Sistemas agroflorestais em Portugal continental: Parte I: economia e
distribuição geográfica
Introdução
Os sistemas agroflorestais ocupam cerca de 25% dos espaços agrícola e
florestal, de Portugal continental (total das superfícies de agricultura e
floresta ' AFN 2005/06). Estes sistemas afiliam-se na família dos sistemas de
montado, tal como já eram definidos em meados do século XIX: entende-se por
montados os terrenos onde se encontram árvores de azinheiras, sobreiros,
carvalhos ou castanheiros (DGCAM, 1852-1854). Na atualidade, abrangem, grosso
modo, as áreas daquelas espécies e as de pinhal manso e de alfarrobeiral
tradicional; e, em simultâneo, conjugam o pastoreio de animais, no sob coberto,
aproveitando os frutos e os recursos forrageiros. Por vezes, surgem em
povoamentos puros de uma daquelas espécies (o sobreiro ou a azinheira, por
exemplo), noutras circunstâncias agregam-se em povoamentos mistos (sobreiro e
pinheiro manso, ainda como exemplo).
Para além da sua relevância no sentido de figura da natureza - a natureza como
«fábrica», como conjunto incluindo recursos (água, solo, biodiversidade...),
mas também de funcionamentos (ciclos...) e «funções» (regulação climática, )
(Perrier-Corne,t 2002; cf. Rolo, 2006) ', os sistemas em apreço emergem, em
importância, pelo desempenho quer da função de produção de bens mercantis, quer
de outras funções que decorrem, sob a vertente do consumo, das procuras atuais
pela sociedade nos domínios da proteção da natureza e conservação ambiental,
de suporte de lazer territorial (caça e diversos outros desportos) e de
(re)construções da herança rural (patrimónios material e imaterial) (cf.
Baptista, 2010 e Rolo, 2010).
O artigo focaliza-se, sobretudo, na função produtiva ' no entendimento de
obtenção de bens transacionáveis. Retêm-se os principais produtos, não se
analisando as produções de outros bens, como são os casos da lenha e carvão, do
mel, da recoleção de plantas aromáticas e medicinais e de cogumelos silvestres,
ou da caça.
O contexto: condicionalismos geográficos
Apesar da sua diminuta superfície, o Continente português apresenta contrastes
climáticos sensíveis ' de matiz mais atlântico no Centro e Norte litoral, um
cariz mediterrâneo mais marcado no interior e no Sul ' que resultam da
conjugação de três fatores fundamentais: a latitude; a oposição entre a
influência atlântica, a oeste, e a continental, a leste; o contraste entre o
Norte, mais acidentado e elevado ( ), e o Sul dominantemente peneplano (PNPOT,
2007). Orlando Ribeiro expressava, por meados do século XX, aqueles contrastes
nos seguintes termos: Havendo de repartir Portugal, as divisões principais
serão dadas pelo contraste entre as influências mediterrâneas e atlânticas e,
nestas, pela sua atenuação com o afastamento do litoral. Norte atlântico, Norte
transmontano e Sul são as divisões fundamentais da terra portuguesa (Ribeiro,
1987). E esclarecia:
(a) O Norte atlântico, marcado pela abundância de chuvas ' as montanhas que o
delimitam pelo interior contam-se entre os lugares mais ricos em precipitação
(=3 000 mm anuais) -, tem no pinheiro bravo a tradução na paisagem da
dominante marítima; a ele se associam o carvalho alvarinho e o carvalho
negral.
(b) O Norte transmontano, onde predominam as altas plataformas onduladas,
cortadas de vales e bacias muito profundas, revela na paisagem o predomínio do
arvoredo de folha caduca (carvalho negral e castanheiro); os planaltos e
montanhas de um e de outro lado do Douro são em tudo semelhantes. Separa-os o
vigoroso entalhe aberto pelo rio [Douro] ( ). A favor das chuvas escassas, do
Inverno moderado e no Verão ardente, as influências mediterrâneas chegam muito
ao norte.
