Desempenho de híbridos de milho cultivados em diferentes espaçamentos na região
do cerrado brasileiro
Introdução
Um dos principais cereais produzidos no mundo é o milho (Zea mays L.) devido a
ser fornecedor de produtos para a alimentação humana, animal e matéria-prima
para a indústria (Moraes e Brito, 2010). A produtividade média brasileira, que
em 2012 alcançou 4,7 toneladas por hectare (Conab, 2012), é considerada baixa,
quando comparada à de outros países produtores, sendo relacionada a diversos
fatores como a nutrição do milho, arranjo e densidade populacional das plantas
(Cruz et al.,2008).
A maior região produtora de milho encontra-se no Centro-Sul brasileiro, havendo
duas safras distintas, onde uma é considerada a época normal, realizando sua
semeadura no final de setembro e estendendo a dezembro, e a outra é a safrinha,
com semeadura nos meses de janeiro a abril, dependendo da região, tornando-se
uma prática economicamente muito importante, com um acréscimo na área cultivada
(Gonçalves et al., 1999; Casagrande e Fornasieri Filho, 2002).
A produção brasileira de milho na safra de 2011/12 atingiu um volume de 72,73
milhões de toneladas, das quais aproximadamente 39 milhões de toneladas foram
produzidos na segunda safra. A área total cultivada com milho no país é de 15,2
milhões de hectares. Para o Estado de Mato Grosso do Sul a produção esperada
para a safra de 2012/13 está em torno de 6,2 milhões de toneladas, com área
plantada de aproximadamente 1,2 milhões de hectares (Conab, 2012).
De acordo com Gilo et al. (2011), os ensaios de cultivares de milho são muito
importantes, pois estes são utilizados como referência para a recomendação aos
agricultores das cultivares que possuem maior potencial de produtividade e as
suas formas de manejo. Tais pesquisas aliadas ao surgimento de novos genótipos,
como o uso de híbridos com alto potencial produtivo e arquitetura foliar mais
ereta, contribuíram para o acréscimo da densidade de plantas e a diminuição do
espaçamento entre linhas (Argenta et al., 2001).
Além do espaçamento reduzido proporcionar maiores produtividades, pesquisa
comprovada por alguns trabalhos (Nascimento et al., 2012; Gilo et al., 2011), o
fato de se poder utilizar a mesma semeadora, sem mudança no espaçamento entre
linhas para efetuar as semeaduras das culturas do milho, soja, sorgo, feijão e
girassol, fez com que muitos produtores rurais da região Centro-Oeste
utilizassem os espaçamentos de 45 ou 50 cm. Outro motivo a contribuir foi o
advento das indústrias de máquinas e implementos agrícolas no desenvolvimento
de plataformas para colheita de milho cultivado em espaçamentos reduzidos
(Silva et al., 2008).
Neste contexto, o objetivo desta pesquisa foi avaliar os efeitos de dois
espaçamentos entre linhas sob três híbridos de milho nos componentes de
produção e produtividade da cultura, na região do Cerrado Sul-Mato-Grossense
brasileiro.
Material e Métodos
O experimento foi conduzido no ano agrícola de 2010 na área experimental da
Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul - Unidade Universitária de
Aquidauana (UEMS/UUA), setor Fitotecnia/Produção Vegetal, localizado no bioma
Cerrado, situado no município de Aquidauana, (MS), compreendendo as seguintes
coordenadas geográficas 20º27'S e 55º40'W, com uma altitude média de 170 m.
O solo da área foi classificado como Argissolo Vermelho-Amarelo distrófico de
textura arenosa (Embrapa, 2006), com as seguintes características na camada de
0 - 0,20 m: pH (H2O) = 6,2; Al trocável (cmolc dm-3) = 0,0; Ca+Mg (cmolc dm-3)
= 4,31; P (mg dm-3) = 41,3; K (cmolc dm-3) = 0,2; Matéria orgânica (g dm-3) =
19,74; V (%) = 45; m (%) = 0,0; Soma de bases (cmolc dm-3) = 2,3; CTC (cmolc
dm-3) = 5,1. O clima da região, segundo a classificação descrita por Köppen-
Geiger é do tipo Aw (Tropical de Savana) com precipitação média anual de 1200
mm e temperaturas máximas e mínimas de 33 e 19ºC, respectivamente (Schiavo et
al., 2010).
