Novos elementos para uma sociologia dos cientistas sociais: a situação
ocupacional dos egressos
Durante aproximadamente um ano (entre outubro de 2007 e agosto de 2008)
realizei um longo processo de coleta de dados sobre as trajetórias
profissionais de cientistas sociais e de economistas, selecionados
aleatoriamente a partir de listas de egressos de quatro cursos do estado de São
Paulo. Cada sorteado era localizado e contatado usando um procedimento padrão
(por telefone ou e-mail), convidando-os a participar da pesquisa respondendo um
questionário e o retornando anonimamente. O objetivo deste texto é simples:
apresentar uma sistematização dos dados deste survey no que diz respeito ao
conjunto dos cientistas sociais.1 Antes, porém, mostro o contexto geral da
pesquisa, passando por algumas minúcias metodológico-operacionais, e discorro
sobre o debate com o qual a pesquisa pretendeu contribuir ao adicionar
substrato empírico. Além disso, com base em alguns estudos do início dos anos
de 1990 foi possível fazer comparações entre resultados, principalmente naquilo
que constituiu o centro deste trabalho de investigação: em que e onde trabalham
os cientistas sociais? Quais os setores do mercado de trabalho são os mais
"porosos" para esta formação?2
Para os cientistas sociais, que já costumam lançar um olhar introspectivo com
maior frequência, os resultados e as análises aqui expostos servem menos para
indicar um novo caminho, uma sociologia ao todo diferente, do que para repensar
algumas partes já consolidadas como uma abordagem mais ampla, que chamo aqui de
uma sociologia dos cientistas sociais. Tentarei trilhar parte desse caminho ao
entrar, em seguida, no debate em torno da profissão e do mercado de trabalho
dos cientistas sociais.
Questões de sociologia dos cientistas sociais
O ponto de partida reside nas questões que extrapolaram uma investigação
anterior realizada com cientistas sociais atuantes no mercado da pesquisa
(Braga, 2004): a posição profissional dos bacharéis em ciências sociais
(cientistas sociais ou sociólogos são definições mais usuais), seu mercado de
trabalho, os princípios internos de diferenciação entre os diplomados e os
profissionais nas diferentes áreas de trabalho, a distribuição social do
reconhecimento social entre essas áreas, a origem social dos ingressantes e dos
diplomados, e a possibilidade de uma comparação com outras formações
universitárias dentro e fora das humanidades. Estes seriam alguns aspectos para
uma sociologia dos cientistas sociais, extensão do que se costuma considerar
atividade das ciências sociais no Brasil, que não se limitaria a um estudo de
sociologia dos intelectuais ou de sociologia da sociologia, com foco em grupos
e corpos de conhecimentos da atividade no meio acadêmico.
Certamente aqui há uma questão operacional na definição de quem é cientista
social "profissional", já que se trata de um grupo ocupacional difuso, sem
identidade única e coletiva no mercado de trabalho (mesmo depois de sua
regulamentação, com a lei n. 6.888 de 1980 e o decreto 89.531 de 1984).3 Se, de
um lado, as três disciplinas que hoje constituem as ciências sociais ganham, do
ponto de vista acadêmico, contornos cada vez mais autônomos e independentes, de
outro, fora deste âmbito científico, aparecem sem atribuições exclusivas e sem
apelo para o mercado de trabalho. Optei por tomar como base o conjunto dos
diplomados em cursos de ciências sociais, resolvendo o problema do atributo que
interessava a investigação mas levantando outro, sobre a transição depois da
diplomação até o ingresso como profissional da área.
Isto porque ficou claro, desde as primeiras definições da pesquisa, que seria
preciso impor certos limites ao que poderia ser considerado atividade,
atribuição ou trabalho do cientista social. O emprego em uma multinacional ou a
realização de atividades rotineiras de escritório, por exemplo, destino de
formados de todos os cursos superiores, resume-se, muitas vezes, a se encaixar
em uma posição com objetivos e atribuições previamente definidos,
independentemente da formação. Por outro lado, há também quem considere que
ciência social só se faz na universidade, onde influências externas e pressões
de "clientes" inexistem ou são insignificantes em face da autonomia e da
independência do meio, ou ainda que a ciência social é uma atividade
exclusivamente científica. No entanto, neste estudo de sociologia dos
cientistas sociais, tratarei de questões que envolvem a formação desse
potencial grupo ocupacional na convergência entre a transmissão dos
conhecimentos em suas instituições credenciadoras e o mercado de trabalho para
a ocupação e em geral.
Sobre este conjunto de temáticas (pensando as ciências sociais como profissão,
ocupação, atividade, científica ou não, com seus requisitos de formação,
demandas sociais e mercado de trabalho no Brasil), há um volume significativo
de literatura, heterogênea em seu foco, marcos teóricos, ou mesmo em sua
preocupação com a pesquisa empírica.4 O que farei em seguida é algo bem
circunscrito, referindo-me a textos mais próximos de uma sociologia dos
cientistas sociais, particularmente no que vejo como os principais pontos de
comparação e desacordo.
De um modo geral, avança o número de trabalhos tematizando a profissão dos
cientistas sociais, incluindo uma percepção das atividades não acadêmicas,
dialogando com a sociologia das profissões e cada vez mais com suporte em
pesquisas empíricas, mesmo considerando sua timidez ante outras áreas.5 Trata-
se do reflexo de uma tendência geral que está por toda parte nesta subárea da
sociologia: desintegrar a aura monolítica dos grupos profissionais, criada
discursivamente pelas associações e pela elite dos grupos e teoricamente pela
abordagem funcionalista - por exemplo, a "comunidade profissional" de William
Goode onde todos os membros, inclusive a elite intelectual partilhava a mesma
identidade, valores e padrões de conduta (Goode, 1957). Vistas de uma
perspectiva mais abrangente, as profissões perdem parte dos benefícios
elencados para a recuperação das associações profissionais no período pós-
liberal, calcados nos argumentos de que subsistiria uma moral comum (Durkheim,
2004 [1902]), uma orientação para o bem coletivo, relações horizontais de
controle mútuo e qualidade nos serviços.
