o
indivíduo a ações de altruísmo, generosidade. A obrigação moral é a de desistir
do interesse próprio pelo de outrem, de sacrificar-se em prol de outrem" (1973,
p. 90). Nos dias que passam, porém, seria problemático adotar uma definição
nestes termos, já que ela transportaria em si as marcas das concepções que
caracterizavam o período em que foi escrita. Hoje, vemo-nos obrigados a
retrabalhar o conceito de amicitia de maneira a evitar a implicação de que os
interesses da pessoa sejam de qualquer forma monádicos e que, portanto, toda a
"generosidade" assente sobre qualquer forma de reciprocidade entre
"indivíduos". Em suma, trata-se de assumir uma concepção de pessoa como
"divíduo" e não como "indivíduo", nos termos que nos propõe Marilyn Strathern
(1988).4
A amicitia, pois, deve ser concebida como remetendo para essa base de
fraternidade ou corresponsabilidade que, por exemplo, é identificada por
Emanuel Levinas quando este nos avisa contra os perigos de polarizar a
alteridade (cf. Pina-Cabral, 2010). O filósofo francês chama a nossa atenção
para o fato de as categorias culturalmente elaboradas de pertença social que
normalmente ocupam os antropólogos (pessoa "x", grupo "x", sociedade "x",
cultura "x") coexistirem com uma outra forma de alteridade que é sempre
anterior e mais constituinte: a alteridade inscrita na interação face a face
que implica um sentimento profundo e incontornável de corresponsabilidade ética
e que está na base do reconhecimento da nossa comum humanidade. A assimetria
dessa alteridade anterior é o que lança a dinâmica relacional que constitui a
pessoa como algo-de-nunca-terminado, sempre em processo de elaboração. Esta
concepção é, aliás, altamente consentânea com as que têm emergido recentemente
nas ciências cognitivas e que apontam para a importância central do que eles
chamam "participação altercêntrica" ou self-with-other mirroring (por exemplo,
Stern, 2004).
Levinas afirma que "a alteridade não pode ser justificada unicamente como uma
distinção lógica entre partes pertencendo a um todo dividido, que são unidas no
todo por meio de relações de reciprocidade rigorosa" (1996, p. 165). Os
antropólogos do século XX enfatizaram frequentemente este segundo tipo de
alteridade, esquecendo a constante e inarredável presença da alteridade
anterior: essa fraternidade básica que assenta na confrontação face a face e
que é constitutiva da nossa própria existência como seres humanos.
Ora acontece de este aspecto ser enfatizado recentemente por neurofisiólogos e
cientistas cognitivos que estudam a origem da comunicação humana. Por exemplo,
numa formulação recente, o psicólogo cognitivo Michael Tomasello afirma:
A comunicação cooperativa humana assenta crucialmente sobre uma
infraestrutura psicológica de intencionalidade partilhada que
originou evolucionariamente no suporte a atividades colaborativas e
que é composta por (a) dotes sociocognitivos para criar intenções
conjuntas e atenção conjunta com outros (assim como outras formas de
terreno conceitual comum) e (b) motivações pró-sociais (e mesmo
normas) para ajudar outros e partilhar com eles (2008, pp. 11-12).
Esta disposição inicial é constitutiva dos seres humanos, não sendo nunca
totalmente apagada, apesar de ser constantemente sujeita às tensões da pertença
política, quer dizer, às formas culturalmente elaboradas de alteridade
instituída. Os seres humanos constroem-se por meio de uma pulsão essencial para
reconhecer a humanidade dos outros. Contudo, o processo social envolve o
direcionamento e o afunilamento dessas disposições colaborativas essenciais e
dos campos de atenção que elas definem. Isso, por sua vez, é a amicitia que
constitui as relações de parentesco, os sentimentos de amizade, a pertença
comunitária, o apego a categorias de pertença étnica ou nacional etc. Trata-se
de identificações/diferenciações que marcam primordialmente a pessoa em termos
ontogênicos e cujas implicações, apesar de suscetíveis de alteração posterior,
tendem a deixar marcas profundas nos posicionamentos que a pessoa vai
construindo diante do mundo.
Voltemos, então, à análise das reivindicações pressupostas nos exemplos de
encontro lusotópico a que me referi antes. Darei dois exemplos contrastantes
para situar o meu ponto de vista. O proeminente filósofo anglo-americano W. V.
Quine era fluente em português ' na verdade, um dos seus primeiros livros foi
publicado originalmente em português, no Brasil (1944). Será que o podemos
considerar um caso de contribuição da lusofonia para a filosofia contemporânea?
A maior parte das pessoas acharia essa sugestão infundada. Contudo, é bem
possível que a sua lusofonia lhe tenha aberto portas em lugares inesperados.
Por exemplo, o sociólogo Hermínio Martins relata que, tendo encontrado o velho
Quine num party em Oxford, passaram um longo tempo a falar amigavelmente em
português.
Consideremos agora um outro caso. O filósofo Bento Espinosa era filho de judeus
residentes em Amsterdã, falantes de português. Na sua correspondência com
Blyenbergh (2006 [1664]), Espinosa insurge-se contra o fato de não poder
debater filosofia na língua que sentia ser a sua ' e que era, está claro, uma
forma de português. Na verdade, foi até obrigado já como adulto a aprender
Latim para poder escrever sua obra filosófica. Ora, muitos acharão que Espinosa
faz parte sem qualquer dúvida do mundo da lusofonia de uma forma que Quine
jamais fará. Mas então por quê? Será que os holandeses não têm mais direito a
reclamar o seu nome? Será que os judeus não têm ainda mais direito, já que era
judeu ' apesar de ter sido formalmente ostracizado? Ou, considerando que
ganhava a sua vida como polidor de lentes, os oftalmologistas não terão mais
direito a reclamar a sua herança intelectual?
Como é que foi que eu passei tão facilmente do reconhecimento da partilha de
uma língua comum à reivindicação política dos direitos a uma herança? Não terá
sido essa passagem abusiva? Sem dúvida que foi; por isso, até, escolhi desta
forma os meus exemplos. Acontece que, infelizmente, essa questão não se resolve
assim com tanta facilidade. Não resta dúvida de que, num mundo globalizado, a
partilha de tudo o que vai com uma língua comum aproxima pessoas; dá-lhes o
sentimento de partilharem uma sorte comum; ativa interesses mútuos. Vivemos num
mundo no qual as cultural politics são um fator de crescente relevância.
