Plano real, privatização dos bancos estaduais e reeleição
Introdução
De acordo com a literatura clássica das relações intergovernamentais
brasileiras,1 o federalismo predatório emergiu nos anos de 1980 como uma das
consequências não pretendidas do processo de democratização. A incapacidade de
a União ser o mecanismo de coordenação das relações federativas nacionais fez
com que os governadores adotassem uma estratégia de conflito com o governo
central em torno de questões tributárias, fiscais, gasto e endividamento.
Contudo, este padrão foi profundamente alterado no primeiro governo Fernando
Henrique Cardoso (1994-1998). Reformas econômicas e políticas, conjuntamente
com a habilidade do novo governo de utilizar os incentivos e as capacidades
institucionais sob seu poder, permitiram ao governo central reformular as
relações federativas, estabelecendo padrões rígidos para a renegociação das
dívidas estaduais e promovendo a privatização de empresas públicas estaduais,
especialmente os bancos estaduais, instituições que permitiam aos governos
subnacionais driblar as restrições de receitas e adotar políticas de gastos
fortemente expansivas e sem cobertura orçamentária.
O paradoxo existente é facilmente percebido: se a União era tão frágil como
descreve a literatura clássica do federalismo, como estas mudanças foram
possíveis sem alterações profundas no desenho do sistema político brasileiro?
Como, sem alterações profundas no desenho institucional, o governo FHC
recentralizou a capacidade da União de realizar políticas macroeconômicas
estáveis? O governo Fernando Henrique impôs ou negociou o refinanciamento da
dívida dos estados, em troca do enfraquecimento da capacidade dos governos
subnacionais de se endividarem? Para respondermos estas questões vamos analisar
o processo de privatização dos bancos estaduais. Partimos da hipótese de que a
redução da atividade bancária dos estados, principal elemento naquele momento
da recentralização das relações federativas, foi consequência da negociação
pelo governo federal das regras do Proes (Programa de Incentivo à Redução do
Setor Público Estadual na Atividade Bancária) e da maior inovação institucional
no sistema político brasileiro pós-Constituição de 1988, a reeleição para
cargos executivos, fato que mudou profundamente o cálculo estratégico dos
governadores de estado em 1998.
Metodologicamente, no trabalho utiliza-se análise documental e testes
estatísticos para fundamentar a argumentação apresentada. De uma forma geral,
podemos concluir que as mudanças nas relações federativas foi um amplo processo
de negociações em que os atores envolvidos, o governo federal e os estados
chegaram a uma situação de second best. Os acordos não foram as primeiras
preferências de nenhum dos atores, mas satisfizeram a todos dentro do contexto
econômico e político da segunda metade da década de 1990.
Na primeira parte deste artigo apresentamos a argumentação da literatura
clássica do federalismo brasileiro; na segunda o processo de implementação do
Plano Real, a crise dos bancos estaduais e a negociação entre o governo federal
e os governos estaduais das regras para privatização destas instituições
financeiras; e por fim, na conclusão, discutiremos os achados do trabalho.
Federalismo, desenho institucional e mudança política
O federalismo é uma categoria analítica chave para a compreensão do
funcionamento do sistema político brasileiro. Melo, ao analisar a agenda de
pesquisa da ciência política sobre a temática das políticas públicas e governo,
observa que "do ponto de vista da reforma do Estado, o federalismo foi
associado às dificuldades de implementá-la e para o timing errático de sua
implementação no país" (2002, p. 89). O aumento da produção acadêmica sobre o
federalismo veio associado a uma mudança de seu status como categoria
analítica, passando de um elemento sem muito destaque na literatura para uma
"variável independente crucial para o entendimento do conflito distributivo e
sua mediação através do regime monetário" (Idem, ibidem).
De acordo com a leitura clássica sobre o sistema político brasileiro,2 as
relações federativas surgidas durante o período da redemocratização podem ser
resumidas da seguinte forma: o processo de descompressão lento e gradual,
gerenciado pelos dois últimos governos militares e pelas elites políticas
civis, que atuavam no Legislativo federal, iniciou-se com a volta do
pluripartidarismo e das eleições diretas para os governos de estado em 1982. O
fato de a eleição estadual direta ter ocorrido antes da eleição para
presidente, que aconteceu em 1989, tornou os governadores figuras-chaves no
processo de transição, e fortaleceu imensamente seus poderes de barganha, tanto
dentro dos estados como na política nacional. Isto ocorre, especialmente, por
meio do controle que exercem sobre a liberação das verbas utilizadas para o
financiamento das políticas públicas nos municípios, as bases locais sob as
quais se elegem as bancadas estaduais para as Assembleias Legislativas e o
Congresso Nacional. Os Executivos estaduais, durante a redemocratização,
retornaram à lógica do processo político do período da República Velha (1989-
1930) e da Democracia Populista (1945-1964), passando a ser o núcleo cêntrico
das políticas estaduais. O poder dos governadores, no dizer de Abrucio, se
"hiperatrofiou", vis-à-vis aos outros poderes estatais, "praticamente
eliminando o princípio constitucional da separação e independência entre os
poderes" (2002, p. 111).
A forma como o federalismo moldou a política nos estados tornou os governadores
capazes de anular os mecanismos formais de checks and balances. Os Executivos
estaduais, por serem "os donos do cofre", conseguem construir maiorias sólidas
nas Assembleias Legislativas, mesmo que elejam poucos deputados de seu partido
ou da coligação que os apoiou. Os principais mecanismos de convencimento são os
mesmos encontrados à disposição do presidente da República para conseguir apoio
parlamentar: cargos, distribuição de verbas do orçamento e convênios.
O presidencialismo brasileiro é considerado de coalizão (Abranches, 1988 e
2001); isto significa que o Executivo federal realiza acordos em que troca
apoio político pela seção de cargos na administração a partidos que possuem
representação no Congresso Nacional. Idealmente, o presidencialismo de coalizão
deveria funcionar numa lógica semelhante ao parlamentarismo, a formação do
gabinete seria a troca de cargos por apoio a um projeto político, assumido como
responsabilidade de todos. Contudo, de acordo com a literatura clássica, no
Brasil a distribuição de ministérios e postos de segundo e terceiro escalão não
acontece sobre o princípio da cooperação partidária,3 em torno de um programa
de governo comum. Como a atuação dos partidos políticos na Câmara Baixa não se
baseia em amplos programas de políticas públicas, e sim no paroquialismo
subnacional, os governadores e os líderes dos partidos procuram agir como
embaixadores de seus estados junto ao governo federal. Dessa forma, o Brasil
sofreria do que Shugart e Carey (1992) denominam"segredo ineficiente".4
Para a literatura clássica, o sistema partidário brasileiro é frágil e
acentuadamente desproporcional. Os legisladores constituintes de 1988 não
alteraram o modelo de representação proporcional de lista aberta para a Câmara
dos Deputados. A disposição espacial dos distritos eleitorais são os próprios
estados da federação, e o número de cadeiras colocadas em disputa varia de
acordo com a população residente. O tamanho do distrito eleitoral pode ir do
mínimo de oito ao máximo de setenta, fortalecendo na Câmara dos Deputados o
poder das elites dos estados economicamente menos desenvolvidos.5 Os candidatos
são eleitos de acordo com o montante de votos que receberem dos eleitores e
quando o partido ultrapassa a cota partidária. Estes elementos estimulariam a
proliferação de partidos com pequena representação parlamentar, volatilidade
eleitoral e comportamento individual dos deputados.6
Resumindo, o Brasil sofre de quase todas as patologias institucionais
identificadas na literatura sobre custos de governo e déficits fiscais: sistema
eleitoral proporcional de lista aberta, partidos políticos institucionalmente
frágeis, voto centrado em candidato, amplas e pouco coesas coalizões
governamentais. Contudo, apesar de todas as mazelas institucionais
identificadas na literatura clássica, o país foi capaz de estabilizar a
economia no governo FHC.
Da perspectiva da literatura clássica do federalismo, o sucesso do governo FHC
em estabelecer o controle sobre o endividamento público estadual e a
estabilização monetária é uma surpresa, algo que simplesmente não deveria ter
acontecido! Não houve mudanças profundas na estrutura institucional e nas
regras do jogo partidário que justificassem tal sucesso, então o que aconteceu?
Como explicar este paradoxo?
O governo Fernando Henrique Cardoso conseguiu construir mecanismos
institucionais que aumentaram o controle do Executivo federal sobre o déficit
fiscal dos estados, alterando significativamente as relações federativas no
Brasil. A renegociação das dívidas em 1997, o processo de privatização dos
bancos estaduais e de várias empresas estatais, o aumento da autonomia do Banco
Central, a Lei de Responsabilidade Fiscal e a Lei de Crimes Fiscais. Estes
fatos suscitam duas perguntas: primeiro, como ocorreu o processo de mudanças
nas relações federativas no governo FHC? Houve realmente uma recentralização do
poder político na federação?7
O governo FHC passou a ajudar os governos estaduais, porque era necessário para
a consolidação do Plano Real uma solução duradoura para o problema da dívida
dos estados. Parte da literatura defende que as mudanças na economia nacional a
partir de 1993, com o estabelecimento do Plano Real e o brusco aumento da taxa
de juros, colocaram os governos dos estados em posição de dependência do
governo central, que condicionou sua ajuda ao aceite de regras que
recentralizaram a federação (Sola e Kugelmas, 2002; Couto e Abrucio, 2003;
Regis, 2009). Outra parte afirma que houve um processo de forte negociação, um
imenso processo de barganha com a federalização da dívida dos estados, em troca
de mecanismos que insulassem o Executivo e a burocracia federal de futuros
baiouts (Rodden, 2003).
A seguir , discutiremos a situação econômica e política no Brasil, no momento
do estabelecimento do Plano Real e depois explicaremos como ocorreu o processo
de mudança das relações federativas, tendo como eixo o processo de privatização
dos bancos estaduais e a reeleição para cargos executivos.
