Sentimento de mulheres atendidas por graduandos de Medicina na realização do
exame ginecológico em ambulatório de Ginecologia e Obstetrícia da Fundação
Santa Casa de Misericórdia do Pará
INTRODUÇÃO
A Ginecologia e Obstetrícia exercem sua prática, apoiada em seus conhecimentos
e experiências, num dos mais importantes períodos do ciclo vital: a vida
reprodutiva (e pós-reprodutiva) feminina. Esta, além dos biológicos, envolve
aspectos sociais, culturais e outros. É importante que saibamos valorizar a
interconexão que existe entre o corpo, a mente, as emoções, os fatores sociais
e o meio ambiente(1).
Como é de conhecimento geral, a Ginecologia e Obstetrícia exercem sua prática,
apoiada em seus conhecimentos e experiências, num dos mais importantes períodos
do ciclo vital: a vida reprodutiva (e pós-reprodutiva) feminina. Esta, além dos
biológicos, envolve aspectos sociais, culturais e outros. É importante que
saibamos valorizar a interconexão que existe entre o corpo, a mente, as
emoções, os fatores sociais e o meio ambiente(2).
De uma forma geral exames ginecológicos apresentam uma série de dificuldades,
como a resistência a sua realização e os danos físicos e psíquicos decorrentes
da inexperiência do executor. Uma outra dificuldade está relacionado ao
constrangimento da paciente principalmente em hospitais universitários, onde os
exames são realizados às vistas de estudantes(3).
Desta forma, o presente trabalho teve como objetivo avaliar o sentimento das
mulheres atendidas por graduandos de medicina em um hospital de ensino
credenciado junto ao ministério da educação de referência no estado do Pará,
com particular atenção a área da saúde da mulher, afim de tomar conhecimento da
realidade que as pacientes estão sujeitas durante suas consultas ginecológicas.
OBJETIVO
Avaliar o sentimento livre e esclarecido das pacientes atendidas por graduandos
de medicina no ambulatório de ginecologia e obstetrícia da Fundação Santa Casa
de misericórdia do Para (FSCMP).
MÉTODO
Todas as pacientes envolvidas nesta pesquisa foram estudadas segundo os
preceitos da Declaração de Helsinque e do Código de Nuremberg, respeitadas as
Normas de Pesquisas envolvendo Seres Humanos (Res. CNS 196/96) do Conselho
Nacional de Saúde após, do Comitê de Ética em pesquisa da Fundação Santa Casa
de Misericórdia do Pará (FSCMP) e pelas pessoas incluídas no trabalho por meio
do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.
O estudo foi realizado nos meses de março a abril de 2013, com uma casuística
de 110 mulheres consultadas por graduan-
pelos autores com perguntas sobre a visão das pacientes acerca do atendimento
concomitante dos graduandos de medicina juntamente com médico responsável, o
esclarecimento e consentimento para a realização do exame ginecológico.
As entrevistas foram realizadas durante a espera das consultas no próprio
hospital, em local escolhido pela entrevistada, que oferecesse condições de
realiza-la de forma reservada, confortável, sigilosa e individual. Optando ou
não pela presença do pesquisador para que lhes orientassem na leitura das
perguntas do questionário.
Foram incluídas no estudo mulheres atendidas pelo serviço de ginecologia e
obstetrícia da FSCMP, que tenham sido consultadas alguma vez por graduandos de
medicina junto ao médico preceptor naquele local, que estivessem de acordo com
a sua participação na pesquisa e tivessem assinado o TCLE, as pacientes menores
de idade também tiveram o aceite do responsável legal que as acompanhava. Foram
excluídas do estudo mulheres que não se encontrarem dentro das condições
anteriormente descritas, as que preencherem o protocolo de forma incompleta bem
como as que não estiveram de acordo em participar.
Após a obtenção dos dados coletados o resultado foi rigorosamente avaliado,
tabelado e confeccionados gráficos para o seu melhor entendimento, com o
auxílio do programa Excel® 2007 e BIOESTAT® 5.0. Foram utilizados os testes
binomial e Kolmogorov Smirnov, sendo fixado p<0,05 para análise estatística.
RESULTADOS
DISCUSSÃO
A despeito de toda tecnologia incorporada pela prática médica nas últimas
décadas, o exame físico permanece como pedra angular do diagnóstico e da
relação médico-paciente, e seu aprendizado é de suma importância na educação
médica. Os exames ginecológicos são especialmente sensíveis tanto para os
estudantes inexperientes quanto para a mulher que está sendo examinada, a
inexperiência pode levar à insegurança, dificultando ao aluno inspirar
confiança nas pacientes(4).
