Caso endoscópico
Apresenta-se a situação de uma menina de oito anos que nasceu com atrésia
esofágica de gap longo, pelo que foi submetida no período neonatal a
gastrostomia para alimentação. Permaneceu no hospital até aos oito meses
fazendo alimentação exclusiva por gastrostomia e aspiração contínua do coto
esofágico proximal, aguardando crescimento dos topos esofágicos.
Aos oito meses efetuou cirurgia, com anastomose dos dois segmentos do esófago,
sob tensão, na sequência da qual desenvolveu quadro de refluxo gastroesofágico
grave. Apesar do tratamento permanente com inibidor da secreção ácida do
estômago desenvolveu estenose significativa da anastomose cirúrgica, com
disfagia acentuada, que não foi possível resolver com dilatações, razão pela
qual foi reoperada.
Desde então e até aos oito anos, momento atual, tem feito tratamento com
inibidores da secreção ácida e tem tolerado toda a alimentação própria da idade
referindo apenas alguns pequenos episódios de engasgamento com alimentos
sólidos que resolvem de forma rápida e espontânea.
Realizou exame endoscópico de controlo que permitiu observar no esófago as
imagens que apresentamos.
Qual lhe parece a melhor interpretação para os aspetos apresentados?
1 ' Esofagite péptica secundária ao refluxo
2 ' Duplicação esofágica
3 ' Estenose esofágica com pseudodivertículo
4 ' Esófago de Barrett
Figura 1
Figura 2
COMENTÁRIOS
As imagens que mostramos correspondem à zona de anastomose cirúrgica e nelas
podemos ver do lado direito o lúmen esofágico e do lado esquerdo uma cavidade
em fundo de saco, separados por prega. A mucosa que reveste estas estruturas
tem aspeto normal e sem sinais inflamatórios. O lúmen esofágico encontra-se
diminuído mas sem significativa estenose, com diâmetro aproximado de 9mm. A
mucosa esofágica distal não apresentava sinais inflamatórios embora o cárdia se
revelasse incompetente quando observado em inversão. O estômago e o duodeno
eram normais.
Estamos assim perante uma deformação cicatricial do esófago secundária à
cirurgia efetuada, com pseudodivertículo e estenose ligeira, sem sinais
inflamatórios. Não há sinais de esofagite, a duplicação esofágica tem uma
história e morfologia diferente e o esófago de Barrett desenvolve-se por regra
na porção terminal do esófago em consequência do refluxo crónico, possível no
contexto desta doente mas não correspondendo ao que observamos nestas imagens.
A atrésia esofágica de gap longo conduz habitualmente a uma cirurgia de
anastomose com tensão, mais frequentemente sujeita a complicações, nomeadamente
acentuado refluxo com esofagite e estenose secundária. A refistulização com
reintervenção ou rotura parcial da anastomose e posterior cicatrização conduzem
com frequência a deformação cicatricial definitiva, após correção, com aspeto
pseudodiverticular, que permanece durante vários anos, atenuando-se
frequentemente à medida que cresce o esófago. Este aspeto pseudodiverticular e
naturalmente a estenose e a perturbação da motilidade do esófago operado, são
causa de disfagia que habitualmente resolve quase completamente com o
crescimento. Estes doentes devem todavia ser submetidos a controlo endoscópico
periódico.