(c) O Sul, que compreende a mais vasta e monótona unidade natural do nosso
território ' o Alentejo, (i) começa, pelo interior, nos plainos do sopé da
Cordilheira Central [Serra da Estrela], onde os pinhais fazem a paisagem mas,
logo, para sul e para leste, o sobreiro se avantaja aos carvalhos e
castanheiros [e] a azinheira aparece; (ii) a oeste, a influência do mar
enriquece de cambiantes a transição entre o Norte e o Sul ' está-se a sul do
rio Mondego, nas unidades de paisagem conhecidas por Estremadura e Ribatejo;
(iii) no vale do Mondego o carvalho alvarinho cede o lugar ao carvalho
português, forma de transição para as espécies de folha perene; a
originalidade da Estremadura está nos maciços calcários ' o solar do
carvalho português -, por sua vez, (iv) o que dá unidade ao Ribatejo, é, além
do rio [Tejo], a depressão do relevo, sempre abaixo de 200 m, muito forte em
relação às montanhas calcárias da Estremadura e ainda sensível no rebordo do
maciço antigo da Beira [Cordilheira Central] ou do Alentejo; no Ribatejo, a
sul do rio avantajam-se ( ) o montado de sobro, os campos arborizados de
feição já alentejana. Feita esta breve alusão à mancha que, na delimitação dos
sistemas agroflorestais que adiante se apresenta se designará por transição,
referência, por fim, ainda no âmbito do Sul, ao Alentejo ' o espaço do mais
notável sistema montado de Portugal ' e ao Algarve. Assim, e continuando a
acompanhar aquele autor, (v) a originalidade do Alentejo ( ) reside tanto na
imensidão da terra lisa ou apenas quebrada em frouxas ondulações, como no
clima, a que a falta de centros de condensação da humidade do ar apaga todos os
caracteres oceânicos. O mais provém daí; (vi) o Algarve, que na zonagem dos
sistemas que se apresenta revela nos seus traços afinidade ao espaço de
transição, é o território onde, de par com revestimentos de sobreiros e
medronheiros ' e de amendoeiras e figueiras -, o alfarrobeiral tem o seu
domínio marcante.
Uma zonagem dos espaços dos sistemas agroflorestais no Continente português
O ensaio de zonagem dos sistemas agroflorestais do Continente português assenta
num conjunto de variáveis reportadas à unidade administrativa elementar
concelho. Tais variáveis são indicativas das dimensões dos principais
povoamentos florestais e das ocupações do solo cujo aproveitamento forrageiro é
expectável, do valor económico dos principais produtos florestais e animais, e
dos tipos de exploração agrícola com orientação prevalecente na produção
pecuária extensiva. A informação estatística de base, devido à sua não
homogeneidade (diferentes fontes e unidades de medida), foi transformada em
indicadores reportados à superfície territorial dos concelhos. Assumiram-se 26
variáveis de base, listadas na legenda da Figura_1,a partir das quais se
identificaram os fatores mais marcantes na discriminação espacial dos sistemas
agroflorestais. Para tanto, recorreu-se à análise de componentes principais. As
três componentes principais com maior valor próprio têm uma capacidade
explicativa acumulada de 48% da variabilidade territorial. As restantes não são
consideradas na análise porque a percentagem de variância reduz-se muito e
varia pouco entre componentes.
A primeira componente (ver Figura_1), com uma capacidade explicativa de cerca
de 30% retrata a grande agricultura (explorações agrícolas) de montados de
sobro e azinho, pois as coordenadas de maior valor referem-se: às áreas de
culturas em sob coberto de matas e florestas, de prados e pastagens
permanentes, de pastagens pobres e de pousios, de povoamentos de sobreiro
e de azinheira e também o valor acrescentado bruto (VAB) da cortiça por
hectare, e a dimensão (física) das explorações agrícolas. A segunda componente
representa a pequena agricultura (minifúndio) associada à área de carvalhal, à
produção de bovinos (n.º de explorações especializadas em bovinos de carne e
VAB de bovinos.ha-1) e às orientações técnico-económicas (OTE) polipecuária e
agricultura geral. A terceira componente revela um sistema caracterizado pela
produção de frutos secos e de pequenos ruminantes, a que se associa também o
carvalhal e a produção de mel.
A delimitação das manchas (espaços constituídos pela congregação de concelhos)
dos sistemas agroflorestais foi realizada pela aplicação às variáveis referidas
da classificação hierárquica ascendente. As zonas mais vincadas estão
associadas às três primeiras componentes principais e permitem identificar o
Norte Atlântico, o Norte Transmontano e o Sul ' montado (Figura_2). Depois,
demarcam-se ' ainda que com maior similitude ao Norte Transmontano - as manchas
de transição (envolvendo a Estremadura e o Ribatejo) e o Algarve. No Sul -
montados salienta-se uma subzona no litoral, o Alentejo litoral, e na zona de
transição sobressai a sub-região do Pinhal
Na caracterização que se segue não se vai aludir à subzona do Pinhal e à que
também surge com alguma individualidade no Sul ' montado, a do Alentejo
litoral (na qual sobressaem os povoamentos de pinhal manso, emergem
explorações de menores dimensões de pequenos ruminantes e são menores as
extensões relativas de ocupações forrageiras). Também se omite a caracterização
das áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto.