António Damásio (2003), o famoso neurofisiólogo, escreveu um livro sobre
Espinosa em que fica evidente a relevância do fato de ambos partilharem uma
associação com portugalidade. Contudo, jamais se pensaria atribuir a Damásio o
gênero de reivindicação fútil à propriedade nacional da herança intelectual de
Espinosa a que me referi. Na verdade, a leitura do livro de Damásio sugere que
o que realmente o aproximou de seu objeto de estudo foi bem mais do que a
simples partilha de uma língua ou uma cultura (pois, no caso deles, nem
"nacionalidade" nem "religião" constituiriam fatores de aproximação);
outrossim, o que os unia era a combinação de uma proximidade linguística com
uma condição diaspórica.
As nossas perplexidades nesta matéria jamais poderão ser resolvidas por meio da
referência a uma norma linguística; o que conta ou não como língua portuguesa,
estritamente falando, não é o que está em causa. Em outras palavras, a
relevância de Espinosa para a nossa discussão não é afetada por qualquer debate
relativo à natureza precisa da variedade dialetal de português que ele possa
ter aprendido nos bairros judeus de Amsterdã do século XVII. A distorção acerca
da propriedade que leva ao debate espúrio sobre a quem "pertence" a herança de
Espinosa é produzida pela tendência a identificar língua com cultura, cultura
com nação e nação com pertença grupal. Parte do problema é criado pela
disposição que herdamos da primeira parte do século XX de discutir a interação
humana em termos de categorias identitárias grupais politicamente autodefinidas
' na tradição antropológica, chamamos a esta disposição pelo nome que Émile
Durkheim e Marcel Mauss lhe deram quando a advogaram, sociocentrismo (1963).
Este tipo de dúvida levanta-se de forma particularmente pungente quando o que
está em causa são situações diaspóricas ' por isso até escolhi iniciar o ensaio
com exemplos retirados da minha própria experiência na África. Tratava-se de
situações em que o fato de eu ter partilhado algo com estas pessoas dava vazão
à criação de uma confiança social mútua no meio de um contexto essencialmente
hostil, potenciando a intensidade da intersubjectividade que surgia nesses
encontros. Esse algo que partilhávamos era um catalisador de amicitia no
sentido fortesiano da expressão (cf. Pitt-Rivers, 1973). É essa a mesma
argamassa que levou Damásio a Espinosa no seio das suas mútuas diásporas.
Erro e irritação
De que se tratará, então? Exploremos um pouco a questão. Será que esse algo de
comum tem a ver com a partilha de uma língua, estritamente falando? Dir-se-ia
que não, já que existem muitas pessoas que não falam português e que, nas suas
relações conosco, demonstram, apesar de tudo, a presença do catalisador para a
amicitia. A minha experiência de trabalho de terreno entre os euro-asiáticos de
Macau e Hong Kong, assim como os contatos que tive com timorenses, deixaram-me
com a certeza de que a presença do catalisador era perceptível mesmo entre
pessoas que não falam mais do que umas poucas palavras de português (ver Pina-
Cabral, 2002a).
Será, então, melhor opção escolher "cultura"? No entanto, se o que Damásio e
Espinosa partilham for descrito como uma "cultura", então o conceito tem que
ser esticado bem além dos limites da sua utilidade analítica. Damásio
claramente partilha muito mais em termos da sua definição do mundo com os
holandeses atuais do que com Espinosa. Cultura, por conseguinte, também não
servirá aos nossos fins nesta matéria.
Creio, aliás, que não vale a pena continuar, porque já deve estar bastante
claro que "nação", "pertença grupal", "genética, "conhecimento de fatos
históricos" etc., também são categorias que não serviriam como termos para
definir o catalisador em causa ' apesar de todos eles, na verdade, pertencerem
ao encadeamento de identificações que estão geralmente associadas à
constituição de uma ecumene.
O estudo atento das experiências de erro e incompreensão mútua é uma das
melhores formas de interpretar a ação das pessoas e os pressupostos que elas
assumem sobre o mundo que as rodeia (ver Fabian, 2001). Na minha experiência
como agente/paciente deste catalisador lusotópico, tenho tido ocasião de
reconhecer o potencial para incompreensão que ele implica e que pode levar a
situações de considerável desconforto; isto é, erros de comunicação que nem
sempre são fáceis de resolver para quem participa nessas situações. Por
exemplo, recentemente em Moçambique tive ocasião de verificar que a conjugação
da minha pronúncia com a cor da minha pele funciona como um fator de irritação.
Observei que, em situações de primeiro contato, essa conjugação tem o potencial
de desafiar os meus interlocutores locais mesmo se, passado esse contato
inicial, o velho processo de constituição de amicitia lusotópica acaba por vir
ao de cima.
Já no Brasil, para dar um outro exemplo, eu sou constantemente confrontado com
"piada-de-português", cujo dispositivo é exemplificar a suposta estupidez dos
meus patrícios. A compulsão irresistível dos meus interlocutores brasileiros
para relatar essas "piadas" perante mim só pode ser interpretada como claro
sinal do desconforto que sentem na minha presença. E, contudo, aí também,
quando confrontados com terceiros não lusotópicos, os mesmos brasileiros acabam
sempre por dar sinais evidentes da presença do catalisador. Por fim, em
Portugal, quando essas questões se levantam, sou geralmente eu próprio que
sinto irritação quando confrontado com a propensão dos meus interlocutores
locais para exprimir pressupostos de propriedade relativos à "língua" ou à
"cultura" portuguesas que implicam a subalternização de todas as pessoas que,
partilhando conosco esse catalisador, não são descritas como "portugueses".
Com o passar dos anos, aprendi que esses "erros" estão relacionados com essas
propensões que identificamos no exemplo sobre a herança de Espinosa. Trata-se
de uma expectativa de representação privilegiada, de direitos de propriedade,
na qual os fenômenos culturais (costume, língua, comida etc.) e a dominação
política são conjugados. Não é sequer necessário fazer essa associação
explicitamente para que os nossos interlocutores sintam os seus efeitos; o
isomorfismo entre língua/cultura/nação está tão profundamente entranhado nos
nossos pressupostos sobre o mundo que é automaticamente assumido. O seu
corolário político é que os que governam o local onde a língua originou
historicamente têm mais direito a representar essa língua e, por implicação, os
grupos entre os quais essa língua é veicular: um corolário que, na atual
conjuntura pós-colonial, seria francamente inaceitável. Na sua teorização sobre
esses assuntos, Boaventura Sousa Santos (2001) identifica corretamente tais
problemas. Infelizmente, sua proposta de "calibanização da lusofonia" acaba por
de-historicisar o processo, levando à formulação de uma espécie de destino
lusofônico que é inevitavelmente utópico, mesmo que, ao recorrer à imagem do
monstruoso Caliban de Shakespeare, a proposta se apresente inicialmente como
distópica (cf. Pina-Cabral, 2004).
