Enteroscopia por vídeo-cápsula na prática clínica: Experiência dos primeiros 5
anos e 528 exames de um Centro Hospitalar e revisão da literatura
INTRODUÇÃO
A enteroscopia por vídeo-cápsula (EVC) revolucionou o diagnóstico da patologia
do intestino delgado nos últimos 10 anos. O desenvolvimento recente de formas
de enteroscopia (mais) profunda, como a enteroscopia com duplo-balão (EDB),
trouxe a capacidade de intervenção que faltava à EVC, sem os riscos da
enteroscopia intra-operatória.
Em todo o mundo, já se fizeram mais de um milhão de EVC. Assim, muitos estudos
têm sido apresentados, frequentemente analisando aspectos específicos da
técnica e em centros de referência. Com igual relevância clínica surgem as
séries que relatam a experiência com a técnica na prática clínica diária1.
No nosso Centro Hospitalar, a EVC foi introduzida no início de 2006. Desde
então, e até final de 2010, realizaram-se 528 exames em doentes provenientes
dos 3 hospitais que compõem o Centro Hospitalar e de outros centros
referenciadores. Procurámos rever a nossa experiência com a EVC nestes 5 anos,
privilegiando os aspectos técnicos, indicações, diagnósticos e complicações do
exame, numa amostra com critérios de selecção pouco restritivos, atendendo à
proveniência diversa dos doentes e ao período de infância da técnica.
MATERIAL E MÉTODOS
Entre Janeiro de 2006 e Dezembro de 2010, realizaram-se 528 EVC usando o
sistema PillCam SB®, da Given Imaging (Yoqneam, Israel), no nosso Centro
Hospitalar. Revimos todas as requisições dos exames, em geral na forma de um
protocolo prévio aprovado no Centro Hospitalar, os seus relatórios e
complicações. Quando necessário, complementou-se esta informação com a consulta
do processo clínico do doente.
Reviram-se retrospectivamente o sexo e a idade dos doentes, o motivo do exame,
a investigação realizada antes da EVC, as doenças e medicação concomitante. No
relatório do exame registaram-se o uso ou não de solução de preparação oral e
pré-medicação, os tempos de trânsito gástrico e do intestino delgado, os
principais diagnósticos e sua relevância, número e localização das lesões, as
limitações e complicações do exame.
Fez-se uma análise estatística descritiva dos dados obtidos.
RESULTADOS
Neste período realizaram-se 528 EVC no nosso Centro Hospitalar, relativas a 488
doentes. O número de exames cresceu ao longo dos 5 anos e, em especial,
indicações como a anemia ferropénica e, embora mais timidamente, a doença de
Crohn (DC)
Os doentes eram maioritariamente mulheres (56,1%) e a média de idades 59,9 ±
18,9 [14-95] anos. Os exames foram realizados, em mais de 90% dos casos, em
doentes em ambulatório, submetidos a dieta líquida na véspera e jejum de 9-12
horas antes do exame. Em alguns casos, não quantificados, os doentes fizeram
simeticone na manhã do exame. Mais recentemente, generalizou-se o recurso a
solução de preparação oral (2 litros de polietilenoglicol, PEG, na noite da
véspera do exame) e simeticone. Em 2010, 55% dos doentes (n=78) foram
submetidos a este regime, quando, em 2008, nenhum dos doentes o fazia.
A percentagem de exames completos, ou em que o cego, foi alcançado, foi de
89,6% (n=53 em 511 exames registados). Foram excluídos desta contagem os casos
em que a cápsula permaneceu no esófago (n=1) e estômago (n=6) durante todo o
tempo de gravação, os casos de retenção por estenose do intestino delgado (n=2)
e os casos de erro ou problema técnico (n=4), por se considerar que não
dependeram do limite da duração da bateria. Se considerados, a percentagem de
exames completos seria de 87,1%. A percentagem de exames incompletos ao longo
destes 5 anos diminuiu com o aumento da duração das gravações dos novos
protótipos da cápsula, de 8 para 9 horas: de 13,3% em 2006 passou para 6,8% em
2010.
Os tempos de trânsito gástrico e piloro-cecal da cápsula foram 34,6 ± 49,6
minutos [0-480, nos casos em que o piloro foi franqueado] e 252,3 ± 87,7
minutos [15-530, considerando os casos em que a válvula íleo-cecal foi
franqueada no período de gravação].
