O internamento compulsivo e a representação da doença mental: percurso
histórico
1. A Grécia e Roma antigas
De acordo com o nosso legado histórico, é possível, desde o pensamento grego,
encontrar raízes da atenuação da culpa em razão de doença mental, bem como
alusões à figura do asilo como lugar de descanso e recuperação. Veja-se a lenda
de Hércules. O semi-Deus é levado à loucura pela intervenção da Deusa Hera e
mata a sua esposa e filhos. A loucura surge causada pela fúria divina,
implicando actos não voluntários que poderiam ser purificados através do
trabalho. Tal como é referido por Stavis, Hércules não é considerado culpado,
dado que não estava capaz de discernir que os seus actos eram errados, nem
capaz de adequar a sua conduta à lei. Assim, foi considerado que necessitaria
de cuidados e aconselhamento.1É na Grécia antiga, período em que não existia
envolvimento científico na psiquiatria e o sofrimento psíquico era entendido em
termos de magia, que encontramos a primeira explicação científica e natural do
que é a doença. Surge, nesta época, uma visão naturalista e somática da doença
e do tratamento, que imprimiu as suas marcas na evolução histórica e conceptual
subsequente. Temos, como exemplo, a medicina hipocrática, cujo método continua
presente na prática clínica e na filosofia. Hipócrates, na segunda metade do
século V AC, considerava a doença mental como tendo origem orgânica e não via a
magia, a religião ou a possessão demoníaca como formas de a explicar. Afirmava
ainda a importância dos asilos e portanto do internamento, na recuperação do
doente.1 Hipócrates, em Da Natureza do Homem trata da compreensão sobre a
constituição do homem, onde apresenta a teoria dos quatro humores que considera
o homem composto de sangue, fleuma, bile amarela e bile negra. Da sua harmonia
resultaria a saúde, sendo a doença produto do excesso ou escassez de um desses
humores ou ainda da falta de mistura entre eles no organismo. Hipócrates
correlacionava as estações do ano com o comportamento dos humores e apontava
para os riscos de desequilíbrio em cada uma das estações. A base do pensamento
terapêutico girava, assim, em torno da busca do equilíbrio entre os humores e
contemplava o asilo no processo de recuperação.2
Com base em aspectos anatomo-fisiológicos, Platão (429-347 a.C.) constrói a sua
fisiopatologia, distinguindo as doenças do corpo e da alma. As enfermidades
somáticas podiam ocorrer por: desequilíbrio dos seus elementos constitutivos, o
fogo, a terra, o ar e a água; por corrupção dos tecidos do corpo, nomeadamente
a carne, os nervos, o sangue, os ossos e a medula; e, finalmente, pelo ar e
pelos humores, a bile e flegma.
Por seu turno as doenças da alma seriam, segundo Platão, designadas como
demências e podiam ser de dois tipos: ignorância e loucura. Os excessos seriam
deletérios, promovendo a loucura, doença passível de tratamento, mas não de
censura para aquele que sofre. Uma outra origem para a loucura residia na
produção de humores deletérios, bile e flegma, secundários à decomposição do
corpo, os quais mesclavam seus vapores aos movimentos da alma, produzindo
estados como a tristeza, audácia, cobardia e esquecimento. A ignorância teria a
sua origem em dois aspectos: má constituição corporal e educação; que poderão
ser vistos na medicina contemporânea como o caráter genotípico (constitutivo) e
a influência ambiental. Assim, homens com deficiência somática e expostos a uma
educação imprópria seriam propensos à ignorância. No entanto, se o processo
educativo fosse adequado, era possível que tais homens superasssem a sua má
constituição. Neste contexto, um dos elementos importantes para a compreensão
da doença da alma platónica era o facto de esta ter origem somática.3 Platão
ressalta a importância de se buscar a compreensão do todo e critica o uso de
medicamentos para a contenção de doenças leves, as quais deveriam ser deixadas
livres para seguir seu próprio curso, enfatizando que os fármacos deveriam ser
empregues apenas nos casos mais graves, ou seja, naqueles em que existe grande
perigo para o doente.3 Platão realiza uma leitura da medicina da sua época que
se mantém extremamente actual e que vem tocar as questões hoje envolvidas no
internamento compulsivo. São de salientar questões como: a relação entre homem
e meio ambiente; a possibilidade de adoecimento psíquico por causas orgânicas e
