Conceção, redação e publicação de artigos científicos: Conceção de artigos
científicos
1. INTRODUÇÃO
Redigir um bom artigo é uma tarefa difícil que exige conhecimentos de natureza
científica e técnica e o domínio das ferramentas necessárias, muito treino e
persistência(1-3). Saber redigir um artigo é o primeiro passo para fazer a
leitura crítica dos artigos publicados e, desta forma, selecionar a informação
disponível na literatura(4,5). Por estes motivos, ambos os conteúdos deveriam
ser obrigatórios nos cursos médicos e em todos os do ensino universitário(6,7).
Antes de começar a redigir um artigo, é preciso que os autores saibam onde o
querem publicar. Para isso, devem saber qual é a finalidade da publicação e o
público a que se destina o artigo e conhecer as revistas da área. Depois de
selecionar a revista e de consultar as instruções aos autores, devem planear
cuidadosamente o que querem escrever e como o vão fazer, respeitando a
estrutura básica do artigo e sem perder de vista o objetivo primordial:
salientar as ideias mais importantes, tornar claros os aspetos inovadores e
fazer chegar a mensagem ao público-alvo.
Antes de começar a redigir um artigo, é também preciso que os autores conheçam
as diversas modalidades de artigos científicos, saibam qual é a sua estrutura
básica e os conteúdos que devem integrar cada uma das partes que os compõem.
Neste trabalho fazemos algumas reflexões sobre as etapas que devem preceder a
redação de um artigo científico, tendo em vista a sua publicação numa revista
de edição periódica.
2. CONCEITOS GERAIS
2.1 Tipos de textos científicos
Existem vários tipos documentos, entre os quais textos científicos, que diferem
entre si no conteúdo e na forma(6) (Quadro_1). Os artigos científicos são um
tipo particular de texto científico, publicado em revistas com edição
periódica.
2.2 Textos científicos publicados em revistas de edição periódica
Para além dos chamados artigos originais, destinados à publicação de
resultados inéditos, as revistas científicas de edição periódica publicam
outras modalidades de artigos científicos, como os estudos de casos (conhecidos
na área médica como casos clínicos) e de séries de casos (muitas vezes
referidos como revisões de casuísticas), e os artigos de revisão, entre
outros (Quadro_2)(8). Para além disso, muitas revistas publicam também outros
tipos de textos científicos, como sejam artigos de opinião, ensaios pictóricos,
conferências de consenso e normas orientadoras. Nem todas as revistas aceitam
todas as modalidades de artigos. Por exemplo, há revistas que não publicam
casos clínicos e estudos de revisão, assim como há outras destinadas apenas a
este tipo de publicações.
Em algumas destas modalidades a proposta de submissão para publicação é feita
pelos próprios autores, como acontece nos artigos originais; noutras, como é o
caso dos artigos de revisão e de opinião, a redação dos artigos e a sua
publicação pode ser feita exclusivamente a convite do corpo editorial, mas isso
depende das normas da revista.
2.3 Organização de um artigo científico
A preocupação de redigir os artigos de uma forma estruturada e uniforme, que ao
mesmo tempo proporcione qualidade científica e facilite a leitura, data de há
longos anos.
Na estrutura de um artigo há a considerar, para além do corpo do artigo
(texto do artigo propriamente dito), os elementos pré (título, autores e
respetivas filiações, resumo e palavras-chave) e pós-textuais (referências,
glossário, apêndices e anexos).
Em 1988 foi proposta a organização do corpo do artigo nas secções de
Introdução, Métodos, Resultados e Discussão (IMRAD, Introduction, Methods,
Results And Discussion)(9), uma estrutura que, com variações em função do tipo
de artigo e das normas das revistas, se manteve até aos nossos dias (Quadro_3)
(10,11). A estrutura básica do Resumo deve refletir a estrutura do corpo do
artigo e o seu conteúdo mencionando apenas os aspetos mais relevantes.
2.4 Conteúdo das secções de um artigo científico
Antes de começar a redigir um artigo, os autores devem ter conhecimento prévio
dos conteúdos que devem integrar cada uma das secções (Quadro_4)(8).
2.5 Variações no conteúdo e na forma dos textos científicos
Os diferentes tipos de artigos diferem entre si no conteúdo e forma de
organização (Quadro_5)(8).
Neste trabalho abordaremos apenas a organização de um artigo original na sua
forma clássica. Os relatos de casos (12-16) e de séries de casos(17,18), as
notas técnicas(19), os ensaios pictóricos (20) e os artigos de revisão
narrativa(21-23) e de revisão sistemática sem e com meta-análise(24-29),
apresentam especificidades de conteúdo e estrutura que não serão alvo de
análise.
