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EuPTCVHe0871-34132014000400005

EuPTCVHe0871-34132014000400005

National varietyEu
Country of publicationPT
SchoolLife Sciences
Great areaHealth Sciences
ISSN0871-3413
Year2014
Issue0004
Article number00005

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Vida e obra do Professor Doutor Álvaro António Pinheiro Rodrigues

A história é definida por factos que marcam o nosso passado, explicam o nosso presente e determinam o nosso futuro. Especificamente, a História da Medicina apresenta um papel preponderante na concepção da realidade atual do que é a Medicina. Todas as suas descobertas e progressos moldaram e contribuíram para que, no presente, a Medicina esteja mais avançada sob o ponto de vista científico, técnico e tecnológico.

Tão importante como os factos que fazem a história, são as personalidades que a demarcam. Pela Faculdade de Medicina da Universidade do Porto passaram alguns dos mais ilustres médicos e cientistas que algures na história médica nacional, através do progresso, foram esquecidos, ou simplesmente nunca relembrados.

A motivação inerente à realização de uma tese com este tema, advém do meu interesse e envolvimento precoce com a História da Medicina e com a Museologia Médica, através da colaboração assídua que, desde o meu primeiro ano de curso, dedico ao Museu de História da Medicina Maximiano Lemos da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto. A presente monografia visa relatar e preservar a história da nossa Faculdade, história essa que carece de ser valorizada. A existência de um Museu de História de Medicina, repleto de divícia histórica, desafia-nos a explorar, relatar e devolver o merecido apreço por todos aqueles que, embora esquecidos, não descuraram de construir o futuro, o nosso presente.

Este trabalho tem como principal objetivo dar a conhecer à comunidade médica, estudantil e ao público em geral, um dos mais distintos Professores desta instituição. O Professor Doutor Álvaro António Pinheiro Rodrigues, dotado de uma inteligência e determinação notáveis, serviu a Universidade, dedicou-se ao ensino e à ciência e consagrou-se no exercício da medicina como clínico e como gestor. Formou discípulos, alguns destes cirurgiões, vocacionando-os também para o ensino e investigação.

Secundariamente, mas não menos importante, este trabalho tem como objetivo perpetuar a memória do Professor Álvaro Rodrigues, através da divulgação da sua herança científica e humanística. Citando um dos seus discípulos e amigo, o Dr.

Reis Lima (n.1935), O Professor Doutor Álvaro Rodrigues, foi um dos cirurgiões mais brilhantes e sabedor do século XX, que se tivesse nascido nos Estados Unidos da América, Inglaterra ou França, não tenho dúvidas nenhumas, seria considerado um mestre a nível mundial, embora fosse reconhecido como ímpar em Portugal e pelos cirurgiões desses Países que o conheciam e admiravam.1 A recordação daqueles que contribuíram para a formação do que hoje é a Faculdade de Medicina da Universidade do Porto e a valorização, em específico, das investigações pioneiras que o Professor Doutor Álvaro Rodrigues desenvolveu, bem como a sua contribuição para História da Medicina nacional, é da responsabilidade de todos os estudantes, docentes, médicos e outros profissionais associados de saúde. Considero de extraordinária relevância que a história seja preservada e relembrada, uma vez que é com o passado que aprendemos, crescemos e orientamos o nosso futuro. No Relatório Pedagógico da disciplina de História de Medicina da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, elaborado pela Professora Doutora Amélia Assunção Beira de Ricon Ferraz, podemos encontrar alguns dos objetivos pedagógicos que sustentam a motivação para a elaboração desta tese, nomeadamente: sensibilizar o estudante para a história da sua Faculdade nas suas vertentes docente e estudante; (...) para a temática da Museologia, em geral, e na Medicina, em particular, e divulgar o património museológico e documental da Faculdade na perspetiva de sensibilizar e capacitar pelo saber a sua salvaguarda.2

O Homem Álvaro António Pinheiro Rodrigues, filho de António Borrajo Rodriguez e de Camila Fernandes Pinheiro, nasceu no dia 7 de Julho de 1904, na freguesia de Santo Ildefonso, no concelho e distrito do Porto. Filho de pai de nacionalidade espanhola e mãe portuguesa, tinha dupla nacionalidade. Desposou Neuza de Castro e sousa Pinheiro Rodrigues, em 1928, com quem teve dois filhos, Jorge de Castro Pinheiro Rodrigues, nascido em 1928, e Maria Manuela de Castro Rodrigues Fernandes da Fonseca, em 1934 (Figura_1 ).3