o tratamento que reservava apenas para os casos em que existia perigo para o
próprio e para terceiros. O período, que coincide com o século IV a.C.,
conheceu outro grande autor: Aristóteles (384-322 a.C.). Este, na sua ética
nicomaqueia, define o conceito legal do consentimento informado como as acções
realizadas após informação, com racionalidade e sem coerção.1 Este conceito
hoje é usado por nós no nosso enquadramento legal e na tomada de decisão quanto
ao internamento ou tratamento involuntário, nomeadamente no que se refere à
capacidade de receber e compreender a informação, avaliar os riscos e
benefícios da decisão e ser livre de coacção. Na Grécia e Roma antigas, o
cuidado dos doentes era essencialmente responsabilidade dos familiares e
pessoas chegadas. No entanto Aristóteles afirmava dois poderes do governo
perante a sociedade: por um lado o de proteger os cidadãos dos perigos e lesão
e por outro o de proteger aqueles que necessitam de um cuidado de tipo
parental.1 É interessante verificar que estes dois poderes estão na base da lei
de Saúde Mental portuguesa, bem como de outros enquadramentos legais, como por
exemplo na lei americana. Ainda no Século II AC, mas em Roma, Sorano de Éfeso
referia que a doença resultava de um desiquilíbrio dos átomos que constituem o
corpo e se encontram sempre em movimento. As suas recomendações para o
tratamento em regime de internamento da doença mental eram mais avançadas do
que algumas daquelas empregues centenas de anos mais tarde. Ele advogava a
existência de quartos com condições de luz e temperatura confortáveis, em pisos
térreos para evitar o suicídio, exercício regular, o uso de medidas de
contenção apenas se necessário e com materiais como a lã ou outros de textura
suave para evitar lesões. Defendia ainda a comunicação com o doente, não só com
propósito terapêutico mas também como forma de avaliar a progressão da
doença.1Por seu turno, o médico Galeno (131-200 d.C.) de Pérgamo, defendeu a
teoria de que o cérebro é sede de funções psíquicas, sendo a loucura e o
delírio abordados segundo uma perspectiva neuroanatómica e neurofisiológica.4
2. A Idade Média
Entre os séculos IV e XI, as actividades intelectuais ficam quase reduzidas às
cópias de manuscritos nos mosteiros e a tópicos religiosos. Durante os
primeiros cinco séculos da Idade Média, a loucura era bem aceite e bem
tolerada. Assim, o doente não era excluído e o enclausuramento que poderíamos
aproximar ao cuidado em internamento compulsivo, era pouco usado. A noção de
colectividade era importante e os doentes mentais eram aceites e colocados em
segurança. Era uma oportunidade dos mais afortunados fazerem caridade, pelo que
cada Senhor acolhia um inocente (louco). No que se refere a medidas
compulsivas, apenas os mais perigosos eram acorrentados no seu domicílio ou nas
prisões. Nesse período, sob a influência do cristianismo, acreditava-se que o
mundo era um todo organizado de acordo com os desígnios de Deus. Por isso, tudo
e todos obedeciam à ordem divina. Os insanos, assim como os retardados e os
miseráveis, eram considerados parte da sociedade e o principal alvo da caridade
dos mais abastados, que procuravam, deste modo, expiar seus pecados. Assim, os
loucos desfrutavam de relativa liberdade. As suas famílias confiavam na
caridade alheia para garantir a sobrevivência dos seus filhos e aceitavam os
seus impulsos e características peculiares como expressão da vontade de
Deus.5Até ao século XII o ensino da medicina era não clerical e o jovem
aprendia com o seu mestre. no século XII volta a haver mais actividade na
Europa e à medida que a Igreja começa a ganhar mais preponderância este ensino
também passa a ser ministrado nos mosteiros, integrando uma visão dos métodos
de tratamento naturais, baseados nas traduções dos escritos de Hipócrates e
Galeno. no entanto, neste período a medicina popular era marcada por uma grande
carga de superstição. O que de facto era inevitável, dada a eficácia limitada
da medicina naquela época. A doença mental era encarada e tratada de forma
semelhante à doença física e a demonologia não era a visão preponderante no
pensamento da época.6Portanto, na Idade Média, para além dos dois principais
sistemas de conhecimento que eram a fé cristã e o empirismo aristotélico, não
