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EuPTCVHe0872-81782013000200004

EuPTCVHe0872-81782013000200004

National varietyEu
Country of publicationPT
SchoolLife Sciences
Great areaHealth Sciences
ISSN0872-8178
Year2013
Issue0002
Article number00004

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Migração de prótese esofágica para a região ileocecal

Introdução As próteses esofágicas autoexpansíveis vieram revolucionar o tratamento paliativo das neoplasias esofágicas. A sua fácil aplicação e segurança aumentaram de forma significativa a sua utilização e têm permitido uma melhoria significativa na qualidade de vida daqueles pacientes1 (Bay J 2010). Todavia, a migração das próteses esofágicas continua a ser uma das suas complicações mais comuns1,2. A migração ocorre em cerca de 7 a 25% dos pacientes, podendo chegar até 42,7%3,4. Pode ser transparietal e resultar em lesões de órgãos vizinhos do esófago como são a traqueia, os brônquios ou os grandes vasos do tórax5,6, ou distal para outras porções do tubo digestivo7,8, podendo naquelas causar obstrução ou perfuração1,2ou ser simplesmente eliminado por via rectoanal9. A migração de próteses para a região íleocecal e para o cólon tem sido descrita10.

Apresenta-se um caso de migração de prótese esofágica para a região íleocecal num paciente com tumor do esófago.

Caso clínico Paciente de 66 anos de idade que foi enviado pelo médico de família ao hospital por apresentar quadro de disfagia moderada-severa (Disfagia Severity Rating Scale), com algumas semanas de evolução. Apresentava-se muito magro e desidratado, com marcada astenia. Tinha, cerca de 18 meses, o diagnóstico de neoplasia (adenocarcinoma) do esófago distal em estádio inoperável, em estádio iii, por extensão das lesões para os gânglios hilares pulmonares e perigástricos observados por TAC torácica e abdominal. Tinha antecedentes de ablação tumoral esofágica com árgon plasma. As análises revelaram anemia ligeira de 10,4 g/dl normocrómica normocítica, com provas hepáticas e função renal normais. Foi decidida a colocação de uma prótese esofágica metálica autoexpansível coberta Ultraflex, da Boston Scientific, com 120mm de comprimento e 18 x 23mm de diâmetro, com libertação distal (fig._1). Após a colocação da prótese, que decorreu sem complicações imediatas, o paciente começou a deglutir normalmente a dieta passada. Volvidos 6 meses, o paciente começou a ter novamente disfagia, recorreu ao hospital onde foi feita radiografia do tórax com o objetivo de verificar a presença da prótese no esófago. Não se visualizaram sinais da presença da prótese no esófago. Foi, de seguida, feita uma radiografia abdominal simples de que evidenciou a presença da prótese na fossa ilíaca direita (fig._2). O paciente negava dor abdominal ou obstipação e a palpação abdominal era indolor. Decidiu-se pela colocação de uma nova prótese esofágica semelhante à primeira, não retirar a prótese que migrara, por não ter sinais aparentes de complicação local (fig._3) e fazer um acompanhamento clínico mais frequente com, pelo menos, uma consulta mensal pelo médico de família. Seis meses depois de colocada a segunda prótese, o paciente continuava sem disfagia e a defecar sem dificuldades e sem dor abdominal.

Discussão Com efeito, a elevada frequência de até 20% ou mais de migração das próteses esofágicas colocadas na transição esófago-gástrica, justifica e deve merecer a atenção de todos os clínicos que lidam com o processo da sua colocação e acompanhamento dos pacientes. O principal sinal de alarme, que pode indiciar uma eventual migração da prótese esofágica, é o reaparecimento da disfagia, surgida precoce ou tardiamente. O paciente deve ser instruído a recorrer de imediato ao seu médico ante o surgimento de tal sintoma, não apenas pela disfagia em si, mas também pelas complicações, às vezes catastróficas, que podem resultar da própria migração da prótese ao nível do tubo digestivo. No caso particular da migração da prótese esofágica para a região íleocecal, a obstrução intestinal e a perfuração são 2 complicações graves descritas1,2,10.

A migração do tubo digestivo para aquela região sem complicações locais aparentes não é descrita como sendo comum, razão pela qual consideramos este caso interessante. De qualquer forma, casos semelhantes devem merecer um rigoroso seguimento perante o risco de surgirem complicações tardias.

Em caso de migração para a região íleocecal, a remoção endoscópica, mais utilizada na migração para o estômago, pode ser um recurso eficaz11, mas pode condicionar uma remoção cirúrgica4. De qualquer forma, a decisão de remover uma prótese que migrou distalmente e o método de o fazer devem merecer uma avaliação criteriosa, caso a caso, pelos riscos que podem acarretar12.

Considera-se que a escolha da prótese adequada, particularizando aspetos como as suas dimensões e estrutura (helicoidal, coberta, Niti-S stent), pode contribuir para a diminuição do risco de migração13. Todavia, mesmos acautelando estes aspetos, o risco de migração das próteses esofágicas, particularmente do esófago distal, é muito elevado. Tal migração resulta principalmente da dinâmica motora esofágica e gastrointestinal, podendo ser esta a única razão para a sua migração no caso descrito. O recurso à fixação mecânica com endoclips da prótese na mucosa esofágica tem sido utilizado e discutido14,15, mas os resultados não são consensuais. Assim, o seguimento clínico, radiológico e endoscópico parece ainda ser o método mais eficaz para monitorizar ou resolver eventuais complicações.

Em conclusão, tratou-se de um caso de migração de prótese esofágica autoexpansível coberta para a região ileocecal sem complicações locais, num paciente com neoplasia inoperável do terço distal do esófago.


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