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EuPTCVHe0871-34132015000400001

EuPTCVHe0871-34132015000400001

National varietyEu
Country of publicationPT
SchoolLife Sciences
Great areaHealth Sciences
ISSN0871-3413
Year2015
Issue0004
Article number00001

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Alterações morfológicas e bioquímicas na trissomia 21

Introdução A Trissomia 21 (T21) ou síndrome de Down é um distúrbio genético causado pela presença extra, total ou parcial, do cromossoma 21. Foi descrita pela primeira vez em 1866 por John Langdon Down, sendo a aneuploidia mais comum, com uma prevalência de 1/670 nascimentos1.

A incidência desta patologia aumenta com a idade materna desde 1/1500 nascimentos em mulheres com 25 anos para 1/100 nascimentos em mulheres com 40 anos2.

Cerca de 43% das gestações de fetos com T21 terminam em abortamento espontâneo após as 10 semanas, e em 23% dos casos as gestações terminam espontaneamente após as 16 semanas2,3.

É a principal causa de défice cognitivo, habitualmente moderado a grave e por esta razão a interrupção eletiva destas gravidezes é opção para muitos casais.

Está associada a diversas anomalias congénitas que conduzem a um aumento de morbilidade e mortalidade neonatais, sendo as malformações cardiovasculares as mais frequentes, ocorrendo em 40-50% dos casos, como os defeitos do canal atrioventricular, defeitos do septo ventricular e a persistência do canal arterial, seguidas das malformações gastrointestinais que ocorrem em 11% dos casos, nomeadamente atresia duodenal, doença de Hirschsprung e fístula traqueoesofágica. Outras anomalias congénitas associadas à T21 incluem as mal formações dos membros (9%), do trato urinário (6%) e cataratas congénitas (1%)2,4.

Desde os anos 80 que existem diversos testes de rastreio pré-natal de T21.

Estes testes baseiam-se na determinação dos níveis de marcadores bioquímicos no soro materno, expressos em múltiplos da mediana (MoM's), associados ou não a dados ecográficos. Independentemente do tipo de teste, a idade materna e a correta idade gestacional, confirmada por ecografia, são parâmetros imprescindíveis no cálculo do risco de ocorrência desta aneuploidia1.

Os resultados dos testes de rastreio pré-natal devem ser interpretados conforme o valor cutoff considerado. Nos casos de rastreio positivo, deverão ser realizados exames para a determinação do número de cromossomas fetais, nomeadamente por biópsia das vilosidades coriónicas ou amniocentese5,6.

O rastreio bioquímico do trimestre deve ser realizado entre as 15 e as 20 semanas de gestação. Na gestação de um feto com T21, os níveis no soro materno de alfa-feto-proteína (AFP) são geralmente mais baixos (mediana de 0,73 MoM) e os de β-subunidade livre da gonadotrofina coriónica humana (β-hCG) são consideravelmente mais altos (mediana de 2,30 MoM), do que os esperados na gestação de um feto cromossomicamente normal 5. Em 1988, para aumentar a taxa de deteção do rastreio bioquímico do trimestre, foi adicionado ao teste duplo o estriol não conjugado (µE3), que se encontra diminuído no soro das grávidas de fetos com T21 (mediana de 0,79 MoM), conhecido como teste triplo7.

Usando o valor de 1:250 (risco teórico de aneuploidia calculado para mulheres com 35 anos de idade na altura do parto), o teste triplo apresenta uma taxa de deteção de 68,2% para uma taxa de falsos positivos de 5,5%5.

Em 1996 foi demonstrado que a adição de Inibina-A ao teste triplo aumentava a taxa de deteção para cerca de 83%, tendo o novo teste sido denominado teste quádruplo8.

Nos anos 90, foram descritos marcadores ecográficos associados à T21, nomeadamente a translucência da nuca (TN) 9. Em 1997, introduziu-se o rastreio combinado do trimestre, realizado entre as 11 e as 13+6 semanas de gestação, que associa marcadores bioquímicos (β-hCG e proteína plasmática A associada à gravidez PAPP-A, que se encontra diminuída nos fetos afetados com T21) à medida da TN. Este teste tem uma taxa de deteção de aproximadamente 87%para uma taxa de falsos positivos de 5%10.

