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EuPTCVHe0872-07542015000300006

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National varietyEu
Year2015
SourceScielo

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Vasculite de hipersensibilidade após terapêutica com metilfenidato: caso clínico

INTRODUÇÃO Vasculite de hipersensibilidade é um processo de inflamação vascular, mais frequentemente dos pequenos vasos cutâneos, secundário a reação imunológica que conduz à formação de imunocomplexos. Os fármacos são o agente etiológico mais frequente.1 O metilfenidato, fármaco neuroestimulante, é frequentemente prescrito a crianças e adolescentes com perturbação de hiperatividade e défice de atenção (PHDA) Como um fármaco estrutural e funcionalmente semelhante às anfetaminas, está bem documentada a ocorrência de vasculopatia e enfartes cerebrais ou cardíacos secundários ao uso do metilfenidato.2-4 Também descrito, mas mais raramente, é a ocorrência de vasculopatia periférica.5,6

CASO CLÍNICO Adolescente de 15 anos, sexo feminino, com antecedentes pessoais de PHDA e perturbação de ansiedade, recorreu ao serviço de urgência por dor intensa na face externa do e terceiro, quarto e quinto dedos dos pés bilateralmente, com agravamento durante a marcha, com cerca de duas semanas de evolução. A adolescente iniciara tratamento com metilfenidato 40mg/dia (Ritalina LA®) e risperidona 0,5mg/dia dois meses antes. Ao exame objetivo apresentava hiperestesia acentuada à palpação da face externa de ambos os pés e dedos (terceiro ao quinto). Não apresentava lesões cutâneas, alterações da temperatura ou défices motores. Dada a exuberância das queixas sugestivas de dor neuropática (elevada intensidade, dor tipo picada, agravamento ao toque), efetuou investigação laboratorial e imagiológica, que não apresentou alterações. Para exclusão de doença inflamatória foi realizado hemograma, velocidade de sedimentação e proteína C reativa e, com o objetivo de ser avaliado o atingimento de órgão, realizou estudo da função renal e doseamento de enzimas hepáticas e CPK. O estudo imunológico constituído pelo doseamento de imunoglobulinas, fatores do complemento, ANA, ANCA, anti-DNAds e fator reumatoide também não apresentou alterações. Todo o estudo serológico e pesquisa de marcadores de infeção foi negativo (HSV, EBV, CMV, HBV, HCV, VIH, Toxoplasmose, Chlamydia pneumoniae, Mycoplasma pneumoniaee Borrelia burgdorferi). Com o objetivo de avaliar o atingimento do sistema nervoso central e periférico, foi realizada eletromiografia dos membros inferiores e ressonância magnética (RM) medular, também estas sem alterações.

Em regime hospitalar foi instituído tratamento com gabapentina e ibuprofeno e iniciou fisioterapia, com resolução gradual das queixas. Durante o período de internamento suspendeu o metilfenidato e a risperidona, que não foram reiniciados após a alta. Manteve tratamento fisiátrico e com gabapentina em ambulatório, que suspendeu cerca de dois meses após resolução total das queixas.

Sete meses após este episódio recorreu novamente ao serviço de urgência com a mesma sintomatologia associado agora a lesões purpúricas da extremidade de todos os dedos dos pés, bilateralmente (Figuras_1_e_2). A avaliação por Cardiologia (com realização de ecocardiograma), a RM crânio-encefálica e a capilaroscopia periungueal das mãos não revelaram alterações; o estudo histopatológico das lesões purpúricas demonstrou infiltrado inflamatório de predomínio linfocítico peri-vascular, peri-anexial e peri-neural, focos de hemorragia intersticial tanto na derme papilar como na derme reticular, pequenos trombos no interior de vasos capilares e aparente deposição de fibrina na respetiva parede, achados estes compatíveis com lesões de vasculite linfocítica. De realçar que a adolescente tinha reiniciado tratamento com risperidona cerca de três meses antes e metilfenidato poucos dias antes do reinício da sintomatologia.

