Decisões clínicas na doença de Crohn
Introdução
A doença de Crohn (DC) é uma doença inflamatória crónica do trato
gastrointestinal. A causa da DC é desconhecida, no entanto pensa-se que resulta
duma interação entre fatores genéticos, imunológicos e ambientais1,2. Os
sintomas mais comuns da DC são a diarreia, dor abdominal (cólicas), febre,
perda de apetite, anorexia, perda de peso e emagrecimento. Nas últimas décadas,
a incidência da doença de Crohn aumentou tanto nos países ocidentais como nos
países em vias de desenvolvimento. Ocorre aproximadamente em igual proporção
nos dois sexos2. Em Portugal, a prevalência da doença inflamatória intestinal
(DII) aumentou de 86 por 100.000 habitantes, em 2003, para 146 por 100.000
habitantes em 2007, sendo as regiões de Lisboa e Porto as mais afectadas (173 e
163/100.000 habitantes, respectivamente). Entre 2003 e 2007 a prevalência de
colite ulcerosa (CU) passou de 42 para 71 casos/100.000 habitantes e a DC de 43
para 73 casos/100.000 habitantes, no mesmo período. Em 2007, a prevalência de
CU era mais elevada na faixa etária 40-64 anos (99 casos/100.000 habitantes)
enquanto na DC era mais elevada entre os 17 e os 39 anos, com 121 casos/100.000
habitantes. Globalmente a prevalência foi sempre mais elevada para o sexo
feminino3.
O aumento da incidência e a heterogeneidade desta patologia, com diferentes
apresentações e prognóstico4, leva a uma constante preocupação em desenvolver e
aperfeiçoar a sua classificação e regras de decisão terapêutica.
De forma a responder a alguns destes anseios foi criado o Grupo de trabalho DC2
(Desafios Clínicos na Doença de Crohn). O grupo selecionou as cinco questões,
de maior relevância, para as quais considerou haver maior necessidade de
estabelecer reflexões nacionais e criar recomendações com base na evidência
científica.
Materiais e métodos
O objectivo do Grupo de trabalho DC2 foi o de elaborar recomendações (com base
no nível de evidência e grau de recomendação) para as 5 questões consideradas
como os desafios clínicos mais importantes, no momento atual, na abordagem
terapêutica da DC. Estas questões foram seleccionadas por votação pelo grupo de
trabalho. A metodologia definida para obtenção de consenso final foi composta
por vários passos:
1) Seleção do grupo e subgrupos de trabalho
O grupo de trabalho DC2 foi composto por 30 elementos. Foi orientado pelo
coordenador nacional (Fernando Magro) e por 5 coordenadores (Luís Correia,
Paula Lago, Guilherme Macedo, Paula Peixe, Francisco Portela) cada um
responsável por um subgrupo, que por sua vez foi constituído por 4 ou 5
elementos.
Os coordenadores de subgrupo foram seleccionados por cumprir os critérios de
representatividade no tratamento de doença inflamatória intestinal e
distribuição geográfica. Os elementos de cada grupo foram escolhidos
recorrendo-se aos critérios: especialidade em gastrenterologia ou pediatria,
distribuição geográfica e experiencia clinica no diagnóstico e tratamento da
DII. O efeito de expertna resposta às questões foi minimizado por utilização da
classificação das recomendações de acordo com níveis de evidência (NE)6.
2) Definição das 20 questões iniciais
As 20 questões iniciais, consideradas como os desafios clínicos da actualidade
para a doença de Crohn, foram definidas pelo coordenador nacional e pelos 5
coordenadores de subgrupo (tabela 1).
Tabela 1Questões consideradas como os desafios clínicos da actualidade para a
doença de Crohn e percentagens de votação
3) Seleção das 5 questões-problema em análise
As 5 questões foram selecionadas por votação. A votação foi feita através de
uma plataforma de votação electrónica, tendo votado 26 dos 30 elementos do
grupo de trabalho DC2. As percentagens obtidas para cada questão são
apresentadas na tabela 1, tendo sido selecionadas as 5 questões que obtiveram
percentagem mais elevada e consideradas como relevantes: a) É possível, aquando
do diagnóstico, identificar marcadores de um curso agressivo, justificando a
introdução precoce de terapêutica imunossupressora/biológica? b) Quando parar
um biológico? Em que grupo de doentes? c) Que estratégia em doentes
assintomáticos com marcadores bioquímicos e endoscópicos de atividade? d) O que
fazer na falência aos biológicos? e) Na profilaxia da recorrência pós cirurgia
quais são os doentes que devem ser medicados com imunossupressores e/ou
biológicos?
As questões foram distribuídas aleatoriamente a cada subgrupo:
1) Seleção de artigos científicos considerados pertinentes para responder à
problemática
Cada subgrupo fez a pesquisa bibliográfica nas bases de dados MEDLINE e ISI
sobre o tema em análise tendo selecionado os artigos científicos que considerou
pertinentes para responder à questão‑problema que lhe foi atribuída. Os artigos
foram disponibilizados pelo serviço de informação científica clic@ da MSD.
2) Reuniões individuais de subgrupo
Com base na evidência científica existente, cada subgrupo elaborou uma série de
recomendações e reflexões nacionais para cada questão-problema em análise, a
ser apresentada aos restantes grupos de trabalho na reunião de consenso.
3) Reunião de consenso
A reunião de consenso consistiu numa assembleia seguindo a técnica de grupo
nominal (Delbecq)5, com o âmbito de discutir e aceitar, por votação, as
respostas e reflexões de cada subgrupo a cada questão-problema atribuído.
A reunião de consenso decorreu no dia 9 de Abril de 2011 no Hotel Yeatman, em
Vila Nova de Gaia, com a presença de 27 dos 30 elementos do grupo de trabalho.
Durante a reunião foram apresentados os trabalhos de cada subgrupo tendo sido
votado o grau de concordância por todos os participantes, de forma a obter-se
consenso. Não foi usada nenhuma escala clássica, como a GRADE, por exemplo,
para efeitos de votação. A votação foi feita tendo por base uma escala de 9
pontos (1 a 9) consoante o grau de concordância com a afirmação citada,
correspondendo 1 a discordo totalmente' e 9 a concordo plenamente'. O
consenso foi definido por concordância >= 75%. As recomendações foram
classificadas de acordo com os níveis de evidência (NE) e graus de recomendação
(GR) do Oxford Centre for Evidence-based Medicine6 (tabela 2).
Tabela 2Níveis de evidência e graus de recomendação baseados no Oxford Centre
for Evidence-based Medicine6
Definições
Doença incapacitante (Disabling disease)7
Presença de pelo menos um dos critérios, durante o período de 5 anos após o
diagnóstico: mais de 2 ciclos de corticoterapia e/ou corticodependência,
hospitalização por agudização ou complicação, sintomas crónicos ativos durante
mais de 12 meses (diarreia com dejeções nocturnas ou urgência defecatória, dor
abdominal intensa, febre, fadiga, artralgia, uveíte dolorosa, pioderma
gangrenoso), necessidade de terapêutica imunossupressora, resseção intestinal,
cirurgia a doença anal.
Falência terapêutica
A falência terapêutica inclui: a) redução do CDAI inferior a 70 ou 100 pontos
em relação ao valor inicial, ou no caso de doença penetrante, a redução do nº
de fístulas com drenagem inferior a 50% em relação ao valor de base, o que
define ausência de resposta clínica; b) manutenção de atividade de doença sob
tratamento com biológicos (CDAI > 150-220), ou persistência de fístulas com
drenagem, o que define ausência de remissão; c) aumento do CDAI relativamente
ao valor mais baixo atingido pelo doente; d) julgamento clínico apoiado por
exames complementares de diagnóstico (valor de proteína C reactiva superior a
10 mg/l).
Falência primária: a) manutenção da atividade de doença sob tratamento com
biológicos, em doentes naives(ocorre entre 10% e 30% dos doentes) b)
determinação temporal de não resposta (8 a 12 semanas): b.i) infliximab 8
semanas; doença penetrante 12 semanas b.ii) adalimumab 12 semanas (dosagem
160 mg/80 mg) c) exclusão de outros factores de não resposta. Falência
secundária inclui: a) perda de resposta após um período de benefício inicial
(nos ensaios clínicos ocorre entre 30% a 40% dos doentes no primeiro ano de
tratamento); b) exclusão de outros factores de não resposta.
Recomendações
A. É possível, aquando do diagnóstico, identificar marcadores de um curso
agressivo, justificando a introdução precoce de terapêutica imunossupressora/
biológica?
A história natural da doença de Crohn caracteriza-se pela progressão para
complicações estruturais do tubo digestivo (estenoses e fístulas) que se
traduzem em hospitalizações e cirurgias com consequente evolução para doença
incapacitante. A maioria dos doentes, aquando do diagnóstico, tem doença
inflamatória, mas no intervalo de 20 anos ocorre alteração do fenótipo
inflamatório (B1) para estenosante (B2) ou penetrante (B3), em 80% dos
doentes8.
