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EuPTCVHe0872-07542015000200006

EuPTCVHe0872-07542015000200006

National varietyEu
Country of publicationPT
SchoolLife Sciences
Great areaHealth Sciences
ISSN0872-0754
Year2015
Issue0002
Article number00006

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Procedimento intraparto extra-uterino (EXIT) num caso de linfangiona cervical

INTRODUÇÃO Os fetos com malformações anatómicas envolvendo a face e/ou o pescoço estão em risco aumentado de obstrução das vias aéreas, associado a alta morbimortalidade no pós-parto imediato1-5. Com o avanço da ultrassonografia pré-natal, o diagnóstico é cada vez mais precoce e, com o auxílio da ressonância magnética a possibilidade de realizar uma avaliação mais pormenorizada, nomeadamente no que se refere à extensão da massa e ao grau de compressão das vias aéreas2,4,5.

A técnica cirúrgica conhecida como EXIT (ex utero intrapartum treatment) consiste numa extração parcial do feto (polo cefálico) por via abdominal mantendo a circulação feto-placentária, até que a via aérea do feto esteja assegurada1,4-8. Esse procedimento previne a perda de calor e fluidos por evaporação, além de evitar a exposição do cordão umbilical ao ar frio e seco, que pode ativar a síntese de prostaglandinas, com consequente vasoconstrição e diminuição do fluxo sanguíneo através do cordão2.

O EXIT foi originalmente realizado com o objetivo de reverter a oclusão traqueal realizada no tratamento intra-uterino da hérnia diafragmática congénita grave. Com o passar do tempo foram surgindo novas indicações3,4,7,8.

As novas técnicas de controlo do tónus uterino tornou possível o prolongamento deste procedimento permitindo que, se a intubação traqueal do feto não fosse possível, a traqueostomia, a resseção do tumor ou até mesmo uma broncoscopia pudessem ser realizadas3.

O EXIT é, normalmente, programado após a 35ª semana de gestação (SG), embora a prematuridade não seja contraindicação para a sua realização2,3. Esta programação deverá envolver uma equipa multidisciplinar, em que todos os elementos deverão discutir o caso, fazer uma avaliação abrangente das preocupações pré-natais e do periparto, decidindo quais as melhores opções para cada situação em particular4,5,8.

CASO CLÍNICO Mãe de 35 anos, saudável. Primeira gravidez, vigiada e sem intercorrências até às 31 SG, altura em que foi detetada ecograficamente uma massa heterogénea envolvendo as regiões cervical e facial direitas. Por esse motivo, foi encaminhada para a maternidade de referência onde foram realizadas ecografias seriadas e ressonância magnética às 33 SG, sendo descrita uma lesão compatível com linfangioma quístico. O ecocardiograma e o cariótipo fetais não revelaram alterações.

Foi verificado, ecograficamente, um aumento progressivo da massa associado a macroglossia, mas sem malformações do palato, faringe ou traqueia. Perante o quadro clínico, foi realizada uma reunião multidisciplinar envolvendo a obstetrícia, a neonatologia, a anestesia e a cirurgia, tendo sido decidida a realização de uma cesariana associada à técnica EXIT às 39 SG. Na data programada, a paciente foi internada; no bloco operatório foi posicionada em decúbito dorsal e submetida a anestesia geral. Foi feita uma incisão da pele longitudinal, uma cuidadosa abertura da cavidade abdominal por planos e histerotomia segmentar arciforme. Após histerotomia, a cabeça, o tronco e os membros superiores do feto foram facilmente exteriorizados,tendo sido realizada a intubação oro-traqueal fetal ao primeiro minuto, sem bradicardia fetal.

Posteriormente foram realizados a extração total do feto, a laqueação do cordão umbilical e o encerramento da cavidade uterina e abdominal por planos anatómicos. A duração total do procedimento foi de 60 minutos, sendo 5 minutos do EXIT. Após a extração completa do RN, foi colocado um catéter venoso umbilical, foi sedado e curarizado. O índice de Apgar foi de 8/10/10 (, e 10º minutos de vida). Ao exame físico evidenciava-se uma massa na hemiface e região submandibular direitas, macroglossia e protusão da língua (Figuras_1).

Após estabilização hemodinâmica, o RN foi transferido para hospital pediátrico de referência, para avaliação cirúrgica. Ao sexto dia de vida foi submetido a excisão parcial de massa. O estudo anatomopatológico confirmou o diagnós- tico de linfangioma quístico. Atualmente com 22 meses, mantem seguimento em cirurgia e pediatria, não apresenta dificuldades alimentares e tem um desenvolvimento psicomotor adequado.

CONCLUSÃO As massas congénitas localizadas na região cervical, cabeça e face, constituem uma importante causa de obstrução da via aérea fetal e podem ser potencialmente fatais, necessitando de intubação traqueal no momento do nascimento2.

As massas cervicais mais comuns nos fetos são os teratomas e as malformações linfovenosas4.

O linfangioma é uma malformação congénita rara do sistema linfático diagnosticada em crianças abaixo dos dois anos de idade, sendo que 50% estão presentes ao nascimento9-10. Ainda que benignos, o tamanho e a localização podem interferir com a via aérea e provocar desconforto respiratório e asfixia devido a compressão que ocorre ao nascimento, para além de poderem condicionar alguma distorção das estruturas do pescoço tornando-se extremamente difícil intubar ou estabelecer cirurgicamente uma via aérea segura. Alguns casos diagnosticados no período pré-natal poderão estar associados a síndromes malformativos (síndrome de Down, Turner e Noonam) e, alguns autores, consideram que poderão ser devidos a agentes teratogénicos9,10. Por este motivo, no caso descrito, foram realizados o ecocardiograma e o cariótipo fetais.

A regressão espontânea pode ocorrer em 6% dos casos. O tratamento mais efetivo é a cirurgia, no entanto a recorrência ocorre em até 27% dos casos9.

A técnica EXIT, por manter a circulação uteroplacentária e, consequentemente, uma adequada oxigenação fetal, deverá ser o procedimento de escolha para situações em que o feto, no final da gestação, apresenta alguma condição com risco de obstrução das vias aéreas. Neste procedimento, a técnica anestésica é fundamental e abrangente, envolvendo a anestesia materna (relaxamento uterino adequado e a prevenção do descolamento prematuro da placenta) e a anestesia e imobilidade do feto, condições fundamentais para o êxito do procedimento2-4.

A monitorização fetal é um ponto fundamental, uma vez que qualquer instabilidade, como bradicardia e hipoxémia, pode ser indício de perfusão placentária, condição que deve ser detetada precocemente2,5.

As consequências maternas, a curto e a longo prazo, comparando com uma cesariana de rotina, são semelhantes no que diz respeito à taxa de infeção, hemorragia e complicação da ferida cirúrgica4,5.

A morbilidade neonatal a longo prazo está relacionada com a natureza e extensão das lesões, assim como com os efeitos compressivos a nível da traqueia4,5. A maioria das mortes precoces após o procedimento EXIT, em que a permeabilidade das vias aéreas é conseguida, são a hipoplasia pulmonar ou conse- quências inerentes à prematuridade4.

O atraso do desenvolvimento, habitualmente associado à existência de uma massa cervical, pode ser justificado pela hipóxia que pode acompanhar os métodos tradicionais do parto. A incidência de um atraso grave do desenvolvimento parece muito inferior após o procedimento EXIT, mas é necessário um acompanhamento do desenvolvimento destas crianças4.


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