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EuPTCVHe0872-81782014000100005

EuPTCVHe0872-81782014000100005

National varietyEu
Country of publicationPT
SchoolLife Sciences
Great areaHealth Sciences
ISSN0872-8178
Year2014
Issue0001
Article number00005

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Uso inapropriado de inibidores da bomba de protões num serviço de medicina interna

Introdução Os inibidores da bomba de protões (IBP) são os medicamentos mais amplamente utilizados para suprimir a secreção ácida gástrica1. Esta classe de medicamentos está indicada no tratamento da doença ulcerosa péptica (DUP), na doença do refluxo gastroesofágico (DRGE), na esofagite erosiva, na síndrome de Zollinger-Ellison, no Esófago de Barrett e na hemorragia digestiva alta por úlcera2.

Os IBP são frequentemente prescritos por motivos inadequados e por um período de tempo que muitas vezes ultrapassa o recomendado3,4. O aumento dramático do seu uso ao longo dos últimos anos tem levantado preocupações relativas à sua prescrição desnecessária, ao custo associado e aos riscos potenciais, uma vez que uma taxa elevada de uso indevido desses medicamentos2,5de acordo com critérios estabelecidos pelas sociedades científicas. Os gastos elevados dos serviços de saúde têm justificado o desenvolvimento de inúmeros estudos e planos de ação destinados a fomentar o uso racional de medicamentos. Para além do impacto económico, uma crescente evidência sobre os efeitos colaterais e o perfil de segurança destes medicamentos.

Os estudos cujo objetivo é avaliar a prescrição médica são ferramentas úteis para o profissional de saúde e também para gestores interessados em melhorar a qualidade assistencial. Detetar padrões de prescrição fracamente justificados ou claramente incorretos permite concentrar esforços na orientação e implementação de medidas que visam melhorar a eficiência do plano de tratamento. Uma vez que na literatura poucos estudos disponíveis sobre o uso inapropriado dos IBP de forma profilática, conduzimos uma avaliação da sua utilização num hospital distrital para determinar a adequação do seu uso na profilaxia da doença ulcerosa péptica e na prevenção da úlcera de stress e o impacto financeiro associado.

Objetivos O estudo pretende avaliar a prescrição de IBP nos doentes internados na Enfermaria e nos Cuidados Intermédios do Serviço de Medicina Interna do Hospital de São Bernardo, determinar se o seu uso na profilaxia é apropriado e qual o impacto financeiro associado. Do mesmo modo, no caso de uso justificado, avaliar se a via de administração adotada (endovenosa vs oral) foi a adequada.

Elaborar e implementar uma norma de orientação clínica para a prescrição de IBP no hospital.

Métodos Foi realizado um estudo transversal, prospetivo e observacional, na Enfermaria e nos Cuidados Intermédios do Serviço de Medicina do Hospital de São Bernardo em Setúbal, nos meses de agosto e setembro de 2011. A obtenção de consentimento informado não foi necessária uma vez que o estudo se baseou apenas na observação do processo clínico e da terapêutica do doente. Neste período foram analisados todos os pacientes hospitalizados, com idade acima de 18 anos e que iniciaram IBP nas primeiras 72 horas de internamento.

Os registos de farmácia foram posteriormente consultados para determinar a formulação de IBP utilizada (oral vs venosa) e a respetiva duração.

Os dados demográficos, clínicos, analíticos assim como a lista de medicamentos utilizados em ambulatório e no hospital, além de informação sobre eventual prescrição de IBP no momento da alta foram coletados. O uso do medicamento foi considerado justificado se estivesse de acordo com guidelines internacionais do American College of Gastroenterology6 e do American Society of Health-System Pharmacy7. Foram previamente definidas indicações para o uso profilático desta classe de medicamentos, com base nas recomendações destas 2 sociedades científicas.

Assim, a profilaxia da doença ulcerosa péptica (DUP) estaria indicada nos doentes com risco elevado (múltiplos fatores de risco, história prévia de doença ulcerosa complicada) ou moderado (presença de um ou mais fatores de risco)6: Risco elevado • História prévia de doença ulcerosa complicada (principalmente se recente) • Presença de múltiplos (> 2) fatores de risco Risco moderado (1-2 fatores de risco) • Idade > 65 anos • Dose elevada de AINE • História prévia de doença ulcerosa não-complicada • Tratamento com aspirina, corticoide ou anticoagulante concomitante Por outro lado, as indicações consideradas aceitáveis para a prevenção da úlcera de stress foram as seguintes7: • Ventilação mecânica (> 48 horas) • Acidose respiratória grave • Coagulopatia • Insuficiência renal • Hipoperfusão (sépsis, choque, disfunção de órgão) • Uso de corticoides • Lesão cerebral/medula espinhal • Queimaduras graves (área superfície corporal > 35%) Foram selecionados para o estudo os doentes internados no referido serviço, no período em análise, que realizaram IBP profilaticamente. Os doentes que faziam uso de IBP por motivos terapêuticos e os que tinham história de DRGE foram excluídos.