Para a sociologia brasileira, há a questão de saber se essa diversidade interna
é uma realidade atual ou se sempre foi uma parte desprezada da reconstituição
histórica e sociológica da disciplina. Isso porque a formação de "técnicos com
competência administrativa" (bem próxima do que poderia ser descrita como
coleta sistemática de dados objetivos) era um dos objetivos da Escola Livre de
Sociologia e Política desde sua fundação em 1933 ou desde a fundação de USP em
1934, em função da competição por alunos (Limongi, 1989). E, de certa forma, é
o que faz pensar a importância que Florestan Fernandes requeria que se desse à
formação do "técnico" nas ciências sociais, ao lado do investigador e do
professor, todos com forte embasamento teórico e metodológico. Pela forma como
Fernandes comenta o assunto, deveria ser uma questão candente também nos anos
de 1950, negligenciada pela comunidade intelectual (Fernandes, 1978, p. 22).
Isso tudo sem contar a evidência mais básica: mesmo com a alta evasão nos
cursos de graduação da área, as vagas para pós-graduação são significativamente
menores e também apresentam taxas elevadas de evasão. Em outras palavras,
existe (e parece que não é algo apenas recente) um número significativo de
cientistas sociais formados que permanece invisível em função do modelo
acadêmico da disciplina, em atividade em outros segmentos da profissão.
Se existem divisões com conteúdo significativo, há o potencial para uma
distribuição desigual de recursos e recompensas - estratificações, em outros
termos; mas ao longo de quais dimensões, gerando quais tipos de conflito? Estas
são questões posteriores e que demandam - ao menos idealmente - investigações
teóricas e empíricas. Para o nosso caso particular, outro passo é refletir como
essas novas perspectivas de pensar a profissão poderiam impactar na formação
dos novos cientistas sociais (facilitando a inserção no mercado ou revisando os
currículos).
Desde 1966, pelo menos, percebe-se que a profissão de sociólogo (ou cientista
social) abarca um campo mais amplo do que o estritamente universitário.
Respondendo aos pontos que deram suporte ao veto presidencial à regulamentação
da profissão, ainda nos anos de 1960, Evaristo de Moraes Filho (1966) reforça a
importância dos sociólogos para a administração pública e mostra a presença de
profissionais também em empresas de pesquisa e atuando como profissionais
liberais. Há inclusive referências a textos específicos sobre a temática
profissional (Parsons, Hatt etc.), mas o artigo de Moraes Filho não é
propriamente um texto de análise sociológica. Uma caracterização - breve, mas
incisiva - do tipo de relação entre as áreas de atuação dos cientistas sociais
demorou mais alguns anos para aparecer na literatura especializada (mesmo que
em outra especialidade). Comentando um programa de televisão sobre o mercado de
trabalho para sociólogos, Durand (1984) expõe sua percepção de uma
diferenciação interna, de legitimidade, de valorização e de remuneração,
resultado da ligação histórica da profissão com as classes médias e superiores
que desprezaram questões ligadas à profissionalização. Pela posição central na
socialização dos jovens recrutados, o magistério superior passava uma definição
demasiadamente academicista da profissão, implicando numa atitude que beirava a
hostilidade diante dos que trabalhavam em outras áreas, principalmente na
pesquisa comercial. Por ser breve, no entanto, faltava a este comentário
análise teórica e pesquisa empírica, que viriam com outros autores.
Em Marinho, o debate sobre a profissionalização está imbricado com uma
apreensão da dinâmica interna dos grupos que compõem a profissão -
essencialmente os sociólogos acadêmicos e os não acadêmicos - que acentuava o
conflito (monopólio de um segmento, cisão profissional): os não acadêmicos
"ficam divorciados da comunidade que produz o conhecimento e têm seu prestígio
como sociólogos prejudicado" (Marinho, 1987, p. 230).
A cisão entre os dois grupos fez com que aparecessem interesses distintos
diante da regulamentação da própria profissão na década de 1980: os acadêmicos
eram contrários e os não acadêmicos, favoráveis, pois enquanto para os
primeiros "a sociologia não é uma profissão como outra qualquer [...] ao
contrário, define-se como uma 'profissão acadêmica'" (Idem, p. 227) ou como
"área de conhecimento", para os segundos a regulamentação da profissão
significaria uma "tentativa de delimitação de um 'território profissional'
exclusivo, uma tentativa de monopolização de uma área de prestação de serviço
dentro da burocracia estatal, de forma a que se garanta a contratação
específica de sociólogos" (Idem, p. 228).
Com o texto de Marinho, o debate também ganha contornos teóricos mais nítidos.
No entanto, a opção por "compatibilizar" as abordagens funcionalista
(tentativas de decidir o que era profissão e o que era ocupação, baseadas nas
etapas de profissionalização; a sociologia poderia ser classificada, portanto,
como "ocupação em processo de profissionalização") e neo-weberiana (profissões
como tentativas - umas mais bem-sucedidas que outras - de monopolização de
parte do mercado de trabalho e de bens e serviços, por meio do credencialismo;
a sociologia seria uma profissão como outra qualquer, em busca de uma
monopolização) faz com que seu argumento de que não existe área prática
susceptível de ser monopolizada (e a regulamentação seria um equívoco) - e
assim tem na "esfera acadêmica seu efetivo espaço" - penda para o lado
funcionalista. Além disso, Marinho teve a desvantagem de escrever um ano antes
do lançamento de um importante livro para a sociologia das profissões.
É indiscutível que o trabalho com mais impacto para este cruzamento de subáreas
(convergindo profissões, cientistas sociais e Brasil) é a tese de doutorado de
Bonelli (1993). Um de seus principais méritos foi justamente ajudar a
introduzir e difundir no Brasil a abordagem sistêmica para a sociologia das
profissões de Abbott (1988), que se tornou um marco na literatura. Os esquemas
de profissionalização, nos quais uma ocupação avança por uma série de etapas6
garantindo monopólios e barreiras até se tornar uma profissão, é substituído
por uma dinâmica entre e dentro das profissões, na qual as posições são
constantemente ameaçadas ou novas oportunidades são abertas. Seguindo Bonelli,
a lógica das ciências sociais só pode ser compreendida quando inserida na
lógica do sistema profissional, no qual as áreas de fronteira estão em
constante atrito (jornalismo, administração, educação, arquitetura, direito
etc.), sem deixar de lado uma perspectiva histórica a respeito de sua
constituição, mas também com uma dinâmica própria, resultante da interação
entre os segmentos que a compõem em competição intraprofissional (pesquisa de
mercado, participação no governo, em entidades sindicais etc.). A composição
desses segmentos é outro mérito do trabalho de Bonelli: buscam-se informações
objetivas sobre a constituição do grupo ocupacional e apresenta-se um trabalho
empírico qualitativo, em que alguns integrantes expuseram partes dos discursos
correntes e de suas identidades. Por fim, o trabalho compara o caso norte-
americano com o brasileiro, indicando similaridades entre os dois países que
redimensionam aquilo que poderia ser considerado uma fragilidade da área no
Brasil: a diversidade, quando analisadas as áreas de atuação dos profissionais,
indicaria, ao contrário, que seu objetivo não se resume apenas à
autorreprodução. Em resumo, o estudo de Bonelli abriu novas perspectivas para o
escasso campo, sem as quais esta presente pesquisa não teria sido possível.
