Estimativa do risco de Traça-Verde, Palpita vitrealis (Rossi) amplificada por
contaminate?
INTRODUÇÃO
Recentemente, com a modernização e intensificação dos olivais, tem-se assistido
ao agravamento de pragas que embora surjam ocasionalmente em algumas regiões,
na bacia do Mediterrâneo, por exemplo no Egipto, têm tido elevada importância.
Segundo Hegazi et al. (2006), a traça-verde, Palpita vitrealis (Rossi)
(Lepidoptera: Crambidae), tornou-se, recentemente, praga-chave nos olivais,
originando estragos ao nível das folhas e podendo mesmo atacar os frutos,
provocando prejuízos elevados em árvores jovens. Em Portugal, nos últimos anos,
esta praga tem causado algumas preocupações pontuais em algumas regiões do
interior do país, mas continua a existir enorme falta de informação sobre a
mesma.
Este estudo teve por objectivo contribuir para melhorar a estimativa do risco
da traça-verde em várias regiões do país, em especial na região da Beira
Interior-Sul, estudando a possibilidade do uso de armadilhas iscadas com
feromona sexual na monitorização das populações de P. vitrealis. A escolha
desta região justifica-se por ser a terceira maior produtora de azeite em
Portugal (GPP, 2007), pelo incremento da cultura da oliveira nesta região e
pelos ataques recentes da praga.
MATERIAL E MÉTODOS
A fase experimental decorreu num olival localizado na Quinta do Galvão, na
freguesia de Vale Formoso, junto a Belmonte, na região denominada Cova da
Beira. O olival é constituído por árvores de porte pequeno e médio e está
instalado com compasso de 5 m x 7 m, num vale orientado a NE/SW. As cultivares
presentes são Cobrançosa', Galega Vulgar' e Arbequina'. As árvores têm cerca
de cinco anos; no entanto, Galega Vulgar' está plantada em duas manchas, uma
com cinco anos e outra com um ano. Utilizaram-se três formulações comerciais de
feromona sexual de P. vitrealis: Russell (em quatro armadilhas de tipo funil
tricolor); SEDQ, comercializadas pela empresa Biosani na altura do ensaio (em
cinco armadilhas delta); e Suterra, comercializada pela empresa AT&F (em
quatro armadilhas delta). As cinco armadilhas delta iscadas com feromona SEDQ
foram dispostas: uma na Arbequina'; uma em cada mancha da Galega Vulgar'; e
duas na Cobrançosa', por ser esta a cultivar dominante, afastadas uma da outra
cerca de 50 m. As armadilhas iscadas com feromona da Suterra e da Russell foram
colocadas uma em cada cultivar. Todas as armadilhas foram colocadas a cerca de
1,0-1,5 m de altura do solo. As contagens das capturas foram efectuadas
semanalmente: desde fins de Março até ao início de Novembro de 2010, para as
armadilhas com feromona da SEDQ; e desde Setembro até ao início de Novembro,
para as restantes. Os difusores foram substituídos com a periodicidade
aconselhada pelas empresas fornecedoras.
A identificação das espécies de lepidóptero com maiores níveis de captura foi
efectuada por observação da genitália, após preparação por diafanização com
hidróxido de potássio a 10%, a quente.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Nas armadilhas com a formulação de feromona sexual das marcas Russell e Suterra
apenas se verificou captura de uma morfoespécie de lepidóptero,
morfologicamente semelhante a P. vitrealis (Fig._1A). Na genitália do macho
deste lepidóptero (Fig._2), muito semelhante à descrita por Santorini e
Vassilaina-Alexopoulou (1977), não se observaram algumas das estruturas
descritas por este autor, talvez porque a preparação microscópica da genitália
foi efectuada depois de permanência longa no cartão com cola ou porque a
preparação não foi efectuada com a metodologia seguida por aqueles autores.
As capturas semanais de P. vitrealis variaram entre 0 e 4 indivíduos/armadilha/
semana ao longo dos períodos de observação. Na Fig._3 apresentam-se as capturas
observadas nas armadilhas colocadas na parcela de Cobrançosa'.
A traça-verde apresenta várias gerações por ano. Por depender muito da
temperatura, os seus picos de voo variam de região para região; no entanto,
analisando as curvas de voo provenientes das Estações de Aviso do SNAA, os
meses de Junho, Agosto e Outubro revelam alguma tendência para maiores capturas
em quase todas as regiões estudadas (Mateus, 2011).
Embora o número de rebentos atacados tivesse sido elevado (média de 90,9 a
189,5 de rebentos atacados/400 rebentos, em função da cultivar) (Mateus et al.,
2012), a eficácia de captura destas formulações foi, aparentemente, reduzida,
dadas as capturas baixas obtidas.
A armadilha do tipo delta, com feromona sexual da marca Suterra, registou
capturas, embora baixas, em Outubro, o que não aconteceu nas outras armadilhas,
pelo que esta formulação poderá ter maior potencial para ser utilizada
futuramente.
Nas armadilhas iscadas com feromona SEDQ, surgiram, além de indivíduos de P.
vitrealis, exemplares de uma espécie de lepidóptero contaminante (Fig._1B), em
elevado número quando comparado com o número de indivíduos capturados de traça-
verde (Fig._3). Esta espécie apresenta menores dimensões e coloração
acastanhada. Foi efectuada pesquisa, na base de dados Pherobase (El-Sayed,
2011) de espécies cuja feromona incluísse os componentes principais da feromona
sexual de P. vitrealis ((E)-11-hexadecen-1-il-acetato [(E)-11-16:Ac] e (E)-11-
hexadecenal [(E)-11-16: Aid], na proporção 7:3) (Mazomenos et al., 1994), mas
nenhuma das espécies referidas nesta base é morfologicamente semelhante à
espécie contaminante. A observação da genitália (Fig._4) também não permitiu,
por ora, a sua identificação específica.
A comparação entre níveis de capturas obtidas em armadilhas de feromona sexual
pelas Estações de Aviso de Castelo Branco (Fig._5), do Ribatejo e do Baixo
Alentejo do Serviço Nacional de Avisos Agrícolas, usando metodologia
semelhante, revela capturas, por vezes, bastante mais elevadas do que as
obtidas neste trabalho (Fig._3), o que levanta a hipótese de, também, em
algumas destas regiões, poder ocorrer capturas do lepidóptero contaminante.
CONCLUSÕES
As formulações testadas foram eficazes na captura de traça-verde. Contudo, uma
delas, SEDQ, capturou, além de traça-verde, um outro lepidóptero, contaminante.
O número elevado de capturas deste lepidóptero obtidas nas armadilhas iscadas
com esta feromona pode conduzir a erros, por excesso, na estimativa do risco
quando os técnicos e/ou agricultores estejam menos familiarizados com a
morfologia de traça-verde.