Caracterização dos grandes espaços dos sistemas agroflorestais
Vai-se agora revelar um panorama das sócio-economias dos espaços dos sistemas
delimitados: em primeiro lugar, sob a ótica global, depois, sob a vertente
técnico-económica da agricultura e silvicultura.
Da dimensão territorial, à ocupação populacional, do contributo para a riqueza
gerada e à respetiva estrutura produtiva sectorial, colocam-se em evidência a
assimetria e a diversidade do território do Continente português. Retenha-se
que o conjunto dos espaços, onde se inserem os sistemas agroflorestais
(superfície total do Continente, excluindo as áreas metropolitanas de Lisboa e
do Porto), abrangem cerca de 95% da superfície do Continente, mas a população
que neles reside não vai além de 56% - e até a porção de população rural pouco
ultrapassa os 75% - e a sua participação na riqueza gerada (VAB) não chega ao
limiar de 45% (Quadro_1).
É evidente, pois, a grande oposição entre os espaços dos sistemas
agroflorestais e as concentrações metropolitanas de Lisboa e do Porto.
Mas contrastes notáveis, também, entre os espaços demarcados (Quadro_1): (i) se
o Norte atlântico, o espaço de transição e o Algarve revelam relativo
equilíbrio na repartição do território e na participação do VAB, assim não
acontece no Norte transmontano e no Sul - montado (38% da superfície
territorial do Continente português, mas tão só 7% da riqueza gerada); (ii)
grande desequilíbrio na fixação da população: 275 habitantes por km2no Norte
atlântico, quando no Sul ' montado o rácio se fica pelos 30; (iii) à presença
quase similar entre jovens e idosos no Norte atlântico contrapõem-se os
elevados índices de envelhecimento populacional do Sul ' montado e, mais ainda
do Norte transmontano.
Diferenças, por sua vez, nas estruturas sectoriais das economias (observação no
início do século XXI ' cf. Rolo, 2003, 2010), onde cabe fixar, como referência,
o padrão médio do Continente português: sector primário ' 4% em VAB, 13% no
emprego (3% e 12% no ramo agrícola-silvícola), sector secundário ' 30% e 32%,
sector terciário ' 67% em VAB e 55% no emprego. Assim, (iv) se, em termos de
VAB, a terciarização domina, o seu peso relativo, contudo, varia de pouco mais
de 50% no Norte atlântico a 80% no Algarve e situa-se em redor de 60% nos
outros espaços; (v) já quanto ao emprego, a importância do sector terciário não
alcança os 40% no Norte, eleva-se nas circunscrições de transição (51%) e do
Sul ' montado (56%) e cifra-se em 72% no Algarve; (vi) a relevância, em VAB e
no emprego, do sector secundário distancia claramente o Norte atlântico dos
outros espaços: 44%, em VAB e no emprego, que compara com 34% (cerca de 30% do
emprego) na economia do espaço de transição, 28% quer no Norte transmontano
(20% no emprego), quer no Sul ' montado (25% no emprego) e 13% (20% no emprego)
no Algarve; (vii) o impacte da agricultura e da silvicultura (o fundamental do
sector primário) sobressai, generalizadamente, com maior expressão social
(emprego) do que em termos de contribuição para o VAB ' o que revela a carência
de oportunidades do emprego não agrícola, ou por ausência de procura, ou pelos
condicionalismos da população que se emprega na agricultura (mais idosa, menos
qualificada e com mais baixas habilitações, mais feminina ). E é assim que,
(viii) enquanto no Algarve e no Sul ' montado o peso relativo do ramo agrícola
(incluindo também a silvicultura) não revela grande afastamento entre as
grandezas VAB e emprego (no Algarve: uma participação em VAB de 5% e de 6% no
emprego; no Sul ' montado: 15% e 18%, respetivamente), nos outros espaços são
notáveis as discrepâncias: 3% e 18% no Norte atlântico, 6% e 19% na zona de
transição, 13% em VAB mas 42% no emprego no espaço do Norte transmontano.