Governo Itamar Franco e o Plano Real
A situação da economia brasileira no início de 1993 era dramática! A inflação
do ano anterior havia chegado a 1.149,06% (INPC), o PIB recuado -0,8% e a taxa
de desemprego aberto era 8%. O governo Itamar Franco, que assumiu após o
afastamento de Fernando Collor da presidência da República, demorou alguns
meses para iniciar um novo programa de estabilização macroeconômica. Mudanças
constantes de ministros, especialmente na área econômica, a falta de uma sólida
base parlamentar e um grande escândalo de corrupção envolvendo integrantes da
Comissão Mista do Orçamento do Congresso Nacional, que desembocou em uma
Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI), prejudicavam a articulação
governamental. Somente em maio de 1993, com a posse de Fernando Henrique
Cardoso, até então titular da pasta das Relações Exteriores, no cargo de
ministro da Fazenda, é que o governo adquire mais solidez institucional e
política.

No final de 1993, com a inflação em torno de 2.400,00%, o governo consegue a
aprovação de um mecanismo provisório de acerto das contas públicas, o Fundo
Social de Emergência (FSE). A função do FSE era permitir a redução da rigidez
existente entre a vinculação de receitas e o financiamento de despesas não
comprimíveis, estabelecidos pela Constituição de 1998. FSE permitiu à União
reter 20% de todas as receitas tributárias do orçamento federal, deduzidas às
transferências constitucionais aos estados e municípios, fundos regionais e o
Imposto Territorial Rural (ITR).
Em março de 1994, o governo federal institui a Unidade Real de Valor (URV). O
objetivo deste instrumento era promover o realinhamento de preços e contratos
por um índice comum, fixado diariamente. A URV permitiu a desindexação da
economia, retirando o caráter inercial do processo inflacionário. Em 30 de
junho de 1994 a URV foi transformada no Real. A nova unidade monetária foi
capaz de trazer para o país uma moeda com todas as suas características:
unidade de conta; reserva de valor e meio de pagamento. A inflação dos doze
meses anteriores foi superior a 5.000,00%.
Bancos estaduais: crise e privatização
Os governos estaduais, democraticamente eleitos a partir de 1982, pressionados
pelas demandas da sociedade civil e da falta de mecanismos de financiamento
decorrentes da crise fiscal do Estado nacional, passaram a ser financiados
através da emissão de títulos e debêntures dos tesouros estaduais, empresas
estatais, operações de Antecipação de Receita Orçamentária (AROs) e
principalmente, dos bancos estaduais que funcionavam como pequenos emissores de
"quase-moeda", impedindo que políticas de estabilização macroeconômicas
elaboradas e executadas pelo governo federal fossem efetivadas.
Os governadores financiavam-se sem preocupação com a capacidade de solvência
dos estados, muitas vezes utilizando mecanismos claramente ilegais, como no
caso dos precatórios judiciais em 1997, incentivados pela certeza de que, no
final, seriam socorridos pelo governo federal. O federalismo cooperativo
brasileiro sofria de um sério problema de moral hazard.
O desajuste fiscal dos governos estaduais ampliava-se a cada programa de
estabilização e após as eleições. O fim da inflação expunha os desequilíbrios
fiscais dos estados, ao retirar das mãos dos governadores o ganho que o
floating fornecia aos bancos estaduais e a possibilidade de utilização da
inflação como mecanismo de redução salarial. A necessidade de vencer as
eleições incentivava a adoção de políticas expansionistas de gastos. Em 1983,
1986, 1991 e 1995, os bancos estaduais apresentaram problemas generalizados de
liquidez, forçando o Banco Central a instituir programas de socorro financeiro
a tais instituições.8 As crises dos bancos estaduais coincidiam com o fim dos
ciclos eleitorais.
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A solução para as constantes crises financeiras dos bancos estaduais fazia
parte da agenda política dos formuladores do Plano Real, e estava coligada
diretamente com programas de privatização. A resolução da questão fiscal e de
endividamento dos estados era percebida como fundamental para a consolidação de
um programa macroeconômico consistente, que produzisse estabilidade de preços e
crescimento econômico sustentado em longo prazo. A privatização das empresas
estatais estaduais era um dos caminhos necessários para o controle das dívidas
dos estados.
O Plano Real, desde seu início, demonstrou ser diferente dos outros programas
de estabilização já realizados. Foi feito às claras, apresentado e discutido
com a sociedade, realizado em etapas tecnicamente coerentes e de conhecimento
público, apesar da acusação de dirigismo eleitoral que fazia a oposição. Seu
sucesso foi imediato, a inflação caiu em julho de 40,00% para 7,56% e 1,75% nos
meses posteriores. Depois de uma década de alta inflação, baixo crescimento
econômico e programas econômicos que fracassaram, o país possuía um plano que
dava certo. O sucesso imediato dessa (desse) plano elevou a popularidade do
ministro da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso, que venceu com 54,3% dos votos
sete adversários no primeiro turno da eleição presidencial. A inflação de 1994
foi de 929,32% (INPC).
O sistema financeiro público estadual era composto por 24 bancos múltiplos,
dois bancos comerciais e uma caixa econômica,9 e destes, menos de dez possuíam
patrimônio líquido insuficiente para cumprir seus compromissos (Folha de S.
Paulo, 20/3/1994 apud Kerches, 2001). O Banco Central ciente das dificuldades
que atingiam o sistema financeiro estadual, e da situação em que estariam estas
instituições depois das eleições, realizou no segundo semestre do ano várias
operações de ajuda, dentre as quais destacam-se: troca de títulos das dívidas
mobiliárias dos estados por papéis do Banco Central (resolução nº 2.081);
flexibilização das regras de recolhimento do depósito compulsório destas
instituições (circular nº 2.457); autorização para aquelas recolherem o
compulsório sobre depósitos judiciais de 100% do total de recursos, sob forma
de papéis de seus controladores (circular nº 2.462); operações de redesconto
para aumento da liquidez; e por fim, permissão da cessão de créditos dos bancos
estaduais para instituições não financeiras pertencentes a seus controladores e
a renegociação destes créditos por vinte anos (resolução nº 2127).10
Fechadas as urnas, o Banco Central passou a negociar com os novos governadores
as reformas capazes de dar solvência aos bancos estaduais. Contudo,
aproveitando o momento político pós-eleitoral, e diante de imensos passivos a
descoberto, o Bacen decidiu intervir nos bancos estaduais de São Paulo e Rio de
Janeiro, ambos governados pelo Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB),
a agremiação partidária do presidente da República. Junto a estas instituições,
sofreu intervenção o Banco de Desenvolvimento do Rio Grande do Norte, que
estava tão deteriorado que entrou imediatamente em processo de liquidação
extrajudicial. Depois sofreram intervenção, e colocados sobre regime de
administração especial, os bancos dos estados de Alagoas (23/1), Mato Grosso
(6/2) e Rondônia (20/2).11
De acordo com Gustavo Franco,
Tecnicamente, podíamos ter feito a intervenção nos 30 bancos
estaduais no mesmo dia ou pouco antes, mas como estratégia, para
lidar com um problema sistêmico, optamos por escalonar, fazendo o
mínimo que a lei nos obrigava a fazer naquele momento; ou seja, o
banco que está no Redesconto e não tem condições patrimoniais de
oferecer garantias precisa de uma intervenção, ou de um regime
especial, na mesma hora (Ver <http://www.econ.puc-rio.br/gfranco/
CPDOCMario%20Covas.htm >, acessado em março de 2009).
A situação fiscal dos estados brasileiros era desesperadora no final de 1994 e
durante o ano de 1995. A média do resultado primário por receita corrente
líquida12 foi superior a 10% negativo, a dívida pública estadual saltou de 44
bilhões de reais em 1993 para mais de 80 bilhões em apenas um ano, equivalente
a 30% do PIB, com encargos que representavam em média 5%. Em 1995, as dívidas
dos estados ultrapassaram o valor de 100 bilhões de reais, sendo que 62%
concentradas em quatro estados: São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Rio
Grande do Sul. A despesa de pessoal consumia em média mais de 50% da receita
corrente líquida, sendo pior a situação em estados como Acre (86%), Pará (70%),
Piaui (71%). A situação de gasto com funcionários piorou bastante para vários
estados no ano seguinte: Amapá de 59% para 82%, Brasília de 27% para 77%, Rio
de Janeiro de 67% para 95%, entre outros. Com o fim da inflação, as
instituições financeiras nacionais perderam em média 20% de seus lucros
(Makler, 2000) e os estados ficaram sem seu principal mecanimo de burlo das
restrições orçamentárias. Não havia solução possível para o problema do
endividamento e da crise fiscal dos estados sem a ajuda do governo federal, e
devido ao tamanho das dívidas, o Executivo federal decidiu agir de forma
imediata.
Paes (1996) observa que em nota emitida à imprensa em 30 de dezembro de 1994, o
Banco Central ao explicar as razões de intervenção no Banco do Estado de São
Paulo (Banespa) e Banco do Estado do Rio de Janeiro (Banerj), abria a
possibilidade de privatização destas instituições. No caso da instituição
carioca, o governo do estado não se opôs e contratou o Banco Bozano-Simonsen
para sanear a instituição e posterior privatização. A principal motivação do
governo Marcelo Alencar era reduzir a dívida do estado.
O programa de reestruturação do Banerj consistiu na estratégia adotada pelos
bancos privados: demissão de funcionários, aumento das taxas de administração e
fechamento de praticamente todas as agências existentes fora do estado.
