Doenças da comunicação intergenómica: abordagem clínica e laboratorial
Introdução
Nos últimos 30 anos, um largo espectro de doenças multissistémicas associadas a
disfunções da mitocôndria, globalmente designadas de citopatias mitocondriais,
têm sido descritas em doentes de diferentes grupos etários.1Estas disfunções
podem afetar qualquer órgão ou tecido do organismo, embora os músculos
esquelético e cardíaco, e o sistema nervoso central sejam os mais afetados,
devido à sua elevada dependência do metabolismo energético. Assim se compreende
que as formas de apresentação mais frequentes incluam miopatia, encefalo
(mio)patia e oftalmoplegia externa progressiva (PEO). Aproximadamente 1:5.000
indivíduos na população adulta e infantil possuem citopatias mitocondriais ou
correm o risco de as virem a desenvolver.2Estas doenças são uma causa comum de
mortalidade e/ou morbilidade crónica, não estando disponível, salvo raras
exceções, nenhuma terapia eficaz. Desde1988, que a investigação molecular das
citopatias mitocondriais tem sido focada no DNA mitocondrial (mtDNA)
nomeadamente na pesquisa de rearranjos do mtDNA (deleções simples de diferentes
tamanhos e duplicações) e pesquisa de mutações pontuais quer nos genes
estruturais quer nos 22 tRNAs e dois rRNAs.3Neste sentido, para aprofundar o
conhecimento das citopatias mitocondriais em Portugal, implementou-se em 1993,
na nossa Unidade, o estudo enzimático da cadeia respiratória mitocondrial e
posteriormente o estudo molecular do mtDNA.4,5,6,7
Nos últimos anos a investigação destas doenças tem-se centrado na pesquisa de
mutações nos genes nucleares que codificam subunidades estruturais da cadeia
respiratória mitocondrial assim como nos genes necessários à montagem das
mesmas ou envolvidos na comunicação mito-nuclear.
Neste trabalho efetuou-se uma revisão da literatura sobre as doenças da
comunicação intergenómica, focando os principais grupos de patologias,
fenótipos clínicos e respetivo espetro mutacional.
Manifestações clínicas e etiologia molecular das patologias que afetam a
integridade do mtDNA
A integridade do mtDNA é mantida e controlada por um mecanismo complexo que
envolve vários elementos do replissoma mitocondrial e diversas enzimas e
transportadores que fornecem à mitocôndria os nucleótidos necessários (Fig._1
). todos estes componentes são codificados pelo DNA nuclear (nDNA) assim
mutações nos genes envolvidos na replicação e manutenção do mtDNA podem
comprometer a sua integridade causando quer deleções múltiplas quer depleção do
mtDNA.8,9Nos últimos anos a comunicação entre os dois genomas tem ganho
particular importância e muitos genes têm sido identificados como estando
envolvidos neste grupo de citopatias mitocondriais.
A Tabela_1
sumariza as principais manifestações clínicas associadas à síndrome das
deleções múltiplas e à da depleção do mtDNA, assim como a respetiva etiologia
molecular.
1. Síndrome das deleções múltiplas do mtDNA
As doenças mitocondriais associadas à presença de deleções múltiplas do mtDNA
ocorrem mais frequentemente em adultos e podem apresentar, na sua maioria, uma
hereditariedade autossómica recessiva ou dominante, sendo esta última mais
frequente.10O tamanho das diferentes deleções do mtDNA é variável, até mesmo em
doentes da mesma família. O espetro mutacional desta síndrome tem vindo a
aumentar devido à descoberta de cada vez mais genes associados à instabilidade
do mtDNA. Seguidamente será efetuada uma breve descrição das principais
manifestações clínicas e asetiologias moleculares associadas.
i) Peo (Oftalmoplegia externa progressiva autossómica dominante ou recessiva)
As características clínicas mais comuns da PEO no adulto incluem a fraqueza dos
músculos oculares externos, ptose bilateral, fraqueza muscular proximal e
intolerância ao exercício. Sintomas como a presença de cataratas, perda de
audição, neuropatia axonal sensorial, ataxia, depressão, hipogonadismo, e
parkinsonismo também podem ocorrer. Características menos comuns incluem
prolapso da válvula mitral, miocardiopatia e alterações da motilidade
gastrointestinal. Os indivíduos afetados apresentam deleções múltiplas ao nível
do mtDNA que se encontram exclusivamente nos tecidos musculares.