Mas entre o trabalho de Bonelli e minha pesquisa há mais complementaridade do
que continuidade. Complementares porque desenvolvo algumas indicações presentes
no texto de Bonelli relativas à segmentação, à hierarquização ou à
estratificação da profissão - quando referências são feitas a "ocupações bem
posicionadas na hierarquia interna da profissão" (Bonelli, 1993, p. 51),
"hierarquia da área" (Idem, p. 56) e "nas posições privilegiadas da carreira, a
participação masculina aparece sobre-representada" (Idem, p. 93) -, mas me
baseio em dados provenientes de outras fontes. A "fotografia da categoria",
quantitativa, que vemos em Bonelli tem sua origem na tabulação das fichas de
1.988 filiados da Asesp (Associação Estadual de Sociólogos do Estado de São
Paulo), complementados por dados dos filiados à SBPM (Sociedade Brasileira de
Pesquisa de Mercado).7 Meus dados, ao contrário, foram coletados a partir de
uma pesquisa empírica construída especialmente para este fim, junto àqueles
diplomados de ciências sociais já mencionados. Compartilhamos, por outro lado,
as limitações e a falta de representatividade ante o quadro nacional da
profissão.8 A intenção de realizar uma investigação mais abrangente fez com que
eu tivesse que tomar algumas decisões de pesquisa (que são também decisões
teóricas) sobre o procedimento. E foi justamente o caso dos pesquisadores de
mercado, que antecedeu esta pesquisa, que me alertou para alguns pontos
distintos daqueles tratados por Bonelli.
Os tipos de abordagens para as pesquisas sociais empíricas (qualitativa e
quantitativa) por si só implicam em diferentes escolhas. Mas a pesquisa
qualitativa apresentada em Bonelli está organizada em função de construções
discursivas realizadas pelos entrevistados quanto à sua identificação como
cientista social. A partir de um modelo genérico de palco e audiência, os
entrevistados foram alocados nessas duas posições, e internamente em uma série
de outras, de acordo com os "sentimentos de pertencer às ciências sociais"
(Idem, p. 114). Não seria viável utilizar a mesma estratégia para o caso da
presente pesquisa, em que se espera alcançar uma abrangência maior do que a
exigida para contatos com maior profundidade.
Além disso, na pesquisa desenvolvida anteriormente, obtive fortes indícios para
supor que o grupo de cientistas sociais atuantes no mercado da pesquisa,
arranjado no palco da profissão, não tem uma identidade uniforme em face da
profissão de cientista social ou sociólogo (vários não se consideram mais
cientistas sociais ou o que fazem como parte das ciências sociais). Ao
contrário, são perceptíveis conflitos éticos originados de um "sentimento de
culpa" e de uma "sensação de vigilância" (nas relações com o meio acadêmico),
além de tentativas privadas de justificação das escolhas profissionais que
indicam posições desviantes, seguindo uma abordagem interacionista. Não seria,
portanto, uma "denominação que reflete identidade profissional vinculada às
ciências sociais" (Idem, p. 113) como a de pesquisador acadêmico.9 Minhas
conclusões estariam mais próximas das de Durand.
Porém, mais do que isso, as identidades estão em constante construção e
dependem dos contextos das interações de acordo com diferentes definições da
situação - o que faz, por exemplo, que em alguns casos seja preferível utilizar
uma "máscara social" de pesquisador em vez da de sociólogo. Em suma, não é a
identidade ou o pertencimento à profissão tal como sentido pelos respondentes
que permitirá definir a forma como serão agrupados analiticamente.
Evidentemente isso implica em escolher outra forma, correndo o risco da
arbitrariedade. Para a análise dos dados, duas demarcações de fronteiras
serviram como parâmetros (tênues, mas ainda assim fronteiras). A primeira é
entre as ciências sociais acadêmicas e as extra-acadêmicas, sendo que as duas
incorporam atividades técnico-especializadas que a formação na área poderia ser
pensada como provável de qualificar e atividades que requerem conhecimentos
sobre relações sociais e problemas sociais, sem considerar aquelas cuja
qualificação envolva apenas os quatro anos a mais de escolaridade (exemplos:
docência, pesquisa, assessoria, consultoria, editoria, quadro em órgãos
públicos e privados e cargos políticos).
A outra fronteira é entre o que está dentro e o que está fora da área.
Atividades administrativas, comerciais, no setor de serviços ou em outras
profissões (como resultado ou não de outros cursos superiores) estão neste
último grupo.10 De certo modo, por atuarem em outras áreas, esses cientistas
sociais não poderiam ser vistos, até operacionalmente, como parte de uma lógica
a qual não constituem, sendo bastante plausível que suas identidades tragam
outros elementos combinados, que dizem respeito às atividades que exercem. Ou
seja, a "audiência" não faz, para este trabalho, parte constitutiva do mundo
das ciências sociais ou "parte indispensável ao funcionamento da profissão"
(Idem, p. 110).
Isto porque há uma longa distância entre disputas jurisdicionais e disputas por
vagas no mercado de trabalho. O fato de que muitos cientistas sociais estão,
digamos, trabalhando como jornalistas não significa que exista uma ameaça a
jurisdição do jornalismo. Para haver um conflito jurisdicional, seguindo
Abbott, grupos profissionais devem estar disputando conceitualmente uma ligação
com uma área da realidade ou do trabalho, que podem ou não se desenvolver até
se tornarem disputas legais (Abbott, 1988). Nas palavras do autor: "As
profissões buscam ampliação em competição, tomando para si áreas de trabalho,
constituídas como 'jurisdição' por intermédio dos sistemas de conhecimento
profissionais" ou "[...] constituição simbólica de tarefas em jurisdições
construídas, identificadas [...]"(Abbott, 2005, p. 246). É nesse sentido que se
pode dizer que não há competição jurisdicional quando cientistas sociais
trabalham fora de sua área; ao contrário, por mais que desenvolvam pessoalmente
sínteses entre ambas, não se questiona a legitimidade da outra área em abarcar,
com seus conceitos e técnicas, aquela área do mundo do trabalho. E,
internamente, a competição entre os segmentos, segundo Abbott, quando não se
trata de novas áreas jurisdicionais em disputa, segue as linhas de
diferenciação e estratificação; são assim também disputas em torno do
reconhecimento e pela distribuição do prestígio intraprofissional.