As diferenças inter espaciais que se anotaram vêem-se bem refletidas nos
índices sintéticos das rendabilidades do emprego não agrícola-silvícola (VAB
não agrícola/emprego não agrícola) e do emprego agrícola (VAB da agricultura e
da silvicultura/emprego na agricultura e silvicultura). Sobreleva-se a
diferença, para ambos os índices, entre o Norte atlântico e o Sul ' montado
(Quadro_2)
Passa-se à vertente técnico-económica da agricultura e silvicultura revelando,
em primeira linha, a diversidade dos espaços dos sistemas agroflorestais no que
respeita à importância das grandes componentes produtivas. Destaca-se: a
produção vegetal no Norte transmontano e, sobretudo, no Algarve; o maior
impacte da produção animal no Norte atlântico e, depois, no território de
transição; e a silvicultura no espaço do Sul ' montado (Quadro_2).
Em observação mais fina, e sob a ótica do valor económico gerado, são de reter
as especializações produtivas (no entendimento de maior peso relativo, no total
do VAB, na zona face ao que se regista na média do Continente português): (i)
Norte atlântico: produções de madeira, de bovinos (sobretudo leite, mas também
carne), da vinha, de outros produtos animais (granívoros ' suínos e animais
de capoeira -, mel e cera e equídeos) e de outros produtos florestais (não
madeira nem cortiça); (ii) Norte transmontano: vitivinicultura, olivicultura,
produção de frutos secos (amêndoa e castanha) e de pequenos ruminantes
(caprinos e ovinos); (iii) A zona de transição individualiza-se pela forte
especialização nas produções de hortícolas e frutos frescos (incluindo horto-
industriais, citrinos e frutos subtropicais), de outros produtos animais e de
madeira; (iv) Sul: cortiça, cereais, pequenos ruminantes e outros produtos
florestais; (v) Algarve: hortícolas e frutos frescos e frutos secos
(alfarroba, amêndoa e figo).
Claro que o que se descreveu a partir de resultados económicos é o reflexo dos
usos do território e das espécies animais em presença nos diferentes espaços.
Não admira, portanto, que a importância na superfície territorial da extensão
de culturas permanentes (pomar, olival, vinha), no Norte transmontano, no
espaço de transição e, em menor nível, no Algarve, supere o registo médio no
Continente português; ou que idêntica situação se assinale no Sul ' montado no
que respeita às dimensões de terras aráveis de culturas temporárias, de
prados e pastagens permanentes ou de cultivos em sob coberto de florestas.
Em matéria do efetivo pecuário, ao contrário do que se verifica na zona de
transição ' com o elevado predomínio dos suínos (perto de 70% do total do
efetivo, expresso em cabeças normais, CN, com a exclusão dos animais de
capoeira ' INE IEEA2005) ', nos demais espaços, a supremacia é dos herbívoros:
65% no Algarve, 73% no Norte atlântico (a coincidir com a média do Continente),
83% no Sul ' montado, rondam os 90% no Norte transmontano. Sobressai, depois, a
forte presença dos pequenos ruminantes no Sul ' montado (perto de 25% do total
dos gados, em CN), no Algarve (30%), e, mais ainda, no Norte transmontano
(40%); salienta-se, ainda, o impacte dos bovinos de vocação não leiteira (as
vacas aleitantes, onde emergem as raças autóctones) no Norte atlântico (perto
de 20%) e no Algarve (cerca de 25%) e, sobretudo, no Sul ' montado (acima de
50% do armentio total).
Quanto às espécies florestais que caracterizam a paisagem dos espaços dos
sistemas agroflorestais importa deixar o retrato sustentado na respetiva
importância relativa na superfície territorial, face a idêntico rácio ao nível
do Continente (AFN, 2005/06 e 1995/98 ' cf. Rolo, 2010). Assim, destacam-se as
especializações: no Norte (atlântico e transmontano) ' carvalhos e
castanheiros; no Sul ' montado ' sobreiros e azinheiras e pinheiros mansos; no
Algarve ' alfarrobeiras e pinheiros mansos. Menção, também, ao grande impacte
do conjunto de pinheiro bravo e eucalipto no Norte atlântico e no espaço de
transição.
Produções florestais
Alfarroba
A alfarrobeira apenas assume importância económica no Algarve. Numa área de
cerca de 85 000 ha, individualizam-se, atualmente, três sistemas de produção:
(i) o denominado pomar misto, com uma extensão de cerca de 60 000 ha, é o
resultado da consociação da alfarrobeira com a amendoeira, a figueira e a
oliveira; (ii) a alfarrobeira em parcelas de terreno em que domina o mato,
ocupará cerca de 13 000 ha, trata-se do sistema que retrata o crescendo do
abandono rural e, portanto, indicia tendência para aumentar em detrimento do
sistema anterior; (iii) a alfarrobeira em cultura estreme, este é o sistema
mais intensivo e resulta de plantações recentes, que contaram com apoios da PAC
(DRAPAlg, 2000). Este sistema mais intensivo está em franco crescimento na
região de Mértola, no Baixo Alentejo.