Mutações nos genes POLG, POLG2, C10orf2, SLC25A4, TK2, RRM2B, DGUOK, MGME1
OPA1e MFN2, encontram-se associados a PEO podendo apresentar uma
hereditariedade autossómica recessiva ou dominante sendo a forma autossómica
recessiva geralmente mais grave.10,11
Seguidamente são referidos os principais genes envolvidos na etiologia
molecular de PEO associados à síndrome das deleções múltiplas.
POLG:a mitocôndria contêm uma única DNA polimerase, a polimerase gama (POlγ),
imprescindível desde muito cedo na embriogénese.12A POlγ é codificada pelo nDNA
sendo a única polimerase exclusivamente responsável pela replicação e reparação
do mtDNA e essencial na sua manutenção. Esta enzima é composta por uma
subunidade catalítica, POlγA, que possui atividade de polimerase e de
exonuclease, sendo codificada pelo gene POLG; e uma subunidade acessória,
POlγB, que potencia a ação da enzima.13A POlγ juntamente com o mtDNA, a
helicase do mtDNA e as diversas proteínas de ligação formam o complexo de
replicação funcionante.14
As mutações que se encontram no gene POLGsão uma das principais causas da
doença mitocondrial podendo estar associadas a uma grande variedade de sintomas
clínicos, para além de PEO, tais como: parkinsonismo, síndrome de Alpers -
Huttenlocher, encefalomiopatia neurogastrointestinal mitocondrial (MNGIE),
neuropatia ataxia sensorial disartria e oftalmoparesia (SANDO) e ataxia
espinocerebelar e epilepsia (SCAE).15,16,17
Este gene está localizado no cromossoma 15 e é composto por 23 exões que se
estendem ao longo de 18,55 Kb. Apesar de ter sido identificado em 199618,
somente em 2001 foi descrita a primeira mutação patogénica.19Até à data, mais
de 200 mutações foram publicadas, das quais 65 foram descritas associadas a
PEO, sendo este gene um hot-spotpara mutações em doenças mitocondriais (human
gene mutation Database-HGMD, POLGdatabase).20Mutações no POLGpodem também ser
associadas à forma hepatocerebral da síndrome da depleção do mtDNA.15
Mutações neste gene podem apresentar uma hereditariedade autossómica recessiva
ou autossómica dominante ou até a mesma mutação pode apresentar ambos os
padrões de hereditariedade.21,22
POLG2:a POlγB, subunidade acessória da POl?, codificada pelo gene POLG2,
aumenta a eficiência da enzima. Alterações nesta subunidade podem causar
deleções múltiplas do mtDNA.
O gene POLG2, localizado no cromossoma 17, é composto por oito exões que se
distribuem ao longo de 19,28 Kb. A primeira mutação patogénica foi descrita em
2006 associada à forma autossómica dominante de PEO.23posteriormente mais 12
mutações foram descritas neste gene associadas a fenótipos mitocondriais
inespecíficos (HGMD).
C10orf2 (Twinkle):a helicase/primase mitocondrial codificada pelo gene
C10orf2também é responsável pela forma autossómica dominante de PEO.24mutações
neste gene estão associadas a apresentações clínicas que podem apresentar PEO
'puro'', ou uma forma mais complexa de PEO associada a fraqueza muscular
proximal dos membros e músculos faciais, disfagia e disfonia, ataxia, e
neuropatia periférica.
O gene C10orf2está localizado no cromossoma 10, sendo composto por 5 exões ao
longo de 6,38 kb. A primeira mutação patogénica, associada a PEO, foi descrita
em 200124e desde então mais de 40 mutações patogénicas foram publicadas (HGMD).
Algumas mutações neste gene foram também identificadas na forma hepatocerebral
da síndrome da depleção do mtDNA.25,26
SLC25A4 (ANT1):este gene codifica o transportador mitocondrial de adenina
específico do músculo cardíaco (ANT1). A proteína ANT1 é a proteína
mitocondrial mais abundante e, no seu estado funcional, é um homodímero de
subunidades de 30 kD incorporados assimetricamente na membrana mitocondrial
interna. O homodímero forma um poro através do qual o ADP é transportado da
matriz para o citoplasma. Nos mamíferos podem distinguir-se quatro isoformas
específicas em diferentes tecidos.