Contudo, para conseguir privatizar o Banerj, em 1997, o governo do estado ainda
teve de assumir o Previ-Banerj (caixa de previdência dos funcionários do
banco), que possuía um passivo de 350 milhões de reais.13
Um fato interessante no processo de privatização do Banerj foi que o governador
impetrou Ação Direta de Inconstitucionalidade (Adin 1.348-RJ) contra o Art. 69
da Constituição Estadual ("as ações de sociedades de economia mista
pertencentes ao Estado não poderão ser alienadas a qualquer título, sem
expressa autorização legislativa") e seu parágrafo único ("sem prejuízo do
disposto neste artigo, as ações com direito a voto das sociedades de economia
mista só poderão ser alienadas desde que mantido o controle acionário,
representado por 51% das referidas ações"). Marcelo Alencar pretendia
privatizar o banco estadual sem a anuên-cia do Legislativo estadual, ,
reduzindo bastante, dessa forma, o campo de ação dos opositores à venda do
Banerj e a barganha que teria de fazer junto aos deputados estaduais para
conseguir a autorização legislativa. O Supremo Tribunal Federal (STF) deu ganho
de causa parcial ao governador, tornando inconstitucional o parágrafo único do
referido artigo.14 Contudo, afirmou que a venda do controle acionário deveria
ser feita com base em lei específica aprovada pela Assembleia Legislativa.
No caso do banco paulista, a situação foi bem diferente e a negociação, de
acordo com Kerches (2001), estabeleceu muito dos parâmetros legais que foram
sendo utilizados pelo governo federal no processo de redução da atividade
bancária dos estados.
Durante todo o ano de 1995, o governo federal negociou com a bancada paulista
uma solução para as dívidas do Banespa;15 do outro lado, o Bacen e o CMN
tentavam auxiliar os demais bancos (Kerches, 2001). O problema é que os estados
continuavam com déficits primários, que em parte estavam sendo financiados por
meio de operações de ARO, "e os elevados custos desse tipo de operação
aumentaram a vulnerabilidade dos governos subnacionais diante das oscilações
das taxas de juros" (Mora, 2002, p. 10). Ao mesmo tempo se acirrava a guerra
fiscal entre os estados, o que tornava difícil a curto ou a médio prazo uma
melhora na arrecadação dos estados.16
No final de 1995, o Conselho Monetário instituiu o Programa de Saneamento e
Ajuste Fiscal dos Estados, com linha de crédito especial administrada pela
Caixa Econômica Federal, para refinanciamento das operações de ARO, e o Banco
Central, via resolução 2217, autorizou as instituições financeiras estaduais a
concederem crédito a seus controladores com recursos de empréstimos em moeda
para liquidação dos débitos oriundos de operações de ARO contratadas com prazo
de pagamento de até 24 meses. Os estados comprometeram-se com a adoção de
medidas de ajuste fiscal, como a privatização de empresas estatais, contudo não
cumpriram o acordo.
Se, de um lado, o governo federal negociava e instituía programas de ajuda às
unidades subnacionais e seus bancos, de outro, também endurecia as regras da
liquidação extrajudicial. A Medida Provisória nº 1182 estabeleceu a
responsabilidade solidária dos controladores e a indisponibilidade de seus
bens, e ainda forneceu ao Bacen autoridade para realizar operações para
recuperação de instituições bancárias, independentemente de estar em regimes
especiais.
Em janeiro de 1996, depois de um ano de o Banespa sofrer administração
especial, o governo estadual e a União chegaram a um acordo que mantinha o
banco sob controle do estado. Metade da dívida do governo de São Paulo com o
Banespa, de 14 bilhões, seria paga com a venda dos ativos de empresas estatais
paulistas. O Tesouro Nacional financiaria o restante da dívida. O protocolo não
incluía as dívidas mobiliárias do governo paulista. O acordo não foi adiante. A
oposição do governador do estado, impasses na Assembleia Legislativa do estado,
no Senado federal e uma CPI para investigar as intervenções do Banco Central
fizeram com que a operação de refinanciamento das dívidas demorasse cinco
meses. Quando foi aprovada pelo Senado, a dívida do estado já havia chegado aos
20 bilhões, e o governador Mário Covas recusou-se a assinar o acordo (Kerches,
2001).
Foram emblemáticas as divergentes posturas dos governadores de São Paulo e Rio
de Janeiro diante do problema, sendo todos do mesmo partido do presidente. A
defesa da estabilidade monetária e da responsabilidade fiscal era um elemento
importante do discurso dos políticos do PSDB, inclusive dos governos estaduais
eleitos, contudo uma coisa é a posição de governador, outra, de presidente.
Existe em toda a federação um conflito natural e intrínseco entre o governo
central e os governos subnacionais, mesmo que sejam de um mesmo partido. A
diferença da postura de Mário Covas em relação à postura de Marcelo Alencar na
questão da privatização pode ser creditada, em parte, à situação fiscal dos
dois estados.17 São Paulo estava em posição fiscal muito melhor do que o Rio de
Janeiro para negociar com o governo federal; o governo carioca estava em 1995
com um rombo nas contas de -30% da sua receita líquida e comprometia 67% dos
seus recursos com pagamento de funcionários. Mesmo que o novo governo paulista
tivesse um resultado primário de menos 25% no início do governo, conseguiu
reduzir este déficit para quase zero um ano depois, e comprometia menos de 50%
de seu balanço primário com pagamento de servidores.
A dificílima negociação de um acordo em São Paulo, e as pressões no Senado para
uma solução que também abarcasse os outros estados, fez com que o governo
federal dobrasse a aposta sobre a mesa. Em 7 de agosto de 1996, foi editada a
Medida Provisória 1514,18 instituindo o Programa de Incentivo à Redução da
Presença do Estado na Atividade Bancária (Proes).
Grosso modo, a nova legislação pode ser vista como uma extensão a todas as
unidades subnacionais de uma versão anabolizada do antigo acordo realizado em
São Paulo. A questão central entre o governo paulista e a União era que "as
tentativas de trocar dívidas por patrimônio esbarravam num obstáculo
intransponível: não havia imóveis que nem de longe as compensassem, mesmo nas
avaliações mais favoráveis" (Cardoso, 2006, p. 367).
O Proes apresentava duas características importantes, ausente dos outros
programas de ajuda financeira aos bancos estaduais, e que tiveram impacto
significativo para a dinâmica política interna dos estados: primeiro, era um
programa voluntário, a adesão não era obrigatória,19 e segundo, ao governo
estadual cabia a escolha da forma de participação. Isso trazia para dentro do
jogo federativo as escolhas não apenas do governo estadual, mas também do Poder
Legislativo local, que deveria dar o aval final por intermédio de uma lei
específica. Dessa forma, haveria repartição do ônus da escolha entre a União e
as elites políticas estaduais no poder (Kerches, 2001).
O mecanismo central para induzir os governadores de estado e a Assembleia
Legislativa a decidirem-se pelas principais preferências do Executivo federal,
extinção ou privatização da instituição, era o financiamento de 100% das
dívidas dos estados. Em termos estritamente técnicos, tratava-se de um acordo
excelente, livrando o estado de ter que administrar uma instituição quase
sempre deficitária num ambiente de alta volatilidade da taxa de juros, e ainda
livrando o Tesouro estadual de ter que receber de volta os títulos que havia
utilizado como garantia dos empréstimos. Mas havia uma questão: e as outras
dívidas, contratual e mobiliárias, como seriam solucionadas?
O desequilíbrio financeiro dos estados era generalizado. As dívidas mobiliárias
de curto prazo, especialmente as contraídas por antecipação de receita,
altamente influenciadas pela taxa de juros, tornava a relação dívida/receita
líquida disponível cada vez mais distante. Em 1996, apenas seis das 27 unidades
subnacionais tinham Indicador de Meta Fiscal (IMF), que mensura a relação entre
a dívida estadual e a receita líquida corrente, igual ou menor que um, à média
nacional de 1,89. Seis estados - Piauí, Minas Gerais, São Paulo, Rio Grande do
Sul, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Goiás - possuíam IMF acima de 2,0 (Mora,
2002). O desajuste era de tal magnitude que, políticas de contração de despesas
sozinhas, como os programas de reforma administrativa e reforma administrativa
dos estados, não conseguiriam revertê-las. Seu crescimento já era inercial e
exponencial.
A negociação de uma solução para o problema da dívida que envolvesse todos os
estados e não apenas São Paulo iniciou-se em dezembro de 1996 com a publicação
da Medida Provisória 1560. A primeira cláusula estabelecia a data na qual o
governo federal esperava poder conseguir efetuar toda a negociação, 30 de junho
de 1997. Contudo, o processo foi mais longo, e a MP até se transformar em lei
passou de onze para quinze artigos, sem contar as várias letras e incisos
inseridos. O acordo final para a dívida dos estados foi conseguido no início de
setembro e materializado na Lei 9496/97,20 que instituiu o Programa de Apoio à
Reestruturação Fiscal e Financeira. Foi a única, entre as sete rodadas de
negociação realizadas entre a União e os estados a partir de 1988, três delas
desde 1991, em que o governo central condicionou os empréstimos para o
financiamento de dívidas a um amplo ajuste fiscal, patrimonial e cumprimento de
metas pelos governos de estado.
Os pagamentos das dívidas assumidas pela União seriam em 360 prestações, com
carência de mais dez anos, com juros entre 6% a 7,5% ao ano. Vinte por cento do
montante renegociado deveria ser entregue sob a forma de bens e direitos para
amortização das dívidas à vista. Para manter a capacidade de pagamento dos
estados foi estabelecido um limite de comprometimento da receita, que seria
entre 11,5 a 15%. Isto variava basicamente por causa da capacidade do estado de
pagar os 20% à vista. Àqueles que não possuíam ativos para o pagamento foram
punidos com regras mais restritivas.
As regras para o pagamento do refinanciamento, além de estabelecerem prazos
extensos, embutiam forte subsídio implícito. De acordo com Mora (2002),
tomando-se como referência uma tabela Price com taxas de juros entre 8 % e 10%
ao ano, e comparando-a com a de 6% estabelecida nos contratos, chega-se a um
subsídio que varia entre 27% a 88% do PIB nacional.21
No caso de inadimplência do estado, o governo federal tinha o direito de
substituir as condições de pagamento do refinanciamento pelo custo médio de
captação da dívida mobiliária federal, acrescido de um por cento ao ano, e
elevação em quatro pontos percentuais do comprometimento da receita, que
valeria enquanto durasse o descumprimento do acordo, sem prejuízo das demais
cominações pactuadas nos contratos. Nos estados com maior poder econômico,
também seriam retidas parcelas do Fundo de Participação dos Estados.