A HDO (70,3%) e a DC (14,6%) foram as indicações principais na nossa amostra. O
Quadro 1 representa a lista das principais indicações da EVC na nossa amostra
e, como complemento, na Figura 1, podemos observar como a anemia ferropénica é
a indicação mais frequente e a que mais tem crescido ao longo dos últimos anos.
Quadro_1
Principais indicações da EVC
Figura 1Evolução do número de EVC realizadas no nosso Centro Hospitalar nos
últimos 5 anos e principais indicações. HDO-M: hemorragia digestiva obscura
manifesta; HDO-O: hemorragia digestiva obscura oculta (anemia ferropénica,
sobretudo); D: doença.
Sob a designação de HDO poderão estar erradamente alguns casos de apresentação
inicial de hemorragia digestiva média (visível ou anemia).
Não se verificaram diferenças importantes na percentagem de exames completos
segundo as indicações principais, mas na DC os doentes eram mais jovens que a
média (38±16 anos) e o trânsito intestinal mais rápido (237±88 minutos). Houve,
ainda, uma proporção superior à média, de mulheres, no grupo da anemia
ferropénica (61%).
A percentagem de achados positivos, potencialmente conclusivos, na HDO e na DC,
encontra-se listada no Quadro 2. A relevância das lesões foi apenas
subjectivamente considerada, com alguns dos critérios usados referidos no
quadro. Considerando as lesões potencialmente relevantes, independentemente de
justificarem ou não a hemorragia digestiva, verificou-se na HDO manifesta uma
taxa de detecção de lesões de 68,8%. Se excluirmos as 7 lesões polipoides
regulares, que podiam não explicar a hemorragia, e os 18 exames com achados ao
alcance da endoscopia convencional, o valor foi 48,8%. Na anemia ferropénica,
os valores foram, nos 2 cenários mencionados, 70,3% e 52,4%, respectivamente.
Na HDO em geral foram 69,8% e 51,2%.
Quadro 2Principais achados da EVC nas indicações mais importantes
As angiectasias explicaram 50% dos achados enquanto as erosões 32%. As lesões
endoscopicamente suspeitas de tumores com potencial sangrante (n=7)
corresponderam a 2,7% dos achados. Quando se somam as lesões mais relevantes
encontradas no intestino delgado, entre parêntesis no Quadro 2, verifica-se que
representam 42% do total de achados na HDO manifesta e 23% na anemia
ferropénica.
Alguns achados ao alcance da endoscopia convencional, com EVC normal ou com
achados inespecíficos, poderiam explicar a HDO. Na nossa série estes foram
observados em 13,7% dos casos de HDO. Do espectro de lesões perdidas ou
subestimadas ao alcance do endoscópio, diagnosticadas pela EVC, encontrámos
neoplasia do cego (n=1), ectasias vasculares do antro gástrico (n=3), gastro-
duodenites erosivas (n=29), angiectasias do estômago e do duodeno e do cego
(n=22), algumas sangrantes. Não se avaliou sistematicamente a natureza da
gastrite e estado da infecção pelo Helicobacter pylori(Hp), nem a presença de
hérnia do hiato e diverticulose cólica, frequentemente consideradas pouco
relevantes na referenciação do doente.
Na suspeita de DC encontraram-se lesões sugestivas, ou com interesse
diagnóstico, em 31,8% dos casos. O objectivo principal da EVC na DC conhecida
foi, essencialmente, avaliar a actividade da doença antecipando uma eventual
mudança na atitude terapêutica. Em 42% dos casos, o resultado da EVC impôs uma
mudança terapêutica, em geral o início de azatioprina e/ou terapêutica
biológica. Em muitos destes doentes (n=30, 88%), mas infrequentemente naqueles
com suspeita de DC (n=11, 25%), tentou-se excluir a presença de estenose(s) com
recurso a exame radiológico do intestino delgado (trânsito intestinal,
enterografia por tomografia axial computorizada (TAC) ou ressonância magnética
nuclear (RMN)) ou estudo de patência (realizado noutro centro).