Os seus estudos tiveram lugar na cidade do Porto, concluindo o percurso liceal em 1921, tendo-se evidenciado desde cedo pelo seu desempenho académico. Foi distinguido com um Louvor e uma Menção Honrosa no exame de instrução Primária em 1911/1912 e o Prémio Pereira da Costa em 1914/1915 na Celestial Ordem Terceira da santíssima Trindade.3 Em 1921-1922 frequentou o curso preparatório de Física, Química e Ciências Naturais na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto. Posteriormente iniciou, em 1922, e concluiu, com distinção, em 28 de Julho de 1927, o curso geral de Medicina e Cirurgia na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto.

Na Faculdade de Medicina granjeou o Prémio Barão de Castelo de Paiva por ter obtido a melhor classificação na disciplina de Anatomia Topográfica, e Accessit na mesma disciplina (1924). Durante o seu percurso académico destacou-se ainda noutras áreas, tendo sido reconhecido com Accessit nas disciplinas de Anatomia Patológica, Medicina Operatória, Bacteriologia e Parasitologia, Patologia e Clínica Médica, Patologia e Clínica Cirúrgica, Higiene e Medicina Legal, e com Distinção nas disciplinas de Anatomia Descritiva, Farmacologia e Terapêutica geral e nas Especialidades Médicas de Pediatria, Obstetrícia e ginecologia.4 O seu interesse pela Anatomia, desenvolvido ao longo do seu trajeto estudantil, desempenhou um papel preponderante na sua ulterior vida profissional e académica, tendo sido um discípulo dedicado do seu Mestre, o Professor Doutor Hernâni Monteiro (1891-1963). No manuscrito, presente no Museu de História de Medicina, da autoria do Professor Hernâni Monteiro, redigido aquando da prestação de provas para Professor Auxiliar do grupo de Anatomia pelo Professor Doutor Álvaro Rodrigues (1931), pode ler-se: Era um rapaz franzino e de poucas palavras, que passava todo o tempo que os deveres escolares lhe deixavam livre no teatro anatómico, curvado sobre cadáveres, a estudar. De certo, esse aluno julgava-se sozinho entre as quatro paredes da vasta sala de dissecção. Todavia, alguém atentamente o seguia, apreciando os primores da sua técnica perfeita e a queda decidida que mostrava para tal género de trabalhos. E, assim, sem nisso pensar, esse aluno traçava o seu futuro.5 Foi reconhecido pelos seus pares e homenageado por diversas entidades, tendo sido condecorado, em 1963, pelo Presidente da República, com o grau de Comendador da Ordem de Benemerência; em 1983, com a Medalha de Ouro de serviços Distintos do Ministério dos Assuntos sociais, Medalha de Ouro de Mérito Municipal da Câmara Municipal de vila Nova de gaia, Medalha de Ouro da Câmara Municipal do Porto e Medalha de Mérito da cidade de Espinho; em 1984, com o grau de grande Oficial da Ordem de instrução Pública; e, em 1981, nomeado Membro Emérito da Academia de Ciências de Lisboa.3,6 Paralelamente à sua competência indiscutível para as questões do foro académico, científico, e assistencial afirma-se como um notável pianista e um intérprete singular, demonstrando uma extraordinária aptidão para a música e para outras áreas artísticas, como o desenho.

O Investigador Como previamente mencionado, a disciplina de Anatomia constituiu um impulso fundamental na carreira académica do Professor Álvaro Rodrigues, e, consequentemente, no seu percurso como investigador. Neste âmbito, dedicou-se, ainda durante o curso, à dissecção de peças anatómicas, algumas das quais se encontram salvaguardadas no Museu de Anatomia da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (Figura_2 ).7

Esta vocação para a Anatomia valeu-lhe a nomeação a assistente desta área científica, dedicando-se, então, ao aperfeiçoamento de técnicas anatómicas mais delicadas como as injeções vasculares e as dissecções do sistema nervoso.