Em 1999 surgiu o teste integrado, baseado em marcadores do trimestre (TN e PAPP-A) e marcadores bioquímicos do trimestre (AFP,β-hCG,µE3 e Inibina-A), com uma taxa de deteção de 85% para uma taxa de falsos positivos de apenas 0,9%11.

Existem outras versões do teste integrado: o teste integrado sérico, igual ao integrado mas sem o marcador ecográfico, com uma taxa de deteção de 88% para uma taxa de falsos positivos de 3,4%12. Outra versão é o teste contingente no qual após a realização do rastreio combinado do trimestre as grávidas de acordo com o risco são divididas em três grupos. Se o falso negativo (1:1000) o rastreio fica concluído. Se o resultado do rastreio combinado do trimestre for positivo, com uma probabilidade elevada de risco de T21 (1:50-1:100) deve ser proposto à grávida um exame de diagnóstico. Se os valores calculados estiverem entre os limites citados é oferecido à grávida o teste quádruplo, após as 15 semanas, sendo o resultado final calculado a partir dos dados obtidos em ambos os trimestres. Este teste permite uma taxa de deteção de 91% para uma taxa de falsos positivos de 2,1%11,13,14.

O teste de rastreio mais apropriado deve ser, em teoria, o que apresenta a menor taxa de falsos positivos e maior taxa de deteção, mas se se pretender uma intervenção no primeiro trimestre de gestação, o rastreio combinado do1º trimestre deve ser a primeira opção. No entanto, se não houver acesso ao exame ecográfico do primeiro trimestre para a correta datação da gestação e avaliação da TN ou nos casos de referenciação tardia da grávida, o rastreio do trimestre tem uma eficácia aceitável15.

O objetivo deste trabalho é caracterizar as alterações morfológicas e bioquímicas nos casos de T21, cujas mães efetuaram rastreio bioquímico do trimestre na nossa instituição no período de 10 anos.

Material e Métodos Entre 1998 e 2008, foram prospectivamente avaliados todos os casos de rastreio bioquímico positivo realizados no nosso Hospital. Considerou-se o rastreio positivo quando o risco foi igual ou superior a 1:250.

Foram analisados os resultados dos exames invasivos realizados no mesmo período e revistos os processos com diagnóstico de T21 neste exame, assim como os processos das mães cujos recém-nascidos foram codificados com diagnóstico de T21 na alta.

Para este trabalho foram considerados os casos de T21, quer interrompidos quer nascidos, das mães que tivessem realizado o rastreio bioquímico e exame ecográfico no nosso Hospital para assegurar que todos os casos tivessem condições laboratoriais, ecográficas e anátomo-patológicas semelhantes.

Resultados Foram efetuados 12163 rastreios triplos do trimestre entre 1998 e 2008. O rastreio bioquímico triplo (AFP, β-hCG e μE3) foi positivo para T21 em 691 casos (5,7%). O desfecho das gestações foi conhecido em 92% dos casos de rastreio positivo e em 75% dos negativos.

Foram identificados 18 casos de T21 (16 casos com diagnóstico confirmado por amniocentese e 2 casos de rastreio falso negativo). Dos 18 casos de T21, mais de metade das grávidas foram referenciadas tardiamente, impedindo a realização do rastreio combinado do trimestre.

A percentagem de mulheres com mais de 35 anos foi 14,5% (1700 mulheres), e nesta faixa etária o rastreio foi positivo em 18,1%.

As mulheres que tiveram uma gravidez afetada por T21 tinham idades compreendidas entre 15 e 43 anos, com uma mediana correspondente a 32 anos. Em nenhum dos casos havia história de gravidez anterior afetada por T21. Oito mulheres tinham idade superior ou igual a 35 anos (44,4%), verificando-se uma maior percentagem de casos de T21 nas mulheres com menos de 35 anos (10/18; 55%). Houve 2 resultados falsos negativos (uma grávida com 17 anos e outra com 27 anos) e 16 resultados verdadeiros positivos, sendo a taxa de deteção do rastreio de 88,9% (IC 95% 65,3-98,6) com uma taxa de falsos positivos de 5,5% (IC 95% 5,1-6,0) e uma taxa de falsos negativos de 11,1%. A mediana das MoM's dos marcadores bioquímicos nas grávidas com fetos afetados foi: 0,735 de AFP, 0,685 de µE3 e 2,54 de βHCG (tabela_1).