Os doentes que receberam IBP para profilaxia e cujo uso foi considerado apropriado foram subclassificados como tendo (a) indicação para profilaxia de DUP e/ou (b) indicação para prevenção de úlcera de stress.

A análise do custo foi efetuada com base na duração do uso inapropriado (oral ou endovenoso) e na utilização de formulação venosa não justificada.

Aplicou-se simultaneamente o índice de co-morbilidades de Charlson, cuja função é predizer a mortalidade em 10 anos de acordo com as patologias associadas8.

Este índice foi aplicado nos 2 grupos, com o propósito de avaliar se o número de comorbilidades tinha alguma influência na decisão do uso de IBP.

Os dados foram analisados através do programa estatístico SPSS (versão 18.0).

Resultados Dos 343 doentes internados no serviço no período em análise, 186 realizaram IBP profilaticamente, sendo que em 74 (39,8%) o seu uso foi considerado inapropriado e dos restantes 112, 25 fizeram uso endovenoso injustificado.

Detalhes demográficos e clínicos estão apresentados na tabela_1. Na subpopulação emque a prescrição profilática foi considerada adequada, 57 (51%) doentes receberam IBP provavelmente para a profilaxia da úlcera de stress (tabela_2) enquanto 77 (68,7%) para a profilaxia da doença ulcerosa péptica.

Vinte e dois doentes apresentavam indicação tanto para a profilaxia da úlcera de stress como para a doença ulcerosa péptica.

Os diagnósticos mais comuns entre os doentes com uso inapropriado de esomeprazol foram pneumonia e infeção do trato urinário (tabela_3).

A maioria dos doentes em que foi prescrito IBP sem indicação tinha idade superior ou igual a 70 anos (p < 0,001) e a aplicação do índice de Charlson demonstrou que este grupo de doentes não apresentava um maior número de comorbilidades (índice médio = 1,68). A duração de utilização de IBP, a demora média e o uso de IBP em ambulatório não tiveram diferença significativa nos 2 grupos (tabela_4).

Relativamente ao uso prévio de medicação antissecretora em ambulatório, observou-se que aproximadamente 18% dos doentes que receberam profilaxia inapropriada faziam uso de IBP em ambulatório (fig._1) sem haver, contudo, qualquer informação no processo clínico que justificasse a manutenção do fármaco durante o internamento.

Dos doentes que receberam profilaxia com IBP de forma inapropriada durante o internamento, 18 (24,4%) tiveram alta com a recomendação de manter esta medicação ou iniciá-la (fig._2). Assumindo que haja adesão completa dos doentes à terapêutica prescrita, esta prática acarreta um aumento dos custos de saúde do Estado, uma vez que os IBP estão entre os medicamentos com comparticipação.

O custo da utilização inapropriada de IBP no serviço de medicina foi de 483,28 euros no período avaliado (tabela_5). Tendo em conta este valor, estima-se que no ano de 2011 foram gastos inapropriadamente cerca de 3.000 euros, que correspondem a aproximadamente 9% do custo total de IBP em todo o hospital (à exceção do serviço de urgência).

Discussão Vários estudos publicados anteriormente demonstraram que sobreutilização de medicamentos para supressão ácida em doentes hospitalizados9-11.

No nosso estudo, quase metade (45,7%) dos doentes admitidos na enfermaria e nos cuidados intermédios de medicina receberam esomeprazol de forma profilática. Em grande parte destes doentes (39,8%), a profilaxia com IBP foi desnecessária. De salientar que, em 25 doentes (13,4%) cuja profilaxia estava indicada, foi utilizada a formulação endovenosa, sem haver contudo qualquer contraindicação para o seu uso oral. Esta prática resultou numa elevação substancial dos custos, que pode ser evitada com a implementação de normas de orientação clínica.

Não existem estudos sobre a prevalência de úlcera de stress em doentes não- críticos. O que hipoteticamente acontece na prática clínica é que estes doentes muitas vezes apresentam ou apresentaram em determinada altura do internamento, algumas das indicações para a profilaxia dessa entidade. Enquanto as diretrizes para profilaxia de úlcera de stress em doentes críticos estão bem definidas na literatura médica, o mesmo não ocorre para doentes não-críticos.