As cartas ao editor(30), os editoriais(31) e os comentários a convite dos
editores têm também requisitos e caraterísticas muito próprias(32).
2.6 Artigos originais com caraterísticas particulares
Alguns artigos originais nas áreas das ciências médicas e biomédicas, pelas
suas particularidades, obedecem a requisitos particulares, pelo que foram
propostas normas orientadoras específicas para a sua redação. Não sendo
possível no âmbito deste trabalho analisar com detalhe as caraterísticas de
todos estes tipos de textos científicos, resta-nos informar os leitores sobre
as principais modalidades e facultar as referências onde poderão encontrar
orientações detalhadas para a redação dos mesmos (Quadro_6).
Entre eles, salientam-se os que relatam os resultados de ensaios clínicos
aleatorizados e controlados com medicamentos de uso humano ou de outros estudos
médicos interventivos(33,34), estudos observacionais epidemiológicos(35,36),
nomeadamente os baseados na recolha de dados clínicos de rotina(37,38), os
estudos de validação e de precisão diagnóstica(39-44), estudos de análise de
prognóstico de marcadores tumorais(45), estudos de associação genética(46),
estudos epidemiológicos moleculares(47), estudos de identificação e
qualificação de biomarcadores em proteómica clínica(48), estudos preditivos de
risco genético(49), estudos de imunogenómica(50), assim como artigos que
reportam reações adversas a medicamentos(51,52) e estudos sobre a qualidade
destes últimos(50). Nos últimos anos, têm vindo a aumentar os estudos que
reportam análises económicas de custo / benefício em diversas áreas da saúde,
pelo que também existem já numerosas recomendações sobre a realização destes
estudos e redação de artigos científicos para os reportar(53-61), etc.
2.7 Erros frequentes na redação de artigos científicos
Conhecer os erros que mais frequentemente são cometidos na redação de artigos
ajuda a aprender com a experiência de outros e a não cometer erros que são
recorrentes, no conteúdo e na forma (Quadro_7). A leitura atenta e crítica de
outros artigos e o treino de redação são também fundamentais.
2.8 Sequência de redação versussequência de apresentação
A sequência de redação das diferentes secções de um artigo científico não
corresponde à sequência utilizada na versão do artigo que é submetida para
publicação e esta, por sua vez, difere da sequência apresentada no artigo na
versão impressa, tal como é publicado (Figura_1). De uma forma geral, a secção
Material e Métodos deve ser a primeira a ser redigida, logo seguida pela secção
Resultados, devendo a redação desta última ser precedida pela construção das
respetivas ilustrações (tabelas e figuras). Seguidamente, devem ser redigidas
as secções Introdução e Discussão. Durante a redação das diferentes secções,
deve ser construída a lista bibliográfica usada nas citações, que constituirá,
no final, a secção de Referências. Por fim, deve ser escrito o Resumo e
atribuído o Título apropriado. Para que o artigo tenha consistência e seja
coerente como um todo, é importante que as secções Material e Métodos /
Resultados e Introdução / Discussão, suportadas pela respetiva bibliografia,
comuniquem entre si.
3. QUESTÕES PRÉVIAS À REDAÇÃO DO ARTIGO
Antes de começar a escrever um artigo, é necessário planear e isso inclui
responder a algumas perguntas: Qual a finalidade da publicação? Qual o público-
alvo? Onde é que o artigo deve ser publicado? O que deve ser abordado,
detalhado ou salientado? Como deve ser redigido?
3.1 Porque quero publicar um artigo?
Existem várias razões para se publicar um artigo(62). A mais importante é a
divulgação de novos conhecimentos na comunidade científica, assim como de novos
materiais, técnicas e métodos. Outras razões prendem-se com questões
curriculares e profissionais e com o reconhecimento e o prestígio dos autores e
das instituições.
3.2 O que devo e como devo escrever?
Um bom artigo deve ser escrito com clareza, precisão e fluência, condições
essenciais para que os leitores se sintam interessados e sejam capazes de
entender o seu conteúdo. Para além disso, deve contextualizar o leitor no que
respeita aos tema e aos problemas abordados, apresentar adequadamente os
objetivos, os materiais e métodos usados e os resultados encontrados, assim
como discutir esses resultados, comparando-os com os dados disponíveis na
literatura.
Para ilustrar um artigo podem ser usados quadros, tabelas, figuras, etc., que
servem fundamentalmente para representar os resultados e as ideias de forma
mais clara e com economia de espaço. No entanto, para transmitir eficazmente a
mensagem não basta usar ilustrações atrativas, sendo essencial um bom texto
explicativo que conduza a leitura do trabalho.