O acordo de refinanciamento foi excelente para os governos estaduais,
revertendo o quadro de insolvência que se abatia sobre os estados. Em 1997
houve um alívio de caixa que permitiu um superávit no Resultado Primário por
Receita Corrente Líquida de 7,52% (que se tornou negativo em 15,78% no ano de
1998 em face das eleições estaduais).22
Analisando os impactos positivos que a renegociação das dívidas estaduais tinha
sobre os cofres do Tesouro Estadual do Rio Grande do Sul, o deputado estadual
César Buzato (PMDB), em discurso na Assembleia Legislativa do estado, no dia 7
de abril de 1998, afirmou:
O Rio Grande do Sul tomou a dianteira na busca de uma solução
estrutural ao problema da sua dívida mobiliária, acumulada ao longo
de mais de duas décadas, que alcançou a cifra de 8 bilhões e 100
milhões de reais em 31 de dezembro de 1997. Seu crescimento, a juros
de mercado, era de 2 bilhões e 200 milhões de reais/ano, 186 milhões
de reais/mês, 6 milhões de reais/dia.
Em 20 de setembro de 1996, [...] o Rio Grande do Sul foi o primeiro
Estado brasileiro a assumir e a assinar o protocolo de renegociação
global da dívida mobiliária do Estado. Conseguimos condições
absolutamente excepcionais. Trinta anos de prazo, taxas de juros fixa
de 6% ao ano, correção monetária pelo IGPDI, da Fundação Getúlio
Vargas, 18% de ativos do Estado para amortizar o estoque da dívida e
a data de corte da dívida, a partir da qual ela cresceria apenas 6%
fixos ao ano, estabelecida em 31 de março de 1996.
Se examinarmos a evolução da dívida do Estado, com e sem
renegociação, podemos dizer o seguinte: a dívida, hoje, é de 10
bilhões e 900 milhões de reais. Cada gaúcho deve 1 mil, 147 reais e
40 centavos. Sem renegociação, no ano 2012 nossa dívida atingiria,
aos preços de mercado de hoje, a estrondosa cifra de 76 bilhões e 900
milhões de reais. Cada gaúcho passaria a dever 8 mil, 94 reais e 70
centavos.
Com a renegociação conquistada, no mesmo ano 2012 essa dívida será de
tão-somente 7 bilhões e 200 milhões de reais. Cada gaúcho deverá
apenas 756 reais e 50 centavos.
Outras vantagens absolutamente importantes foram alcançadas com a
renegociação. O subsídio conquistado pelo Estado desde a data do
corte da dívida - 31 de março de 1996 até hoje - é da ordem de 1
bilhão e 200 milhões de reais. A redução da taxa de juros, que é hoje
de 28% ao ano, foi fixada em 6% ao ano, com uma economia de 1 bilhão
e 500 milhões de reais/ano.
Recuperou-se a credibilidade do Estado, que voltou a ter acesso a
financiamentos internacionais de longo prazo.
[...]
Recuperamos, enfim, as margens operacionais do Banrisul, para que
esse banco possa realizar novos financiamentos à atividade econômica
gaúcha.
Com a renegociação da dívida do Estado, eliminou-se o crescimento
explosivo provocado pelo impacto dos juros sobre a dívida. Ao mesmo
tempo, eliminou-se um fardo insustentável que infernizou o Governo
Simon, o Governo Guazzelli, o Governo Collares e que tirou o sono do
Governador Antônio Britto por três anos e três meses (Disponível em
<http://www.al.rs.gov.br/anais/49/plenario/1998/980407.htm>).
Se os estados estavam tão fragilizados, por que o governo federal não conseguiu
impor suas primeiras escolhas aos governadores? Nas relações federativas são
inerentes os conflitos de interesses entre as unidades subnacionais e o governo
central, e em um regime democrático tais disputas pautam-se em acordos firmados
pelo Legislativo. Nos regimes democráticos, conflitos não são jogos de soma
zero! O comportamento dos atores políticos varia de acordo com as regras
formais e informais existentes, punições críveis e a ação dos outros atores, ou
seja, pautam-se por uma conduta estratégica. Houve uma grande mudança no
comportamento do Executivo federal, eleito em 1994, em relação aos governos
anteriores: a convicção de que a estabilidade monetária somente seria
conseguida com o controle do déficit público dos estados. Era do conhecimento
de todos que isto somente poderia acontecer se houvesse a privatização das
empresas públicas e a obediência hermética às regras de refinanciamento
acordadas. Os governadores tinham consciência disso, tentaram reagir,23 não
conseguiram, mas tinham a seu favor a possibilidade de falência completa dos
estados.24 A falência completa dos estados poderia levar a uma séria crise de
governabilidade; exemplos locais abundavam e os casos mais emblemáticos eram
Espírito Santo e Alagoas (cujo governador renunciou em julho de 1997).25 Ao
governo federal interessava dar uma solução para a crise fiscal dos estados, e
não levar à federação a bancarrota!
A renegociação das dívidas estaduais e o Proes ocorreram simultaneamente.26 De
uma perspectiva puramente racional, o timing do processo não ocorreu de forma a
privilegiar as escolhas do governo federal. Para a equipe econômica - hard core
da administração Cardoso, uma burocracia altamente insulada das influências
políticas dos governos estaduais e do parlamento -, o ideal seria realizar
primeiro a negociação do Proes e depois das dívidas mobiliárias estaduais. Para
o governo federal fechar "a torneira" dos bancos estaduais era mais urgente,
por duas razões: reduzia um sério elemento de desequilíbrio no sistema
financeiro nacional e diminuiria o espaço de negociação dos estados, que
ficavam sem um instrumento importante de financiamento dos Tesouros estaduais.
Mesmo sem poder financiar diretamente seus controladores, especialmente
mediante antecipações de receita orçamentária, os bancos estaduais realizavam
operações trianguladas de financiamento dos governos estaduais, tanto por meio
de créditos a empresas estatais como via empréstimos de baixa qualidade para
fornecedores governamentais. Para os governadores, idealmente o timing do jogo
era o oposto, livrar-se primeiro das dívidas mobiliárias e depois negociar a
questão dos bancos estaduais.
A lógica do programa de redução da atividade das instituições financeiras
públicas estaduais era fornecer aos governos dos estados quatro diferentes
escolhas condicionadas a duas formas específicas de financiamento das dívidas
estaduais e a adoção de medidas de modernização da administração bancária: 1)
extinção da instituição; 2) transferência do controle da instituição financeira
ao governo federal para privatização; 3) privatização sobre o controle do
governo estadual; 4) saneamento.
Da perspectiva dos governos estaduais, que buscaram as linhas do financiamento
do programa para o financiamento de suas dívidas, essas quatro escolhas, grosso
modo, podem ser transformadas em duas categorias analíticas: as três primeiras
(números 1, 2 e 3) significavam a perda do banco. A última, a manutenção da
instituição. As preferências dos governos estaduais, sem levarmos em conta os
tipos de refinanciamento, podem ser apresentadas da seguinte forma: ([1, 2 e 3]
< 4 ).
O ranking de preferências do governo central é bem mais simples; a
privatização, a federalização ou a extinção das instituições financeiras
estaduais que significam o fim do sistema financeiro subnacional.
A primeira escolha, extinção, aplica-se em três situações: no caso de
instituição em processo de liquidação extrajudicial (na qual o estado pouco
podia fazer, a não ser pagar as contas e capitalizar seu banco), por meio de
processos de incorporação, fusão, cisão ou qualquer outra forma de
reorganização societária autorizada pelo Banco Central, ou ainda, pela
transformação do banco estadual em Agência de Fomento.
Na contrapartida federal, se o estado aceitasse entrar no Proes, o
financiamento era de 100% do total das dívidas do Banco, no caso de o governo
estadual aceitar a extinção, a privatização ou a federalização da instituição,
e de 50%, se a escolha fosse pelo saneamento da instituição. Esta era uma
diferença muito importante, não só pelo tamanho da contrapartida do governo
estadual, mas também por obrigar esta a ser feita de forma antecipada.27 Além
disso, as regras do Proes obrigavam a instituição financeira a assumir suas
dívidas com terceiros, existentes em 31/1/1996 e registradas em balanço,
incluindo passivos de natureza atuarial ou trabalhista e capitalizar o banco. A
contrapartida do governo federal ainda dependia de manifestação favorável do
Banco Central, da Secretaria do Tesouro Nacional e do Conselho Monetário
Nacional.
A instituição de Agências de Fomento foi a forma encontrada pela equipe
econômica de tornar mais atrativo aos governadores a escolha da principal
preferência do governo federal: o fim de uma instituição financeira sob o
controle dos estados. Como a argumentação política central para a existência de
bancos estaduais era de que os estados deveriam possuir uma instituição
financeira que pudesse captar recursos, e depois transferi-los para projetos de
desenvolvimento, as Agências de Fomento deveriam servir de estímulo aos
governadores na escolha das opções. Com a ideia das Agências acreditava-se
reduzir a oposição dos estados menos desenvolvidos.
As regras que regem o funcionamento das Agências de Fomento afirmam que cada
estado somente pode possuir uma Agência, e estas não são instituições
financeiras, apesar de serem subordinadas à supervisão e à fiscalização do
Banco Central. Destinam-se a financiar projetos de desenvolvimento no estado,
cujos recursos podem ser captados no país ou no exterior, originados de fundos
constitucionais, do orçamento de estados e municípios e instituições
internacionais. As Agências ainda devem constituir um fundo de liquidez no
mínimo equivalente aos seus ativos colocados em risco, a ser totalmente
composto de títulos federais.
