Terapêutica de Manutenção da Remissão na Colite Ulcerosa Moderada a Grave
INTRODUÇÃO
A Colite Ulcerosa (CU) é uma doença inflamatória crónica, recidivante do cólon,
de causa desconhecida. Afecta primordialmente o recto, mas pode estender-se
proximalmente, afectando o cólon na sua totalidade1-2. O pico de incidência
ocorre entre os 15 e os 25 anos de idade, sendo a idade média de diagnóstico
nacional de 37,5 anos (DP 15,4 anos)3. A CU afecta grandemente a qualidade de
vida1-3. Na doença mais extensa, o risco de carcinoma colo-rectal e de
mortalidade aumenta1. A incidência da CU foi estimada em 10,4/100 000 na Europa
e em 8,8/100 000 nos EUA4-5. Em Portugal a prevalência da CU tem aumentado de
42 por 100 000 em 2003 para 71 por 100 000 em 20076. A terapêutica recomendada
para induzir e manter a remissão na CU ligeira ou moderada tem sido a
sulfassalazina e 5-ASA1. Na CU grave, os corticosteróides sistémicos têm sido o
fármaco de eleição1. Em situações de corticoresistência ou corticodependência,a
utilização de um fármaco imunossupressor como a azatioprina (AZA) ou 6-
mercaptopurina (6 - MP) é a opção recomendada3,7. A cirurgia é a solução na CU
grave, refractária à terapêutica médica e nas formas de CU grave com hemorragia
maciça, no megacolon tóxico, em situações de perfuração, displasia grave ou
neoplasia3. Embora a colectomia seja curativa, não é isenta de morbilidade e
complicações1-3,8.
Vários estudos apontam o benefício da terapêutica com infliximab (IFX) na CU
grave ou refractária à terapêutica convencional3,9,10. O IFX demonstrou boa
tolerância e eficácia, proporcionando uma melhoria da sintomatologia e da
qualidade de vida dos doentes2,9,11. As recomendações internacionais recomendam
a terapêutica com IFX nas agudizações moderadas a graves, refractárias aos
corticosteróides1,3.
Devido à crescente incidência da CU e ao impacto negativo na qualidade de vida,
é fundamental fazer-se uma reflexão baseada na evidência sobre uma estratégia
terapêutica assertiva nesta doença. O aparecimento de vários ensaios clínicos
com IFX na terapêutica da CU obrigou a uma actualização do conhecimento e
posicionamento terapêutico deste fármaco, bem como à definição de orientações
aplicáveis à prática clínica nacional, criando recomendações baseadas na
evidência.
MATERIAL E MÉTODOS
Foi desenvolvida uma reunião de consenso com o objectivo de delinear
orientações sobre a terapêutica de manutenção de remissão na CU moderada a
grave, utilizando-se os padrões da Conference on Guideline Standardization
(COGS) Checklist for Reporting Clinical Practice Guidelines12.
1. Determinação da necessidade de consenso
Embora existam recomendações para o tratamento da CU a nível Europeu
(recomendações de 2009 da ECCO), foi necessário adaptar estas recomendações à
realidade clínica nacional13. A terapêutica de indução, bem como a terapêutica
de manutenção de remissão, estão bem determinadas e são consensualmente
aceites. O aparecimento de novos fármacos, como o IFX, tornou pertinente fazer
uma revisão da literatura e estruturar recomendações quanto à sua utilização na
terapêutica de indução bem como de manutenção da remissão em doentes com CU
moderada a grave, seguidos nas unidades de referência de tratamento de doenças
inflamatórias do intestino (DII) em Portugal.
2. Selecção do grupo de consenso
A nomeação dos médicos a integrar o consenso foi efectuada por identificação de
pelo menos dois dos seguintes critérios: 1) médicos com consulta especializada
em doença inflamatória intestinal, 2) actividade científica desenvolvida e
publicada em DII, 3) participação activa no GEDII, 4) membros efectivos da
European Crohn and Colitis Organization (ECCO). Os especialistas identificados
que não participaram tinham actividades concorrentes previamente agendadas.
3. Determinação dos assuntos relevantes
Elaborou-se uma lista de tópicos considerados relevantes para discussão, dada a
sua importância clínica e possibilidade de serem esclarecidos através da
evidência científica publicada na literatura. A partir desses tópicos foram
produzidas as questões a serem trabalhadas pelos grupos e debatidas na reunião
de consenso.