Relativamente às outras indicações referidas no Quadro_1, a suspeita de pólipo
ou tumor representou o maior grupo de doentes. Trata-se de um grupo heterogéneo
incluindo sub-oclusões de causa não esclarecida, espessamentos intestinais
localizados na TAC e detecção de lesões síncronas em casos de adenomas
duodenais, metástases gástricas de melanoma, linfoma de MALT duodenal, síndrome
de Peutz-Jeghers e neurofibromatose de von Recklinghausen, entre outros. Os
exames foram úteis ou diagnósticos em 10 casos (30,3%). Em alguns destes casos,
tal como nos achados suspeitos de tumor do intestino delgado em outras
indicações, não foi possível conhecer a sua evolução, sobretudo devido à
diversidade dos centros referenciadores.
Na diarreia crónica, houve quatro exames com achados relevantes (28,6%): dois
diagnósticos de enteropatia do vírus da imunodeficiência humana (VIH), um de
doença celíaca e outro de ileíte distal (a esclarecer). Num dos exames
morfologicamente normais, mas com trânsito oro-anal de 3 horas, o doente voltou
a engolir a cápsula, completando assim, no mesmo exame, duas enteroscopias
totais. Novos exames microbiológicos das fezes revelaram tratar-se de uma
giardíase intestinal. Num caso de anemia ferropénica e diarreia recorrente,
fez-se o diagnóstico de doença de Whipple.
Na suspeita de doença celíaca complicada diagnosticaram-se um caso de hiper-
nodularidade ileal e outro de ileíte erosiva, ambos com biopsias não
conclusivas, mas sob vigilância. Nos outros casos, um foi considerado normal e
todos os restantes tinham alterações endoscópicas sugestivas de doença celíaca,
não complicada.
Por fim, em apenas um caso de dor abdominal se fez um diagnóstico, de provável
mucosite intestinal após quimioterapia de leucemia mielóide crónica. Os
restantes exames, nesta indicação, foram normais.
Quarenta EVC (7,6%) foram referentes a doentes já submetidos a este exame
previamente na nossa instituição. Os principais motivos para a sua repetição
foram a má preparação do exame precedente com avaliação endoscópica
inconclusiva, reavaliação da actividade e extensão da DC e, menos
frequentemente, casos de hemorragia digestiva obscura (HDO) com EVC prévia
inconclusiva e reavaliação de lesões polipóides do intestino delgado.
As EVC que realizámos só tiveram como contra-indicações a sua utilização na
criança, na grávida e em doentes com estenoses do intestino delgado conhecidas.
De resto, mesmo em certos casos selecionados de oclusão intestinal (recorrente)
não esclarecida foram úteis. Mostraram-se ainda seguras em portadores de
dispositivos cardíacos. Nos casos de dificuldade na deglutição as cápsulas
foram colocadas com apoio endoscópico (n=6).
As principais limitações do exame, na nossa série, foi a preparação
frequentemente deficiente embora a qualidade objectiva das imagens e o seu
impacto diagnóstico não tenham sido medidos. Conheceram-se duas retenções na
nossa série, com necessidade de cirurgia: num doente com HDO com o diagnóstico
por EVC de enteropatia rádica, com estenose, que desenvolveu oclusão intestinal
e veio a falecer no pós-operatório; e numa doente com suspeita de doença de
Crohn do intestino delgado e sub-oclusões recorrentes, com TAC e entero-RMN
normais, cuja EVC revelou ileíte de Crohn, com estenose. Esta doente foi
operada electivamente 2 meses depois da retenção.
DISCUSSÃO
Ao discutirmos os nossos resultados, aproveitamos para rever a literatura sobre
os principais aspectos do: 1-procedimento; 2-indicações e diagnósticos; e 3-
limitações e complicações da EVC.
1-Procedimento
A tendência recente, no nosso Centro Hospitalar, é de generalizar a
administração de preparação oral e de simeticone. Apesar disso, e não havendo
um protocolo sistemático de avaliação da qualidade da preparação, em pelo menos
1/3 dos exames em que se usou PEG, o médico sublinhou continuar a existir uma
deficiente preparação. Da avaliação inicial da técnica na literatura resultou a
recomendação (de 2007 e 2008) contra a utilização da preparação e dos pró-
cinéticos por rotina2,3. Duas meta-análises recentes, no entanto, sugeriram que
a preparação melhora a qualidade da visualização do intestino delgado4,5,
apesar de potencialmente reduzir a sua aceitabilidade2. Em consequência, a
Sociedade Europeia de Endoscopia Digestiva (ESGE) apoiou recentemente a
utilização da preparação intestinal nestes doentes, apesar de não se saber
ainda quando, por qual e a quantidade a usar6.