Assim, por exemplo, os dois representantes do que Bonelli incorpora como
"negação" por não se autoposicionarem no "palco", uma parte da "audiência" - um
diretor de recursos humanos11 e uma assessora parlamentar - seriam aqui
incluídos como dentro da área. E cientistas sociais trabalhando como oficiais
de justiça ou bancários, que lá estão no "palco", aqui estariam fora da área.
Com esta diferenciação acredito que se pode ganhar em capacidade analítica
sobre a diversidade do campo de atuação para a profissão, mais do que
considerar donas de casa como parte constitutiva da lógica da profissão. Por
outro lado, atividades fora das ciências sociais possuem uma distribuição do
reconhecimento entre seus segmentos talvez completamente diferentes, e assim
fazem parte, talvez, de segmentos com posições privilegiadas na hierarquia
interna de prestígio.
O trabalho de Miglievich (1999), resultado de um conjunto de textos e
discussões, segue o debate, também desenvolvendo pesquisa empírica. Dessa vez
com sociólogos que trabalham em instituições de pesquisa e planejamento no Rio
de Janeiro (Fase, Ibase, Ibam e Senac), concluindo também na direção de uma
"diferença" entre o grupo acadêmico e o não acadêmico, mais uma vez
externalizadas por discursos que apontam suspeitas e críticas. A dissertação de
Andrade (2002), mais descritiva, sem uma abordagem teórica própria da
sociologia das profissões, serve para colocar em perspectiva o que podem ser
características regionais da profissão de cientista social: na Bahia esteve
sempre historicamente vinculada ao planejamento governamental - parte da
estrutura universitária da área foi montada com a intenção de formar técnicos
especializados -, o que fez com que a situação de redução nas contratações no
Estado induzisse à diversidade de atuação, ao desemprego e ao refúgio no meio
universitário.
A partir desta leitura particular, acredito que uma sociologia dos cientistas
sociais no Brasil precisa responder, por meio da pesquisa empírica, às
seguintes perguntas: Onde trabalham os cientistas sociais? Existe segmentação
ou estratificação interna? Esta se relaciona com a origem social? Quem realiza
as atividades mais desvalorizadas? Estes são elementos que orientam na direção
de uma análise da forma como o ensino superior (de acesso ampliado nos últimos
quarenta anos) dinamiza os destinos sociais, abrindo oportunidades a indivíduos
de todas as origens. Desse conjunto de questões, neste texto estão apenas os
dados referentes ao perfil dos cientistas sociais, dividindo o espaço com uma
descrição mais minuciosa do desenho da pesquisa. É deste último que trata a
seção a seguir.
Da construção do objeto ao conjunto de dados
Definidos os sujeitos da pesquisa - graduados em ciências sociais em atividade
no mercado de trabalho, dentro ou fora do âmbito acadêmico -, o primeiro passo
propriamente operacional foi demarcar a extensão da pesquisa, espacial e
temporalmente. A ideia inicial era a de obter listas de egressos e, depois de
uma seleção aleatória, coletar dados por questionário a respeito de suas
trajetórias profissionais. Apesar da opção por não extrapolar o estado de São
Paulo, foi incluída uma certa diversidade de cursos com as cidades de São Paulo
e Campinas, em instituições públicas e privadas: USP, Unicamp, PUC-Campinas e
PUC-São Paulo. No que concerne à delimitação temporal, a possibilidade de
realizar comparações entre períodos de diferente consolidação do sistema
universitário e profissional do país fez com que fosse considerado um intervalo
significativamente amplo, entre 1970 e 2005.12 Seria possível, potencialmente,
obter as trajetórias de egressos já aposentados e no início da vida
profissional.
Minhas solicitações às instituições para conseguir as listagens de ex-alunos
encontraram desde rápidas respostas até o completo silêncio. Nos casos em que
as consegui, as listas me foram entregues de formas variadas: listas impressas,
listas em arquivo eletrônico, livros publicados com informações com todos os
ex-alunos, algumas apenas com os nomes, outras com o cadastro completo.
Trabalhar com as listagens (o primeiro passo para a amostragem) não foi tão
simples quanto parecia, principalmente porque as mais antigas e impressas
possuem alguns erros facilmente corrigidos hoje em dia, como nomes repetidos no
mesmo ano ou em anos diferentes. Além dessas repetições, nas mais antigas não
se pode contar com as informações do cadastro, como endereço, e mesmo com o
sobrenome (como foi o caso de algumas mulheres que se casaram ou divorciaram).
Em suma, as listas precisaram ser digitadas (algumas delas), limpadas
(retirados os erros, as duplas entradas) e os nomes dispostos de acordo com
critérios semelhantes antes da seleção aleatória.13 Para o caso da Unicamp,
onde os mesmos alunos podem obter diplomas em várias modalidades, optei por
incluir o nome no ano da primeira diplomação, mesmo que o aluno ainda
continuasse no curso (isso pode ter feito com que meus números sejam diferentes
dos números institucionais de diplomas expedidos para os cursos em questão).
Mais do que produzir um retrato comparativo sobre a produção de cientistas
sociais nas instituições em questão, o número real de diplomados tem, para o
tipo de pesquisa que desenvolvo aqui, papel fundamental no procedimento de
ponderação da amostra, que mencionarei mais adiante. Os números consolidados
para o universo de egressos nas instituições e nos anos selecionados estão
dispostos na Tabela_1.
Como temos informação desde sua fundação até 2005, o curso de ciências sociais
da Unicamp (primeiros formados em 1973) formou até aquele ano 1.341 pessoas,14
com crescimento progressivo em todas as décadas, inclusive nos últimos anos.