O delineamento experimental utilizado foi o de blocos ao acaso em esquema
fatorial (3x2), com quatro repetições. A área foi dividida em quatro blocos com
um total de vinte e quatro parcelas experimentais, cada uma com área de 45 m²
(4,5 x 10 m), com cinco metros de espaçamento entre blocos. Os seis tratamentos
foram constituídos por dois espaçamentos (0,45 e 0,90 m) e por três híbridos.
Foram utilizados os híbridos AGROCERES AG9040 (híbrido simples, ciclo
superprecoce e arquitetura foliar ereta), PIONEER P30F35 (híbrido simples,
ciclo precoce e arquitetura foliar normal) e o híbrido PIONEER P30K75Y (híbrido
simples modificado, ciclo precoce e arquitetura foliar normal).
Na preparação da área experimental, foi realizada uma dessecação com o
herbicida Roundup WG, com ingrediente ativo glifosato, na dose de 1 kg ha-1.
Após a secagem e a morte completa das plantas, os sulcos foram abertos com
utilização de uma semeadora simples, realizando semeadura manualmente sob
sistema de plantio direto, no dia 17/03/2010, dez dias após a dessecação, onde
foram distribuídas 2,5 e 5 sementes por metro na linha de plantio, nos
espaçamentos de 0,45 e 0,90 m, respectivamente, para estabelecimento de 55.555
plantas ha-1.
A adubação no momento da semeadura constituiu-se de 300 kg ha-1 da formulação
4-20-20. Na adubação de cobertura foi utilizada ureia como fonte de nitrogênio,
aplicando-se 100 kg ha-1 em superfície quando as plantas possuíam de cinco a
oito folhas completamente expandidas, conforme recomendações de Broch (1999).
O controle da lagarta do Cartucho (Spodoptera frugiperdaSmith) foi realizado
aos 30 dias após a semeadura com a utilização do inseticida comercial Certero
(ingrediente ativo triflumurom) na dosagem de 75 mL ha-1. Para controle das
plantas invasoras em pré-emergência, foram utilizados 1,125 g ha-1 do princípio
ativo atrazina e, posteriormente, capina manual.
Por ocasião da colheita, quando os grãos apresentavam aproximadamente 18% de
umidade, foram feitas as medições de altura final de plantas e inserção da
primeira espiga, sendo realizadas com régua graduada, em cinco plantas por
parcela. O diâmetro do colmo foi avaliado logo acima do terceiro entrenó, com
auxílio de um paquímetro analógico. Em cada parcela experimental foram colhidas
cinco espigas aleatoriamente, que foram numeradas de acordo com as plantas
avaliadas, determinando-se o diâmetro e comprimento da espiga, além do número
de fileiras por espiga e grãos por fileira.
A colheita das espigas de milho e debulha foram realizadas manualmente em três
linhas centrais de 5 m de comprimento, de acordo com o ciclo de cada cultivar.
A produtividade (PROD) foi estimada por meio da extrapolação da produção
colhida na área útil para um hectare, corrigindo-se para 13% de base úmida. A
massa de cem grãos (MG) foi determinada pela contagem manual, pesagem e
correção da umidade para 13%. Os valores mensais médios de temperatura e
umidade relativa do ar e acumulados de precipitação pluviométrica no decorrer
da condução do presente experimento são apresentados no Quadro_1.
Os dados foram submetidos à análise de variância (Teste F) e as médias
comparadas pelo Teste de Tukey, a 5 e 1% de probabilidade, utilizando o
software estatístico SISVAR (Ferreira, 2011).
Resultados e discussão
No Quadro_2 estão apresentados os valores médios de altura da planta e inserção
da espiga e diâmetro do colmo, onde não foram identificadas diferenças
significativas para o espaçamento utilizado (E) e para sua interação com
híbridos (E x H). Contudo, os valores médios destas variáveis para os
diferentes híbridos (H) utilizados apresentaram diferenças significativas
(P<0,01).
O híbrido AG9040 se destacou por maior porte das plantas, obtendo também com o
híbrido P30K75Y maior altura de inserção das espigas. Para a variável diâmetro
do colmo, o híbrido P30F35 apresentou a maior média, porém não diferiu do
P30K75Y, sendo superior ao AG9040.
Segundo Argenta et al. (2001), a utilização de espaçamentos maiores entre
linhas favorece a competição por luz, o que determina algumas modificações no
desenvolvimento das plantas como: maior elongação do colmo, folhas mais
compridas e finas e elevadas perdas de raízes. A redução do espaçamento entre
linhas quando se mantém a mesma população, reduz a competição entre plantas, na
linha de semeadura, por água, luz e nutrientes, em razão da melhor distribuição
das plantas (Sangoi, 2000).
