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EuPTCVHe0872-81782013000500006

EuPTCVHe0872-81782013000500006

National varietyEu
Country of publicationPT
SchoolLife Sciences
Great areaHealth Sciences
ISSN0872-8178
Year2013
Issue0005
Article number00006

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Doença de Wilson numa criança obesa

Introdução A Doença de Wilson (DW) é um distúrbio hereditário do metabolismo do cobre caracterizado pela disfunção da proteína responsável pelo transporte deste metal para a bílis (WDP). A acumulação progressiva no organismo, particularmente no fígado e cérebro1, induz lesão tóxica inflamatória e mitocondrial com espetro clínico muito variável. O gene mutado, ATP7B (cromossoma 13), é responsável pela síntese da proteína transportadora de cobre. Atualmente conhecem-se mais de 300 mutações patogénicas2,3. A incidência esta doença, de acordo com a sintomatologianeurológica, está estimada em 1/ 5.000 e 1/30.0002,4, com o gene mutado detetado com uma frequência de 1/90 a1/ 150 na população geral5. Na base de dados do EuroWilson (http:// www.eurowilson.org/), com registos desde 2005, atribui-se a Portugal uma incidência média de 0,93/1.000.0006.

O diagnóstico de DW na população pediátrica reveste-se de alguma complexidade7.

Muitas vezes, o atraso no diagnóstico fica a dever-se à variabilidade da apresentação clínica. Contudo, nesta idade, o envolvimento hepático prevalece como a principal forma de apresentação, de tal modo que o diagnóstico de DW deve ser sistematicamente excluído na doença hepática da criança, aguda ou crónica6.

Descreve-se o caso de uma criança de 10 anos obesa com fígado gordo não alcoólico (FGNA) em que se realizou o diagnóstico de DW em fase pré- sintomática. A associação entre obesidade e DW é mal conhecida. Ambas partilham esteatose hepática ou esteatohepatite, o que numa fase inicial da doença pode dificultar o diagnóstico diferencial.

Caso clínico Criança de 10 anos, sexo feminino, primeira filha de pais não consanguíneos.

Crescimento adequado (percentil 50 para peso e estatura) até aos 15 meses; progressivamente, excesso de peso e, a partir dos 4 anos, obesidade (IMC > P95). A estatura aproximou-se do P95 aos 7 anos de idade, onde ainda se mantém.

Foram detetados vários erros alimentares, em quantidade e qualidade, e delineadas estratégias para perda de peso, sem sucesso. Dos antecedentes familiares, destaca-se história de várias gerações com excesso de peso e obesidade (tanto do lado materno como paterno) e doença do foro psiquiátrico, grave e mal controlada, numa tia materna.

No decurso do seu seguimento habitual, aos 10 anos de idade, foram detetados, na avaliação laboratorial valores elevados da aspartato aminotransferase (AST) e da alanina aminotransferase (ALT), 114 e 326 UI/L, respetivamente. A ecografia abdominal identificou «fígado globoso, de contornos regulares, com ecoestrutura homogénea mas acentuadamente hiperecogénica, com vesícula biliar normal, sem cálculos nem lama biliar e com vias biliares não ectasiadas». Não apresentava qualquer sintomatologia e não foram referidas alterações do comportamento da caligrafia e /ou rendimento escolar.

Foi então referenciada à consulta de hepatologia por obesidade, elevac¸ão das enzimas de citólise hepática e esteatose hepática em ecografia abdominal. O exame objetivo inicial, incluindo o exame neurológico sumário, era normal, excetuando-se a obesidade (peso -66 kg (> P 95), estatura - 154 cm (P 95) e Índice de Massa Corporal (IMC) - 28,6 kg/m2 (> P 95)).

Foi-lhe recomendado e ensinado um regime alimentar mais adequado e exercício físico. Reavaliada 2 meses depois, verificou-se perda ponderal de cerca de 1 kg acompanhada de uma descida de 60-70% no valor das aminotransferases. A investigação laboratorial para a esteatohepatite entretanto realizada revelou níveis plasmáticos de ceruloplasmina bastante baixos, de 0,023 g/L (N: 0,20 - 0,60 g/L), e cobre urinário basal de 48mg (N < 100mg/24 h). Não havia hemólise nem tubulopatia. Perante tais dados, efetuada prova com D-penicilamina, que foi positiva (464<< mg/24 h).