Uma das soluções mais estudadas tem sido o PEG, sendo que 2 litros parecem tão
eficazes como 4 na melhoria da visualização da mucosa entérica7. Por isso, e
dada a sua disponibilidade, passámos a usar 2 litros de PEG como solução de
preparação preferencial, na véspera do exame. Ainda que o simeticone tenha sido
usado esporadicamente no início é agora usado de forma mais sistemática pois,
de acordo com alguns estudos, parece melhorar a visualização da mucosa8-10.
A utilização de metoclopramida, domperidona ou eritromicina, ainda não
devidamente sustentada, tem no entanto sido usada, raramente, em doentes
hospitalizados, acamados e/ou diabéticos, segundo o critério do médico. Parece
existir maior percentagem de exames incompletos neste grupo de doentes11-13e o
papel dos pró-cinéticos devia, aqui, ser melhor estudado.
2-Indicações e diagnósticos
A HDO e a DC são a principal indicação para EVC na nossa série, nomeadamente a
HDO oculta ou anemia ferropénica, que motivou praticamente metade de todos os
pedidos de EVC.
Numa revisão recente, que incluiu 227 estudos e 22.840 EVC, num período de 9
anos, verificou-se que a indicação predominante foi a HDO (66%) e a suspeita de
DC (10,4%)14, valores próximos dos nossos. Duas outras séries recentes
apresentam também valores próximos dessa ordem de grandeza, sendo mais variável
a expressão de outras indicações, como a diarreia crónica e a dor
abdominal1,15.
Hemorragia digestiva obscura
Por definição, só é considerada HDO a hemorragia com origem no aparelho
digestivo, sem identificação de etiologia após endoscopia digestiva alta e
baixa, que persiste ou recorre16. Desta forma, não se pode excluir, como
aludimos nos resultados, que alguns casos de HDO aqui analisados não sejam
efectivamente apresentações iniciais de hemorragia digestiva média: por
informação insuficiente, por dúvidas na definição do que é persistente e
recorrente16 e porque alguns autores questionam a legitimidade de se
estabelecer uma hemorragia oculta (e depois obscura) sem que o intestino
delgado tenha sido alguma vez observado17.
A acuidade diagnóstica ou, mais propriamente, a percentagem de exames com
achados positivos ou relevantes, na HDO, tem sido de 49-72,5%1,14,15,18,19, tal
como na nossa série. Alguns estudos têm revelado maior acuidade da EVC nas
formas manifestas de HDO do que nas ocultas (58-60% versus 44-46%,
respectivamente)11,18,19. Na nossa série não houve diferença importante entre
grupos de HDO embora as lesões encontradas na HDO manifesta fossem mais
relevantes (42% versus 23%).
Os nossos principais diagnósticos, em tipo e frequência, assemelham-se aos
encontrados noutras séries: angiectasias (50-60%) e erosões/ulcerações (21-
27%)1,14,18. Outros achados têm tido expressão mais variável segundo as
diferentes séries, embora mereçam destaque os 16-19% de pólipos e/ou massas
diagnosticadas em duas séries recentes, italiana1 e chinesa20, embora nesta
última os achados não tenham sido confirmados por biopsia ou cirurgia. Nas
mesmas circunstâncias da série chinesa, a percentagem por nós encontrada foi
6,7%.
Cerca de 14% dos nossos doentes com HDO tinham uma causa ao alcance da
endoscopia convencional. Num estudo holandês, com inclusão de 592 EVC por HDO,
com achados positivos em metade dos exames, também 14% dos doentes tinha uma
causa ao alcance do gastroscópio e do colonoscópio19. Isto alerta-nos para o,
muito defendido, baixo limiar para repetição dos exames endoscópicos
convencionais antes da EVC2,6,16,21. Por outro lado, isto pode significar que
se estão a subestimar diagnósticos importantes na etiologia da HDO, como a
diverticulose cólica ou a gastrite a Hp. A título de exemplo, uma doente na
nossa série, admitida por hematoquézias 'mas sem sangue no lúmen por ocasião da
endoscopia e colonoscopia ' com diverticulose cólica, submeteu-se a EVC que
mostrou alterações mínimas, inespecíficas. Algum tempo depois, foi re-admitida
pelo mesmo motivo, tendo-se diagnosticado hemorragia diverticular do cólon
direito, possivelmente já a causa do primeiro internamento. Num outro exemplo,
de um estudo recente, o tratamento da gastrite erosiva Hp positiva ' assumido
como causa de anemia ferropénica inexplicada em 4 doentes ', através da
erradicação do Hp, resultou na resolução da anemia em todos os casos22.