O gene SLC25A4está localizado no cromossoma 4 e possui 4 exões distribuídos ao
longo de 4,04 Kb. A primeira mutação patogénica foi descrita em 200027e, desde
então, apenas nove mutações estão referenciadas. Destas, cinco estão associadas
à forma autossómica dominante de PEO, três estão associadas a miopatia e a
miocardiopatia hipertrófica e uma foi identificada num doente com SANDO.
MGME1:o gene MGME1foi recentemente descrito28e localiza-se no cromossoma 20. É
composto por quatro exões e codifica uma exonuclease mitocondrial que é
essencial para uma síntese eficaz do mtDNA. É a primeira exonuclease
mitocondrial identificada a estar envolvida na replicação do mtDNA, podendo ter
uma função adicional de reparação, através do reposicionamento da cadeia de DNA
ou das estruturas de DNA-rNA durante a síntese do mtDNA.
Encontram-se descritas duas mutações em três famílias distintas com PEO, que
apresentam perda de peso acentuada e insuficiência respiratória.28As biópsias
musculares destes doentes revelaram quer deleções múltiplas, quer depleção do
mtDNA.
ii) SANDO (NeuropatIa, ataxia sensorIal, disartria e oftalmoparesia)
SANDO é uma doença sistémica, autossómica recessiva, caracterizada
principalmente pelo aparecimento de neuropatia, ataxia sensorial, disartria e
oftalmoparésia em adultos. O fenótipo é muito variável, mesmo dentro da mesma
família, e pode ainda incluir miopatia, convulsões e perda de audição.29Até à
data, foram descritas 14 mutações no gene POLGassociadas a este fenótipo
(HGMD).16
iii) SCAE (Epilepsia e ataxia espinocerebelar)
SCAE é uma patologia semelhante a SANDO mas com uma maior frequência de
enxaquecas e convulsões.30Estão descritas quatro mutações no gene C10orf2e uma
no gene POLGassociadas a esta doença.
iv) MNGIE (Encefalomiopatia neurogastrointestinal mitocondrial)
MNGIE é uma doença autossómica recessiva com início entre a segunda e quinta
décadas de vida caracterizada clinicamente por PEO, (pseudo) dismotilidade
gastrointestinal, caquexia, leucoencefalopatia difusa, neuropatia periférica e
morte precoce. Ao nível do mtDNA podem ser observadas deleções múltiplas e/ou
depleção do mtDNA.31mutações nos genes TYMPe RRM2Be mais recentemente no gene
POLG32foram relacionadas com este fenótipo. Seguidamente é referido o principal
gene envolvido na etiologia molecular de MNGIE.
TYMP (ECGF1):o gene TYMPcodifica a enzima timidina fosforilase (TP), que está
envolvida no catabolismo das pirimidinas. Défices da enzima tp levam a uma
acumulação sistémica de timidina e deoxiuridina, o que leva a um desequilíbrio
da poolde deoxinucleótidos e consequentemente a uma instabilidade do mtDNA,
originando o aparecimento quer de deleções múltiplas quer de depleção do
mtDNA.33
O gene TYMPestá localizado no cromossoma 22 e é composto por 10 exões que se
estendem ao longo de 4,3 kb. As primeiras mutações patogénicas foram descritas
por Nishino e colaboradores33e, desde então, 80 mutações associadas a este
fenótipo foram publicadas neste gene.
2. Síndrome da depleção do mtDNA
A síndrome da depleção do mtDNA caracteriza-se por uma redução acentuada do
número de cópias do mtDNA em relação às do nDNA, associada muitas vezes a um
défice múltiplo dos complexos enzimáticos da cadeia respiratória mitocondrial.
Este grupo de doenças raras e devastadoras manifesta-se maioritariamente logo
após o nascimento, causando a morte prematura de muitos doentes durante a
infância ou início da adolescência. Esta síndrome é transmitida de modo
autossómico recessivo e pode apresentar-se sob três formas: miopática,
encefalomiopática e hepatocerebral. Embora a maioria destas manifestações
ocorram em tecidos específicos, afetando fundamentalmente o fígado, o músculo
ou o cérebro, outros tecidos podem também ficar comprometidos na evolução da
doença.34O seu mecanismo fisiopatológico está fundamentalmente relacionado com
a manutenção da pool de nucleótidos mitocondriais, que assume um papel crucial
na replicação e integridade do mtDNA.
A depleção do mtDNA (número de cópias do mtDNA inferior a 35%) nos tecidos
afetados, con-firma o diagnóstico clínico desta síndrome.
