Avaliação da eficácia do isco com lufenurão a 3% no combate a Ceratilis
Capitata Wied., na ilha Terceira, Açores
INTRODUÇÃO
A mosca-do-Mediterrâneo, Ceratitis capitata Wiedemann (Diptera: Tephritidae) é
nativa do Norte de África e terá sido referenciada pela 1ª vez nas ilhas
Atlânticas, em 1829 (Bodenheimer, 1951). Graças à elevada plasticidade
ecológica, C. capitatainvadiu com facilidade novos habitats, principalmente
através do transporte pelo homem de alguns frutos infestados. Isso permitiu a
sua rápida expansão em áreas continentais e insulares, como os Açores e a
Madeira, e uma distribuição geográfica mundial (Leonardo, 2002). A Direção
Regional de Desenvolvimento Agrário, para ensaiar outros métodos de combate,
sem a aplicação massiva de inseticidas, aprovou a proposta de ensaio, no campo,
do isco de lufenurão a 3%, no combate a C. capitata, com a participação e
colaboração da FRUTER e o apoio de técnicos da Empresa Syngenta.
MATERIAL E MÉTODOS
A área do ensaio, o número e o uso de iscos de lufenurão a 3%
O levantamento cartográfico da área de produção frutícola e vitícola dos
Biscoitos, a Norte da Ilha Terceira foi realizado através dos Sistemas de
Informação Geográfica,. Na seleção das parcelas deste ensaio teve-se em conta o
tipo de cultura e as condições de acessibilidade (Figura_1, 2).
Este ensaio abrangeu inicialmente, em 2009,a instalação, no campo, de 960 iscos
de lufenurão a 3%, ADRESS®(Figura_3A) em 40 ha e depois, em 2010 e 2011, mais
96 iscos em 4 ha, no total de 1056 iscos em 44 ha (Figuras_2), como
consequência da deteção de 2 focos de elevada densidade populacional de adultos
de Ceratitis capitata, em 2009. Este nº de iscos resulta da dose de 24 iscos/ha
(Syngenta, 2007).
Os iscos de lufenurão a 3%, referidos, pela 1ª vez no Guia Amarelo da DGADR
em 2008, em coincidência com a inovação (!) das frases de risco, são
constituídos por um prato com um gel alimentar com 3% do inseticida lufenurão e
com 4 atrativos específicos para atrair eesterilizar pelo lufenurão os
adultos de C. capitata. O lufenurão provoca a inviabilidade dos ovos e a
consequente não eclosão das larvas, após a ingestão pelas fêmeas. Quando do
acasalamento, os machos, que se alimentam do gel, transmitem esse efeito às
fêmeas (Syngenta, 2007, 2012).
A persistência de acção dos iscos e atractivos é de cerca de 12 meses. Os iscos
devem estar colocados antes do aparecimento da C. capitata,normalmente mês e
meio antes da mudança de cor dos frutos, devendo-se colocar os iscos a uma
distância regular de 20 m, em losangos e do lado mais sombreado das árvores
(Syngenta, 2012)
O uso do isco deverá ser complementado com tratamentos por pulverização com um
insecticida homologado para esta finalidade (ex: lambda-cialotrina)sempre que o
nº de moscas por armadilha e por dia ultrapassar 0,5 MACHOS (Syngenta, 2012).
Contudo, neste ensaio, nunca foram realizados estes tratamentos.
Considerando a área total envolvida, a tipologia da área estudada e os ensaios
de Costa et al. (2009), decidiu-se efectuar, em 2009, 2010 e 2011, a captura de
fêmeas e de machos de C. capitata, nas armadilhas de monitorização, nas duas
zonas (com e sem iscos), no total de 40 armadilhas: 20 armadilhas Jackson®
(Figura_3B) com feromona sexual (trimedlure), que atrai os machos de C.
capitata e20armadilhas Easytrap® (Figura_3C) com atrativo alimentar (3CLure)
das fêmeas, distribuindo 10 de cada, nos pomares com iscos e outras 10 de cada
em parcelas contíguas sem iscos.