A produção nacional de alfarroba inteira situou-se, no quinquénio 1995/1999, em
40 100 toneladas. A indústria nacional consumia 3 564 toneladas de semente a
que corresponde cerca de 35 640 toneladas de alfarroba inteira, e o saldo
exportação-importação de semente situava-se em 442 toneladas. Parte da produção
de alfarroba inteira era exportada antes de transformada, ou seja, cerca de 4
360 toneladas. A informação mais recente (2008 FAO cit. INE dados provisórios)
revela uma produção de 20 000 toneladas, provenientes de 9 100 ha; a balança
comercial de derivados de semente de alfarroba mostrava a exportação de 2 381,3
toneladas e a importação de 418,7 toneladas.
Castanha
O castanheiro ocupa no Continente português uma área de cerca de 41 000 ha
(AFN, 2005/06). Para além das pequenas manchas no nordeste do Alentejo (Serra
de São Mamede) e no Algarve (Serra de Monchique), concentra-se sobretudo no
espaço do Norte transmontano. A parte substancial daquela área (93-97%) é
explorada em sistema agro-florestal denominado souto, visando essencialmente a
obtenção de fruto. Na parte restante, o castanheiro é explorado em castinçais,
ou seja, em talhadia.
Atualmente, no quadro da UE e com vista a proteger e valorizar a castanha de
cada região estão registadas várias denominações de origem protegida, DOP:
Castanha da Serra da Padrela e Carrazeda de Montenegro, Castanha da Terra
Fria Transmontana, Castanha dos Soutos da Lapa e a Castanha de Marvão.
A produção oficialmente contabilizada situa-se em torno de 22 000 toneladas,
com origem numa superfície de cerca de 30 300 ha. O destino da produção (em
toneladas): consumo interno - 17 340; exportação - 5 557,5 (cerca de 12,5
milhões de euros). Anota-se a importação de perto de 1 000 toneladas (próximo
de 1,8 milhões de euros) (2008, FAO cit INE dados provisórios).
Pinhão
No espaço do Sul ' montado, o pinheiro manso é explorado, sobretudo, segundo
dois tipos de sistemas: (i) O sistema das grandes explorações de montado (onde
a maior parte da extensão de pinhal é procedente de regeneração natural) '
trata-se de um sistema essencialmente coletor de pinhas, sendo a produção
vendida na árvore ou explorada em parceria entre proprietários e apanhadores.
(ii) O designado sistema moderno ' é o sistema de implantação recente, também
em grandes explorações nas regiões do Alentejo e Ribatejo; os povoamentos,
artificiais, são conduzidos de forma mais intensiva e como autênticos pomares
frutícolas.
Anota-se que o pinheiro manso também marca presença em outros espaços dos
sistemas agro-florestais que se delimitaram: em pequenas e médias explorações
de algumas zonas do Norte atlântico e do Algarve, onde, de forma pouco regular
se aproveita o material lenhoso e, em pequena escala, se procede à apanha de
pinha.
A dimensão territorial do pinheiro manso no Continente português situa-se em
cerca de 84 000 ha (DGRF, 2007). Entre os anos 1995 e 2005, ao contrário do
decréscimo registado no Algarve, a área da espécie teve um importante impulso -
para além do que se verificou no espaço da área metropolitana de Lisboa
(Península de Setúbal) - no espaço do Sul-montado (em concreto, no litoral e
nas zonas norte e nordeste). É no litoral do espaço Sul ' montado que, no
contexto português, a produção de pinhão adquire a máxima importância.
No litoral do Sul ' montado, a classificação por tipo de povoamento, revela que
os povoamentos puros representam um pouco mais de 40% da área total de
pinheiro manso; os mistos, em que a espécie é dominante, significam 35%;
cabendo o remanescente aos mistos com o pinheiro manso como dominado. Na
extensão dos povoamentos mistos (cerca de 45 000 ha), o sobreiro domina em
48% e o pinheiro manso é dominante nos restantes 52% (Coelho e Campos, 2009).