Parece, pois, surpreendente que não exista hoje uma forma de referir
conjuntamente o espaço/tempo demarcado pela partilha deste catalista para a
amicitia. Lusofonia, o termo mais aproximado, e que remete a todos os que
originam em países onde a língua portuguesa é oficial, deixa de fora muita
gente e muitos lugares entre os quais a presença do catalisador pode facilmente
ser identificada: tanto (i) pessoas que não falam português fluentemente (em
Goa, África, Macau ou Timor) como (ii) pessoas que, apesar de falarem português
em contextos domésticos, vivem e crescem em locais onde outras línguas são
dominantes (Canadá, Estados Unidos, Venezuela, África do Sul, Austrália,
França, Luxemburgo, Suíça ou Alemanha). Na verdade, em Macau, Moçambique e
Timor, eu próprio tive ocasião de verificar que a afinidade a um clube
português de futebol é provavelmente um marcador mais fiel da partilha de um
sentimento de destino comum do que a capacidade de usar a língua portuguesa
(cf. Pina-Cabral, 2002/2003).
A partilha de uma língua, a partilha de um corpo de referências culturais ou a
partilha de uma identidade nacional, portanto, não satisfazem os nossos
propósitos como fatores definicionais únicos. Por exemplo, como descrever o
sentimento de amicitia que um aluno meu de doutorado encontrou quando foi a
Manchester estudar hindus, cujos antepassados originavam em Diu, antiga colônia
portuguesa, mas que residiram por várias gerações em Moçambique e depois vieram
para a Europa, primeiro Portugal e depois a Inglaterra?5
Para além da constatação de que a argamassa que reúne todas essas experiências
não é descritível em termos linguísticos, existe ainda uma razão mais forte
pela qual parece preferível não adotar a partida "lusofonia" como adjetivo
abrangente: quando começamos por definir um espaço/tempo social por meio de uma
língua, torna-se quase impossível fugir à convergência sociocêntrica entre
língua, cultura e nação. A lusofonia é, sem dúvida, um fator importante (eu
diria mesmo dos mais importantes) na identificação do espaço/tempo de
emergência deste catalisador. Mas, se começarmos por identificar o catalisador
com a língua, acabamos necessariamente por cair no tipo de reivindicação de
propriedade contra a qual temos vindo a insurgir-nos.
Assim, no presente ensaio, proponho que esse espaço/tempo seja caracterizado
nos seus próprios termos e não como a soma dos territórios de uma língua
(oficial ainda por cima), advogando a adoção da palavra lusotopia, que os
historiadores políticos do Instituto Sciences Pode Bordeaux inventaram e usam
como título para seu interessante periódico. Em suma, fazer parte da lusotopia
como ecumene é ser agente/paciente dos modos de identificação/diferenciação que
são a chave para produzir e reagir ao catalisador da amicitia. Cada um de nós
que possui esses modos de identificação/diferenciação (isto é, que os
transporta no seu passado e que os assinala de forma essencializada por virtude
da sua presença) é co-constituinte de um espaço/tempo por virtude de fazer
parte dele. A lusotopia como ecumene, portanto, consolida-se através da sua
ocorrência. Essa ocorrência é instanciada no momento de intersubjectividade '
quer dizer, para simplificar, quando duas pessoas que possuem esses modos de
identificação sentem os efeitos do catalisador de amicitia e assumem
reflexivamente a sua presença.
É claro que o fato de alguém experimentar essa identificação não leva
necessariamente à sua conscientização. Por exemplo, tenho encontrado pessoas
que, por uma ou outra razão, se recusam a afirmar abertamente essa experiência
de ecumene. Pode ser que eles não a sintam ' em cujo caso não ocorreu
lusotopia. Mas, em várias situações, tive ocasião de formar uma opinião
fundamentada de que essas pessoas estavam "em negação" (in denial), para usar
uma expressão freudiana. Até já aconteceu que as pessoas em causa,
posteriormente, viessem a confirmar a presença do catalisador. As situações de
erro (no sentido de desencontro comunicacional) que exemplifiquei são
instâncias onde a nossa proximidade assumida funciona inicialmente, de uma
forma quase perversa, como um fator de irritação. A irritação do nosso
interlocutor, ou a necessidade que demonstra de realizar rituais de
diferenciação (do gênero da "piada-de-português") é já em si mesma um sinal da
presença do catalisador.
Ecumene
A lusotopia, por conseguinte, não pode ser vista como um espaço contíguo, nem
pode ser definida de forma regional. Por isso, em vez do suposto isomorfismo
entre língua, cultura e nação (unidades delimitadas autoreferenciadas), parece-
nos mais adequado recorrer ao conceito de ecumene (uma rede aberta de
interligações). Neste aspecto, fomos procurar inspiração na obra do antropólogo
difusionista norte-americano Alfred Kroeber. Sua proposta é que os fenômenos de
difusão cultural e a forma como eles dão azo a mundos humanos de
intercomunicação deverá ser vista à luz do conceito grego de oikoumenê (ecumene
em inglês contemporâneo ' 1963 [1923, 1948], p. 231). Ora, como sugere mais
tarde Sidney Mintz, é útil prestar atenção à história do termo grego.
A palavra original deriva do particípio presente feminino de um verbo que
significa algo como "habitar" e é usada literalmente para referir a parte do
mundo habitada por humanos. O radical oikos refere-se à casa (e em especial ao
cômodo mais espaçoso das casas da Grécia antiga, onde viviam as mulheres),
sugerindo o ato do cuidar que está na base das experiências primordiais de
amicitia de cada um de nós. O uso da palavra ecumene proposto por Kroeber para
descrever a parte mais civilizada do mundo conhecido capta ainda o sentido
cristão mais tarde dado à expressão e que remete para a totalidade da
comunidade dos cristãos na sua abrangência mais larga (e que deu azo à noção de
"ecumenismo").
De todos os usos do conceito, o que me parece mais profícuo é o que lhe dá
Tolkien quando o define como the abiding place of men' expressão de tradução
difícil que remete para a durabilidade da presença humana, para um local
apropriado ou próprio para essa presença (no sentido dado à expressão abode,
que significa local de estadia permanente). Tolkien define, então, oikoumenê
como "o mundo físico no qual o Homem desenvolve a sua vida e seu destino, por
oposição aos mundos invisíveis, tal como o Céu ou o Inferno".6 Na sua obra de
ficção, que entretanto correu o mundo (The Lord of the rings), ele adota um
sinônimo menos técnico para a palavra: middle-earth, tradução da expressão
middangeard do inglês antigo e sobre a qual explica que "não foi minha
invenção. É uma modernização ou adaptação [...] da velha palavra para descrever
a parte habitada do mundo dos Homens, o oikoumenê" (Tolkien, 1995 [1981],
Letter 211).