A hipótese de se tratar de uma DW foi posteriormente corroborada pela biopsia hepática, com valor de cobre de 606<< mg por grama de fígado seco (N < 50mg/g) e lesão do tipo hepatite crónica com esteatose e fibrose septal completa.

Observada pela oftalmologia, apresentava também esboço de anéis de Kayser- Fleischer bilateralmente. O exame neurológico detalhado em consulta de neuropediatria não revelou alterações.

A ressonância magnética nuclear cranioencefálica e a densitometria óssea realizadas foram normais (Z-score de −0,4).

A pesquisa de mutações em toda a região codificante do gene ATP7B por polimerase chain reaction (PCR) e por sequenciação direta (Genomed) identificou a mutação c.3402delC (p.Ala1135GInfsX13) em homozigotia no exão 15 e o polimorfismo c.2973G>A em homozigotia no mesmo gene.

Perante um score de Ferenci de 9 estabeleceu-se o diagnóstico de DW (http:// www.eurowilson.org/professional/diagnosis/index.phtml#Scoring-system).

Iniciou terapêutica com acetato de zinco (que suspendeu) e D-penicilamina (doses progressivas) e suplemento de piridoxina. Com um tempo de seguimento de 18 meses, mantém obesidade, cujo IMC é 25,8 kg/m2. Laboratorialmente, AST de 35 UI/L, ALT de 98 UI/L e cobre urinário de 42 ug/ 24 h. Mantém-se sem manifestações neurológicas da doença.

Discussão O FGNA é atualmente a principal causa de doença hepática nas crianças e adolescentes no mundo industrializado, com uma importância crescente em paralelo com a «epidemia» de obesidade8. À medida que a sua prevalência cresce na idade pediátrica, impõe-se a necessidade de estandardização na abordagem clínica8. Perante a evidência laboratorial e ecográfica de esteatohepatite no contexto de obesidade da criança descrita, este seria o primeiro diagnóstico a considerar. De facto, esta suspeita deve existir em qualquer criança com mais de 3 anos de idade e excesso de peso/obesidade em que se verifique aumento do perímetro abdominal, sobretudo se houver história familiar positiva. A suspeita aumenta acima dos 10 anos8. A afirmação deste diagnóstico implica a exclusão de outras causas de hepatopatia. Do ponto de vista histológico, a DW faz parte do diagnóstico diferencial de esteatose ou esteatohepatite não alcoólica, sobretudo acima dos 10 anos de idade.

A DW, distúrbio do metabolismo do cobre de transmissão autossómica recessiva, foi descrita um século por Kinnear Wilson9.

Segundo Harrison (1984), apesar de a DW se caracterizar por um largo espectro de apresentação clinica, o diagnóstico é acessível, desde que haja suspeita10.

As manifestações hepáticas e neuropsiquiátricas são as mais comuns. A hepatopatia é mais frequente em crianças e jovens do que em adultos. No entanto, a sintomatologia é frequentemente inespecífica em qualquer idade9,11.

O envolvimento hepático é variável, desde elevação assintomática das aminotransferases até apresentações com falência hepática aguda. O caso descrito enquadra-se no limite assintomático do espectro. O diagnóstico foi acidental e baseado em alterações laboratoriais na sequência de investigação de um quadro de obesidade. A elevação das aminotransferases e a esteatose hepática sugeriam um quadro de FGNA (ALT>AST). Um exame dirigido revelou anéis de Kayser-Fleischer.

Atualmente, o diagnóstico da DW faz-se com base na combinação de critérios clínicos, bioquímicos e genéticos12, segundo o sistema de pontuação proposto em 2001, na VIII Conferência Internacional de DW, o score de Ferenci. O doseamento de ceruloplasmina plasmática aceita-se como teste de rastreio na suspeita da doença11. No entanto, em idade pediátrica e/ou pacientes assintomáticos, 50% dos doentes com DW têm ceruloplasmina baixa3,13.

Apesar dos recentes avanços no diagnóstico molecular, a biopsia hepática com obtenção de valores de cobre por grama de peso seco do fígado superiores a 250mg continua a ser o método gold standard12. O diagnóstico diferencial a considerar nos casos de cobre hepático elevado em idade pediátrica é o de hepatite autoimune (HAI). Embora 20% dos doentes com DW apresente doseamento de anticorpos antinucleares (ANA) com valor positivo, a inflamação da HAI é, em regra, mais grave e associada a colestase histológica. Para além disso, a aplicação do score de HAI14 auxilia no diagnóstico diferencial. Doenças mais raras, associadas a retenção de cobre (copper related liver disorders), cursam com ceruloplasmina normal ou elevada15.

