Futilidade médica, da teoria à prática
Introdução
Sendo a ética uma reflexão filosófica, situa-se na esfera da filosofia prática
porque tem por tarefa específica orientar a conduta. Baseando-nos no modelo
aristotélico, trata-se de uma forma de saber prático, uma vez que se ocupa da
ação humana. Mas o saber ético não se limita às virtualidades técnicas dado que
reflete sobre os fins e valores últimos da ação. É importante distinguir entre
o “sábio técnico” e o “sábio moral”. O primeiro é um homem hábil que domina a
arte de aplicar os meios adequados a um fim que se procura, seja esse fim bom
ou não, enquanto o “sábio moral” é o prudente, o que delibera sobre os meios
mas para conseguir um fim bom.1
Assim, um bom profissional não é apenas um bom técnico mas alguém que atua
segundo os valores próprios da sua profissão, não só científicos mas também
éticos e deontológicos.
A autora considera que a futilidade médica é um tema importante da bioética que
obriga a operacionalizar os seus princípios fundamentais. Assim, propõe-se
fazer uma revisão da literatura e uma reflexão a partir de casos da sua prática
profissional.
Histórias clínicas
Caso 1: LC, sexo masculino, diagnóstico de esclerose lateral amiotrófica (ELA)
aos 41 anos. Casado, contabilista, residente com a esposa e três filhos
menores. Boa relação entre o casal, a esposa é a principal cuidadora.
Desenvolveu tetraparesia progressiva e, três anos após o diagnóstico, teve
indicação para ventilação não invasiva (VNI) noturna domiciliária por
insuficiência respiratória, que aceitou. Concomitantemente inicia envolvimento
bulbar com disfagia progressiva. Cinco anos após o diagnóstico é proposta
gastrostomia percutânea (PEG) que sempre recusou. Quando, por agravamento da
insuficiência respiratória, foi confrontado com a possibilidade de
traqueostomia e ventilação invasiva, recusou. Faleceu tranquilamente no
domicílio, na companhia da família, pouco tempo depois.
Caso 2: JF, sexo masculino, diagnóstico de esclerose lateral amiotrófica aos 44
anos. Casado, despachante alfandegário, residente com a esposa e duas filhas
menores. Boa relação entre o casal, a esposa é a principal cuidadora.
Desenvolveu tetraparesia progressiva e, um ano após o diagnóstico, teve
indicação para VNI noturna domiciliária por insuficiência respiratória, que
aceitou. Concomitantemente inicia envolvimento bulbar com disfagia progressiva.
Foi-lhe proposta gastrostomia percutânea que aceitou e que foi realizada dois
anos após o diagnóstico. Nessa altura, por agravamento da insuficiência
respiratória, foi-lhe proposta traqueostomia e ventilação invasiva que aceitou.
Vive com a família no domicílio, não voltou a ser internado. A doença
neurológica tem progredido e encontra-se em estado de “locked in”, tem algum
suporte informático para facilitar a comunicação.
Perante as múltiplas questões éticas que estes casos suscitam tentarei abordar
apenas as seguintes:
● A gastrostomia e a traqueostomia são intervenções fúteis nos doentes com ELA?
● Em que circunstâncias se poderão considerar fúteis?
Desenvolvimento/ o conceito de futilidade
A futilidade terapêutica entendida como um tratamento não eficaz tem sido uma
preocupação dos médicos ao longo do tempo mas, com o crescimento exponencial da
tecnologia desde a 2ª Guerra Mundial e o conflito da coreia, surgiram novos e
inesperados desafios éticos.
