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EuPTCVHe0871-34132012000400002

EuPTCVHe0871-34132012000400002

National varietyEu
Country of publicationPT
SchoolLife Sciences
Great areaHealth Sciences
ISSN0871-3413
Year2012
Issue0004
Article number00002

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Serão as microbiópsias representativas nos carcinomas da mama?

INTRODUÇÃO Nos últimos anos tem-se vindo a verificar uma mudança de atitude relativa ao diagnóstico do cancro da mama, isto é, tornou-se uma prática desejável a caracterização pré-terapêutica da neoplasia com microbiopsias (MB). O objectivo desta opção é permitir à equipa multidisciplinar que orienta a(o) doente com cancro de mama uma discussão tão informada quanto possível sobre as várias alternativas. A utilização desta metodologia permite ainda que se guarde em arquivo (blocos de parafina, banco de tumores) tecido para estudos ulteriores em doentes submetida(o)s a quimioterapia neo-adjuvante (QT primária).

A maior parte das neoplasias malignas da mama são carcinomas que estão longe de constituírem um grupo homogéneo. Concretamente, subgrupos de carcinomas da mama com características especiais no que se refere à frequente multifocalidade/bilateralidade (p.e. carcinoma lobular, carcinoma tubular), à elevada prevalência de invasão vascular importante (p.e.carcinoma micropapilar) ou ainda à associação a mutação de genes da família BRCA (p.e. carcinoma com fenótipo de células basais). O reconhecimento destes subgrupos modifica a abordagem do estudo da(o) doente, determinando por exemplo o recurso a Ressonância Magnética para evitar re-intervenções cirúrgicas e/ou definir o tipo de cirurgia (mastectomia versus cirurgia conservadora). É ainda importante a definição do perfil molecular dos carcinomas, quer no que respeita aos receptores hormonais (como factores preditivos de resposta à terapêutica), quer na determinação da sobre-expressão/amplificação do HER2 cuja detecção na MB, pode justificar a colocação intra-operatória de um catéter para futura administração de fármacos (p.e. Transtuzumab).

Uma vez que na MB se examina uma pequena amostra da totalidade do tumor é importante verificar até que ponto os pequenos fragmentos são representativos da neoplasia. Com este objectivo procedemos ao estudo comparativo das características morfológicas e moleculares das MBs e PCs subsequentes numa série de 103 doentes diagnosticados e tratados no H.S.João.

MATERIAL E MÉTODOS Estudámos uma série de 103 casos consecutivamente estudados no H.S.João no ano de 2008 com o diagnóstico de carcinoma invasor da mama em doentes submetidas a MB e cirurgia ulterior. Analisámos as características histológicas (tipo, grau e presença/ausência de invasão vascular) e a expressão dos factores preditivos de resposta à terapêutica (receptores hormonais e HER2) na MB e na PC.

Excluímos deste estudo os casos em que foi efectuada quimioterapia neo- adjuvante.

Os fragmentos de MB foram obtidos com agulhas 14 Gauge (4 a 6 fragmentos) e as peças cirúrgicas imediatamente seccionadas após a cirurgia. Quer as MB quer as PC foram fixadas em formol tamponado a 10%. Os carcinomas invasores foram classificados utilizando a classificação do OMS (7) e agrupados em cinco grupos: carcinoma ductal, SOE (CDI, SOE); carcinoma lobular (CLI), carcinoma com fenótipo de tipo células basais (CCB), carcinoma micropapilar (CMI) e outros; e graduados segundo a classificação de Bloom-Richardson modificada por Elston e Ellis (6) ' grau 1, grau 2, grau 3; nos casos em que a contagem de mitoses foi difícil na MB optámos por utilizar grau 1/2 ou grau 2/3; a presença de invasão vascular foi avaliada em cortes de rotina corados por hematoxilina- eosina, sem recurso a estudo imuno-histoquímico. Os receptores de estrogéneo (RE) e de progesterona (RP) foram classificados como positivos ou negativos tendo como cut-off ou limiar os 10%. A detecção da sobre-expressão do HER2 foi efectuada por imuno-histoquímica e graduada de acordo com a classificação Roche/Ventana como (0; +1; +2; +3) (8).