Discurso e prática são coisas diferentes, e em política esta distinção é
crucial. A equipe econômica afirmava que publicamente as regras e os prazos do
programa eram inegociáveis, isto porque eram fundamentais para a consolidação
do Plano Real, mas na prática o governo federal e os governadores negociavam
febrilmente, aproveitando-se das inúmeras reedições da Medida Provisória 1514.
A possibilidade de alterar o conteúdo das MPs, a cada reedição, fornecia ao
governo federal um grande espaço de manobra para agir, corrigindo erros,
introduzindo novas questões não imaginadas no início de sua confecção e,
principalmente, adaptando as medidas à barganha e às conveniências políticas. A
variável tempo sempre foi importante no caso do Proes por duas razões:
primeiro, quanto mais demorava a negociação, maior o custo das dívidas e,
consequentemente, perda do valor patrimonial da instituição; segundo, todos os
atores buscavam uma solução de consenso antes das eleições de 1998,28 pois o
governo federal sabia que quando começasse o processo eleitoral, toda a
negociação seria paralisada, e mais, os perdedores das eleições dificilmente
teriam condições políticas de negociar uma solução que implicasse a redução da
participação do estado no sistema financeiro.
Várias foram as mudanças introduzidas na Medida Provisória 1514 para adequar as
preferências do Executivo às dificuldades das negociações políticas. Um dos
primeiros problemas que surgiu no debate foi sobre os ativos particulares nas
contas dos bancos estaduais. No Proer, a proteção dos aplicadores e
correntistas era dada pelo Fundo Garantidor de Crédito (FGC), até o valor
máximo de 20 mil reais. Para as instituições financeiras estaduais, a solução
foi diferente, e bem mais palatável aos governadores de estado. O artigo n.º 20
da quarta reedição da Medida Provisória do Proes (1514-4) autorizou as
instituições financeiras federais a assumirem os passivos dos bancos estaduais
com o público (cadernetas de poupança, depósitos à vista, investimentos) e
afirma que "a União assegurará à instituição financeira federal que assumir os
passivos junto ao público a equalização da diferença existente entre o valor a
ser recebido da instituição financeira estadual e de seu controlador em
decorrência da operação e o valor a ser pago ao Banco Central do Brasil pelos
recursos obtidos em linha de financiamento específica para dar suporte aos
passivos assumidos" (art. nº 20, inciso 1º da MP 1514-4). Independentemente do
valor aplicado, os correntistas dos bancos estaduais receberiam seu dinheiro de
volta. Num ano pré-eleitoral, qualquer medida que parecesse ao público bloqueio
de haveres monetários poderia ser fatal a qualquer reeleição.
As dificuldades de negociação, especialmente na confecção dos protocolos de
intenção que eram estruturados de forma ad hoc,29 exigiram que os prazos
fixados nas diferentes medidas provisórias fossem constantemente prorrogados.
Enquanto alguns estados negociavam rapidamente com o governo federal,
especialmente aqueles estados onde a situação fiscal era mais complexa e os
governadores apoiavam o presidente da República, como Rio de Janeiro, Minas
Gerais e Rio Grande do Sul, a maioria protelava a decisão de escolha procurando
chegar ao melhor termo nas negociações.
A estratégia de postergar as negociações deu certo para alguns estados,
especialmente em relação a um dos grandes problemas do processo de
privatização/extinção dos bancos estaduais, o passivo previdenciário. Minas
Gerais, em março de 1997, após negociações com o governo federal recebeu um
empréstimo-ponte do CMN de 350 milhões para este fim. Santa Catarina, que
originalmente se definiu pelo saneamento do Besc, terminou "postergando"30 as
negociações até meados de 1999, e conseguiu que a União federalizasse todo o
passivo de mais de 500 milhões do Instituto de Previdência dos Servidores do
Estado. O mais interessante da negociação de Santa Catarina é que a
federalização do passivo do Instituto de Previdência do Estado de Santa
Catarina (Ipesc) também foi uma compensação pelo veto do Senado a uma operação
ilegal de emissão de precatórios.31
Depois que o governo federal assumiu o passivo previdenciário do banco estadual
de Santa Catarina, o governador fez passar na Assembleia Legislativa o projeto
de lei que regulamentava a federalização do Banco do Estado de Santa Catarina
(Besc), tendo o contrato sido assinado em 30/9/1999.
Goiás também retardou as negociações. O governador do estado, extremamente bem
colocado nas eleições para o Senado, deixou para assinar o contrato depois das
eleições de 1998, quando conseguiu fazer seu sucessor. Por sua espera foi
premiado:
[...] pelo período de 60 meses após o estabelecimento das regras de
pagamento, o novo controlador deverá manter todos os benefícios
oferecidos pela CasBEG, instituição responsável por garantir a
assistência médica dos empregados do Bando do Estado de Goias (BEG).
No caso do BEG ficar desobrigado dos potenciais encargos existentes
no PREBEG, fundo de pensão de seus empregados, o comprador terá que
ressarcir o governo federal (Bacen, "Relatório Focus", 13/12/2001, p.
2).32
Os prazos para assinatura dos contratos de refinanciamento das dívidas dos
governos com seus bancos estaduais, fixados nas MP do Proes, foram estendidos
quatro vezes. Como observamos, o governo tinha como principal preferência
privatizar o maior número de instituições financeiras públicas estaduais, mas a
variável tempo que depreciava o valor dos ativos dos bancos incentivava o
governo a oferecer mais ajuda para conseguir seu objetivo. O primeiro dead line
foi fixado em 30 de junho de 1997. A MP 1612-18 fixou novo prazo para 31 de
dezembro. Novamente fixou nova data, apenas para a opção de saneamento até 31
de março de 1998, e para todas as demais opções 30 de junho de 2000 (MP 1612-
19).
Para aumentar suas margens de manobra nas negociações, o governo federal
estendeu o prazo final para a vigência do Regime de Administração Especial
Temporária (Raet), podendo chegar ao máximo de 450 dias se o governo do estado
tivesse assinado o protocolo para implementação das medidas previstas,
inclusive privatização. Sem esta prorrogação de prazos, os bancos públicos
estaduais que não possuíssem patrimônio líquido suficiente para cumprir suas
obrigações bancárias teriam que ser sumariamente liquidados.
Durante os dois primeiros anos do processo de negociação do Proes, a maioria
dos governadores se mostrava disposta a manter suas instituições, contudo as
benesses de aceitar as preferências do Executivo federal, a incapacidade de
levantar os recursos para as contrapartidas, no caso do saneamento (por falta
de poder político para mobilizar tais recursos ou a avaliação de que os custos
eram altos demais), levaram os governos estaduais a aceitar abrir mão de seus
bancos. As eleições aproximavam-se e o adiantamento dos créditos a serem
conseguidos com a privatização era um forte estímulo para a assinatura dos
contratos. Um exemplo é o caso de Pernambuco. O governador Miguel Arraes
demonstrava, inicialmente, a intenção de preservar o banco estadual,33 contudo
sem condições de bancar a contrapartida exigida pelo governo federal, terminou
por aceitar a preferência do Executivo federal. Em junho, o estado assinou com
o governo federal o contrato de privatização do Banco do Estado de Pernambuco
(Bandepe) e a criação de uma Agência de Fomento. Um mês depois, o Senado
autorizou a liberação dos recursos no valor de um bilhão e meio de reais.
A preocupação com a questão eleitoral fica clara no timing da ação. No início
do segundo semestre de 1997, apenas cinco estados "tinham intenção de aderir ao
Proes: Rio de Janeiro, Minas Gerais, Mato Grosso, São Paulo, Pernambuco,
Alagoas e Rondônia" (Leal, 2000, p. 75). As assinaturas dos contratos do Proes
ocorreram, em sua maior parte, no final do primeiro semestre do ano de 1998 -
final do prazo para o aceite do caso de saneamento. A maioria dos governos, na
falta de condições de manter o banco, optou por privatizar, extinguir ou
transformar a instituição em Agência de Fomento. Não houve nenhuma assinatura
de contrato durante o período eleitoral. Era importante, tanto para a União
como para os estados, resolver a questão antes do início da campanha. Para a
maioria dos governadores com sólida base política, a questão era quanto ainda
poderiam conseguir, negociando com o governo federal. Ceará, Amazonas e Goiás
apostaram em negociar mais e foram premiados com melhores acordos. Para os
governadores sem maior poder eleitoral, o ideal era aceitar rapidamente os
acordo nos termos feitos pela União, receber os recursos da privatização e
investir pesadamente para conseguir melhorar sua posição.
Analisando o risco eleitoral do governador em relação a seus concorrentes, no
início do processo eleitoral, pode-se perceber que em vários casos parece
existir uma relação entre a assinatura do contrato e a expectativa de vitória
ou derrota nas eleições no primeiro turno (exceção do estado de Goiás). Para se
analisar a validade da hipótese da relação entre eleições e percepção de risco
eleitoral, foi realizado um teste de Qui-quadrado (2 x 2), com duas variáveis:
Assinatura de Contrato (0 = antes das eleições e 1= depois das eleições) e
Risco Eleitoral.34
[/img/revistas/rbcsoc/v26n77/12t01thumb.jpg]
Tabela_1
O resultado do Teste de Fisher demonstra que há associação entre Risco
Eleitoral e data da Assinatura do Contrato (p-value =0,034). Um governador que
acreditasse estar em posição de incerteza ou risco, tenderia a assinar o
contrato com o governo federal e receber os recursos do BNDES para aplicação em
seu estado, o que deveria produzir uma melhora na posição eleitoral.
Quais as motivações de um governo escolher ou não sanear um banco estadual? A
principal razão é a capacidade, ou falta dela, do governo estadual de levantar
as contrapartidas exigidas pelo governo federal, ou não (assumir 50% da dívida,
sendo que 20% deste total, à vista em ativos), e esta impossibilidade é
derivada também da alta fragmentação no Poder Legislativo. No caso de não
possibilidade de saneamento da instituição financeira, quais variáveis
explicariam as outras escolhas: privatizado pelo controle do estado,
privatizado/federalizado ou extinto?