A maioria das mulheres deste estudo obtiveram esclarecimentos acerca do exame
ginecológico a ser executado, conforme o proposto pelo Código de Ética Médica
que configura como infrações da ética profissional: Art. 46. Efetuar qualquer
procedimento médico sem o esclarecimento e o consentimento prévios do paciente
ou de seu responsável legal, salvo em iminente perigo de vida.
Apesar deste resultado, 42% das mulheres não receberam esclarecimento acerca do
exame a ser realizado. A não elucidação ao sujeito examinado quanto ao que esta
sendo feito dificulta o estabelecimento de uma adequada relação médico-
paciente. Os médicos preceptores da instituição em estudo precisam estar
atentos e conscientes de tal infração diante dos graduandos de medicina.
Durante a realização do exame ginecológico, 45% das mulheres sentiram dor ou
desconforto, o que concorda com estudo realizado por Barbeiro et al. (2009)(5),
com estudantes de uma escola pública em Niterói, que indica o desconforto do
exame como um dos principais problemas relatados pelas mulheres. Essa sensação
pode estar diretamente ligada ao pudor, pois exame ginecológico sob uma
situação de tensão pode levar a contração da musculatura pélvica e dos membros
inferiores, gerando um momento desagradável e doloroso.
Das pacientes que se queixaram de dor e desconforto, a maioria delas alegou que
o executor do exame prosseguiu em sua realização e não valorizou a queixa. A
prática da medicina pressupõe respeito a valores e ao indivíduo em todos os
seus aspectos, o que não se evidenciou no presente estudo, negligenciando o
papel ético frente ao sofrimento e a dor.
Nos últimos anos, produziu-se uma separação cada vez mais acentuada entre a
ética prescrita pelos códigos e aquela que é efetivamente praticada(6). As
pacientes que são atendidas pelos estudantes frequentemente não sabem que estes
não são médicos formados, e por não terem supervisão adequada podem provocar
danos aos pacientes.
Com relação à sensação referida pelas mulheres após o exame a maioria apontou
vergonha como o principal sentimento. Concordando com o trabalho de Brito, Nery
e Torres (2007) (7), que indicou a vergonha como o principal sentimento durante
um exame ginecológico. A mulher percebe-se fragmentada: de um lado, utiliza-se
da vergonha como forma de se proteger da exposição no exame e, por outro,
reconhece a inevitabilidade dele(8).
A maioria das pacientes entende a necessidade de ser examinada, dentre as
razões principais, a existência de inúmeras campanhas de saúde que alertam para
a prevenção e rastreamento das principais doenças da mulher que hoje são
veiculadas pelos meios de comunicação. No entanto, ainda assim se mostram
envergonhadas tendo em vista os valores socioculturais que são atribuídos ao
componente físico de atuação da ginecologia, que se configuram como uma
violação da intimidade e agressão ao seu pudor, que são agravadas em um exame
realizado por graduandos de medicina.
As mulheres da pesquisa em sua maioria referem que o sentimento após o exame
teria sido melhor ou indiferente caso houvesse um esclarecimento adequado
quanto aos seus aspectos gerais. Duavy e col (2007)(9) em um estudo de caso de
mulheres acerca da percepção do exame preventivo de colo uterino relata que no
universo assistencial há carência de programas educativos, voltados à população
em geral. A falta de informação desencadeia diversos sentimentos nas mulheres,
o que pode fazê-las se sentirem constrangidas à realização do exame,
independentemente da idade ou do nível de instrução.
As mulheres da presente pesquisa apontaram a vergonha como o principal
sentimento observado durante exame realizado por graduandos do sexo masculino,
o que corrobora com estudo de Ferreira e Oliveira (2006)(10) realizado com 81
mulheres em Botucatu.
Este estudo relata que vergonha prevalece quando o profissional que está
realizando o exame é do sexo masculino. Uma prática mais humanizada,
desenvolvendo a capacidade de integração, agindo não só com preparo técnico,
mas também com intuição e sensibilidade certamente contribuirá para criar um
ambiente de empatia e segurança entre pacientes e acadêmicos do sexo masculino.
CONCLUSÃO
Conclui-se que a maioria das mulheres das pesquisadas apresentou esclarecimento
prévio sobre o exame ginecológico, referindo ausência de dor com a maioria dos
graduandos seguindo a realização do exame sem valorizar a queixa da paciente.
A maioria das pesquisadas referiu vergonha após o exame, com sentimento melhor
ou indiferente caso recebessem esclarecimento prévio. O sentimento ao observar
o acadêmico do sexo masculino realizar o exame foi de vergonha pela maioria.