Como os outros cursos foram fundados antes do intervalo da pesquisa, não temos
aqui uma contagem de todos os ex-alunos, mas certamente temos incluídos uma
parte mais do que significativa ou representativa. As células sombreadas na
contagem da PUC-São Paulo mostram períodos que não foram incluídos porque não
foram considerados confiáveis.15
Enquanto as listagens definitivas estavam sendo elaboradas e os contatos com as
instituições realizados, preparou-se um questionário piloto, testado em um
grupo de egressos selecionados apenas dentre os da Unicamp. Esse questionário
foi pensado de modo a coletar dados a respeito de um conjunto de variáveis:
informações sociodemográficas, dados adicionais sobre educação posterior à
graduação, sobre a atividade profissional naquele momento (também a de seus
pais em outro período do tempo e de cônjuges ou companheiros), uma descrição
simplificada de toda sua trajetória no mercado de trabalho e avaliações de
prestígio, das ocupações - principalmente universitárias - e das subáreas da
profissão para qual se formou. Apesar das mudanças no questionário inspiradas
por este pré-teste, seu desenho geral continuou o mesmo.
O procedimento geral da pesquisa e a taxa de resposta que conseguiria obter
também foram testados16 (como a listagem da Unicamp só fornecia o nome do
egresso, sem qualquer informação sobre endereço, poderia se ter uma estimativa
pessimista do trabalho da pesquisa pois eram estes os casos mais complicados
para a localização): a partir da listagem, foram selecionados aleatoriamente 55
pessoas,17 a serem localizadas de inúmeras maneiras (lista telefônica online,
buscadores na Internet, pelo telefone de parentes que constavam nas listas
telefônicas, por e-mail) para convidá-las - sempre após falar pessoalmente com
o selecionado - a participar voluntariamente da pesquisa. Neste contato
telefônico ou eletrônico, a pesquisa era explicada para os respondentes, com
ênfase em duas de suas características: sem custo e anônima. Aos respondentes
que aceitavam participar era enviado um envelope contendo o questionário e um
outro envelope endereçado e já selado para o retorno, e o valor deste selo
permitia que enviassem a resposta sem precisar escrever o remetente. Dos 55
nomes selecionados para o pré-teste, apenas quatro não foram localizados.18
Foram enviados 43 questionários e retornaram 29 respostas, ou seja, uma taxa de
resposta, entre enviados e respondidos, de 67,5%.
Assim, ponderando o andamento da localização e a dimensão total da coleta de
dados para a fase principal da pesquisa, estabeleceu-se o número de 45 nomes a
serem selecionados, por universidade e por década, para conseguir uma
quantidade (trinta questionários) suficiente para realizar análises no nível
das décadas. Os "estratos" com resposta abaixo de 30 seriam então ponderados
até esse número e posteriormente ponderados para a representatividade numérica
entre décadas e universidades. Consequentemente, os números totais da pesquisa,
de pessoas a serem localizadas, encontram-se na Tabela_2.
O total de 630 pessoas a serem localizadas (apenas nas ciências sociais) impôs
então um longo esforço de coleta de dados, frequentemente frustrante, e que
fica muitas vezes escondido por trás das tabelas. O volume de pessoas (e a
dificuldade de localização, principalmente para alguns egressos dos anos 2000 -
sem telefone em seu nome e sem trabalho fixo que possibilitasse encontrar nas
páginas da Internet) exigiu uma importante decisão para o desenho da pesquisa:
não haveria substituições, ou seja, os casos de recusa, falecimento ou
impossibilidade de localização (por homônimos ou total falta de informação) não
seriam trocados por outros nomes selecionados aleatoriamente.
Assim, do total de 630 cientistas sociais selecionados, 359 foram localizados e
aceitaram receber o questionário, mais da metade, como se pode ver na Tabela_3.
Esse número de questionários enviados subdimensionam o processo de localização,
pois não incluem recusas, falecimentos e contatos que não resultaram em envio
de questionário (seja porque a pessoa não se decidia a participar ou porque não
respondia e-mails). Em linhas gerais, acredito ter localizado aproximadamente
dois terços da amostra de cientistas sociais.
Certamente que, pelo desenho e pelas condições em que a pesquisa foi realizada
(localização por informações colhidas pela Internet, em buscadores e em listas
telefônicas), poderia ser questionada uma sobrerrepresentação de pessoas com
informação na Internet ou que possuam telefone em seu nome (características que
podem indicar origem social entre classe média e alta ou graduados mais
antigos), ou mesmo de acadêmicos, pois informações sobre esse subgrupo são mais
facilmente coletadas nos currículos Lattes. Em parte essa crítica pode ser
justa, mas a experiência da pesquisa não permite regras gerais: de um lado, os
números de envio e resposta não decrescem uniformemente com o passar das
décadas e, de outro, foram localizadas várias pessoas por intermédio de
parentes após inúmeras ligações e tentativas, e foram obtidas recusas (até
veementes) e contatos sem resposta de acadêmicos. Além da maior disponibilidade
de informação, poderia ser argumentado que as motivações para a participação na
pesquisa seriam consideravelmente maiores para os grupos mais valorizados da
profissão. Nos contatos durante a pesquisa, incluindo a abordagem inicial por
telefone e e-mail, ressaltava-se a necessidade da participação de todos, a
despeito de onde trabalhavam no momento, para retratar de modo mais completo
possível o destino social dos diplomados (e o anonimato das respostas tinha o
mesmo propósito). Em suma, acredito que a aleatoriedade da seleção inicial foi
mantida também na localização e nas respostas.
Por fim, é preciso fazer referência à ponderação que utilizei para a análise
das respostas. Os pesos foram elaborados para corrigir a diferença entre a
amostra planejada e a amostra efetiva, além da representatividade proporcional
nos "estratos" (quatro universidades e quatro décadas).19 A lógica da
ponderação foi, portanto, de permitir extrapolar os limites da pesquisa e fazer
inferências sobre o conjunto de cientistas sociais representados pela amostra,
adequando as respostas à proporcionalidade do conjunto dos egressos.
Descrição da amostra
A comparação dos estratos que utilizei para a seleção dos respondentes ajuda a
visualizar as consequências das ponderações. Estas fazem com que cada resposta
adquira uma proporção semelhante à sua ocorrência nos cadastros. As diferenças
entre a amostra sem e com a ponderação variam muito mais em relação ao perfil
das universidades: isso porque a USP é a universidade que, entre as quatro,
mais formou cientistas sociais, e os pesos relativos variam muito, com as
particulares mais similares entre si.