Essas formulações apresentam-se como muito úteis porque apontam para a
existência de níveis ou registros distintos de convergência que existiriam
dentro de um universo sociocultural concebido como sendo sempre mais vasto
porque sempre aberto. Poderíamos, assim, falar tanto de áreas de integração
global como de áreas de especificidade local. A ecumene (ou middle-earth) é a
zona onde ocorrem o conflito, a construção e a destruição que levam à co-
constituição das pessoas humanas. É uma forma de definir zonas de ação assentes
sobre uma historicidade humana. Nesse sentido, a ecumene é uma área de
liberdade, permitindo tanto certa independência por relação a constrangimentos
locais, como certa independência em face dos imperativos das hegemonias
globais.
Por isso, creio ser necessário evitar qualquer aproximação à oposição que Mary
Douglas (2001) foi buscar ao direito canônico entre modalidade (a organização
local da Igreja em termos de paróquias e dioceses) e sodalidade (as
organizações religiosas não locais dedicadas a vocações determinadas), quer
dizer entre alianças localizadas e alianças transversais não locais. Enquanto
uma ecumene pode funcionar como uma sodalidade, na medida em que aproxima
pessoas de nações e continentes distintos, no nível local, é frequente a
própria historicidade da ecumene objetivada estar na base do sentimento
localizado de comunidade.
O caso de Timor Leste é talvez o melhor exemplo nesse sentido. Ali, um fermento
lusotópico distante e politicamente ultrapassado funcionou como base para um
projeto de comunidade nacional direcionado para o futuro (cf. Feijó, 2008).
Muitos outros exemplos poderiam ser encontrados por toda a Ásia, desde as
comunidades católicas de Larantuka nas Ilhas Solor, passando pela comunidade
católica do subcontinente indiano, pelos burghers de Sri Lanka, pelos kristang
de Malaca, até a classe média euro-asiática de Macau e Hong Kong (cf. Pina-
Cabral, 2002a).
A propensão generalizada nos estudos "pós-coloniais" recentes para estudar a
história colonial a partir de uma perspectiva eurocêntrica de poder e domínio
tende a esconder o fato de que os encontros coloniais, por mais violentos que
tenham sido, se inscreveram nas visões do mundo locais, abrindo assim caminho,
com o passar do tempo, a novas negociações de respeito próprio e de
autodeterminação. Elizabeth Traube (1986, p. 55), no seu soberbo estudo
etnográfico dos Mambai de Timor Leste, mostra como o domínio colonial se
integrou na estrutura mítica dos povos de Timor, levando a um processo complexo
de identificação/diferenciação:
Estritamente falando, os Mambai não têm qualquer tradição de
invasores estrangeiros vindos de fora, nem têm qualquer concepção
real de um mundo exterior mais vasto que possa abranger a sociedade
deles. Segundo os mitos de origem Mambai, os Malaia [categoria que
inclui todos os não timorenses] são autóctones, a sua relação com os
timorenses é baseada no parentesco, e a sua chegada a Timor significa
o retorno dos legítimos defensores da ordem (Idem, p. 53).
A então iminente descolonização portuguesa foi, pois, explicada à etnógrafa nos
seguintes termos: "essa questão dos nossos irmãos mais jovens se irem embora"
(Idem, 54).
Há que sublinhar que uma concepção desta natureza é tanto local como única e
não se pode assumir que esteja presente em qualquer outro espaço/tempo
lusotópico. Mesmo assim, essas configurações locais de identificação/
diferenciação, quando vistas à distância, acabam por constituir a fundação
(local, diversificada, irrepetível) para uma ecumene que, em contraste, é uma
função da globalização. De forma paradoxal, tal se passa mesmo quando, como
ocorre entre os Mambai, não existem categorias locais para formular o mundo
abrangente mais vasto.
Ora, esta questão é mesmo mais complexa, já que, como notou o historiador David
Jackson, podemos identificar um efeito de loop semelhante ao que exprimiam os
Mambai na procura obsessiva de raízes cristãs em lugares exóticos que
caracterizou a expansão portuguesa do século XVI (ver o Prestes João, o túmulo
de São Tomás, os Nestorianos de Mendes Pinto etc.).
Em termos abstratos, quando nos identificamos com as origens perdidas
estamos a assimilar o ser à sua própria ausência. Poderíamos dizer
que os Portugueses navegavam com a intenção de chegar aos seus
próprios corpos "perdidos" e, dessa forma, completarem-se (1997, p.
17).
Neste aspecto a forma como Sidney Mintz tratou da questão de ecumene por
relação ao Caribe é muito inspiradora. O que cria esta ecumene, diz o autor,
não pode ser reduzido a uma língua, a uma série de costumes ou a uma nação
(incluindo, está claro, formulações de etnicidade), pois todos estes variam na
região. E, no entanto, apesar dessa variação, o Caribe tem uma "coerência
[distinta] não tanto cultural como sociológica" (1996, p. 289) Por isso,
afirma:
A base para a construção da oikoumenêcaribenha, portanto, encontra-se
nos esquemas sociais criados para povos migrantes diversos que foram
sujeitos a processos multisseculares de mudança cultural por
dominadores europeus e nos efeitos de longo termo que esses processos
tiveram na vida caribenha. Nada disto tem a ver de per si com língua
ou comida ou vestuário ou quaisquer índices culturais enquanto tal,
mas com uma visão transformada do próprio mundo, enxertada em
inúmeros estrangeiros, que vieram ou foram trazidos para a região no
decorrer dos séculos, substituindo os que tinham morrido ou tinham
sido mortos pela doença, a guerra e o empreendimento imperial europeu
(Idem, p. 297).
Evidentemente não está em causa afirmar que a lusotopia tenha tido uma
história, um processo de constituição ou uma configuração regional semelhantes
às do Caribe que Sidney Mintz descreve. Contudo, as duas partilham a condição
comum de funcionarem como middle-earth. Lusotopia é algo que a maioria de nós,
que fazemos parte dela, pode facilmente identificar quando ocorre e que,
estando espalhada pelo mundo, não é uma região, mas um espaço/tempo.
Em suma, como ecumene, a lusotopia é uma rede de contatos que, na sua operação,
deixa marcas distintivas sobre o mundo (cidades, estátuas, modos de cozinha,
estilos musicais, maneiras e etiquetas, narrativas e textos, jogos de linguagem
etc.). Assim, o mundo reimpõe a ecumene sobre os que a produzem. Quer dizer, a
ecumene é ativada pelos produtos reificados das suas ocorrências anteriores. E
isto ocorre mesmo quando estamos sozinhos. Quando tal se passa, as disposições
para identificação na pessoa singular que está em causa são aprofundadas e
reforçadas, predispondo essa pessoa para instâncias ulteriores de
reconhecimento.
