Anafilaxia e alergia alimentar: O resultado de uma intervenção na comunidade
INTRODUÇÃO
A alergia alimentar é uma realidade crescente em Pediatria.1,2Estima-se que
cerca de dois por cento da população geral e seis a oito por cento da população
em idade pediátrica tem antecedentes de alergia alimentar, sendo a sua
prevalência maior nos primeiros anos de vida.1-4No entanto, pensa-se que a
prevalência esteja subestimada, uma vez que esta reação nem sempre é
diagnosticada e/ou reportada pelos profissionais de saúde.5,6
A alergia alimentar ocorre devido a uma reação imunológica após contacto
(ingestão, cutâneo, inalação) com um alimento/ aditivo alimentar que contenha o
alergénio.2 Esta reação imunológica pode ser classificada em IgE mediada
(sintomas ocorrem minutos a duas horas após o contacto com o alergénio) e não
IgE mediada.2,4,7Clinicamente pode manifestar-se de diversas formas e graus de
gravidade, sendo os sistemas orgânicos mais frequentemente envolvidos o
mucocutâneo (urticária, angioede ma, prurido, eritema), respiratório
(esternutos, rinorreia, tosse, dispneia, pieira, dor torácica),
gastrointestinal (náuseas, vómitos, diarreia, dor abdominal) e cardiovascular
(tonturas, hipotensão, síncope).1,2,4,5
A anafilaxia representa a forma mais grave de alergia ali mentar.1Clinicamente
a anafilaxia pode manifestar-se de for mas diversas, sendo que o seu
diagnóstico nem sempre é fácil e evidente.8Para o diagnóstico de anafilaxia é
necessário que haja envolvimento de pelo menos dois sistemas orgânicos (Tabela
1).1,5,6,9Na maioria das vezes (80-90%) caracteriza-se por sintomas
mucocutâneos, associados a um ou mais sintomas de outros sistemas
(respiratório, gastrointestinal, cardiovascular).5,6,9-,11O diagnóstico tardio
associa-se a uma maior taxa de mortalidade.8,10A melhor forma de prevenção da
anafilaxia é a evicção do alergénio, no entanto, tal nem sempre é possível,
acontecendo reações acidentais. Deste modo, sempre que ocorre um contacto com o
alergénio é fundamental reconhecer os sintomas iniciais da reação alérgica e
atuar de imediato. A adrenalina intramuscular constitui o fármaco de primeira
linha para os casos de anafilaxia.2,5,8,9,11,12Uma vez que a anafilaxia é uma
patologia potencialmente fatal se não for reconhecida e ra pidamente tratada,
torna-se fundamental o ensino dos doentes e das pessoas que contactam com
estes, de modo a aprende rem a reconhecer precocemente os sinais/sintomas da
anafila xia e a usar corretamente a caneta de adrenalina.13
A partir do projeto denominado Programa de formação e prevenção da anafilaxia
alimentar nas escolas, que é um pro jeto inter-hospitalar que envolve alguns
hospitais nacionais e que tem o apoio da Sociedade Portuguesa de Alergologia
Pediátrica (SPAP), realizamos formações nas escolas e infantários. É finalidade
do programa formar os funcionários, que contactam com crianças com risco de
anafilaxia, quanto a procedimentos corretos e intervenção precoce. O objectivo
do estudo foi ava liar os resultados da implementação desta acção de formação
no desenvolvimento da capacidade dos funcionários relativa ao reconhecimento
desta situação clinica e actuação adequada.
MATERIAL E MÉTODOS
Estudo populacional, observacional e transversal que decorreu entre Dezembro de
2013 e Março de 2014.