Quinzenalmente (13-15 dias, com 2 excepções ' 16 e 20 dias), procedeu-se ao
registo das capturas dos adultos de C. capitatanas armadilhas de monitorização
e à substituição dos atrativos de 6 em 6 semanas (Quadros_1, 2, 3).
Características toxicológicas e ecotoxicológicas do lufenurão e dos iscos a 3%
O lufenurão é um regulador de crescimento de insetos, irritante (Xi), pode
causar sensibilização em contacto com a pele (R43), tóxico para o ambiente (N),
muito tóxico para os organismos aquáticos (R50) e pode causar efeitos nefastos
a longo prazo no ambiente aquático (R53) (Oliveira e Henriques, 2011, Syngenta,
2011, 2012). AEuropean Food Safety Authority (EFSA) adoptou medidas de
segurança, para defesa das abelhas, evitando a aplicação quando há plantas
(culturas ou infestantes) em floração (Amaro, 2010, EFSA, 2008); e, para o isco
Adress, referindo a necessidade dos Estados Membros darem particular atenção à
proteção de aves, mamíferos, organismos não alvo do solo, abelhas, artrópodes
não alvo, superfícies de água e organismos aquáticos (EFSA, 2011).
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Captura de adultos de C.capitata nasarmadilhas de monitorização, em zonas com
(CI) ou sem (SI) iscos
O nº de machos e de fêmeas de C. capitata capturados nas armadilhas, em 2009,
2010 e 2011, nas zonas designadas com iscos(CI) e sem iscos (SI), foi
escasso, entre início de Janeiro e princípios de Agosto, dispondo-se de dados
significativos comparáveis dos 3 anos, entre 13-17 de Agosto e 20-22 de
Dezembro (Quadros_1, 2,3). A comparação da intensidade de ataque da praga, nos
3 anos, na base do indicador nº de machos/armadilha/dia, adoptado pela Syngenta
na decisão de recurso complementar ao uso de outros pesticidas, além do isco,
justifica a conversão dos dados das capturas quinzenais de machos. Estes
valores foram divididos pelo nº 10 de armadilhas e, depois, pelo nº de dias
(variando entre 13 e 20) (Quadros_1, 2,3). Recorda-se que a Syngenta determina
ser necessário complementar os iscos com a aplicação de um pesticida, em
pulverização, quando ocorre a intensidade de ataque de 0,5 machos/armadilha/dia
(Syngenta,2012).
Em 2009,a intensidade de ataquefoi sempre superior a 0,5, excepto em 22/12, em
zona com isco (CI), com 0,46. Em 60% das 20 amostras, os valores variaram entre
2,3 e 6,6, com máximos de 9,9 (CI) e 10,2(SI), entre 29/9 e 15/10 (Quadro_1,
Figura_1).
Em 2010, registaram-se, em zonas sem isco (SI), 4 capturas, além de 3 CI, com
valores inferiores a 0,5, mas, nas restantes 13 capturas (65%), ocorreram
valores entre 1,1 e 4,6 nas zonas com isco e entre 0,9 e 5,1(máximo) em zonas
sem isco (Quadro_2, Figura_2).
Em 2011, só uma vez e nas 2 zonas, entre 8 e 22/11 (10%), se registaram valores
inferiores a 0,5 (0,3 e 0,4). Os 4 valores mais elevados foram observados em
11/10 - 12,0 e 12,4 e em 8/11 ' 8,4 e 8,9, com valores maiores nas zonas sem
isco (Quadro_3, Figura_3)
É bem evidentequeo nº de machos de C. capitata foi muito superior ao das
fêmeasnos 3 anos, sendo 4,7 vezes em 2010, 6,5 vezes em 2011 e 10,5 vezes em
2009, o que se admite ser consequência da maior capacidade de atracção das
armadilhas Jackson (Quadro_4).