Seguidamente é efetuada uma breve descrição das principais formas da síndrome
de depleção do mtDNA, assim como dos genes envolvidos na sua etiologia
molecular.
i) Forma hepatocerebral
A forma hepatocerebral é a apresentação mais comum desta síndrome. Os primeiros
sintomas ocorrem entre o nascimento e os 6 meses de vida e incluem vómitos
persistentes, atraso de crescimento, hipotonia e hipoglicemia. A nível
histológico pode-se encontrar esteatose microvacuolar, colestase, fibrose e
cirrose. Estes doentes têm normalmente uma morte precoce, durante o primeiro
ano de vida.Uma apresentação peculiar da forma hepatocerebral é a síndromede
Alpers-Huttenlocher,caracterizada por falência hepática, convulsões, evoluindo
para epilepsia parcial contínua e deterioração neurológica global. O uso de
ácido valpróico como tratamento para a epilepsia pode precipitar a falência
hepática aguda. Mutações no gene POLGsão uma causa frequente desta síndrome.
Até ao momento, estão descritas cerca de 55 mutações associadas à forma
hepatocerebral, distribuídas pelos seguintes genes: DGUOK, MPV17, POLG,
C10orf2, TK2e SUCLG1. Genes, como DGUOKe MPV17, encontram-se também associados
à síndrome das deleções múltiplas do mtDNA.35,36Uma breve descrição destes
genes será efetuada seguidamente, com exceção dos genes POLGe C10orf2, que
foram descritos na secção anterior e dos genes TK2e SUCLG1que serão descritos
posteriormente nas formas miopática e encefalomiopática desta síndrome,
respetivamente.
DGUOK:a cínase deoxiguanosina (DGUOK) fosforila a deoxiguanosina e a
deoxiadenosina, contribuindo para a síntese de dois nucleótidos necessários à
manutenção da pool de desoxirribonucleótidos trifosfato (dNTPs)
mitocondrial.22,37A associação da síndrome da depleção do mtDNA com mutações
neste gene sugere que a manutenção desta pool de dNTPs representa um papel
crucial na replicação e integridade do mtDNA e consequentemente no seu
conteúdo. Os doentes com mutações no gene DGUOK, localizado no locus2p13,
apresentam geralmente alterações hepáticas progressivas e dificuldades
alimentares, associadas a disfunção neurológica (hipotonia, nistagmuse atraso
psicomotor) por volta dos primeiros meses de vida. A presença de neuropatia
periférica e tubulopatia são raras mas, foram descritas
ocasionalmente.38mutações neste gene causam depleção do mtDNA fundamentalmente
no fígado, e mais raramente no músculo e nos fibroblastos. As primeiras
mutações patogénicas descritas neste gene foram publicadas em 2001 por Mandel e
colaboradores.39Atualmente, foram descritas mais de 50 mutações em cerca de 100
doentes (HGMD).
MPV17:outro gene envolvido nesta forma clínica é o MPV17que se localiza no
locus2p23-p21 e codifica uma pequena proteína da membrana mitocondrial interna
de função ainda pouco esclarecida. Estima-se que participa na manutenção da
pool de dNTPs necessária para a síntese de mtDNA. O seu papel na patogénese e
desta síndrome é ainda desconhecido. Clinicamente estes doentes apresentam
falência hepática grave, hipoglicemia, sintomas neurológicos e múltiplas lesões
a nível cerebral durante o primeiro ano de vida.40A presença de depleção do
mtDNA no fígado e/ou no músculo, assim como um défice múltiplo dos complexos da
cadeia respiratória mitocondrial, estão normalmente presentes nestes doentes.
Foram descritos aproximadamente 30 indivíduos com mutações no gene
MPV17.41,42Desde a identificação da primeira mutação neste gene43, foram
descritas mais de 25 mutações associadas a esta forma clínica e também à neuro-
hepatopatia de Navajo, uma doença multissistémica autossómica recessiva
encontrada na comunidade de Navajono sudoeste dos Estados Unidos.22
ii) Forma miopática
Na forma miopática da síndrome da depleção do mtDNA, o aparecimento de sintomas
ocorre normalmente no primeiro ano de vida, com dificuldades alimentares,
atraso de crescimento, hipotonia e fraqueza muscular. A creatina cínase está
frequentemente aumentada, sendo um marcador importante para o diagnóstico, uma
vez que não é muito comum em doentes com outras miopatias mitocondriais.9A
morte destes doentes ocorre normalmente nos primeiros anos de vida devido a
insuficiência pulmonar e infeções, mas existem casos que sobreviveram até à
adolescência.44Estas manifestações clínicas e bioquímicas são acompanhadas de
sinais morfológicos típicos de miopatia mitocondrial tal como a presença de
fibras citocromo c oxidase negativas. A proliferação de mitocôndrias sob a
forma de fibras rotas e vermelhas não é uma característica primária consistente
mas, no entanto, pode aparecer mais tarde no decorrer da doença.