Na Consulta de Pediatria Doenças Alérgicas do Centro Hospitalar do Alto Ave '
Unidade de Guimarães, foram selecionadas todas as crianças (total de 6
crianças) com antecedentes de anafilaxia por alergia alimentar (ovo, proteínas
do leite de vaca, Kiwi, amendoim). A visita aos infantários/escolas destas
crianças foi realizada após consentimento parental e após os estabele cimentos
de ensino disponibilizarem os funcionários (professores, auxiliares,
cozinheiros e outros funcionários escolares que contactam com as crianças) para
se proceder à formação. Foi realizada uma sessão teórico-prática sobre
conceitos básicos de alergia alimentar e anafilaxia. Antes e após a sessão foi
entregue um questionário de avaliação de conhecimentos. Este questio nário não
está validado mas foi aprovado para ser usado nes te projeto pela SPAP. Para
avaliação da pontuação global dos conhecimentos cada resposta correta foi
cotada com um ponto, sendo que a pontuação máxima era de oito pontos. Sempre
que as respostas dadas eram incompreensíveis, foram excluídas da base de dados.
A população do estudo corresponde a todos os funcionários que aceitaram receber
formação e ser submetidos a avaliação dos conhecimentos pré-concebidos e
adquiridos após a formação. Foram excluídos do estudo os funcionários que não
demonstraram interesse em receber formação.
As variáveis quantitativas recolhidas neste estudo foram submetidas a uma
análise descritiva, através do cálculo de mé dias e desvio-padrão.
Relativamente às variáveis qualitativas foram analisadas através do cálculo de
frequências.
Para o estudo comparativo dos resultados globais antes e após a sessão teórico-
prática recorreu-se ao teste t-student. O tratamento estatístico foi efetuado
com recurso a softwareestatístico (SPSS Statistics versão 20), sendo que um
valor de pigual ou inferior a 0.05 foi considerado estatisticamente
significativo.
RESULTADOS
No total dos seis infantários e escolas visitadas receberam formação sobre
alergia alimentar e anafilaxia 77 funcionários, dos quais 51 preencheram um
questionário de avaliação de conhecimento antes e imediatamente após a sessão
teórico-prática exposta.
O questionário entregue era constituído por dez questões, das quais oito eram
de avaliação de conhecimento (questões 1,2,3,4,5,6,8,9) e duas (questões 7 e
10) eram de opinião pessoal acerca da qualidade e pertinência da sessão
apresentada (Figura_1).
No gráfico_1 encontra-se discriminada a taxa de respostas certas e erradas,
para cada uma das questões, antes de apresentada a sessão teórica. Pela análise
do gráfico_1 verifica-se que 98% dos inquiridos acertaram nas questões 1 e 6,
reconhecendo a anafilaxia como uma emergência médica poten cialmente fatal
(questão 1) e que mesmo quantidades mínimas do alergénio podem despoletar uma
reação anafilática (questão 6). Constatou-se também que 92% dos formandos
sabiam que após uma reação anafilática era imprescindível contactar o 112
(questão 3) e reconheciam que a adrenalina era o tratamento de eleição (questão
8). Setenta e um por cento sabiam que a reação anafilática pode ocorrer após
qualquer tipo de contacto com o alergénio (questão 5) e 65% sabiam identificar
possíveis acontecimentos desencadeantes de anafilaxia (questão 4). A
identificação dos sintomas inerentes a uma reação anafilática foi conseguida
por 56% dos formandos (questão 2) e 55% reconheciam o modo correto de
administração da adrenalina (questão 9).
Relativamente às respostas dadas após a sessão teórica (gráfico_2), verificou-
se uma melhoria global dos resultados, sendo que a taxa de respostas certas
variaram entre 75% (questão 9) e 100% (questões 1 e 3).
Quando comparadas a taxa de respostas certas antes e depois da formação teórica
(gráfico_3), verificou-se que a maior taxa de aprendizagem diz respeito às
questões que abordavam os sintomas (questão 2) e causas possíveis da anafilaxia
(questões 4 e 5) e o uso adequado da caneta de adrenalina (questão 9).
Vinte e cinco por cento das pessoas presentes na formação nunca tinham ouvido
falar no auto-injetor de adrenalina (questão7).
No que diz respeito à pontuação global (0-8 pontos) antes da sessão obteve-se
uma pontuação média de 6,3±1,3 pontos (mínimo 2 e máximo 8). Após a sessão
teórica a pontuação média subiu para 7,5±0.8 pontos (mínimo 5 e máximo 8). Esta
diferença foi estatisticamente significativa (p<0.001).