Além disso, cerca de 50% dos doentes são submetidos a cirurgia no intervalo de
10 anos após diagnóstico e uma percentagem semelhante tem recidiva 10 anos após
cirurgia9.
Na última década, a experiência terapêutica com biológicos tem mostrado que a
intervenção precoce com estes fármacos pode modificar a progressão inflamação-
destruição/fibrose, alterando a história natural da doença. Globalmente, a
terapêutica da DC dicotomizou-se em 2 estratégias: «step-up», o tratamento
sequencial tradicional versus «top-down» que se traduz no uso precoce de
imunossupressores e/ou biológicos. No entanto, o curso da DC é muito variável
de doente para doente e não está definido o ponto temporal exacto de introdução
dos imunossupressores e/ou biológicos. Os riscos associados a estas
terapêuticas e a dificuldade em prever, ao nível individual, a evolução para
doença complicada torna imperativo identificar factores de risco (clínicos,
bioquímicos, endoscópicos, serológicos, genéticos) que permitam, no momento do
diagnóstico, a estratificação em grupos de baixo e elevado risco,
possibilitando desta forma estimar a probabilidade, doente a doente, de
progressão para doença complicada e consequentemente optimizar planos
terapêuticos que impeçam o desenvolvimento de lesões intestinais irreversíveis
e resseções intestinais.
Factores clínicos, bioquímicos, endoscópicos, serológicos e genéticos
identificados aquando do diagnóstico, e seu valor preditivo na evolução para
doença complicada
Factores clínicos
Recomendação A1
Factores clínicos preditivos de alteração do comportamento da doença (B1 para
B2/B3)
Doença ileal10-14[NE 1b-2b, GR B]
Doença ileo‑cólica14[NE 2b, GR B]
Doença perianal11,14[NE 2b, GR B]
Doença do tubo digestivo superior14 [NE 2b, GR B]
Tabagismo10,11,15[NE 2a‑2b, GR B]
Uso de corticosteróides11 [NE 2b, GR C]
Diagnóstico da doença antes dos 40 anos13 [NE 1b, GR B]
Recomendação A2
Factores clínicos preditivos de cirurgia
- Diagnóstico da doença antes dos 40 anos13 [NE 1b, GR B]
- Doença ileal13,16[NE 1b, GR B]
- Doença do tubo digestivo superior16 [NE 1b, GR B]
- Comportamento estenosante13,16[NE 1b-2b, GR B]
- Comportamento penetrante13 [NE 1b-2b, GR B]
- Tabagismo17 [NE 2b, GR C]
Recomendação A3
Factores clínicos preditivos de doença incapacitante
- Idade do diagnóstico < 40 anos7 [NE 2b, GR B]
- Doença ileo-cólica18 [NE 2b, GR B]
- Doença perianal7,18 [NE 2b, GR B]
- Necessidade de corticóides na primeira agudização7,18 [NE 2b, GR B]
Marcadores bioquímicos
Recomendação A4
A evidência científica sobre o valor preditivo de vários marcadores
bioquímicos, aquando do diagnóstico, na avaliação de evolução para doença
complicada é escassa, não permitindo fazer recomendações [NE 4, GR D]. A
existente concerne a proteína C reactiva (PCR).
Num estudo prospetivo de base populacional, o nível de PCR, aquando do
diagnóstico, associou-se a maior risco de cirurgia em doentes com doença de
Crohn do íleon terminal, e a associação manteve‑se após análise multivariada,
contudo o número de doentes neste subgrupo foi muito reduzido19.
Factores endoscópicos
A evidência científica sobre o valor preditivo da endoscopia, aquando do
diagnóstico, na avaliação de evolução para doença complicada é escassa,
existindo apenas um estudo na literatura sobre este assunto.
Recomendação A5
A ulceração intestinal extensa e profunda, na ileocolonoscopia, é um factor
preditivo de cirurgia20 [NE 4, GR C].
Factores serológicos
Recomendação A6
Em idade pediátrica, determinados marcadores serológicos (ASCA, anti-ompc,
anti-CBir1, anti-I2), presentes aquando do diagnóstico, identificam um subgrupo
de doentes com progressão mais rápida para doença complicada, podendo
justificar a introdução precoce de imunossupressores/ biológicos [NE 1b; GR B]
Nos adultos, determinados marcadores serológicos, presentes desde o
diagnóstico, associam-se a fenótipos estenosante e penetrante e a risco
aumentado de cirurgia. Não é possível, no momento actual, recomendar a sua
utilização na população adulta, para decidir sobre introdução precoce de
terapêutica imunossupressora/ biológica [NE 2b; GR C].
A noção de que na DC a resposta imune a determinados antigénios microbianos se
relaciona com determinados fenótipos, foi introduzida em 2000 por Vasiliauskas
et al21, demonstrando-se que títulos elevados de ASCA se associavam a um
fenótipo estenosante e penetrante e a uma maior necessidade de cirurgia do
intestino delgado. Desde então novos marcadores serológicos foram identificados
e, como tem sido sugerido por vários estudos coorte, poderão ser úteis na
estratificação do risco de complicações, como marcadores preditivos de um curso
agressivo. Além dos ASCA, novos anticorpos da família anti-glicanos
(polissacarídeos componentes da parede bacteriana) foram identificados,
verificando-se associação dos ASCA, ALCA, AMCA, ACCA, anti-C e anti-L com uma
mais rápida progressão para doença complicada (fenótipo estenosante ou
penetrante), maior risco de cirurgia e manifestação da doença em idade mais
jovem22-25. A positividade para os anticorpos anti-ompC (anti-porina C da
membrana da E. coli) correlaciona‑se com fenótipo penetrante e a presença de
anticorpos anti-I2 (proteína da Pseudomonas fluorescens)com fenótipo
estenosante, ambos associados a um maior risco de cirurgia. Neste estudo
observou-se que não só a reatividade (presença dos anticorpos), mas também a
magnitude de resposta (títulos dos anticorpos) se correlacionaram com o risco
de estenoses, doença penetrante e cirurgia26. Targan et al27 verificaram que a
presença de anticorpos anti-flagelina CBir1, não só é um marcador de DC, como
se associa independentemente com doença do intestino delgado e com fenótipo
estenosante ou penetrante. No entanto, a maioria destes estudos são
retrospectivos, em que a determinação dos anticorpos foi feita após a
ocorrência das complicações, não sendo dessa forma avaliado o potencial destes
marcadores serológicos para prever a sua ocorrência e o intervalo de tempo.
Mais recentemente avaliaram-se, de forma prospectiva, coortes de doentes
pediátricos com DC, doseando-se os anticorpos (ASCA, anti-ompC, anti-CBir1,
anti-I2) aquando do diagnóstico. O seguimento destes doentes mostrou que a
presença e a magnitude das respostas imunes se associavam de forma
significativa com a progressão mais rápida para doença complicada (fenótipo
estenosante ou penetrante, necessidade de cirurgia), sugerindo o potencial
destes marcadores para prever um curso mais agressivo da doença28‑31.
Apesar de determinados marcadores serológicos (anticorpos contra antigénios
microbianos), presentes desde o diagnóstico, se associarem significativamente
com fenótipos complicados (estenosante e penetrante) e com risco aumentado de
cirurgia, ainda não é possível, com base em evidência, recomendar a sua
utilização para decidir sobre a introdução precoce de terapêutica
imunossupressora.
Factores genéticos
Recomendação A7
Existem múltiplas mutações genéticas na DC associadas a fenótipos mais graves
(localização ileal, comportamento estenosante ou penetrante, risco aumentado de
cirurgia intestinal, doença perianal), que poderão no futuro, integradas com
outros factores clínicos e ambientais, permitir avaliar o prognóstico da
doença, aquando do diagnóstico. Actualmente, o papel dos factores genéticos não
está ainda esclarecido e o seu uso na prática clínica não está indicado [NE 2b-
3b, GR C].
As vantagens dos marcadores genéticos como marcadores prognósticos são: (a) a
sua estabilidade ao longo do tempo, (b) o não serem alterados pela atividade da
doença, (c) o estarem presentes antes do desenvolvimento da doença, e (d) antes
dos factores ambientais intervirem, o serem testes não invasivos e
objectivos32-34. Na DC, a maioria dos genes e alelos de risco têm uma
penetrância incompleta, uma frequência baixa a moderada e isoladamente não
explicam ou predizem a evolução da doença, pois representam apenas uma fração
do conjunto de factores de risco que contribuem para o desenvolvimento e
modulação da doença. Mesmo um painel de marcadores genéticos pode não ser
adequado para ser usado como marcador de curso agressivo da DC e provavelmente
tem que ser integrado com outros factores moleculares, clínicos, endoscópicos e
ambientais32,34.