TK2:a timidina cínase (TK2) é uma enzima que fosforila a deoxitimidina,
deoxicitosina e deoxiuridina, participando juntamente com a DGUOK na síntese de
nucleótidos necessários para a manutenção da pool de dNTPs mitocondrial.45
O gene TK2localiza-se no locus16q22 e as mutações descritas neste gene estão
especificamente associadas à forma miopática. Os sintomas aparecem durante a
infância ou a adolescência e caracterizam-se por miopatia progressiva,
culminando em falência respiratória e em morte, nos casos mais graves. No
entanto, os fenótipos menos graves apresentam uma evolução mais lenta da doença
e um maior tempo de sobrevivência.34
Em 2001, Saada e colaboradores46identificaram pela primeira vez mutações neste
gene. Depois desta primeira observação, um total de 37 mutações no TK2foram já
descritas em mais de 50 doentes.42A maioria destas mutações estão associadas à
forma miopática. No entanto, existem mutações associadas a outros fenótipos,
como é o caso da PEO, surdez neurosensorial e encefalomipatia com epilepsia
(HGMD).
iii) Forma encefalomiopática
Em 2005, Elpeleg e colaboradores47, descreveram uma forma de encefalomiopatia
autossómica recessiva associada a depleção do mtDNA. O aparecimento dos
sintomas ocorre igualmente na infância e manifesta-se através de hipotonia
muscular, atraso psicomotor grave, deterioração neurológica progressiva,
surdez, perda de movimentos voluntários, oftalmoplegia externa, convulsões
generalizadas e disfunção tubular renal. Verifica-se um aumento do lactato
sanguíneo e na ressonância magnética cerebral, podem-se observar lesões nos
gânglios basais sugestivas da síndrome de leigh.37
Mutações nos genes, RRM2B, SUCLA2e SUCLG1estão associadas a esta forma de
apresentação clínica, sendo estes seguidamente descritos.
RRM2B:o gene RRM2Blocaliza-se no locus8q23 e codifica a subunidade R2 da
redutase ribonucleotídica (RNR), uma enzima citosólica que está envolvida no
passo terminal da síntese de novodos dNTPs, convertendo os nucleótidos em dNTPs
durante a interfase do ciclo celular (fase S). A RNR está também envolvida no
suplemento de dNTPs durante a reparação do DNA. Mutações neste gene estão
associadas a hipotonia, acidose láctica, atraso de desenvolvimento e
tubulopatia. A doença apresenta uma evolução rápida e fatal e manifesta-se
frequentemente nos primeiros meses de vida. Laboratorialmente é identificada
uma diminuição acentuada do número de cópias de mtDNA no músculo destes
doentes.
Em 2007, Bourdon e colaboradores48descreveram a primeira mutação patogénica
neste gene, estando atualmente mais de 30 mutações descritas em aproximadamente
15 doentes.42
SUCLA2e SUCLG1:a enzima succinil-coA sintetase catalisa a síntese reversível do
succinato e ATP a partir de succinil-coA e ADP no ciclo dos ácidos
tricarboxílicos (TCA). Esta enzima é constituída por duas subunidades, a e ß,
codificadas pelos genes SUCLG1(2p11) e SUCLA2(13q12), respetivamente. Mutações
nestes genes parecem dificultar a associação entrea succinil-coA sintetase e a
cínasedifosfato nucleósido, resultando num desequilíbrio na pool de dNTPs
mitocondrial e consequentemente na depleção do mtDNA no músculo.49Um dado
importante para a suspeita do envolvimento destes genes é a presença de uma
excreção urinária, moderada a elevada, de ácido metilmalónico e a presença de
intermediários do TCA. Clinicamente revelam hipotonia muscular proeminente,
atraso psicomotor grave, distonia progressiva, surdez e convulsões
generalizadas. Os doentes com mutações no gene SUCLG1 podem ainda apresentar
dismorfias pré-natais, crises metabólicas neonatais e a morte pode ocorrer nos
primeiros meses de vida.
