Terapêutica farmacológica na doença de Alzheimer: progressos e esperanças
futuras
INTRODUÇÃO
Estima-se que mais de 24 milhões de pessoas padeçam de demência a nível
mundial,1existindo em Portugal cerca de 153 000 pessoas afetadas.2Dessas, 90
000 têm Doença de Alzheimer (DA).2De facto, a DA constitui a principal demência
neurodegenerativa, sendo responsável por 50-60% dos casos de demência.3Na DA
ocorre uma deterioração insidiosa, progressiva e persistente da cognição,
capacidade funcional e comportamento,4manifestandose inicialmente por défices
da memória episódica. Caracteriza-se por perda neuronal, inicialmente na região
temporal medial, e associa-se histologicamente a placas senis, formadas pela
acumulação extracelular da proteína beta-amilóide, e a tranças neurofibrilares,
compostas pela proteína tau hiperfosforilada, lesões essas que foram
documentadas pela primeira vez em 1906 por Alois Alzheimer (3). O principal
fator de risco é a idade.5Verifica-se que a incidência da doença duplica a cada
cinco anos a partir dos 65 anos de idade, pelo que uma em cada três pessoas com
mais de 85 anos sofre da doença.5Nos últimos anos tem sido verificado um
envelhecimento da população e um aumento da esperança média de vida, pelo que
as patologias mais frequentes em idosos aumentam, das quais se destaca a
demência e a DA. Assim, é expectável que a demência atinja, em 2040, cerca de
81 milhões de pessoas.3,6Tendo em conta o impacto deletério da DA nas
capacidades dos doentes, que perdem a autonomia nas atividades da vida diária e
se tornam dependentes de terceiros, as repercussões sentidas no doente, família
e comunidade, assim como as consequências económicas, torna-se fundamental a
existência de um tratamento modificador da doença ou, idealmente, preventivo,
da DA. No entanto, esta não é a realidade atual. A farmacoterapia disponível
não permite retardar a perda neuronal,4atuando de modo sintomático. Interfere
com a neurotransmissão colinérgica (inibidores da acetilcolinesterase:
donepezilo, rivastigmina, galantamina) ou glutamatérgica (antagonistas dos
recetores NMDA: memantina), melhorando principalmente os sintomas
cognitivos.Para os sintomas comportamentais e psiquiátricos são utilizados
também antidepressivos, neuroléticos, ansiolíticos, antiepiléticos.
A melhoria do conhecimento sobre a fisiopatologia da doença3 possibilitou
encarar novas terapêuticas, com possível intervenção no curso natural da
doença, pelo que vários estudos investigacionais têm sido realizados. O
objetivo deste trabalho é fazer uma revisão dos progressos alcançados até ao
momento presente relativamente às intervenções terapêuticas farmacológicas na
DA, em particular as que possam ter efeito modificador da doença, bem como os
fármacos em desenvolvimento.
MÉTODOS
Foi efetuada uma pesquisa da literatura através da base de dados eletrónica
medline (http://www.ncbi.nlm.nih.gov/sites/entrez/), utilizando a seguinte
query: (therapeutics [meSh] Or treatment Or therapy) AND (alzheimer Or
alzheimer disease [meSh]). A lista de referências obtida e respetivos resumos
foram analisados por um revisor. As dúvidas quanto à inclusão dos artigos, após
leitura do título e resumo correspondentes, foram esclarecidas através da
leitura do seu texto integral. Foram incluídos estudos que cumprissem todos os
seguintes critérios: estudos originais, escritos em inglês, publicados entre
Novembro de 2006 e Outubro de 2011 e que abordassem novos tratamentos em estudo
para a DA. Foram preferidos ensaios clínicos e estudos aleatorizados
controlados, tendo sido analisadas também as revisões sobre o tema. A
informação obtida foi complementada pela análise dos ensaios clínicos
registados em DA, através da consulta do sítio eletrónico http://
www.clinicaltrials.gov. A lista de referências dos artigos incluídos nesta
revisão foi adicionalmente examinada, para se proceder a posterior leitura de
potenciais artigos relevantes para o tema. A extração de dados relevantes dos
artigos incluídos foi realizada de acordo com um protocolo previamente definido
que incluiu os seguintes parâmetros: via da proteína beta-amilóide, via da
proteína tau e outros fármacos. A análise das características dos ensaios
clínicos baseou-se nos seguintes critérios: mecanismo de ação, nome do fármaco,
fase de estudo, tipo de estudo, desenho de estudo, outcomeavaliado, método de
avaliação, duração, população, estadio da DA, outros tratamentos concomitantes.