Existem vários estudos que estabelecem uma correlação genótipo-fenótipo na DC.
No entanto, muitos destes resultados não foram ainda replicados e alguns são
controversos, com outros estudos a apresentarem resultados díspares. As
mutações mais consistentemente associadas a características da doença com
possíveis implicações prognósticas são:
1) Mutações NOD 2/CARD15 (já foram descritas pelo menos 27 mutações neste gene,
mas a maioria da susceptibilidade foi atribuída às mutações R702W, G908R e
1007fs):
a) Localização ileal (OR 2,8; 95%IC: 1,6-5,2; p = 0,001)35; (OR 2,53; 95%IC:
2,01-3,16)36; (OR 1,83; IC: 1,37-2,41; p < 0,001)37 (p = 0,0001)38;
b) Comportamento estenosante (OR 1,94; 95%IC: 1,61-2,34)36; (OR 9,44; IC: 3,21-
27,77; p = 0,00028)39; (OR 2,277; IC: 1,064-4,871; p < 0,001)40; (OR 1,38; IC:
1,04-1,83; p = 0,027)35; (p = 0,01)38;
c) Comportamento penetrante (OR 1,47; 95%IC: 1,01-2,15; p = 0,004)33; outros
estudos apresentam resultados diferentes41;
d) Cirurgia intestinal (OR 1,69; IC: 1,28-2,23; p < 0,001)37; (OR 3,58; 95%IC:
1,21-10,5), com recorrência pós-operatória mais frequente (OR 3,29; 95%IC:
1,13-9,56)42; (p = 0,0001)38; noutros estudos não se confirmaram estes
resultados33,43;
d) Dupla mutação NOD2: idade mais jovem de diagnóstico (16,9 anos vs 19,8 anos;
p = 0,01), comportamento estenosante (OR 2,92; p = 0,00003), envolvimento
cólico menos frequente (OR 0,44; p = 0,003;)44;
e) Na idade pediátrica, verificou-se um risco aumentado de doença ileal (p =
0,003), comportamento estenosante (p < 0,0001), maior risco de cirurgia
intestinal43;
f) Ausência de variantes NOD2: desenvolvimento de fístula perianal (OR 0,56;
95%IC: 0,38-0,83; p = 0,004), principalmente em doentes com envolvimento cólico
e tabagismo activo33.
2) Haplotipo 5q31 (IBD 5): doença perianal penetrante (RR 1,7; p = 0,0005;
indivíduos homozigóticos (RR 3,0; p = 0,0005)45; comportamento penetrante (OR
1,474, IC: 1,028-2,114; p = 0,035)46.
3) Homozigotia do alelo G no AK097548 rs1363670: comportamento estenosante (OR
5,48; 95%IC: 1,60-18,83; p = 0,007), menor tempo de evolução para doença
estenosante (p = 0,01), principalmente nos doentes com envolvimento ileal (p =
0,0002)33.
4) Alelo T no U7 rs12704036: comportamento penetrante (OR 1,74; 95%IC: 1,20-
2,54; p = 0,004); doentes do sexo masculino apresentaram um tempo mais curto de
evolução para fístula não-perianal (p < 0,0001)33.
5) Alelo C no CDKAL1 rs6908425: desenvolvimento de fístula perianal (OR 8,86;
95%IC: 1,13-69,78; p = 0,04), principalmente em doentes com envolvimento cólico
e tabagismo activo33.
6) Alelo G no IRGM rs4958847: comportamento penetrante (OR 9,22; 95%IC: 1,17-
72,94; p = 0,004)37.
7) Alelo G no ATG16L1 rs2241880: comportamento estenosante (OR 1,27; IC: 1,07-
1,50; p = 0,005) e doença perianal (OR 1,19; IC: 1,01-1,40; p = 0,035)37.
8) Variante DLG5 R30Q: doença corticorresistente (OR 2,4; 95%IC: 1,3-4,5; p =
0,013)47.
Observou-se que os doentes com maior número de alelos de risco nas variantes
genéticas NOD2, IBD5, DLG5, ATG16L1 e IL23R apresentavam uma idade de
diagnóstico mais jovem (p = 0,048), comportamento estenosante ou penetrante (p
= 0,001) e maior necessidade de intervenções cirúrgicas (p = 0,03). No entanto,
esta associação tornou-se não significativa após 10 anos de evolução de doença,
reflectindo que outros factores (nomeadamente ambientais, terapêuticos)
contribuem para a evolução a longo prazo da doença37.
Outros estudos mostraram ainda uma correlação entre alterações genéticas e
marcadores serológicos na DC. Das variantes de NOD2/CARD15 com a presença de
ASCA38,48,49, AMCA48 e ALCA49, verificando-se que a positividade destes
anticorpos anti-glicanos se torna mais frequente à medida que o número de
mutações do gene NOD2/CARD15 aumenta48,49. Das mutações do NOD1/CARD4 com uma
maior prevalência de ASCA49. Por outro lado, verificou-se uma relação inversa e
com efeito número de mutações/prevalência reduzida de anticorpos, entre as
mutações TLR4 e ACCA e as mutações TLR2 e OmpC49. Assim, as alterações
genéticas parecem modular a sero-reatividade aos antigénios microbianos,
podendo ter um papel primordial na patogénese e prognóstico da DC34,49.
Os polimorfismos genéticos associados à DC têm um potencial papel na progressão
da doença e podem vir a ter utilidade na estratificação de risco dos
doentes33,37. No entanto, ainda não estão definidos quais os marcadores
genéticos associados a um curso agressivo de doença, e nenhuma das variantes
genéticas demonstrou sensibilidade e especificidade suficientes para serem
implementadas na clínica, não sendo possível elaborar uma classificação
genética prognóstica1,32,34.
B. Quando parar um biológico? Em que doentes?
Recomendação B1
Só em doentes com doença luminal e remissão clínica há mais de um ano, com PCR
normal e cicatrização da mucosa poderá ser ponderada a suspensão do fármaco [NE
2b, GR B].
Os potenciais riscos (recidiva, menor eficácia de retratamento e reações
adversas) e benefícios da suspensão do anti-TNF devem ser ponderados e
discutidos com os doentes.
O comportamento e duração da doença e a resposta ao tratamento prévio deverão
ser considerados nesta decisão.
A introdução de agentes biológicos no tratamento da DII condicionou uma mudança
substancial nos algoritmos do seu tratamento. Embora de eficácia demonstrada na
indução e na manutenção existe alguma controvérsia associada ao seu uso
relativamente aos critérios de seleção e optimização temporal da sua adopção,
perfil de segurança (em particular a longo prazo), assim como na definição da
oportunidade e necessidade da sua suspensão.
Na maioria dos doentes com DC com necessidade de iniciar anti-TNF, a manutenção
de terapêutica biológica deverá prolongar-se por tempo indeterminado.
Atualmente, não existem dados de elevado nível de evidência que indiquem de
forma clara quando cessar tratamento com anti-NF. Existem, no entanto, factores
indirectos que poderão auxiliar na decisão de parar biológicos e na seleção dos
doentes com menor risco de recidiva após a sua suspensão. Estes elementos
incluem: a história natural da doença, os dados obtidos de estudos com
imunomoduladores, a segurança a longo prazo dos biológicos, estudos de custo-
efectividade do tratamento anti-TNF, dados preliminares de escassos estudos,
bem como potenciais riscos de reintrodução do tratamento. Outros factores como
custos e preferência pessoal do doente deverão também intervir na decisão de
cessar a terapêutica biológica, pelo que esta decisão deve ser assumida caso a
caso.
Existem evoluções distintas na DC consoante o comportamento predominante da
doença8. Sabe-se também que a remissão a longo prazo é difícil na doença de
longa duração e que estes doentes serão mais dependentes de tratamento50.
Especula-se que o tratamento precoce com anti-TNF poderia modular o processo
imune evitando as lesões da mucosa consequentes. Estes doentes poderão ser os
melhores candidatos à suspensão de anti-TNF.
Um estudo do GETAID (grupo de estudos de DII Francês) mostrou que após a
cessação da azatioprina na DC os doentes com tempo de remissão mais longo
apresentavam uma taxa de recidiva mais baixa51. Outro estudo avaliou o risco de
recidiva durante um período de seguimento mais longo num grupo de doentes sob
azatioprina que cessaram terapêutica. A taxa de recidiva após três anos foi
60%52. Esta análise mostrou que mesmo nos doentes em remissão estável, o risco
de recidiva aumenta com a cessação dos imunossupressores.