Nos doentes sintomáticos, a excreção urinária de cobre das 24 h é tipicamente superior a 100mg9. Nos assintomáticos, essa excreção é menor. Sugere-se atualmente que a excreção urinária de cobre superior a 40mg/24 h (ainda que inferior a 100mg/24 h) é sugestiva de DW em crianças assintomáticas. Nestas, a prova com D-penicilamina não parece revelar qualquer papel diagnóstico7, ao contrário do que acontece nas sintomáticas. Esta poderá ser a explicação para a resposta à D-penicilamina no caso reportado, que se trata de uma doente assintomática. Embora o cobre urinário tenha aumentado em 10 vezes após a prova, permaneceu inferior ao valor considerado diagnóstico. Histologicamente, as alterações são variadas e muitas vezes inespecíficas. As anomalias morfológicas mais precoces da DW são a presença de esteatose hepática micro e/ ou macrovesicular, núcleos glicogenados nos hepatócitos periportais e necrose hepatocelular focal (fig._1). Com a lesão e inflamação progressivas, instala-se fibrose e, progressivamente, cirrose (micronodular ou mista)5.

O valor diagnóstico dos anéis de Kayser Fleisher (KF) varia consoante a DW se manifesta com doença predominantemente hepática ou neurológica11,12. Num estudo efetuado por Steindl et al., apenas 50% dos doentes com hepatopatia tinham anéis de KF, contra 90% nos doentes com doença neurológica12. Na primeira década de vida raramente estão presentes. Os depósitos iniciais detetados na doente estão de acordo com a idade e evolução da doença.

Para além do diagnóstico, uma parte importante da DW é a monitorização da terapêutica (ceruloplasmina, cobre urinário das 24 h e cálculo do cobre livre no mínimo a cada 6 meses)9. O objetivo é, por um lado, avaliar a adesão ao tratamento e, por outro, evitar a depleção de cobre.

Numa criança com FGNA, se a perda de peso se acompanha de redução das enzimas é menos provável a DW. No caso descrito verificou-se redução de enzimas após perda ponderal, mas a deteção de ceruloplasmina baixa condicionou investigação adicional. A história familiar de doença psiquiátrica mal caracterizada foi também relevante para a investigação, embora se desconhecesse a etiologia (genética molecular para DW em curso).

Um estudo recente, tentando descrever a patogenia da FGNA, concluiu que o metabolismo do cobre não é relevante16. Portanto, se num doente obeso com FGNA se verificarem alterações do metabolismo do cobre, a hipótese de DW é a mais provável. Não se conhece uma relação preferencial entre obesidade, FGNA e DW.

Em 2009, um grupo austríaco analisou essa relação, encontrando 2 casos de DW em 291 crianças e adolescentes obesos incluídos no estudo, o que representa uma maior incidência da doença do que o previamente estimado17. Provavelmente, a incidência de DW no universo crescente dos obesos será sobreponível à da população geral na mesma área geográfica. Em Portugal, a incidência de DW permanece desconhecida, estando seguramente subestimada no registo Eurowilson.

O número de crianças e adolescentes obesos tem vindo a aumentar, pelo que é previsível que neste grupo de doentes se registe um número igualmente crescente de DW. Teremos de equacionar o custo-benefício do rastreio de DW nas crianças e adolescentes com FGNA e esteatohepatite.

Em conclusão, é importante sublinhar que, embora o FGNA seja a principal causa de hepatopatia em idade pediátrica e cada vez mais frequente, a afirmação do seu diagnóstico implica a exclusão de outras causas. Embora existam linhas de orientação diagnóstica no FGNA da criança, a abordagem deve ser faseada e orientada de acordo com a faixa etária e os elementos clínicos recolhidos na história8. O índice de suspeição para DW deve ser elevado sempre que se verifique hepatopatia e/ou um distúrbio do sistema nervoso central de etiologia desconhecida, num indivíduo entre os 10-40 anos6. De facto, deve ser sistematicamente excluída em doentes com alterações hepáticas não enquadráveis nos diagnósticos mais habituais3. Obesidade e DW partilham a mesma lesão histológica, pelo que o doseamento de cobre hepático é um elemento importante para distinguir as duas entidades, quando a biopsia for necessária na investigação de um doente obeso. A DW tem disponível tratamento eficaz11. O diagnóstico tardio acompanha-se de alterações que podem ser irreversíveis culminando em transplante hepático.


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