Para cada fármaco apresentam-se os ensaios clínicos mais relevantes, assim como
aqueles que estão a decorrer.
RESULTADOS
São vários os mecanismos envolvidos na patogénese da DA: agregação e deposição
de beta-amilóide, hiperfosforilação da proteína tau, disfunção neurovascular,
processos inflamatórios, stressoxidativo, disfunção mitocondrial.3Assim, são
também variados os mecanismos de ação dos fármacos em estudo como modificadores
do curso natural da doença.
Via da Proteína beta-amilóide
A proteína precursora de amilóide (APP) pode sofrer inicialmente a ação da
beta-secretase ou alfa-secretase. No primeiro caso, após a segunda clivagem,
mediada pela gama-secretase, formam-se os monómeros, oligómeros e peptídeos de
beta-amilóide.5Destes, a Aß40 é o mais frequente, enquanto a Aß42 apresenta
maior tendência para formar agregados insolúveis, envolvidos na toxicidade
neuronal.5Esses peptídeos sofrem depois a ação de um conjunto de
enzimas,5ocorrendo a sua degradação e eliminação cerebral. Se a produção desses
peptídeos superar a capacidade de depuração, vão-se acumular e levar à formação
de placas senis.3Atualmente fala-se na possibilidade dos oligómeros solúveis de
beta-amilóide serem mais tóxicos que as placas senis, na medida em que não se
verifica uma boa correlação entre o número de placas e a gravidade da doença,
correlação essa que parece existir para os oligómeros.5Este processo denomina-
se via amiloidogénica.3,5Na via não amiloidogénica, a APP sofre clivagem
sequencial pela alfa-secretase e gama-secretase (3,5), não se formam peptídeos
beta-amilóide e não há associação deste processo a toxicidade neuronal.
A maioria dos fármacos desenvolvidos enquadra-se nesta categoria; procuram
reduzir a produção, evitar a agregação e/ou promover a eliminação de beta-
amilóide. A da Tabela_1 documenta as diferentes investigações que têm sido
realizadas para avaliar os efeitos desses fármacos. O primeiro grupo diminui a
formação de beta-amilóide através da modulação enzimática: inibem as enzimas
beta-secretase e gama-secretase ou estimulam a alfa-secretase. O estudo de
inibidores da beta-secretase encontra-se numa fase inicial devido a
dificuldades no desenvolvimento de moléculas que sejam capazes de sofrer a ação
da enzima e atravessar a barreira hemato-encefálica.6Um exemplo é CTS-21166
(ZPQ-2166), que reduziu os níveis de beta-amilóide em modelos animais e foi
considerado seguro e bem tolerado em adultos saudáveis.7um outro inibidor, MK-
8931, vai entrar num ensaio clínico para se conhecer a segurança e
tolerabilidade. Pelo contrário, a investigação dos inibidores da gama-secretase
encontra-se mais avançada. Um dos objetivos consiste na criação de inibidores
capazes de reduzir seletivamente a produção de beta-amilóide, sem interferir
com outros substratos,8 nomeadamente a via de sinalização do notch, para
eliminar a toxicidade gastrointestinal, hematológica e cutânea.9 Dentro deste
grupo, o semagacestat (LY450139) é o melhor documentado. Os estudos referem
eventos adversos cutâneos e gastrointestinais e apontam para uma redução dos
níveis de beta-amilóide no plasma.8 contrariamente ao documentado em modelos
animais,8 nem todos os estudos verificaram essa redução no líquido céfalo-
raquidiano (LCR).10Foram iniciados dois ensaios clínicos para avaliar a
eficácia na DA, que foram interrompidos quando se verificou uma deterioração
cognitiva e funcional dos doentes expostos ao semagacestat.11,12
Posteriormente, um estudo aberto, centrado nos doentes que terminaram 88
semanas de intervenção, procurou avaliar alterações cognitivas e funcionais,
nas concentrações de beta-amilóide no plasma e LCR e no volume cerebral, 24
meses após a cessação do tratamento, aguardando-se os resultados. Têm sido
desenvolvidos outros fármacos com este mecanismo de ação. O MK-0752 é também
responsável pela inibição da via do notch,8 sendo investigado em oncologia.A
toxicidade gastrointestinal e hematológica não ocorre com BMS-708163, PF-
3084014, begacestat (GSi-953) e E-2012, porque a inibição da via do notché