As complicações a longo prazo são as mais temidas por clínicos e doentes,
nomeadamente o risco de doença linfoproliferativa e infecções oportunistas. As
Guidelines da ECCO de 2009 permitem minimizar o risco de infecções
oportunistas53. Outra medida que tem sido apoiada é evitar a terapêutica
combinada a longo prazo de anti-TNF com um imunomodulador, pensando-se assim
reduzir o risco de infecções e doenças linfoproliferativas.
Estudos prospetivos com infliximab (IFX) e adalimumab administrados na indução
e manutenção da DC demonstraram redução das hospitalizações e cirurgias54,55.
Isto poderá sugerir uma relação custo-benefício favorável do anti-TNF durante
pelo menos um ano de tratamento56, embora os estudos actuais não tenham
apresentado análise de custo-eficácia adequada.
Embora os elementos previamente mencionados representem pontos fulcrais na
decisão de suspender os biológicos, na prática o clínico procura factores
clínicos e laboratoriais que o poderão guiar na decisão de suspender o fármaco.
Em doentes com remissão clínica durante um período suficiente de tempo, será
útil avaliar os sinais biológicos, imagiológicos e endoscópicos de atividade,
novo paradigma designado como remissão profunda57,58. A concentração sérica da
PCR tem servido como marcador biológico associado ao risco de recidiva59. Além
da PCR, têm surgido outros marcadores serológicos e fecais mais específicos
como a calprotectina e a PCR ultrassensível. Sugere-se que antes de ponderar a
suspensão da terapêutica biológica, o doente deverá manter um valor de PCR
normal estável. A presença de cicatrização da mucosa sob terapêutica anti-TNF
está associada a taxas de internamentos e cirurgias reduzidas60, realçando o
papel da endoscopia na DC. A enterografia por ressonância magnética (RM)
representa um bom contributo.
Dados recentes e preliminares sugerem que um número significativo de doentes
com remissão clínica há mais de um ano, PCR normal e cicatrização da mucosa
poderão manter remissão durante o ano seguinte à cessação do fármaco. Num
estudo coorte de Leuven61 cerca de 20% dos doentes foram capazes de suspender
anti-TNF durante um período variável de tempo (mediana 47 meses). Num trabalho
retrospetivo62 envolvendo 115 doentes (82% com imunomodulador concomitante), em
que 69 dos quais suspenderam IFX por remissão prolongada, observou-se uma taxa
de remissão de 56%, com tempo de follow-upmediano de 14 meses. Um estudo
coorte63 com 48 doentes em remissão clínica (81% com imunomodulador
concomitante) mostrou uma taxa de recidiva de 50% ao fim de 477 dias e 35% de
manutenção de remissão aos 7 anos de seguimento. No estudo coorte prospetivo
por Louis et al64115 doentes em remissão clínica e endoscópica sob terapêutica
combinada suspenderam infliximab durante mais de um ano. A taxa de recidiva no
primeiro ano foi de 57%. Os factores preditivos de recidiva foram o tabagismo
activo, a corticoterapia prévia, calprotectina fecal e PCR elevada. Não
existem, no entanto, dados de estudos randomizados e controlados que suportem
estas evidências.
Conclui-se que em doentes com remissão clínica há mais de 1 ano, sem sinais
endoscópicos e analíticos de atividade, os benefícios da terapêutica têm que
ser avaliados perante os potenciais riscos da sua descontinuação. O
comportamento e duração da doença e a resposta ao tratamento prévio deverão ser
ponderados. O doente deverá participar de forma activa na tomada de decisão da
potencial suspensão do fármaco e cada opção deverá ser adaptada ao caso
concreto.
No caso específico de doentes pediátricos, o risco de recidiva com potencial
atingimento do crescimento na adolescência impõe que a suspensão do tratamento
só seja considerada após terminar o crescimento e maturação sexual.
C. Que estratégia em doentes assintomáticos com marcadores bioquímicos e
endoscópicos de atividade?
A resposta a esta pergunta pressupõe a análise prévia da evidência que sustenta
a conclusão de que, em doentes assintomáticos, a existência de marcadores
bioquímicos ou endoscópicos de inflamação se correlaciona com pior prognóstico
a médio e longo prazo.
Marcadores bioquímicos
Recomendação C1
Os doentes com marcadores bioquímicos de atividade (nomeadamente a PCR e a
calprotectina) têm maior probabilidade de recidiva [NE2b, GR C], e de cirurgia
[NE1b, GR B].
O contributo dos marcadores biológicos (serológicos e fecais, sobretudo) tem a
vantagem e o atractivo de serem supostamente de fácil execução, não invasivos e
permitirem uma aferição mais correcta da atividade da doença, sobretudo no
contexto de remissão clínica e, eventualmente ajudar a prever o curso da
doença.
Vários marcadores têm sido avaliados e propostos, com maior ou menor utilidade
e evidência variável, nomeadamente a PCR, velocidade de sedimentação (VS),
albumina, leucograma, contagem plaquetas, orosomucóide, calprotectina fecal e
outros. De todos os marcadores bioquímicos estudados, têm especial destaque a
PCR e a calprotectina fecal. A PCR é uma proteína de fase aguda que em
circunstâncias normais é produzida em pequenas quantidades (< 1mg/l) no
hepatócito. Encontra-se ligeiramente elevada (10-40 mg/l) em situações
inflamatórias ligeiras e infecções víricas. Encontra-se mais elevada (50-200
mg/l) em inflamações graves e infecções bacterianas e significativamente
elevada (> 200 mg/l) em situações inflamatórias muito graves e queimaduras
extensas. Tem uma semi-vida curta pelo que se eleva rapidamente no início da
situação inflamatória mas também reduz rapidamente após a resolução da mesma.
Apesar desta relação com as situações inflamatórias, é um marcador com resposta
muito heterogénea especialmente no que diz respeito à DC e à CU65. É, no
entanto, entre todos os marcadores laboratoriais estudados na DII, o que mostra
melhor desempenho e correlação com atividade da DII, sobretudo da DC. A PCR tem
importante papel na avaliação da resposta à terapêutica. A terapêutica com
anti-TNF foi mais eficaz em doentes com PCR > 5 mg/l quando comparado com
doentes com PCR < 5 mg/l, num estudo belga que incluiu 153 doentes tratados com
infliximab66.
Os marcadores fecais de inflamação têm a vantagem de serem facilmente
acessíveis através de análise às fezes e de não estarem elevados em condições
inflamatórias extraintestinais, ao contrário dos marcadores serológicos.
Traduzem, com elevada acuidade, inflamação da mucosa intestinal, o que pode
evitar alguns exames endoscópicos no seguimento dos doentes com DII. A
calprotectina fecal representa 6% das proteínas citosólicas dos granulócitos. A
presença de calprotectina nas fezes é, portanto, directamente proporcional à
migração dos neutrófilos para o tracto digestivo. É o marcador fecal mais
estudado e com melhores resultados na DII. É um marcador sensível, mas não
específico para inflamação intestinal, podendo estar também aumentado nas
neoplasias e infecções intestinais e pode também encontrar‑se aumentada após
toma de AINEs e em doentes com idade avançada.
Um estudo de Fagan et al67 mostrou uma melhor correlação dos marcadores
bioquímicos (nomeadamente a PCR) com a atividade da doença, mais na DC que na
CU. Solem et al68 estabeleceu uma importante correlação entre PCR e atividades
endoscópica e histológica, embora de forma mais significativa na doença de
Crohn que na colite ulcerosa. Num estudo prospetivo, Boirivant et al69
constataram que num período de 2 anos o risco de recaída na DC é maior em
doentes com PCR elevada que nos doentes com PCR normal. O grupo GETAID, através
do trabalho de Consigny et al70, em 2006 sugeriram um score biológico baseado
em parâmetros clínicos para prever possibilidade de recidiva precoce em doentes
com DC em remissão induzida por corticoterapia. Para isso, estudaram 71 doentes
com medições de PCR e VS, de 6/6 semanas. Consideraram score positivo ou
negativo, conforme positividade ou negatividade dos 2 marcadores (PCR > 20 mg/
l e VS > 15 mm). Da análise multivariada destes factores, concluem que o risco
relativo de recidiva precoce em doentes com score positivo, comparada com os
que têm score negativo é de 8,0, com sensibilidade de 89% e especificidade de
43%. Brignola et al71 propuseram também um índice para prever recidiva em
doentes assintomáticos com DC, em 1986. Analisaram 41 doentes com DC
clinicamente inactiva através de avaliação bioquímica de um painel de
marcadores inflamatórios (VS, PCR, albumina, alfa1-antiptripsina ). Baseados
nestes marcadores, estabeleceram um índice de prognóstico que quando elevado
previa maior probabilidade de recidiva em 1-2 anos. Henriksen et al19, num
estudo de base populacional, verificaram que nos doentes com DC do íleon
terminal, um valor de PCR > 53 mg/l é um factor associado a um maior risco de
cirurgia. Num trabalho de 2000, Tibble et al72 avaliaram a permeabilidade
intestinal e a inflamação como preditores de recidiva de DII. Estudaram 43
doentes com DC e 37 com CU, em remissão clínica e fizeram uma avaliação da
calprotectina fecal em todos e, além desta avaliação, nos doentes com DC
fizeram também um teste de permeabilidade intestinal. 58% dos doentes com DC e
51% com CU tiveram recidiva nos 12 meses seguintes. Os níveis médios de
calprotectina no grupo com recidiva diferiram significativamente do grupo sem
recidiva (p < 0,0001). Neste grupo de doentes a sensibilidade e especificidade
da calprotectina para prever recidiva foi de 90 e 83%, respectivamente (para
todos os doentes com DII). Os autores concluem que a calprotectina é útil para
prever recidiva em doentes com DII e sugerem que poderá ser um indicador para
iniciar tratamento mais precocemente em doentes assintomáticos.