4. Pesquisa bibliográfica sobre os tópicos a ser discutidos
Foi feita pesquisa bibliográfica sobre populações de doentes com CU moderada a
grave, hospitalizados ou não, adultos, com formas corticodependentes ou não e
corticoresistentes ou não. Os estudos foram identificados através de pesquisa
electrónica, analisando listas de referências e consultando peritos. Foram
usados vários motores de busca, MEDLINE, EMBASE, Cochrane Library, não tendo
sido impostos limites de datas de publicação. Os termos usados na pesquisa
foram: "Maintenance"[Title/Abstract] AND (("colitis,
ulcerative"[MeSH Terms] OR("colitis"[All Fields] AND
"ulcerative"[All Fields]) OR "ulcerative colitis"[All
Fields] OR ("ulcerative"[All Fields] AND "colitis"[All
Fields])) AND ("maintenance"[MeSH Terms] OR "maintenance"
[All Fields])) AND ("humans" [MeSH Terms] AND Randomized Controlled
Trial[ptyp]). Foram também pesquisadas revisões e meta-análises para
identificar estudos adicionais.
5. Elaboração de meta-análise e respectivo relatório
Após esta pesquisa, foi elaborada uma meta-análise para avaliar a eficácia das
principais terapêuticas, actualmente aceites como convencionais, com efeito
imunossupressor para o tratamento da CU. Esta meta-análise incluiu os
principais ensaios clínicos que avaliaram a eficácia dessas terapêuticas, na
manutenção da remissão em doentes com CU moderada a grave. Foram incluídos
estudos com qualidade da evidência I e alguns II, isto é, todos os ensaios
clínicos controlados e aleatorizados que compararam com placebo ou outros
agentes para a terapêutica de manutenção de remissão em doentes com CU moderada
a grave. Na sua maioria os estudos eram multicêntricos e realizados em dupla
ocultação. Pela escassez de publicações, foi necessário incluir também estudos
abertos. Da meta-análise foram excluídas publicações preexistentes sobre
recomendações, artigos de revisão, outras revisões sistematizadas, meta-
análises, estudos observacionais, ensaios não aleatorizados, ensaios com
doentes com CU ligeira a moderada, e ensaios cujo objectivo primário não era a
manutenção da remissão, nomeadamente indução da remissão ou terapêutica de
resgate. Para avaliar a eficácia da terapêutica de manutenção, focalizou-se a
análise no seguinte resultado: manutenção da remissão clínica. Os resultados da
meta-análise serviram de base ao grupo nominal de peritos para a criação das
recomendações. Os onze estudos incluídos na metaanálise tinham de preencher os
critérios definidos e ter como população doentes com CU moderada a grave. A
qualidade da evidência e a força da recomendação foram classificados de acordo
com a classificação do Oxford Centre for Evidence-based Medicine Levels of
Evidence14 (Quadro 1).
Quadro 1.
Classificação do Oxford Centre for Evidence-based Medicine Levels of Evidence.
6. Distribuição da documentação referida no ponto anterior aos elementos do
grupo
Tanto a meta-análise como a respectiva literatura foram fornecidas antes da
sessão aos participantes, de modo a permitir uma leitura e análise dos
resultados da meta-análise e dos artigos.
7. Distribuição dos tópicos pelos elementos do grupo para análise detalhada
Os grupos de trabalho foram previamente divididos de forma aleatória. Cada
questão foi entregue a um grupo de trabalho.
8. Reunião de Consenso
A reunião de consenso decorreu na Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP), em
Lisboa, na manhã do dia 24 de Abril de 2010. Foram colocadas as seguintes
quatro questões previamente consensualizadas:
1) Existem subgrupos de doentes com CU com maior propensão para atitudes
imunomoduladoras?
2) Quando iniciar a imunossupressão na CU moderada a grave?
3) Que classe terapêutica deverá constituir a primeira primeira linha para a
imunomodulação (AZA / IFX) na CU moderada? E na CU grave?
4) Baseada na evidência, o IFX poderá ser considerado o fármaco de primeira
linha em doentes refractários a AZA na CU com actividade moderada? Quanto tempo
esperar para considerar o doente não respondedor à AZA?
A reunião de consenso decorreu de acordo com as normas da Técnica de Grupo
Nominal (T.G.N.) ou método de Delbecq15. Esta técnica possibilita a obtenção de
consensos de um modo estruturado através da discussão de um problema
específico. Existe um moderador que tem o papel de mediar a discussão e fazer
cumprir as regras durante a sessão. Durante a reunião, as questões foram
introduzidas pelo responsável e desenvolvidas pelo seu respectivo grupo de
trabalho. As respostas que emergiram da discussão foram enumeradas e votadas
por todos os elementos do grupo de trabalho. Na discussão das várias questões
cada participante pode responder anonimamente. Da votação saíram as principais
conclusões da reunião de consenso.