Para explicar os motivos que implicaram nas escolhas, é preciso introduzir um
novo procedimento de análise estatística,35 e em face das quatro opções
inseridas no Proes, é necessária a adoção de um modelo de escolha múltipla,
método que se baseia em uma distribuição de probabilidade entre as alternativas
e suas utilidades esperadas.
Partindo das escolhas existentes no Proes, construímos uma variável dependente
categórica (mudança de status quo), com o seguinte ordenamento: 1) extinto/
liquidado;36 2) privatizado/federalizado; 3) privatizado pelo Estado; e 4)
saneado. Estas significam a perda gradativa do controle do estado sobre a
instituição ou o processo de privatização/extinção, do último ao primeiro. O
modelo estatístico a ser utilizado é uma Regressão Multinomial Ordenada
(distribuição Probit).
As variáveis independentes categóricas são (dummies): "Agência de Fomento",
"Raet" (se esteve alguma vez em regime de administração especial ou processo de
liquidação extrajudicial entre 1983 a 1998), "mais de um banco comercial" (se
possuía mais de um tipo de instituição financeira), "esquerda, direita,
centro", "apoia o presidente da República" e "continuação" (se o governador
eleito em 1994 é continuação da administração anterior). As variáveis numéricas
são: "receita tributária própria por receita corrente líquida", "resultado
primário por receita corrente líquida", "número de votantes em relação ao
eleitorado", "taxa de fragmentação", "despesa de pessoal" e número de
partidos", "porcentagem de cadeiras que a coligação do governador obteve na
Assembleia Legislativa", "porcentagem de cadeiras ocupadas por partidos de
esquerda". O espaço temporal do painel vai de 1995 a 1998.
A estratégia metodológica foi a seguinte: serão executados quatro modelos. No
primeiro serão analisadas as variáveis categóricas ligadas diretamente à
questão dos bancos estaduais ("agências de fomento", "Raet" e "mais de um
banco"); no segundo, introduziremos variáveis de desempenho fiscal ("receita
tributária própria por receita corrente líquida", "resultado primário por
receita corrente líquida" e "despesa de pessoal"); no terceiro modelo serão
introduzidas variáveis políticas ("taxa de fragmentação", "número efetivo de
partidos", "porcentagem de cadeiras que a coligação do governador obteve na
Assembleia Legislativa" e "porcentagem de cadeiras ocupadas por partidos de
esquerda"); e no quarto modelo serão introduzidas as dummies referentes à
ideologia e apresentados os coeficientes.
A leitura dos modelos multinomiais ordenados é simples, a saber, o sinal
positivo indica que a variável influencia a escolha do governo estadual na
direção do que racionalmente deveria ser sua primeira preferência (saneamento).
O sinal negativo indica o contrário, que a variável afasta o ente subnacional
da sua primeira preferência, aproximando-o daquela pertencente ao Executivo
federal (extinção). Os governadores possuíam como primeira preferência manter
os bancos estaduais sobre o controle dos governos, contudo a negociação com o
governo central, as dificuldades econômicas e as eleições alteraram a posição
do ranking de preferência do Executivo estadual.
[/img/revistas/rbcsoc/v26n77/12t02thumb.jpg]
Tabela_2
Os Probits desenvolvidos demonstram que as principais variáveis explicativas
para o aceite das regras do Proes pelos estados, e consequentemente mudança do
status quo nas relações federativas, foram "agências de fomento", "Raet",
"despesa de pessoal", "apoia o presidente" e o "governador pertencer a partido
político de centro" (sinais negativos).37 Desta forma, um estado que tenha
negociado a constituição de uma instituição não financeira de fomento teve o
banco estadual sob administração especial no período, o governador pertencia a
partido político que apoiava o presidente no Congresso Nacional
(ideologicamente de centro), com alta despesa de pessoal em relação à receita
corrente, tenderia a aceitar liquidar a instituição ou privatizá-la. No caso
das duas primeiras variáveis, estas também fazem parte das conclusões de Beck,
Crivelli e Sumerhill (2003), as outras não.38
Os modelos demonstraram que, no caso da unidade subnacional possuir mais de um
banco comercial estadual, esta teria a tendência de sacrificar uma instituição
e sanear a outra.
Todas as variáveis introduzidas no modelo 3 da regressão apresentaram valor de
p significantes. Como os contratos do Proes exigiam a anuência do parlamento
estadual, variáveis que medem a desagregação parlamentar e partidária são
importantes para percebermos como a distribuição interna das forças políticas
das Assembleias Legislativas podem ter impactado no processo. "Taxa de
fragmentação" e "número efetivo de partidos" apresentaram sinais contrários. A
primeira indica que maior fragmentação partidária poderia tornar mais difícil
para o governo estadual chegar a um acordo nos termos da principal escolha da
União (extinção). Número efetivo de partidos indicaria o contrário, quanto
maior o percentual de cadeiras ocupadas por diferentes legendas partidárias,
mais fácil deveria ser para o governador conseguir a aprovação do acordo com os
legisladores. A variável "porcentagem de cadeiras" que a coligação do
governador obteve na Assembleia Legislativa apresentou sinal positivo,
indicando que, quanto maior a base de apoio parlamentar eleita pelo governo
local, mais improvável o governador conseguir uma acordo com a União para a
extinção ou liquidação das instituições bancárias. Contudo, deve-se observar
que os coeficientes destas duas últimas variáveis são muito fracos, com p valor
a 10%. No modelo 4, quando foram introduzidas as variáveis representativas da
ideologia partido do governador, todas perderam significância estatística.
Duas variáveis deste conjunto merecem destaque: "porcentagem de partido de
esquerda na Assembleia Legislativa" e "se o governo é continuidade do
anterior". Ambas apresentaram valores de p < 0.5% e sinais positivos nos
modelos 3 e 4. A primeira indica que, um maior número de parlamentares de
partido de esquerda dificultava a assinatura de um acordo com a União, centrado
nas preferências deste último, o que vai de acordo com a lógica das teorias
institucionalistas. A segunda indica que, se o governo era continuidade do
anterior, a tendência era de realizar escolhas mais próximas das preferências
dos governadores de estado, como privatização pelo controle do governo estadual
ou saneamento.
No fim, o processo de redução chegou aos termos desejados pelo governo federal.
O sistema financeiro público estadual foi reduzido a menos de um quinto do que
era quando Fernando Henrique Cardoso assumiu o poder. Os estados tinham sob seu
controle, em 1994, 33 instituições financeiras entre bancos, caixas e
instituições de desenvolvimento. Em três anos de extensas negociações, o
governo federal conseguiu uma renegociação de dívidas com regras de punições
críveis e extinguiu quase que completamente o setor financeiro público
estadual. Nunca, na história do Brasil, houve em períodos democráticos, tamanha
mudança no status quo das relações federativas em tão pouco tempo.
Conclusão
Em ciência política é comum se falar de ganhadores e perdedores. Contudo,
muitas vezes esta relação não pode ser completamente compreendida ou deve ser
relativizada. No interior das relações federativas, parecenos que a barganha
trouxe perdas e ganhos a todos. Certamente, em termos de accountability, da
previsibilidade do crescimento da dívida pública e da estabilidade econômica, o
processo de redução da atividade bancária dos estados foi uma vitória, mas a
que custo? O volume de títulos federais emitidos no âmbito do Proes foi de 61
bilhões e quatrocentos milhões de reais, mais de 100% de toda ajuda federal
anteriormente realizada para salvamento destas instituições financeiras.39
Mesmo concordando com conclusões que enfatizam que o processo significou uma
vitória do governo federal, como as de Garman, Silva e Marques (1998) e Kerches
(2001), há necessidade de relativizá-las. No jogo, claramente não houve uma
imposição de preferências, mas uma ampla negociação, em que elementos-chaves
levaram os estados a trocar o controle de suas instituições pelos amplos
refinanciamentos de dívidas oferecidas pelo governo federal. O volume dos novos
empréstimos, a permissão de os estados constituírem Agências de Fomento, a
percepção que o sucesso do Plano Real dependia do controle do gasto público
estadual, a proximidade com o governo federal, o ciclo político, a permissão da
reeleição para os cargos executivos e a percepção do risco eleitoral foram
elementos inerentes ao processo.
O processo de redução da atividade bancária permitiu a centralização do poder
de "monopólio de emissão de moeda" nas mãos do Banco Central. Ao governo
federal garantiu um maior controle da dívida pública e aos estados, um forte
alívio imediato de caixa e recursos para serem gastos durante o período
eleitoral. Dos governadores de estado que disputaram um novo mandato ou
apoiaram correligionários, 60% conseguiram seu intento.
Notas
1 Abrucio (2002); Abrucio e Costa (1999); Abrucio e Samuels (1997); Ames
(2003); Mainwaring (1991 e 1999), Samuels (2003) e Regis (2009).
2 Amorim Neto denomina esta visão de pessimista e defende que é principalmente
consequência do espaço temporal onde foram desenvolvidas estas análises. "[...]
os principais observadores da primeira década do Brasil pós-autoritário
descreveram os seus partidos, na sua maioria, como indisciplinados e
disfuncionais, mesmo para os padrões latino-americanos e, por isso, seriamente
danosos para uma efetiva governabilidade, a consolidação democrática e a
reforma economica do país" (2006, p. 127).
3 Esta afirmação é fortemente contestada por Meneghello que, ao analisar a
importância dos partidos políticos e a formação dos gabinetes presidenciais no
Brasil entre 1985 a 1997, afirma: "[...] os partidos exercem papel central na
organização e funcionamento do poder executivo. O estudo dos governos do
período demonstrou que a dinâmica de coalizões partidárias, compostas pelas
maiores agremiações no Congresso e caracterizadas por um significativo grau de
coerência ideológica, constitui a fórmula dominante para a sua organização e é
um aspecto fundamental das relações entre o Executivo e o Legislativo" (1998,
p. 165, grifos no original).