Elaborou trabalhos de investigação de carácter morfológico, abrangendo a Nevrologia, nomeadamente relativamente aos nervos frénico, pneumogástrico e depressor de Cyon.4,6,8 Em 1927, o Professor Hernâni Monteiro (1891-1963) funda o Laboratório de Cirurgia Experimental e Radiologia da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, no qual cooperaram, além do Professor Álvaro Rodrigues, o Professor sousa Pereira (1904-1986), o Professor Luís de Pina (1901-1972) e o Professor Roberto de Carvalho (1893-1944). Desta forma, o Professor Hernâni Monteiro contribuiu para o desenvolvimento técnico e científico dos seus colaboradores e a projeção nacional e internacional do serviço.7 O Professor Álvaro Rodrigues dedicou-se, assim, sob a sua orientação, à Cirurgia Experimental, tendo um dos seus primeiros ensaios, insidido sob a influência da simpaticectomia nas modificações leucocitárias periféricas. Posteriormente, enveredou pelo estudo da fisiopatologia linfática, sistema cardiovascular, sistema respiratório, sistema nervoso vegetativo e ainda do sistema ósseo.4 Em 1956, o Professor Hernâni Monteiro e os seus colaboradores receberam o reconhecimento internacional pelos trabalhos desenvolvidos no âmbito da anátomo-fisiologia linfática, tendo sido convidados a redigir um dos trabalhos (Méthodes de démonstration du système lymphatique chez le vivant) do Congresso Anual da Association des Anatomistes que ocorria, nesse ano, na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa. O Professor Álvaro Rodrigues, apesar de se encontrar afastado da investigação anatómica e da docência do grupo, foi nomeado pelo Professor Hernâni Monteiro para fazer a exposição do tema aos congressistas, tendo sido distinguido pela sua dedicação e por ter sido um dos discípulos mais estimados do seu Mestre.7 É de enfatizar a sua dissertação de doutoramento no âmbito da Anatomia, denominada Ansa Hypoglossi: novos subsídios para o seu estudo anatómico (Porto, 1930). Esta, representava, como explicita o Professor Álvaro Rodrigues, um estudo essencialmente morfológico da ansa do hipoglosso, realizado no Homem e em alguns mamíferos, baseado sobretudo na dissecção cuidadosa do pescoço de 50 cadáveres de indivíduos portugueses. A um longo apanhado bibliográfico, em que são referidas as diversas interpretações e descrições da ansa, desde vesálio até aos nossos dias, e à exposição da técnica empregada nessas investigações, segue-se a descrição pormenorizada de cada uma das 100 observações (...) Da conjugação dos resultados destas dissecções, elaboraram-se as conclusões, em que são apreciadas, em separado, certas particularidades da ansa (...).8 Terá sido admitida pelo Conselho Escolar por conformidade de votos (sessão de 29 de julho de 1929), e cuja publicação foi subsidiada pela Junta de Educação Nacional (predecessora do instituto de Alta Cultura, do instituto Nacional de investigação Científica e da atual Fundação para a Ciência e a Tecnologia).4 Em março de 1930, terá prestado provas com a Dissertação supramencionada, tendolhe sido conferido o grau académico de Doutor. Este trabalho, mereceu numerosas apreciações na imprensa médica nacional e internacional, nomeadamente pelo Professor Hernâni Monteiro na revista Trabalhos da Sociedade Portuguesa e Antropologia e Etnologia; pelo Professor silva Carvalho (1861-1957) na A Medicina Contemporânea; pelo Professor Henri valloies (1889-1981) na L'Anthropologie; e pelo Professor Castaldi (1890-1945) nos Scritti Biologici, entre os mais relevantes.8 É de salientar o facto do Professor Henri Rouvière (1876-1952), catedrático de Anatomia da Faculdade de Medicina da Universidade de Paris, o ter convidado para estagiar (uma bolsa conferida pela Junta de Educação Nacional) no serviço de Anatomia e Embriologia da mesma Faculdade4. Na carta que enviou ao Professor Álvaro Rodrigues sobre a sua Dissertação, expressou: ...C'est une oeuvre très intéressante et la meilleure étude qui ait été faite jusqu'à maintenant sur ce point de l'anatomie. Je me propose d'en adopter les conclusiones, s'est-à-dire d'en extraire les principaux faits, quand le moment sera venu pour moi, de préparer une nouvelle édition de mon Traité d'Anatomie.8 Iniciou o seu estágio no serviço do Professor Rouvière, juntamente com o Professor sousa Pereira, a 6 de abril de 1930 e terminou-o a 24 de abril, retomando-o a 3 julho até ao dia 2 de agosto, para comparecer no III Congresso Internacional Federativo de Anatomia, onde, baseando-se nos seus trabalhos, apresentou uma comunicação intitulada Le descendens cervicalis chez l'Homme et chez les Mammifères. Terminado o congresso, regressou a Paris para finalizar o seu estágio até 24 de agosto de 1930. Neste período, devido à dedicação do Professor Rouvière ao estudo anatómico dos vasos linfáticos, instruiu-se na técnica de injecção e disseção dos mesmos segundo o método de gerota, e realizou investigações morfológias sobre o sistema linfático. Estas investigações abordaram, entre outras questões, a disposição dos grandes troncos coletores linfáticos terminais, tendo os resultados obtidos sido relatados no artigo intitulado sur les gros troncs lymphatiques de la base du cou e apresentados à Société Anatomique de Paris. As conclusões, bem como alguns capítulos e duas gravuras, foram incluídos no Tratado L'Anatomie des lymphatiques de l'Homme do Professor Rouvière.9 Ainda como bolseiro, teve oportunidade de estagiar em Estrasburgo de 26 de abril a 1 de julho de 1930 em Clínica Cirúrgica, sob direção do Professor René Leriche (18791955) e, durante este tempo, procurou, no Laboratório de Cirurgia Experimental, sob a orientação do Dr. René Fontaine (1899-1979) e, no Laboratório de Fisiologia do Professor Edward Albert shäffer (1850-1935), inteirarse das técnicas e métodos fisiológicos aplicados à Cirurgia Experimental.4,9 Também no instituto de Histologia do Professor André Pol Bouin (1870-1962), em Estrasburgo, dedicou-se à investigação experimental, efetuando, com o Dr. sousa Pereira, ressecções do sistema nervoso simpático lombar em animais, os quais foram aproveitados pelo Professor Bouin para estudar a influência do sistema nervoso simpático no desenvolvimento dos orgãos genitais e no aparecimento dos caracteres sexuais secundários.9 De dezembro de 1937 a janeiro de 1938, realizou um estágio (financiado pelo instituto para a Alta Cultura) no serviço de Cirurgia Experimental do instituto Português de Oncologia de Lisboa, durante o qual inaugurou a sua aprendizagem neste domínio. Na sala de operações e nas consultas, teve o privilégio de acompanhar os trabalhos realizados pelo Diretor do instituto, o Professor Francisco gentil (18781964) e pelos seus colaboradores. Durante o mês janeiro de 1938 teve oportunidade de trabalhar no instituto de Histologia de Lisboa, sob orientação do Professor Celestino da Costa (1884-1956).4 De fevereiro de 1939 a dezembro de 1941, foi-lhe concedida uma bolsa pelo Professor Francisco gentil, permitindo retomar os trabalhos no instituto Português de Oncologia, aplicando-se simultaneamente à investigação experimental e ao estudo clínico dos problemas de cirurgia aplicada.4 Integrou numerosas sociedades Médicas nacionais e internacionais, designadamente: a Royal society of Medicine, a Association des Anatomistes, a société internacionale de Chirurgie, a société internacionale de gastroenterologie e a Union internacional Contre le Cancer.6 Publicou cerca de 120 trabalhos científicos como autor e co-autor, em algumas das revistas mais relevantes no mundo da Medicina e das Ciências, nomeadamente os Arquivos de Anatomia e Antropologia, o Portugal Médico, A Medicina Contemporânea,entre as principais.