9. Submissão do relatório final aos participantes
Após a elaboração do relatório final, este foi feito circular por todos os
participantes que puderam ajudar na melhoria e adição de informação relevante.
DEFINIÇÕES
Remissão: A definição de remissão depende das escalas/índice usados, mas deverá
ter em conta a frequência de dejecções, ausência de urgência e ausência de
sangue nas fezes. Para fins da meta-análise, usou-se a classificação de Mayo e
a remissão foi definida pela proporção de doentes que se mantiveram sem
recidiva. Assim, a remissão foi definida por um índice de actividade Mayo<= 2
com nenhuma subescala individual > 1 e sem reaparecimento de sintomatologia
clínica ou evidência endoscópica de actividade.
Imunossupressão: Modulação do sistema imunitário pela utilização de fármacos.
DISCUSSÃO
Na reunião foram colocadas as quatro questões acima descritas e foram
analisados os principais resultados obtidos na meta-análise sobre a eficácia
das principais terapêuticas actualmente convencionadas com efeito
imunossupressor na manutenção da remissão em doentes com CU moderada a grave.
Questão 1 ' Existem subgrupos de doentes com CU com maior propensão para
atitudes imunomoduladoras?
Para investigar a existência de subgrupos com maior propensão para atitudes
imunomoduladoras, definiram-se grupos de comparação: (1) AZA vs placebo; (2)
AZA + Olsalazina vs AZA; (3) IFX vs placebo; e (4) metotrexato vs placebo.
Focalizou-se a análise no resultado: manutenção da remissão clínica. Estudou-se
a heterogeneidade e o efeito de subgrupo para explorar o impacto de certas
características da população em estudo. O uso de imunossupressores aumentou
significativamente a taxa de doentes que permaneceram em remissão (RR = 1,58;
IC 95% 1,40 - 1,78) (Fig. 1). No entanto, verificou-se uma marcada
heterogeneidade entre os onze estudos, sendo que 86,7% da variação reflectida
no risco relativo era devido a esse factor. Nos ensaios analisados visualizou-
se associação positiva entre a idade precoce de diagnóstico e a propensão para
atitudes imunomoduladoras (RR = 1,09; IC 95% 1,00 - 1,18); Quadro 2.
Relativamente à associação de atitudes imunomoduladoras com o factor extensão
da colite, observou-se que para os casos de pancolite e de colite esquerda não
há associação (RR = 0,99; IC 95% 0,97 - 1,00; RR = 1,02; IC 95% 0,97 - 1,08,
respectivamente; Quadro 2), mas existe uma tendência decrescente à medida que a
proporção de doentes com proctite aumenta (RR = 1,39 IC 95,%1,10 - 1,74) (Fig.
2). Não se verificou a existência de associações com os factores idade, sexo e
duração da doença (Quadro 2). No que diz respeito ao consumo de tabaco, a
omissão deste dado importante em vários ensaios e a existência de um pequeno
número de fumadores nas populações dos ensaios, não permitiu determinar a
associação entre este factor e a propensão para atitudes imunomoduladoras.
Fig. 1. Efeito dos medicamentos com efeito imunossupressor na manutenção da
remissão em doentes com colite ulcerosa moderada a grave quando comparado com
placebo ou outros comparadores, utilizando o modelo de efeitos fixos.
Quadro 2. Meta regressão que analisa por subgrupos as potenciais fontes de
heterogeneidade (idade, sexo duração, extensão da CU, gravidade da CU, tempo de
follow-up, Intention-to-treat, tipo de estudo, corticoresistente e
corticodependente).
Fig. 2. Efeito dos medicamentos com efeito imunossupressor na manutenção da
remissão em doentes com (proctpct = 0) ou sem proctite (proctpct > 0)
utilizando o modelo de efeitos aleatórios em formato exponencial.
Na prática clínica, o painel de peritos considerou que existem três factores
preditivos da necessidade de imunomodulação: a idade à data do diagnóstico, a
ausência de consumo de tabaco e a extensão da doença (pancolite). Na meta-
análise, foi possível identificar dois desses factores: a idade precoce de
diagnóstico e a extensão da doença. O painel de peritos identificou
divergências entre a prática clínica e a meta-análise, que podem dever-se às
diferenças existentes entre as populações de doentes destas duas realidades, as
populações superseleccionadas (por critérios de inclusão e exclusão) dos
ensaios clínicos aleatorizados e controlados versus as populações mais
heterogéneas da prática clínica.