Lana et al. (2009) e Scheeren et al. (2004), trabalhando com populações de
híbridos de milho e espaçamentos entre linhas (0,45, 0,75 e 0,90 m) observaram
que quanto maior o espaçamento, maior a altura de plantas e de inserção de
espiga, o que não foi evidenciado neste experimento.
Resultados obtidos por Gilo et al. (2011) e Nascimento et al. (2012) corroboram
os obtidos nesse trabalho, onde a diminuição do espaçamento entre linhas não
proporcionou maior altura nas plantas e de inserção da espiga.
Com relação ao diâmetro do colmo, Dourado Neto et al. (2003), afirmam que
quanto maior o espaçamento entre linhas, menor é o diâmetro de colmo. Contudo,
tais resultados estão de acordo com os encontrados por Gilo et al. (2011) e
Nascimento et al. (2012), que ao avaliar o desempenho de híbridos de milho no
cerrado sul-mato-grossense em diferentes espaçamentos, não obtiveram diferenças
significativas entre os espaçamentos de 0,45 e 0,90 m para esta variável.
Os valores médios do diâmetro e comprimento da espiga e número de grãos por
espiga são demonstrados no Quadro_3, sendo obtida significância entre os
híbridos estudados (P<0,01) em todos os parâmetros e, para o espaçamento, nas
variáveis comprimento da espiga (P<0,01) e número de grãos por espiga (P<0,05).
O híbrido P30F35 obteve o maior valor para as variáveis do Quadro_3, entretanto
não diferiu do AG9040 e do P30K75Y para os parâmetros diâmetro e comprimento da
espiga, respectivamente.
Os resultados obtidos neste trabalho corroboram os de Gilo et al. (2011) que,
concluíram em seu trabalho que o espaçamento de 0,90 m proporciona um
incremento no comprimento da espiga, porém não interfere em seu diâmetro.
De acordo com Santos et al. (2005), o valor mínimo para o diâmetro de espiga
aceito no mercado é de três centímetros. Diante disto, os diâmetros de espiga
dos híbridos avaliados neste trabalho são considerados normais e dentro do
padrão comercial.
Nascimentoet al.(2012), ao avaliar o comportamento de híbridos de milho no
cerrado sul-mato-grossense em diferentes espaçamentos, verificaram que o
espaçamento de 0,45 m proporcionou maior número de grãos por espiga em relação
ao de 0,90 m, fato oposto a este trabalho.
No Quadro_4 estão apresentados os valores médios da massa de cem grãos e
produtividade sendo obtida significância em relação ao espaçamento (P<0,05)
para a produtividade e entre os híbridos estudados (P<0,01) para ambas as
variáveis.
O híbrido P30F35 foi superior para ambos os parâmetros do Quadro_4,
apresentando maior produtividade em relação aos demais, contudo não diferiu do
P30K75Y para a variável massa de cem grãos.
Com relação à massa de cem grãos, os dados obtidos neste experimento estão de
acordo com Gilo et al.(2011) e Nascimento et al. (2012), que não constataram
diferenças significativas para esta variável para os espaçamentos avaliados.
Os estudos de redução do espaçamento entre linhas sobre o rendimento de grãos
de milho apresentam resultados bastante heterogêneos. Enquanto, alguns
resultados indicam aumentos expressivos de rendimento de grãos com a redução do
espaçamento entre linhas (Balbinot Junior e Fleck, 2005; Johnson e Hoverstad,
2002; Sherestha et al., 2001; Strieder, 2006), outros não detectaram qualquer
benefício da utilização de linhas mais próximas sobre o rendimento de grãos de
milho (Flesch e Vieira, 2004; Pitombeira e Nunes, 1995). Esses resultados
existentes na literatura podem ser atribuídos a diversos fatores, entre os
quais se pode citar o tipo de híbrido, a população de plantas, as
características climáticas da região e o nível de fertilidade do solo, dentre
outros (Sangoi et al., 2002).
O espaçamento de 0,90 m proporcionou aos híbridos analisados maior
produtividade em relação ao de 0,45 m. Este resultado discorda de Gilo et al.
(2011) que não obtiveram diferenças significativas entre os espaçamentos para
este parâmetro e Nascimento et al. (2012) que constataram que o espaçamento de
0,45 m proporcionou maior produtividade aos híbridos estudados.
Conclusões
O espaçamento de 0,90 m proporcionou os maiores valores de comprimento da
espiga, número de grãos por espiga e, consequentemente, produtividade para os
híbridos avaliados.
O híbrido P30F35 apresentou maior número de grãos por espiga, massa de cem
grãos e produtividade.