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Tabela_5_-_Clique_para_ampliar
De alguma forma, as respostas para a variável idade deveriam, por sua vez,
refletir em linhas gerais as divisões das décadas. Nesse sentido, o perfil da
amostra revela esta consistência nos dados. As maiores diferenças residem nas
duas faixas extremas - 18,1% de respondentes entre 25 e 30 anos e 28,0%
diplomados entre 2000 e 2005, e uma faixa superior com 8,2% com mais de 61 anos
- mas as porcentagens não chegam a surpreender.
Com a Tabela_6, sobre a cidade onde o respondente reside, é possível ter uma
ideia da abrangência da pesquisa em termos geográficos. Apesar do foco em São
Paulo e Campinas, mais de 10% residem fora do estado de São Paulo ou em outros
países.
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As variáveis mais relevantes para as análises posteriores aparecem na
sequência. São as distribuições relativas ao sexo, cor/raça dos respondentes, à
sequência de sua educação e as referentes à sua origem social. No que diz
respeito a sexo, a amostra apresentou presença majoritária de mulheres, com
58,6%.
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Em seguida temos a distribuição segundo cor e raça. Como se tratava de uma
informação importante, tentei minimizar a possível falta de respostas incluindo
duas questões no questionário. A primeira, uma questão aberta, tinha o seguinte
enunciado: "qual você diria que é sua cor?", e a segunda, apresentava as cinco
categorias do IBGE como alternativas para resposta. Essa estratégia fez com que
alguns casos de "brancos" e de "negros", por extenso, passassem como "pardos"
nas categorias. Nestes casos, optei por utilizar a segunda resposta.
[/img/revistas/rbcsoc/v26n76/06t08.jpg]
As Tabelas_9 e 10 mostram outros títulos concluídos (ou ainda em curso) pelos
respondentes, primeiro no que diz respeito a outras graduações e, depois, a
pós-graduações. Dos 27,1% que fizeram outra graduação, 11,5% cursaram Direito,
um número que quase se iguala à soma de todos os outros cursos, 15,8%. Mas
apenas 31,2% dos respondentes encerravam sua trajetória acadêmica com
graduações: a grande maioria frequentou pós-graduação, sendo que 27,5% concluiu
ou ainda cursa doutorado.
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A origem social está operacionalizada pela educação e ocupação dos pais.
Percebe-se que, no conjunto, os pais apresentam níveis de escolaridade mais
elevados do que as mães, o que, em parte, explica a distribuição de suas
ocupações. No entanto, há também a barreira ocupacional (segmentação do mercado
de trabalho, trabalho doméstico etc.) que faz com que, mesmo com graus
semelhantes, existam mais homens do que mulheres em atividades compatíveis. Se,
de um lado, há 57,4% de pais com pelo menos o nível secundário completo e
também 57,4% dos homens nas três categorias do topo da pirâmide ocupacional
(profissões, empresários e funcionários públicos), no caso das mulheres, 51,4%
delas com secundário revelam apenas 30,8% nas mesmas categorias ocupacionais.
Na Tabela_13 temos o cruzamento das informações ocupacionais dos pais com as
décadas em que os respondentes se formaram. A principal tendência no perfil
ocupacional dos pais dos respondentes é a inversão nas magnitudes das
porcentagens de trabalhadores manuais e da "classe média", indicando uma
distribuição ainda mais acentuada na sua sobrerrepresentação dos estratos
médios e superiores. No entanto, seria necessário balancear estes dados com a
configuração geral da mão de obra brasileira ao longo das últimas décadas, o
que extrapolaria os limites dessa pesquisa.
A seguir é apresentada a principal variável descritiva: a distribuição
ocupacional dos egressos de ciências sociais. Este retrato utilizou, de um
lado, uma categorização mínima das respostas, de modo a permitir que se
visualize seus componentes e, de outro, categorias mais inclusivas, com as
quais é possível configurar o mercado de trabalho para os cientistas sociais.
Agregando algumas categorias por suas semelhanças, é possível discernir que o
grupo universitário compreende mais de um quarto do total: no momento em que
responderam a pesquisa (entre o final de 2007 e meados de 2008) 21,9% dos
respondentes eram professores universitários e 4,5% eram bolsistas (excluídos
aqui outros pesquisadores universitários).
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Tabela_11_-_Clique_para_ampliar
[/img/revistas/rbcsoc/v26n76/06t12thumb.jpg]
Tabela_12_-_Clique_para_ampliar
Se considerarmos o grupo encarregado do ensino em seus vários níveis, a Tabela
14 mostra que este representa 27,4% do total, seguido dos atuantes na área
pública com 15,1% e dos pesquisadores e bolsistas, com 12,0% (compreendidos
aqui pela atividade em pesquisa, e não pelo tipo de instituição em que estão
inseridos). Nesta tabela, estão agrupados como "outras profissões e formações",
"empresários" e "vendas, serviços e outras atividades" os que estão claramente
trabalhando em áreas não relacionadas com a formação em ciências sociais, mas
pode-se perceber como uma categorização baseada em "dentro e fora da área"
poderia também ser realizada dentro do grupo definido aqui como "área pública".
[/img/revistas/rbcsoc/v26n76/06t15thumb.jpg]
Tabela_15_-_Clique_para_ampliar
Quando cruzamos os dados da ocupação com os das décadas, é possível precisar
como as áreas evoluíram dentro da amostra: a participação da área de ensino tem
seu máximo nos formados na década de 1990 (grande parte dos formados entre 2000
e 2005 ainda não teve tempo de concluir doutorado); a década de 2000 concentra
os desempregados (nesta categoria na década de 1970 estão concentrados os
aposentados) e os pesquisadores e bolsistas em formação; esta última década
também apresenta significativa diferença superior para a ocupação em carreiras
fora da área pública, mas também retoma uma participação dentro da área pública
no nível da década de 1980, talvez como primeira inserção no mercado de
trabalho. Apesar da queda nos formandos da década de 1980, a ocupação em
empregos que exigem níveis educacionais menores (vendas, serviços) mantém-se
constante, em torno de 10%.