Como exemplo darei um relato de algo que se passou comigo mesmo quando visitei
Sarajevo em 1988, uns meses antes da guerra civil ter explodido na Bósnia.
Visitando um museu, comecei a soletrar um texto litúrgico escrito em estilo
alfabético serbo-croata num suntuoso caixilho de prata trabalhada. Conforme fui
avançando para além das palavras iniciais hebraicas, descobri que era uma
versão redigida em fonética serbo-croata de rezas judias em português; parecia
serbo-croata, continha palavras hebraicas, mas era realmente português
corrente! A experiência tirou-me o fôlego e comoveu-me pela forma inapelável
como se endereçava a mim. Nunca esquecerei esse momento porque ele me dispôs a
uma identificação lusotópica com a história sefardita. Tornei-me, assim, sem
qualquer intervenção própria, um agente de lusotopificação da história
sefardita, da mesma forma que descreve Damásio sobre a sua aproximação aos
espaços espinosanos em Rijnsburg, perto de Haia.
Permita-me o leitor um segundo exemplo de cariz pessoal. Escolho estes
precisamente por se terem passado comigo e poder, portanto, relatá-los na
primeira pessoa. Tenho, dessa forma, acesso às dinâmicas emotivas alavancadas
pelos eventos que, para outras pessoas, ficariam obscuras ou duvidosas. O
processo é semelhante ao que Freud (1960) usa na sua análise das piadas
austríacas sobre judeus.
Há muitos anos, o historiador econômico Rui Graça Feijó e eu fomos convidados a
participar numa conferência na Universidade de Califórnia, Berkeley. No fim de
semana que se seguiu à conferência decidimos alugar um carro e visitar o
Yosemite Park. Era primavera e os cumes das montanhas estavam cobertos com
neve. Seguimos a estrada até a linha da neve. Ali, estacionamos o carro num
miradouro por sobre o espetáculo tremendamente belo do vale central do parque.
Rui comentou que, nesse momento, estava mais longe de casa do que jamais tinha
estado na vida. Após uns momentos de silêncio, liguei o rádio. O que ouvimos
deixou-nos perplexos; tratava-se de um anúncio em português de uma curandeira '
certa Irmã Ana ' que afirmava especializar-se em poções de amor, em curas
contra a inveja e em remediar todo o gênero de maleitas do corpo e da alma.
Qualquer pessoa que conheça bem a Califórnia saberá da existência de uma vasta
comunidade de migrantes portugueses no Vale de San José. Para nós, porém, o
evento funcionou como uma espécie de epifania lusotópica, tornando-nos
agudamente conscientes da inescapabilidade da nossa condição como pacientes de
lusotopia (que logo, por virtude do relato do que se tinha passado, nos
tornávamos agentes). A Irmã Ana promovia o amor tanto quanto protegia contra a
inveja e, assim, lançava toda uma série de associações lusotópicas. Dessa forma
ela propalava a ecumene: uma área tanto de poções amorosas (e, portanto, de
casamento endogâmico) como de inveja (e, portanto, de conflito fraterno). O
conceito de middle-earth de Tolkien é útil como metáfora neste caso, já que
sublinha a questão de co-habitação humana ' no sentido de que se trata de uma
área de ação e conflito, de amizade e ódio, um campo de atenção comum.
A estranha inescapabilidade da lusotopia é largamente produzida pela forma como
a nossa condição de sujeito é dependente da nossa inserção em cadeias de
eventos históricos, tornando-nos disponíveis para reconhecer as pessoas que
passaram por esses mesmos eventos. Nesse sentido, lusotopia é "identidade
continuada" ' isto é, uma susceptibilidade para reconhecer certa proximidade
movida por um passado comum (cf. Pina Cabral, 2003).
A estranheza é criada pela forma como esse passado que une transporta consigo
uma série de véus. Contra todas as expectativas, os descendentes dos inimigos
do passado encontram conforto na presença mútua; os adversários nacionais
descobrem, quando confrontados com terceiros, que partilham terrenos comuns
insuspeitados; pessoas cujas trajetórias são etnicamente divergentes encontram
disposição para um silencioso reconhecimento mútuo. Como dizia Oswald de
Andrade sobre o Brasil, "só a antropofagia nos une"; os conflitos do passado
unem as pessoas presentes (cf. Pina-Cabral, 1999).
Especialmente surpreendente é o sentimento de pertença convocado pela presença
continuada de eventos do passado que, oficialmente, são pouco reputáveis:
império, escravatura, guerra, migração, fome, fanatismo religioso, ditadura
etc.7 Desde o século XVIII que os sujeitos lusotópicos vivem numa condição
estranhamente dupla: apesar de fazerem parte de uma nação imperial, a sua
posição no mundo global é a de subalternos, em termos políticos, econômicos e
culturais. O Brasil herdou de Portugal este mesmo sentimento de ser, ao mesmo
tempo, moderno, "ocidental" e imperial, de um lado, e atrasado, empobrecido e
dominado, de outro (Schwartz, 2000 [1977]). Perante a aliança hegemônica anglo-
americana que tem governado o mundo desde essa época, os sujeitos de Portugal,
Brasil e das ex-colônias africanas encontram-se diante de uma identidade
dilemática que leva caracteristicamente a uma reação de orgulho ferido. A
lusotopia, portanto, quando confrontada com o poderio anglo-americano
(cultural, econômico, político e militar) é frequentemente estigmatizada. Isto
é, nos últimos cinquenta anos, os filhos de portugueses e de descendentes dos
anteriores sujeitos do império colonial português têm-se confrontado com uma
atmosfera global em que a identificação lusotópica a que não podem escapar é
vista como uma fonte de desprestígio. Tal produz sensações de vergonha e
tensão, de rejeição e repressão, de fascínio tanto quanto de esquecimento
forçado. Muitos são os que aprenderam a esconder esses fantasmas por meio de
narrativas des-lusotopificantes do seu passado ' como quando optam por usar
sobrenomes não portugueses transmitidos por via feminina em vez do sobrenome
paterno ou por transformar seus sobrenomes para versões anglicizadas, como
ocorre com frequência entre emigrantes nos Estados Unidos.