No conjunto dos 3 anos, verifica-se que, a captura de machos, nas armadilhas
Jackson, nas zonas sem isco, em relação às zonas com isco, foi mais elevada 5%
em 2009 e 13% em 2010, e inferior 16% em 2011. Quanto à captura de fêmeas, nas
armadilhas Easytrap, foram sempre inferiores nas zonas com isco em 6% em 2009,
71% em 2010 e 36% em 2011 (Quadro_4). Os valores totais de SI-CI, relativos a
1armadilha/1dia, evidenciam maiores capturas de machos de 5,5% em 2009 e de
13,6 % em 2010 nas zonas sem isco, em contraste com maiores valores de 15,6% em
2011, nas zonas com isco (Quadro_5). Com estas diferenças (maiores capturas de
5,5e 13,6% nas zonas sem isco em 2009 e 2010)e um comportamento não uniforme,
com mais elevadas capturas (15,6%) nas zonas com isco em 2011 é evidente não
haver fundamento para se admitir, na área de 44ha com 1056 iscos, distribuídos
segundo a orientação da Syngenta (distância de 20 m, em losango) a
existência, além de zonas com isco, de parcelas contíguas sem iscos.A
capacidade de atracção das armadilhas e a tensão de vapor do lufenurão anulam a
pretensa teoria da existência de zonas sem isco. Aliás, também, assim, se
confirma o acerto da orientação da Syngenta no modelo de localização dos iscos
no terreno.
O total de machos capturados por 1 armadilha e 1 dia, no conjunto das 10
amostragens, entre 13-17 de Agosto e 20-22 de Dezembro, em cada um dos 3 anos,
variou entre: 17,53 (CI), 19,91 (SI), em 2010; 34,96 (CI), 36,90 (SI), em 2009;
e 51,20 (CI), 43,20 (SI), em 2011 (Quadro_5, Figura_4). Verifica-se, assim, que
a população de machos de C. capitatadiminuiu 34,42unidades de 2009 para 2010,
mas recuperou em 2011, atingindo valores superiores aos de 2009 em
24,54unidades.
Com os dados deste ensaio de 3 anos, na área de 44 ha e a presença anual de
1056 iscos de lufenurão a 3%, não se verificou a prevista permanente e
progressiva redução da população de C.capitata. Aliás, a Syngenta recomenda o
recurso ao complemento de pulverização com outro pesticida, como lambda-
cialotrina, quando seja ultrapassado o nº de moscas por dia de 0,5 machos por
armadilha. De facto, este limite foi ultrapassado, nas 30 datas de amostragem,
durante os 3 anos, em: 95% dos casos em 2009; em 65% em 2010 e em 90% em 2011
(Quadros_1, 2,3).
CONCLUSÕES
I ' A evolução da população de machos de C.capitata, em 2009, 2010 e 2011, em
consequência do uso de iscos de lufenurão a 3%, em 44 ha, segundo as regras
adoptadas pela Syngenta para o Adress®, evidenciou resultados contraditórios,
com: a redução de 34,42 unidades (nº de machos capturados em 1 armadilha
Jackson/1dia), entre 2009 e 2010 e a recuperação e posterior aumento para 22,54
unidades, em 2011, em relação ao valor de 2009 (Quadro_5, Figura_4).
II ' A influência, entre zonas com iscos (CI) e zonas sem iscos (SI), nas
capturas de machos de C. capitata, foi contraditória, expressa nas unidades,
antes referidas, com valores SI-CI positivos (5% em 2009 e 13% em 2010) e
negativos (-16% em 2011). Já a captura de fêmeas, em armadilhas Easytrap, foi
sempre mais elevada nas zonas sem isco: 6% em 2009, 71% em 2010 e 36%em 2011
(Quadro_4).
III ' A necessidade de complementaridade, com outro pesticida (lambda-
cialotrina), quando o número de moscas por dia ultrapasse 0,5 machos por
armadilha, proposta pela Syngenta, ocorreu com muita frequência, nas 30 datas
de amostragem, nos 3 anos: em 95% em 2009, em 65% em 2010 e em 90% em 2011. Mas
nunca se procedeu a tratamentos complementares (Quadros_1, 2,3, Figuras_1,2,3).
IV ' O nº de machos de C. capitatafoi sempre muito superior ao nº de fêmeas: x
4,7 em 2010, x 6,5 em 2011 e x 10,5 em 2009 (Quadro_4), o que se admite ser
justificado pela diferença de atracção das 2 armadilhas (Jackson e Easytrap).