3.3 Onde devo publicar?
Antes de começar a redigir um artigo ou numa fase muito precoce do processo de
redação, os autores devem decidir em que revista o querem publicar. A escolha
da revista é o ponto de partida, uma vez que vai ser determinante para a sua
estrutura e a formatação. Para decidir, o autor deve conhecer o âmbito de
publicação das revistas da área, saber qual é o público-alvo das mesmas e
consultar a informação relativa ao âmbito e normas de publicação.
Uma vez identificadas as revistas da área cujo âmbito de publicação é adequado
ao trabalho em causa, existem mais alguns fatores a considerar: o facto das
revistas terem (ou não) revisão por pares, a sua indexação (ou não) em bases de
dados bibliográficas e quais, os respetivos Fatores de Impacto, e se as
editoras disponibilizam (ou não) o acesso aberto ao texto integral dos artigos.
3.4 Como avaliar a qualidade e visibilidade das revistas?
A revisão por pares, a indexação das revistas em bases de dados
bibliográficas, referenciais ou de texto integral, e o Fator de Impacto
(aplicável apenas às revistas indexadas pela Thomson Scientificna ISI Web of
Knowledge) são pilares fundamentais da literatura médica e biomédica(63) De uma
forma geral, a revisão por pares e a indexação em bases de dados
bibliográficas são garantia de qualidade; por outro lado, é relevante publicar
em revistas com maior Fator de Impacto, já que estas têm mais visibilidade e,
portanto, maior repercussão na comunidade científica.
3.4.1 Revisão por pares
A avaliação da qualidade científica é um problema particularmente difícil, pelo
que os conselhos editoriais da maioria das revistas recorrem à revisão por
pares (peer review), isto é, a especialistas qualificados, para avaliar os
artigos do ponto de vista técnico e científico, fundamentando nesses pareceres
a decisão de publicação. As revistas com revisão por pares oferecem, até
prova em contrário, maior garantia de qualidade.
3.4.2 Indexação em bases de dados bibliográficas
Da mesma forma, a indexação das revistas em bases de dados bibliográficas,
referenciais ou de texto integral, só é possível, em princípio, para revistas
que preencham determinados requisitos (regularidade de edição, existência de
corpos editoriais e redatoriais, revisão por pares, normas para publicação,
etc.).
Por isso mesmo, a indexação das revistas é também um indicador de qualidade,
para além de facilitar a procura, identificação e acesso aos artigos nelas
publicados.
3.4.3 Fator de Impacto
O Fator de Impacto das revistas* avalia a sua influência na comunidade
científica e, de certa forma, a sua qualidade, embora com algumas limitações
(64). No entanto, não deve ser usado para ajuizar sobre a qualidade individual
dos artigos nelas publicados ou dos investigadores, havendo outros indicadores
para este fim, como a taxa de citação e o Índice h, respetivamente(65). Embora
qualquer autor deseje publicar nas revistas com maior Fator de Impacto, há que
ter em consideração que estas costumam ser mais rigorosas no processo de
seleção dos artigos, nomeadamente quanto ao caráter inédito e à relevância.
3.4.4 Publicação eletrónica e acesso aberto
A publicação eletrónica constitui hoje uma alternativa válida à publicação em
papel, quer pelo menor custo, quer pela rapidez(66). Graças a ela, é possível o
acesso eletrónico ao texto integral dos artigos das revistas. No caso das
revistas que adotaram a política de open access, o acesso é livre e gratuito, o
que facilita a disponibilização dos artigos à comunidade científica; para além
disso, muitas revistas de acesso restrito (aquelas em o acesso só é permitido
mediante subscrição da revista ou pagamento pelo utilizador que o solicita),
facultam o acesso livre aos artigos publicados há mais de um determinado tempo
(geralmente 6 meses a 2 anos). Apesar de alguns estudos feitos nesta área,
ainda não é conhecido o impacto real do acesso livre à informação na leitura e
citação de artigos(67).
3.5 Como devo redigir?
As condições indispensáveis para uma boa redação científica são a clareza, a
objetividade e a precisão. Para o fazer, os autores precisam de ter assimilado
o assunto em todas as suas dimensões, em cada uma das partes e no seu todo.
Uma vez selecionada a revista, é imprescindível consultar as respetivas normas
de publicação. Para além do conteúdo, também é importante respeitar as
indicações relativas à formatação e apresentação gráfica, como margens,
espaçamentos, numeração de páginas, número de figuras e tabelas e estilo das
referências. O artigo pode ser rejeitado por não se encontrar no formato
apropriado, mesmo que apresente resultados originais e esteja bem redigido.
Para estar familiarizado com os estes aspetos, é útil consultar outros artigos
da revista em causa.