menor. Todos reduziram os níveis de Aß40 no plasma e LCR, em modelos
animais,8,13,14 encontrando-se em investigação a segurança, tolerabilidade,
farmacocinética e farmacodinâmica em indivíduos saudáveis ou com DA. A gama-
secretase é também o alvo de atuação de um conjunto agentes que reduzem
seletivamente os níveis de Aß42 (SALA). isto acontece porque modulam a
atividade da gama-secretase, promovendo a formação de peptídeos mais pequenos
em detrimento de Aß42 (15). O tarenflurbil (MPC-7869) é um exemplo. Apesar dos
resultados encorajadores sobre a eficácia na doença ligeira,16 um estudo
posterior, de fase III,15 veio refutar os efeitos positivos na cognição e
capacidade funcional. Desde então, outros ensaios clínicos foram terminados. O
tarenfluril é o enantiómero dextrógiro do flurbiprofeno, um anti-inflamatório
não esteróide (AINE). Outros AINE mostraram capacidade para reduzir os níveis
de Aß42.17 Outra forma de reduzir a produção de betaamilóide consiste na
estimulação da via não amiloidogénica do metabolismo de APP, através da
estimulação da alfa-secretase. O etozolate (EHT0202) está a ser investigado na
DA e mostrou-se seguro e bem tolerado.18EGCG, o principal polifenol do chá
verde, é outro exemplo, reduzindo os níveis de beta-amilóide e a formação de
placas senis em modelos animais.19São-lhe atribuídas outras ações, como
prevenção da agregação de oligómeros de beta-amilóide e modulação da proteína
tau,19ação anti-inflamatória e anti-oxidante,20melhoria da função
mitocondrial,21estando a ser desenvolvido um estudo para avaliar os efeitos na
DA.
O segundo grupo de fármacos engloba os inibidores da agregação de beta-
amilóide. O tramiprosato liga-se a monómeros de beta-amilóide, evitando a sua
agregação e deposição cerebral.22Embora se verifique redução dos níveis de Aß42
no LCR em doentes com DA,22,23a ausência de uma melhoria estatisticamente
significativa da função cognitiva,24motivou o abandono da investigação. O
scyllo-inositol (ELND-005), outro inibidor da agregação de beta-amilóide,
reduziu os seus níveis cerebrais e a formação de placas25e melhorou défices de
memória26em modelos animais. um ensaio clínico27documentou uma redução dos
níveis de Aß42 no LCR com a dose mais baixa, no entanto, não se verificou
melhoria dos parâmetros cognitivos e funcionais avaliados.27um aspeto
particular foi encontrar-se um aumento maior no volume ventricular nos doentes
expostos ao ELND-005, que apesar de pequeno, foi estatisticamente
significativo.27Uma análise separada dos resultados obtidos em doentes em
estadios diferentes da doença (ligeira ou moderada), apontou para a
possibilidade de haver uma melhoria cognitiva e funcional no primeiro
grupo.27Os doentes que concluíram as 78 semanas de intervenção foram seguidos,
em ensaio aberto, por mais 12 meses, sendo-lhes administrado ElND-005 para
caracterizar melhor a segurança e tolerabilidade. Outro inibidor da agregação é
PBT-2. Liga-se a iões cobre e zinco que medeiam a agregação de beta-amilóide,
inibindo-a.28Após o sucesso do clioquinol (abandonado devido a problemas na sua
produção),29o PBT2 tem merecido especial interesse. mostrouse eficaz na rápida
redução dos níveis de betaamilóide e na melhoria cognitiva, em modelos
animais.30Na DA ligeira foi bem tolerado e seguro e reduziu os níveis de Aß40 e
Aß42 no LCR.28Documentou-se uma melhoria da função executiva, o que justifica
uma avaliação mais adequada das suas ações.28
A estimulação da eliminação de beta-amilóide centra-se na imunização ativa ou
passiva. No primeiro caso, a imunização com AN-1792 (peptídeo Aß42 produzido
sinteticamente), favorece a produção de anticorpos anti-AN-1792, estimulando a
depuração de beta-amilóide.31um estudo foi terminado devido à ocorrência de
casos de meningoencefalite.32Os doentes foram seguidos, verificando-se uma
melhoria no NTB, apesar de os volumes cerebral e ventricular terem reduzido e
aumentado, respetivamente, em doentes respondedores (produção de anticorpos
após a primeira injeção superior ao valor considerado adequado para se obter