A concordância entre os resultados obtidos nas MBs e nas PCs foi analisada utilizando a taxa de concordância absoluta.

RESULTADOS Tipo histológico Todos os diagnósticos de malignidade nas MBs foram confirmados nas PCs. Na Tabela_1 resumem-se os resultados nas MBs e nas PCs. Os diagnósticos na MBs foram os seguintes: dos 66 casos com diagnóstico de CDI nas MBs, 54 foram confirmados na PC, 1 foi classificado com CLI e 11 foram incluídos no grupo outros. Dos 9 casos com diagnóstico de CLI nas MBs, 7 foram confirmados na PC, 1 foi classificado com CDI e 1 foi incluído no grupo outros. Dos 7 casos com diagnóstico de CCB nas MBs, 5 foram confirmados na PC, 1 foi classificado com CDI e 1 foi incluído no grupo outros.

Tabela_1

Dos 4 casos com o diagnóstico de CMI na MB 2 foram confirmados na PC (1 foi classificado como CDI e outro incluído no grupo dos outros. Em 17 casos designados neste trabalho como "outros" não foi possível, na MB, a classificação em subtipos. A maioria dos 17 casos diagnosticados como outros nas MBs foram classificados como CI SOE nas PCs. Os resultados das PC foram os seguintes: 67 casos de CDI, 9 casos de CLI, 5 casos de CCB e 2 casos de CMI.

No grupo outros acabaram por ser agrupados 20 casos (7 carcinomas mistos, 6 carcinomas neuroendócrinos, 3 carcinomas mucinosos, 2 carcinomas tubulares, um carcinoma de células em anel de sinete e um carcinoma invasor SOE) (Tabela_1).

Os diagnósticos feitos nas MB coincidiram com os feitos nas respectivas PCs em 74 dos 103 casos (72%) (Tabela_1).

Grau histológico Comparando os graus 1, 2, 3 a concordância foi total em 48 casos (Tabela_2).

Nos casos em que na MB houve dificuldade na contagem de mitoses e que classificámos como grau 1/2 (n=22) observámos depois, nas PCs respectivas, que 9 casos eram de grau 1, 10 casos de grau 2 e apenas 3 casos eram pouco diferenciados na peça cirúrgica-(Tabela_2). Nos 8 carcinomas classificados nas MBs como de grau 2/3 nenhum correspondeu a carcinoma bem diferenciado nas PCs (um foi graduado como grau 2 e 7 eram de grau 3 ( Tabela_2).

A avaliação dos marcadores moleculares mostrou que a grande maioria dos casos (n=90) eram positivos para RE, com uma concordância total (100%) entre as MBs e as respectivas PCs. Os 13 casos restantes foram negativos tanto nas MBs como nas PCs (Tabela_3). A expressão de RP foi concordante em 90 casos (82 casos positivos e 8 casos negativos). Em 8 casos os resultados foram discordantes.

Quatro casos considerados positivos nas MBs foram classificados como inconclusivos nas PCs (Tabela_3).

Na avaliação das MBs a avaliação foi a seguinte: 3+ em 2 dos casos (2,0%), 2+ em 11 casos (10,5%), 1+ em 14 casos (13,5%) e 0 em 41 casos (40%). Os restantes casos foram considerados inconclusivos (0/1+;1+/2+).

A concordância entre os resultados nas MBs com as PCs não foi total no que se refere aos 4 subgrupos (0,1+,2+,3+); no entanto, se considerarmos os dois grandes grupos que determinam a estratégia, (0/1+) e (2+/3+), a concordância foi total.

Os casos classificados como 2+ foram complementados com pesquisa de amplificação (FISH e SISH).