Os peritos presentes na reunião de consenso consideraram discutível a tendência
observada entre atitudes imunomoduladoras e a proctite. Assim, não foi possível
obter uma resposta completa para a questão da existência, ou não, de subgrupos
com maior propensão para imunomodulação. Para isso será necessário proceder a
uma recolha de informação em estudos observacionais e em coortes mais
representativos da população em geral.
Questão 2 ' Quando iniciar a imunossupressão na CU moderada a grave?
Para responder a esta questão teve-se em conta os vários significados que o
quando poderia adquirir: a idade, a duração da doença/tempo, a gravidade da
doença, o tipo de resposta aos corticosteróides, a existência de factores de
risco. A informação existente nos ensaios clínicos incluídos na meta-análise
não permitiu responder à questão por heterogeneidade significativa das formas
moderadas a graves, uma vez que os estudos juntam estes dois extractos de
doença. Supõe-se que haja informação relevante em estudos observacionais e em
estudos retrospectivos não contemplados. No entanto, é provável que seja
difícil fazer uma avaliação epidemiológica adequada destes dados clínicos e
analíticos, pela sua escassez e pela forma como os mesmos se apresentam. Dos
ensaios disponíveis em doentes com CU grave verificou-se uma falta de eficácia
na manutenção da remissão (RR = 1,20 IC 95%; 0,81 - 1,78) (Fig. 3).
Fig. 3.Efeito dos medicamentos com efeito imunossupressor na manutenção da
remissão em doentes com colite ulcerosa moderada a grave vs grave utilizando o
modelo de efeitos aleatórios em formato exponencial.
A existência de alguma heterogeneidade na prática clínica, resultante da
ausência de estudos clínicos que explorem esta questão, também dificulta a sua
valorização como evidência científica. Apesar destas limitações, o grupo de
peritos, baseado na sua experiência clínica, identificou três factores
importantes para a introdução de terapêutica imunossupressora com o objectivo
de manter os doentes com CU moderada a grave em remissão: falência à
corticoterapia (corticodependência ou corticoresistência), ausência de resposta
a salicilatos, forma de apresentação grave. O grupo de peritos sugeriu o
seguimento das recomendações da ECCO para a introdução de imunossupressão
(6F)13. Esta recomendação da ECCO aconselha imunossupressão em doentes que
tiveram recidiva precoce e frequente com 5 - ASA, em doentes
corticodependentes, em doentes alérgicos ao 5 - ASA e nos que responderam à
indução da remissão com ciclosporina.
Questão 3 ' Que classe terapêutica deverá constituir a 1ª linha para a
imunomodulação (AZA / IFX) na CU moderada? E na CU grave?
Uma vez que os estudos referentes a AZA e IFX têm populações diferentes e não
existem estudos comparativos directos, tornouse impossível escolher entre os
dois fármacos qual deveria ser de primeira linha na CU moderada. Na tentativa
de obter uma melhor abordagem do problema, o grupo nominal fez uma
reestruturação das questões, resultando três perguntas chave:
Existe evidência que a AZA é um fármaco de manutenção na CU moderada a grave?
Existe evidência que o IFX é um fármaco de manutenção na CU moderada a grave?
Qual é, na prática clínica, o fármaco de primeira linha na terapêutica da CU
moderada a grave?
Após essa reestruturação, isolando a AZA e o IFX, a meta análise já possui
informação susceptível de responder às novas questões. Foi reconhecido pelo
grupo de peritos existir evidência quanto ao IFX ser um fármaco de manutenção
na CU moderada a grave. O grupo considerou o mesmo relativamente à AZA (75%).
Aproximadamente 80% dos peritos escolheriam a AZA como fármaco de primeira
linha para a terapêutica de manutenção na CU moderada a grave. Apesar desta
escolha, salientaram-se as limitações/desvantagens da AZA: perda de resposta ao
longo do tempo para um valor inferior a 40% e inexistência de evidência de
cicatrização da mucosa. Não foram explorados alguns factores que poderiam ter
ajudado na escolha entre terapêuticas, como a separação das populações de
acordo com a gravidade da doença (moderada e grave), o tipo de falência a
corticosteróides (corticodependência e corticoresistência) e a experiência
prévia relativamente a imunossupressores (doentes sob imunossupressão e doentes
naives). Outra limitação teria sido o momento de avaliação do efeito dos
fármacos sobre a manutenção da remissão, ou seja, não ter sido feita uma
avaliação da introdução do fármaco sem ser no contexto de episódio de
agudização da doença. Finalmente, o grupo achou que estudos de comparação
directa entre fármacos AZA e IFX, bem como estudos de associação de medicação,
poderiam enriquecer esta avaliação.