Tibble et al72 demonstraram que para a calprotectina fecal um cut offde 30 mg/
g tem uma sensibilidade de 100% para distinguir entre DC activa e síndrome do
cólon irritável. Fagerberg et al73 verificaram que em doentes pediátricos com
suspeita de inflamação do cólon a calprotectina pode ser um marcador muito útil
e, na presença de um teste positivo, deve orientar para endoscopia. Roseth et
al74 mostraram que a CF tem uma boa correlação com a atividade endoscópica e
histológica em doentes com CU e com DC e que os valores elevados daquela
normalizam rapidamente após a resolução da inflamação. Gerasimidis et al75
avaliaram as diferenças na determinação seriada (4 amostras durante o
tratamento) de calprotectina fecal em 15 crianças com DC tratadas com nutrição
entérica exclusiva. Neste estudo piloto, a calprotectina diminui em doentes que
alcançam remissão clínica e pode ser útil para prever resposta ao tratamento.
Parece que o valor da calprotectina fecal é maior para prever recidiva clínica
na CU que na DC, segundo conclusão de um estudo de Costa et al76 em que foram
avaliados 79 doentes com DII em remissão clínica, sendo 38 com DC e 41 com CU.
Concluíram que valores de 150 ug/g ou superiores eram preditivos de recaída a
um ano. A sensibilidade foi elevada quer na DC (87%) quer na CU (89%) mas a
especificidade foi muito mais baixa na DC (43%) que na UC (82%). Vários
trabalhos corroboram esta evidência de que os níveis de calprotectina fecal
elevados significam inflamação activa e que em doentes assintomáticos ajudam a
distinguir entre aqueles que têm maior ou menor probabilidade de recidiva.
Marcadores endoscópicos
Recomendação C2
Os doentes com atividade endoscópica [NE 2b, GR B] ou com lesões mais graves
[NE 4, GR C], têm pior prognóstico, designadamente, menor probabilidade de
remissão mantida e maior risco de cirurgia.
Em 2002 Allez et al77 concretizaram um trabalho cujo objectivo foi verificar se
a existência de lesões endoscópicas graves (LEG), definidas pela existência de
úlceras extensas e profundas em mais de 10% de pelo menos um segmento colo-
rectal, tinha valor preditivo relativamente ao risco de desenvolver
complicações penetrantes (abcessos e/ou fístulas) e à necessidade de
colectomia. Dos 102 doentes incluídos, 53 tinham LEG na colonoscopia índex e,
durante um follow-upmédio de 52 meses, 6 doentes desenvolveram complicações
penetrantes e 37 foram alvo de colectomia. A análise cruzada destes dados
revelou que o risco de colectomia e de desenvolver complicações penetrantes foi
significativamente superior nos doentes que tinham LEG na colonoscopia índex.
Pormenorizando, a incidência cumulativa de colectomia foi de 31% vs 6% após 1
ano, 42% vs 8% após 3 anos e de 62% vs 18% aos 8 anos, nos doentes com e sem
LEG, respectivamente. Relativamente aos 6 doentes que desenvolveram
complicações penetrantes, todos tinham LEG na colonoscopia índex. No sub-estudo
endoscópico do ACCENT I78 foi analisada a proporção de doentes que apresentavam
cicatrização da mucosa às semanas 10 e 54 e qual a sua influência no curso
clínico, nomeadamente no número de hospitalizações. Apesar dos doentes com
cicatrização da mucosa em ambas as observações terem uma taxa de
hospitalizações (0,0%) inferior à dos que apresentavam cicatrização apenas numa
das visitas (18,8%), a qual, por sua vez, foi inferior à dos doentes que
apresentavam lesões em ambas as ocasiões (28,0%), os resultados não atingiram
significado estatístico. Numa série de base populacional o impacto da
cicatrização da mucosa ao fim do primeiro ano foi correlacionado com o percurso
clínico nos quatro anos seguintes. Os doentes com cicatrização da mucosa
apresentaram menor atividade inflamatória (endoscopia) e menor necessidade de
corticosteroides a longo prazo. Apesar de ter sido objectivada uma tendência
para menor necessidade de cirurgia e menos complicações locais os valores não
alcançaram significado estatístico79. Num estudo proveniente de um único
centro80 o impacto da cicatrização da mucosa foi avaliado através da realização
de uma segunda colonoscopia após terem iniciado infliximab. A cicatrização
(total ou parcial) foi observada em 68% dos doentes que responderam à
terapêutica e verificou-se que estes doentes apresentaram uma taxa de cirurgia
abdominal (14,1%) significativamente inferior à dos doentes sem cicatrização da
mucosa (38,4%). Uma análise post-hoc do estudo EXTEND81 permitiu verificar que
os doentes com cicatrização da mucosa à semana 12 tinham, em comparação com os
doentes sem cicatrização da mucosa, uma diminuição do CDAI à semana 52
significativamente superior (46 pontos) e uma melhoria no índice de qualidade
de vida às semanas 28 e 52 (p < 0,05). Além disso, os doentes com SES-CD
(Simple Endoscopic Score for Crohn's Disease)elevado tinham associada uma menor
probabilidade de remissão clínica à semana 52 (OR 0,6; p < 0,05).
Finalmente, num outro estudo82 no qual se compararam duas estratégias
terapêuticas (step-up versus top-down) verificou-se que os doentes que
apresentaram cicatrização da mucosa aos 2 anos (SES-CD de 0) mantiveram
remissão clínica nos 2 anos seguintes em 70% dos casos contra 22% nos que
mantinham alterações endoscópicas.
Recomendação C3
Não se propõe alteração da estratégia em função de marcadores bioquímicos de
atividade [NE 5, GR D].
Não se recomenda tratamento com corticosteroides em doentes assintomáticos com
marcadores endoscópicos de atividade [NE 1b, GR A].
Admite-se a possibilidade de escalada terapêutica em alguns doentes
assintomáticos com marcadores endoscópicos de atividade [NE 5, GR D].
Embora haja evidência suficiente de que a presença de marcadores laboratoriais
alterados ou a existência de lesões endoscópicas, em doentes assintomáticos,
esteja relacionada com uma evolução clínica negativa, não existem estudos que
suportem a necessidade de uma alteração (escalada) terapêutica nestes doentes.
Existem, de facto, muito poucos estudos que se dirijam a esta questão
específica. Lennard-Jones et al83 avaliaram a eficácia da sulfassalazina em
evitar a recorrência clínica em doentes com DC assintomática mas com lesões
endoscópicas. Foi um estudo pequeno (43 doentes) e que envolveu quer doentes
submetidos a ressecção cirúrgica, quer doentes não operados. Num período de um
ano verificou-se, em ambos os grupos, que a incidência de recidiva clínica nos
doentes a tomar sulfassalazina foi semelhante à dos doentes expostos ao
placebo. O únicoestudo que testou, com um número satisfatório de doentes e com
um desenho apropriado, o eventual benefício da intensificação do tratamento em
doentes com remissão medicamente induzida mas com manutenção de atividade
endoscópica, foi conduzido por Landi et al84, publicado em 1992. Neste estudo
multicêntrico do GETAID, 147 doentes foram inicialmente tratados com
prednisolona. Dos 136 que entraram em remissão 96 apresentavam ainda alterações
endoscópicas. Esses doentes foram aleatorizados em dois grupos, um em que a
redução progressiva da corticoterapia foi imediatamente iniciada e outro, no
qual o tratamento foi mantido por 5 semanas adicionais. Verificou-se que o
curso clínico a curto e a médio prazo (18 meses) foi sobreponível nos dois
grupos e semelhante ao dos doentes sem lesões endoscópicas no final do
tratamento inicial. Existem algumas evidências indirectas de que uma alteração/
escalada terapêutica neste tipo de doentes possa ser benéfica. Na prevenção da
recorrência pós-cirurgia, a azatioprina parece ser eficaz na redução da
recorrência clínica na presença de lesões endoscópicas84,85. Embora o âmbito
clínico seja semelhante, a extrapolação dos resultados obtidos numa situação
específica pós ressecção ileo-cólica deverá ser feita com precaução. Por
outro lado, a descontinuação de IFX associa-se significativamente a um elevado
número de recorrências clínicas, nos doentes que apresentam marcadores
laboratoriais positivos e/ou lesões endoscópicas86. Apesar de se tratar dum
contexto similar, o inverso não se encontra comprovado: que a introdução de
IFX, em doentes tratados com azatioprina/6-mercaptoprina e com marcadores
laboratoriais alterados e/ou lesões endoscópicas, reduza as recorrências
clínicas.