Todos os participantes consideraram que a sessão foi útil e mostraram
disponibilidade para receber mais formações sobre este e outros temas
relacionados (questão 10).
DISCUSSÃO
Em Pediatria, a alergia alimentar constitui a principal causa de anafilaxia no
ambulatório.5,10,11Dentro dos vários alergénios alimentares, alguns tendem a
desenvolver tolerância na primeira década de vida (alergia ao leite, ovo, soja,
trigo) enquanto outros alergénios tendem a perdurar toda a vida (amendoim, noz,
ma risco, peixe).2,14,15Nos casos em que a alergia persiste, é fundamental a
evicção do alergénio de modo a prevenir reações sistémicas potencialmente
fatais.13Uma vez que a anafilaxia é uma emergência médica potencialmente fatal
se não reconhecida e não tratada adequadamente, é fundamental o ensino regular
dos doentes, dos seus familiares e contactos mais próximos para que se tornem
capazes de reconhecer os sintomas da anafilaxia e saibam utilizar corretamente
o auto-injetor de adrenalina.13
Com este trabalho verificou-se que a grande maioria dos funcionários das
escolas/infantários sabiam que a anafilaxia era uma emergência médica, que
podia ser despoletada mesmo com pequenas quantidades de alergénio, reconheciam
a necessidade de contactar o 112 após a anafilaxia e sabiam que o fármaco de
eleição é a adrenalina. No entanto, apenas metade das pessoas sabiam reconhecer
os sintomas inerentes a uma rea ção anafilática apesar de contactarem
diariamente com crianças e/ou adolescentes com antecedentes de anafilaxia e
somente 25% tinham ouvido falar do auto-injetor de adrenalina apesar desta ser
transportada diariamente pelas mesmas. Através da comparação das pontuações
totais antes e depois da sessão teórica, verificou-se que a formação teve um
impacto positivo no conhecimento geral sobre a alergia alimentar e abordagem de
uma reação anafilática. Todos os participantes do estudo reconheceram a
importância deste tipo de formação e demonstraram vontade em receber formações
periódicas.
O presente estudo apresenta algumas limitações que importa realçar. Trata-se de
um estudo de pequenas dimensões o que limita o significado estatístico e a
extrapolação dos resultados para a população geral. Uma vez que a amostra
estudada era constituída por funcionários que lidavam diariamente com crianças
com antecedentes de anafilaxia por alergia alimentar, o seu conhecimento geral
acerca de alergia alimentar e anafilaxia provavelmente será superior ao da
população que não contacta com estas crianças. Por outro lado, o fato da
avaliação ter sido feita imediatamente após a exposição teórica pode estar
associado aos bons resultados da formação.
Não foram encontrados estudos semelhantes que permitissem comparar os
resultados obtidos na nossa amostra com outra população.
CONCLUSÃO
Com este trabalho demonstrou-se que metade das pessoas que contactam
diariamente com crianças com antecedentes de anafilaxia não sabe reconhecer nem
atuar perante esta. Sabendo que a anafilaxia pode ser fatal e que é
potencialmente reversível através do uso da adrenalina, torna-se fundamental o
ensino da comunidade para esta problemática.13Este tipo de formação na
comunidade é muito importante podendo ter um impacto benéfico na ajuda de
crianças com alergia alimentar. Apesar das limitações estatísticas desde
estudo, a formação dos funcionários parece ter tido um impacto positivo na
aquisição de noções básicas de alergia alimentar e anafilaxia, uma vez que se
verificou um aumento significativo no conhecimento deste tema.
Salienta-se a necessidade de continuar e propagar este tipo de ação
comunitária, pois só deste modo será possível reduzir a prevalência da
anafilaxia e diminuir a sua taxa de mortalidade. São necessários mais estudos e
de maiores dimensões que avaliem o conhecimento geral da comunidade acerca
desta temática e que averiguem a vantagens a longo prazo deste tipo de
intervenção comunitária.