DISCUSSÃO A utilidade das MBs no diagnóstico das neoplasias da mama está amplamente documentada (3-5). Neste estudo verificámos que, relativamente ao tipo histológico, a concordância obtida entre MBs e PCs foi elevada nos dois tipos principais: carcinoma ductal SOE (80,6%) e carcinoma lobular (77,8%). A importância de reconhecer a diferenciação lobular reside no facto de ser uma neoplasia mais frequentemente multifocal e bilateral (9) o que nos leva considerar indispensável o recurso à utilização da imuno-histoquímica ' pesquisa de imunorreactividade para caderina-E nas situações em que se levante esta hipótese de diagnóstico.

Em dois dos 7 casos diagnosticados como CCB na MB não confirmámos este diagnóstico na PC. Perante um carcinoma de grau 3 e perfil molecular de triplo negativo (RE, RP e HER-2 negativos) deve proceder-se a estudo imuno- histoquímico complementar (sobretudo CK5 ou p63) para reconhecer este subgrupo, uma vez que pode estar associado a uma mutação do BRCA1. Neste caso pode estar indicada mastectomia total e mastectomia profilática contralateral.

Os carcinomas micropapilares têm frequentemente metástases axilares aquando do diagnóstico (10). Nesta série apenas em metade dos casos (2 em 4) fizemos o diagnóstico de CMI nas PCs. A invasão extensa que se observa neste subtipo histológico leva alguns autores a optar pela cirurgia radical numa tentativa de diminuir a probabilidade de recidiva local.

A taxa de concordância foi apenas de 46,6% sendo a principal dificuldade a contagem das mitoses. A outra explicação para a discrepância na graduação relaciona-se com a amostragem limitada das MB, sobretudo em neoplasias heterogéneas e grandes. Daqui seria de esperar que a discrepância fosse a tender para aumento do grau, das MBs para as PCs, 14 casos classificados como 1/2 e 2 nas MBs que classificámos como grau 3.

A MB identificou 56% dos casos de carcinoma pouco diferenciado no qual a QT neo-adjuvante é mais eficaz.

Na MB o recurso a imuno-histoquímica adicional (Ki67/MIB-1) pode permitir uma maior sensibilidade neste aspecto.

Na comparação dos resultados obtidos nos marcadores moleculares verificámos que a concordância para RE foi de 100% e de 87% para RP. A frequente heterogeneidade tumoral no que se refere à imunorreactividade para a progesterona pode justificar este facto.

A expressão de HER2 é relativamente alterada nas MBs por artefactos técnicos (11), nomeadamente o frequente excesso de imunorreactividade na periferia dos fragmentos. Considerando os dois grandes grupos: negativos os casos graduados como 0 e 1, e positivos os casos graduados como 2 e 3, a concordância com o resultado obtido na peça cirúrgica foi absoluta. Estes valores de concordância são mais elevados do que os 88% referidos por Usami et al (4), embora estes autores tenham também obtido uma elevada sensibilidade para o score 3+.

Nos casos inconclusivos, em que não foi possível avaliar a sobre-expressão do HER-2 na MB, e nos casos graduados como 2, procedemos ao estudo por amplificação (FISH ou SISH). Nos casos positivos (3+ e/ou com amplificação) foi possível proceder à introdução de catéter para terapêutica ulterior num tempo operatório.

A elevada concordância na avaliação de marcadores moleculares preditivos de resposta à terapêutica permite-nos dispensar a repetição desta análise nas PCs sempre que os resultados são positivos na MB.

CONCLUSÃO O diagnóstico de carcinomas da mama por MB tem uma elevada reprodutibilidade, quer em termos histológicos, quer em termos moleculares, o que permite o estabelecimento de uma estratégia terapêutica segura (cirurgia e/ou quimioterapia) e torna dispensável, na maioria dos casos, a repetição do estudo molecular nas peças cirúrgicas, sempre que na MB se tenham obtido resultados positivos.


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