Esta é assim uma questão ainda em aberto e para a qual existem estudos
prospectivos em curso87.
D. O que fazer na falência aos biológicos?
Em Portugal, os fármacos anti-TNF são a única forma de terapêutica biológica
aprovada na DII, pelo que a resposta à pergunta diz respeito à abordagem da
falência destes fármacos. A falência terapêutica inclui a ausência de resposta
e a ausência de remissão. A primeira foi definida, com base nos ensaios
clínicos, por uma redução do CDAI inferior a 70 pontos em relação ao valor
inicial ou, em caso de doença penetrante, por uma redução das fístulas com
drenagem inferior a 50% do valor base. A ausência de remissão pode ser definida
pela manutenção da atividade da doença sob tratamento com biológicos (CDAI >
150), pela presença de fístulas com drenagem ou, ainda, pelo aumento do valor
do CDAI relativamente ao nadir do doente. Na prática clínica, aceita-se que a
falência seja determinada por julgamento clínico88, apoiado em escalas de
atividade, como a de Harvey-Bradshaw e por exames complementares (PCR superior
a 10 mg/l, por exemplo).
Falência primária e falência secundária
A falência da terapêutica biológica pode ser primária, quando ocorre na
primeira exposição a um fármaco deste grupo, ou secundária, quando há um
benefício inicial, seguido de perda de resposta. Os dados actualmente
disponíveis apontam para que a falência primária atinja 10-30%2 e a falência
secundária ocorra em 30-40% dos doentes no primeiro ano de terapêutica58,88. No
caso da falência primária, é essencial ter em conta o tempo necessário para
determinação da resposta ao fármaco, com a maioria dos autores a recomendar um
período mínimo de 8 a 12 semanas de terapêutica58,88. No caso do infliximab, a
maioria dos doentes responde nas primeiras 4 semanas (ou seja, às 2 primeiras
administrações), uma percentagem menor poderá responder apenas após as 3
administrações de indução, pelo que a determinação da falência deverá ser
adiada até às 8 semanas58 e, eventualmente, até às 12 semanas no caso da doença
penetrante. No caso do adalimumab, considerando o esquema de indução com 160/
80mg, o benefício máximo pode não ser obtido antes das 12 semanas de
terapêutica58,88. A falência secundária pode depender de mecanismos
relacionados com a doença, com o fármaco, ou de outros ainda não completamente
esclarecidos. Antes de definir um doente como refractário à terapêutica, é
essencial excluir outras causas para a sintomatologia, nomeadamente patologia
funcional, intercorrências infecciosas, ou complicações pós-cirúrgicas. Uma
situação particular é a da doença fibro-estenosante, em que a própria indicação
para terapêutica biológica não é clara, sabendo-se que a maioria dos doentes
não responde58. Antes de considerar falência primária ou secundária é preciso
excluir complicações por estenose ou infecção. A avaliação analítica,
endoscópica e radiológica é essencial para identificar estes casos, que não
devem ser incluídos no grupo da falência dos biológicos.
Optimização da terapêutica com anti-TNFs
Recomendação D1
Optimização da terapêutica
1) infliximab
1.1) redução dos intervalos (de 8/8 semanas para 6/6 semanas) entre
administrações. [NE 2b, GR B]
1.2) aumento da dosagem (10 mg/kg) nas administrações. [NE 1b, GR A]
2) adalimumab
2.1) redução dos intervalos entre administrações (semanal) [NE 1b, GR A]
2.2) estratégia de re-indução [NE 4, GR C]
Para evitar limitações em futuras opções terapêuticas, perante uma falência é
essencial assegurar que o tratamento com o primeiro fármaco utilizado foi
optimizado antes de optar por alternativas. No caso do IFX, está demonstrado
que quer a redução do intervalo das administrações para 6/6 semanas, ou até um
mínimo de 4/4 semanas [NE 5, GR D], quer o aumento da dose (para 10 mg/kg)
permitem recuperar a resposta na larga maioria dos doentes54,89. Em relação ao
adalimumab, a opção de passar a terapêutica para semanal recupera a resposta em
cerca de 75% dos doentes90. Recentemente, foi também proposta, para a falência
ao adalimumab, uma estratégia de re-indução tal como para o certolizumab
pegol91.
Permuta de fármaco biológico anti-TNF
Recomendação D2
Permuta de biológico anti‑TNF
Doentes com falência a um biológico poderão responder a:
1) um segundo biológico anti‑TNF [NE 1b, GR A]
1.1) infliximab [NE 2b, GR B]
1.2) adalimumab [NE 1b, GR A]
1.3) certolizumab pegol [NE 2b, GR B]
2) um terceiro agente anti-TNF (certolizumab pegol) [NE 1b, GR A]
Se a maximização da terapêutica com o primeiro fármaco anti-TNF não permitir
obter resposta, tal como nos casos de intolerância à terapêutica, está indicada
a substituição por outro anti-TNF. Sabe-se, no entanto, que a probabilidade de
resposta é menor quando comparada com a dos doentes nunca submetidos a
terapêutica biológica58. Embora a maioria dos dados disponíveis digam respeito
à mudança de infliximab para adalimumab [NE 1b, GR A], não há nenhuma evidência
de que a ordem com que os diferentes anti-TNFs são utilizados tenha
relevância92 [NE 2b, GR B]. Em países onde está disponível outro anti-TNF, o
certolizumab pegol, foi demonstrado que uma percentagem de doentes responde a
um terceiro anti-TNF depois da falência dos outros dois93. Recentemente, um
estudo da clínica Mayo94 veio confirmar a utilidade clínica da determinação das
concentrações séricas de IFX e de anticorpos humanos anti-quiméricos (HACAs)
para guiar as decisões perante uma falência deste fármaco94,95. A presença de
HACAs deve levar à mudança de anti-TNF, enquanto a presença de concentrações
sub-terapeuticas de IFX sugere a necessidade de optimizar esta terapêutica94.
Perante concentrações terapêuticas é essencial confirmar a atividade da doença
através de exames complementares. Se se verificar atividade, deverá ser
considerada uma terapêutica com um mecanismo de acção distinto do efeito anti-
TNF. No que diz respeito ao adalimumab, a formação de anticorpos também está
descrita e afecta a concentração sérica do fármaco, mas os dados relativos à
relevância clínica destas determinações são menos robustos96.
Terapêuticas biológicas alternativas aos anti-TNF
Recomendação D3
Permuta para outro tipo de biológico:
1) fármacos anti alfa-4 integrina
1.1) natalizumab
1.1.a) eficácia na indução de remissão [NE 2b, GR B]
1.1.a) eficácia na manutenção [NE 2b, GR B]
2) outros
2.1) ustekinumab [NE 2b, GR B]
A única terapêutica biológica alternativa actualmente comercializada é o
natalizumab, um inibidor da alfa‑4 integrina, com eficácia demonstrada na
indução e manutenção de remissão na DC moderada a grave, mesmo após falência
primária ou secundária dos anti-TNF96. No entanto, foram descritos casos de
leucoencefalopatia multifocal progressiva associados ao uso deste fármaco, com
uma incidência estimada entre 1 em 5.000 e 1 em 10.000 doentes97. Assim, a FDA
permite a utilização do fármaco apenas nos doentes refractários ou intolerantes
à terapêutica convencional, incluindo, pelo menos, um anti-TNF e a EMEA não
autorizou a sua introdução no mercado. São várias as terapêuticas biológicas
actualmente em desenvolvimento e que incluem agentes anti-citocinas,
bloqueadores da migração leucocitária, anticorpos anti-activação de células T e
factores de crescimento, mas não há ainda dados suficientes para prever a sua
real utilidade clínica98. Destas, o ustekinumab (anticorpo monoclonal anti-
IL12 e IL23) está já disponível para utilização no contexto de ensaios
clínicos, um destes no contexto da falência a anti-TNFs.