Estima-se que a produção anual portuguesa se situa, na atualidade, entre 60 a
70 milhões de pinhas, o equivalente a cerca de 520 toneladas de miolo de pinhão
(65 * 106 pinhas = 3,25 * 106kg de pinhão com casca = 3,25 * 106kg * 0,16 kg de
miolo = 520 000 kg. Com os preços ao produtor, em 2004, aquela produção
atingiria uma receita de 32,5 milhões de euros. O saldo da balança comercial
portuguesa de miolo de pinhão cifrou-se em 2,3 milhões de euros (exportações:
171,6 toneladas; cerca de 4,02 milhões de euros) (INE, 2008).
Cortiça
Desde meados dos anos trinta do século XX que Portugal é o principal produtor e
transformador mundial de cortiça.
A área ocupada pelo sobreiro, a nível mundial, situa-se próxima de 2,7 milhões
de hectares (correspondendo a 350 mil toneladas de cortiça), distribuída
essencialmente na zona Mediterrânea com influência atlântica. A Península
Ibérica detém 56% da área total, cabendo a Portugal 33% da área total. Três
países da UE27 (Portugal, Espanha e Itália) são líderes na produção,
transformação e comércio de cortiça. As quotas de Portugal, a nível mundial, na
produção e na transformação elevam-se a 54% e a quase 70%, respetivamente.
Outros dados da situação portuguesa: (i) em 83% dos 713 000 ha de sobreiros
contabilizados em Portugal (AFN, 2005/06) os povoamentos apresentam um estado
de vitalidade que se classifica como bom ou bastante bom e com um
apreciável potencial produtivo de cortiça amadia; (ii) no cômputo das
exportações totais, a importância dos transformados industriais da cortiça
situa-se em quase 3%; (iii) as pequenas empresas são responsáveis pela
transformação de 70% da produção; (iv) o principal comprador de transformados
de cortiça é o sector dos vinhos (cerca de 60 %), seguido da construção civil
(15 %) e do sector automóvel (11%).
É precisamente no escoamento de transformados (rolhas) por via do sector dos
vinhos que a cortiça tem vindo a enfrentar dificuldades. Na realidade, as
rolhas de cortiça natural têm vindo a ser substituídas por rolhas aglomeradas,
ou mesmo por rolhas micro granuladas, o que tem resultado num decréscimo do
valor das cortiças delgadas. Tal concorrência dos vedantes alternativos em
relação ao produto natural está a afetar diretamente o valor económico da
cortiça e do montado de sobro, com implicações sérias na rentabilidade da
exploração, podendo colocar em causa a sustentabilidade do ecossistema;
acrescem os impactes ambientais negativos daqueles vedantes. Para enfrentar a
situação, os agentes da fileira cortiça e os decisores políticos vêm
desenvolvendo uma importante campanha de defesa e promoção desta notável
matéria-prima (Pestana e Coelho, 2007).
Síntese
É evidenciada a diversidade entre os espaços dos sistemas demarcados, advinda
do fator climático e espelhada nas espécies florestais que particularizam as
respetivas paisagens: carvalho e castanheiro no Norte (atlântico e
transmontano); sobreiro, azinheira e pinheiro manso (na zona litoral ocidental)
no Sul-montado; alfarrobeira e pinheiro manso no Algarve. Ainda, mas já fora da
aceção de sistema agro-florestal, referência ao pinheiro bravo e ao eucalipto
pelo seu impacte no Norte atlântico e na mancha espacial de transição.
Contrastes também na dimensão territorial, na ocupação populacional (atente-se
nos 275 hab./km2 no Norte atlântico, contra menos de 30 no Sul-montado) e
respetivos índices de envelhecimento (mais elevados no Sul-montado e,
sobretudo, no Norte transmontano), no contributo para a riqueza gerada e na
respetiva estrutura produtiva sectorial. Retendo apenas a vertente técnico-
económica da agricultura e silvicultura destaca-se a maior importância, ao
nível das grandes componentes produtivas: Norte atlântico: produções de
madeira, de bovinos (sobretudo leite), da vinha, de outros produtos animais
(suínos, animais de capoeira, equídeos, mel e cera) e de outros produtos
florestais (não madeira, nem cortiça); Norte transmontano: vitivinicultura,
olivicultura, produção de frutos secos (amêndoa e castanha) e de pequenos
ruminantes (caprinos e ovinos); zona de transição: produções de hortícolas e
frutos frescos, de outros produtos animais e de madeira; Sul ' montado:
cortiça, cereais, pequenos ruminantes e outros produtos florestais; Algarve:
hortícolas e frutos frescos e frutos secos (alfarroba, amêndoa e figo).