Ora, como nos ensina Erving Goffman (1974), podemos detectar nessas situações a
lógica operativa do estigma ' esse processo pelo qual o estigmatizado é
frequentemente o seu pior inimigo; a fraternidade gera tanto o amor como o
ódio. Ainda jovem, no Transval, eu assisti em 1976 à chegada dos refugiados
vindos das antigas colônias africanas que tinham obtido a independência. Eram
hordas de pessoas desorientadas, a quem um regime colonial retrógrado e
irresponsável não tinha preparado para o inevitável desenlace político e a
subsequente expulsão das suas casas e vidas. Paradoxalmente, a excepcional
prosperidade do período tardo-colonial havia transformado estas pessoas que, na
sua maioria, tinham saído de Portugal em situações de grande pobreza, numa
classe média com expectativas de promoção social.
Da noite para o dia, porém, tinham sido exilados e espoliados. Ao chegarem à
África do Sul, de passagem para outras terras, os "retornados" não foram
apoiados pelos portugueses que lá eram residentes. Pelo contrário, foram
maltratados, pilhados e humilhados ' em cenas que nunca mais esquecerei por
serem escritas com a mão de Caim. Quem sabe, trinta anos passados, o sentimento
de perplexidade que então me assaltou poderá até encontrar-se na motivação que
me leva a escrever estas linhas.
Da mesma forma, uma noite, no sul da França, os meus pais e eu fomos servidos
por uma jovem que, após a refeição ter terminado e já não estarem outros
clientes no restaurante, declarou que era portuguesa. A língua que falávamos
entre nós despertava nela sentimentos profundos, apesar de ter muita
dificuldade em exprimir-se adequadamente. Pior ainda, tal como os filhos dos
migrantes japoneses no Brasil, que se vêm estigmatizados quando voltam ao Japão
(Tsuda, 2003), o que ela falava era um português mutilado, que tinha aprendido
dos seus pais analfabetos e que ela própria sentia que a diminuía. No momento
em que a reconhecemos como familiar e lhe falamos em português, ela viu
ameaçado o processo em que estava empenhada de "passagem" para a classe média
francesa. A ameaça não originou em nós, mas, por assim dizer, dentro dela
própria. Consoante tentava explicar-nos o que sentia no seu português quebrado,
começou a chorar incontrolavelmente.
Lusotopia e diáspora
Enquanto à distância é relativamente fácil identificar as correntes históricas
que estão na base da lusotopia, os próprios transportadores desses laços são
frequentemente ignorantes da sua natureza ou presença. Imersos como estão em
cotidianos que se apresentam localmente como integrados, não têm meio de
identificar quais os aspectos que demonstram uma ascendência lusotópica e quais
não. Que é que, portanto, transforma a lusotopia num middle-earth, um mundo de
co-habitação humana?
A questão é legítima na medida em que cada um desses transportadores de
lusotopia é também transportador de muitos outros tipos de laços; alguns de
cariz local, outros de natureza global. Por exemplo, os membros da minha
geração, independentemente de terem nascido na China, na África, no Brasil, na
América ou em Portugal, independentemente de serem ou não transportadores de
lusotopia, sabem cantar as estrofes iniciais da canção "Yesterday" dos
Beattles. Que é que há de especial na lusotopia, então, que a diferencia da
beattlemania? Parece-me que a resposta não é uma de essência, mas sim de
relevância e abrangência. Por oposição à beattlemania, a lusotopia é muito mais
constitutiva dos universos cotidianos das pessoas em causa e é mais abrangente
por estar inscrita no mundo ambiente.
Quando dois transportadores de uma ecumene se encontram, eles identificam ecos
um no outro que os tornam mutuamente reconhecíveis e tornam o mundo habitado
por cada um deles mais facilmente legível ao outro. Dessa forma, mobiliza-se a
interação. Se o resultado dessa maior proximidade é "positivo", no sentido de
favorecer interesses comuns, ou "negativo", no sentido de potenciar conflitos,
isso é uma outra questão. Tal não significa, portanto, que as duas pessoas se
tornem imediatamente "amigas". A noção de amicitia com a qual trabalhamos não
implica de forma alguma um acordo constante e absoluto. As lutas fraternas,
como sabemos desde os tempos de Caim, são as mais homicidas (cf. Pina Cabral,
2005a; Finkielkraut, 1997). Essa amicitia, portanto, não pode ser entendida
como uma emoção específica presente em cada transportador individual. Ela está
lá por virtude dos processos de constituição social dessas pessoas e do mundo
que as rodeia; ela é o resultado agregado do fato de que todos os seres humanos
foram socialmente construídos ' todos os humanos foram criados por humanos num
processo de evolução gradual que se perde na multiplicidade dos passos
infinitesimais envolvidos (uma ontogênese autopoiética, como diria Christina
Toren ' 1999). Por isso, quando falamos de amicitia, não nos referimos a uma
qualquer emoção situada e determinável, mas sim à arquitetura do mundo de uma
pessoa que mobiliza disposições emotivas.
O processo de nos tornarmos humanos envolve uma disposição para partilhar
sentidos com os outros em face de um mundo comum; essa disposição implica uma
espécie de docilidade inicial, o que não tem nada a ver com a ideia vaga de que
somos todos essencialmente "bons". Pelo contrário, tudo o que implica é que o
processo de se tornar humano requer o envolvimento da pessoa numa negociação de
significados. A preteridade, portanto, está inscrita na nossa condição humana
de tal forma que somos todos históricos. Assim, quando um bebê no Brasil
balbucia as suas primeiras palavras, estas produzem ecos que reverberam por
todo o mundo e que, por assim dizer, constituem harmonias sempre que ocorre
lusotopia. Essas harmonias, como vimos, podem não ser sequer muito conscientes
aos que as sentem e, por seu turno, as reproduzem. A questão da consciência não
é sequer relevante, já que esse processo, ao mesmo tempo em que é humano,
passa-se no mundo de fora (ou melhor, ao lado) dos humanos. É nesse sentido que
lusotopia é ecumene ' um mundo de co-habitação humana com características
próprias que a distinguem de outras ecumenes. Nem sempre as mesmas
características em toda a parte; nem sempre com a mesma intensidade; nem sempre
com densidade igual. Mas por isso mesmo nunca afirmamos que a lusotopia é um
território claramente delineável. Outrossim, trata-se de um espaço/tempo
vagamente identificável, cuja existência é dependente da sua ocorrência. Não
necessitamos de nos preocupar com a impossibilidade de desenhar claramente
ecumenes em mapas geográficos. Está claro que também não há qualquer
impedimento em tentar desenhar mapas das zonas mundiais onde a sua ocorrência
seja mais intensa. Em suma, trata-se de um fenômeno estatístico e não mecânico.