4 De acordo com esta análise, em regimes democráticos em que os partidos
políticos nacionais são controlados por lideranças regionais, que por sua
posição institucional também dominam o Poder Legislativo, os parlamentares têm
como foco atuações paroquiais, em detrimento das questões públicas nacionais.
Os partidos políticos também são fracos, pois as carreiras dos parlamentares
não dependem da estrutura partidária, mas sim da obtenção de recursos e
benefícios para sua base eleitoral. Para Amorim Neto e Santos,"o Brasil é um
dos mais notáveis exemplos de segredo ineficiente" (2003, p. 663).
5 Para uma análise da discussão sobre federalismo e representação política no
Brasil, ver Tavares de Almeida (2001, pp. 16-20).
6 A argumentação básica de que o sistema político brasileiro não funciona ou
funciona muito mal foi contestada por Argelina Figueiredo e Fernando Limongi
(2001) Estes afirmam que, apesar da estrutura institucional estabelecida pela
Constituição de 1998 ser a mesma do período anterior ao golpe militar, isto não
significa que o funcionamento do sistema político brasileiro siga o padrão
anterior. A partir da análise do processo de tomada de decisão do parlamento
brasileiro, Figueiredo e Limongi identificam mecanismos internos de
funcionamento do Congresso Nacional que, em sua avaliação, invalidam boa parte
da argumentação do grupo anterior. "Os dados não se harmonizam com a visão
segundo a qual a presidência só vê seus projetos aprovados após extenuantes e
custosas negociações, com maiorias formadas caso a caso na base da troca
clientelista individual. Para que tal fosse verdade, o tempo de tramitação de
seus projetos deveria ser muito maior e a taxa de aprovação não poderia ser
assim tão alta. Se há crise de governabilidade, é hora de procurarmos outros
suspeitos. As evidências reunidas pedem a liberação do réu, detido
indevidamente e sem culpa formada" (Figueiredo e Limongi, 2001, p. 69). Amorim
Neto (2006) denomina esta perspectiva de análise como otimista.
7 Tavares de Almeida afirma que "do ponto de vista das relações
intergovernamentais, a federação brasileira é um arranjo complexo em que
convivem tendências centralizadoras e descentralizadoras, impulsionadas por
diferentes forças, com motivações diversas, produzindo resultados variados"
(2001, p. 29).
8 O Relatório de Atividades do Departamento de Operações Bancárias do Bacen de
1984 coloca que, de acordo com a legislação vigente da época, a autoridade
monetária poderia intervir e/ou liquidar os bancos estaduais que demonstrassem
dificuldades crônicas de liquidez. Contudo, também percebia que isto não era
possível de ser realizado, tanto por causa da questão política como pelos
perigos possíveis de crise sistêmica, causada pela possível perda de confiança
do público no sistema bancário. Aparentemente a burocracia do Banco Central e
sua diretoria tinham posições divergentes sobre a capacidade legal da
instituição de agir. O arcabouço jurídico (lei 6024/1974) à disposição do Bacen
era claro, qualquer banco privado ou público não federal poderia sofrer
intervenção ou ser liquidado ex-officio, desde que violasse as práticas de boa
gestão bancária. "O curioso do quadro então vigente era que o Banco Central,
embora dispondo de ordenamento legal que lhe permitisse intervir e liquidar
instituições de crédito oficial, ficava tolhido em sua ação porque não poderia
desconhecer as consequências traumáticas da aplicação pura e simples do
mecanismo criado pela Lei nº 6.024, de 13.03.74, quer no campo político-
institucional, quer no âmbito dos sistemas financeiro e do mercado de capitais,
pelo rompimento do salutar e primordial princípio da fé pública" (Bacen, 1984,
p. 5, grifo meu).
9 Também faziam parte sete bancos de desenvolvimento.
10 Segundo Kerches, no segundo semestre de 1994 o Senado tomou decisões que
agravaram a situação fiscal dos estados, e consequentemente dos bancos. Desde
1975 os senadores haviam emitido quatro resoluções sobre endividamento dos
estados (62/75, 93/76, 94/89 e 58/90), nenhuma foi completamente obedecida. No
caso da resolução 11/94, o problema era que esta "determinava que o limite de
comprometimento de receita, descontados os pagamentos de FGTS, de parte da
dívida externa e de dívidas renegociadas por força de lei, o saldo deve ser
usado no resgate de títulos da dívida mobiliária. Do ano de 1995 em diante,
esse limite de comprometimento foi de 9% da receita líquida. O percentual de
rolagem resultante da aplicação de tais critérios seria calculado pelo Banco
Central e fornecido ao Senado. Contudo, os parlamentares permitiam a rolagem de
100% dos títulos da dívida mobiliária de estados e municípios. A rolagem de
tudo o que vencia incluía juros reais (além da inflação). Assim, quando o
Senado aprovava a rolagem de 100% dos títulos, estava sancionando, na prática,
o aumento das dívidas" (Kerches, 2001, p. 100).
11 De acordo com Gustavo Franco, a ideia de que uma intervenção em um banco
estadual pequeno é "mais fácil" do que em um grande é enganosa. "É sempre
fácil, em tese, fazer uma intervenção no banco de Sergipe ou de Alagoas, porque
são pequenininhos; mas politicamente é sempre um problema, porque eles sempre
vão perguntar: "São Paulo está tendo o mesmo tratamento? Tendo em vista que o
Banespa está fazendo igual a nós, vocês vão fazer a mesma coisa em São Paulo?"
Se o programa federal não tratasse São Paulo da mesma forma, não se conseguiria
fazer nem em Alagoas, nem em Rondônia, nem em lugar nenhum" (Disponível em
<http://www.econ.puc-rio.br/gfranco/CPDOCMario%20Covas.htm>, acessado em março
de 2009).
12 O conceito de Resultado Primário (RP) utilizado foi estabelecido pela
Portaria nº 089/97 do Ministério da Fazenda: receitas arrecadadas (RA), menos
receitas financeiras (RF), operações de crédito (OC) e alienação de bens (AB),
subtraído das despesas liquidadas (DL) e restos a pagar, excluídas as contas de
serviços das dívidas (SD) mobiliária e contratual. Em termos matemáticos pode
ser representada pela fórmula: RP = RA- (RF+OC+AB) - (DL+NP - SD).
13 O banco Itaú comprou o Banerj por 300 milhões de reais, o que significa que
o governo do estado do Rio de Janeiro ainda teve de cobrir 50 milhões do
passivo do Previ-Banerj. Além disso, para viabilizar a privatização do banco
carioca o Bacen permitiu ao novo controlador não "cumprir as exigências de
aplicação mínima em habitação, hoje, de 70% de recursos da caderneta de
poupança" (Ouriques, 1998, p. 115).
14 Disponível em <http://alerjln1.alerj.rj.gov.br/constest.nsf/
PageConsEst?OpenPage> e no Diário da Justiça, de 9/5/1997.
15 Em reportagem a revista Veja de 22 de março de 1995, os jornalistas Angélica
Santa Cruz e Felipe Partury analisaram o relatório do Bacen sobre o Banespa, e
observam que "a cratera encontrada é do tamanho de 21 bilhões de reais, vinte
vezes mais do que o rombo que levou a falência o Baring, uma instituição com
mais de 200 anos de tradição na Inglaterra".
16 Revista Veja, 26/7/1995.
17 Gustavo Franco, no entanto, defende que a diferença entre os dois
governadores tenha ocorrido mais por questões de psicologia individual. "Vale a
pena sempre colocar essas duas situações em paralelo. Politicamente, tinham um
peso semelhante, mas o governo do Rio teve uma postura totalmente diferente. O
governador eleito do Rio, Marcelo Alencar, olhou para o Banerj e disse:
"Caramba! Temos aqui um banco que perde 40 milhões por mês. Eu não quero isso;
se a União quiser, por favor, leve e resolva." Já em São Paulo, a situação era
totalmente diferente, porque prevalecia esta irritação, a meu juízo sem razão,
pela forma da intervenção, sem consulta ou negociação. Enfim, vou abster-me de
comentar sobre isso. Ao passo que no Rio houve uma postura mais pragmática e
mais matemática, talvez" (Disponível em <http://www.econ.puc-rio.br/gfranco/
CPDOCMario%20Covas.htm>, acessado em março de 2009).
18 O instituto das Medidas Provisórias dava ao governo federal uma enorme
margem de manobra nas negociações. Como eram necessárias várias reedições até
sua aprovação final pelo Congresso Nacional, o Executivo federal aproveitava
este momento para adequar a norma às vicissitudes da negociação. A MP 1514 foi
reeditada 69 vezes até se tornar a Lei n.º 2192-70, em 24 de agosto de 2001.
Comparando a primeira edição da Medida Provisória com algumas reedições do
final de 1998 e início de 1999, disponíveis no site da presidência da
República, foram observados o adendo de regras que detalham a forma de
pagamento do empréstimo, taxa de juros, garantias e contragarantias (como a
utilização de títulos dos tesouros estaduais e órgãos da administração direta
dos estados).
19 Dos estados que possuiam bancos comerciais e de desenvolvimento, dois não
participaram do Proes: Brasília e Paraíba.
20 "Art. 1º Fica a União, no âmbito do Programa de Apoio à Reestruturação e ao
Ajuste Fiscal dos Estados autorizada, até 31 de março de 1998 a: I - assumir a
dívida pública mobiliária dos estados e do Distrito Federal, bem como, ao
exclusivo critério do Poder Executivo Federal, outras obrigações decorrentes de
operações de crédito interno e externo, ou de natureza contratual, relativas a
despesas de investimentos, líquidas e certas, exigíveis até 31 de dezembro de
1994; II - assumir os empréstimos tomados pelos estados e pelo Distrito Federal
junto à Caixa Econômica Federal, com amparo na Resolução nº 70, de 5 de
dezembro de 1995, do Senado Federal; III - compensar, ao exclusivo critério do
Ministério da Fazenda, os créditos então assumidos com eventuais créditos de
natureza contratual, líquidos, certos e exigíveis, detidos pelas unidades da
Federação contra a União; IV - refinanciar os créditos decorrentes da assunção
a que se refere o inciso I, juntamente com créditos titulados pela União contra
as unidades da Federação, estes a exclusivo critério do Ministério da Fazenda §
1º As dívidas de que trata o inciso I são aquelas constituídas até 31 de março
de 1996 e as que, constituídas após essa data, consubstanciam simples rolagem
de dívidas anteriores".