Comparações entre resultados
Mencionei no início deste texto que existem outras pesquisas sobre os
cientistas sociais cujos resultados possibilitam comparações. O Quadro_1
sintetiza os pontos de contato. Há, no entanto, inúmeras diferenças entre as
metodologias e, no caso da pesquisa de Werneck Vianna et al. (1994), a mais
fundamental reside no fato de que incorpora apenas alunos matriculados, sendo
que as taxas de evasão para o curso são tradicionalmente elevadas (naquele
mesmo texto encontramos uma estimativa da evasão na UFRJ que aponta para taxas
entre 50 a 65%, esta última entre 1982 e 1988). Assim, o grupo de estudantes
pode ter perfil social bastante diferenciado dos egressos. Além disso, por se
tratar de um esforço de pesquisa que se pretendia nacional, e meus dados estão
limitados ao estado de São Paulo, todas as variações podem ser plenamente
compatíveis. Com o estudo de Schwartzman (1995) a comparação é mais direta,
apesar de que a parte de egressos engloba apenas formados nos dez anos
anteriores àquela pesquisa.
Com a primeira destas pesquisas, as diferenças nos resultados são enormes, como
se pode ver também pelo estado civil e pela idade média da amostra, no Quadro
1. Porém, mesmo dentro de estreitos limites comparativos, um dos argumentos dos
autores não encontra sustentação nos dados aqui apresentados: uma
democratização do acesso às ciências sociais estaria em processo e um novo
perfil dos estudantes de graduação, com mais participação dos estratos
inferiores, buscando, durante o curso, estratégias de mobilidade social por
meio da profissionalização científica.
Aqui, no entanto, quando apresentados os dados sobre a ocupação dos pais ao
longo das décadas em que os respondentes se formaram, o perfil parecia
sobrerrepresentar ainda mais a parte superior das categorias ocupacionais (até
a classe média). Pelo menos não houve diferença significativa na proporção de
profissionais e de proprietários urbanos. Um limitante é que as categorias
ocupacionais dos dois estudos são bastante diferentes (o que poderia explicar
as porcentagens de pais trabalhadores manuais). Porém, o caso de São Paulo pode
apontar para uma situação em que já houve mais abertura para a participação de
indivíduos de origem social modesta (ou pelo menos se manteve estável). Uma
hipótese poderia ser levantada para explicar esse fato: como a maior parte da
expansão das vagas no ensino superior nos últimos anos foi no ensino privado, e
por isso não atingiu significativamente os cursos de ciências sociais, não
seria descabido que, por uma redução das expectativas, indivíduos oriundos dos
estratos inferiores optassem por cursos em que tanto o acesso seja garantido (e
assim escolham escolas particulares) quanto com maiores perspectivas de emprego
(e assim procuram carreiras com expectativas mais definidas). Novos dados e o
acompanhamento das ações afirmativas (se os alunos chegarão a se formar)
poderiam alterar o quadro, mas não se pode esquecer da hipótese de seletividade
social durante o percurso entre o ingresso e a saída.
Além disso, as evidências com que o argumento busca se sustentar não são
ideais: pelo cruzamento entre perfil familiar (em que instrução e ocupação dos
pais são tratadas conjuntamente) e ano que o aluno está cursando (Werneck
Vianna et al., 1994, p. 448). Em outros termos, o intervalo de tempo
considerado, por se tratar de uma pesquisa com alunos de graduação, é de apenas
quatro anos. As indicações de tendência ficam fortemente baseadas em uma
interpretação sobre como as ciências sociais se inserem na realidade
brasileira. Mesmo dentro deste pequeno intervalo, os dados que mostram uma
grande participação de formandos do perfil familiar com maior desvantagem
social (técnicos e serviços sem 2º grau e trabalhadores manuais) também mostram
que, entre os ingressantes, a participação de filhos de profissionais com curso
superior - a maior vantagem social - é acrescida de quase 20%.
Outro importante argumento dos autores diz respeito ao ingresso tardio no curso
de ciências sociais devido ao fato de que cursaram ou frequentaram outra
graduação anteriormente. Os resultado sistematizados aqui indicam, ao
contrário, que apenas 14,5% dos que concluíram outra graduação (não tenho dados
sobre frequência sem conclusão) o fizeram antes. A grande maioria ou cursou
pelo menos parte ao mesmo tempo ou depois, o que talvez indique que estratégias
de mobilidade mais "eficientes" para os estratos inferiores (ou de manutenção
de status para os estratos superiores) se encontram, alternativamente, em
outras profissões ou formações. Em todo caso, a alta porcentagem encontrada de
pessoas que cursaram alguma pós-graduação (em várias áreas) é compatível com
qualquer um dos dois argumentos.
No que concerne à pesquisa de Schwartzman (1995), as diferenças nos resultados
são menores, visto que compartilham em parte a análise da trajetória
profissional de egressos. As maiores diferenças nos resultados residem na
tabulação da ocupação atual, que está apresentada no Quadro_2 para facilitar as
comparações, no qual também comparo com as principais categorias da tabulação
apresentada por Bonelli (1993). Mais uma vez é preciso ressaltar as diferenças
nas categorizações utilizadas, nas fontes de informação (fichas de associados e
egressos) e o limite de tempo em que os egressos foram considerados.
Não existem discrepâncias muito acentuadas devido à dispersão dos cientistas
sociais em vários setores ou áreas. Mas o peso relativo das atividades na
configuração geral do mercado de trabalho é consideravelmente alterado
dependendo da pesquisa. Em Bonelli (até pela natureza da fonte de informação)
encontramos muitos sem ocupação, um grupo de ensino equilibrado entre
universitários e professores de 1º e 2º grau, uma categoria geral de sociólogos
(7,0%), apenas 3% de bolsistas e uma grande dispersão de atividades com
proporções entre 0,1% e 2%. Em Schwartzman, os professores universitários estão
em menor proporção (9,5%), mas o mais importante é que não representam a maior
fatia da profissão, que está localizada no serviço técnico-profissional e nos
institutos de pesquisa. Isso pode ser reflexo da condição de "em formação" dos
egressos mais recentes já que os dados não incluíram aqueles que realizavam
pós-graduação em sociologia na USP.