Estratégia de utilização de imunossupressores
Uma recente metanálise99 mostrou alguma eficácia dos imunossupressores na
manutenção da remissão da DC, mas não na sua indução, e alguns trabalhos
mostram a persistência da remissão quando são mantidos após suspensão de
fármaco anti‑TNF alfa. Assim, teoricamente, nos doentes naive aos
imunossupressores, estes poderiam constituir alternativas perante a falência
dos biológicos. Contudo, os doentes que recebem terapêutica biológica são,
geralmente, refractários ou intolerantes à imunossupressão com azatioprina/6‑MP
e/ou metotrexato e não há estudos que sustentem a sua utilização, isolada, após
falência de biológicos. Verificou‑se eficácia num pequeno número de doentes com
redução de resposta anti‑TNF alfa e a quem foi associada terapêutica
imunossupressora (azatioprina). Dados com poucos doentes mostram uma potencial
eficácia da talidomida100 em doentes refractários a anti‑TNF, mas esta
terapêutica estará sempre, a longo prazo, limitada pela sua toxicidade.
Outras estratégias
Recomendação D4
Outras opções:
1) cirurgia (doença ileo-cecal ou limitada noutras localizações) [NE 5, GR D]
2) aferese de granulócitos-monócitos [NE 4, GR C]
3) transplantação autóloga de células estaminais hematopoiéticas [NE 4, GR C]
A cirurgia é uma alternativa a considerar nalgumas situações de DC ileo-cecal
ou doença limitada noutras localizações101. Outra forma de terapêutica a
considerar perante a falência dos biológicos na DC, é a aferese de
granulócitos-monócitos. Esta parece ser uma terapêutica segura e eficaz102, com
um estudo recente103 a mostrar uma taxa de resposta de 85% em doentes
refractários a terapêutica convencional, que incluíam um pequeno número de
doentes refractários a anti-TNF. Finalmente, dados limitados104 mostram que a
imunossupressão intensa seguida de transplante autólogo de células estaminais
hematopoiéticas pode ser uma potencial alternativa nos doentes refractários a
anti-TNF.
E. Na profilaxia da recorrência pós cirurgia quais são os doentes que devem ser
medicados com imunossupressores e/ou biológicos?
Recomendação E1
A todos os doentes submetidos a ressecção intestinal devem ser propostas
medidas de redução do risco de recorrência pós-cirurgia, especificamente:
interrupção de hábitos tabágicos [NE 1b, GR B] e terapêutica profiláctica [NE
1a, GR A].
O doente com DC submetido a cirurgia intestinal, mesmo que inaugural, tal como
o doente que necessitou do primeiro tratamento com corticosteroides, é um
doente que apresenta expressão fenotípica de pior prognóstico7,8,18. No 2º
consenso dedicado à DC, a European Crohn and Colitis Organization(ECCO) na
secção dedicada à recorrência pós-cirurgia (RPC) define claramente a
necessidade de todos os doentes abandonarem os seus hábitos tabágicos e
cumprirem terapêutica profiláctica, valorizando globalmente as tiopurinas,
particularmente em relação aos antibióticos e messalazina isolados,
reconhecendo a estes fármacos interesse na ressecção isolada do intestino
delgado e na cirurgia ileocólica.
Recomendação E2
A todos os doentes submetidos a ressecção intestinal deve ser proposta
avaliação por ileocolonoscopia 6 a 12 meses após a cirurgia, estratificando de
acordo com a escala endoscópica de Rutgeerts [NE 2a-2b, GR B].
Na abordagem da RPC tem-se assumido como essencial o papel da recidiva
endoscópica. Assim, tem sido opinião de especialista realizar a profilaxia
médica da RPC em função de uma estratificação de risco obtida em colonoscopia
índice realizada 6-12 meses após a cirurgia, usando uma escala endoscópica
(Rutgeerts). O score de recorrência endoscópica de Rutgeerts correlaciona-se
com o risco de progressão endoscópica da doença, recidiva clínica e necessidade
de nova cirurgia. Scoresde i0 ou i1 um ano após cirurgia correlacionam-se com
baixo risco de progressão endoscópica e de recidiva clínica aos 10 anos
inferior a 10%. O score i2 correlaciona-se com um risco de recidiva clínica de
20% aos 5 anos e scoresi3 ou i4 com riscos de 50-100% de recidiva clínica e de
elevado risco de nova cirurgia105. A identificação dos factores de risco é
crítica para identificar os doentes que mais beneficiarão da profilaxia pós-
operatória. São aceites como factores de risco elevado para recorrência pós
cirurgia: tabagismo é o factor de risco mais extensamente estudado e
consistentemente associado com recorrência endoscópica, clínica e cirúrgica de
DC106-108. Os fumadores têm um risco significativamente maior de virem a
necessitar de nova cirurgia quando comparados com os não fumadores (36% vs 20%
aos 5 anos e 70% vs 41% aos 10 anos)109,110, devendo por isso ser aconselhados
e orientados no sentido de suspenderem definitivamente os hábitos tabágicos, já
que é o único factor de risco modificável107,108,111. Doença penetrante uma
revisão recente confirmou resultados anteriores que mostram que o fenótipo
penetrante constitui um factor de risco para recorrência pós-operatória. Cerca
de 55% dos doentes com fenótipo B3 tiveram recorrência aos 3 anos, contra
apenas 8% dos doentes classificados como B2109,111,112. Duas ou mais cirurgias
prévias o número de cirurgias prévias é referido por vários autores como
factor de risco elevado para recorrência106,107,113. Tempo de evolução da
doença um curto intervalo entre o diagnóstico e a primeira cirurgia (< 10
anos) é também considerado preditivo de maior probabilidade de
recorrência106,107. Outros factores como a idade na altura do diagnóstico, a
história familiar, a localização no cólon, a extensão da doença, o tipo de
anastomose cirúrgica, a presença de complicações peri- e pós-;operatórias, não
são unanimemente considerados como factores associados a maior risco de
recorrência.
Recomendação E3
Doentes com muito baixo risco de recorrência pós-cirurgia podem não justificar
terapêutica profiláctica com imunossupressores e/ou biológicos até à ocorrência
de recidiva endoscópica [NE 5, GR D].
Consideram-se como tendo baixo risco de recorrência pós cirurgia, doentes não
fumadores, com fenótipo não penetrante, com cirurgia efectuada à mais de 10
anos após o diagnóstico da doença e com estenose curta do intestino delgado (<
10 cm)109,112,114-117. Embora a messalazina seja mais eficaz que o placebo na
prevenção da recidiva clínica e da recorrência endoscópica grave, a avaliação
dos resultados globalmente publicados torna improvável que a messalazina tenha
um papel relevante na prevenção da recorrência pós-operatória. Uma meta-análise
publicada em 2009118 demonstrou que a messalazina diminui a probabilidade de
recidiva clínica mas não de recorrência endoscópica e é inferior à azatioprina
para todos os outcomes. Uma revisão sistemática recente da Cochrane119
demonstrou que é necessário tratar com messalazina 12 doentes para prevenir uma
recidiva clínica e 8 doentes para prevenir uma recorrência endoscópica grave.
Um ensaio multicêntrico120, controlado, aleatorizado, duplamente cego, sobre a
eficácia e segurança da azatioprina vs messalazina na prevenção da recidiva
clínica em doentes com DC e recorrência endoscópica pós-operatória moderada a
grave, demonstrou não existirem diferenças nos outcomesclínicos e endoscópicos
após um ano.
A terapêutica a instituir posteriormente deverá ser reequacionada de acordo com
o scoreendoscópico de Rutgeerts. Com score de i0 ou i1, ou seja recorrência
endoscópica ligeira, propõe-se manter a estratégia inicial. Score de i2, ou
seja recorrência endoscópica moderada na ileocolonoscopia, teria indicação para
início de terapêutica imunossupressora com azatioprina ou 6-
mercaptopurina109,114,117. Recorrência endoscópica grave (score i3-i4) tem
indicação para início de terapêutica com anticorpos anti-TNF, concretamente o
infliximab106,109,114,117.