21 As regras do acordo eram excelentes para os estados, em vista do impacto que
a dívida mobiliária teria sobre as contas estaduais, tão bom que "alguns poucos
estados deverão quitar seus compromissos com a União em 15 anos ao invés de 30
estabelecidos na maioria dos contratos (casos do Piauí, Rio Grande do Norte e
Ceará)" (Mora, 2002, p. 25). Mesmo que as regras do acordo fossem excelentes
para os estados, não agradaram a todos. O senador Luiz Estevão, através do
Projeto de Lei 00014/1999, tentou alterar o artigo 1º da Lei 9496/97, reabrindo
o prazo de renegociação das dívidas dos estados e do Distrito Federal junto à
União. Em 24/5/2001, o projeto foi arquivado pela Comissão de Assuntos
Econômicos (CAE), com parecer contrário de Romero Jucá, líder do governo no
Senado.
22 Para os estados, o equacionamento da dívida não depende exclusivamente de
medidas de restrições de gastos. O crescimento da economia "é condição sine qua
non para assegurar a sustentabilidade da dívida estadual de longo prazo" (Mora,
2002, p. 65). Para conseguir melhor situação fiscal no final do ano, vários
estados iniciaram um processo de aumento das alíquotas de impostos estaduais,
como "o Rio Grande do Sul, que elevou a tarifa do ICMS para pagar salários" (O
Estado de São Paulo, 30/7/1997).
23 Padrão e Caetano afirmam que no segundo semestre de 1996 todos os
governadores de estado se reuniram para discutir qual "a melhor forma de
pressionar o governo federal, pois só poderia vir de lá um alivio para o aperto
de caixa. [...] A pressão dos governadores sobre o governo federal para uma
rolagem camarada das dívidas financeiras tinha tudo para dar certo. Mas o
movimento foi atropelado por um fato político que desmoralizou a atuação dos
governadores. Muitos deles, esmagados pelo peso da falência pública, já haviam
cedido às tentações da ilegalidade. Aliaram-se a sinistros personagens do
mercado financeiro em busca de solução milagrosa. E foram flagrados com a
abertura da CPI dos Precatórios" (1997, p. 26).
24 "Não seria um exagero descrever esta "crise sistêmica" dos Estados como
"falência financeira do sistema federativo": todos os estados quebraram,
juntamente com seus bancos estaduais e a maior parte de suas empresas" (O
Estado de São Paulo, 15/9/2002).
25 A partir de 1995 o número de greves no serviço público aumentou
especialmente na esfera estadual. De acordo com Índice do Boletim Dieese, de
abril de 1997, analisando o ano anterior, "o funcionalismo estadual, por sua
vez, realizou 114 greves, ou seja, um volume que representa 9,06% das greves
ocorridas em todo o Brasil. Essas greves envolveram 386.112 trabalhadores, um
total elevado, que resulta em alto número médio de grevistas - 3.387
trabalhadores parados por greve. Tais números levaram o setor a ter uma alta
participação no percentual de trabalhadores - hora parados, com 18,17% do total
de greves em todo o Brasil (inclusive as do setor privado). Em termos de
duração média, os servidores estaduais foram aqueles com greves mais longas -
em média, 13,5 dias" (grifos meus).
26 Couto e Abrucio afirmam que o processo de privatização das instituições
financeiras dos governos subnacionais "deve ser compreendido à luz da
renegociação das dívidas estaduais [...]" (2003, p. 278).
27 Caso o governo estadual não tivesse como dispor dos 50% para pagamento à
vista, o contrato de refinanciamento iria prever a entrega, "pela Unidade da
Federação, de ativos privatizáveis, aceitos pela União, em montante equivalente
a, no mínimo, cinquenta por cento do total refinanciado, para fins de posterior
amortização" (Parágrafo Único, Artigo 8 da Lei 2192-70).
28 Como se verá mais adiante, as eleições de 1998 foram um elemento-chave no
processo de privatização dos bancos estaduais. O instituto da reeleição para os
cargos executivos alterou profundamente o funcionamento da política dos
estados, os governadores seriam candidatos natos à disputa, e era do interesse
destes conseguir o melhor acordo possível antes das eleições, pois isso
aliviaria profundamente o caixa dos estados e ainda permitiria aos governos
receberem aportes financeiros do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e
Social (BNDES), decorrentes "de recursos em antecipação às receitas futuras dos
leilões de privatização" (Melo, 2005, p. 857).
29 "O prazo para a renegociação de dívidas encerra no dia 31/3, mas haverá
prorrogações, na base do caso-a-caso, para garantir que todos os estados
regularizem suas contas" (disponível em <http://www.fazenda.gov.br/portugues/
releases/1998/r980330.asp>, acessado em outubro de 2007).
30 Originalmente, o acordo do governo federal com o estado de Santa Catarina
para federalização e a privatização foi realizado em março de 1998. Contudo, ao
assumir o poder, Esperidião Amin anulou a assembleia de acionistas do Besc
realizada em 20/3/1998, zerando o jogo e obrigando a União a uma nova rodada de
negociações.
31 "O presidente Fernando Henrique Cardoso se comprometeu a federalizar uma
dívida de cerca de R$ 630 milhões do governo catarinense. Na prática, a
operação será feita para compensar a exclusão de títulos irregulares do Estado
da rolagem de cerca de R$ 2 bilhões aprovada ontem pelo Senado. Pelo projeto
aprovado, a União refinanciará por um prazo de dez anos as dívidas dos Estados
e municípios que emitiram títulos irregularmente para pagar precatórios
(dívidas resultantes de decisões judiciais). O governo federal fará depósitos
em juízo no valor das dívidas até que a Justiça decida sobre a validade ou não
dos títulos. Parte dos títulos de Santa Catarina, no valor de R$ 560 milhões,
não foi incluída no projeto porque os papéis, apesar de emitidos, não chegaram
ao mercado. O governador Esperidião Amin (PPB), com o apoio do presidente do
PFL, senador Jorge Bornhausen (SC), pretendia rolar até a dívida referente aos
títulos não negociados - que, na prática, não existia. O dinheiro obtido da
União seria usado para pagar uma dívida com o Ipesc, instituto de previdência
dos servidores catarinenses. A intenção de Amin e Bornhausen foi barrada pelo
líder do PMDB no Senado, Jader Barbalho (PA), que aprovou uma emenda excluindo
os títulos não negociados da operação de rolagem. O governador catarinense
conseguiu uma compensação em reunião com FHC, na última quinta-feira. Em vez de
rolar os títulos, o governador obteve a promessa de federalização de sua
própria dívida com o Ipesc. Também participaram do encontro o ministro Pedro
Malan (Fazenda) e o presidente do Banco Central, Armínio Fraga, além de
Bornhausen. Pelo acordo, a União assumirá a dívida de cerca de R$ 630 milhões
do governo catarinense com o Ipesc e cobrará o empréstimo em dez anos" (Zero
Hora, 5/8/1999).
32 Marconi Perillo (PSDB), governador eleito em 1998, em substituição a Maguito
Vilela (PSDB), afirma que " quando o Beg fechou, propus a criação de uma
agência de fomento para substituí-lo. O ministro Pedro Malan - que, por sinal,
tratou muito bem Goiás - -aceitou a proposta, mas ofereceu apenas 4 milhões de
reais para capitalizar a agência. Bati a mão na mesa e não aceitei - queria 70
milhões de reais. Acabei convencendo o ministro. Então, o governo federal
entrou com 60 milhões e nós entramos com 10 milhões e criamos a Agência de
Fomento, que tem sido um instrumento importante para o desenvolvimento de
Goiás" (disponível em <http://www.jornalopcao2.com.br/
index.asp?secao=Manchete&idjornal=77>, acessado em outubro de 2007).
33 Segundo Kerches, este também é o caso do Maranhão, que "pretendia manter o
banco sob seu controle após o saneamento. Entretanto, as garantias exigidas
pelo Banco Central acabaram inviabilizando este tipo de operação" (2001, p.
160).
34 O risco eleitoral foi medido com base na análise das primeiras pesquisas de
intenção de voto (voto estimulado) apresentadas pelos institutos Ibope,
DataFolha e Brasmarket para o ano de 1998. O risco eleitoral será medido da
seguinte forma: a) Risco Eleitoral Baixo e Médio do governador perder a eleição
(ou o candidato que apoia) = + 20% a 10% de votos sobre o segundo colocado; e
b) incerteza e risco de perder = + 9 a -20% de votos abaixo do primeiro
colocado.
35 Este teste é fortemente inspirado em Beck, Crivelli e Sumerhill (2003).
36 As poucas instituições transformadas diretamente em Agências de Fomento
foram colocadas nesta categoria. O governo federal ainda negociou a
constituição de pelo menos mais doze instituições deste tipo entre os estados.
37 Teste de Qui-Quadrado de Independência demonstra que existe forte associação
entre Partido de Centro e Apoio ao Presidente. Fisher's Exact Test = 0,000.
38 Ao contrário do que afirmam Beck, Crivelli e Sumerhill (2003), a dependência
de transferências federais constitucionais - estados da região Norte, Nordeste
e Centro-Oeste - não apresentou qualquer sinal significativo.
39 Franco (2000) calcula que os ajustes anteriores ao Proes chegaram a 42
bilhões de reais, o que perfaz um total em ajuda federal de 103 bilhões a
partir de 1983.