Hepatite alcoólica aguda: associação corticosteroides e N-acetilcisteína,
porque não?
CARTA AO EDITOR
Hepatite alcoólica aguda - associação corticosteroides e N-acetilcisteína,
porque não?
Acute alcoholic hepatitis - Steroids & N-acetylcysteine association, why
not?
Pedro Cardoso Figueiredo∗, Pedro Pinto-Marques e João Freitas
Serviço de Gastrenterologia, Hospital Garcia de Orta, Almada, Portugal
*Autor para correspondência
Caro Editor:
No artigo publicado recentemente por Matos et al. é feita uma revisão
abrangente do tema hepatite alcoólica aguda (HAA) e congratulamos desde já os
autores pelo trabalho1.
No que toca a alternativas terapêuticas para a HAA grave é proposta a
pentoxifilina nos casos de contraindicação ao corticosteroide ou de
insuficiência renal precoce. Esta proposta, concordante com recomendações
internacionais, deve-se ao benefício deste fármaco na diminuição da
mortalidade, assente sobretudo na diminuição da síndrome hepatorenal2. Contudo,
numa meta-análise de 2009 que analisou os estudos clínicos envolvendo a
pentoxifilina na terapêutica da HAA o benefício clínico foi considerado apenas
possível e a qualidade da evidência não permitiu inferir conclusões quanto a um
efeito positivo ou negativo3. De facto, sendo a pentoxifilina um antagonista do
fator de necrose tumoral alfa poderá resultar em efeitos deletérios,
nomeadamente pela inibição da regeneração hepática, tal como foi expresso pelos
autores1. Numa revisão sistemática mais recente e posterior à publicação das
recomendações, surgem mais indícios de um efeito positivo benéfico da
pentoxifilina, embora sem melhoria da sobrevida no 1.◦ mês4. No entanto, na
ausência de outras alternativas terapêuticas conhecidas e perante uma entidade
com sobrevida variando apenas entre 50-65% no 1.◦ mês2, compreende-se a opção
por recorrer à pentoxifilina na HAA grave.
Tal como os autores referem, a percentagem de doentes com HAA grave elegíveis
para terapêutica com corticosteroides que não respondem a esta poderá atingir
os 40%. Foi demonstrado o benefício da associação corticosteroides e N-
acetilcisteína na redução da mortalidade no 1.◦ mês5. Haverá lugar a propor
desde já esta associação terapêutica? Foi argumentada a escassez de estudos2,
mas perante um fármaco com perfil de segurança conhecido desde há muito e uma
patologia com tão elevada mortalidade, protelar a introdução da associação
poderá não ser a melhor estratégia atual. Tendo em conta o exposto face à
pentoxifilina, na nossa opinião, com os dados disponíveis esta associação tem
pelo menos a mesma base de evidência para ser utilizada. Sem prejuízo
obviamente de, tal como os autores apontam, haver necessidade de estudos
adicionais, até porque não foi ainda demonstrado benefício na diminuição da
mortalidade ao 6.◦ mês5.