Na realidade, o uso de IBP não está restrito a doentes internados em unidades de cuidados intensivos, provocando um consumo excessivo desses medicamentos e aumento inerente dos custos. que referir que as «guidelines» da American Society of Health-System Pharmacy não incluem recomendações sobre o uso desta classe de fármacos na profilaxia da úlcera de stress, no entanto, é provável que sejam os medicamentos mais frequentemente utilizados para este fim. Essas «guidelines» preconizam que a escolha entre os agentes antissecretores seja fundamentada nas orientações específicas de cada instituição, uma vez que escassez de estudos controlados e randomizados que justifiquem o uso dos IBP como primeira linha na profilaxia da úlcera de stress tanto em ambiente de cuidados intensivos como em enfermaria. Heidelbaugh e Inadomi12 realizaram uma análise retrospetiva de processos clínicos num serviço de medicina. Dos 1.769 doentes avaliados, 391 (22,1%) receberam terapêutica de supressão ácida para a profilaxia da úlcera de stress sem indicação, sendo que destes, 54% tiveram alta com prescrição de medicação antissecretora. Uma análise económica destes dados estimou que o custo associado com a profilaxia inapropriada foi de mais de 11 mil dólares durante um período de 4 meses. Assumindo uma adesão total à prescrição para ambulatório, o custo estimado num ano foi superior a 67 mil dólares12.

Entre os doentes que receberam corretamente IBP para a profilaxia da doença ulcerosa péptica, a maioria (33%) tinha mais que 70 anos e estava sob terapêutica com AAS. Muitos doentes no subgrupo do uso inapropriado, apesar de receberem terapêutica com algum tipo de AINE (incluindo o AAS), não preenchiam todos os critérios (idade, uso associado de corticoides, anticoagulação oral) para a prescrição ser considerada adequada.

O nosso estudo realça a prática comum da sobreutilização dos IBP num serviço de medicina e talvez represente uma realidade, que não se limita a este serviço deste hospital em particular. Uma razão para a utilização generalizada dos IBP talvez seja a taxa reduzida de efeitos colaterais associados com estes medicamentos, principalmente quando administrados por um período menor que 2 semanas, o que corresponde à maioria dos casos neste estudo. No entanto, a frequência e a gravidade dos efeitos adversos podem ser maiores nos idosos, nos doentes desnutridos e principalmente naqueles com insuficiência renal. também cada vez mais evidência de que a redução da secreção ácida gástrica pode ter um efeito negativo na absorção mineral e no metabolismo13, incluindo a absorção do cálcio, que resulta num maior risco de fraturas ósseas14 e pode também estar associada a um maior risco de pneumonia adquirida na comunidade15,16e de infeção por Clostridium difficille17,18.

O uso de IBP de forma profilática esteve presente em mais da metade (54,2%) dos doentes internados no período avaliado, sendo que destes, 39,8% receberam esse medicamento de forma inapropriada. O custo total suportado pelo hospital (com exceção do serviço de urgência) com o esomeprazol durante o ano de 2011 foi de 33.073,97 euros, sendo provável que, à semelhança do serviço de medicina, muitos doentes não apresentassem indicação que justificasse a sua utilização nos outros serviços. Estudos como o nosso são necessários face à conjetura atual do país, uma vez que o documento de estratégia orçamental tem como meta uma redução dos custos operacionais dos hospitais, centros hospitalares e unidades locais de saúde integrados no sector empresarial do Estado de 11% em relação ao valor de 2011.

Este trabalho enfatiza a utilização excessiva e desnecessária de IBP em doentes não-críticos. Esta prática resulta num aumento dos custos de saúde para a instituição, para o doente e para todos os contribuintes de uma forma geral e adicionalmente poderá provocar um maior número de complicações e efeitos adversos. A prescrição desse tipo de medicamento foi bastante elevada no período em análise, sendo o seu uso profilático inapropriado em mais de 1/3 dos doentes internados. Além disso, 25,4% destes doentes tiveram alta com recomendação de manter IBP em ambulatório. Os resultados do presente estudo sugerem que provavelmente um número considerável de prescrições desnecessárias de medicamentos antissecretores na prática geral são iniciados no hospital. Com base nos resultados obtidos foi elaborada, conjuntamente pelo serviço de medicina interna e serviço de gastrenterologia, uma norma de orientação clinica (NOC) para todo o nosso centro hospitalar, implementada em novembro de 2011, estando previstas auditorias à sua prática. O desenvolvimento de diretrizes padronizadas com o objetivo de promover uma utilização mais racional e criteriosa dos medicamentos, não evitará despesas desnecessárias como certamente terá um resultado positivo na segurança dos doentes.


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