De acordo com os dados sistematizados aqui, o ensino é a principal área de
atividade dos cientistas sociais, sendo que os professores universitários estão
em proporção bem superior aos de 1º e 2º graus. Além disso, a proporção de
12,0% de bolsistas (29,4% para a década de 2000) representa a consistência na
reprodução da área de ensino. Mas os dados estão longe de indicar a
exclusividade do segmento universitário. Tanto na área pública (excluído o
ensino) como fora desta, existem proporções significativas de cientistas
sociais. Aqui, a menor taxa de desemprego encontrada entre as três pesquisas
convive com delimitações mais precisas das áreas que só muito forçosamente
poderiam ser consideradas como dentro das ciências sociais nos dois extremos da
classificação ocupacional para profissões não manuais (em vendas/serviços e em
outras profissões), compreendendo pelo menos 23% dos egressos (sem contar os
desempregados) no que podem ser estratégias de sobrevivência ou de
independência financeira que os empurram para fora dos limites da profissão,
disputando recompensas e prestígio em outras arenas.
Em linhas gerais, o desenho do survey com egressos aqui apresentado forneceu um
conjunto de evidências empíricas atualizadas para uma perspectiva mais ampla da
profissão ao tomar a situação ocupacional dos cientistas sociais como objeto de
investigação. Em seus resultados, é possível encontrar tanto a diversidade de
atuação como o modelo acadêmico, perfis delineados por outros estudos. Mais do
que isso, esta peça descritiva e comparativa, no entanto, abriu o caminho
(principalmente pelo fato de que o instrumento foi pensado com este propósito)
para, nas etapas seguintes, relacionar esse retrato da profissão (aliado à
origem social dos cientistas sociais) com os diferenciais de valorização nos
segmentos profissionais, tal como indicados pelos próprios respondentes, em uma
análise da composição social das posições ocupacionais. No entanto, por si só,
esse perfil dos egressos também pode servir para apresentar - ou retomar -
questões teóricas e práticas sobre as quais os pesquisadores e o conjunto da
profissão ainda precisam se debruçar.
Notas
1 Agradeço às pessoas que aceitaram participar da pesquisa e às que
contribuíram de inúmeras maneiras para sua execução. Agradeço especialmente a
Tom Dwyer, meu orientador.
2 Por conta do espaço restrito, este artigo se ocupará apenas da descrição dos
dados relativos aos cientistas sociais. As análises de composição dos segmentos
ocupacionais, das trajetórias profissionais, a comparação com os economistas e
um maior detalhamento do survey estão disponíveis em Braga (2009).
3 Há também a questão de saber se "cientista social" é ou não uma profissão, ou
se teríamos que nos referir apenas ao "sociólogo" como profissional
correspondente à formação em ciências sociais. Mas, no caso desta pesquisa,
cuja construção do universo foi delimitada por diplomados em ciências sociais,
esta questão perde importância. Além disso, corria-se o risco de reduzir
desnecessariamente o universo de pesquisa e enviezar os resultados,
restringindo-se apenas aos registrados ou sindicalizados.
4 Neste artigo, detenho-me nas discussões sobre o mercado de trabalho ou sobre
a profissão de cientista social apenas no Brasil.
5 Tomei conhecimento, durante meu trabalho de pesquisa, de várias monografias
de graduação e dissertações de mestrado sobre o assunto, mas que não alteram a
leitura mais ampla do debate aqui proposta.
6 Uma sequência de etapas desse tipo incluiria, tipicamente, tornar-se uma
atividade em tempo integral, passar a ser treinada em escolas, formar uma
associação profissional, conseguir proteção do Estado e formalizar código de
ética (Wilensky, 1964).
7 A título de comparação, parte dos dados da Asesp sistematizados em Bonelli
(1993) está disposta no Quadro_2, no fim deste texto. Em relação aos dados da
SBPM, meus dados permitem uma comparação limitada. Em 1989, pela análise de
Bonelli havia 27% de cientistas sociais entre os sócios da SBPM e, em 2004,
encontrei 8,9% de cientistas sociais entre os profissionais de nível superior
nas empresas de pesquisa, mas tomei como base para a pesquisa a filiação a
outra associação da categoria, a Abep (Associação Brasileira de Empresas de
Pesquisa).
8 Como exemplo, nas instituições que pesquisei, o universo de concluintes em
ciências sociais para o ano de 1979 foi de 129 formados, enquanto nacionalmente
foram 1.986 concluintes. Dados nacionais até 1987 estão em Bonelli (1993).
9 Uma das entrevistas coletadas com uma pesquisadora de mercado transcrita em
parte em Bonelli (1993, p. 193) vai na direção das minhas entrevistas (pelo ano
em que se formou, 1968, sei que não era parte do grupo que entrevistei para a
minha pesquisa): sentimento de culpa, acusação, desvalorização da atividade -
"se prostituiu no mercado".
10 Não quero com isso dizer que os cientistas sociais que não desenvolvem
atividade na área não sejam cientistas sociais. Pela lógica do sistema
credencialista de educação, sem obrigatoriedade de registro profissional neste
caso, apenas o diploma é suficiente.
11 Por ser uma atividade em que potencialmente poderiam ser utilizadas as
qualificações de um cientista social (além do fato de que muitos formados a têm
como campo de trabalho), mesmo que as ciências sociais não disputem essa
jurisdição com a psicologia e a administração.
12 Como parte da pesquisa empírica foi realizada na primeira metade de 2007, o
intervalo até 2005 foi considerado suficiente para que houvesse uma trajetória,
mesmo que curta, de ingresso no mundo do trabalho.
13 Só para constar, o critério foi o seguinte: grupo de alunos de cada semestre
(quando houvesse) de cada ano em ordem alfabética, desconsiderando se o curso
foi diurno ou noturno.
14 Na listagem dos egressos da Unicamp (com maior número de repetições) havia
1.379 entradas no período diurno e 362 no noturno.
15 A partir de meados da década de 1980, os números de formados mostravam forte
aumento (por exemplo, em 1984, 18 formados em ciências sociais e 136 em
economia; em 1987, 268 em ciências sociais e 728 em economia). Obtive outras
listagens, mas apenas para formados a partir de 1995, que indicavam números
mais realistas.
16 Mesmo sabendo que o fator "universidade" (já que eu compartilhava o vínculo
"Unicamp" com os egressos do pré-teste) poderia sobrevalorizar meus resultados
da taxa de resposta.
17 Utilizei o comando Select cases/random sample of cases no SPSS para obter
uma seleção aleatória de 4% do meu universo.
18 Incluídos nos localizados três casos em que obtive a ajuda da Diretoria
Acadêmica (DAC) da Unicamp.
19 Mais detalhes sobre a ponderação podem ser obtidos em contato com o autor.