nos podemos esquecer da sabedoria popular. O empirismo incorporou a tradição
científica grega, a teoria humoral da fisiologia humana na tradição de
Hipócrates e Galeno, bem como os comentários científicos de Aristóteles. Por
outro lado, o saber popular era influenciado pelas tradições místicas, pela
superstição, pela mitologia pagã e pela astrologia.6 Assim, a explicação para a
doença mental era impregnada de uma concepção mágico-religiosa. Os doentes com
distúrbios mentais mais graves ou agressivos eram flagelados, acorrentados,
escorraçados e submetidos a jejuns prolongados, sob a alegação de estarem
possuídos pelos demónios.5 Os doentes eram confinados a zonas da casa ou a
celas e quando a família não era capaz de providenciar os cuidados, tal era
feito pela autoridade. Era feito um diagnóstico das circunstâncias sociais de
cada caso através de um conjunto de pessoas que contemplava um júri local, as
partes interessadas e o doente. Os melhores interesses do doente eram a
preocupação principal e a decisão acerca dos casos, nomeadamente no que se
referia ao cuidado do doente e ao seu património, tinha valor legal.7no que se
refere aos cuidados em internamento, é difícil determinar quando é que o
conceito de hospício medieval, para o cuidado dos peregrinos e estrangeiros,
foi alargado para o de hospital para cuidados médicos e tratamento dos doentes.
Poucos hospitais existiriam antes do fervor religioso que acompanhou as
cruzadas e as necessidades criadas junto dos feridos e dos problemas médicos
que surgiam no contexto das peregrinações em massa.6À medida que a população
europeia começa a aumentar, com o crescimento comercial e industrial das
cidades, o cuidado dos doentes mentais mudou gradualmente de um problema
familiar para um problema da comunidade. Neste contexto surgem alas específicas
para estes doentes nos hospitais.
Os primeiros hospitais especificamente desenhados para doentes mentais surgem
no século XV; na Europa, o primeiro nasce em Valência, Espanha.6
3. O Renascimento
No Renascimento a doença mental foi encarada como alienação, diminuição,
depravação ou perda de função mental. Os cuidados prestados passavam pela
exclusão social. Os doentes eram fechados em celas e calabouços ou enviados em
embarcações.4no entanto, a obsessão pela demonologia e a inclusão de pessoas
mentalmente perturbadas nas torturas e inquéritos das inquisições foi um
fenómeno do Renascimento. A Inquisição foi formalmente estabelecida pelo papa
Gregório IX em 1233 para combater a heresia organizada, não a bruxaria. Em 1252
foi aprovado o uso da tortura para obter confissões. Mas foi nos séculos XV e
XVI que a preocupação pela bruxaria e demonologia foi aumentando lentamente,
deixando de estar presente apenas no pensamento secular e passando também para
o religioso. Tal fenómeno surge como uma resposta das estruturas do Estado e da
Igreja aos desenvolvimentos da ciência, da economia e da política. Assim,
lidavam com a dissidência como heresia e a bruxaria, como inspiração do
demónio.6O internamento compulsivo desenvolve-se, na Europa, como política
governamental no século XVI, não só para a doença mental mas também para
aqueles que eram considerados indesejáveis pela sociedade. Em 1536 o Parlamento
de Paris decidia pelo trabalho forçado de camponeses, indigentes e pedintes. Em
1575 o Governo Inglês usava como castigo as casas de correcção e em 1606 um
decreto permitia que os pedintes fossem expulsos da cidade e a sua entrada
proibida por arqueiros à porta da cidade. Em 1656, com luís XIII, verifica-se
uma mudança na assistência aos mais necessitados. Este monarca cria o Hospital
Geral em Paris para ajudar os pobres, os feridos, os militares e os doentes,
mas sem qualquer supervisão pelos tribunais ou corpo governamental. Apesar de
tudo foi uma mudança nos cuidados e uma responsabilização do Estado pelos seus
cidadãos, embora eles tivessem que trabalhar para isso.
Na segunda metade do século XVII e durante o século XVIII, em Inglaterra,
criam-se várias casas de correcção. Estas instituições destinavam-se a pessoas
com doença mental, a pobres, a desempregados, a pessoas com comportamentos
sociais desviantes e a doentes físicos. Neste período a doença mental era
encarada à luz de uma teoria animalista, achando que os doentes não sentiam,
dor, frio ou castigo severo. Assim as celas eram semelhantes às dos animais.