benefício clínico).33,34Aproximadamente 4,6 anos após a imunização, os doentes
respondedores mantinham os níveis de anticorpos baixos, mas detetáveis, e
evidenciavam melhoria funcional e menor dependência de terceiros.31Não foram
documentados novos casos de meningoen cefalite.31
Devido à toxicidade encontrada com AN-1792, atribuída à estimulação das células
T, desenvolveram-se moléculas capazes de atuar seletivamente em células B.9ACC-
001 e CAD-106 estão a ser investigados, assim como vacinas da tecnologia
AFFITOPE, AD-01 e AD-02, que usam pequenos peptídeos que mimetizam fragmentos
de beta-amilóide e não a molécula completa.35A imunização passiva baseia-se na
administração direta de anticorpos, verificando-se, em modelos animais, redução
dos depósitos de beta-amilóide.36O bapineuzumab é um anticorpo monoclonal
humanizado anti-betaamilóide. São vários os estudos que estão a decorrer para
avaliar a eficácia na DA, sendo uma das principais esperanças como modificador
do curso da doença. Embora não se verificasse uma melhoria cognitiva nos
doentes expostos ao bapineuzumab, reportou-se um possível benefício cognitivo e
uma redução da perda de volume cerebral em doentes não portadores do alelo
APOEe4.37Os casos de edema cerebral vasogénico ocorreram principalmente em
doentes expostos à dose mais alta de bapineuzumab e nos portadores desse
alelo.37O solanezumab é outro anticorpo monoclonal humanizado que se liga a
beta-amilóide, sendo seguro e bem tolerado38e responsável por alterações nos
níveis de betaamilóide no LCR e no plasma.38Não modificou os parâmetros
cognitivos,38mas continua em estudo. Outros exemplos são: ponezumab (PF-
04360365), em estudo em indivíduos saudáveis e com DA, e NAB-61 e NU-6
(neutralizam principalmente os oligómeros de beta-amilóide39), em estudo em
animais.
Outra alternativa consiste na administração de imunoglobulina intravenosa, já
utilizada nas imunodeficiências humorais.40É obtida do plasma de humanos
saudáveis e acredita-se que contém anticorpos anti-beta-amilóide, que estão
reduzidos na DA.41Os níveis de beta-amilóide reduziram no LCR e aumentaram no
plasma em doentes expostos, documentando-se também uma melhoria da função
cognitiva.41A investigação sobre a eficácia continua.
Via da Proteína tau
A proteína tau, com localização axonal, liga-se aos microtúbulos, permitindo a
sua associação e estabilização, e, assim, facilita o transporte de vesículas e
o normal funcionamento das sinapses.3,5É o principal componente das tranças
neurofibrilares, surgindo na forma hiperfosforilada.5A hiperfosforilação deve-
se ao desequilíbrio entre a ação de cinases (GSK-3, CDK5) e de fosfatases (PP-
1, PP-2a)3e torna esta proteína insolúvel.5consequentemente, perde afinidade
para os microtúbulos, estes dissociam-se, comprometendo o transporte axonal e a
transmissão sináptica.3O mecanismo de ação dos fármacos em estudo consiste na
inibição da fosforilação da proteína tau ou na inibição da sua agregação.6A
Tabela_2 reúne as características dos diferentes estudos realizados.
Vários inibidores da GSK-3 têm sido avaliados. O lítio e o valproato, por
exemplo, têm sido associados à redução da fosforilação da proteína tau, entre
outros efeitos neuroprotetores.42,43Contudo, em dois ensaios clínicos,42,44os
doentes tratados com lítio não obtiveram melhoria em parâmetros cognitivos na
doença ligeira a moderada. Pelo contrário, um estudo mais recente,45centrado
numa fase mais precoce da doença e com duração mais longa, documentou uma
redução da proteína tau fosforilada e uma melhoria da cognição e atenção com
lítio, não havendo alterações noutros indicadores. Todos os
estudos42,44,45destacam mais eventos adversos com lítio do que com placebo, mas
geralmente ligeiros e transitórios.
Quanto ao valproato, não foram identificadas melhorias cognitivas ou
funcionais,43,46havendo mesmo um declínio cognitivo maior com valproato, ao fim
de 6 e 12 meses de tratamento, não se mantendo aos 18 e 24 meses.43identificou-
se também uma diminuição maior do volume cerebral após 12 meses de tratamento.