O conceito de futilidade médica é tão antigo quanto a Medicina. O médico grego
prudente tinha a obrigação de não tratar as doenças “incuráveis”, ou seja
aquelas em que a intervenção médica não podia influenciar os resultados.2
O termo obstinação terapêutica, referida pelos autores francófonos como
“encarniçamento terapêutico”3é utilizado no âmbito dos cuidados paliativos,
nomeadamente em Portugal. A lei de base de cuidados paliativos define como
«Obstinação diagnóstica e terapêutica» os procedimentos diagnósticos e
terapêuticos que são desproporcionados e fúteis, no contexto global de cada
doente, sem que daí advenha qualquer benefício para o mesmo, e que podem, por
si próprios, causar sofrimento acrescido.4
A designação distanásia, de origem grega, é usada, na prática, com o mesmo
significado mas não é sinónimo. Significa o prolongamento do processo de morrer
por intervenções que têm por objetivo a manutenção da vida sem se considerar a
dor e o sofrimento que, nas situações-limite, lhe estão necessariamente
associadas.5
Para autores como Beauchamp e Childress, o termo fútil refere-se às situações
nas quais os doentes que estão num processo irreversível de morte chegam a um
ponto em que o tratamento não fornece nenhum benefício fisiológico ou
possibilidade de cura e é opcional.6Aconselham a evitar o termo “futilidade”
por ser ambíguo, usado para expressar a combinação de um julgamento de valor
com um julgamento científico. Sugerem então que se use numa linguagem mais
precisa, o termo medicamente inapropriado ou desproporcionado (6) ou
clinicamente não benéfico.7
A futilidade terapêutica surgiu, como uma categoria que os profissionais de
saúde usam para decidir quando não iniciar (withhold) ou quando suspender
(withdraw) o tratamento médico. Este conceito sobretudo utilizado a partir dos
anos 50, em consequência do desenvolvimento tecnológico e da autonomia do
doente, contraria o até então comum modelo de paternalismo médico.8
A expansão das capacidades médicas para suportar a vida e prolongar o processo
de morte tem como resultado a manutenção de muitos doentes vivos por períodos
indefinidos quando antigamente morreriam. Atualmente, um grande número dos
doentes morre nos hospitais após decisões deliberativas de abstenção ou
suspensão terapêutica. Estas decisões têm sido complicadas por dilemas
relativamente novos como estados vegetativos persistentes, ordens de não
reanimar (DNR), declarações antecipadas de vontade e a expansão da autonomia do
doente e do representante legal. Estas decisões não podem ser simples opiniões
ou escolhas, devem ser usados alguns critérios para indicar quando a abstenção
ou suspensão terapêutica são moralmente válidas.9
O código deontológico da Ordem dos Médicos no seu artigo 59º é claro na
definição destes critérios.10
Na história da Medicina a “futilidade” baseou-se na opinião do médico sobre o
diagnóstico, prognóstico e curso da doença, assim como na relação entre
benefícios e custos. Com a mudança das capacidades médicas e dos direitos dos
doentes e famílias na participação das decisões, o conceito tradicional de
futilidade tem sido extensivamente criticado mas, segundo pellegrino,9aqueles
que sugerem o abandono do conceito não têm um substituto para oferecer. Assim,
este autor considera necessário haver uma maneira operativa de tomar a decisão
quando a morte ou a incapacidade excedem os poderes da Medicina.
Os objetivos médicos devem ser a cura, o alívio da dor e do sofrimento, a
melhoria da incapacidade, a inversão da história natural da doença ou outros
objetivos que, de alguma maneira, façam sentido para o doente.9
Fazendo confluir as capacidades médicas com a autonomia do doente e família, os
julgamentos fúteis devem incluir os valores do médico, do doente, da família e
de outros membros da equipa. Esta definição deveria incluir o peso de três
fatores: efetividade, benefícios e custos.9
A efetividade é determinada pela avaliação dos objetivos clínicos, se e em que
grau a intervenção poderia alterar a história natural da doença ou de um
sintoma. Esta é a componente clínica, baseada em conhecimentos médicos e
experiência acerca do diagnóstico, prognóstico e opções terapêuticas. Nesta
avaliação a idade, a qualidade de vida e as questões económicas seriam
auxiliares mas não determinantes per se. O benefício, por outro lado, é
determinado pelo doente e família. Inclui o valor percebido por eles como
“merecer a pena” e é subjetivo, para a maioria. Pode incluir a sua avaliação da
idade, da qualidade de vida e situação económica. Os custos incluem as
consequências físicas, emocionais e económicas dos tratamentos propostos, pelo
que são objetivos e subjetivos e definidos pelo doente, ou seu representante
legal, em conferência com o médico. Não há nenhuma fórmula matemática
disponível para avaliar o peso de cada um destes três componentes. A
proporcionalidade entre estes três componentes é ponderada, como em muitas
outras decisões da vida comum, de uma maneira qualitativa.9
Nada poderá ser assumido como fútil a não ser que seja julgado como tal em
relação a um determinado objetivo. Nada é fútil no abstrato, mas uma
intervenção proposta pode tornar-se fútil quando se determina que os objetivos
não podem ser atingidos mesmo que a intervenção seja repetida muitas vezes. Nas
decisões médicas estão quase sempre envolvidos dois tipos de objetivos: o
“efeito médico” e o “benefício médico”.8
Para Schneiderman nenhum dos efeitos produzidos pelos médicos é um benefício, a
não ser que o doente tenha capacidade para o apreciar. Um doente não é nem uma
coleção de órgãos nem meramente um indivíduo com desejos. O objetivo do
tratamento médico não é apenas causar um efeito numa parte anatómica,
fisiológica ou química do doente mas beneficiar o paciente como um todo.11
O benefício do tratamento é o efeito do mesmo na pessoa inteira, isto é, a
pessoa humana existencial composta pelo seu sistema de valores, crenças,
objetivos e capacidade para os realizar, ou seja, o impacto no seu plano de
vida ou o benefício a longo prazo.12
O objetivo pessoal do doente pode ou não coincidir com o do médico. Pode
tratar-se de um julgamento da qualidade de vida que o doente terá caso haja
intervenção de tecnologia médica. Embora infrequente, estes objetivos podem
causar conflito e ser necessária a colaboração de consultadoria ética.8 estão
em causa dois tipos de futilidade médica: a futilidade terapêutica e a
futilidade qualitativa.