Na HDO, a EVC deve ser o terceiro exame a realizar-se2,23, por ter acuidade
superior às modalidades convencionais24,25e comparável à EDB e enteroscopia
intra-operatória, mais invasivas3,26,27. Esta estratégia tem demonstrado ser
custo-eficiente6,28e ter maior impacto no outcome dos doentes15,16,18,29.
Alguns autores defendem, no entanto, que em certas circunstâncias pode ser mais
custo-eficiente começar pela EDB ou pela angiografia: na suspeita elevada de
estenose30 e na HDO activa com angiectasias gastrintestinais conhecidas31,32e/
ou maciça com instabilidade hemodinâmica2,33,34. Apesar do recurso à
angiografia ser especialmente defendido no último cenário2,21, a EVC continua a
ser uma boa alternativa, ao identificar e localizar uma lesão sangrante,
orientando a via de acesso preferencial da EDB30. Por outro lado, estudos
comparativos entre EVC e arteriografia, demonstraram que a primeira tem maior
acuidade e impacto no outcomedos doentes35.
Se é verdade que o elevado valor preditivo negativo da EVC justifica uma
atitude conservadora nos doentes em que o resultado do exame é negativo3,9,36-
como consta nos algoritmos de decisão aceites2,16-, a continuação da hemorragia
pode justificar uma segunda EVC3.
Tem havido cada vez mais doentes com anemia ferropénica referenciados para EVC.
Mesmo quando adequadamente investigada, segundo protocolos rigorosos, 30% dos
casos de anemia ferropénica permaneciam inexplicados16,37. A EVC tornou-se,
assim, essencial no workupdiagnóstico destes doentes16,38, com uma relação
custo-eficácia muito favorável2,6,16.
Num estudo de 2010, com 138 doentes com anemia ferropénica, a EVC demonstrou
acuidade diagnóstica de 66% e as intervenções terapêuticas que lhe sucederam
conduziram à melhoria da anemia em 96% dos casos seguidos22. Na revisão que
estes autores fazem, relatam-se acuidades de 32-77%, com influência relevante
no outcome dos doentes. Um dos efeitos da introdução da EVC no estudo da anemia
ferropénica foi permitir a identificação mais precoce de tumores do intestino
delgado38. Importa, no entanto, seleccionar cuidadosamente estes doentes, dada
a natureza frequentemente multifactorial da anemia.
Doença de Crohn
O número de exames pedidos por DC na nossa amostra cresceu ligeiramente ao
longo dos anos, talvez expressão da falta de consenso quanto ao risco-benefício
da EVC nesta indicação. Segundo os nossos resultados o risco parece baixo mas a
acuidade do exame nos casos de suspeita de DC também. Este facto poderá ter
resultado de uma selecção pouco criteriosa dos doentes, exigindo-se,
eventualmente, critérios de selecção mais rigorosos já que a EVC demonstrou ser
superior a outras modalidades no diagnóstico de DC do intestino
delgado2,24,25,39,40.
A EVC foi inicialmente usada na DC no pressuposto de ajudar a estabelecer o seu
diagnóstico e avaliar a extensão e actividade da doença, nomeadamente a
cicatrização da mucosa após tratamento3,6. Os achados têm sido integrados em
scores de gravidade41-43. No entanto, dadas a baixa especificidade dos achados
e a ausência de uma exame goldstandard na DC, paira a incerteza no diagnóstico
e os scores servem apenas para follow-upde um doente específico41,44.
Uma medida proposta para aumentar a especificidade dos achados tem sido
suspender a toma de anti-inflamatórios não-esteróides 1-2 meses antes do
exame6,45,46. No caso de o exame ser normal, e dado o elevado valor preditivo
negativo da EVC na suspeita de DC, este exame afasta com bastante certeza o
diagnóstico e evita tratamentos inúteis23,47.
Duas outras questões importantes são que impacto têm os achados da EVC no
tratamento da DC com envolvimento cólico e se isto justifica o risco de uma
retenção?2,6,48. A Organização Mundial de Endoscopia Digestiva (OMED) em
associação com a Organização Europeia do Crohn e Colite (ECCO) procurou
responder recentemente a estas questões49.