Quinze casais optaram por interromper a gravidez e em seis casos a interrupção ocorreu antes das 20 semanas de gestação. Nasceram 3 recém-nascidos, do sexo feminino, com T21. Duas delas (os dois resultados falsos negativos) apresentaram dismorfias sugestivas de T21 (face achatada, fendas palpebrais oblíquas, pavilhões auriculares pequenos e de inserção baixa, pescoço curto e grosso, membros curtos, pregas palmares únicas e hipotonia muscular). A recém- nascida cujo casal optou por não interromper a gravidez apresentava para além de dismorfias, uma cardiopatia complexa (diagnosticada em ecografia pré-natal).

No nosso estudo, as anomalias encontradas nos exames anátomo-patológicos dos fetos afetados, foram essencialmente alterações do hábito externo, nomeadamente a existência de pregas palmares únicas em uma ou ambas as mãos e alterações craniofaciais. Quanto às alterações do hábito interno as mais comuns foram as malformações cardiovasculares, nomeadamente a comunicação interventricular (CIV) e gastrointestinais (tabela_2).

Discussão A T21 é responsável por metade das aneuploidias registadas na espécie humana, se tivermos em conta os exames de cariótipo fetal, sendo a mais prevalente quando consideramos os nados-vivos. É a principal causa de défice intelectual grave e está associada a diversas anomalias congénitas e por esta razão quando esta aneuploidia é diagnosticada, a interrupção voluntária da gravidez é solicitada pela maioria dos casais.

Através da análise de marcadores bioquímicos juntamente com a idade materna é possível obter um teste de rastreio pré-natal de T21 com uma taxa de deteção elevada em que a principal vantagem é a redução do número de exames invasivos que seriam realizados se fosse tida em conta apenas a idade materna16.

O despacho de 1997 ( 5411/97) refere que «são consideradas grávidas de risco, quando se verifica uma das seguintes situações: a) idade superior a 35 anos» e que «as unidades de saúde envolvidas no diagnóstico pré-natal podem transitoriamente adotar um critério próprio relativamente à indicação idade materna e alteração dos valores dos marcadores serológicos maternos, de acordo com os recursos de que dispõem»17.

Existe ainda uma Norma da direção-Geral da saúde atualizada a 21/5/2013 onde se afirma que «os resultados da recente investigação científica permitem reconhecer que a idade materna, considerada isoladamente é um mau indicador de risco da T21». Diz ainda esta norma «que a quantificação do risco de T21 deve ser baseada na medida da TN e na idade materna e, sempre que possível, deve ser realizada em combinação com a determinação dos marcadores bioquímicos do trimestre.»18.

Atualmente as mulheres engravidam cada vez mais tardiamente; mesmo assim a frequência da gravidez depois dos 35 anos ainda é menor do que entre os 20 e os 35 anos, e por isso é mais frequente ocorrer um caso de T21 numa mulher com menos de 35 anos do que numa com idade mais avançada, sendo este mais um dado que põe em causa a indicação da realização de técnicas invasivas apenas com base na idade materna. No nosso estudo a maioria das mulheres com fetos afetados com T21 tinha uma idade inferior aos 35 anos.

Apesar de na nossa instituição estar disponível a ecografia do primeiro trimestre com a medida da TN desde 1997, a maioria das grávidas eram referenciadas tardiamente ou com a indicação para realização de exames invasivos, impossibilitando desta forma a realização do rastreio combinado do trimestre que é o método de rastreio pré-natal preconizado para as grávidas orientadas para o nosso Hospital. Dos casos de T21 apresentados neste trabalho, mais de metade das grávidas não foram referenciadas à nossa instituição a tempo da realização do rastreio combinado do primeiro trimestre, e por essa razão realizaram o rastreio bioquímico do segundo trimestre, que apesar de não ser o teste de rastreio pré-natal preferencial, apresentou uma taxa de deteção de 88,9%,superior à descrita na literatura. Dos 15 casos de interrupção de gravidez no nosso estudo, seis foram realizadas antes das 20 semanas de gestação e destas, metade em mulheres com menos de 35 anos. A interrupção da gravidez antes das 24 semanas de gestação contribuiu para que os fetos afetados com T21 apresentassem no exame anátomo-patológico alterações morfológicas subtis, difíceis de detetar ecograficamente, que com um exame detalhado foram possíveis de diagnosticar, salientando uma vez mais a importância dos testes de rastreio pré-natal.


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