Nas diversas áreas abordadas durante o seu percurso investigacional, salientamos alguns dos seus trabalhos: • Sistema Linfático Sob a orientação do Professor Hernâni Monteiro e juntamente com os seus colaboradores, foi um dos pioneiros da Angiografia, dedicando-se ao estudo do sistema linfático no Laboratório de Cirurgia Experimental e Radiologia da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto. Os trabalhos desenvolvidos permitiram pôr em evidência o sistema linfático no animal vivo, quer indiretamente pela visualização radiográfica, quer diretamente, no ato operatório, pela injeção intralinfática de contraste, permitindo assim a elaboração de variados modelos sobre a fisiopatologia deste sistema, que constituíram uma base para a moderna linfangiografia.10-12Um dos trabalhos realizados, intitulado Le thorotrast dans la mise en évidence radiographique des lymphatiques chez le vivant, datado de 1933, foi apresentado, pelo Professor Roberto de Carvalho no IV Congresso Internacional de Radiologia de Zurique (1934), onde é exposto o valor potencial do método com torotraste para a delimitação de invasões ganglionares malignas. Através da revisão e modificação dos métodos e materiais utilizados, J. B. Kinmonth (1916-1982) descreve, em 1954, o método clássico de linfangiografia, dado histórico referido por Fuchs e Davidson.13,14 Tendo como objetivo conhecer as perturbações da circulação linfática, e conseguida a visualização dos vasos linfáticos no vivo, foram desenvolvidas investigações que visavam compreender como se restabelecia a circulação após a secção e laqueação dos troncos principais dos membros e do pescoço, e qual o efeito da ressecção do sistema simpático catenário respetivo no restabelecimento da circulação. Constatou-se que a simpaticectomia contribuía para o desenvolvimento da circulação derivativa e que acelerava de algum modo o processo de reconstituição da circulação.4,12 Mais tarde, comprovou-se que as infiltrações novocaínicas do simpático exerciam ação vaso-dilatadora sobre os vasos linfáticos, que favorecia o restabelecimento da circulação após laqueação, quer por acelararem a reconstituição dos troncos interrompidos, quer por provocarem o desenvolvimento de vias colaterais.15 Dentro deste domínio, estudou também os enxertos e os transplantes de gânglios linfáticos, procurando estabelecer os princípios que explicavam o êxito destas intervenções.16,17 • Sistema Cardiovascular Dedicou-se ao desenvolvimento de um estudo experimental que tinha como objetivo a visualização, radiograficamente, no vivo, das artérias vertebrais. Com este trabalho conseguiu pôr em evidência não os vasos do pescoço e cabeça mas também outros descritos na altura como de difícil e invulgar visualização, nomeadamente ramos da crossa da aorta, as artérias intercostais superiores, a artérias mamárias internas e as artérias coronárias cardíacas, entre os mais importantes. Durante este ensaio, objetivou as alterações vasodilatadoras operadas nas artérias vertebrais após simpaticectomia do gânglio cervicotorácico.18 Baseado no estudo supracitado, aplicouse na visualização das artérias coronárias cardíacas e na demonstração da importância das suas anastomoses.19 Concomitantemente, avaliou a ação da inervação simpática sobre a vasomotricidade das artérias coronárias e sobre as fibras cardíacas, através de experimentos que avaliavam o efeito da ablação do gânglio cervicotorácico (na época utilizada para o tratamento da angina de peito) e a repercussão no dinamismo cardíaco.20,21 • Sistema ósseo Neste campo, e, de acordo com a importância que a resseção ou ablação de uma parte da diáfise dos ossos longos tinha na época, o Professor Álvaro Rodrigues colaborou numa série de experiências em animais, relacionadas com este tema e com a influência dos enxertos autopásticos, homoplásicos e de osso morto no crescimento dos ossos. No seu trabalho La résection diaphysaire et l'influence des greffes autoplastiques, homoplastiques et d'os mort, sur la croissance de l'os, o Professor Álvaro Rodrigues, em colaboração com o Professor sousa Pereira e o Professor Roberto de Carvalho, verificou o papel da resseção diafisária na regeneração óssea, concluindo que esta era perfeita quando a resseção diafisária era subperióssea e limitada e que, quando a resseção era extensa, embora