Os eventos adversos foram mais frequentes com valproato. Não foram graves, mas
a taxa de abandono foi considerável.46
O davunetide (NAP, AL-108, AL-208), com acção neuroprotetora em modelos
animais,47,48atua também como inibidor da GSK-3.47foi avaliado no Défice
cognitivo ligeiro e demonstrou boa tolerabilidade e segurança e melhoria
cognitiva.49O tideglusib (NP-12, NP-031112) também reduz a hiperfosforilação da
proteína tau e deposição da proteína beta-amilóide em modelos animais,50sendo
também descrita a ação como ativador do recetor nuclear PPAR-gama.51Têm sido
conduzidos estudos para avaliar a sua tolerabilidade e segurança, havendo já um
ensaio clínico que estuda a eficácia na DA. Relativamente à nicotinamida
(vitamina B3), considera-se que, pela redução de uma forma de proteína tau
fosforilada que dificulta a associação dos microtúbulos e pelo aumento de
proteínas que facilitam essa associação, possibilita a estabilização dos
microtúbulos.52um ensaio clínico de fase i está a decorrer que procura avaliar
a sua segurança, tolerabilidade e eficácia na DA. O azul de metileno, com
várias aplicações em medicina,53mostrou também uma provável ação como
modificador do curso da doença.54Vários mecanismos de atuação foram descritos,
destacando-se o seu papel como inibidor da agregação da proteína tau,
dissolvendo polímeros já formados,53entre outros (melhoria da função
mitocondrial e da neurotransmissão, ação anti-inflamatória, diminuição da
formação de placas senis).53Documentou-se melhoria cognitiva, com boa segurança
e tolerabilidade.54,55
Outros fármacos
Como se documenta na Tabela_3, além dos fármacos que influenciam o metabolismo
das proteínas betaamilóide e tau, outros mecanismos de ação têm sido alvo de
estudo. A DA caracteriza-se pela afeção precoce da transmissão colinérgica,9que
foi, desde cedo, o alvo privilegiado no tratamento da doença, podendo ser
melhorada com o uso de inibidores da acetilcolinesterase ou moduladores dos
recetores nicotínicos ou muscarínicos.9Além dos inibidores da
acetilcolinesterase já aprovados parao tratamento, existem outros que partilham
esse mecanismo de ação. O phenserine é um inibidor não competitivo dessa enzima
e é capaz de reduzir a produção de beta-amilóide.56Nos ensaios clínicos,
mostrou-se segura e bem tolerada, havendo dúvidas quanto à eficácia.57Um estudo
de fase III58documentou uma melhoria cognitiva não estatisticamente
significativa, levando à suspensão de dois ensaios clínicos em curso. Apesar
desses estudos não terem sido concluídos, verificou-se uma melhoria
estatisticamente significativa na ADAS-Cog, ao fim de 12 semanas de
tratamento.57Não foram realizados novos ensaios clínicos, evidenciando-se o
recrutamento de indivíduos para um com posiphen, o enantiómero dextrógiro. É
responsável por uma menor inibição enzimática, mantendo a capacidade de reduzir
a produção de beta-amilóide, podendo ser vantajoso porque a dose administrada
não é limitada por efeitos adversos colinérgicos.59
A huperzine A, derivada da planta Huperzia serrata, inibe a
acetilcolinesterase,60parecendo antagonizar também os recetores NMDA61e reduzir
a via amiloidogénica.62Na DA, mostrou ser segura e bem tolerada, associando-se
a melhorias cognitivas com a dose mais alta.60Estes resultados foram
encorajadores, estando-se a recrutar indivíduos para um novo ensaio clínico.
Quanto aos agonistas dos recetores nicotínicos, refere-se o AZD-3480 (TC-1734),
agonista seletivo dos recetores nicotínicos a4ß2 e a2ß2, cuja eficácia na DA
terá que ser melhor clarificada. Num estudo,63não se verificou melhoria
estatisticamente significativa na ADAS-Cog, apesar de essa ocorrer com outros
indicadores. Por outro lado, uma avaliação posterior dos indivíduos mostrou uma
melhoria na ADAS-cog.63um novo ensaio clínico de fase II está a decorrer. O
EVP-6124, agonista parcial seletivo dos recetores nicotínicos a7 foi já
avaliado na doença ligeira a moderada, em associação a inibidores da
acetilcolinesterase, sendo seguro e bem tolerado e estando associado a melhoria
cognitiva.9um novo ensaio clínico vai comparar três doses de EVP-6124 e
placebo. ABT-089, agonista parcial dos recetores nicotínicos a4ß2, e MEM3454
(RO-5313534), agonista parcial dos recetores nicotínicos a7, mostraram
segurança e tolerabilidade.64O ABT-089 não mostrou eficácia na DA,9sendo vários
os ensaios clínicos terminados. Pelo contrário, o MEM-3454 mostrou possível
melhoria cognitiva,64esperando-se novos estudos que permitam clarificar as suas
ações.