A futilidade terapêutica é apenas da responsabilidade médica, só o clínico é
capaz de determinar se uma dada intervenção pode ou não atingir
terapeuticamente os objetivos. Pode tratar-se de uma ação ou intervenção médica
pedida pelo doente ou família que não seja capaz de atingir os objetivos
médicos ou, uma ação ou intervenção que não produza um benefício médico para o
doente, embora possa ter um efeito médico. A futilidade médica qualitativa
baseia-se em juízos de qualidade de vida feitos pelos doentes ou seus
representantes. Os médicos, isoladamente, não devem fazer este tipo de
julgamentos, estas decisões são da responsabilidade do doente ou do seu
procurador. Os clínicos devem ajudar os doentes a tomar as decisões,
esclarecendo-os sobre as consequências decorrentes das intervenções médicas.
Estes julgamentos envolvem sempre a avaliação dos objetivos e centram-se num
juízo de valor para o qual os médicos, habitualmente, não têm treino
específico.
O termo tratamento fútil também tem sido atribuído a todas as prescrições que
são feitas sem fundamento, inseridas por vezes em protocolos aplicados sem
adaptação ao caso concreto, assim como todos os gestos que apenas geram
consumos sem justificação, induzem sequências de exames desligadas do
verdadeiro interesse da pessoa ou perseguem novidades sem reconhecimento
científico seguro.13
Muitas vezes surge como justificação a indesejável “medicina defensiva”.
A integridade profissional obriga os médicos a recusarem pedidos de
intervenções não benéficas, sem sentido, fúteis ou contraindicadas.2,14
É fundamental a relação médico-doente na tomada de decisão sobre tratar ou não
tratar. A decisão deve ser partilhada e não ser da iniciativa exclusiva do
médico, o que constituiria um censurável paternalismo. Da mesma forma, não deve
ser imposta pelo doente, o que corresponderia a um abuso de autonomia, lesivo
da liberdade do profissional.15
Segundo vários autores, se o tratamento puder ser declarado, pelo clínico, como
“medicamente fútil” não será necessário falar com o doente e com a família
sobre ele e o médico não deverá fornecer a terapêutica, mesmo que estes a
solicitem.8,12,16,17contudo, recomenda-se que, sempre que possível, deverá ser
dada informação adequada e clara. As “Ordens de não-reanimar” (dnr) são um
exemplo de boa prática perante as situações em que a reanimação cardio-
respiratória é considerada uma intervenção desproporcionada. Estas ordens só
são justificadas nas situações terminais, quando já não há expectativa
justificada da sua eventual utilidade, e devem resultar da decisão de uma
equipa, sendo sujeitas a revisão regular18ou decididas pelo próprio doente
através das diretivas antecipadas de vontade.19
Futilidade e cuidados paliativos
Embora determinados tratamentos possam ser fúteis, os cuidados paliativos ou de
conforto, como uma abordagem ao sofrimento total, prestados por uma equipa
multidisciplinar, não são fúteis, antes pelo contrário, constituem um benefício
médico para o doente.8,11,16,20,21
Muitas vezes os doentes e familiares que pedem que “tudo seja feito” apenas
expressam “não me abandonem”.
Perante as situações de fim de vida, independentemente do local onde o doente
esteja, é importante uma adequada comunicação entre os profissionais, entre
estes e o doente e a família, assim como assegurar um acompanhamento competente
em cuidados paliativos.
Reflexão sobre as histórias clínicas
A esclerose lateral amiotrófica (ELA) ou doença do neurónio motor é uma doença
neurodegenerativa progressiva, de etiologia desconhecida e incurável.22-24
O seu curso é progressivo, sem remissões e a sobrevida é de meses a décadas mas
geralmente inferior a três anos, desde o início dos sintomas.25
Os principais sintomas são fraqueza e atrofia muscular, cãibras, espasticidade,
disartria, disfagia, dispneia e labilidade emocional. Eventualmente todos os
músculos esqueléticos são afetados e podem chegar a estado de “locked-in” em
que nenhum músculo esquelético funciona, a dependência é total e a comunicação
é difícil ou impossível, mesmo com o olhar.