a regeneração fosse inconstante, podia ser facilmente corrigida, aplicando simultaneamente um enxerto auto ou homoplástico.22 • Aparelho Respiratório As investigações no âmbito do sistema respiratório apoiaram-se na utilização roentgenquimografia, desenvolvendo estudos que tiveram como principal objetivo estudar a cinemática respiratória.23 Debruçou-se sobre o estudo das modificações na cinemática respiratória após colapsoterapia quer por métodos médicos (pneumotorax uni e bilateral) quer por métodos cirúrgicos (frenicectomia ou alcoolização do frénico, escalenectomia, toracoplastia, alcoolização dos intercostais e apicolise). Estas investigações utilizaram a radioquiomografia de stumpf, que permitia registar, em pormenor, o funcionamento do pulmão saudável e do pulmão doente, bem como avaliar, no decurso de um colapso, as condições de motilidade a que ficam sujeias as diversas áreas pulmonares.24 Utilizou ainda o método de Parodi, através da um aparelho improvizado em conjunto com o Professor sousa Pereira, que permitia avaliar os resultados ergomanométricos.25 • Aparelho Digestivo Nesta área, em complemento das investigações realizadas pelo Professor sousa Pereira, acerca da influência do bloqueio da inervação simpática na cicatrização de úlceras gástricas e duodenais no homem,4realizou um estudo experimental em cães que pretendia analisar a possível influência do bloqueio da inervação simpática do estômago na cicatrização de úlceras provocadas na mucosa gástrica. Após ter realizado ressecção dos nervos esplâncnicos (uni ou bilateral), e por comparação com animais aos quais não tinha sido feita a ressecção, concluiu que, na presença de feridas da mucosa gástrica, a cicatrização era acelerada pela ressecção esplâncnica.26 • Oncologia Em 1935, aquando das suas investigações no Laboratório de Cirurgia Experimental e Radiologia da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, desenvolveu estudos que definiram a importância do sistema linfático na patogenia, evolução e terapêutica da doença oncológica, o papel da invasão ganglionar nos cancros da face, lábio, cavidade bucal e dos orgãos genitais externos bem como se deveria proceder ao seu tratamento. No seu artigo intitulado Alguns problemas sobre a circulação linfática ' a linfangiografia e suas aplicações realça a importância das técnicas de injeção de vasos linfáticos, não na delineação dos mesmos na dependência de lesões neoplásicas, bem como na ablação ganglionar circunscrita apenas aos gânglios para os quais se fez a depleção da linfa do segmento atingido,27discutindo o envolvimento ganglionar na Oncologia. Tais argumentos voltariam a ser discutidos num trabalho publicado em 1936 no Arquivo de Patologia, onde promovia os métodos de visualização linfática aplicados ao estudo do cancro, defendendo que tal técnica permitiria ao cirurgião fazer uma ablação ganglionar limitada, assegurando uma taxa de recidivas diminuta.28 Prosseguiu a sua investigação no serviço de Cirurgia Experimental do instituto Português de Oncologia de Lisboa, onde desenvolveria a sua investigação mais relevante na área da Oncologia. Dedicouse ao estudo do papel dos gânglios linfáticos no mecanismo de defesa orgânica contra as neoplasias, a sua invasão local e disseminação sistémica. Desenvolveu investigações que focaram, essencialmente, a evolução da cancerologia, insidindo sobre a sua patogenia e promovendo a compreensão do papel desempenhado pelo sistema linfático e a importância do esvaziamento ganglionar no tratamento do cancro e na prevenção do desenvolvimento de metástases.29,30 Em 1941, publicava no Arquivo de Patologia um trabalho que contemplava os resultados de um conjunto de experiências,31 tornando-se pioneiro na apresentação de uma série de conhecimentos com grande repercussão no estudo do cancro. Nele era descrita a ação da simpaticectomia no desenvolvimento de tumores de maiores dimensões e mais irrigados (vindo a confirmar o papel da simpaticectomia na angiogénese tumoral, desconhecido na altura) e a interferência de procedimentos a nível ganglionar na disseminação neoplásica, tendo sido pioneiro, laboratorialmente, nas ações esclerosantes em redor dos gânglios, prática que se refletiria no futuro na quimioterapia intralinfática e nas injeções intralinfáticas de substâncias radioativas.14,31