Recomendação E4
Doentes com baixo/ intermédio risco de recorrência pós-cirurgia deverão
efectuar terapêutica profiláctica com imunossupressores. [NE 2c, GR B]
Consideram-se como de risco intermédio doentes com menos de 10 anos de
diagnóstico de DC, estenoses longas (> 10 cm) do intestino delgado ou fenótipo
inflamatório109,112,114-117. O metronidazole (20 mg/kg/d) administrado durante
3 meses após a cirurgia reduziu significativamente a incidência de recorrência
endoscópica grave ao ano de follow-upmas o efeito não se verificou para além
dos 12 meses. A recidiva clínica também foi significativamente menor após 1 ano
mas não foi menor que no grupo placebo na avaliação aos 2 e 3 anos121.Uma
revisão sistemática119,121demonstrou que a azatioprina foi mais eficaz que a
messalazina ou placebo na prevenção da recorrência endoscópica, clínica e da
recorrência endoscópica grave. Uma meta-análise85,109,121dos 4 ensaios
controlados com azatioprina/6-mercaptopurina, com 433 doentes, demonstrou que a
AZA/6-MP foi mais eficaz que os grupos de controlo na prevenção da recidiva
clínica ao ano (NNT = 13) e aos 2 anos (NNT = 8). Ao ano a azatioprina foi mais
eficaz que o controlo na prevenção da recorrência endoscópica grave (i2-i4) mas
não na prevenção da recorrência endoscópica muito grave (i3, i4). Infelizmente
a taxa de efeitos adversos foi significativamente mais elevada no grupo da
azatioprina. Um ensaio multicêntrico, controlado, aleatorizado, duplamente
cego, sobre a eficácia e a segurança da azatioprina (2-2,5 mg/kg/d) vs
messalazina (4 gr/d) na prevenção da recidiva clínica em doentes com DC e
recorrência endoscópica pós-operatória moderada a grave, demonstrou não
existirem diferenças quanto á taxa de falência terapêutica em ambos os
grupos120 mas a recidiva clínica e a proporção de doentes com diminuição igual
ou superior a 1 ponto no scorede Rutgeerts aos 12 meses foram
significativamente inferiores no grupo da azatioprina. Num ensaio aleatorizado
e controlado122, a terapêutica combinada com azatioprina durante 1 ano e
metronidazole durante 3 meses foi significativamente superior ao metronidazole
em monoterapia, na prevenção da recorrência endoscópica aos 12 meses (55% vs
78%, p = 0,035).
Recomendação E5
Doentes com elevado risco de recorrência pós-cirurgia deverão efectuar
terapêutica profiláctica com biológicos: infliximab [NE 2c, GR B], adalimumab
[NE 4, GR C].
Consideram-se como de elevado risco, doentes fumadores, com fenótipo de doença
penetrante, com história de duas ou mais resseções cirúrgicas, com necessidade
de cirurgia menos de 10 anos após o diagnóstico, com estenoses longas do
intestino delgado (superiores a 10 cm), com ocorrência de complicações pós-
operatórias ou que tiveram necessidade de cirurgia apesar de estarem sob
medicação imunossupressora109,112,114-117. Doentes fumadores devem ser
aconselhados e orientados no sentido da cessação tabágica definitiva e
permanente uma vez que este é o único factor de risco susceptível de
modificação109,112,114-117,121. Na apreciação global dos vários ensaios
clínicos, as taxas de recorrência clínica variaram entre 34‑50% para a AZA/6-MP
e 0% para o IFX e a recorrência endoscópica variou entre 42‑44% para a AZA/6-MP
e 9% para o IFX109. A evidência de cicatrização completa da mucosa com
azatioprina foi apenas de 13% comparativamente a 38% dos doentes tratados com
IFX e 0% dos doentes tratados com messalazina116.
Recomendação E6
Doentes submetidos a terapêutica profiláctica com AZA/6-MP com evidência de
recorrência endoscópica pós-cirurgia (scorede Rutgeerts >=i2) devem ser
submetidos a terapêutica com infliximab [NE 4, GR C].
Recomendação E7
Em doentes com ressecção ileal isolada com muito baixo risco de recidiva, ou
com contra-indicação para os imunossupressores e/ou biológicos, a messalazina
em dose elevada poderá ser usada [NE 1b, GR B].
Num ensaio aleatorizado e controlado106 a terapêutica biológica com IFX,
iniciada cerca de 4 semanas após a cirurgia, demonstrou-se significativamente
superior ao placebo na prevenção da recorrência endoscópica e histológica,
mesmo quando foi autorizada a medicação concomitante com imunossupressores e/ou
messalazina em doses estáveis em ambos os braços do estudo: recorrência
endoscópica aos 12 meses 9,1% vs 84,6%. A elevada eficácia do IFX foi obtida
apesar de no seu braço terapêutico se ter verificado uma percentagem
significativamente superior de doentes fumadores e uma tendência para um menor
número dos doentes medicados com imunossupressores. Não se verificou um número
significativamente superior de reacções adversas face ao placebo. Nos 12
doentes com follow-upsuperior a 1 ano, aqueles que foram medicados com IFX em
resposta a recorrência não obtiveram o mesmo benefício que os que receberam
terapêutica profilática117. No entanto, no estudo de Yamamoto et al116 apesar
de se er iniciado a medicação biológica apenas aos 6 meses após cirurgia, e
quando documentada recorrência endoscópica i3-i4, obtiveram-se os mesmos
resultados referenciados no ensaio aleatorizado e controlado conduzido por
Regueiro et al106, sugerindo que uma estratégia alternativa adequada poderia
ser a de iniciar tratamento biológico apenas após documentação de recorrência
endoscópica aos 6 meses pós cirurgia. Em relação a quanto tempo manter
biológico nestes casos, Sorrentino et al123 documentaram recidiva endoscópica
(scorede Rutgeerts i2 ou i3) 4 meses após paragem do IFX em 10 de 12 doentes
inicialmente tratados e em remissão clínica e endoscópica com IFX 5 mg/kg.
Estes doentes foram medicados novamente com IFX 3 mg/kg 8-8 semanas com nova
remissão.
No mesmo contexto clínico, a utilização do adalimumab é referida apenas num
estudo prospetivo124 não controlado de coorte envolvendo 20 doentes (12
fumadores, 7 com cirurgia prévia, 13 com fenótipo penetrante/fistulizante). Ao
ano, não se observou recorrência clínica em nenhum dos doentes; em 2 doentes
(10%) observou-se recorrência endoscópica. Como não existem estudos que abordem
especificamente a questão da terapêutica a usar em doentes com evidência de
recidiva endoscópica sob azatioprina, parece ser consensual entre especialistas
adoptar as mesmas estratégias de escalada terapêutica para biológicos utilizada
em doentes sob terapêutica imunossupressora com AZA/6-MP sem cicatrização da
mucosa. Num ensaio prospetivo não aleatorizado e não controlado incluindo 26
doentes, Yamamoto et al125 comparou o impacto da utilização de infliximab vs
azatioprina vs messalazina em doentes com recidiva endoscópica pós-operatória
>=i2 avaliada aos 6 meses (sem recidiva clínica) e medicados com messalazina.
Zero porcento, 38% e 70% dos doentes nos grupos infliximab, azatioprina e
messalazina respectivamente, desenvolveram recidiva clínica aos 6 meses (p =
0,01); aos 6 meses a atividade endoscópica melhorou em 75%, 38% e 0% dos grupos
infliximab, azatioprina e messalazina respectivamente (p = 0,006). Embora este
estudo não incida especificamente sobre doentes com progressão de lesões
endoscópicas sob azatioprina, reflecte a eficácia superior do IFX na recidiva
endoscópica já estabelecida. De igual modo, em doentes com evidência de
recidiva endoscópica sob terapêutica com IFX, impõe-se discutir estratégias de
ajuste terapêutico ou de recurso à cirurgia, cuja possibilidade deve ser sempre
encarada.
Os únicos ensaios clínicos que abordam a perda de eficácia da terapêutica
biológica apenas incluem como população doentes com DC, os doentes com doença
clinicamente activa, sem recurso a cirurgia. Parece ser consensual entre
especialistas adoptar as mesmas estratégias de optimização de terapêutica anti-
TNF face a uma resposta diminuída ou sub-óptima no grupo específico da
recorrência pós-operatória. O aumento da dose de IFX para 10 mg/kg [NE 1b, GR
A] ou diminuição do intervalo de administração [NE 2b, GR B] recuperam resposta
em mais de 80% destes casos54,89, desconhecendo-se a sua eficácia em situações
de recidiva pós-cirurgia [NE 5, GR D].
Conclusão
Foi possível efectuar conclusões alicerçadas na evidência para as questões
colocadas, recomendando-se: 1) são factores preditivos de mau prognóstico o
aparecimento da doença de Crohn antes dos 40 anos, doença estenosante e doença
anal; 2) poder-se-á ponderar suspender os biológicos em doentes com remissão
endoscópica e com biomarcadores normais; 3) os doentes com marcadores
bioquímicos de atividade (nomeadamente a PCR e a calprotectina) têm maior
probabilidade de recidiva; 4) perante uma falência aos biológicos é essencial
assegurar que o tratamento com o primeiro fármaco foi optimizado. No caso do
infliximab, está demonstrado que quer a redução do intervalo das administrações
ou o aumento da dose permitem recuperar a resposta na larga maioria dos
doentes. Em relação ao adalimumab, os doentes deverão passar de terapêutica
quinzenal para semanal 5) em situação de doença de Crohn com cirurgia
intestinal, o recurso a terapêutica de redução da recorrência pós-cirurgia,
particularmente imunossupressores e biológicos está indicado.
Para o futuro, os autores comprometem-se a manter-se atentos aos temas
abordados tanto nas 5 questões em análise como nas 15 questões consideradas
como desafios clínicos da actualidade que não foram abordadas. Caso se
justifique, estes temas serão revistos.