Questão 4 ' Baseado na evidência, o IFX poderá ser considerado o fármaco de
primeira linha em doentes refractários a AZA na CU com actividade moderada?
Quanto tempo esperar para considerar o doente não respondedor à AZA?
O IFX foi considerado, por unanimidade, o fármaco de primeira linha em doentes
com CU moderada refractários à AZA. Embora existam apenas 2 ensaios clínicos,
os ACT 1 e ACT 2, a evidência científica foi considerada forte pelo facto de se
tratar de ensaios aleatorizados e controlados. Nestes ensaios clínicos, 46% dos
doentes incluídos eram refractários à terapêutica imunomoduladora em curso.
Relativamente ao intervalo de tempo para definir falência à AZA, a maioria dos
participantes considerou que se deveria esperar 3 a 6 meses (75%). Os restantes
consideraram que se deveria esperar um intervalo de tempo superior a 6 meses
(17%) e outros que deveria ser inferior a 3 meses (8%).
RECOMENDAÇÕES
Existem subgrupos de doentes com CU com maior propensão para atitudes
imunomoduladoras?
Recomenda-se a necessidade de imunomodulação, considerando factores como a
extensão da doença, a idade do diagnóstico e o consumo de tabaco. (Qualidade da
Evidência e Força da Recomendação: 5D).
Quando iniciar a imunossupressão na CU moderada a grave?
Recomenda-se iniciar imunossupressão na falência à corticoterapia, na ausência
de resposta aos salicilatos, e/ou na existência de uma forma de apresentação
grave. O clínico deve ter sempre em conta a recomendação internacional da ECCO
6F13. (Qualidade da Evidência e Força da Recomendação: 5D)
Existe evidência de que a AZA e o IFX são fármacos de manutenção na CU moderada
a grave?
Sim, existe evidência de que a AZA e o IFX são tratamentos adequados à
manutenção da remissão na CU moderada a grave. (Qualidade da Evidência e Força
da Recomendação: 1A)
Baseado na evidência, o IFX poderá ser considerado o fármaco de primeira linha
em doentes refractários à AZA na CU com actividade moderada?
Sim, pode considerar-se o IFX como o fármaco de 1ª linha em doentes
refractários à AZA. (Qualidade da Evidência e Força da Recomendação: 1A)
O Quadro 3 apresenta a Qualidade de Evidência e a Força da Recomendação
utilizada neste consenso.
Quadro 3. Qualidade da evidência e força das recomendações deste consenso.
CONCLUSÕES
Atendendo que a CU tem elevado impacto na qualidade de vida do doente, a
terapêutica de manutenção da remissão torna-se cada vez mais relevante. O nosso
objectivo consistiu na actualização do conhecimento quanto a novas terapêuticas
de manutenção da remissão em doentes com CU moderada a grave e na sua adaptação
à prática clínica nacional, através de recomendações baseadas na evidência.
Na reunião de consenso, o grupo nominal concluiu ser importante iniciar
terapêutica imunossupressora na falência à corticoterapia (corticodependência
ou corticoresistência), existindo evidência de que tanto o IFX como a AZA, são
fármacos capazes de manter a remissão na CU moderada a grave. Na prática
clínica nacional, a AZA é o fármaco mais usado como primeira linha na
terapêutica de manutenção da remissão da CU moderada a grave. O IFX foi
considerado o fármaco de primeira linha em doentes com CU moderada refractários
à AZA, sendo esta afirmação suportada pela maior evidência científica. Na sua
prática clínica, o médico deve sempre ter em conta as recomendações desta
reunião e as recomendações internacionais actuais (ECCO)13.
O grupo nominal constatou que a literatura sobre terapêutica de manutenção é
escassa e muito heterogénea. Houve concordância quanto à necessidade de estudos
adicionais sobre este problema em que se ultrapassem as limitações encontradas
e sejam abordadas as questões pendentes, nomeadamente a escolha de grupos
populacionais sobreponíveis, a comparação directa entre diferentes opções de
terapêutica de manutenção e o controle dos factores capazes de influenciar a
resposta à terapêutica, que permitam que se tomem decisões com maior evidência.