Durante o internamento e após suspensão da medicação habitual evoluiu de forma favorável com resolução gradual e completa das queixas.

if !vml]> Após avaliação em Consulta de Reumatologia Pediátrica foi reintroduzida a terapêutica com metilfenidato. Duas semanas após a adolescente apresentou recorrência de dor e lesões purpúricas a nível dos dedos dos pés, bilateralmente (Figuras_3_e_4). Estas queixas, que resolveram após suspensão da terapêutica, permitiram a confirmação do diagnóstico de vasculite de hipersensibilidade associado ao metilfenidato.

if !vml]> if !vml]> DISCUSSÃO O metilfenidato é um fármaco neuroestimulante aprovado mais de 50 anos para o tratamento da PHDA e narcolepsia, possuindo assim um vasto registo de segurança e eficácia. O seu mecanismo de ação baseia-se no bloqueio dos transportadores de catecolaminas, conduzindo à inibição de recaptação de dopamina e noradrenalina primariamente a nível do córtex pré-frontal.7 Os efeitos secundários mais frequentemente associados ao uso deste fármaco são alterações do padrão do sono, anorexia, cefaleias, dor abdominal e tonturas, sintomatologia esta rapida- mente reversível com a suspensão do tratamento.8 Efeitos laterais mais raros mas também potencialmente mais graves são taquicardia, hipertensão arterial, cãibras musculares, priapismo, vasculite cerebral e enfarte isquémico cerebral ou do miocárdio.2-4Também descritos foram os episódios de vasculopatia periférica, nomeadamente livedo reticular, fenómeno de Raynaud e cianose acral.5,9 Goldman W., et al.demonstraram em estudo caso-controlo a associação significativa entre a utilização, presente ou pregressa, de estimulantes do sistema nervoso central e o fenómeno de Raynaud.6 As vasculites compreendem um conjunto heterogéneo de doenças inflamatórias que têm em comum a inflamação e necrose de vasos sanguíneos. Os fatores etiológicos que conduzem à lesão endotelial variam e incluem infeções, reações a drogas, mecanismos auto-imunes, doença neoplásica. Contudo, em cerca de metade dos doentes com lesões de vasculite não é identificado agente etiológico ou doença associada.1 As vasculites de hipersensibilidade referem-se a vasculites dos pequenos vasos, mais frequentemente da pele. Representam uma resposta imune a agentes que reagem como haptenos, resultando na formação e deposição de imunocomplexos. Os fármacos são a mais frequente causa identificável de vasculite de hipersensibilidade e entre eles os mais comumente implicados são as sulfonamidas, penicilina, alopurinol, tiazidas, hidantoína e o ácido acetilsalicílico.1 Além dos fármacos existem outros agentes causais possíveis como alimentos, aditivos alimentares ou agentes infeciosos. A identificação e remoção do agente etiológico é a base do tratamento, podendo este ser coadjuvado com anti-inflamatórios não-esteróides, anti-histamínicos, dapsona ou colchicina quando clinicamente indicado.10 O tratamento imunossupressor com glucocorticóides ou agentes citotóxicos deve ser limitado a casos graves ou progressivos.

No caso reportado os achados clínicos e histopatológicos típicos associados à estreita relação temporal entre a instituição do tratamento com metilfenidato e o início dos sintomas, tal como à resolução clínica após a suspensão do fármaco, permitiram estabelecer de forma segura o diagnóstico de vasculite de hipersensibilidade a fármaco.

Não realizado mas com potencial interesse no sentido da confirmação diagnóstica é o estudo por imunofluorescência. Tal permitiria objetivar um mecanismo de lesão endotelial por deposição de imunocomplexos em oposição a um mecanismo mediado por células.

Os autores concluem que deve ser sempre realizada uma cuidada revisão da medicação habitual e pregressa dos doentes com sinais de vasculite periférica.

A identificação de um fármaco como possível agente causal desta sintomatologia poderá evitar a realização de exames de diagnóstico ou tratamentos desnecessários.


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