O Professor Devido à sua distinta classificação em Anatomia Topográfica, foi nomeado, após conclusão da sua licenciatura e estágio voluntário de um ano no Departamento de Anatomia da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, Assistente do grupo da mesma, por Decreto de 18 novembro de 1927, ficando igualmente responsável pelos trabalhos práticos de Anatomia Topográfica. Renovou o cargo em sessão do Conselho Escolar de 30 de julho de 1929.14 Como referido, defendeu a tese de doutoramento a 10 de março de 1930 e em julho de 1931, candidatou-se ao cargo de Professor Auxiliar do grupo de Anatomia da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto com um trabalho intitulado O sistema linfático e a sua importância cirúrgica, sendo classificado com Distinção.

Foi reconduzido definitivamente a Professor Auxiliar em julho de 1934. Nesta condição foi nomeado, pelo Conselho Escolar da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, regente da disciplina de Medicina Operatória nos anos letivos de 1934-1935 e 1935-1936, tendo sido simultaneamente responsável pela regência de Histologia e Embriologia de 1935 a 1942.4 Em 1944, concorreu a Professor Catedrático da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, tendo sido nomeado Professor Catedrático da disciplina de Clínica Cirúrgica, cargo que manteve até à sua jubilação em 7 de julho de 1974.6 É lembrado por todos que, honrados de ter presenciado as suas aulas, o descrevem como um Professor com uma enorme sabedoria, conduzindo as suas lições de forma magistral, com extrema clareza e confiança.7