Como ecumene, portanto, a lusotopia é a rede constituída pelas identidades
continuadas que encontram a sua origem na expansão portuguesa do século XVI,
mas que logo imediatamente adquiriram uma complexidade e dinâmica próprias. É
possível traçar um caminho marítimo para o processo de expansão. Por exemplo, é
possível traçar uma cadeia de modos musicais que acompanha a expansão
portuguesa pelo Atlântico abaixo e o Índico a dentro e que, para lá deste,
passa de Malaca à Indonésia e ao sul da China e Japão (cf. Jackson, 1990). Os
processos mútuos e laminados que criaram essas afinidades musicais e que as
prolongaram durante os seguintes cinco séculos não são, de forma alguma, de
direção única. Os músicos que transportam essa linha de descendência estão
geralmente inconscientes da rede de interligações que é ativada pelas práticas
musicais que eles interiorizaram. Quando a juventude modernizante singalesa dos
anos de 1970 dançava e cantava uma espécie de rock que eles consideravam ser a
coisa mais chique à época (baila), estavam longe de pensar que construíam sobre
recursos musicais que lhes eram fornecidos por essa trama lusotópica (ver
Shihan de Silva Jayasuriya, 2008).
Quer dizer, a música que tocavam e dançavam está inscrita no mundo com
implicações que os ultrapassavam em muito. A questão é que, uma vez inscrita no
mundo, essa música produz ecos e impulsiona reconhecimentos (nostalgias,
memórias, traumas...) que os músicos estavam longe de imaginar. Dessa maneira,
um gesto musical produzido com uma intenção pessoal localizada, acaba por
causar processos de reverberação noutros locais. Em alguns contextos dá azo
simplesmente à desarmonia ' muitas são as pessoas que torceram o nariz ao rock
singalês, à tuna macaense ou às danças folclóricas dos Kristang de Malaca. Para
essas pessoas não aconteceu lusotopia. Mas, sem que tal ocorra a quem toca essa
música, existem muitas pessoas no mundo para quem esses mesmos ecos produzem
harmonias lusotópicas.
A inscrição da ecumene no mundo opera independentemente dos autores. Pela ação
humana, a lusotopia é objetivada; mas logo que tal ocorre, ela torna-se um
molde para a ação humana. Ela não constringe, encoraja. Por isso mesmo, parece-
nos incorreto falar, neste âmbito, de conversão, de aculturação ou de difusão,
mas antes de ecos que ensejam harmonias.
Tal como com os estilos musicais, processos muito semelhantes se aplicam com os
descendentes atuais do linguajar naval que se espalhou pelos cais dos mares do
sul no século XVI e que deu azo aos crioulos modernos ou ainda com os métodos
básicos de culinária que, adaptando-se a diferentes condimentos e produtos
locais, podem ser observados em pratos que vão de Portugal ao Brasil, de lá a
África e de lá a toda a Ásia, até chegarem à culinária macaense ou à tempura e
ao castilla japoneses.
Mais surpreendente, e por essa mesma razão mais misteriosa, é a forma como
certas tradições de teatro místico inspiradas na tradição de Carlos Magno e os
doze Pares de França sobreviveram até aos nossos dias imersas em formas locais
de viver' desde o txiloli de São Tomé estudado por Paulo Valverde (2000) até as
cavaladas sertanejas que Maria Isaura Pereira de Queiroz identificou (1992). Os
seus acordes lusotópicos estão presentes em obras contemporâneas de ficção e
filme, como A pedra do reino, de Ariano Suassuna (2007 [1971]).
Exemplos deste gênero são demasiados para valer a pena continuar a enumerá-los.
Os que se prendem com música e dança ou com língua e literatura são talvez os
mais visíveis, mas convém não deixar a impressão que tudo isto tem a ver
especialmente com "cultura", "língua" ou "artes". Podemos identificar inúmeros
fenômenos ecumênicos lusotópicos em quase todas as áreas de socialidade: comida
e bebida; práticas normativas e legais; disposições comerciais e empresariais
etc. Onde esses nexos são mais profundos, porém, é também onde são menos
facilmente formuláveis. Peter Fry (2005), por exemplo, demonstrou recentemente
como as dinâmicas de diferenciação racial são estruturadas no longo termo por
tendências lusotópicas. Eu próprio chamei atenção para que a tradição
antroponímica lusotópica transporta disposições importantes no que concerne à
construção social da pessoa humana (Pina-Cabral, 2008).
A lusotopia em Portugal
Parece legítimo perguntarmo-nos, pois, se a lusotopia não será essencialmente
algo a ver com o exílio e a diáspora; isto é, se não será algo que só ocorre
fora de Portugal. A resposta, porém, deverá ser enfaticamente negativa por duas
razões só aparentemente opostas. A primeira é que o exílio e a diáspora estão
também em Portugal. Hoje, as grandes cidades portuguesas são territórios de
colonização lusotópica reflexa. A segunda é que os portugueses em Portugal
foram sempre transportadores de duas correntes distintas de influência
sociocultural: uma que os liga à Península Ibérica, ao sul da Europa e aos
herdeiros católicos do império romano; outra que os liga ao mundo atlântico
para o qual eles foram empurrados nos primórdios da Era Moderna por necessidade
econômica e por pressão política castelhana (cf. Pina Cabral, 2002/2003).
Relembremo-nos das observações sobre as reivindicações de propriedade inscritas
na identificação entre língua, cultura e nação. Na verdade, o problema pode até
ser identificado no uso da categoria ecumene pelos antropólogos difusionistas
que inicialmente a propuseram. Alfred Kroeber, por exemplo, escreve que ecumene
"tem uma utilidade moderna como uma designação conveniente para a área total
abrangida pelas influências determináveis de difusão que partem dos principais
centros altos (higher centers) da Eurásia, onde, até então, a maioria da nova
cultura tinha sido produzida" (1963 [1923], p. 2318). Esta direcionalidade da
ecumene transporta pressupostos imperiais que merecem a nossa atenção.
Para pôr a questão na sua forma mais crua: foram ou não os "descobrimentos"
portugueses que abriram a lusotopia? Poderemos, pois, falar de lusotopia sem
presumir o movimento unidirecional que esse processo histórico implica? O que
urge compreender aqui é que o tempo linear nunca é o único modo temporal;
outros modos de temporalidade estão sempre em interação com ele. Pelo que
parece importante compreender que a lusotopia não foi instituída no Brasil no
momento em que Pedro Álvares Cabral lá chegou, mas sim no momento em que a
famosa carta escrita pelo seu piloto, Pedro Vaz de Caminha, chegou às mãos de
D. Manuel em Lisboa. O império é criado numa expansão para fora, mas as
implicações históricas dos processos que o ato imperial monta estão sempre
dependentes de uma dialética do retorno, como se torna claro na obra de todos
os escritores-viajantes portugueses do século XVI.