Muitas vezes cheias de gente, sem roupa. Era comum, em Inglaterra e França, que
as famílias fossem ver, ao domingo, pelas janelas o comportamento destas
pessoas. Na América colonial a situação não era muito diferente e o cuidado dos
indigentes ou incompetentes não era considerado responsabilidade do governo.
Muitas vezes essas pessoas juntavam-se em bandos e vagueavam de cidade em
cidade. A responsabilidade pelos doentes mentais só terá sido aceite pelo
governo e pela sociedade em meados do século XVIII, através do cuidado aos
doentes nos hospitais gerais.1O fenómeno de internamento em massa dos doentes
mentais ocorreu, portanto, a partir do século XVII. nesta altura, os hospitais
existentes na Europa prestavam cuidados aos doentes mentais de uma forma bem
menos digna do que os da Idade Média.6no que diz respeito aos tratamentos
vigentes nesta época, o exorcismo, a fogueira e a prisão dos enfermos, junto
com os criminosos, eram formas de tratamento e contenção admitidas pela
sociedade.8Na medicina do Renascimento, verifica-se uma atitude de rebelião
contra a autoridade tradicional, sendo a Igreja atacada e reformada. A era do
renascimento, com a noção de separação da religião e da ciência, leva a que a
doença mental deixe de ser considerada como uma possessão demoníaca e esteja
aberta à concepção da psicologia. Nos séculos XVII e XVIII verifica-se o
aumento da confiança na razão em detrimento da tradição e da fé.9
4. A Idade contemporânea
Na Idade contemporânea, com Pinel, surge um modelo de doença mental. Para ele o
louco, como qualquer doente, necessitava de cuidados, de apoio e de
medicamentos.4 O trabalho de Pinel no final do século XVIII vai sinalizar a
constituição da psiquiatria como uma ciência e como um ramo da medicina.
Surgem, na Europa, nos séculos XVIII e XIX, ideias revolucionárias e
reformistas que procuravam entender o homem nas suas dimensões física, psíquica
e social e o humano nas vertentes ética, estética e cultural.10neste contexto,
as pessoas com doença mental passam a ocupar instalações diferentes das dos
outros residentes no asilo. no nosso país, em 1601, aquando da reconstrução do
Hospital de Todos os Santos, foram criadas instalações especificamente para os
doentes mentais. Em 1766, o hospital do Rossio dispunha de uma enfermaria para
os alienados.4Em Portugal, na primeira metade do século XIX, os relatos acerca
das condições de vida dos doentes mentais nos grandes hospitais, como o de S.
José em lisboa e Santo António no Porto, denunciam a falta de higiene e asseio
pessoal, a ausência de luz, mobiliário e ventilação nos quartos.10 Até esta
altura, como refere Carlos Mota Cardoso, os enfermos da mente ainda não tinham
adquirido o estatuto de doentes. O século XIX foi uma época decisiva para o
desenvolvimento da psiquiatria. neste século podemos ver a psiquiatria
desenvolverse ao longo das linhas que governam a patologia geral na medicina.9
Em Portugal, o Hospital de Rilhafoles, inaugurado em lisboa, no século XIX,
recebia pessoas por ordem das autoridades, decência, ordem e segurança pública.
Admitia ainda aqueles que beneficiavam de adequado tratamento. Ao longo dos
anos o hospital foi ficando sobrelotado,4 neste período usava-se o internamento
de forma involuntária para tratamento mas também por questões de ordem social e
moral. na segunda metade do século XIX, após a guerra civil e as invasões
francesas, apesar do grande desenvolvimento de diversos sectores da vida
pública, no que diz respeito ao campo assistencial, pouco ou nada mudara,
mantendo-se um modelo assistencial caritativo. Em Portugal, em 1848 abre em
lisboa o Hospital de Rilhafoles e por ordem de D. Maria e em 1883, no Porto,
por doação do Conde Ferreira à Santa Casa da Misericórdia do Porto, abre as
suas portas o Hospital do Conde de Ferreira. António Maria de Sena, director
deste último hospital, procura elaborar um levantamento estatístico dos doentes
da mente em Portugal e dedica-se à criação de um sistema de assistência
psiquiátrica.10Como nos transmite Carlos Mota Cardoso, Sena era um
evolucionista, que aceitava a loucura como resultante do desvio de processos
biológicos, nomeadamente de alterações genéticas e considerava formas de
loucura congénitas e adquiridas. Nesta altura, nascia na Alemanha pelo génio de
Kraeplin a ciência psiquiátrica e, em Portugal, Sena reclamava a reforma da
assistência psiquiátrica, advogando o fim das más condições nas instituições
que prestavam assistência aos doentes. Sena debruça-se sobre a questão medico-
forense e apresenta uma profunda preocupação pela justiça. Como refere Carlos
Mota Cardoso, Floria nos seus sonhos o primeiro esquiço que haveria de
conduzir ao desenho final da futura lei de saúde mental, a conhecida lei Sena.