O Médico Com uma personalidade vocacionada para o serviço de prestação de cuidados de saúde, é relembrado pelos seus pares como um cirurgião exemplar, dotado de uma aptidão notável para comunicar com todos os que diretamente consigo se relacionavam e, em particular, com os seus doentes.

Durante o seu estágio no instituto Português de Oncologia, começou, segundo o consentimento e conselho do Professor Francisco gentil, a frequentar o serviço da Clínica Cirúrgica do Hospital Escolar de santa Marta, onde teve oportunidade de aperfeiçoar as suas aptidões dentro da clínica e da técnica cirúrgica, sobre o alçar deste seu mestre.4 Trabalhou no serviço de Clínica Cirúrgica do Hospital de santo António, anexo à Faculdade de Medicina, desde a conclusão do seu curso, até 1959. Juntamente com o Professor Hernâni Monteiro integrou a Comissão instaladora do Hospital de s.

João, tendo o serviço de Clínica Cirúrgica, onde trabalhava, sido transferido para o Hospital de s. João a 23 de novembro de 1959.3 Foi Diretor dos serviços de Cirurgia do Hospital de s. João32bem como dos serviços Clínicos do mesmo hospital.33,34 Paralelamente, trabalhou nos Hospitais da Ordem da Trindade, Ordem da Lapa e na Casa de saúde da Boavista. Foi reconhecido e graciado pelos serviços prestados, com os títulos de irmão Beneficente da Ordem Terceira do Carmo e da Ordem do Terço bem como irmão Honorário da santa Casa da Misericórdia do Porto.

Atualmente, está exposto na Ordem Terceira do Carmo, o seu busto esculpido em bronze, por Joaquim Meireles, descerrado em sua homenagem pela Direção e Administração a 14 de Dezembro de 1958 (Figura_3 ).3

O Gestor Após o seu envolvimento com a investigação oncológica e o exímio trabalho desenvolvido como discípulo do Professor Francisco gentil, tornou-se membro da Comissão Diretora do instituto Português de Oncologia de Lisboa em 1941, desempenhando funções como vice-Presidente desde 1971 até ser exonerado, a seu pedido, em outubro de 1974. Como delegado da Comissão Diretora, exerceu interinamente, desde março de 1971 a maio de 1972, o cargo de Diretor Clínico da secção Regional do sul (Lisboa) do instituto Português de Oncologia de Francisco gentil. Posteriormente, exerceu o cargo de Diretor do Centro Regional do Norte (Porto), que rescindiu, igualmente, em outubro de 1974.6 Desempenhou funções como Presidente do Conselho Médico-Legal do Porto de 1966 a 1974.6 Em 1971, e durante três anos, foi responsável pela direção dos serviços de Cirurgia do Hospital Universitário de Luanda e da regência das disciplinas de Cirurgia do Curso Médico-Cirúrgico da mesma Universidade.6 Foi nomeado Diretor da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto em 1972, declinando as suas responsabilidades de gestão e ensino do serviço de Clínica Cirúrgica no Professor Amarante Júnior (1924-2010) e no Professor António da silva Leal (1931-2014).35Ao assumir este cargo, durante uma época de insurreição social, foi alvo de imerecidos dissabores. Pela leitura das Actas do Conselho Escolar da Faculdade dos anos de 1973 e 1974, constata-se a pressão que a Faculdade vivia, com presença constante das forças de autoridade, e o ambiente de indignação motivado pela revolta estudantil. Na Acta de sessão Extraordinária do Conselho Escolar (13 de dezembro de 1973) é descrita a manifestação de um grupo de estudantes, durante a qual alguns deles, em fuga da polícia, invadiram o gabinete do então Diretor, o Professor Álvaro Rodrigues, e um desses estudantes agrediu na face o Professor.