Estão descritos cerca de 30 doentes com mutações nestes genes, das quais nove
no SUCLA250e 13 no SUCLG1 (HGMD).
Abordagens de diagnóstico das doenças de comunicação intergenómica
Nas doenças da comunicação intergenómica, a apresentação clínica pode variar
entre as síndromes bem definidas e os fenótipos multissistémicos inespecíficos,
onde o envolvimento neurológico está geralmente presente. Estabelecer um
diagnóstico preciso num doente com suspeita de patologia mitocondrial revela-se
um desafio, que requer uma abordagem multidisciplinar a nível clínico,
bioquímico e histopatológico, para além de uma história familiar bem
documentada. Os dados bioquímicos, tais como aumento de lactato e piruvato,
quer no plasma, no LCR ou na urina, alteração do perfil de ácidos orgânicos,
aumento da alanina no perfil dos aminoácidos plasmáticos, assim como os dados
de ressonância/tomografia cerebral são indicadores importantes para o
diagnóstico destas patologias. A determinação da atividade enzimática dos
complexos enzimáticos da cadeia respiratória mitocondrial é importante para
orientar a abordagem molecular, em particular em doentes sem fenótipo
específico. Como o mtDNA codifica subunidades de vários complexos da
fosforilação oxidativa (CI, CIII, CIV e CV), é expetável que uma depleção do
mtDNA provoque um défice combinado da fosforilação oxidativa (com exceção do
CII, o único não codificado pelo mtDNA). No entanto a atividade enzimática dos
complexos da cadeia respiratória mitocondrial no músculo pode ser normal, se o
tecido muscular não se encontrar entre os tecidos afetados, como acontece nos
doentes com formas hepatocerebrais da síndrome da depleção do mtDNA.
A análise por southern-blot ou por PCR quantitativo em tempo real identifica
simultaneamente as deleções múltiplas e a depleção do mtDNA. Independentemente
da tecnologia aplicada utiliza-se um gene nuclear de referência específico para
a análise (18s) sendo muito importante o uso de controlos da mesma idade e do
mesmo tecido, dada a natureza dinâmica da qualidade e quantidade do
mtDNA.51considera-se como cut-offpara o diagnóstico de depleção do mtDNA um
número de cópias de mtDNA inferior a 35% em relação aos indivíduos controlo,
podendo este número atingir valores mais baixos nos casos mais graves.
Com base na nossa experiência e na revisão da literatura publicada,
apresentamos um algoritmo para o estabelecimento de um diagnóstico para estas
doenças da comunicação intergenómica (Fig._2
).
Considerações finais
As citopatias mitocondriais não dispõem de terapia eficaz,àexceção dosdéfices
primários de ubiquinona (CoQ10) que respondem clinicamente à suplementação com
CoQ10, embora sejam muito raros. Em geral, o tratamento efetuado nestas doenças
é meramente sintomático e paliativo, usando-se cocktailsvitamínicos, cofatores
e eventualmente creatina e carnitina.
A investigação em termos de diagnóstico neste grupo de patologias não é muito
diferente da que se aplica noutras doenças e inclui a recolha de dados como
história familiar, exame físico incluindo o neurológico, exames laboratoriais
de rotina e específico se eventual realização de biópsia muscular para estudo
histopatológico, bioquímico e molecular.52Uma doença mitocondrial que se
manifesta ao nascimento ou nos primeiros dias de vida é mais provável estar
associada com alterações a nível do nDNA do que com alterações a nível do
mtDNA. As síndromes da depleção e das deleções múltiplas do mtDNA têm surgido
cada vez mais como uma das principais causas de um amplo espetro de patologias
multissistémicas de início na infância ou na idade adulta, respetivamente. Os
avanços recentes na tecnologia de sequenciação, nomeadamente a utilização da
sequenciação de nova geração, permitiram esclarecer a etiologia molecular em
55% dos doentes com suspeita de patologia mitocondrial, possibilitando a
identificação de mutações causais em novos genes, por vezes não diretamente
relacionados com patologias mitocondriais.53,54,55
A caraterização molecular destes doentes é importante não só para permitir a
realização de aconselhamento genético e diagnóstico pré-natal adequados, nos
casos em que forem identificadas mutações no nDNA, mas também para melhorar a
compreensão da fisiopatologia da doença. Uma estratégia de diagnóstico precisa
e focada irá economizar recursos e possibilitará avanços consideráveis no
conhecimento destas patologias.