O seu projecto de lei visava criar novos hospitais e asilos de alienados. Este
era um dos diplomas regulamentares mais progressistas da assistência
psiquiátrica de toda a Europa. No entanto a lei Sena nunca foi regulamentada na
íntegra, apesar dos seus méritos terem governado o país psiquiátrico até aos
anos 60.10Por volta de 1950, com o aparecimento dos neurolépticos, a ciência
comportamental e a integração dos avanços na bioquímica e na fisiologia do
sistema nervoso central, verifica-se uma redefinição do papel dos hospitais e
dos asilos, e uma transformação completa da psiquiatria. Com o aparecimento da
ideia de comunidade terapêutica e terapia institucional, os movimentos para
humanização do hospital emergiram. As equipas psiquiátricas começaram a mudar e
a importância do doente aumenta, em detrimento da doença.9A lei que
primariamente se debruçou sobre a promoção da saúde mental e regulamentou o
Internamento Compulsivo do portador de anomalia psíquica em Portugal, data de
1963 (lei n.º 2118/63 de 3 de Abril) e vigorou no nosso país durante 35 anos.11
A lei colocava a tónica na intervenção na comunidade. Os centros de saúde
mental tinham começado a ser implementados em 1968. As críticas mais
importantes a esta lei são, por um lado, o fato de os doentes crónicos, sem
recursos, acabarem por ser admitidos em lares de terceira idade ou para
deficientes com piores condições que os antigos hospitais psiquiátricos. Por
outro lado, a proibição de internamentos prolongados levava ao florescimento de
hospitais privados a que só tinham acesso as classes mais ricas. Além disso,
por muito que se desenvolvesse a rede comunitária, esta nunca seria capaz de
dar resposta aos doentes mais dependentes.12Na segunda metade do século vinte
emerge novamente a tendência à desinstitucionalização e o devolver o doente à
família e à comunidade. Tal objectivo continua a ser difícil de concretizar,
quer por dificuldade de organização dos cuidados na comunidade, quer pelas
deficientes redes de apoio na sociedade. Em Portugal ficou legislada, com a
revisão da Constituição da República em 1997, a possibilidade de privar alguém
da sua liberdade, caso esse alguém seja portador de anomalia psíquica. Esta
modificação permitiu que, em 1998, se criasse a lei de saúde mental que
concretiza essa privação da liberdade. Em 1998, foi aprovada e publicada a nova
lei de Saúde Mental (lei n.º 36/98, de 24 de Julho). Assim, em Portugal, as
medidas compulsivas podem tomar duas formas: o internamento e o tratamento
ambulatório compulsivos. O internamento é possível, para proteger terceiros,
para proteger o próprio ou para aqueles que necessitam tratamento e o recusam,
não estando capazes de avaliar essa necessidade.13Há que reconhecer que a
corrente individualista trouxe, apesar dos seus exageros, contribuições muito
positivas para a vida social, tais como a formulação política dos direitos
humanos básicos, o fim da escravatura, a emancipação dos jovens e da mulher. Já
no séc. XX vimos reconhecidos valores tão importantes quanto os direitos das
minorias, da intimidade da vida privada, e do respeito pelas concepções e
crenças das pessoas. Na psiquiatria, estas conquistas culturais reflectem-se no
movimento a favor dos direitos dos doentes, na rejeição de formas de tratamento
cruel ou degradante, na procura de consentimento voluntário. É evidente que nem
sempre o doente está em condições de exprimir o seu acordo com as medidas
terapêuticas, mas a tendência actual é para limitar as condições para
tratamento coercivo, e respeitar os valores do doente e de n ão interferir com
as suas decisões.14neste contexto, a actividade profissional do psiquiatra tem
vindo a mudar, quer na relação com os doentes, quer na relação com a sociedade.