Os agonistas dos recetores muscarínicos têm sido pouco investigados na DA pelos
efeitos adversos frequentes que limitam a sua utilização.9Na DA são afetados
outros sistemas de neurotransmissão, nomeadamente neurónios noradrenérgicos e
serotoninérgicos. Assim, fármacos que intervêm nestes sistemas têm sido
estudados. A atomoxetina, um inibidor seletivo da recaptação da noradrenalina,
não demonstrou eficácia na DA.65O lecozotan, antagonista dos recetores 5-HT1A,
trouxe melhoria cognitiva em modelos animais, sendo seguro e bem tolerado.66Os
resultados sobre a eficácia, determinada em ensaios clínicos, não foram ainda
disponibilizados. Quanto ao SB-742457, antagonista seletivo dos recetores 5-
hT6, quatro ensaios clínicos foram já concluídos, documentando-se num deles
segurança e tolerabilidade e provável eficácia na DA (verificou-se melhoria no
CIBIC+ e ADAS-Cog, a primeira estatisticamente significativa, embora a segunda
não).67Relativamente aos agonistas dos recetores 5-HT4, destaca-se PRX-03140,
que melhorou a função cognitiva em modelos animais.64foi estudado em
monoterapia e em associação com donepezil, todavia esses estudos foram
terminados. Por fim, tesofensine (NS-2330) atua como inibidor da recaptação da
noradrenalina, dopamina e serotonina,68não tendo sido os resultados ainda
publicados.
A sobrevivência das células neuronais e gliais está também dependente da ação
das neurotrofinas.5A cerebrolysin, que mimetiza as ações dos fatores
neurotróficos endógenos, é capaz de intervir em múltiplos processos patogénicos
descritos na DA,69sendo vários os ensaios clínicos, o mais recente de fase II,
que manifestaram melhoria cognitiva.69,70CERE-110 utiliza um vírus que
transporta um gene produtor de fator de crescimento neural, obrigando a
cirurgia cerebral.71A eficácia está a ser avaliada num ensaio clínico de fase
II.
A disfunção mitocondrial constitui o principal alvo de atuação do dimebon
(latrepirdina). Anteriormente utilizado como anti-histamínico e com outras
ações já demonstradas,72o dimebon melhora a função mitocondrial e evita a morte
celular.9Parecia bastante promissor quando se documentou boa segurança e
tolerabilidade na sua utilização (a depressão era mais frequente do que com
placebo) e uma melhoria estatisticamente significativa nos parâmetros em
estudo,72que se acentuou após mais 26 semanas de tratamento. foram iniciados
novos ensaios clínicos para confirmar esta melhoria, mas os resultados não
foram replicados num deles, de fase III.9Consequentemente, muitos dos estudos
em curso foram terminados, aguardando-se os resultados de um que foi mantido.
Questiona-se a eficácia da suplementação com anti-oxidantes na DA, sendo a
vitamina E a mais estudada. A ideia de que se trata de uma molécula
completamente segura está a mudar, havendo estudos que apontam para um aumento
da mortalidade com doses elevadas.73,74 Um estudo,75 na DA, concluiu que as
ações na cognição dependem do seu efeito no estado oxidativo do doente (se este
reduzir, as capacidades cognitivas permanecem inalteradas; caso isso não
aconteça, ocorre uma deterioração cognitiva mais marcada), não havendo contudo
vantagens em relação ao placebo.75 Esse estudo75 alerta também para a
possibilidade do benefício do tratamento anti-oxidante ser maior não com anti-
oxidantes exógenos, mas sim quando os antioxidantes endógenos são estimulados,
por exemplo por estrogénios ou Ginkgo biloba. De qualquer forma, alguns estudos
estão a decorrer para avaliar o papel da vitamina E na prevenção e tratamento
da DA, neste último caso em associação aos tratamentos aprovados.