Na DC conhecida só se justifica fazer a EVC se houver sintomas inexplicados ou
factos inconclusivos no decurso da investigação da doença e, mesmo assim, se
entendermos que os achados vão modificar o tratamento. Nesta perspectiva, a EVC
pode ser útil na avaliação da cicatrização da mucosa e desta forma permitir
eventual optimização terapêutica, como aconteceu em alguns dos doentes da nossa
série. Já a substituição da ileo-colonoscopia pela EVC na avaliação pós-
ressecção ileo-cecal na DC, não é tão consensual. O conhecimento da extensão
proximal da doença, além da recidiva ileal, pode ser inconsequente do ponto de
vista do tratamento (mas porventura não do prognóstico da doença)2,3,41,49,50.
Na suspeita de DC têm-se procurado critérios de inclusão para melhorar a
selecção dos doentes e, como tal, a acuidade diagnóstica do exame2,3,49. Esta
poderá ser uma das razões da baixa taxa de detecção de lesões na nossa amostra
(32%), quando outras séries relatam taxas entre 47-56%1,14,51 e mesmo
sensibilidade e acuidade diagnóstica superiores a 90%51,52. No limite, quando a
indicação é apenas dor abdominal ou diarreia crónica, a utilidade da EVC é
reconhecidamente menor53.
Quanto ao risco de retenção, séries recentes apontam para ocorrências de 5-13%
na DC conhecida23,54e 1-3% na suspeita de DC1,54. À semelhança de outras
séries, relatamos um caso de retenção no grupo da suspeita de DC do intestino
delgado e nenhum no grupo de doentes com DC conhecida, onde mais se procura
excluir uma lesão estenosante. Em qualquer dos casos deverá ser sempre excluída
a hipótese de doença estenosante, quer recorrendo à enterografia por TAC ou RMN
ou ao sistema de patência Agile®2,3,6,49. Apesar disso, alguns autores sugerem
haver alguma utilidade na retenção em casos de suspeita de suboclusão do
intestino delgado com exames convencionais normais3,41,55,56, o que aconteceu
num dos casos de retenção que relatamos, cuja cirurgia foi curativa, depois
de vários anos de doença. Mas, nestes casos, o consentimento informado do
doente é ainda mais importante que o habitual.
Para além da retenção, alguns autores têm encontrado maior percentagem de
exames incompletos nesta indicação (37,5%)15, resultado não reproduzido na
nossa série.
Por tudo isto, recomendações recentes da OMED-ECCO propõem que, mesmo na
suspeita de DC, a EDB pode bem ser uma forma de enteroscopia alternativa,
sopesando a probabilidade do diagnóstico de DC antes do exame, a natureza e o
local de uma lesão intestinal suspeita e a experiência do hospital49. Os que
argumentam contra, sublinham a maior dificuldade da EDB nos doentes com DC e a
maior percentagem de enteroscopias completas e não invasivas conseguidas pela
EVC23. Ambas as técnicas parecem ter acuidades semelhantes e, caso a caso, uma
poderá ser preferida ou então complementada pela outra23. Por fim, não temos
experiência da utilização da EVC na doença inflamatória do intestino não
classificada ou colite indeterminada. Apesar de recomendável2,23,49, tem sido
uma indicação muito discutível, por não parecer modificar a atitude
terapêutica41,57.
Outras indicações
A EVC pode ter algum papel no diagnóstico da doença celíaca, sobretudo quando
os achados da endoscopia e a histologia são equívocos23. A EVC pode mostrar
lesões mais evidentes a jusante do local das biopsias58, que por vezes são
normais apesar da serologia positiva, dada a natureza multifocal da atrofia
duodenal. Se usada ab initio, a EVC poderia oferecer uma alternativa não
invasiva de follow-up do doente, ainda que muito discutível15. Mas a situação
em que a EVC se tem revelado mais útil na doença celíaca é na suspeita de
complicações, por manifestações atípicas ou refractariedade à dieta sem
glúten2,3,6,23,59. Qualquer alteração na EVC e/ou suspeita elevada de sprue
refractário, deve obrigar a enteroscopia profunda com biopsias.