O que causa a miragem de unidirecionalidade é a impressão de que Portugal
continua ainda a ser o mesmo. Este engano é promovido por hegemonias culturais
que vão bem para além da influência da própria elite portuguesa. O papel de
Portugal como ponto de origem não implica de forma alguma que fique de fora da
sua criação; como se de um cerne imutável e elementar se tratasse. Nada disso
ocorre na história e, de qualquer forma, não foi o que se passou. Por exemplo,
os registos da Inquisição que Laura de Mello e Souza (2005 [1986]) estudou são
evidência patente de que, desde o século XVI, a vida moral e religiosa dos
portugueses de Portugal foi marcada pela torna-viagem; pelas ondas reflexas do
império (ver Sansi-Roca 2007). Uma das formas pelas quais esta miragem da
condição pristina imutável é produzida é pela associação de Portugal e dos
portugueses ao eixo europeu da constituição portuguesa ' aquela entidade vaga a
que, hoje, por influência norte-americana, chamamos "Ocidente".
Assim, a nossa atenção é presa pelo fato de que pessoas como Matteo Ricci e
Tomás Ribeiro foram da Europa para a China, onde divulgaram noções neo-
aristotélicas de filosofia e formas ocidentais de teoria musical ou de
diplomacia aprendidas em Coimbra. Mas, ao mesmo tempo, silenciamos o que voltou
com os jesuítas na sua bagagem de torna-viagem. Leibnitz (1994), por exemplo,
inventou a matemática binária depois de ter lido uma descrição da noção chinesa
de Dao redigida por um jesuíta português. E, no entanto, a matemática binária
que permitiu a revolução informática é considerada uma coisa "ocidental"! Aí
vemos a miragem hegemônica a funcionar no sentido de apagar os efeitos da
torna-viagem. Não está em causa apagar a direção histórica do processo de
constituição da ecumene, mas é necessário inscrever no conceito a
contradirecionalidade implícita.
Quando nos esforçamos a fazer isso, começamos a ver coisas que até então nos
eram estranhas. Por exemplo, nos últimos dez anos a melhor ficção escrita em
português não tem vindo de Portugal ou do Brasil, mas sim da África.
Poderíamos, então, concluir erroneamente que os dois tronos da lusofonia tinham
envelhecido e perdido o seu brilho, esgotado o seu vigor, dando lugar às
comunidades emergentes. Isso, porém, seria não compreender que, no nosso mundo
pós-colonial atual, a literatura lusotópica é escrita numa espécie de espaço
deslocalizado que reflete a globalização das vidas dos habitantes das nossas
metrópoles modernas. Não se trata, pois, de inversão de direção, mas de uma
crescente transnacionalidade.
Conclusão
Em conclusão, há que relembrar que o racismo, o etnocentrismo e o preconceito
classista existem em Portugal, tanto quanto no Brasil, na África ou nas ex-
colônias asiáticas. A lusotopia é um território tanto de encontro como de
conflito e medo. A proclividade característica do século XX para interpretar à
luz de pressupostos utópicos as observações referentes à proximidade
sociocultural (às "comunidades") poderá levar alguns leitores a lerem
erroneamente o argumento aqui desenvolvido. É, portanto, importante explicitar
que, tal como a concebemos neste ensaio, a lusotopia não é uma utopia.
O pensamento utópico, na sua tentativa de ultrapassar a história, produz uma
espécie de cegueira sobre a insondável riqueza e complexidade do devir
histórico. Quando os esquemas de ação concebidos em moldes utópicos se
confrontam com a história, os resultados são de perplexidade para os que
pensavam que iriam poder libertar-se do passado. A forma como a preteridade
habita os mundos humanos surge, então, como inesperada e até perversa. Nesse
sentido, por muito que nos deixemos entusiasmar pelos grandes visionários da
lusotopia ' António Vieira, Fernando Pessoa, Agostinho da Silva ' temos a
responsabilidade de nos afastar do utopismo que os movia.
Há, assim, uma implicação final a retirar da forma como Tolkien usa a noção de
middle-earth na sua ficção cosmogônica. O escritor afirma que, para ele, a
oikoumenê é concebida como situada no meio dos mares que a cercam, num ponto
intermédio entre o frio do Norte e o fogo do Sul. Como ecumene, parece-me, a
lusotopia partilha de uma condição semelhante. No nosso mundo globalizado
atual, a condição lusotópica nem é "ocidental" nem deixa de o ser ' os seus
sujeitos situam-se numa condição intermédia, mediadora, perante a história da
ocidentalidade. Alguns autores, como Eduardo Viveiros de Castro (2009),
inscrevem-se nela "por cortesia"; outros, como eu próprio, distanciam-se "por
precaução" (Pina-Cabral, 2005). Mas, nos anos que se aproximam, conforme a
ordem global unifocal em que vivemos desde a queda do Muro de Berlim, se houver
uma polarização cultural e política, essa condição de middle-earth tornar-se-á
crescentemente presente, permitindo novas negociações da situação de
subalternidade que tão fortemente marcou os lusotópicos dos últimos três
séculos.
Este ensaio constitui uma tentativa de inserir velhos conceitos em novos
esquemas. O enquadramento sociocêntrico, que presumia a unitaridade da
identidade e via toda a alteridade como essencialmente diádica, deixou de
satisfazer nossas necessidades analíticas. Contudo, a teoria antropológica não
se tem ocupado suficientemente em salvar os seus conceitos centrais das
interpretações sociocêntricas modernistas neles inscritas. Conceitos como
amicitia ou ecumene merecem ser retirados dos moldes estrutural-funcionalista
ou difusionista em que Fortes ou Kroeber, respectivamente, os conceberam,
abrindo, assim, caminho à sua utilização em contextos contemporâneos nos quais
a unitaridade das culturas, das sociedades ou dos indivíduos deixou de ser
evidente.
Notas
1 Traduzindo-a em inglês por amity, palavra de difícil tradução para
o português, pelo que optei por ficar com a sugestão latina.
2 Para este uso particular do conceito de "primordialidade", ver
Pina-Cabral, 2002b.
3 Hoje Maputo, a capital de Moçambique, à época uma colônia
portuguesa.
4 Ver igualmente o debate nas páginas do Journal of the Royal
Anthropological Institute 2010, vol. 16, nº 2.
5 Agradeço a Nuno Dias, as longas e profíquas conversas que tivemos
sobre suas experiências de terreno.
6 Disponível em <http://en.wikipedia.org/wiki/Oikoumene>.
7 Um dos melhores exemplars deste processo é o recente romance
Barroco tropical, de José Eduardo Agualusa (2009).
8 Subentendida na frase está a implicação interessada de que, desde
então, surgiu um novo "centro alto" (higher centre) de difusão
cultural: os Estados Unidos.