Relativamente à terapêutica hormonal de substituição na mulher pós-menopausa,
estudos observacionais documentaram uma redução do risco de DA.76 contudo, uma
revisão de 24 ensaios clínicos concluiu não haver um efeito preventivo
associado.77 Mais recentemente, um estudo documentou um efeito cognitivo
diferente consoante se utilizava compostos com estrogénios equinos conjugados
(efeito negativo) ou 11-beta-estradiol (efeito positivo ou neutro).78
A planta Ginkgo biloba(EGB761) tem sido utilizada na esperança de prevenir ou
atrasar o declínio cognitivo no envelhecimento e em doenças degenerativas.79
Contudo, os dados dos ensaios clínicos são contraditórios. Enquanto alguns
apontam para uma possível melhoria cognitiva na DA,80,81 noutros documenta-se
uma eficácia não superior à do donepezil82 ou mesmo ausência de prevenção da
doença.79,83 Neste último, a administração de EGB761, apesar de segura e bem
tolerada, não resultou num menor declínio cognitivo em idosos nem no Défice
cognitivo ligeiro.79,83
Os estudos observacionais sugerem um papel dos AINE na prevenção da DA.84
Contudo, os ensaios clínicos não confirmaram esta eficácia. Quanto à prevenção
primária, um ensaio clínico, que avaliava naproxeno e celecoxib, não documentou
menor incidência da doença.85 Todavia, uma avaliação posterior à cessação do
tratamento apontou para a possibilidade do naproxeno estar associado à redução
do declínio cognitivo (mas apenas 3 ou 4 anos após o início do tratamento84), o
que pode ser limitado pela toxicidade gastrointestinal associada aos AINE. Na
DA, vários estudos falharam em demonstrar a sua eficácia.86,87,88
Têm sido estudados, na DA, fármacos utilizados no controlo de fatores de risco
cardiovascular (hipercolesterolemia, diabetes mellitus e hipertensão arterial).
Relativamente ao metabolismo do colesterol, as estatinas têm sido associadas à
redução da incidência da DA em estudos observacionais89e à redução dos níveis
de beta-amilóide no LCR em modelos animais.90Os ensaios clínicos revelam-se
contraditórios. Apesar de alguns91,92documentarem um efeito cognitivo positivo,
um estudo multicêntrico negou a eficácia da atorvastatina na DA93e outro94não
obteve alterações nos biomarcadores da doença com sinvastatina.94Novos estudos
estão a decorrer para caracterizar melhor a sua ação. A suplementação com
ácidos gordos ?3, como o ácido docosa-hexanóico, também surge associada, em
estudos observacionais e em modelos animais, à redução da incidência da DA e à
melhoria das lesões típicas da doença, respetivamente,95mas sem demonstração de
eficácia em ensaios clínicos.96,97A administração intra-nasal de insulina tem
sido investigada na DA. Para isso contribuíram um estudo observacional,98que
comparou o declínio cognitivo em doentes diabéticos com DA medicados com an-ti-
diabéticos orais isoladamente ou em associação à insulinoterapia, que foi menor
neste segundo grupo, e um estudo piloto em doentes não diabéticos com DA ou com
Défice cognitivo ligeiro, documentando melhoria da quantidade de informação
verbal retida, atenção e capacidade funcional e aumento da razão Aß40/Aß42 com
insulina.99um novo estudo piloto deve apresentar resultados brevemente. A
rosiglitazona e a pioglitazona, agonistas dos recetores PPAR-gama,aumentam a
sensibilidade à insulina, tendo sido descritas outras ações.100,101O evento
adverso principal nos ensaios foi o edema periférico.100,102Quanto à eficácia
na DA, a rosiglitazona tinha manifestado melhoria cognitiva estatisticamente
significativa em não portadores do alelo APOE e4,103não sendo confirmada
noutros ensaios clínicos.100,104relativamente à pioglitazona, um estudo aberto
documentou melhoria cognitiva,105que não foi confirmada por um estudo piloto
posterior.106A associação entre os bloqueadores de canais de cálcio, usados na
hipertensão arterial, e alterações cognitivas é mais incerta. O MEM-1003 não
trouxe benefício cognitivo.107
O PF-04494700 atua como inibidor dos recetores dos produtos finais de
glicosilação avançada (RAGE) e está a ser investigado porque, em modelos
animais, reduziu os marcadores inflamatórios e a deposição de beta-amilóide (o
RAGE está envolvido no transporte de beta-amilóide através da barreira hemato-
encefálica).108mostrou-se seguro e bem tolerado, esperando-se novos estudos
para clarificação da eficácia.108
Os inibidores da fosfodiasterase têm sido também estudados, nomeadamente
inibidores da fosfodiasterase tipo 4 (MK-0952) ou da fosfodiasterase tipo 9
(PF-04447943). No primeiro caso, verifica-se, em modelos animais, redução da
libertação de mediadores inflamatórios, podendo ter um papel na perda de
memória.109Com PF-04447943, foi descrito melhoria da plasticidade sináptica e
da função cognitiva em modelos animais.110Aguarda-se a avaliação da eficácia
destas moléculas em ensaios clínicos.
