Causa rara de proctite
Causa rara de proctite
Rare cause of proctitis
Joana Saiotea,∗ e Joana Roxob
a Serviço de Gastrenterologia, Hospital de Santo António dos Capuchos, Centro
Hospitalar Lisboa Central, EPE, Lisboa, Portugal
b Serviço de Medicina, Hospital de Santo António dos Capuchos, Centro
Hospitalar Lisboa Central, EPE, Lisboa, Portugal
*Autor para correspondência
Doente do sexo masculino, 37 anos, eurocaucasiano, homossexual. Infeção VIH 1
diagnosticada em 2004, mantendo-se sem indicação para terapêutica
antirretrovírica.
Recorreu à consulta por quadro com 4 semanas de evolução de tenesmo, falsas
vontades, diarreia, retorragias, proctalgia e proctorreia.
Realizara em ambulatório fibrosigmoidoscopia com biopsias, sendo diagnosticada
proctite ulcerosa. Iniciara 5-ASA tópico, sem melhoria sintomática. Ao exame
objetivo apresentava adenopatias inguinais indolores, com cerca de 2 cm. O
toque retal era doloroso, apresentando dedo de luva com sangue.
Repetiu a fibrosigmoidoscopia, que mostrou anite e mucosa do reto distal
edemaciada, com grande friabilidade e numerosas formações nodulares, ulceradas
(figs. 1 e 2).
Figura 1Transição anorrectal: mucosa edemaciada, erosionada com hemorragia
espontânea ao toque.
Figura 2Reto distal: mucosa com perda do padrão vascular, grande friabilidade e
numerosas formações nodulares, ulceradas.
As biopsias retais mostraram mucosa de intestino distal com erosões associadas
a exsudado fibrinogranulocitário suprajacente, marcado infiltrado inflamatório
misto do córion, ligeira atrofia e distorção glandular e depleção de células
caliciformes (fig. 3). A imunomarcação para citomegalovírus e a pesquisa de
parasitas foram negativas.
Figura 3Histologia de biopsia retal: (Hemalúmen-Eosina): mucosa de intestino
distal com erosões, marcado infiltrado inflamatório misto do córion, ligeira
atrofia e distorção glandular e depleção de células caliciformes.
Foi efetuada PCR para Chlamydia trachomatis (C. trachomatis)(CT) nas biopsias e
exsudado retal, que foi positiva.O exame cultural isolou serotipo L2.
Da avaliação analítica destaca-se IgG positiva para CT. Laboratorialmente, não
se verificaram outras alterações, apresentando serologias para vírus herpes
simplex (HSV), CMV e Treponema pallidumnegativas. A pesquisa de Neisseria
gonorrhoeae (N. gonorrhoeae)foi negativa.
Foi medicado com doxiciclina (100 mg po bid durante 3 semanas), com melhoria
sintomática ao fim da primeira semana.
O linfogranuloma venéreo (LGV) é uma causa rara mas reconhecida de proctite.
Consiste numa doença sexualmente transmissível (DST) causada pelos serotipos
L1, L2 ou L3 da bactéria intracelular C. trachomatis(CT)1. O serotipo L2 é o
mais frequentemente responsável por proctite.
É uma infeção rara em países industrializados. No entanto, a partir de 2004,
inicialmente na Holanda e progressivamente noutros países da Europa, tem sido
reportado um surto de casos em homossexuais masculinos, estando a maioria (>
70%) co-infetada pelo HIV2. Este surto é caracterizado pela preponderância da
proctite em vez do síndrome clássico de LGV, com adenopatia e ulcerac¸ão, mais
encontrado nas regiões tropicais, afetando predominantemente heterossexuais.
O diagnóstico diferencial inclui etiologias infecciosas e não-infecciosas. Em
indivíduos homossexuais, os patogéneos de transmissão sexual como o HSV, a N.
gonorrhoeae e o Treponema pallidumdeverão ser excluídos3.
Os sintomas e achados endoscópicos e histológicos são similares aos da doença
inflamatória intestinal (DII)4. Os achados que geralmente permitem a distinção
entre DII e etiologia infecciosa, particularmente na fase aguda, consistem na
ausência de distorção da arquitetura das criptas e no aumento de celularidade
da lâmina própria na primeira. No entanto, estas alterações são também
identificadas no LGV, que pode, em alguns casos, desenvolver granulomas. Na
doença avançada pode haver inflamação transmural, assemelhando-se à doença de
Crohn5.
O tratamento de escolha é a doxiciclina, podendo a eritromicina ou a
azitromicina ser alternativas, embora não esteja confirmada a eficácia do
último fármaco em doentes VIH positivos.
Deverá ainda ser efetuada a pesquisa da infeção nos parceiros sexuais dos 30
dias antecedentes ao aparecimento dos primeiros sintomas, e administrada
terapêutica profilática.
Esta hipótese diagnóstica deverá ser investigada nos pacientes que pratiquem
sexo anal, na presença de úlceras na região anorrectal e quadros de proctite.