A EVC tem sido superior aos métodos convencionais no diagnóstico dos tumores do
intestino delgado24,25, com mais diagnósticos realizados em vida e mais cedo do
que era habitual. Numa série europeia com 3031 EVC diagnosticaram-se 2,4% de
tumores do intestino delgado60, mas valores superiores, de 6-12%, têm sido
encontrados em séries de doentes com HDO23. Os tumores começaram a ser
diagnosticados na fase em que ulceram e sangram e não na fase em que as suas
dimensões os tornam clinicamente manifestos, como acontecia antes,
habitualmente já em estadios avançados2,38. Mas, infelizmente, sobretudo lesões
únicas e/ou pequenas, podem ser facilmente perdidas pela EVC15,61,62, em 19%
dos casos segundo alguns autores15, e o diagnóstico diferencial entre
abaulamentos e tumores continua difícil2.
Ao contrário de outros grupos, nomeadamente portugueses63, a nossa experiência
é escassa no estadiamento e vigilância de poliposes intestinais, onde a EVC
parece ter um papel importante23.
3-Limitações e complicações
A EVC tem poucas contra-indicações, limitações e riscos.
Deve ser evitada em crianças com menos de 2 anos, segundo a FDA41, mas outras
restrições ao seu uso, inicialmente, não se confirmaram. Não parece interferir
com dispositivos cardíacos nem com a gravidez6 e nem a RMN se revelou perigosa
para um doente com uma cápsula retida num caso relatado recentemente64. Apesar
disso, deve ser-se criterioso ao usar a EVC na gravidez e ao submeter estes
doentes a RMN3. As dificuldades de deglutição e a gastroparésia deixaram de ser
contra-indicações para EVC, agora que existem dispositivos que facilitam a
colocação da cápsula com apoio endoscópico3.
Duas limitações importantes da EVC são a preparação deficiente, a que já nos
referimos antes, e a percentagem de exames incompletos. Esta parece oscilar,
segundo séries mais recentes, entre 16,5-26%1,14,15,18, embora tenha atingido
37,5% numa série de suspeita de DC15, como antes referimos. Na nossa série este
valor foi de apenas 10,4%, por limite da duração da bateria, e sem diferenças
relevantes entre indicações. Mas importa identificar os factores que predispõem
ao exame incompleto e formas de os contornar, quer aumentando a duração da
bateria da cápsula quer recorrendo a pró-cinéticos e outras medidas.
Outra contra-indicação tem sido a presença de estenoses do intestino delgado,
de forma a evitar a principal complicação da técnica: a retenção da cápsula.
Esta tem-se verificado em 0,75-3%1,14,15,65dos casos nas indicações em geral,
mas que pode atingir os 13% na DC conhecida23. Esta complicação pode ser
minimizada com uma colheita cuidadosa da história clínica com identificação de
factores de risco como história prévia de oclusão intestinal, cirurgia
intestinal ou radioterapia abdominal66, e através da realização prévia de
enterografia por TAC ou RMN ou cápsula de patência Agile®nos casos
suspeitos3,14. Mas, como já referimos, também pode ser uma opção terapêutica em
casos selecionados. Nos doentes com suspeita de enteropatia rádica a utilização
desta técnica, a ser realizada, deverá ser cautelosa devendo-se avaliar caso a
caso devido ao elevado risco de retenção da cápsula66, como foi exemplo num
caso na nossa série.
Além da retenção e do risco, baixo mas real, de oclusão, foram descritas na
literatura outras complicações raras da EVC, como a perfuração e a aspiração
mas sem relatos de mortes relacionadas com estas14.
CONCLUSÕES
A nossa série tem as limitações de um estudo retrospectivo e sem follow-
upsistemático. No entanto, espelha a utilização da EVC na prática clínica, de
um Centro Hospitalar, com o interesse de perceber as vantagens e as limitações
da técnica e erros a corrigir de futuro.
Neste contexto, a EVC demonstrou ser um exame seguro e com elevada taxa de
detecção de lesões, em particular nos doentes com HDO. Isto apesar dos
critérios pouco rígidos de selecção dos doentes e predomínio da indicação da
anemia ferropénica, onde têm sido relatadas acuidades diagnósticas mais
baixas que na HDO manifesta.
Verificámos ainda haver uma elevada percentagem de lesões ao alcance do
endoscópio, reforçando-se que deve haver um baixo limiar para repetir os exames
endoscópicos convencionais antes de propor os doentes para EVC.