Os múltiplos problemas requerem uma abordagem multidisciplinar incluindo um
controlo intensivo dos sintomas como: reabilitação para manter a função motora,
ajuda na deslocação, suporte nutricional e respiratório, aparelhos de
comunicação, suporte psicológico, social, financeiro e espiritual para os
doentes e familiares.22-24,26
A principal causa de morte é a insuficiência respiratória. Foi demonstrado que,
entre vários benefícios, a ventilação não invasiva (VNI) melhora a qualidade de
vida e aumenta a sobrevida dos doentes.27A ventilação invasiva por
traqueostomia pode aumentar a sobrevida mas requer supervisão durante vinte e
quatro horas podendo chegar ao estado “locked-in”. Menos de 5% dos doentes
optam por este tratamento, com percentagens variáveis nos diferentes países.24A
tecnologia “Brain-computer interface – BCI” tem sido testada nestes doentes,
pois alguns mantêm as funções cognitivas necessárias para operar um computador
usando ondas cerebrais e biofeedback.
A desnutrição e desidratação são comuns na ELA avançada. A gastrostomia
assegura a nutrição e tem sido, cada vez mais, uma opção para estes doentes.
Os dois doentes apresentados no início, com muitas semelhanças do ponto de
vista de idade, socio-cultural e clinico tomaram decisões muito diferentes que
condicionaram prognósticos distintos.
Importa realçar o respeito pelo princípio de autonomia nos dois casos: o
primeiro exerceu o seu direito recusando a gastrostomia e a traqueostomia e o
segundo, aceitou os tratamentos. Para que este direito fosse exercido foi
necessário esclarecer os doentes sobre as várias opções terapêuticas e garantir
o não abandono e o tratamento adequado dos sintomas que causam sofrimento à
medida que a doença progride. Conforme recomenda Diego Gracia, se a decisão é
autêntica, tomada com conhecimento, sem controlo externo, coerente com o
sistema de valores e comas atitudes gerais perante a vida, assumida de modo
refletido e consciente, deve ser respeitada.28
O princípio da beneficência está sempre presente, seja qual for a escolha do
doente. De reforçar que, a ELA, desde o diagnóstico, causa grande sofrimento
aos pacientes, seus familiares e cuidadores, incluindo os profissionais de
saúde, pelo que os cuidados paliativos devem ser introduzidos precocemente.29-
31estes cuidados acompanham os doentes e cuidadores no processo de doença,
durante o processo de morte e no luto.
Do que já foi dito podemos concluir que o princípio da vulnerabilidade,32que
evoca a ferida e o sofrimento, se aplica a todos os intervenientes no doloroso
processo desta doença, seja ao portador, ao familiar, ao amigo ou aos
profissionais de saúde.
Também poderá ser posto em causa o princípio de justiça distributiva uma vez
que os cuidados a estes doentes são onerosos, poderão ocupar camas em hospitais
de agudos, incluindo em cuidados intensivos, sobretudo se as suas vidas forem
prolongadas com o uso de meios extraordinários como a ventilação artificial. A
evocação deste princípio poderá ter pertinência se houver uma má utilização
destes recursos, sobretudo quando a comunicação com o doente não for adequada
em relação à tomada de decisão de fim de vida.
Considerações finais
A esclerose lateral amiotrófica é uma doença incurável, rapidamente
progressiva, com sobrevida curta que causa muito sofrimento não só aos doentes
mas a todos os envolvidos. Dada a instalação rápida e progressiva dos défices,
há necessidade frequente de tomada de decisões, incluindo algumas sobre suporte
vital.
Uma grande parte dos doentes mantém as capacidades cognitivas preservadas,
embora se torne difícil a comunicação devido aos défices motores. As perguntas
inicialmente elencadas sobre a futilidade ou não de alguns tratamentos como a
traqueostomia ou a gastrostomia em doentes com ELA não têm uma única resposta.
Estudos futuros poderão ajudar nesta tomada de decisão.
A futilidade terapêutica, na maior parte destes doentes, deverá ser definida
por eles. O que, para alguns é um meio de manter uma vida com sentido, como por
exemplo a traqueostomia, para a maioria, seria uma tortura.
Assim, a excelência da relação médico-doente é obrigatória para que o paciente
possa tomar as melhores decisões, após corretamente informado sobre as
alternativas terapêuticas que incluem sempre os cuidados paliativos.