DISCUSSÃO
Vários ensaios clínicos têm sido desenvolvidos para determinar a eficácia de
novos fármacos no tratamento da DA. São fármacos variados, com mecanismos de
ação diferentes e baseados nos conhecimentos atuais sobre a patogenia da doença
ou sugeridos em estudos observacionais.64O entusiasmo inicial, principalmente
em relação aos fármacos que influenciam a via amiloidogénica, tem-se esbatido,
uma vez que muitos ensaios clínicos têm partilhado resultados desanimadores (é
o caso de fármacos como semagacestat, tarenflurbil, tramiprosato, valproato,
phenserine e dimebon), não havendo atualmente nenhum novo fármaco aprovado para
o tratamento da doença. Todavia, verifica-se um constante empenho no
desenvolvimento de estratégias alternativas e a esperança voltou-se, agora,
para novos agentes (PBT2, imunização passiva, davunetide, azul de metileno,
huperzine A, neurotrofinas, insulina intra-nasal, entre outros). Perante a
ausência de concordância entre os resultados obtidos em modelos animais e em
ensaios clínicos, têm sido apontadas insuficiências metodológicas, que possam
inviabilizar conclusões adequadas. Uma das mais frequentemente referidas
consiste no estudo de uma amostra de dimensões reduzidas,111que poderá ser
potencialmente evitada pela realização de investigação clínica multicêntrica. É
possível que, para se detetar um efeito benéfico no curso da doença, seja
necessário combinar diferentes características dos doentes (e.g.estadio da
doença e polimorfismos de APOE), havendo uma redução de participantes nessa
análise particular, o que diminui o poder estatístico.
São várias as alusões à possibilidade destas terapêuticas serem tanto mais
eficazes quanto mais precocemente começadas, ou seja, nas fases iniciais da
doença.64,111Como na DA o diagnóstico clínico é muitas vezes tardio, torna-se
fundamental o desenvolvimento de métodos de diagnóstico que permitam
identificar os doentes numa fase mais precoce. Outra hipótese reside na
possível interação medicamentosa entre o fármaco e a medicação habitual do
doente, que, sendo muitas vezes idoso, se encontra geralmente polimedicado.
Seria importante uma melhor caracterização da farmacocinética dos fármacos, que
possibilitasse otimizar a sua posologia, nomeadamente a duração da intervenção.
É também necessário assegurar que esse fármaco atravessa a barreira hemato-
encefálica, uma vez que terá que exercer a sua ação a nível cerebral. Por
exemplo, o CERE-110 obrigou ao recurso à cirurgia, o que traz óbvias limitações
práticas.
Muitos dos agentes não são seletivos nem específicos do alvo em questão. Isto é
particularmente relevante quando se utilizam moduladores enzimáticos, que podem
interferir com a ação de outros substratos e atenuar o efeito terapêutico em
estudo, gerar efeitos adversos imprevisíveis ou mesmo criar contra-indicações à
utilização.
Relativamente à avaliação da eficácia do tratamento, verifica-se a adoção de
indicadores diferentes em estudos diferentes. Idealmente, a investigação de um
conjunto de indicadores (função global: CDR+SOB; cognição: ADAS-Cog, NTB, MMSE;
atividades da vida diária: ADCS-ADL, ADCSCGIC; comportamento: NPI) deveria ser
complementada pela análise de biomarcadores que se associem ao processo
patológico subjacente (por exemplo, volume cerebral e ventricular na RMN,
níveis de beta-amilóide, proteína tau total e hiperfosforilada no LCR e imagem
funcional por PET com recurso a marcadores de beta-amilóide).111Por fim, é
consensual que sendo a DA fisiologicamente complexa, é expectável que o seu
tratamento tenha que ser dirigido a múltiplos alvos para que se possa
interferir com a progressão natural da doença.9,69,101Assim, poderá ser útil a
associação de fármacos com principais modos de atuação diferentes no intuito de
influenciar os vários processos patogénicos que ocorrem na doença.
Em suma, apesar dos avanços na investigação de novos fármacos que possam atuar
como modificadores do curso natural da DA, a transformação de uma doença fatal
numa doença tratável e curável constitui ainda um grande desafio, atualmente
não alcançado.