O reconhecimento do direito constitucional à protecção da saúde, uma crescente
sensibilidade para exigir níveis assistenciais de qualidade, bem como o
reconhecimento da autonomia do doente mental perante as ofertas terapêuticas
contribuíram para uma mudança importante na prestação de cuidados. As
disposições actuais, na área da psiquiatria e da bioética vão no sentido da
necessidade dos psiquiatras conhecerem e aplicarem a legislação própria, de
acordo com as exigências éticas específicas desta área da medicina. Actualmente
a reflexão bioética, concretizada através dos princípios éticos e sua
aplicação, evidenciada em diversas iniciativas e documentos do Comité de
Bioética do Conselho da Europa ou através de diferentes planos de acção e
políticas da Organização Mundial de Saúde, tem vindo a consolidar a importância
e a defesa dos direitos dos doentes. De facto os princípios bioéticos estão
hoje concretizados em normas e disposições legais com a capacidade de obrigar.
5. Comentário final
Deste percurso histórico sobressai uma mudança nas formas de encarar, explicar
e tratar a doença mental, de acordo com a época e o contexto social, cultural e
científico. Como refere Eurico Figueiredo, a Psiquiatria constitui, de entre
todas as especialidades médicas, aquela cujos processos terapêuticos têm
sofrido, nos últimos anos, modificações mais espectaculares. Poderemos atribuir
tal situação a três tipos de pressupostos considerados essenciais: o primeiro
está ligado às características especiais da doença psíquica, em cuja
sintomatologia predominam, as mais das vezes, os aspectos subjectivos; o
segundo diz respeito ao seu estigma de prejuízo social, por virtude da sua
causalidade ser controversa e não raramente, impregnada de conceitos de
misticismo;
O terceiro e último, resulta do facto de a Psiquiatria ter chegado até aos fins
do século XIX sem a tradição clínica dos demais sectores da medicina.15As
mudanças operadas ao longo da História reflectem-se, actualmente, em aspectos
relacionados com a forma de tratar e abordar a doença mental. Os diferentes
países têm vindo a tentar regulamentar a prestação de cuidados em saúde mental,
nomeadamente no que se refere aos internamentos. São feitas recomendações
quanto à duração e condições de internamento, aos critérios que motivam o seu
início e o seu fim, bem como à necessidade de usar mecanismos legais que
permitam assegurar a protecção dos direitos do doente. Procura-se também
permitir à sociedade e familiares ajudar aqueles que se encontram vulneráveis,
sem capacidade para avaliar as consequências dos seus actos ou da necessidade
de tratamento, se esse facto evitar danos ao próprio ou terceiros ou a
deterioração do estado de saúde de forma acentuada, como refere a nossa lei. De
facto, muito foi conseguido em matéria da saúde mental e é indiscutível o
progresso feito no cuidado dos doentes. no nosso país foram diminuídas as camas
de internamentos prolongados e tentada a integração dos doentes na comunidade,
sendo os internamentos realizados para o controlo de sintomas agudos, nos
hospitais gerais, em enfermarias que dispõem de condições equivalentes às de
qualquer outra especialidade. no entanto, o cuidado na comunidade do doente
mental, hoje em dia, é uma questão complexa. O suporte da comunidade a nível
familiar e social tem de ser complementado com o fornecimento de cuidados
especializados por técnicos de saúde, nomeadamente médicos, enfermeiros,
psicólogos e assistentes sociais. Em consequência, embora já não estejam
confinadas ao hospital, as pessoas com doença mental mantêm-se largamente
marginalizadas numa sociedade que não tem os recursos para assumir a
responsabilidade pelo seu cuidado.7Para além disso, toda a mudança que se pede
às famílias e à sociedade que vai no sentido da integração do doente, leva-nos
a questionar o facto de não existirem efectivamente condições para que os
doentes se possam manter realmente integrados, com o suporte adequado e
protegidos na sua vulnerabilidade. Perante uma sociedade orientada para os
resultados rápidos, para a valorização do ser humano de acordo com a sua
produtividade, o individualismo e o enfraquecimento dos laços familiares e do
sentimento de pertença a uma comunidade, quase parece um paradoxo advogar a
integração do doente no seio familiar e social.