Dotado de uma dignidade e humanidade extremas, conseguiu gerir a Faculdade com pleno respeito pelas regras da democracia, cumprindo a sua responsabilidade dedicadamente e altruisticamente, e apesar de ser alvo das críticas constantes dos estudantes, nunca deixou de defender os seus melhores interesses. Foram, sem dúvida, momentos que trouxeram muito dissabor e desencanto, a quem, como Professor, dedicou a sua vida à Faculdade e à Universidade do Porto. Foi demitido a 29 de abril de 1974 desempenhando, posteriormente, como decano da Universidade e, por imposição da Junta de salvação Nacional, interinamente, o cargo de Reitor da Universidade do Porto de 29 de abril a 14 de maio de 1974.6 O Professor Doutor Álvaro António Pinheiro Rodrigues evidenciou precocemente que possuía qualidades e aptidões que fariam dele um referencial na História da Medicina nacional e internacional.

Foi um médico que primou pela excelência da sua prática clínica, do ensino que ministrava, das investigações pioneiras ao nível internacional e pela qualidade da liderança de unidades de investigação, de ensino e de prestação de cuidados de saúde. Estas vertentes fizeram dele uma personalidade incontornável na História da Medicina Nacional e da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, em particular.

Com uma sólida base anatómica e morfológica, dedicou-se, desde os anos académicos, à investigação científica, tendo abordado diferentes áreas da Medicina. Foi discípulo de personalidades ilustres, nomeadamente o Professor Hernâni Monteiro, o Professor Henri Rouvière e o Professor Fransciso gentil, que o instruíram e o capacitaram para a aplicação de métodos e técnicas clássicas basilares a toda a investigação. Destacou-se pelos seus trabalhos vanguardistas no esclarecimento da fisiopatologia e visualização do sistema linfático, alguns dos quais constituem a base da linfangiografia moderna. Estes conhecimentos permitiram que fosse um importante impulsionador do estudo do cancro e do papel dos linfáticos na sua génese e tratamento, marcando a época pelas suas conclusões reveladoras e visionárias.

Consagrou-se no ensino, formando médicos, muitos deles seus discípulos, dando continuidade às tradições anatómica e cirúrgica da Escola Médico-Cirúrgica e da sua antecessora, Real Escola de Cirurgia do Porto.

Dotado de uma sabedoria notável, possuía o talento de transmitir os seus conhecimentos de forma clara e sublime, sendo as suas lições lembradas pelos cursos que formou.

Como prestador de cuidados de saúde, vocacionou-se para a área de Cirurgia, e distinguiu-se no seu exercício e nos órgãos de chefia a que pertenceu. Foi reconhecido pelos pares como um profissional de extrema competência e com um engenho natural para a cirurgia. Assumiu cargos de gestão hospitalar e de ensino que revelaram a sua administração diplomata e humanística e um forte sentido de responsabilidade.

Em conclusão, o Professor Doutor Álvaro Rodrigues foi uma personalidade multifacetada que se distinguiu em diferentes áreas da Medicina bem como nas funções que exerceu. O seu espírito erudito e o seu contributo para o desenvolvimento da Ciência ultrapassaram as fronteiras nacionais, elevando a Medicina portuguesa ao mais alto nível internacional, deixando uma herança científica da qual somos devedores.


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