Caso endoscópico
A Sara foi observada na consulta de Gastroenterologia Pediátrica aos 10 anos de
idade por lhe ter sido diagnosticada anemia hipocrómica e microcítica com
parâmetros baixos de ferro sérico.
A nossa doente era filha única de casal saudável, com normal desenvolvimento
estaturo-ponderal e psicomotor, sem antecedentes patológicos relevantes e que
nos últimos meses referia sentir, de forma intermitente, mal estar abdominal
tipo cólica pouco intensa, mais frequentemente localizada na fossa ilíaca
direita, por vezes ocorrendo pouco tempo após a ingestão de alimentos e
desencadeando dejeção urgente com alívio do quadro álgico. Este quadro não
interferia com a sua atividade diária, mas começou a ocorrer por vezes durante
o sono, acordando a doente, razão pela qual consultou o médico de família. A
consulta foi seguida de estudo analítico sumário onde foi diagnosticada a
anemia referida (Hg-10,5gr/dl).
Enviada à consulta de Gastroenterologia Pediátrica foi-lhe diagnosticada Doença
de Crohn ileocólica(L3) com base no quadro clínico, estudo analítico e
observação endoscópica do tubo digestivo e estudo histológico das biópsias
digestivas. A doença envolvia todo o cólon direito até ao ângulo hepático e os
últimos 7 cm do ileum terminal.
A doente iniciou tratamento, inicialmente apenas com prednisolona oral (1mg/
kg), a que posteriormente adicionou azatioprina (1,5mg/kg), verificando-se
melhoria clínica e laboratorial.
Desde então, e durante o período de cerca de um ano, foi tentada por diversas
vezes a suspensão da terapêutica corticoide, verificando-se sempre rápida e
intensa recidiva da sua doença inflamatória, o que motivou a opção pelo
tratamento com Infliximab (Anti-TNF).
Cerca de um ano depois de iniciar este tratamento com boa resposta, a doente
efetuou exame endoscópico de controlo que permitiu observar ao nível do cego as
imagens que apresentamos.
Qual lhe parece o diagnóstico mais provável?
1 ' Doença de Crohn ativa
2 ' Lesões cicatriciais deformantes
3 ' Tumor polipoide do cólon
4 ' Aspetos normais.
COMENTÁRIOS
As imagens que apresentamos mostram deformação cicatricial do cólon ascendente
(Figura_1) e da válvula ileocecal com estenose e aspeto polipoide (Figura_2).
Não foi possível ultrapassar a válvula ileocecal pelo que não temos observação
endoscópica do intestino delgado.
A atividade inflamatória era muito escassa junto da válvula ileocecal e o
estudo analítico então realizado era normal, pelo que a primeira hipótese
estava fora de questão. Os aspetos observados não são normais para este
segmento digestivo e o aspeto polipoide evidenciado resulta de deformação
cicatricial e não tem carácter tumoral.
Concluímos tratar-se de deformação cicatricial resultante da cicatrização de
lesões graves, profundas, do cólon direito e região valvular, resultantes do
tratamento com sucesso com medicamento biológico. A deformação marcada da
transição ileocecal com estenose e rigidez faz prever a necessidade de futura
correção cirúrgica.
Palavras-chave: Anemia, Doença de Crohn, Infliximab.